quarta-feira, 30 de novembro de 2016

NA CALADA DA NOITE

Era mesmo de se esperar. Aproveitando-se da comoção nacional com a tragédia da Chapecoense, nossos queridos deputados vararam a madrugada desfigurando o pacote anticorrupção. Não voltaram a propor anistia ao caixa dois, mas aprovaram horrores como a intimidação a juízes e promotores que "abusarem" do poder, ou a descrimininalização do enriquecimento ilícito de funcionários públicos. Os únicos partidos unanimente contrários ao descalabro foram a Rede, o PSOL e - surpreendentemente - o Pros. PT, PMDB e PDT se jogaram com gosto no lamaçal; PCdoB votou unanimente A FAVOR. Agora só tem um jeito: temos que anotar o nome de cada um desses parlamentares e infernizar a vida dos que cagaram para a opinião pública. Também devemos pressionar o Senado a barrar essas medidas, mas Renan Canalheiros já está preparando algumas ainda piores. Resta uma esperança: mirar em Temer, o Velho, que dá sinais de finalmente ter percebido que está no século 21. Vetar essa barbaridade é a última chance da múmia paralítica ter algum apoio da população às medidas amargas que vai ter que tomar.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

AINDA O FIDEL

A maioria dos textos brasileiros que fala da Cuba pré-Fidel Castro descreve o país de então como um "bordel" ou um "cabaré". Isto é fanfic de esquerda, gentem. O ditador Fulgencio Batista não era flor que se cheirasse, e a influência americana sobre Cuba era de fato acachapante. Mas a ilha também já tinha as menores taxas de analfabetismo e mortalidade infantil da América Latina, muito antes do comunismo ter realizado seus supostos milagres nessas áreas, e também o maior número de televisores per capita de todo o continente (aí incluindo os Estados Unidos). O que Fidel conseguiu foi encarnar o ideal romântico dos jovens do mundo inteiro, num momento em que seu ideário já havia sido desmoralizado por Stálin. "El Comandante" deu uma face atraente a um regime asqueroso, e o resultado é que hoje falamos que ele foi "contraditório". Curioso, como percebeu o Reinaldo Azevedo (de quem eu não sou fã, veja bem), que ninguém diga que o Pinochet ou outros ditadores de direita tenham sido "contraditórios". E olha que a ditadura chilena matou menos gente que a cubana, além de ter dado um jeito na economia do país que dura até hoje. Minha conclusão? Não existe ditador "contraditório", gentem. São todos uns escrotos, e nenhum merece ser absolvido pela história.

AINDA O CALERO

Michel Temer, o Velho, disse ontem que "qualquer fatozinho abala as instituições brasileiras", que, segundo ele, seriam frágeis. Não, sua múmia paralítica: frágil é o caráter da quadrilha que você recolocou no Planalto. Quando até o Hélio Bicudo, que tem 94 anos, diz que Temer "trouxe o pessoal do passado para o presente", é porque o cheiro de podre não dá mais para disfarçar. O mais patético é que essa turma continua achando que o episódio que derrubou Geddel e abalou a república foi algo menor - sinal de que eles estão envolvidos em chicanas muito, mas muito maiores do que um reles apartamento de quatro milhões num prédio que fode com o entorno histórico. É por isto que eu acho que a denúncia de Marcelo Calero é o acontecimento político brasileiro mais importante deste ano conturbadíssimo. O ex-ministro da Cultura desnudou o atual governo como só alguém que fazia parte dele seria capaz de fazer. Mas Calero era mesmo um corpo estranho nessa confraria de bandidos idosos. Como bem disse o Matias Spektor num artigo na Folha de quinta passada, ele faz parte de uma nova geração de políticos que está emergindo na América Latina, de tendências diversas mas com algo em comum: o apreço à cidadania. É só questão de tempo (e biologia) que eles cheguem de vez ao poder e desalojem anciões como Aécio Neves ou Rodrigo Maia, que posam de moderninhos mas são arcaicos. Fora, cambada, vão pro asilo ou pro cemitério, porque o tempo de vocês se esgotou.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

INFELIZ REGINA


A vida de Elis Regina não descreve um arco dramático tradicional. Sua morte, aos 36 anos de idade, não foi a culminação de um processo autodestrutivo ou coisa que o valha. Foi um acidente, quase tão bobo quanto um escorregão no banheiro. Daí a dificuldade de transformar sua trajetória numa história coerente. O filme "Elis" quase consegue. O roteiro é enxuto, sem barrigas, e a reconstituição de época é primorosa. Mas o melhor de tudo são os atores, quase todos perfeitos. Julio Andrade, por exemplo, está surpreendente como o bailarino Lennie Dale, talvez o primeiro artista publicamente gay do Brasil. Mas ninguém está melhor do que Andréia Horta no papel-título. Eu, que sempre tive uma implicância gratuita com a moça, acabei me rendendo. Ela captura não só os maneirismos, o riso aberto, o gestual de palco, mas também os demônios internos que assolavam Elis Regina. De onde vinham esses demônios, ficamos não sabendo. O filme perde força no final, dando a entender que a cantora vivia uma baita crise existencial - isto, apesar de ter três filhos pequenos, estar de namorado novo e prestes a gravar um novo disco. Mas por quê, exatamente? Por que a maior cantora do Brasil era tão infeliz? Os últimos dias de Elis permanecem um mistério. Talvez devam continuar assim?

O MAU VENCEDOR

Cheguei a preparar um post celebrando a derrota de Trump ilustrado com a imagem aí ao lado, para publicar no dia 9 de novembro. Meu proverbial pé-frio confirmou sua fama, e o texto jamais saiu do rascunho. Mas há alguns sinais curiosos no ar de que a eleição americana ainda não acabou. Hillary  finalmente resolveu endossar o movimento que pede a recontagem dos votos de Michigan, Pennsylvannia e Wisconsin, três estados onde ela perdeu por pouco - e bastaria uma vitória em dois deles para inverter o placar do colégio eleitoral. A probabilidade disso acontecer é remota, porque uma eventual discrepância geraria uma batalha judicial e terminaria na Suprema Corte (o que pode ser bom, porque neste momento ela ainda pende para os democratas). Mas o mais curioso é que faz três dias que Trump só fala de fraude em sua conta no Twitter. Fraude contra ele, é claro. Parece que o nenê chorão finalmente se mordeu com o fato de ter recebido mais de dois milhões de votos A MENOS que Hillary, o que joga uma sombra eterna sobre a legitimidade de seu mandato. Agora ele deu para reclamar que milhões de pessoas "que não poderiam votar" o fizeram em estados onde perdeu, como Califórnia, Virginia e New Hampshire. Tudo isto sem a menor prova, é claro. Trump está mexendo num vespeiro daqueles, porque os Estados Unidos têm mesmo um histórico de barrar o voto a quem tem direito a ele. Cada estado tem sua própria legislação e, como não existe título eleitoral, são notórios os esforços dos republicanos para impedir que negros e outras minorias cheguem às urnas. Mas não existem casos de democratas fazendo o mesmo. Este pequeno detalhe, é claro, não importa para Trump e seus seguidores, que espalham mentiras sem o menor escrúpulo. É um pesadelo pensar que essa turma chegou ao poder na maior potência do planeta. Mas ainda resta uma esperança: tenho cá comigo que os negócios sombrios de Trump o arrastarão para tantos, mas tantos escândalos por causa de conflitos de interesses, que ele não chegará sequer à metade do mandato. Será impichado, ou renunciará. Torço por isto, pêro no mucho. Porque aí quem assume é o vice-presidente Mike Pence, um homofóbico filho da puta...

domingo, 27 de novembro de 2016

A VOZ DO POLVO


Fazia tempo que eu não gostava de um filme de ficção científica tanto quanto gostei de "A Chegada". A premissa básica não pode ser mais batida: extraterrestres chegam à Terra. Mas, ao invés das costumeiras batalhas pelo planeta, o que se segue é quase uma D. R. As naves ficam pairando, sem que ninguém saia delas. Quem tem que entrar são os cientistas, para engatar algum tipo de conversa com os alienígenas. E aqui "A Chegada" vai além de outros filmes-cabeça sobre E.T.s, que nunca mostram direito os dito cujos. É até compreensível, porque eles invariavelmente desapontam. Vamos achar que são parecidos demais conosco, ou então, diferentes demais. Aqui o diretor Denis Villeneuve vai pela segunda rota, já determinada pelo conto "A História da Sua Vida", de Ted Chiang, onde o roteiro foi baseado. Os visitantes são heptápodes (com sete pés), parecendo polvos empertigados. Falam em grunhidos e escrevem em círculos que lembram borrões de tinta. A personagem principal é uma linguista que tenta decifrar o que eles querem dizer. E mais não posso adiantar, porque há um twist inteligente e emocionante no final. Vá de olhos abertos, preste atenção e, se possível, leve alguém com quem discutir depois. Se sobrar alguma dúvida, recomendo a leitura do conto original, que pode ser baixado aqui, em inglês.

sábado, 26 de novembro de 2016

EL MUERTO CAMINANTE

Os professores de roteiro ensinam que os grandes personagens são os complexos: quanto mais contradições, melhor. Por esse critério, haveria personagem mais grandioso do que Fidel Castro? Para cada avanço na saúde e na educação, há um morto no paredón; para cada medalha olímpica, um sopapo em dissidentes como Yoani Sánchez. A única coisa não-controversa sobre o falecido ditador era seu carisma, que ele próprio se dispunha a por à prova em discursos quilométricos. Sua aura romântica permanece intacta para alguns, mas para mim ele já era um walking dead. Seu vigor físico se esgotou há cerca de 10 anos, e suas ideias, há mais tempo ainda. Mas sua morte não parece o fim iminente da monarquia comunista que ele instalou em Cuba. Só depois que seu igualmente caquético irmão Raúl bater as botas é que as rodas da história irão se mover. Como na extinta União Soviética, que precisou ver sua gerontocracia morrer no poder, um velhinho depois do outro, para que surgisse um Gorbachev. Com Fidel vai-se a última grande figura do século 20. Vai tarde, e vai num momento em que a direita xenófoba avança mundo afora. Mas o mais irônico mesmo é ele ter se ido em plena Black Friday.

MÚMIA PARALÍTICA

Os bem antigos como eu vão lembrar do Professor Arquelau, o melhor personagem de Agildo Ribeiro, que ensinava mitologia grega em diversos humorísticos da TV entre os anos 70 e 90. Inspirado pelo diretor de teatro Paschoal Carlos Magno, Arquelau falava embolado e invariavelmente caía no sono, tendo que ser acordado a toda hora pela campainha  de seu mordomo - a quem ele xingava de "múmia paralítica". Pois bem: me dei conta de que Michel Temer, o Velho, lembra muito o professor. Tanto no visual como na desconexão com a realidade. Só que, no caso do presidente, a múmia paralítica é ele mesmo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

OS BRUNOS SÃO DE MARS


O advento dos CDs fez com que os álbuns se tornassem longuíssimos. Os disquinhos prateados comportam 80 minutos de música e foram pensados para abrigar a maioria das peças clássicas, sem que o ouvinte precise se mexer. Mas, na música pop, o resultado foi que todo mundo começou a encher linguiça, com remixes, takes alternativos, material extra fraquíssimo e o pior de tudo - a faixa "escondida", que irrompe nas caixas de som depois de meia hora de silêncio. Então as plataformas de streaming derrubaram a supremacia do CD, e o ciclo se inverteu. Os álbuns atuais voltaram a ser curtos, ou pelo menos a ter um tamanho razoável. Já a qualidade aumentou: é o caso de "24K Magic", do Bruno Mars, que tem apenas nove faixas e dura parcos 33 minutos. Mas todas as nove são boas, com potencial de virar hits. Bruno Mars é excelente compositor, ótimo instrumentista e um performer aceitável. No ano passado, teve um sucesso intergalático com "Uptown Funk" (onde, na verdade, era o feat. do produtor Mark Ronson). Mas não é um puta inovador, como Stevie Wonder ou Prince. Suas músicas, por melhores que sejam, não trazem nada de realmente novo. "24K Magic" também tem letras-clichês sobre mulheres e champagne, típica de quem nasceu feio e pobre, e um certo de clima de cafajestagem. Mas isto não diminui (muito) o rápido prazer de ouvi-lo.

VIVA CALERO

Minha admiração por Marcelo Calero não para de crescer. É absolutamente sensacional que ele tenha gravado suas conversas com Temer, Geddel e Eliseu Padilha. E não, não é crime gravar uma conversa da qual você mesmo participa. Nem com o presidente da república. "Ãin, mas isso é antiético", choraminga o Aécio, esse poço de honradez. Não, tolinha: antiético é dispor do patrimônio histórico do Brasil como se fosse sua propriedade particular. Michel Temer, o Velho (que é como ele será chamado neste blog daqui em diante) agiu como o político das antigas que de fato é, beneficiando os amigos e cagando para a opinião pública. Foi atropelado por um rapaz de 34 anos que não fez e nunca fará parte de sua turma de idosos, brancos e corruptos. "Ãin, mas o Calero tem segundas intenções". Talvez tenha mesmo. Como fazer carreira política, por exemplo. O que não é incompatível com a honestidade, apesar das muitas evidências em contrário. Calero ainda estará bombando daqui a vinte, trinta anos, quando essa galera estiver sendo comida pelos vermes. Fora Geddel (que pelo menos já saiu do governo), fora Padilha, fora Aécio, fora Temer, o Velho. E viva Marcelo Calero.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

SOLTA OS BICHOS


Como se mantém uma franquia viva depois que a história acabou? Fácil: inventando-se prequels, spin-offs, fanfic. É nessa última categoria que parece se encaixar "Animais Fantásticos e Onde Habitam", apesar de ter sido escrito pela própria J. K. Rowling. O livrinho original era apenas um catálogo das criaturas do universo de Harry Potter, que Hollywood vai ter a manha de dividir em CINCO longas diferentes - tudo com as bênçãos da autora, que acha que ainda não está quaquilionária o suficiente. Dito isto, o filme é gostoso de se ver. Mais por causa dos monstros do que pela trama, que é confusa e esquecível. Também não curti muito o Eddie Redmayne: já deu esse número do homenzinho frágil que ele sempre faz, né? Agora é torcer para que a continuação explore o provável namorado do Dumbledore, um vilão que surge no final na pele de um ator-surpresa. Se é que o mundo já não sabe.

PENSANDO DENTRO DA CAIXINHA

É curioso - e divertidíssimo - perceber como a maioria dos políticos brasileiros ainda não vive nos tempos que correm. Suas Excelências permanecem, no máximo, no começo dos anos 1990, quando os canais pagos engatinhavam no país e a internet só existia nas universidades. O presidente Michel Temer é o exemplo mais acabado. Dá até pena ver como ele acha que pode manter o Geddel no governo, porque daqui a pouco o caso estará esquecido. Sua esposa Marcela,  uns 70 anos mais jovem, bem que poderia contar para ele que existe um troço chamado rede social. Mas não é só o Temer, claro. Boa parte dos nossos parlamentares se comporta como se Brasília permanecesse uma bolha, distante dos grandes centros e do interesse da população. Ontem, capitaneados por Bolinha França Rodrigo Maia, os nobres deputados combinaram de aprovar com louvor a anistia ao caixa dois no pacote de medidas anticorrupção que seria votado hoje. Mas essa votação acabou de ser cancelada: alguém se deu conta de que pegaria super mal com a opinião pública. Nessa toada, até o fim do ano que vem essa turma vai estar conversando pelo Messenger e criando grupo no Orkut.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

HOMOSAPIENSFOBIA

Demorei muito a decidir ler "Sapiens", que foi lançado no Brasil há quase um ano e meio. Quando finalmente me resolvi, procurei o livro nas boas casas do ramo feito um caçador-coletor em tempos de seca: custei muito para encontrá-lo. Mas agora que o capturei, não largo mais. A "breve história da humanidade" escrita pelo israelense Yuval Noah Harari é fascinante, e deveria ser obrigatória. Somos apenas uma das (pelo menos) seis espécies humanas que habitavam o planeta 100 mil anos atrás. Provavelmente cruzamos com alguns dos nossos primos, e matamos o resto. Também passamos no tacape boa parte das macrofaunas da Austrália e das Américas, que eram muito mais ricas do que são hoje. Sem falar nos mamutes, mastodontes, tigres-de-dente-de-sabre... O homo sapiens começou a provocar desastres ecológicos quando ainda dispunha apenas da tecnologia da Idade da Pedra (que, segundo Harari, deveria ser chamada "da madeira", material muito mais utilizado na época). Mas a tese mais famosa do livro é a que defende que chegamos onde chegamos porque somos os únicos animais capazes de acreditar em coisas que não existem na natureza, como deuses, dinheiro e nações. Ainda estou no começo, mas já não quero fazer outra coisa da vida. Quem me dera pegar uma gripe fortíssima, e assim ficar em casa lendo "Sapiens". É bom assim.

MASTIGANDO O CARPETE

Você é do tipo que fecha os olhinhos quando transa e pensa em outra pessoa? Bom, se você for mulher, seus sonhos se realizaram - ou, pelo menos, receberam uma ajudinha. "A Dream Come True" é uma série de quadros que a pintora russa radicada nos EUA Alexandra Rubinstein acaba de lançar. Em cada um deles, um cara famoso aparece fazendo (ou à beira de fazer) cunnilingus, do ponto de vista da felizarda que o está recebendo.

A lista de celebridades contempladas é grande: tem Ryan Gosling, Leonardo Di Caprio, o rapper Drake, David Beckham, James Franco, Justin Bieber e os dois que aparecem aqui. A coleção está sendo saudada como um avanço sobre um tema que ainda é tabu, e parece óbvio que essas telas irão vender fácil. Fica a dica para um pintor brasileiro. Quem seriam os nossos mastigadores? Cauã Reymond, Bruno Gagliasso, Neymar...

terça-feira, 22 de novembro de 2016

COMO PREVENIR E REVERTER A BURRICE

Irmãos, temos que redobrar a vigilância. Ainda mais nesses tempos em que os reaças estão se sentindo mais empoderados do que nunca. Hoje até que marcamos um gol: o anúncio aí ao lado gerou tanta revolta na internet que os responsáveis por este absurdo já mudaram de tom. Para começar, Isildinha Muradas não é psicopedagoga: é odonto-pediatra e, dããã, pastora. É perigosíssimo que esses charlatães se apresentem como pessoas da ciência. Isildinha já foi denunciada à seção mineira da ABPP (Associação Brasileira de Psicopedagogia). Provavelmente não irá acontecer nada com ela, pois o responsável pela Igreja Batista Getsêmani Portugal, de Belo Horizonte, diz que o erro foi dele. No novo anúncio da palestra - que sim, foi mantida para a mesma data, horário e local - as credenciais foram corrigidas, e também não há mais menção à prevenção e reversão do que quer que seja. Mas o assunto será o mesmo; por isto, recomendo aos militantes mineiros mais aguerridos que compareçam ao evento, e a questionem com educação e firmeza (mas nada de dar munição ao inimigo, hein?). Isildinha levou tanto chumbo no Facebook que deletou sua página. Melhor seria se deletasse também sua burrice crônica. Enquanto isto não acontece, só temos uma coisa a fazer: vigilância redobrada, irmãos.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

POUCO DE NOVO


Marisa Monte devia uma compilação à sua gravadora antes de encerrar o contrato. Ao invés de lançar uma seleção de seus maiores sucessos, a cantora preferiu reunir faixas avulsas, gravadas fora de seus álbuns de carreira, no disco "Coleção". Agora Silva, seu novo parceiro, se encarrega de seus "greatest hits". Há uma única faixa inédita em "Silva Canta Marisa": a linda "Noturna (Nada de Novo na Noite)", um dueto com a própria que é quase um solo dela. O resto são releituras do que há de mais manjado no repertório da moça, que pouco acrescentam aos originais. "Silva Canta Marisa" soa como um disco de fã, desses que postam suas versões caseiras no YouTube. Os arranjos etéreos e sofisticados que marcaram outros discos da maior revelação da MPB nos últimos anos deram lugar a uma bandinha óbvia, digna de um barzinho qualquer. Que "Noturna" seja apenas um aperitivo do que está por vir: Silva e Marisa Monte são capazes de nos encantar muito mais.

JUSTUS QUEM

Semana passada, escrevi uma coluna no F5 falando dos possíveis Trumps brasileiros: Silvio Santos, João Doria, José Luís Datena, Luciano Huck. Não incluí Roberto Justus na lista porque havia lido em algum lugar que ele negava qualquer pretensão política. Isto foi na semana passada. Hoje Justus declarou ao "Estadão" que não descarta se candidatar à presidência em 2018, e que não lhe faltam convites de diversos partidos. Qual é a surpresa? Nenhuma. A direita não-tucana carece de um nome competitivo, e o apresentador da maioria das temporadas brasileiras de "O Aprendiz" cabe direitinho no molde empresário / milionário / figura midiática, tão em voga atualmente. Além do mais, o ego de Justus é maior do que o sistema solar. Ele já achou que era cantor. Então porque não seria presidente, um cargo que requer ainda menos talento?

FORA, GEDDEL

Aos poucos, como quem não tem noçao do perigo, o governo Temer vai mostrando sua verdadeira índole. Não que fosse inesperado: aquele gabinete composto exclusivamente por homens brancos, de meia-idade para cima e manjadíssimo de outros carnavais, não permitia mesmo muitas esperanças. Talvez por isto mesmo, a surpresa veio daquele que não se encaixava nesse figurino mofado. Marcelo Calero não teve o menor prurido em sair atirando, ignorando a omertà vigente entre os cupinchas do presidente. Sacrificou o próprio cargo, mas pode ter salvo o patrimônio histórico da Ladeira da Barra, em Salvador. O Iphan já confirmou que é válido o parecer que vetou a construção do monstruoso arranha-céu La Vue, e o novo ministro da Cultura, Roberto Freire - branco, idoso, rodado, etc. - também disse que irá respeitar a decisão dos técnicos. Resta a batata quente no colo de Temer: Geddel Vieira Lima é considerado um hábil articulador político, e teria um papel fundamental na aprovação das muitas reformas que o governo precisa fazer. Mas mostrou, mais uma vez, que é corrupto (ele já esteve envolvido no escândalo dos "anões do orçamento", nos anos 90). Aliás, aqui vai uma sugestão de pauta: de onde vem o dinheiro com que Geddel compraria um apartamento num dos andares mais altos do espigão? O cara tem rabo preso com várias construtoras baianas. Não duvido nada que estaria ganhando um oxigênio, um acarajé, um pixuleco. Temer agora tem que decidir se governa para os amigos ou para os brasileiros em geral. Se for para nós, só lhe resta uma atitude: fora, Geddel.

domingo, 20 de novembro de 2016

EREÇÃO FEMININA


A sueca Tove Lo é um caso singular no pop atual. Musicalmente, está próxima de Britney Spears e outras divas dance. Ainda tem a desvantagem de sua voz ser quase genérica: acho que nem seus fãs mais ardentes a reconhecem de imediato. Mas suas letras que falam de drogas e solidão estão mais para cantoras indie, como Regina Spektor ou St. Vincent. Essa mistura deu certíssimo em seu single de estreia, "Habits (Stay High)", que virou um hit mundial dois anos atrás. Agora a srta. Lince (o significado de "lo" em sueco) reaparece com um segundo álbum, "Lady Wood". O título se refere à excitação sexual das mulheres, e o nome da artista na capa tem as letras "O" substituída por bucetinhas. A música, apesar dos BPM, não é exatamente para se jogar. E o mais interessante mesmo é o vídeo acima, de 31 minutos, que cobre a primeira parte do disco. O da segunda parte já está em produção, e no ano que vem sai um segundo volume do álbum com as partes três e quatro. Ou seja: Tove Lo chegou para ficar. 

sábado, 19 de novembro de 2016

TEM GRACE OU NÃO?

Ô se tem. E como tem. Aos 68 anos de idade, com um corpaço de 30, a voz intocada e de peitos de fora O TEMPO TODO, Grace Jones até que não atrasou tanto ontem em São Paulo. O show estava marcado para as 23 horas, mas todo mundo sabe que a diva jamaicana não é lá muito pontual. O Tom Brasil demorou para encher, mas estava abarrotado quando amazing Grace entrou no palco à 1:50. A apresentação durou pouco mais que uma hora e inclui apenas dez músicas (entre as omissões mais gritantes, "La Vie en Rose"). Mas ninguém saiu frustrado. Usando apenas um espartilho-calcinha e com o corpo todo pintado ao estilo de Keith Haring, Grace trocava de acessórios a cada  número: perucas, chapéus, adereços de babalorixá. Ela de fato é uma entidade. Uma mulher-pantera, para caírmos no clichê, que dança muito pouco mas canta para valer. E ainda roda um bambolê na cintura ao longo de quase toda "Slave to the Rhythm". Não houve bis, mas não fez falta. Eu já estava exausto, depois de mais de quatro horas em pé, e feliz de ter incluído no currículo uma das minhas cantoras favoritas de todos os tempos.

"AQUARIUS" DA VIDA REAL

Amigos em comum me falaram muito bem de Marcelo Calero. Ele era o "one bright spot" do caduco governo Temer: jovem, esclarecido, competente - e o único homossexual assumido no primeiro escalão desde sempre. Mesmo assim, a classe artística não deu trégua ao ministro da Cultura. Pegaram no pé dele todos os dias dos poucos meses que ele permaneceu na Esplanada. Mas não foi por causa disso que Calero saiu. Foi por decência mesmo. Por não ceder à pressão de Geddel Vieira Lima para permitir a construção de um espigão numa área de Salvador protegida pelo Iphan. E assim a vida imita a arte, com um toque de ironia. Tal como a protagonista de "Aquarius", o filme que causou polêmica durante sua passagem por Brasília, Calero luta para preservar o patrimônio e evitar a especulação imobiliária. Tomara que sua denúncia desse escândalo seja tão cancerígena para Geddel Vieira de Lima quanto o cupinzeiro que Clara depositou na incorporadora no fim do longa.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

LO TUYO ES PURO TEATRO

Não existe unanimidade, muito menos na internet. Tudo o que gera comoção também ganha seu backlash. Se muita gente adere ao "desafio do balde", logo surge alguém dizendo que aquilo é armação. Se o mundo está triste pela Hillary, não tarda quem diga que Trump é mó legal. Não imaginei que isto acontecesse com um estróina feito o Garotinho, mas aconteceu. No meio da tarde de hoje começou a circular no Facebook um texto dizendo que não podemos tirar sarro do ex-governador, que ele merece ser tratado com dignidade, que violaram seus direitos humanos... O que as pessoas que compartilham esse texto não percebem é que Garotinho e família estão fazendo TEATRO, e do ruim. É pura encenação para as câmeras, para tentar comover o que restou de sua base eleitoral. Quem tem problemas cardíacos de verdade não se debate do jeito que ele se debateu; quem tem um pingo de dignidade não faz ameaças como Clarissa Garotinho fez ao pessoal do hospital Souza Aguiar. Garotinho pode espernear à vontade, porque não vai adiantar: a cadeia o espera. E sim, nós podemos rir dele, kkkkkkk.
Igual que en un escenario
Finges tu dolor barato
Tu drama no es necesario
Ya conozco ese teatro

Fingiendo,
Que bien te queda el papel
Después de todo parece
Que es esa tu forma de ser
Yo confiaba ciegamente
En la fiebre de tus besos
Mentiste serenamente
Y el telón cayo por eso

Teatro,
Lo tuyo es puro teatro
Falsedad bien ensayada
Estudiado simulacro

Fue tu mejor actuación
Destrozar mi corazón
Y hoy que me lloras de veras
Recuerdo tu simulacro

Perdona que no te crea
Me parece que es teatro

SÉRGIO CANALHA

O dominó posto em marcha pelas manifestações de 2013 finalmente derrubou seu primeiro peixe grande. Era tentador gostar de Sérgio Cabral: combateu a corrupção no início da carreira, trouxe grandes eventos para o Rio, diminuiu a criminalidade com as UPPs. Mas era tudo pretexto para roubar para caralho. E essa roubalheira toda fica ainda mais acintosa quando se vê a penúria absoluta em que os governos do PMDB deixaram o estado. Não duvido nada que daqui a pouco o próprio Pezão, com câncer e tudo, também vá ver o sol nascer quadrado. Mas já é estarrecedor pensar que os três políticos fluminenses mais influentes da última década e meia - Cunha, Garotinho e o próprio Cabral - estejam todos em cana. Pena que as eleições deste ano já tenham passado.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

MUITO ORO

Brahma, Shiva e Vishnu são testemunhas da minha paixão por Bollywood. Mesmo assim, o que sobrou de catolicismo em mim fica enjoado ao ver esse clipe-convite para a festa de casamento mais cara de todos os tempos - e logo na Índia, um dos países mais desiguais do mundo. É ostentação demais, até mesmo para um cabeça-oca como eu. Mas há um lado divertido: dinheiro não compra bom gosto, graças aos deuses. As definições de cafonice foram atualizadas com sucesso.

FUGIDOS DO HOSPÍCIO

O que é que essa cambada de malucos que invadiu o plenário da Câmara pretendia? Tomar o poder à unha? O máximo que eles conseguiram foi pegar mal para o Sérgio Moro E as Forças Armadas. Fico pasmo de terem conseguido invadir o Congresso com tamanha facilidade; tinha até um sujeito armado entre eles. É antidemocrático sugerir que se ponha um detector de metais na entrada? Esse episódio bizarro é mais um sintoma nefasto da era da pós-verdade. Que a prisão desses descompensados não os transforme em mártires, é só o que eu desejo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A PÓS-VERDADE NÃO É MENTIRA

Se um em cada 100 eleitores de Trump tivesse mudado o voto para Hillary, ela também teria vencido no colégio eleitoral (no voto popular, a vantagem da democrata já supera um milhão de votos). É inevitável pensar que, desses 100 “deploráveis” que votaram em Trump, pelo menos um o fez embalado pelas notícias falsas propagadas pela internet. Agora que a merda já foi feita, começou uma enorme D.R. nas redes sociais. Sundar Pichai, o CEO do Google, disse que é mais do que provável que lorotas como “o papa apoia Trump” tenham influenciado a eleição americana. O Twitter está suspendendo várias contas ligadas à chamada “alt-right”, o nome transadinho adotado pelos racistas modernos. E, o mais importante de tudo: o Facebook está discutindo seriamente como limitar a enxurrada de mentiras que infestam suas timelines. É uma medida mais do que desejável, ainda mais para uma empresa que não tem o menor prurido em bloquear, por “indecência”, usuários que publicam cartuns que mostram Adão e Eva. Não tenho a menor dúvida que essa leniência com a falsidade foi um dos fatores que permitiram que um fanfarrão chegasse à Casa Branca. Não é por menos que a Oxford Dictionaries escolheu “post-truth” como a palavra do ano. A era da pós-verdade começou faz tempo, e agora estamos vendo o estrago que ela traz.

MENOR INFRATOR

Ô glória: a foto aí do lado não é montagem, não é charge, não é fake. É Anthony Garotinho finalmente sendo levado em cana.  Algum tempo atrás, isto não quereria dizer muita coisa: políticos até iam presos (Maluf chegou a ficar mais de um mês no xilindró), mas eram soltos logo, e meio que ficava por isto mesmo. Só que o país mudou. Eduardo Cunha está há quase um mês na PF de Curitiba, fazendo companhia a Antonio Palocci. As tentativas de melar a Lava Jato e diminuir o poder do Judiciário são cada vez mais ostensivas no Congresso, sinal de que os patranhas estão se borrando. Garotinho não foi pego por causa de desvios da Petrobras, mas por algo que sempre acompanhou sua carreira (e a de sua mulher Rosinha): a compra de votos. Que este processo vá longe, pois o ex-governador do Rio é um dos exemplos mais acabados do mau político brasileiro: evangélico de oportunidade, conivente com o crime organizado, envolvido em falcatruas mil. Infelizmente, sua prisão está longe de marcar o fim de seu poder. O vice-prefeito de Marcelo Crivella, Fernando MacDowell, pertence a seu grupo político. Parabéns aos cariocas que se recusaram a votar em Marcelo Freixo.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

OU INGÊNUO?


Nem lembro mais quando foi que Oliver Stone dirigiu um bom filme. "Snowden" não vai entrar na minha lista dos melhores do ano, mas prendeu minha atenção ao longo de suas duas horas e 40 minutos. Só que, para desfrutar plenamente dessa obra engajada, é preciso concordar com a primeira parte do subtítulo brasileiro: "Herói ou Traidor?". Eu não chego a endossar a segunda, mas tenho cá comigo que Edward Snowden foi extremamente ingênuo. Ficar incomodadinho porque a câmera do seu computador vai mostrar você pelado para alguma agência de espionagem? Isso me parece um dano ínfimo se lembrarmos que o verdadeiro inimigo dos EUA, como é dito a certa altura do filme, não é o terrorismo, mas sim a Rússia, a China e o Irã - todos países onde a liberdade é severamente cerceada. Snowden, que mora há anos em Moscou, deve ter aprendido isso na marra. E, mesmo que ele não tenha colaborado, não duvido que os russos tenham se aproveitado de seus vazamentos para minar a segurança americana na internet. Não faltam denúncias de que hackers de lá interferiram nas eleições da semana passada, e qual foi o resultado mesmo? Ah, sim, o que mais agradava ao Putin. E é no governo Trump que ocêis vão ver o que é invasão de privacidade. Puxa, Snowden, valeu, hein?

FALTA DE AIR


Hoje tem show do Air em São Paulo e eu não decidi até agora se vou. Teria que sair mais cedo do meu curso de treinamento lá na Folha, que às vezes avança noite adentro. Além do mais, não sei se vale a pena morrer num ingresso inteiro para um espetáculo que não prima pelo visual. Talvez seja melhor eu me contentar com a audição em looping de "Twentyears", a compilação que a banda francesa acabou de lançar. O primeiro CD é uma espécie de "greatest hits", com metade do fundamental "Moon Safari" de 1999 e a mais linda faixa jamais produzida por eles, "Le Soleil Est Près de Moi". O outro reúne raridades e inéditas.  Nada se sobressai especialmente: o Air só emplacou sucessos no começo da carreira, apesar de nunca terem feito um disco ruim. Mas "Twentyears" é um bálsamo sonoro para os dias bizarros que estamos vivendo. E a trilha sonora perfeita para este feriado cinzento e sem superlua.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

SUITE FRANÇAISE

Hoje me dei conta de que faltam menos de seis meses para as eleições presidenciais na França. Se esta merda de 2016 não tiver acabado pra valer até abril do ano que vem, periga que Marine Le Pen saia vencedora. Ou então, que seus opositores se unam e apoiem um partido islâmico, como no romance "Submissão". Na única vez em que o fascista Front National chegou ao segundo turno, em 2002, foi esmagado por Jacques Chirac, que se reelegeu com os votos de todo o resto do espectro político. Mas isso já faz tempo, e o mundo mudou muito desde então. A sra. Le Pen provavelmente enfrentará o atual presidente, François Hollande, que bate recordes de impopularidade. E talvez Nicolas Sarkozy, que disputa a indicação pelos republicanos (de lá) com Alain Juppé. O curioso é que a sra. Le Pen está se esforçando para não parecer a versão francesa de Trump. Anda maneirando o linguajar e posando de boa moça - até expulsou o pai Jean-Marie, abertamente antissemita, do partido que ele mesmo criou. A França, com o desemprego nas alturas, milhares de novos imigrantes e alguns atentados recentes, tem até mais motivos do que os EUA para ficar tentada pela extrema-direita. Mas também é a pátria do iluminismo, do estado laico e do amour fou. Convém prestar atenção.

ESTA RODA ESTÁ EM CHAMAS

Eu já tinha quase desistido. O filme passou no Festival do Rio, mas quem disse que eu consegui ir? Na Mostra de SP nem tive esperanças, pois lá preferem exibir um longa em preto-e-amarelo, falado em albanês e com legendas em servo-croata, do que qualquer coisa vagamente divertida. Também não há o menor sinal de lançamento no Brasil, nem que fosse em VHS. Mas eis que, quando a esperança se esvaía, o Mix Brasil anunciou nada menos que "Absolutely Fabulous: The Movie" em sua programação. Claro que eu comprei meu ingresso com antecedência, e ontem lá estava eu, vendo o filme que eu mais queria ver de todos os tempos desta semana deste ano. Que não é melhor do que três episódios inéditos costurados juntos, o que já é muita coisa. Mais de vinte anos depois da estreia da série, Edina e Patsy continuam tão em voga como sempre. Mesmo com toda a internet, a desglobalização, a eleição do Trump. Aliás, taí um tema para o próximo filme: "Ab Fab contra Melania"!

domingo, 13 de novembro de 2016

A CAPITAL DA VELEIDADE

Esta pitoresca cidadezinha na foto acima é Veles, no interior da Macedônia. Tem apenas 45 mil habitantes e, no entanto, pode ter tido um papel determinante nas eleições americanas. Pois é lá que estão sediados uma centena de sites de notícias falsas, a maioria tendendo à extrema direita. Foi a maneira que os adolescentes locais encontraram de fazer dinheiro rápido: há quem esteja ganhando até três mil dólares por dia, graças aos cliques nos posts compartilhados no Facebook e anunciantes que prometem curar fungos nas unhas com antigas receitas chinesas. E não, essa molecada não está nem aí para Donald Trump ou a Ku Klux Klan. Só querem faturar: testaram vários formatos, dos esportes à extrema esquerda, e descobriram que a maior audiência está mesmo com os reaças. Uma visitinha aos sites que eles fazem é de cair o queixo: as manchetes são do tipo "Hillary será presa amanhã, descobriram que ela é líder de uma esquema de escravidão infantil". Fora os erros de inglês... Mais triste ainda é ver os comentários e compartilhamentos que essas potocas recebem nas redes sociais. Como diz Asha Donrfest em artigo publicado no Medium, "isto é o que acontece quando a gente para de pagar por jornalismo de qualidade".

sábado, 12 de novembro de 2016

FEIJOADA CANADENSE


Gosto do Xavier Dolan desde que ele surgiu para o mundo, sete anos atrás. "Eu Matei Minha Mãe" era um prodígio; em 2014, o diretor canadense refinou as ideias desse seu filme de estreia e produziu uma obra-prima, "Mommy". Agora, consagrado e comprovado, Dolan pode filmar o que quiser, onde quiser, com quem quiser. E assim rodou seu primeiro longa fora do Canadá, e também o primeiro baseado em obra alheia. "É Apenas o Fim do Mundo" é o mais simples de seus trabalhos, mas nem por isso deve ter custado barato: o elenco principal reúne cinco dos maiores astros franceses. O roteiro nasceu como uma peça de teatro, e nem tudo o que funcionava no palco funciona na tela. Os atores são quase sempre enquadrados em close, no popular estilo "feijoada" das novelas brasileiras: orelha-focinho-língua. A claustrofobia só é quebrada numa longa cena dentro de um carro, onde Gaspard Ulliel e Vincent Cassel travam uma briga de arrancar lágrimas. O primeiro faz um rapaz que reencontra a família depois de muitos anos. Em nenhum momento ele diz claramente, mas está doente e tem pouco tempo de vida. A lavagem de roupa suja rende momentos incríveis, mas o todo não se sustenta. Pela primeira vez na vida, me decepcionei com um filme de Xavier Dolan. "É Apenas o Fim do Mundo" ganhou o Prêmio Especial do Júri em Cannes (equivalente ao segundo lugar), está passando no Mix Brasil e entra em cartaz daqui a algumas semanas. Já tirei da lista: agora estou mais curioso para ver o primeiro filme de Dolan em inglês, estrelado por Jessica Chastain, Susan Sarandon, Natalie Portman e Kit Harington (o Jon Snow de "Game of Thrones").

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

DROGA DE VIDA


Você acha que a sua vida é difícil? Então, talvez "Curumim" seja o perfeito escapismo para os seus problemas. O documentário sobre Marco Archer, o primeiro brasileiro fuzilado no exterior, é de partir o coração. O cara não era exatamente boa bisca: quando jovem, foi expulso de 14 colégios diferentes, e de surfista vagabundo logo passou a asa-deltista traficante. Passou décadas levando uma vida boa, com viagens, mulheres e luxos em geral. Até que sofreu um acidente na Indonésia e precisou ser internado em Singapura. De volta ao Brasil e devendo uma pequena fortuna ao hospital (um pouco demais, acho eu - tem treta aí?), Curumim (seu apelido desde a infância) foi ao Peru comprar coca barata para revender cara em Bali e na Austrália. Pego no aeroporto, fugiu e foi recapturado em poucos dias - o que foi fatal para seu caso, que ganhou notoriedade na imprensa de lá. Por isto não conseguiu subornar advogados e juízes no ultra-corrupto sistema indonésio. Passou doze anos no corredor da morte e foi executado em janeiro do ano passado (três meses depois, outro brasileiro, Rodrigo Gularte, teve o mesmo fim). Toda essa triste saga é contada com muitos depoimentos e imagens captadas em segredo na prisão (mas não o fuzilamento em si, que foi reencenado). "Curumim" está longe de ser divertido, óbvio, mas não deixa de ter seu fascínio. E agora estou de volta ao meu dia-a-dia, convicto de que todas as minhas aflições são irrisórias.

I'M READY, MY LORD

Leonard Cohen nunca se tornou famoso o bastante para ser conhecido pela sua mãe. Mas talvez ela reconheça sua música mais famosa, "Hallellujah", ainda mais depois dela ter sido incluída na trilha sonora da minissérie "Justiça". Cohen morreu ontem de morte anunciada: seu álbum derradeiro, "You Want It Darker", é um epitáfio sonoro, ainda mais do que o "Blackstar" do Bowie. Já na faixa-título ele anuncia que "estou pronto, meu Senhor"; seguem-se letras como "estou deixando a mesa, estou fora do jogo". Não que sua obra tenha sido risonha e ensolarada até essa linha de chegada. O maior compositor canadense de todos os tempos sempre teve uma veia dark à mostra, e talvez por isto não tenha alcançado o status de celebridade global como Bob Dylan. Mas, ao contrário do recém-nobelizado, Leonard Cohen fez alguns de seus melhores discos nos últimos anos. Agora que ele não está mais entre nós, provavelmente será escutado como nunca o foi em vida. Aleluia.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

TANTO MAR, TANTO MAR


O intercâmbio cultural entre Portugal e Brasil é muito maior de cá para lá do que o contrário. É muito raro, por exemplo, que cantores brasileiros gravem os compositores contemporâneos portugueses. Lembro de Maria Bethânia cantando a "Balada de Gisberta" do Pedro Abrunhosa, e olhe lá. Já os lusos volta e meia atacam de Tom Jobim, Vinícius de Morais e até mesmo Marina Lima ou Marisa Monte. É nessa tradição que se encaixa "Até Pensei que Fosse Minha", o novo álbum do António Zambujo, inteiramente dedicado à obra de Chico Buarque. Tem algumas escolhas não-óbvias, como "Folhetim" (que eu nunca havia escutado na voz de um homem) ou a primeira faixa de trabalho, "Injuriado". Mas para mim os melhores momentos são "Cálice", que no sotaque tuga ficou ainda mais dramática, ou "Joana Francesa", que virou um dueto com o próprio autor. Depois de um encantamento inicial com o fado bossa novístico de Zambujo, andei enjoando do repertório recente dele, repleto de musiquinhas engraçadinhas. Mas este disco o redime, e revela novas texturas em canções familiares. Agora precisamos dar o troco.

VEM QUE O AMOR É O MOMENTO


Todo ano é assim: mal termina a Mostra de Cinema de SP e já começa o Festival Mix Brasil, como se fosse um complô para nos impedir de ficar em casa vendo Netflix. A edição de 2016 do maior evento de cultura LGBTX do Brasil deslanchou ontem no Auditório do Ibirapuera, numa cerimônia comandada pela atriz Maria Clara Spinelli que culminou com a exibição do filme português "O Ornitólogo".

O trabalho do diretor luso João Pedro Rodrigues não é fácil de ser digerido. Eu já tinha visto dois longas dele, "O Fantasma" e "Morrer Feito Homem", e não caí de amores por nenhum. E poderia ter gostado mais de "O Ornitólogo" se fosse uma meia horinha mais curto. Porque o filme tem cenas que convidam à discussão.
Um observador de pássaros viaja sozinho no norte de Portugal. Depois de sofrer um acidente de caiaque, ele é resgatado por duas turistas, chinesas e católicas, que se perderam do Caminho de Santiago. Aí elas o amarram feito São Sebastião. Depois ele encontra um pastor surdo-mudo, uma floresta de animais empalhados, um bando de amazonas... O que quer dizer tudo isto? Muitas das imagens permitem uma leitura religiosa, outras remetem à luta e à fusão entre os gêneros masculino e feminino. Mas o que mais me agradou foi o filme terminar com a maravilhosa "Canção de Engate", o maior hino gay do cancioneiro d'além-mar. "Vem que o amor é o momento em que eu me dou, em que me dás..."

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O 9 DE NOVEMBRO

Fui dormir preocupado, pouco depois da meia-noite. A cobertura da TV estava me fazendo mal: Trump surpreendia no sul, Hillary não conseguia virar. Acordei às 2:40 com azia, e cometi um erro fatal: chequei o celular. Não consegui mais pegar no sono. Levantei às sete, num mundo diferente do de ontem.

Tanto reclamei que a mídia estava criando um clima artificial de disputa, e agora me dou conta de que eu, o Nate Silver, o "New York Times", todo mundo errou. As pesquisas falharam quase todas, talvez por causa do voto envergonhado. Quem ia votar em Trump tinha vergonha de admiti-lo - ah, e sabe o que mais? Acho que esses deploráveis deviam continuar tendo. Eu também sinto vergonha por eles. Sinto vergonha do ser humano. Sinto vergonha de ser humano.

O Trumpocalipse é perfeitamente coerente com este ano de merda que estamos vivendo. Depois do Brexit, da Colômbia, do Crivella, era mesmo só o que faltava. Ninguém sabe votar, em lugar nenhum do planeta. Abaixo a democracia, vivam o despotismo esclarecido e a epistocracia. Eu bem que avisei, tralalala.

O que vem agora? Será que Trump vai dar uma de João Doria e cair na real, renegando algumas das propostas de sua campanha? Meu palpite é que ele não passará de um figura de proa. Deixará o governo nas mãos de seu vice e posará para muitos selfies. Não levantará o muro na fronteira do México (que já existe em grande parte), não deportará muçulmanos em massa, não tirará mais sarro de deficientes físicos nem das mulheres feias.

Mas o resto sua agenda é perigosíssima. Duvido que ele vá se meter em guerras, pelo contrário. Trump prega o isolacionismo, e isso vai deixar o caminho aberto para Putin pintar e bordar nos satélites da Rússia. Também periga romper os tratados de livre-comércio, rasgar o acordo com o Irã, melar com a Otan. E cortar os impostos para os mais ricos. O que, como todo mundo sabe, deu suuuper certo no governo de George W. Bush e não levou a nenhuma recessão.

E Hillary Clinton? Talvez ela queria voltar ao Senado, mas acho que irá mesmo se aposentar. Rodar mais uns anos no circuito de conferências, escrever alguns livros e curtir os netos. Chega a ser trágico que a mulher que se preparou a vida inteira para ser a primeira presidente americana, que acumulou décadas de experiência nos mais diversos cargos públicos, perca tudo numa única noite para um arrivista boquirroto que nem bom empresário é.

Não creio em guinada à direita, muito menos a nível mundial. Mas é óbvio que, em todos os países que foram às urnas recentemente, o eleitor preferiu quem ele viu como "fora da política". Trump é um corpo estranho até mesmo no partido Republicano, e parece que é disso que o povo gosta.

O dia de hoje já entrou para a história como uma nova versão do 11 de setembro - é 11/9 refletido no black mirror. Os Estados Unidos cometeram um atentado contra si mesmos. Praticaram o trumpicídio. É até capaz de Hillary ganhar no voto popular (ainda não terminaram as apurações), mas, novamente muito vou me admirar de ninguém pensar em se livrar desse arcaico colégio eleitoral. Já é a segunda vez neste século que o sistema dá chabu, mas quem vai convencer os americanos de que a sagrada Constituição deles tem problemas?

Estou triste, exausto, preocupado com o legado de Obama e com os rumos do planeta nos próximos quatro anos. Também estou curioso: numa hora como essa, é até um alívio pode observar a bagunça à distância. Será o começo do fim da mais poderosa nação que a Terra já teve? Depois vem a desintegração total, a ascensão de Panem, os jogos vorazes. Aliás, parece que esses já começaram.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

PEZÃO NELE

Cariocas e fluminenses, onde está o brio de vocês? Onde estão as tochas e os ancinhos? Já passa da hora de vocês invadirem o Palácio Guanabara e darem um pé na bunda do governador Pezão. É um descalabro absoluto ele dizer que não tem dinheiro para pagar nada depois de julho do ano que vem. É um acinte ainda maior cortar 30% do salário de todos os funcionários públicos. Esta é a terceira administração consecutiva do PMDB no estado do Rio, então não dá para dizer que a culpa pela atual penúria é da crise internacional ou do raio que o parta. Defenestrem essa gangue, passem-nos na guilhotina, salguem o terreno onde eles cresceram. E vejam se aprendem a votar direito (este ano vocês já mostraram que continuam não sabendo).

HILLARY JACTA EST

E assim chegamos ao último dia da mais doida campanha presidencial da história recente dos Estados Unidos. Parte da imprensa está jogando a culpa pela avacalhação nos dois candidatos principais, como se eles fossem equivalentes. Não são: nem no universo paralelo Donald Trump chega aos pés das qualificações de Hillary Clinton para o cargo mais poderoso do planeta. A mídia também insiste no clima de indecisão, quando todos os sites de estatísticas apontam como certa a vitória da democrata. O FiveThirtyEight, por exemplo, diz que a sra. Clinton tem 71% de chances de vencer. Foi este site que acertou os resultados de todos os 50 estados americanos na eleição de 2012, e os de 49 na de 2008. Mesmo assim, é compreensível a hesitação dos jornalistas: as pesquisas também diziam que o Brexit iria perder, e que o tratado de paz na Colômbia iria ganhar. A bruxa anda livre, leve e solta este ano, e uma vitória de Trump seria a pá de cal não só nas instituições americanas, mas na própria fé na humanidade. Só o fato dele ter sido escolhido pelo GOP já é um escândalo de proporções, e um sintoma de que metade dos EUA está podre. Tomara que sua provável derrota obrigue o partido a se reinventar e a se purgar dos extremos - além do mais porque Hillary se revelou uma candidata surpreendentemente frágil, e qualquer outro rival melhor preparado teria levado a presidência. Agora é torcer, rezar, fazer promessa e pensamento positivo. Para talvez comemorar amanhã.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

NADA ME É ESTRANHO


Meu marido conseguiu que eu quebrasse meu juramento de nunca mais ver um filme de super-herói. Ele conseguiu me arrastar para "Doutor Estranho", que, afinal de contas, tem alguns atenuantes em relação às demais atrocidades da Marvel. Como Benedict Cumberbatch e Tilda Swinton, dois dos meus atores prediletos. Ou a temática pseudo-espiritual, que acaba se revelando uma bobajada mais rasa que um calendário da Seicho-No-Ie. O melhor mesmo são os efeitos especiais, apesar de lembrarem os de "A Origem", de seis anos atrás. Também é curioso o fato de não haver uma única arma de fogo no filme todo. Aqui, bandidos e mocinhos lutam à moda antiga: com armas brancas e magia. Mas nada disso eleva "Doutor Estranho" muito acima dos outros títulos da Marvel. Não vi nada tão diferente assim do Homem de Ferro, ou do Homem-Aranha, ou do homem-sei -lá-o-quê.

O GOVERNO DOS SÁBIOS

Já declarei diversas vezes aqui no blog que a minha forma de governo favorita é o despotismo esclarecido. O problema, óbvio, é encontrar o tal déspota. Agora estou tentado em aderir à epistocracia. Tudo por causa de uma entrevista interessantíssima que saiu na Folha de hoje, com o filósofo americano Jason Brennan. Ele acaba de lançar (em inglês) um livro chamado "Contra a Democracia", onde expõe a ideia provocante de que os sistemas democráticos atuais, por lindos que sejam, vêm falhando miseravelmente no mundo inteiro. Exemplos não faltam: a vitória do Brexit, a derrota do tratado de paz na Colômbia e até mesmo (vira essa boca pra lá) a possível eleição de Trump nos EUA. Aliás, se isto acontecer, vai ser a desmoralização total das instituições americanas, que permitiram que esse boçal cafajeste despreperado filho da puta chegasse onde chegou. É justamente para evitar aberrações do gênero que Brennan defende a epistocracia, o "governo dos sábios" - que, apesar de ser discutida desde a Antiguidade, jamais foi implantada para valer. Nela, apenas quem tem conhecimento tem direito a voto. Buááá, injustiça, sacanagem, e o povão ignaro? Bom, basta lembrarmos que, em quase todos os países democráticos, algo entre 40 e 60% da população não está nem aí para as eleições. Então, por que não deixar o voto na mão de quem realmente se interessa pelo assunto? Para poder votar, a pessoa teria que passar por um exame - assim como existem exames para motorista, médico, advogado, essas coisinhas desimportantes. Buááá, erros serão cometidos, gente desqualificada vai conseguir passar? Bom, me diga aí qual critério de seleção que é perfeito. Somos humanos, erraremos para sempre. De qualquer forma, há algo de inerentemente revoltante na epistocracia, quando pensamos que ela exclui tanta gente do processo decisório, e que também pode ser facilmente manipulada para o mal. Mas foi ótimo saber de sua existência. Para quem quiser se aprofundar: existe um site (em inglês...) e até mesmo um perfil no Twitter. De pé, estudados da Terra!

domingo, 6 de novembro de 2016

ACENDE O FAROL


Sabe aqueles filmes onde tudo é de um bom gosto atroz? A direção de arte, os figurinos, as interpretações, o livro onde o roteiro foi baseado... "A Luz Entre Oceanos" tem tudo isso, e mesmo assim é uma chateação. Podia ser um melodrama dos bons: casal que toma conta de um farol numa ilha isolada não pode ter filhos. Um belo dia, surge um bote com o cadáver de um homem e um bebê ainda vivo. Eles resolvem enterrar o sujeito e ficar com a criança, que dirão ao mundo serem deles. Só que, um di,a a mãe verdadeira aparece. Um novelão, contado em planos belíssimos porém leeentos. Ah, o mar se encrespando, o capim ondulando ao vento, a lágrima escorrendo pelo rosto de Alicia Vikander. Foi durante as filmagens que ela e o guapetón Michael Fassbender começaram a namorar: aposto que o romance entre os dois é mais interessante do que esse longa longuíssimo, lindo de se ver mas difícil de aturar.

sábado, 5 de novembro de 2016

GRECA DI POLLY

Rafael Greca quase detonou a própria campanha para prefeito de Curitiba ao dizer que "não gosta de cheiro de pobre". Mesmo assim, foi eleito no segundo turno. Talvez por causa dessa outra declaração, dada alguns dias antes da eleição e de cuja existência o desinformado aqui só ficou sabendo ontem? E assim ele ratifica também um dos apelidos que ganhou, "Greca Di Polly", dada sua semelhança com uma das drags queens mais famosas de SP. Ahaseaux.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

ELA TÁ BEBA DOIDA


"A Garota no Trem" lembra um pouco "Garota Exemplar", de dois anos atrás. Além de serem baseados em best-sellers e terem títulos parecidos, os dois filmes tratam de crimes misteriosos envolvendo protagonistas complicadas. Tive até a sensação de que o diretor Tate Taylor imita o estilo de David Fincher, com imagens meticulosamente enquadradas e manipuladas. Emily Blunt estava até cotada ao Oscar (não está mais), porque seu personagem é realmente difícil: uma alcoólatra abandonada pelo marido, que logo se casa de novo e tem um filho. Ela fica obcecada com a nova família dele, a qual observa todos os dias de sua janelinha no trem. Olha também a vizinha, de quem acha que leva uma vida perfeita. E nada é o que parece, claro. Só que a resolução final relega tudo ao nível de filme de mulherzinha. "A Garota no Trem" é bem filmado, tem atores importantes fazendo pequenos papéis e em nenhum momento chega a se tornar chato. Mas tem uma outra semelhança com "Garota Exemplar": é tão esquecível quanto.

NADA DE FRENTE

Uma amiga viu "Aquarius" e achou que a ausência de peito do personagem da Sonia Braga não ornava. Uma mulher rica e fogosa daquele jeito teria se recauchutado depois da mastectomia, disse ela. Eu concordei: é meio que esperado que qualquer uma que perca um seio para o câncer faça o que for preciso para tê-lo de volta, por mais fake e insensível que saia. Mas não devemos encarar isto como uma obrigação. Nos Estados Unidos está crescendo o movimento "Going Flat": mulheres que se recusam a implantar novos seios depois de um câncer de mama. O fato é que as complicações podem ser muitas, das infeções à sensação de que o corpo (novamente) foi invadido por algo que lhe é estranho. Atenção, não se trata de uma onda anti-reconstrução: cada mulher faz o que quer. Acho saudável, acho digno. Também acho linda essa galeria de fotos publicada pelo "New York Times".

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A TURMA DO DEIXA-BREXIT

Começou. Hoje três juízes britânicos decidiram que o processo de saída da Grã-Bretanha da União Europeia só pode ser iniciado pelo Parlamento. A primeira-ministra Theresa May pode se fazer de chocada o quanto quiser, mas, no fundo, aposto que está comemorando. May fez campanha CONTRA o Brexit, e sabe melhor do que ninguém das consequências nefastas que a secessão pode trazer para o país (inclusive a independência da Escócia). Assumiu o cargo jurando que iria respeitar o resultado das urnas, mas empurrou com a barriga até o momento - e agora tem uma excelente desculpa para não fazer lhufas. O fato é que quase ninguém mais está a fim de sair da nada, só a extrema-direita. Então devem surgir mil artifícios legais para adiar o indesejável. Até mesmo, daqui a uns dois anos, um novo plebiscito. Vitória de Deir dos Santos, o cabeleireiro brasileiro que foi um dos autores da ação que levou à decisão desta quinta. Miga, sua crazy!

AMARGO HALLOWEEN

O talk show do Jimmy Kimmel exibiu esta semana, pelo sexto ano consecutivo, a pegadinha que já se tornou clássica: "Filhinhos, Comi Todos seus Doces de Halloween". É o tipo de piada que nunca perde a graça, pois é sempre gratificante ver esses fedelhos exercitando seus talentos dramáticos. Fora que sempre tem uma ou outra criança sábia, que perdoa os pais e diz que os ama. Mas, na verdade, eu me identifico mais com as outras. Por um dia que fosse, queria poder me jogar no chão, espernear e armar um berreiro quando me contrariassem.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A QUEDA DA BOLSA

A ideia nem é nova. De vez em quando a propaganda tira sarro de si mesma, comparando o que ela mesma diz com o suposto "mundo real" (reproduzido em estúdio, claro). Mas é perigoso fazer isto quando as definições de realidade ainda não foram atualizadas com sucesso. Foi o que aprendeu a marca britânica de moda masculina Jacamo, que achou que seria engraçado contrapor modelos afeminados em poses artificiais com "machos de verdade" transbordando testosterona. Os tuítes que veicularam as imagens diziam coisas como "homens reais não têm bolsas, têm bolas". Abriram-se as portas do inferno: a grife estaria reforçando estereótipos ultrapassados, pois não há mais uma maneira certa de ser homem. Seguiram-se os habituais pedidos de desculpas e esclarecimentos de que não-era-bem-isso. Aconteceu na Inglaterra; no Brasil, esta campanha seria assinada pela Almap/BBDO e ganharia prêmio no Anuário do Clube de Criação.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

MOSTRA MAIS UM POUCO


Tive uma boa Mostra. Vi 12 filmes, um recorde para os últimos anos, e quase todos bons. Infelizmente, "O Rei dos Belgas" não foi um deles, apesar da boa premissa. Durante uma viagem a Istambul, o rei Nicholas (imaginário) fica sabendo que a Valônia, a parte francesa da Bélgica, proclamou a independência. Ele precisa voltar o quanto antes para seu país, mas uma tempestade solar impede que qualquer voo saia do chão. O jeito é ir por terra, pelos Bálcãs, no ônibus de um grupo de cantoras búlgaras e fantasiado como uma delas... Tamanha forçação de barra seria perdoável se o filme fosse engraçado. Mas, tirando uma piada ou outra, "O Rei dos Belgas" não passa de uma tentativa de comédia feita por gente que não sabe fazer comédia. E, apesar de sua escassa hora e meia, parece durar o tempo que se leva para ir de ônibus da Turquia a Bruxelas. 


"O Jovem Papa" é uma série em oito capítulos que estreia em fevereiro na HBO brasileira. Mas, como eu vidrei no diretor Paolo Sorrentino desde "A Grande Beleza", fiz questão de ver o longa que ele armou com os dois primeiros episódios e que estreou no festival de Veneza. Confesso que me decepcionei um pouco: não há aquelas cenas de, aham, grande beleza que me impressionaram antes. O protagonista, um cardeal americano de 47 anos (Jude Law, com cabelos brancos) que de repente se vê consagrado papa, é um mistério. Uma hora é um fofo, na outra, um escroto. O filme termina num "cliffhanger", e claro que só farei um julgamento melhor quando o programa for ao ar. Mas valeu como aperitivo.


Os jurados de Cannes quiseram pagar de modernos e deram o prêmio de melhor atriz para Jaclyn Jose, de "Ma' Rosa". Ela é realmente boa, mas, apesar de seu personagem dar nome ao longa, não é a protagonista absoluta. Nem tem o star quality de Sonia Braga ou Isabelle Huppert, a quem derrotou. O filme é o representante das Filipinas no próximo Oscar, e conta uma história difícil de ser vista - talvez porque bastaria mudar a língua para que ele se passasse no Brasil. Ma' Rosa tem uma "sari sari store" numa favela de Manila: uma lojinha onde vende pirulitos, refrigerantes e crystal meth. Um dia a polícia a prende, junto com o marido junkie, e os três filhos têm que se virar para conseguir os 50 mil pesos exigidos como fiança (na verdade, propina). Boa parte da ação se passa dentro de uma  delegacia, e o tom hiperrealista faz com que às vezes pareça que estamos assistindo a um documentário. Não é exatamente meu tipo de filme, mas gostei de ter visto.

O PREFEITO GATO

O Rio desperdiçou a chance de eleger Alessandro Molon, talvez o mais belo político do Brasil de hoje. Preferiu Marcelo Crivella, que parece uma tartaruga loura. Em outras capitais, os prefeitos parecem ter sido selecionados pelo diretor de casting de um filme de terror: Rafael Greca (Curitiba), Alexandre Kalil (BH)... Mas, no meio de tantos jaburus, um bonitão se sobressai: Nelson Marchezan Jr., eleito para a prefeitura de Porto Alegre. Não, ele não sai bem em todas as fotos, e nem quero entrar na discussão se é coxinha ou não. À faute de mieux, é o meu muso do segundo turno. Alguma outra sugestão?