segunda-feira, 31 de outubro de 2016

BATE OUTRA VEZ

...com esperanças o meu coração..."As Rosas Não Falam" talvez seja a música brasileira mais linda de todos os tempos. Uma de suas concorrentes ao trono, "O Mundo é um Moinho", serve de epíteto ao musical que homenageia o autor de ambas: "Cartola", que encerrou temporada em São Paulo nesta segunda-feira. Quando for terminando o verão,  os cariocas poderão ver o trabalho de médium que Flávio Bauraqui faz no papel principal, e mais as interpretações de um elenco fortíssimo que conta com Adriana Lessa e Silvetty Montilla. Cenários e figurinos não estão à altura do repertório, mas só a beleza deste já valeria o preço do perfume que roubam de ti, ai...

HOJE A FESTA É DELES

Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou. O Rio de Janeiro, ponta de lança da cultura brasileira, terra do biquíni fio dental e do funk proibidão, elegeu um "bispo" evangélico como prefeito. Estou mais curioso do que apreensivo com essa escolha. A marcação em cima de Marcelo Crivella será cerradíssima. Qualquer ato dele que possa ser interpretado como homofóbico ou intolerante vai gerar um escarcéu na mídia (especialmente na Globo, que não vai dar vida fácil a sua arquirrival Record). Por outro lado, a Igreja Universal do Reino de Deus não é exatamente dogmática. Até o Edir Macedo já adoçou seu discurso em relação aos gays. Porque esses caras são sensíveis às mudanças na sociedade - e, mais do que em qualquer outra coisa, estão mesmo é interessados no dinheiro. Aí é que mora o perigo: o orçamento da prefeitura carioca ficará à mercê dessa turma. Que nem é a maior denominação pentecostal do Brasil, mas a mais bem organizada na luta pela conquista do aparelho do Estado. Também convém ter em mente que Crivella foi eleito por apenas 1/3 dos cariocas, e que mais gente votou nulo, em branco ou se absteve do que votou no pastor. O que propiciou esse resultado foi a divisão da centro-direita. Se Eduardo Paes não tivesse insistido em lançar Pedro Paulo como candidato, notório agressor de mulher, talvez a história tivesse sido outra. Mas agora já era. O Brasil vai ter que passar por este funil, como passou pelo PT. O Rio, perverso polimorfo, é o campo de batalha. O futuro já começou.

domingo, 30 de outubro de 2016

OS PIRATAS DO BACALHAU

Mais uma vez, as pesquisas falharam. O Partido Pirata, apontado como favorito até a véspera da eleição na Islândia, chegou em terceiro lugar. Mesmo assim, viu seu número de cadeiras no Parlamento crescer de três para dez. E, o mais importante: chamou a atenção do mundo para esse movimento, que começou em 2006 na Suécia e já chegou até ao Brasil. Os piratas são o que há de mais novo na política, e bastante difíceis de enquadrar no espectro tradicional direita-esquerda. São pelo estado laico, pela liberdade de expressão, pelo direito à privacidade, pela neutralidade da rede, pelo ativismo hacker, pelo livre acesso e compartilhamento da cultura e do conhecimento. Isto quer dizer que jamais pagarão direitos autorais? E como gestariam o dia-a-dia, tendo que lidar com problemas comezinhos como saúde, educação e transporte público? A Islândia teria sido um bom laboratório para porem em prática suas ideias, pois é um país de apenas 300 mil almas e com um elevado padrão de vida. Mas é difícil ver essas ideias algo esotéricas pegarem num lugar onde falta tudo como o Brasil. Os Piratas fazem parte dessa nova onda política que está surgindo pelo mundo, com siglas como o grego Syriza, o espanhol Podemos e o italiano Cinque Stelle. São ainda mais radicais que esses grupos, e por isto merecem atenção. Eu, pelo menos, fiquei bastante interessado.

sábado, 29 de outubro de 2016

CAPONATA DE BERINJELA

Ainda bem que algum crentelho denunciou o comercial "Eu Odeio Berinjelas" ao Conar. O filme já está no ar há duas semanas e só hoje fiquei sabendo de sua existência. A analogia é perfeita, mas não gosto da linguagem: ninguém precisa "discordar" das berinjelas e, portanto, da orientação sexual do outro. Mas esse peché mignon é perdoado pelos beijos no final entre casais de ursos coroas e de lésbicas gorduchas, duas categorias quase invisíveis na nossa televisão.

A REVOLTA DA CHIBATA


"O Nascimento de uma Nação" concorreu em Sundance na mesma semana em que saíram as indicações ao Oscar deste ano. Todos os 20 atores finalistas ao prêmio da Academia eram brancos, e o escândalo que se seguiu ajudou o filme de Nate Parker a vencer o festival de Utah. Foi o favorito do júri e do voto popular, e ainda abiscoitou um contrato de distribuição no valor de 20 milhões de dólares, um recorde. Também despontou como fortíssimo candidato ao próximo Oscar. Então, em agosto, a revista "Variety" revelou que o diretor havia se envolvido num caso de estupro na faculdade, na década de 1990. Foi absolvido, mas a moça se matou em 2012. O caso ganhou tintas irônicas, porque um dos estopins da revolta dos escravos de "O Nascimento de uma Nação" é justamente a violação da mulher do protagonista por um grupo de capitães-do-mato. A carreira do filme foi prejudicada nos EUA, e já não se fala dele como um dos pilares da temporada de premiações. Esse imbróglio todo revive uma pergunta recorrente: devemos julgar uma obra pela retidão moral de seu autor? Quando eu era mais jovem, o pintor Iberê Camargo matou um desconhecido numa briga de trânsito. Por causa disso, eu nunca mais consegui apreciar seus quadros. O caso de "O Nascimento de uma Nação" é ainda mais complexo. Nunca saberemos exatamente o que se passou entre Nate Parker, um amigo (este sim, condenado pela Justiça) e a vítima. E atire a primeira pedra quem nunca cometeu uma cagada colossal. Foi com espírito de isenção que tentei assistir à primeira exibição pública do filme no Brasil, dentro da Mostra de SP. A primeira impressão é avassaladora: como que a humanidade aceitou a escravidão por tanto tempo? E até tão pouco tempo? Eu nasci menos de 100 anos depois da abolição. Tremo em pensar que meus tataravós conviviam com (e, provavelmente, tinham) escravos. "O Nascimento de uma Nação" tem um óbvio parentesco com "12 Anos de Escravidão", também realizado por um diretor negro (o britânico Steve McQueen). A diferença é que aquele filme, oscarizado três anos atrás, tinha um final feliz para seu protagonista (não é spoiler: dê uma olhada no poster acima). A história real de Nat Turner, o escravo alfabetizado pela patroa bondosa (para o padrão da época) e que se torna um pregador do Evangelho - utilizado pelos senhores para pacificar os revoltosos - é muito bem construída pelo roteiro, que mostra passo a passo como aquele cooptado acabou se rebelando contra o sistema. Mesmo assim, há uma certa mão pesada da direção em certos momentos, contrabalançados por algumas soluções brilhantes. Numa ano em que a polarização política se espalhou como um vírus pelo mundo afora, "O Nascimento de uma Nação" é um filme importante, até obrigatório. Porque não acho que o ser humano tenha melhorado tanto assim desde o século 19. Às vezes sinto que basta uma escorregada, e voltaremos aos tempos da chibata.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

SERRADO AO MEIO

A Lava Jato está cada vez mais parecida com o meteoro que provocou a extinção em massa dos dinossauros. José Serra finalmente foi citado na delação premiada de um executivo da Odebrecht. O que o ministro das Relações Exteriores queria mesmo era ser o czar da economia do governo Temer para, quem sabe, domar a crise e repetir o script de FHC. Com a denúncia de hoje, ele pode enterrar de uma vez por  todas seu já moribundo sonho de se eleger presidente. Também está claro que a corrupção não se restringe a este ou aquele partido, mas permeia todo o sistema político brasileiro. Que se vayan todos, mas isto aumenta o risco de surgir um salvador da pátria. Eu achava que não corríamos este perigo, mas essas eleições municipais só estão comprovando que brasileiro não sabe votar.

VITRINE DO MUNDO


A Mostra de SP serve para a gente ver filmes exóticos, e eu estou aproveitando para conferir alguns escolhidos por seus países ao próximo Oscar de filme estrangeiro. "Tanna", da Austrália, dificilmente estreará por aqui. Foi inteiro rodado na ilha do mesmo nome no arquipélago de Vanuatu, e é falado em yakel - não, eu também nunca tinha ouvido falar dessa língua. Mas a história é básica, é arquetípica. É "Romeu e Julieta" de tanga. Um casal se apaixona, mas a tribo deles vive às turras com outra tribo vizinha. As negociações de paz entre as partes determinam que a moça se case com alguém do outro lado, mas os pombinhos não aceitam o acordo. As imagens são belíssimas, coroadas por um vulcão em erupção permanente. E ainda há uma rápida menção a uma bizarra religião da Melanésia, que venera o príncipe Philip - marido da rainha Elizabeth - como a maior divindade do universo. 

Segundo os sites especializados, um dos favoritos ao prêmio é "O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki", da Finlândia, mas eu juro que não entendi por quê. O filme é lindo: tem uma primorosa fotografia em preto-e-branco, e a trama se passa em 1962. Só que não tem música, o que sempre me incomoda, e lembra uma versão nórdica de "Rocky, um Lutador". Pelo menos aparecem muitos homens pelados em cenas de vestiário, e eu me diverti um pouco tentando entender alguma palavra em finlandês (em vão). No entanto, como a Academia indica quase todo ano pelo menos um título da Escandinávia, as chances de "Olli" chegar entre os finalistas são boas.


"The Handmaiden" (a Mostra manteve o nome em inglês) concorreu em Cannes, e quase foi selecionado pela Coreia do Sul. Muito me admirarei se eles tiverem um filme melhor do que esse: o novo trabalho do diretor Park Chan-Wook (do já clássico "Old Boy") é suntuoso. Podia ser uma meia horinha mais curto, mas tudo nele é de cair o queixo: cenários, figurinos, música, roteiro, atores. Parece uma versão oriental de "Downton Abbey", com muita pilantragem e putaria. Na década de 1930, a Coreia estava ocupada pelo Japão, e uma batedora de carteiras coreana é contratada por um escroque para ser a criada de uma rica herdeira japonesa, e assim ajudá-lo a dar o golpe do baú. Mas as reviravoltas são muitas, e mais não posso contar. "The Handmaiden" ainda está com legendas eletrônicas em inglês, mas deve entrar em cartaz por aqui. Quando isto acontecer, corra para o cinema.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

SUANDO FRIO

Trabalhei anos com a Procter & Gamble, e a propaganda da empresa não podia ser mais careta. O ambiente corporativo, não: a P&G foi uma das pioneiras na aceitação de maridos e esposas gays como dependentes de seus funcionários. Essa modernidade finalmente chegou à comunicação, e a P&G vem se destacando - pelo menos nos Estados Unidos - por alguns dos comerciais mais ousados dos últimos tempos. Como este do desodorante Secret: vem prêmio aí.

ESPELHO EMBAÇADO


Tanto hype, tanto buzz, e no final a terceira temporada de "Black Mirror" tem apenas um único episódio sensacional. Justamente o primeiro, "Nosedive" ("Perdedor", na tradução brasileira), que mostra um futuro próximo onde todo mundo é avaliado o tempo todo numa rede social - e, de acordo com a pontuação alcançada, ganha privilégios como lugares na primeira classe de aviões ou até mesmo leitos em hospitais. O diretor Joe Wright explora a suave antipatia natural da atriz Bryce Dallas Howard para atingir um grande efeito, e o resultado é engraçado e assustador. Pena que daí em diante seja quase um nosedive. Um videogame que usa os medos mais íntimos do jogador para criar imagens apavorantes? Já existe, e não precisa de tecnologia: são os nossos sonhos. Um garoto que aceita cometer crimes para que um vídeo dele se masturbando não seja divulgado? Onde, na Arábia Saudita? A qualidade dos outro cinco episódios varia, mas nenhum atinge o nível estabelecido pelas primeiras duas temporadas. Ano que vem tem mais. Vamos ver se o roteirista e produtor-executivo Charlie Broker consegue atender à expectativa que criou nos espectadores do Netflix, ou se o encanto de sua série se quebrou de vez.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

FELIZ NAPALM

Uma sugestão para os prefeitos recém-eleitos: aplicar pesadas multas nos estabelecimentos que exibirem decoração de Natal antes do final de novembro. A cada ano elas parecem pipocar mais cedo: vi a minha primeira de 2016 no dia 16 de outubro. Antes do Dia das Bruxas, de Finados, da Proclamação da República, do Dia da Bandeira, do Dia da Consciência Negra, do Dia de Ação de Graças, da Black Friday. Que, nos Estados Unidos, é a abertura informal da temporada natalina. Mas por aqui existe o 13o. salário, cuja primeira parcela costuma ser paga até o dia 30 de novembro. Por isto, nossos comerciantes acham que PRECISAM nos lembrar o quanto antes de gastar esse dinheirinho extra em presentes. Na verdade, só estão nos lembrando de que mais um ano passou depressa demais e, com ele, as nossas vidas. Sinto vontade de tacar napalm nessas árvores e papais noéis. Aí, sim, acho que teríamos boas festas.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

A SEGUIDILLA DE CÁRMEN

Tem como não amar a ministra Cármen Lúcia? Eu já babava um ovo de avestruz por ela. Hoje quero me jogar aos seus pés e beijá-los. A presidentE do STF divulgou sua agenda para esta quarta, e nela não consta a reunião que Renan Cangaceiros convocou com ela, Temer e Rodrigo Maia. Uma espécie de cúpula dos Três Poderes, onde o presidente do Senado tentaria peitar Cármen por causa das prisões de membros da Polícia Legislativa. Como disse o Josias de Souza, Renan ainda não percebeu que o Supremo não é mais comandado por seu chapa Lewandowski. Agora é por uma mulher com nome de cigana espanhola, e que já começou a toureá-lo. Será o fim do senadorzeco?

E MAL PAGO

Ser gay não é fácil. Ser muçulmano no Ocidente não é fácil. Ser gay E muçulmano no Ocidente é só para os fortes. O cantor americano Leo Kalyan conta um pouco dessa experiência numa balada delicada com nome grosseiro: "Fucked Up". O clipe mostra filmes caseiros dele pequeno e também uma imagem óbvia, Leo tentando se livrar de uma bagagem que o incomoda. A sonoridade só se torna oriental mais para o fim, mas é o bastante para eu me interessar pelo cara. Vou prestar atenção nele, que lança o álbum "Outside In" ainda este ano.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

DEAD OR... HMM

Morreu Pete Burns, o vocalista do Dead Or Alive. A banda teve exatamente um único hit, "You Spin Me Round (Like a Record)", em 1985. Mas a música - o primeiro exemplo de um gênero dance chamado "hi energy" - mostrou-se muito influente, e toca por aí até hoje. Burns foi uma espécie de amiga e rival de Boy George (que lamentou sua morte no Twitter) e, no fim da vida, tornou-se obcecado por alterar a própria aparência - consta que fez mais de 300 plásticas. Morreu ontem, aos 57 anos, de parada cardíaca. E assim podemos tirar o "Or Alive" do nome de sua banda, não? OK, também não achei a menor graça.

ES GOLPE

A Venezuela permite o “recall”. Se houver assinaturas suficientes, o país promove uma votação para saber se o povo quer que o governante termine seu mandato. Não precisa haver crime de responsabilidade ou pedalada fiscal: bastam as assinaturas. O mecanismo foi implantado na constituição aprovada por Hugo Chávez, e ele mesmo se submeteu a este tipo de referendo em 2004. Saiu vencedor, e ainda mais forte. Agora seu sucessor Nicolás Maduro está fazendo tudo o que pode para melar um novo pleito. As assinaturas já foram colhidas, mas o equivalente local ao TSE agora diz que elas precisam ser não de 20% do eleitorado nacional, mas 20% do eleitorado de cada estado. Só para garantir que o “recall” não aconteça este ano. Se rolasse ainda em 2016, seriam convocadas novas eleições. Se ficar para o ano que vem, Maduro até sai da presidência, mas em seu lugar ficaria um vice-presidente chavista - que pode ser apontado a qualquer momento. Por isto, concordo com a oposição venezuelana, que diz que um golpe está em curso no país. Quero ver alguém dizer que não. Os defensores do bolivarianismo andam com o rabo entre as pernas, confrontados com o desastre absoluto que é o governo Maduro. A economia da Venezuela se liquefez, a criminalidade explodiu, há dezenas de presos políticos. O parlamento de lá está convocando a população a resistir, e a sessão de ontem acabou em pancadaria quando governistas invadiram o plenário. Sempre achei que essa história iria terminar em sangue, e temo que meus pressentimentos se tornem realidade.

domingo, 23 de outubro de 2016

BENDITA FRUTA


O público da televisão talvez não faça ideia da importância de Antonio Pitanga, pois ele teve poucos bons papéis nas novelas. Já sua carreira na telona é longa e poderosa. O cara trabalhou com todos os grandes diretores brasileiros do Cinema Novo, e participou de alguns dos nossos maiores clássicos. Além disso, é uma figura absolutamente adorada por seus colegas. Sua filha Camila, ao lado de Beto Brant, dirigem o documentário "Pitanga", que resgata essa trajetória excepcional e está passando na Mostra de São Paulo. O filme é basicamente uma sucessão de reencontros do ator com as pessoas que marcaram sua vida, com muitas risadas e algumas lágrimas. Também há inúmeras cenas dos títulos de sua filmografia, e nelas aparece um homem carismático e intenso. Acima de tudo, transparece o ser humano que ele é: generoso, consciente, articulado. Mas o mais divertido é perceber que quase todas as mulheres que dão depoimentos foram suas namoradas - inclusive Maria Bethânia. O homenageado chega a dizer "pitanga é fruta para chupar, como diz o Aurélio". "Pitanga", o filme, também é uma delícia.

FORA, RENAN

Boa parte do Brasil se levantou contra Dilma Rousseff e ela caiu. Quase todo o país se levantou contra Eduardo Cunha e ele não só caiu como foi preso. O que está faltando para a gente se unir contra Renan Calheiros? O presidente do Senado é tão bandido quanto os mais notórios hóspedes da carceragem da PF em Curitiba. No entanto, seu estilo discreto e suas saídas pela tangente conseguiram que ele não se tornasse um alvo da fúria cidadã. Mas deveria. Renan é um dos epicentros da corrupção no Brasil e já deveria ter ido em cana pelo menos desde 2007, quando estourou o escândalo de sua filha bastarda, sustentada com dinheiro de propina. Tê-lo no comando de uma das casas legislativas é um perigo constante para a Lava Jato. O cara volta e meia faz ameaças, como agora, neste episódio da prisão de agente da polícia do Senado. Está mais do que na hora do "fora, Renan" virar um grito de guerra.

sábado, 22 de outubro de 2016

ELLE BELLE ISABELLE


Paul Verhoeven pensou em chamar, para o papel principal de "Elle", atrizes com quem já tinha trabalhado antes, como Sharon Stone ou Carice Van Houten (a Melisandre de "Game of Thrones"). Acabou preferindo rodar o filme na França, e convidou Isabelle Huppert para um dos melhores personagens do cinema atual. Michèle Leblanc é a anti-vítima: nem um estupro violento faz com que ela se faça de coitada. É sensual, amoral, sem culpa nenhuma, nem a de ser má de vez em quando. Mesmo já sendo avó, ainda quer transar adoidado: neste ponto, e também na independência que insiste em ter, lembra mesmo a Clara de "Aquarius". Mas difere no senso de humor, que Isabelle consegue conferir quase sem abrir um sorriso. Não há exatamente uma trama: há um jogo perverso entre ela e seu violador, que volta outras vezes, e também um passado escabroso que levanta dúvidas sobre o verdadeiro caráter de Michèle. Ou não, pois ela não mente. Ela se apresenta como ela é, e sempre deixa claro o que quer. "Elle" causou furor em Cannes, apesar de não ter levado nenhum prêmio. É o escolhido da França ao Oscar de filme estrangeiro, e Isabelle Huppert também periga emplacar sua primeira indicação na Academia de Hollywood. Merecem, porque "Elle" é belíssimo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

ORIENTE MEDIANO


Pronto, começou mais uma Mostra de Cinema de São Paulo. Nem vou reclamar que a programação do Festival do Rio é bem mais bacana, porque não estou com muito tempo disponível e o evento paulistano tem títulos de sobra que me interessam. Este ano comecei minha maratona com três filmes sobre e/ou do Oriente Médio. O primeiro foi do diretor argelino Rachid Bouchareb, que já foi indicado duas vezes ao Oscar. "O Caminho de Istambul" foi feito para a TV, e trata de um problema cada vez mais comum na Europa: jovens que se convertem ao islamismo e aderem ao ISIS. O roteiro foca na mãe de uma moça que foge com o namorado para a Síria, e seus esforços para trazê-la de volta. O orçamento limitado impede que haja cenas de batalha ou maiores produções, mas a atriz Astrid Whetnall supera qualquer efeito especial. O desfecho também escapa do óbvio final feliz, deixando claro que essa tragédia ainda está longe de acabar.


Um filme ainda mais impactante é "O Apartamento", indicado pelo Irã para concorrer no próximo Oscar (o diretor Asghar Farhadi já ganhou uma vez, com "A Separação"). O personagem central é um cara bastante liberal para os padrões da república islâmica: professor de literatura, diretor e ator de teatro, montando nada menos que a clássica peça americana "A Morte do Caixeiro-Viajante". Mas, no fundo, o sujeito é tão machista quando os aiatolás, e não se importa em destruir o próprio casamento para, supostamente, limpar a honra que julga ultrajada. "O Apartamento" ganhou os prêmios de melhor ator e roteiro em Cannes, e o estilo da câmera lembra o nosso "Aquarius". Entendi o filme como uma grande metáfora: o prédio que está prestes a desabar na sequência inicial é o próprio país, com os alicerces carcomidos pela escavadeira do conservadorismo.

Não gostei de "Tempestade de Areia". É a escolha de Israel para concorrer ao Oscar, e acho que é a primeira vez que o país indica um filme falado em árabe. Aqui o assunto também é o machismo. Numa família de beduínos, a mãe sofre porque o marido casou-se com uma segunda esposa, e a filha sofre porque arranjou, à revelia dos pais,  um namorado na faculdade. Contando assim parece razoável, mas é chato pacas. E o fato deles serem árabes num país dominado por judeus nem entra em questão. Aposto que havia filmes melhores no páreo e que a seleção foi política. Assim comecei minha Mostra: um filme mediano, um bom e um ruim. Média 6, passou.

A CASA DA MÃE JOANNE

O ano não está sendo fácil nem no Vale dos Homossexuais. Bibas fervidas do mundo inteiro foram traídas por divas como Rihanna e Beyoncé, que lançaram álbuns sem nenhum hit óbvio para as pistas. Agora é a vez de Lady Gaga abandonar o figurino de Mother Monster e se mostrar menos exótica, mais pé no chão. A mudança já é visível no título do novo trabalho: "Joanne" era uma tia que morreu antes dela nascer, e também seu nome do meio. O som também não tem arranjos totalmente eletrônicos, batidas dance ou refrões onomatopaicos tipo oooh lalala. A Germanotta agora surge como uma mistura de cantoras indie, à la Regina Spektor ou Fiona Apple, com boas doses de country e rock'n'roll. Dito isso, "Joanne" não tem experimentação. Não se preocupa em soar diferente, para o bem e para o mal. Culpa do produtor Mark Ronson, que participa de todas as faixas e tem enorme reverência pelo passado? O resultado é um disco sem truques nem frescuras, bem direto ao ponto e audível do começo ao fim. Todas as composições são boas, e a voz de Gaga muitas vezes soa rascante, longe da perfeição artificial do ProTools. Minha música favorita é "Hey Girl", o dueto com Florence Welch. Já disse aqui que Florence era uma espécie de versão britânica de Gaga, mais intelectualizada. Ela também passou por um processo de desglamourização, e seu disco do ano passado tem parentesco com "Joanne". O encontro dessas duas moças talentosas é o ponto alto desse álbum que certamente irá desapontar o público boateiro, sem necessariamente conquistar novos fãs. Mas é um passo sólido e até ousado para uma artista que quer fazer carreira ao abrigo dos modismos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

BEBÊ CHORÃO

O debate de ontem foi o mais consistente dos três que precedem a eleição americana. Mesmo assim, como o escorpião da anedota, Donald Trump não conseguiu esconder o escrotalhaço que de fato é. A toda hora ele interrompia Hillary Clinton com frases do tipo "você é que é, você é que é, você é que é", dignas de uma briga durante o recreio da segunda série. Seu gestual também é asqueroso: aqueles dedinhos erguidos, aquela boquinha fazendo muxoxo, tudo nele trai a criança mimada que sempre foi. E o babaca ainda deu mais um tiro no próprio pé ao dizer que não sabe se vai respeitar o resultado das urnas. Parece aquele amigo nosso que jogava o tabuleiro de War pelos ares quando percebia que ia perder. Espero, de todo o coração, que esta tenha sido a última vez que vimos Trump falando por mais de 15 segundos.

CUNHA LÁ

E
Este ano meu presente de aniversário chegou um dia antes. Como 99% do Brasil, eu também me regozijei com a prisão de Eduardo Cunha. E o mimo ainda veio com um bônus: a tentativa dos petistas aguerridos de manter a narrativa de que Sergio Moro é o inimigo no. 1 da pátria. "Cunha será solto em 24 horas", "só foi preso por causa do artigo de Lula na Folha", "isto é só para despistar". Mais, queridos, está muito engraçado. Moro não é perfeito: já cometeu algumas barbeiragens, já avançou o sinal, volta e meia deixa transparecer que não é 100% imparcial. Mas é realmente difícil acreditar  (e eu me incluo nisso) que existe gente tão disposta assim a combater a corrupção, venha de onde vier. O que acontece agora? Cunha de fato sabe muita coisa de muita gente, e sua delação premiada pode fazer o sistema político brasileiro entrar em fissão atômica. Tomara? Ah, e um recado para os que reclamam da Lava Jato. Você estão fazendo o jogo do PMDB, o partido golpista.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

SE SÃO SUAS, VOCÊ PODE DALLAS

Há uma "tradição" curiosa na TV americana: os "homens do tempo" costumam ser gays (por aqui são quase sempre mulheres que apresentam a previsão). Talvez seja um preconceito da própria indústria, que não deixa esses profissionais irem para posições de maior prestígio. E existem pelo menos dois casos antigos de ex-weathermen que largaram a carreira para se dedicarem aos filmes pornôs. Esta semana a mídia cor-de-rosa está em polvorosa porque alguém descobriu que Dallas Steele, que já está dando pinta há meses, na verdade é o repórter Jim Walker, que passou pelas redes americanas CNN, NBC e Fox. Depois da morte do marido, o cara deu um novo prumo, aham, para a própria vida. Como ainda bate um bolão aos 44 anos e é ativo, está fazendo sucesso com o público que curte "daddies", e ninguém tem nada a ver com isto. Ficou curioso, né? Clique aqui e veja Dallas Steele em ação. Mas, pelamordedeus, não abra no computador do trabalho - ou você também terá que dar outro prumo à sua carreira.

UM CAAALOROSO ABRAAAÇO

Tenho amigos cariocas que AINDA estão na dúvida sobre em quem vão votar no 2o. turno. Para ajudá-los a se decidirem, sugiro que confiram a última do "bispo" Crivella. O candidato da Igreja Universal entrou na Justiça para obrigar o Sensacionalista a retirar do ar o vídeo acima. Se ele já faz isso agora, imagina quando estiver no comando dos cofres da Prefeitura - e com o Garotinho do lado.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

QUEREM ACABAR COMIGO

Um dos assuntos mais comentados do dia de hoje é o textão assinado por Lula que a Folha de S.Paulo publicou. Claro que o artigo está gerando de um tudo, das inevitáveis gracinhas do tipo "ele finalmente aprendeu a ler e escrever" às também inevitáveis reações apaixonadas. É bastante improvável que sirva para alguém mudar de opinião. Quem acha que o ex-presidente está sendo perseguido pelo malvado Sergio Moro, que quer destruir o Brasil, vai continuar achando. Quem acha que não é possível que alguém que tenha ficado oito anos no poder e outros seis em seus bastidores não soubesse de nada, idem ibidem. Quem lê meu blog sabe de que lado eu estou. Mas concordo com Lula num ponto: há de fato um movimento para sufocar o projeto político encabeçado por ele. Só que esse projeto não é exatamente a terra do leite e mel em que ele diz querer transformar o Brasil, mas a eternização do PT no poder. Estava dando tudo certo, até que Dilma e Mercadante tentaram se livrar do PMDB. Some-se a isto o péssimo estado da economia, e deu no que deu. Amanhã o jornal vai estar cheio de cartas pró e contra Lula. De qualquer forma, sinto que o tempo dele está perto do fim.

DE OLHO EM MOSSUL

Este ano está especialmente pródigo em notícias horríveis, mas há uma coisa boa acontecendo neste exato momento: o Estado Islâmico está morrendo, ou, pelo menos, sendo ferido de morte. O retrocesso dos terroristas já contabiliza a perda de Palmira, na Síria. Naquele mesmo país, estão a ponto de cair Raqqa, a capital informal do ISIS, e Dabiq - tão simbólica para esses fanáticos que dá o nome a uma de suas revistas online. Mas o maior troféu será Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, no limite com a região do Curdistão. O cerco pode ser longo, ou não: já estão levantando acampamentos nos arredores para receber os refugiados. Graças à internet, podemos acompanhar a batalha à distância. E nenhum canal é mais intenso do que o Mosul Eye, que tem página no Facebook. Eu o ago há meses, e fiquei preocupado quando as notícias secaram de repente - imaginei que seus responsáveis tivessem sido pegos. Mas agora ele está à toda, publicando vídeos e boletins o dia inteiro. Em árabe... E a tradução automática gera pérolas como "Isis encontrados dentro de mosul, mas eles não aparecem tanto, alguns bairros desapareceram dela Isis totalmente, especialmente vivo ubaida, vivo a solidão, vivo o açúcar, mas a sua proliferação maior no cook mim e dignidade, no entanto, transportando-os postos. Lá."

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O MANUAL DO VIADO-MIRIM

Quem me dera que "Um Livro para Ser Entendido", do Pedro HMC, já existisse quando eu era um efebo assustado com a própria homossexualidade. Teria sido muito mais fácil sair do armário e vencer meu maior inimigo, que era eu mesmo. O livro do criador do Põe na Roda é um compêndio prático sobre a viadagem,  voltado basicamente para a garotada que faz o sucesso de seu canal no YouTube. Os capítulos são didáticos, mas escritos numa linguagem leve e divertida. Pedro conta muito de sua história pessoal enquanto explica que ninguém "opta" pela própria orientação sexual, e que quem irá mesmo para o inferno serão os homofóbicos. Também traz dicas preciosas para amigos e parentes dos LGBT, e links para vídeos do PnR que ilustram os assuntos discutidos. É uma obra tão básica e fundamental, e, no entanto, não me lembro de nada parecido no mercado editorial brasileiro. Até quem já é grandinho e resolvidíssimo vai se entender melhor com esse livro.

ZERO ZERO NERD


Alguns anos atrás, eu jurei que nunca mais iria ler um livro do Dan Brown. Mas essa jura não se estendeu aos filmes baseados em sua obra. Ontem lá fui eu encarar "Inferno", e não é que me diverti? O "simbologista" (profissão que não existe no mundo real) Robert Langdon está se transformando no James Bond dos nerds, vivendo aventuras agitadas em cenários glamurosos com um levíssimo verniz cultural por cima. A trama faz pouco sentido, mas alguns dos defeitos do livro foram atenuados pelo roteiro. A essa altura, Tom Hanks já faz o protagonista no piloto automático, mas coadjuvantes como o francês Omar Sy e a dinamarquesa Sidse Babett Knudsen (que está em todas, repare bem) salvam o dia. Melhor ainda são as locações em Florença, Veneza e Istambul (mas o interior da Hagia Sophia foi recriado num estúdio em Budapeste). Com algumas surpresinhas e aquele ar pretensioso de quem acha que sabe tudo porque leu na Wikipedia, "Inferno" é um passatempo elegante e inofensivo. Nem por isto eu vou voltar a ler Dan Brown.

domingo, 16 de outubro de 2016

QUE GRANDE TENDA É ESTA?

"É o tendão de Aquiles". William Shakespeare nunca escreveu esse trocadilho em português, mas ele está no texto da montagem de "Tróilo e Créssida" que acaba de entrar em cartaz em SP. O diretor Jô Soares não teve o menor pudor de dessacralizar o bardo inglês - e, de fato, trazê-lo de volta às origens, quando suas peças eram a diversão do populacho. Também tentou deixar mais engraçada essa "comédia sinistra", que na verdade se passa durante a trágica Guerra de Tróia. Por isto, fez com que nada menos que quatro personagens tenham trejeitos gays. Inclusive o rei Menelau, cujos cornos provocados pela fuga de Helena com Páris estão na origem do conflito. Funciona: o público do Teatro do SESI (que não cobra ingressos) se diverte à pampa, e ainda conhece a obra menos badalada de Shakespeare. Talvez porque "Tróilo e Créssida" não tenha protagonistas definidos nem um final conclusivo.  O casal-título protagoniza apenas uma das subtramas do texto, que, além do mais, termina antes do que seria um clímax natural - o cavalo de Tróia. Mas todos aqueles personagens clássicos estão lá: além dos já citados, ainda tem Ulisses, Heitor, Cassandra... O elenco trabalha em chaves diferentes, da comédia rasgada à tragédia pesada, mas estão todos bem. Vou destacar meus amigos Otávio Martins e Tuna Dwek, além da música original de Ricardo Severo. Os figurinos são lindos e eficazes, com os gregos de branco e os troianos de preto. Deixam fácil saber quem é quem, e lembram aqueles soldados do Império na Estrela da Morte de "Star Wars". Já não gosto tanto assim do cenário, nem dos capacetes de futebol americano usados pelas amazonas que irrompem em cena no final (todas lutadoras de MMA na vida real). Mas nada disto impede que "Tróilo e Créssida" seja um programão. É Shakespeare para quem nunca viu Shakespeare, popular e acessível. Como sempre deveria ser.

sábado, 15 de outubro de 2016

JIHAD CARIOCA

Duas religiões se enfrentam na guerra santa no segundo turno do Rio de Janeiro. De um lado, a fé no d ízimo, na isenção de impostos para as igrejas, no moralismo de fachada e nos mesmos velhos esquemas que governam a cidade desde os tempos de Mem de Sá. Do outro, o culto ao Estado não só como provedor, mas como controlador de todos os aspectos da vida das pessoas, revestido pelo charme dos artistas "do bem". A maioria dos cariocas não queria nem um nem outro, mas é o que temos para o momento. E o momento não é de dúvida: por mais que pululem textos antissemitas de entidades ligadas ao PSOL, por mais que se ache o Jean Wyllys feio, chato e bobo, quem está do outro lado é nada menos que a Igreja Universal do Reino de Deus. A mais notória e voraz das organizações neopentecostais que brotaram no Brasil nos últimos 50 anos, e a que está mais bem aparelhada para cumprir a meta de conquista da máquina estatal. Como se não bastasse, seus maiores aliados são o clã Garotinho. Não se deixe enganar com frases do tipo "vai ter Parada Gay" ou "governaremos para toda a cidade". Quem está a um passo de chegar na Prefeitura é o obscurantismo religioso, amparado pelo mais crasso banditismo. Mesmo se você for de direita, vote em Freixo no dia 30 de outubro. Crivella é a encarnação de tudo que há de errado na política brasileira. Ah, e um recadinho para os amigos do balneário que ficam zoando os paulistanos por causa da eleição do double cozinha royal deluxe: mil vezes uma tela do Romero Britto do que a Fogueira Santa de Israel, falou?

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O PILOTO SUMIU


Os "voos da morte" são a página mais horripilante da história das ditaduras militares que dominaram o Cone Sul na década de 1970. Brasil, Argentina, Chile e Uruguai mandavam presos políticos darem uma voltinha de avião; lá de cima, os coitados eram atirados no mar. "Kóblic" conta a história (fictícia) de um piloto que se recusa a abrir a porta da aeronave durante um desses voos, e que por isto cai em desgraça. Ele então vai se esconder numa cidadezinha nos pampas, mas sua verdadeira identidade é descoberta com facilidade - um buraco enorme no roteiro, que de resto é bem amarrado. Ricardo Darín mostra mais uma vez porque é o deus do cinema argentino, e não param de acontecer coisas durante pouco mais de hora e meia. "Kóblic" talvez não agrade quem prefira as comédias urbanas dos nossos vizinhos, mas é um bom thriller político. E um lembrete, nesse momento em que a extrema-direita ressurge, de que o tempo dos milicos era muito, mas muito pior.

BÁRBAROS NO PORTÃO DE EMBARQUE

Primeiro todo mundo riu com o vídeo da velhinha que saiu dando socos e pontapés em Eduardo Cunha no aeroporto Santos Dumont, no Rio. Depois bateu uma certa culpa. Muita gente boa foi às redes sociais lamentar o episódio, e o próprio Leonardo Sakamoto escreveu um artigo criticando a nossa tendência a fazer justiça com as próprias mãos. É um sintoma claro da fraqueza e do descrédito das nossas instituições: agredimos os malvados em praça pública, porque sabemos que não dá para confiar no Estado. Daí para o linchamento, falta pouco. Concordo com tudo isso, apesar de odiar Eduardo Cunha com todas as minhas forças. Mas também vejo um lado bom nessa história. Durante séculos a fio, os brasileiros nos acostumamos a tratar as autoridades com um respeito muito além do justificável. Esta é a terra do "sabe com quem está falando?"; basta o sujeito dar uma carteirada para seu interlocutor se borrar de medo. Por isto, acho saudável que estejamos perdendo o medo de afrontar os poderosos. É maravilhoso que eles se sintam acossados por quem de fato lhes paga os salários, apesar do risco permanente de descambarmos de vez para a barbárie.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

FASHION WEAK


O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn quer tanto se tornar uma grife que agora assina apenas com suas iniciais: NWR. Também quer ser um cineasta modernex e controverso, mas só consegue ser pretensioso. E chato. "Demônio de Neon", seu último filme, é uma beleza. Parece um editorial de moda de 15 anos atrás. Aliás, aí mora um de seus problemas centrais: um filme sobre top models, a essa altura do campeonato? Ainda se em algum momento elas começassem a cantar "freedooom", mas nem isso. A trama tem um pé no absurdo. Uma maneca recém-chegada a Los Angeles - Elle Fanning, lindinha mas sem borogodó - rouba trabalho de todas as outras, e assim consegue um monte de inimigas que querem matá-la. Sonho, delírio ou só um pretexto para imagens pseudo-chocantes? A trilha é ótima, a fotografia é incrível e a afetação é absoluta. Gostava mais quando o demônio vestia Prada.

OS TEMPOS ELES ESTÃO A-MUDANDO

As casas de apostas de Londres devem ter quebrado. Ou não: vai ver que ninguém acreditou que Bob Dylan iria ganhar o prêmio Nobel de literatura. Mas de vez em quando a Academia Sueca ignora os autores obscuros de países periféricos e prefere alguém que as pessoas normais conheçam. Questionar a qualidade da poesia de Dylan é ridículo: em quase 60 anos de carreira, o cara já provou dezenas de vezes que é um dos grandes, e que a música só serviu para difundi-lo a um público maior. Além disso, o Nobel mostra não só que está afinado com os tempos que correm como também é pop, no sentido amplo da palavra. Eu, pessoalmente, nunca fui um grande fã de Dylan. Comprei um único disco dele na vida, "Desire", de 1975, que na época marcava uma espécie de retorno à ativa. Mas tenho o maior respeito pelo cara, e fiquei contente com essa escolha.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

PEC-CADO CAPITAL

Estou começando a formar uma opinião a respeito da PEC 241, que impõe um teto aos gastos públicos por 20 anos. Repito: estou começando. Ainda não é uma opinião definitiva - e mesmo esta não existe, pois sempre pode mudar. Mas por enquanto ela é a favor. Sim, você leu direito: por tudo o que eu li até agora, sou a favor da PEC 241. Não, não sou a favor de que cortem toda a verba da saúde e educação para todo o sempre, nem que confisquem a cadeira de rodas da viúva que não pagou a prestação da hipoteca. Tampouco acho que Estado bom é aquele que não gasta nada. Mas o Brasil gastou demais, muito além do que podia, como alguém que abusa do cartão de crédito. Agora não tem jeito: tem que apertar o cinto. Claro que há milhões de detalhes que podem e devem ser discutidos, principalmente em saúde e educação. O Brasil está longe de gastar o suficiente nessas duas coisinhas básicas, e congelar esse investimento beira o suicídio. Aliás, "congelar" nem é o termo correto, pois a PEC 241 permite que o gasto aumente de acordo com a inflação e o crescimento do PIB. É difícil não se deixar contaminar pelos termos tendenciosos usados tanto por quem é favor quanto por quem é contra, mas eu juro que estou tentando. Repito: tentando.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

D.R. EM SÉRIE


Entre a década de 1920 e a de 1970, quase 80% dos filmes produzidos em Hollywood eram de amor. Hoje em dia o romance já não domina tanto assim a dramaturgia, mas é claro que ainda rende muito - basta ver como as novelas ainda fazem bastante sucesso. Já nas séries ele não se faz tão presente, talvez porque o maior desafio seja abordar os relacionamentos amorosos de uma maneira original. Nesse ponto, "The Affair" se destaca. O programa chegou ao Netflix e eu finalmente consegui vê-lo, dois longos anos depois de ter estreado na TV americana. E gostei, porque um dos personagens principais não deixa de ser o próprio storytelling. Cada episódio é dividido em duas partes, onde um homem e uma mulher que estão tendo um caso extraconjugal contam suas versões dos mesmos acontecimentos. Ela acha que foi ele quem a paquerou, ele se lembra dela usar um vestido mais decotado do que de fato usava, e assim por diante. O ritmo é meio leeento, mas os atores são ótimos e as paisagens (em Montauk, na chiquérrima região dos Hamptons, perto de NYC) são lindas. Aconteceu algo que eu ainda não sei o que é (sem spoilers, porfa!). Mas estou curioso para ver como esticaram essa trama até a terceira temporada, que já começou nos EUA.

"Easy", como próprio nome diz, é mais fácil de se ver. São só oito episódios de meia hora, todos já disponíveis no Netflix. E cada um deles foca num casal diferente, apesar de alguns aparecerem em mais de um capítulo. Aqui o tema é, basicamente, como manter o tesão quando ainda há amor, e vice-versa. As situações são engraçadas e bastante realistas, apesar de interpretadas por nomes famosos como Orlando Bloom (que dessa vez só mostra a bunda). Aqui o sexo é meio canhestro, incômodo, constrangedor, como costuma ser entre pessoas de verdade. Todo mundo que vê "Easy" está se viciando: a série está se tornando uma "Stranger Things" para adultos.

Mas a minha favorita é mesmo "Divorce", que acabou de estrear na HBO. Bastou um único episódio para eu me encantar com o novo projeto de Sarah Jessica Parker, 12 anos depois do final de "Sex and the City". Dessa vez ela faz o oposto de uma mulher que procura marido: quer mesmo é se livrar dele. Nenhum dos dois é santo, e o espectador torce a cada cena por um deles. Claro que ainda não dá para saber como a história vai se desenrolar (a HBO não disponibiliza a temporada toda de uma vez), e um casal fazendo D.R. não é exatamente sinônimo de diversão. Mas as credenciais dos envolvidos justificam as expectativas.

I'VE HAD THE TIME OF MY LIFE

No I've never felt like this before.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

CIRÃO DA MASSA

As mesas com os jornalistas estrangeiros estavam ótimas, mas a maior diversão do 3o. Festival Piauí Globonews de Jornalismo foram mesmo as entrevistas com João Doria e Ciro Gomes (Eduardo Paes e Dilma Rousseff, anunciados antes, cancelaram na última hora - por que será, hein?). Cirão, para mim, foi uma revelação: há muito tempo que eu não prestava a menor atenção nele, e nunca o havia visto falar durante tanto tempo (uma hora e meia). O cara é um pândego, e uma colherada de pimenta no suflê de chuchu em que a política brasileira está se transformando. Falou barbaridades. Chamou Temer de "golpista salafrário" diversas vezes, disse que Lula já era, gabou-se de ser divino e maravilhoso. Mas não elogiou só a si mesmo: teve palavras boas para Fernando Haddad, por exemplo, "um quadro que se leva anos para formar". Além do mais, fez questão de mostrar cultura e preparo. Citou autores clássicos, soltou estatísticas sobre tudo, ostentou intimidade com líderes mundiais. Ou seja, já está em campanha para 2018. O fato é que eu, virgem que era, precisei me conter para não gritar "já ganhou!" em pleno auditório. Ainda mais porque seria muito divertido vê-lo todos os dias na TV com esta mesma ausência de papas na língua. E anotem aí, porque pode estar chegando uma coincidência curiosa: dois candidatos no segundo turno para presidente nascidos em Pindamonhangaba. Apesar de criado no Ceará, Ciro nasceu na mesma cidade que Geraldo Alckmin.

AGARRA E NÃO LARGA

Ufa. Estou aliviado. Donald Trump se saiu bem no debate de ontem. Quer dizer, se saiu bem pras nêgas dele - os famosos “deplorables”, para os quais ele pode falar qualquer merda. O candidato republicano conseguiu agradar ao seu eleitorado hardcore, e isto basta para que ele se sinta amado e empoderado. O que também significa que ele não irá renunciar ao páreo. Tive medo que isto acontecesse no sábado, quando a repercussão negativa ao vídeo de 2005 onde Trump pode ser ouvido dizendo que agarra as mulheres pela xoxota levantou um tsunami de repúdio em seu próprio partido. Achei que a cúpula do GOP daria um jeito de defenestrá-lo e substituí-lo por alguém mais palatável, e é aí que mora o perigo. Um adversário mais consistente poderia ser fatal para Hillary Clinton, que lidera as pesquisas por uma margem muito mais estreita do que que deveria. A melhor chance dela se eleger é Trump continuar  continuar falando merda, até o dia da eleição. Que Deus nos dê forças.

domingo, 9 de outubro de 2016

VIDA DE TRAINEE É DIFÍCIL

É difícil como quê. Fui aceito como ouvinte no Programa de Treinamento Sênior da Folha de São Paulo, mas na prática estou fazendo a mesma lição de casa que meus colegas trainees. Além das aulas noturnas de segunda a quarta, também participo de algumas atividades fora do jornal. Como o 3o. Festival Piauí Globonews de Jornalismo, que está rolando em São Paulo neste fim de semana. Ontem assisti a quatro mesas com jornalistas estrangeiros e, num telão, à longa entrevista de João Doria que está bombando nas redes sociais. Hoje tem mais, das 10 da manhã às 7 e meia da noite. Ainda tenho dois textos para fazer até segunda, e uma pauta até terça. E você, está fruindo do seu fim de semana?

sábado, 8 de outubro de 2016

PORRADA EM QUECHUA


Um dos melhores filmes do ano está em cartaz em apenas um horário de uma única sala em São Paulo e causando pouca repercussão. Talvez porque "A Passageira" seja do Peru, um país sem grande tradição cinematográfica. Mas não se deixe enganar: trata-se de um thriller político de primeiríssima linha, cheio de porradas literais e metafóricas. Um taxista reconhece numa passageira a menina que foi, durante um ano, a escrava sexual de um coronel - hoje um velho com Alzheimer, a quem o personagem ainda serve. Ele então arma um plano mirabolante para conseguir dinheiro para a moça, que está cheia de dívidas. Mas há muitas surpresas até o final, e nenhuma cena sobrando durante quase duas horas. Magaly Solier (de "A Teta Assustada", indicado ao Oscar em 2010) se destaca num ótimo elenco multinacional, e faz um impressionante desabafo em quechua. "A Passageira" machuca, mas quem não gosta de apanhar de vez em quando?

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

LES MECS DE L'ANIMALERIE


Eu nunca ouvi tanta música francesa como agora, nem quando voltava de viagem. A culpa é do Apple Music, que descobriu minhas preferências e libera uma lista com as novidades francophones toda sexta-feira. Uma das melhores descobertas foi a dupla Paradis, que parece uma versão parisiense dos Pet Shop Boys até na pegada gay de seu álbum "Recto Verso" (o clipe da música-título, no entanto, é decepcionantemente hétero). Eles fazem exatamente o tipo de som que eu mais gosto no momento: um pop suave com lindas melodias e toques eletrônicos. São descendentes diretos do grande Etienne Daho e primos-irmãos de Christine and the Queens. E já entraram para minha lista dos melhores do ano, lááá em cima.

Outra dupla do mesmo gênero é The Pirouettes, formada por um rapaz e uma moça. Um tipo de formação que é comum, aliás, no pop de muitos países latinos, mas não no Brasil. Só os nomes deles já são tout un programme: Vicki Chérie e Leo Bear Creek. "Dans le Vent de l'Été", o primeiro single do disco "Carrément Carrément", soa na verdade como duas músicas distintas, ambas ótimas. As outras faixas não são assim tão sublimes, mas OK, ça marche.

Adrien Soleiman foi descoberto num concurso da revista Les Inrockuptibles, e sua música é alguns tons mais sombria do que a das minhas sugestões anteriores. Mesmo assim, "Brille", seu trabalho de estreia, é agradável do começo ao fim, e seu visual de urso destoa da fragilidade costumeira dos mancebos  da varieté (vide as sugestões anteriores). Gostou? Então confira também Julien Doré, Polo & Pan, Aliose, Clea Vincent, Juniore, Noir Éden e Bon Voyage Organisation. 

ATIRE, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO


Um cadeirante vive sozinho numa casa imensa, onde existem pistas do acidente de carro que deve tê-lo deixado assim e matado sua filha pequena. Ele aluga um quarto para uma stripper que também tem uma filhinha. Entretanto, como espalhou câmeras por todo lado, até no porão, o cara logo descobre que a moça é namorada e cúmplice do chefe de um bando de ladrões, que está cavando um túnel para assaltar um banco. Essa premissa algo artificial é o ponto de partida do filme argentino “No Fim do Túnel”, e outras forçações de barra logo surgirão. Por que o protagonista não chama logo a polícia? Ao contrário: ele resolve melar sozinho o plano dos bandidos, e claro que não dá exatamente certo. Mas o diretor Rodrigo Grande tem mão segura, e o desfecho da história, muito bem construído, tem momentos genuínos de suspense. “No Fim do Túnel” é um thriller elegante, com ótimos atores e clima sombrio do começo ao fim. Me gustó.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

PÉGAME

Não sou um grande fã do "The Voice", mas não posso deixar passar batido o ponto alto da estreia dessa nova temporada. O cubano Alexey Martinez irrompeu no palco cantando "Pégate" do Ricky Martin como Vênus emergindo das águas de Chipre: pronto. Que voz, que charme, que suingue - e que coragem. Não é incrível termos um cara desses já declarando, na primeiríssima vez em que aparece na televisão nacional, que ama muito o namorado? Ainda teve beijo entre os dois na coxia e mensagem em vídeo da filha dele, que deve ter ficado em Cuba. Alexey já é bem conhecido no circuito de shows de Salvador, mas é óbvio que tem tudo para se tornar um grande astro. Estou ouvindo um "já ganhou"?

(Para assistir à apresentação dele na íntegra, com beijo e tudo, clique aqui)

NÃO VOTAR É VOTAR NÃO?

Tenho visto muitos amigos reclamando nas redes sociais que a eleição do João Doria em SP não foi lá tão legítima assim, por causa do altíssimo número de votos brancos, nulos e abstenções. Hoje até o Jânio de Freitas escreveu na Folha que houve muito mais eleitores que NÃO votaram no double coxinha royale deluxe do que votaram nele - Doria foi escolhido por apenas 37% do universo de paulistanos com título de eleitor. Engraçado que não ouvi ninguém dessa turma falando o mesmo quando a Dilma foi reeleita em 2014, com seus lendários 54 milhões de votos. Que são, de fato, mais dos que os 51 milhões de Aécio Neves. Só que... se você somar os brancos e nulos daquela votação, os eleitores que se deram ao trabalho de ir até uma urna para NÃO votar em Dilma chegam a 58 milhões. Sem falar que outros 30 milhões justificaram ausência: o número praticamente alcança espantosos 90 milhões. O que quer dizer tudo isto? Que talvez a regra brasileira seja falha. Se o candidato precisasse atingir um certo patamar do número TOTAL de eleitores, não apenas dos votos válidos, pode ser que essa gritaria nem existisse. Por outro lado, já está claro que o voto não é mais obrigatório no Brasil. Com multas por volta de R$3,50,  cada vez mais gente prefere desfrutar o domingão de outro jeito.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

REDE FURADA

Acho que nenhum partido (dos que contam, claro) se saiu pior nestas eleições do que a Rede Sustentabilidade de Marina Silva. Apesar de vários bons nomes concorrendo, nenhum deles foi eleito sequer vereador no Rio ou em São Paulo. O maior impacto que a legenda conseguiu foi o furor uterino provocado pelo "candigato" carioca Alessandro Molon ("imagina se fosse duron", como disse uma internauta). Esta semana a Rede levou outro golpe sério: dez membros proeminentes deixaram o partido, e ainda escreveram uma carta coletiva explicando suas razões. Muito do que eles dizem já dava para desconfiar, como a hesitação eterna de Marina em se comprometer com quase qualquer coisa. Essa indefinição já está lhe custando caro, e ela pode estar fora do baralho em 2018. Melhor assim?

LUZ, CÂMERA, FORA TEMER

Alguém aí viu a cerimônia de entrega do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, transmitida ontem à noite pela canal Brasil? Não, né? Pois fique sabendo que perdeu um programa divertidíssimo. Este ano a festa ganhou direção artística de Rafael Dragaud, roteirista e diretor da Globo, e emulou as premiações similares do showbiz americano. Só que continua sendo feita para os amigos da plateia, e não para o telespectador - e é justamente aí que está a graça. Para começar, não houve breaks comerciais. Mas a maior diversão foi o comportamento dos apresentadores e premiados, que não estavam nem aí para o fato do evento estar sendo televisionado. Quando Daniel Filho foi homenageado pelo conjunto da obra, por exemplo, Gregorio Duvivier leu alguns tuítes malvados (provavelmente falsos) sobre o diretor, projetados no fundo do palco. Entre outras coisas, saiu que Daniel é um "motherfucker" ("e é mesmo, ele é casado com minha mãe", disse Gregorio) e que tem pau pequeno. Além disso, todo mundo - mas todo mundo mesmo - aproveitou o microfone para gritar um "primeiramente...", apoiar Marcelo Freixo ou reclamar do resultado da eleição paulistana, essa marvada. Até os comentaristas do canal Brasil (que pertence à Globosat - não confundir com a TV Brasil, estatal) se engajaram: um deles disse que os protestos eram por causa "do momento que atravessa o país, quando podem se perder conquistas sociais". De resto, os resultados foram os esperados, com a maioria dos troféus se dividindo entre "Que Horas Ela Volta?" e "Chatô, o Rei do Brasil" (inclusive para a direção de arte, de cuja equipe participou minha cunhada - go, Celina, go!). E mesmo com tanta produção, o GP do Cinema Brasileiro ainda não se profissionalizou. Para começar, por que premiar em OUTUBRO os melhores do ano passado? Se quisesse influir nas bilheterias, a premiação teria que ser no começo do ano. O amadorismo é tamanho que a lista dos vencedores pode ser conferida nas notícias da imprensa, mas não no próprio site da Academia Brasileira de Cinema. Alguém poderia atualizar, por favor?

terça-feira, 4 de outubro de 2016

MURO DE ARRIMO


As bis que rebolam nas buatchys talvez nem saibam que elas poderiam não estar aí se não fosse pelo levante de Stonewall. Foi nesse bar em Nova York, no dia 28 de junho de 1969, que os clientes se recusaram a ir em cana e atacaram a polícia com tijolos. A revolta durou vários dias, e mudou a história. Um ano depois, foi comemorada com a primeiríssima parada do orgulho gay do mundo, e deu impulso ao movimento LGBT. Esse episódio épico já rendeu filmes e documentários, mas nenhum com o orçamento de "Stonewall", que finalmente entrou em cartaz no Brasil. Trata-se de um projeto pessoal do diretor gay Roland Emmerich, mais conhecido por "blockbusters" de ação como "Independence Day". Pena que ele tenha feito um filme tão quadradinho. Ao invés de se basear nas histórias reais de quem esteve lá, Emmerich preferiu criar um protagonista imaginário: um rapaz louro, sem trejeitos, ingênuo e asseado, expulso de sua casa no interior por ter sido flagrado chupando o melhor amigo. O roteiro perde um tempão nessa trama nada original, e desperdiça figuras históricas como as drags e os ativistas que já moravam no Greenwich Village. "Stonewall" gerou polêmica assim que seu trailer foi divulgado no ano passado, e acabou sendo boicotado pela própria comunidade a quem se dirigia. Foi um fracasso de bilheteria, mas não é totalmente horrível de se ver. Especialmente para nós, homossexuais brasileiros, que achamos que direitos caem do céu ao mesmo tempo em que não conseguimos eleger um representante decente, o filme é uma aula. Junte-se a ele o infinitamente melhor "São Paulo em Hi-Fi" e começa-se a ter um retrato da trajetória acidentada que nos trouxe até a era do Grind'r.

O BREXIT DA COLÔMBIA

Dá para a gente ficar horas discutindo se o acordo de paz urdido entre as FARC e o presidente Manuel Santos era justo ou não. A mim também parecia excessiva a anistia quase absoluta e as cadeiras no Congresso que o partido que surgirá da guerrilha teria, sem precisar por eleições. Mas eu acabei me convencendo de que o "sim" era a resposta correta ao plebiscito de domingo passado, e fiquei tão desapontado quando o "não" ganhou como fiquei com a aprovação do Brexit pelos britânicos em junho passado. Democracia é uma merda, não é mesmo? É sintomático que o "não" tenha vencido nas áreas mais afetadas pela violência. O povo que perdeu mais não está a fim de deixar barato. Mas o mais triste é que, assim como aconteceu na Grã-Bretanha, a campanha da oposição não visava o bem do país, mas o ganho a curto prazo de um grupo político. O ex-presidente Álvaro Uribe melou o processo para recuperar parte do poder perdido a Santos, seu antigo pupilo, e agora o futuro é incerto. Duvido que as FARC voltem a pegar em armas, ainda mais depois depois de tantas juras de amor e coraçõezinhos com as mãos. Mas a paz neste momento, ainda que abrindo muitas concessões, recolocaria a Colômbia - um país de enorme potencial - de volta ao jogo internacional, atraindo investimentos e incrementando a economia. Depois quando eu digo que o despotismo esclarecido é o melhor sistema de governo, os pessoár manga de eu.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

JOÃO DORIA TRABALHADOR

Aconteceu o impensável. O Datafolha chegou a arriscar no sábado que o candidato do PSDB estava se aproximando de uma vitória no primeiro turno, mas o resultado final pegou todo mundo de surpresa. Tão chocante quanto é saber que João Doria venceu em 56 das 58 seções eleitorais de São Paulo - nas outras duas, no extremo sul do município, venceu Marta Suplicy. A imagem de playboy difundida pelas redes sociais não pegou no mundo real. O povão gosta de um candidato que ostenta riqueza, desde que pareça que fará alguma coisa - um truísmo descoberto por Evita Perón e explorado pela própria Marta. Que deve ter encerrado de uma vez por todas suas pretensões à Prefeitura de SP: amargou o quarto lugar em sua terceira derrota na briga pelo cargo, e terá 75 anos na próxima eleição. Melhor se consolidar no Senado. Celso Russomanno também não deve voltar ao páreo, depois de repetir o script de 2012: arrancou em primeiro com folga, só para desidratar na reta final. Bonito mesmo fez Fernando Haddad, mas nem tanto. Os pouco mais de 16% que conquistou se devem ao esforço da militância, e ele alcançou a pontuação mínima para liderar a renovação do PT. Teria emplacado com brio uma passagem para o segundo turno, não fosse o rolo compressor de João Doria. Os próximos dias serão cheios de análises de cientistas políticos, tentando entender o que se passou em São Paulo. Claro que o tempo maior no horário eleitoral pesou, claro que a estratégia de pintar o double coxinha royal deluxe como não-político colou. Doria tem muitos pontos em comum com Donald Trump: trombeteia ser um empresário de sucesso muito maior do que de fato é, apresentou "O Aprendiz" e tem propostas que trazem a barbárie de volta, como o aumento do limite de velocidade nas marginais. Pelo menos não é uma metralhadora de ofensas. No mais, eu confirmei minha reputação de pé-frio: como sempre aconteceu desde que comecei este blog, NENHUM dos candidatos que eu apoiei foi eleito. João Junior e Todd Tomorrow não ficaram nem entre os mais votados de seus partidos, respectivamente no Rio e em SP. Por aqui a eleição já foi encerrada, mas na minha terra natal a disputa ainda promete emoções. Foi um alívio e uma angústia ver Marcelo Freixo passar para o segundo turno carioca: o cara é realmente uma figura do bem, mas será que consegue derrotar o bispo Crivella? A direita somou muito mais votos do que a esquerda por lá. Freixo terá que seduzir os eleitores do centro, os que votaram em Osório e Índio da Costa, ao invés de chutar a canela de todos. Acho que esta foi a primeira eleição que refletiu o processo iniciado pelas manifestações de 2013, pois aconteceu em plena crise eco nômica e política. Não digo que o país que emerge dessas urnas seja definitivo: o momento ainda é de transição, e só em 2018 teremos uma noção mais clara do que é este novo Brasil. Mas já dá para dizer que a era pós-Lula finalmente começou.

domingo, 2 de outubro de 2016

HARRY POTTER E OS X-MEN


Toda criança se sente especial. Superior às demais, escolhida por Deus para uma missão e alvo da inveja de quem é normal. A literatura infanto-juvenil em inglês explora muito bem esse traço, e a série "Harry Potter" é só o exemplo recente mais famoso. Há muitos outros, bem menos conhecidos no Brasil. É o caso de "O Lar das Crianças Peculiares", que parece ter sido escrito sob medida para se tornar um filme de Tim Burton. O diretor, que estava em chave quase realista em "Grandes Olhos", seu último trabalho, aqui encontra novamente um material mais propenso ao delírio visual que se tornou sua marca. E ainda se dá ao luxo de desperdiçar atores do calibre de Judi Dench, que faz um papel pequeno, ou Rupert Everett, num personagem dispensável. Até mesmo Eva Green, que pode estar se tornando a nova musa de Burton, aparece relativamente pouco, como a diretora de um orfanato de crianças com poderes extraordinários - seriam X-Children? Com ritmo incessante, muitos efeitos algum humor, "O Lar das Crianças Peculiares" é um passatempo divertido. Mas não é tão especial quando as crianças que apresenta.