quinta-feira, 30 de junho de 2016

CINEMA THERMIDOR


Era uma vez um mundo onde todos eram obrigados a ter um par romântico. Soa familiar, não? E nesse mundo totalmente absurdo imaginário, onde já se viu uma coisa dessas, quem não se arranjasse até um certo tempo era transformado num animal. Pelo menos o encalhado podia escolher que bicho gostaria de ser, e o personagem de Colin Farrell resolve que quer virar lagosta. Mais não dá para contar sobre "O Lagosta", o filme mais original dos últimos tempos. Depois de ganhar um prêmio em Cannes no ano passado e arrancar elogios no mundo inteiro, essa esquisitice finalmente chega ao Brasil - mas apenas no Now, o serviço on demand da Net. Dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos e estrelado por um elenco internacional, "O Lagosta" é lindo, frio, exótico e para pensar em casa. Também é para quem gosta de se arriscar.

(Descubra que animal você deveria ser neste teste - em inglês - no site do filme)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

TURQUIA DA CONSPIRAÇÃO

Não se sabe até agora se foi mesmo o Estado Islâmico o responsável pelo atentado no aeroporto de Istambul, mas faz um certo sentido. Desde que começou a perder terreno na Síria e no Iraque, o EI vem recorrendo a este tipo de ação espetacular para projetar nos corações e mentes do Ocidente um poder que ele já não tem em seus próprios domínios. Mas não ganha muito mais do que o pavor. Foi por isto que eu pensei, então quem é que ganha com a onda de explosões e mortes que vem sacudindo a Turquia? Hmm, que tal o primeiro-ministro Recep Erdogan? O sujeito fez até mais do que estava ao seu alcance para se tornar um sultão. Perseguiu adversários políticos, calou a imprensa, manipulou eleições. Umas bombinhas aqui e ali servem para criar um clima de pânico, que só um governo autoritário seria capaz de aliviar. Prefiro acreditar que Erdogan não teria a audácia de atacar o povo e a economia de seu país, mas capaz dele sair ainda mais forte dessa tragédia toda.

PARA TODES

Propaganda não é vanguarda. Não abre portas, não aponta caminhos, não rompe estruturas. Por uma razão muito simples: a propaganda não pode correr o risco de não ser entendida. Isto não quer dizer que ela não possa ser ousada. E a melhor propaganda é aquela que vem na cola das mudanças. A que se aproveita de uma tendência (sim, se aproveita, porque o objetivo final da propaganda é vender) que ainda não está totalmente absorvida pela sociedade. É isto o que estão fazendo estes novos filmes da Avon e da Skol. Descaradamente aproveitadores, no melhor sentido. Mas por enquanto só vi na internet. TV djá!


terça-feira, 28 de junho de 2016

A GUERRA DAS PORTAS

Alguns membros do Porta dos Fundos estiveram hoje no programa "Pânico", da rádio Jovem Pan, para promover o lançamento do filme "Contrato Vitalício". E não é que o Infeliciano aproveitou mais esta oportunidade para aparecer? Ligou durante a transmissão ao vivo e praticamente não deixou ninguém falar. Curioso é que justamente uma das acusações que ele faz ao grupo é não dar "direito de resposta" - como se o Porta fosse obrigado a ceder espaço em seu próprio canal no YouTube para quem se sentiu ofendido com alguma de suas piadas. Mas o festival de desonestidades não acabou por aí: assista ao vídeo para ver como o Infeliciano dispara absurdos de maneira proposital, e ainda usa o surrado argumento de "por que vocês não fazem piada com o Islamismo"? Já fizeram, mas os muçulmanos não correspondem a um centésimo da ameaça que os teocratas representam para o Brasil. Desse jeito o parlamentar revela seu parentesco ideológico com o ISIS, e trai seu desejo secreto de bombardear quem não se alinhe com sua visão de mundo. É uma porta, sem chave nem maçaneta.

MIL PERDÕES

Te perdoo
Por tratares mal as bichas
Já caíram tuas fichas
Até que enfim
Te perdoo
Por xingares as mulheres
E a mim

Te perdoo
Por bateres nas crianças
Finalmente tu te cansas
De mentir
Te perdoo, te perdoo porque choras
Enquanto eu choro de rir
Te perdoo por te trair

segunda-feira, 27 de junho de 2016

TRIÂNGULO CHINÊS


Já que o post anterior ainda não teve nenhum comentário, vou fazer que nem a Preta Gil quando ataca de DJ, toca um funk e o pessoal reclama: ela toca outro. Portanto, lá vai mais um post sobre um assunto que interessa a poucos. "As Montanhas se Separam", do badalado diretor chinês Jia Zhang-Ke, não me seduziu. Não que seja chato: a história de um triângulo amoroso e suas consequências até que se desenvolve com agilidade, em três épocas diferentes. Mas tem algo de artificial que simplesmente não me pega, por maior que seja minha boa vontade. De qualquer forma, é um retrato interessante da China moderna e sua obsessão por dinheiro. Só não é interessante o suficiente.

O QUE FIZESTES, SULTÃO, DE MINHA ALEGRE MENINA?

Eu não consegui embarcar em "Gabriela, um Musical", mesmo adorando a história de Jorge Amado. Os problemas são muitos, a começar pela falta de cenário. Os atores trabalham num palco vazio, só realçado por luzes e algumas esteiras rolantes. Sei que é "proposta" e que os tempos estão bicudos, mas que dá uma empobrecida no espetáculo, ah, dá. Além disso, as músicas não são originais, mas sim retiradas do cancioneiro nacional. Por alguém que tem uma coleção de discos bastante limitada: só do repertório da Marisa Monte são três, e muitas delas foram estragadas por arranjos barulhentos. Para completar, se eu não tivesse lido o livro e visto o filme e as duas versões da novela, provavelmente não teria entendido as muitas tramas paralelas. Agora o lado bom: o elenco está quase todo bem, em especial a novata Daniela Blois no papel título e Mauricio Tizumba como o narrador (trabalhei com ele em "Ô, Coitado", muitos anos atrás). Mas agora lembrei de outro defeito: por que nossos diretores de musicais insistem em escalar só atores jovens? Aí, quando tem um personagem mais velho, o garotão usa uma barba postiça que deixa tudo com cara de pecinha do colégio.

domingo, 26 de junho de 2016

TORY X TORY

Agora que a poeira está baixando, ficou claro porque o futuro ex-primeiro ministro David Cameron convocou o plebiscito que decidiu pelo "Brexit". Não é que ele fosse um ardente defensor da permanência do Reino Unido na União Europeia, nem que essa questão fosse a que mais fustigasse a população. Tudo não passou de uma jogada para garantir sua reeleição e consolidar sua liderança no partido Conservador, os "tories". Aí seu correligionário, amigo do colégio e ex-prefeito de Londres, o histriônico Boris Johnson (BoJo para os íntimos) aproveitou a deixa e se declarou pela saída do UK do bloco. Nenhum dos dois é lá muito convicto de suas posições, tanto que Johnson já pediu muita calma nessa hora depois do resultado do referendo (inclusive porque talvez seja ele quem comande a transição, depois da renúncia de Cameron). É só a disputa pelo poder entre dois sujeitos, mais nada, mas com consequências nefastas para o mundo inteiro. Política é mesmo uma merda.

sábado, 25 de junho de 2016

O ESTUPRO DE ZAMBININHA


Para gostar de "Paulina" é preciso concordar com a protagonista, e eu não concordei. A moça resolve não só não denunciar os sujeitos que a estupraram, como também ter o filho que resultou desse estupro. Ou seja, é a vítima perfeita. Abençoada pelo machismo e pela Igreja Católica, e perpetuadora da cultura de violiencia contra as mulheres. Mas já no começo do filme dá perceber que ela curte um fan-fic de esquerda, ao largar uma carreira promissora em Buenos Aires para dar aulas nos cafundós da província de Misiones. Paulina discute com sua classe de selvagens como se eles fossem leitores de Kant, e depois se supreende quando eles cochicham em guarani. Mas nem o choque da realidade lhe faz mudar de ideia. Ela fica horrorizada com a surra que seus algozes levam da polícia e conclui que ninguém ganha nada se eles forem presos. Devia dizer isto para a próxima menina que os caras pegarem. Nesse ponto, Paulina lembra a fofa Zambininha, que se aferra à sua ideologia mesmo quando esta é atropelada pelos fatos.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

LITTLE ENGLAND

Teve uma hora que eu achei que ia dar. Que o brutal assassinato da deputada Jo Cox, na semana passada, iria reverter o placar de vez. E os primeiros resultados das apurações pareciam confirmar: cheguei a ler que o "não" venceria por uma folgada margem de dez pontos. Fui dormir despreocupado e acordei com o impensável concretizado. Vitória da estupidez, do reacionarismo,  do preconceito, da mesquinharia. Da extrema-direita, da cegueira histórica, de Vladimir Putin, de Donald Trump. Mais um desastre nesse ano de desastres, que me faz temer ainda mais por Hillary Clinton. Agora torço para que a Escócia dê um pé no Reino Unido e corra para o abraço da União Europeia. A Inglaterra achou que iria reviver seu passado de glória imperial, ou pelo menos o de um mundo dominado pelos anglo-saxões, onde reinaria ao lado dos Estados Unidos. Mas esse mundo não existe mais. Sobrou um paisinho chuvoso, pitoresco, uma potência de alcance regional e olhe lá. A Inglaterrinha, tão pequenininha quanto a cabecinha dos que a criaram.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O TRIUNFO DA GATA

Fomos ver uma peça no CCBB de São Paulo e acabamos tendo uma suntuosa soirée cultural, porque cheguei a tempo de visitar a exposição "O Triunfo da Cor". Claaaro que eu já tinha visto aquelas telas todas no Musée d'Orsay e na Orangerie, mas a verdade é que só me lembrava mesmo das taitianas do Gauguin e olhe lá. A mostra é um deslumbre, uma festa para os olhos, todos os clichês. O período entre o impressionismo e o modernismo foi riquíssimo, e ainda vivemos um momento surrealista quando cruzamos com Haddad, Chalita e uma comitiva. Essa maravilha fica em SP até 7 de julho e depois segue para o Rio.

A peçaa em si era "Gata em Telhado de Zinco Quente", que eu já tinha visto em priscas eras estrelada por Vera Fischer. O grupo TAPA não costuma ousar muito no quesito encenação, mas aqui nem precisava. A direção de Eduardo Tolentino de Araújo e o cenário moderno não pretendem ser maiores que o texto de Tennessee Williams, que flui cristalino da boca dos ótimos atores. Especialmente Zécarlos Machado, Noemi Marinho e minha querida Bárbara Paz. Só que eu nem posso recomendar o espetáculo aos paulistanos, pois ele sai de cartaz no dia 26 e já está tudo lotado até o teto. Mas depois a "Gata" vai viajar, e talvez acabe voltando. Capture-a.

COM QUEM SERÁ? COM QUEM SERÁ?

"Looking" acabou justo quando estava ficando bom. A série gay da HBO durou apenas duas temporadas por causa da baixa audiência, mas provocou gritaria quando foi cancelada no começo do ano passado. Por isto, um filme amarrando a história será exibido pelo canal no final de julho nos Estados Unidos, e oxalá também por aqui. Pelo menos saberemos com quem a mocinha Patrick vai ficar.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

CONTESTO, MERITÍSSIMO


Chega de filmes franceses. Vi cinco de enfiada, e o último deles nem foi tão bom. "A Corte" é sobre um juiz tão rigoroso que seu apelido é Dois Dígitos: seus condenados pegam pelo menos 10 anos de cadeia. Mas todo durão tem um bom coração, e ele acaba reencontrando no júri de um de seus casos uma médica por quem andou arrastando a asa. Todos os personagens são humanos, os diálogos são críveis e até o réu não é um vilão. Mas, apesar dos prêmios, "A Corte" não é sensacional. Ah, e uma curiosidade: o título original, "L'Hermine", se refere ao pelo arminho da toga do juiz. Que deixa o coitado parecendo a Rainha de Copas da Alice.

O PROBLEMA SOMOS NÓS

Para muitos dos leitores do meu blog, o maior flagelo que assola a comunidade gay são os camarotes das boates. Esses espaços excludentes e arbitrários, que separam as supostas bonitas - todas cabeça oca, é óbvio - do povo honesto que paga imposto. Como se não existissem religiões que nos abominam nem boçais que nos espancam. Fico pasmo quando vejo uma biba dizendo que prefere o Bolsonazi ao Jean Wyllys. Você pode até não concordar com todo o ideário político do Jean (eu não concordo), mas achar que nosso maior inimigo declarado é melhor do que ele é passar atestado de retardo mental. Sabe-se desde sempre que a viadagem é uma classe desunida, e talvez nunca tanto como agora. Uma boa análise desse fenômeno foi feito pelo Bernardo de Carvalho em sua coluna no blog do Instituto Moreira Salles. O artigo vai além e critica a esquerda, a direita e todos que acham que o ressurgimento do fascismo, em diversas formas, não é algo perigoso. Leia djá.

terça-feira, 21 de junho de 2016

BOLSOLIGHT

Jair Bolsonaro está levando a sério sua possível candidatura à presidência em 2018. Tanto que vem afinando seu discurso, um sinal de que deve ter contratado uma assessoria de imprensa. Outro dia, em entrevista à "Folha", disse que não vai mais se pronunciar sobre aborto e casamento gay. Hoje fez o impensável: pediu desculpas. Não a Maria do Rosário, a quem falou em plena Câmara que "só não estupraria porque ela não merecia", mas à sociedade. Claro que o Bolsonazi está com o fiofó na mão depois de ter virado réu no STF, e o clima atual não está tranquilo nem favorável para quem endossa a violência contra a mulher. Mas ainda falta muito para o deputado carioca se domesticar. Dá para perceber que, mesmo com "media training", ele continua o mesmo escroto de sempre. Menos mal: já bastam os 8% de cretinos que ele seduz com seu veneno.

ORA TOCA A NOI

A eleição de Virginia Raggi para prefeita de Roma me fez pensar. O clima de saco cheio com a política tradicional não é exclusivo do Brasil. O mundo inteiro vive essa crise, e às vezes as saídas são mesquinhas como Donald Trump ou o Brexit. Mas também existem novidades, como os partidos Syriza (da Grécia), Ciudadanos e Podemos (da Espanha). O Movimento Cinque Stelle da Itália também faz parte dessa onda, mas é difícil dizer se ele é de direita ou esquerda. O slogan "ora toca a noi" (em tradução livre, "agora é com a gente") serve para qualquer lado. As cinco estrelas do nome sugerem progressismo: água pública, transporte sustentável, desenvolvimento sustentável, livre acesso à internet e ambientalismo. Mas o partido não chegou a um acordo sobre o apoio à união estável entre pessoas do mesmo sexo, e acabou liberando seus deputados para votar como quisessem (e isto apesar de seu fundador, o comediante Beppe Grillo, ter se manifestado há muito tempo em prol do casamento gay). Outras propostas são bem interessantes: todos os candidatos têm que ter ficha limpa, e ninguém pode se reeleger mais de uma vez. Isto mesmo: tem que abandonar a vida pública e voltar a fazer o que fazia antes, pois "política não é profissão". Apoiadíssimo, mas será que dá certo? Raggi tem apenas 37 anos e cara de estrela de cinema, e promete livrar os romanos da corrupção. Tomara. E tomara que surjam novas legendas por aqui também, apesar do nosso excesso de partidos. A Rede é bacana, a Raiz de Luiza Erundina promete ser, e o Partido Novo já tem uma militância aguerrida, apesar de nunca ter lançado candidato. Uma amiga minha insiste para eu me filiar, mas, além de ser um pouco à direita demais para o meu gosto, o Novo ainda não se definiu quanto ao aborto, às drogas e aos direitos igualitários. Enquanto não disserem sim para tudo isso, não passo nem na porta.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

MEDO QUE NUNCA ACABA


Os produtores de "Penny Dreadful" pregaram uma peça no público. Não avisaram ninguém que o 9o. episódio da 3a. temporada, exibido ontem pelo canal Showtime nos Estados Unidos (e disponível a partir da semana que vem no NOW e na HBO brasileira) era o último da série. Quem assistiu levou um susto, mais um entre muitos, quando terminou o especial de duas horas: surgiu um letreiro onde se lia "The End". Pena que hoje a notícia correu o mundo, e com ela um spoiler colossal. Se você não quiser saber o que é, não veja o vídeo abaixo (o de cima está liberado). E se você nunca viu "Penny Dreadful", não sabe o que está perdendo. As duas primeiras temporadas já estão no Netflix, e são um programa suntuoso para quem gosta de terror com glamour. Todos os monstros clássicos se encontram na Londres da virada do século passado: Drácula, Frankenstein, o lobisomem, Dr. Jekyll & Mr. Hyde e até mesmo Dorian Gray. Mas nenhum personagem é mais interessante do que Vanessa Ives, o melhor papel que a divina Eva Green teve até hoje. É uma tremenda injustiça ela nunca ter sido indicada ao Emmy de atriz dramática. Espero que o seja este ano por causa de um episódio que é basicamente só ela e o também excelente Rory Kinnear numa cela de um hospício. Quase uma peça de teatro, com diálogos poderosos e momentos apavorantes. Sim, "Penny Dreadful" dá medo. Eu, por exemplo, estou com medo de não encontrar logo outra série de horror tão boa.

ISSO É HOMOFOBIA

Quase ninguém vê "Fantástico" durante a temporada de "Game of Thrones", mas uma reportagem sobre homofbia no programa de ontem merece atenção. A matéria conduzida por Renata Ceribelli foi inspirada pelo massacre de Orlando, mas há tempos que já poderia ter sido feita. Casos como o do médico que assediou e agrediu um casal de lésbicas em Goiânia acontecem aos milhares todos os dias, e é estarrecedor como este brucutu ainda tem a cara-de-pau de, ao final de uma entrevista por telefone, declarar que não é homofóbico. Assim como a bancada evangélica, ele é mais um dos que querem que a definição de homofobia seja apenas a violência física contra os gays (e nem isto é levado em conta pela lei brasileira, como se vê com os gays que tentam fazer B.O. depois de atacados). Marco Infeliciano, num horrorendo terno xadrez, tenta jogar a culpa no projeto de lei de Maria do Rosário, por ser vago. O que ele não quer é que as igrejas sejam proibidas de propagar o ódio. Sugiro então que nossos legisladores progressistas estudem o que foi feito em países onde a homofobia já é crime, e no entanto a liberdade de culto foi preservada. Porque o ódio aos gays, mesmo quando só verbalizado, é tão grave quanto o racismo. Sim, isso é homofobia.

domingo, 19 de junho de 2016

VERDADES SECRETAS

E não que é o Cauã de travesti ficou parecido com a Grazi?

LA LOI ET LE ROI


Não consigo parar de ver filmes franceses. Os dois últimos levaram prêmios de Cannes em 2015 e têm rimas no título: "La Loi du Marché" (aqui, "O Valor de um Homem") e "Mon Roi" ("Meu Rei"). O primeiro está em cartaz há algumas semanas, e eu relutei em ir. O tema não é dos mais atraentes: um cinquentão desempregado há anos luta para conseguir trabalho, e quando consegue... O estilo do diretor Stéphane Brizé é lacônico, com cenas que acabam de repente e quase sem trilha sonora. Mas a curta duração (90 minutos) e a atuação de Vincent Lindon (que também ganhou o César, o Oscar francês) valem o baixo astral.

Gostei muito mais de "Meu Rei", que está passando no festival Varilux mas só estreia no Brasil em setembro. Uma mulher que se define como "normal" conhece um homem que é muita areia para seu caminhãozinho. O cara é bonito, charmoso, engraçado, romântico, rico, chef de cozinha, bom de cama e bom demais para ser verdade. Claro que não é: depois de um namoro fabuloso, a coisa começa a degringolar um pouco antes deles se casarem, com ela já grávida. O sujeito é a encarnação do morde-e-assopra, mas a coitada simplesmente não consegue se livrar dele. Até que um acidente de esqui (que abre o filme) a força a repensar a vida. Vincent Cassel faz, mais uma vez , o papel do canalha irresistível. Mas quem brilha mesmo é uma atriz que eu não conhecia, Emmanuelle Bercot. Ela chora, grita, ri, tudo com tamanha intensidade que chega a dar aflição. Dirigido pela ex-atriz Maïwenn, "Meu Rei" é um pouquinho longo. Mas já entrou para a lista dos melhores do ano.

sábado, 18 de junho de 2016

DIVÃ SURREALISTA

Depois de alguns rolés por palcos alternativos, foi bom voltar a ver uma peça com bastante produção. Mesmo assim, me envolvi menos do que imaginei com "Histeria", do inglês Terry Johnson. Decerto não foi por culpa de Pedro Paulo Rangel, que está sublime - e até parecido fisicamente - com Sigmund Freud. Com total domínio de seus recursos cênicos, Pepê dá um show. Também não foi por causa de Cássio Scapin, que faz o Salvador Dali que existe no imaginário popular: amalucado, narcisista, saltitante. Talvez pela direção quadradinha de Jô Soares, que nunca vai além do correto? Ou pela imensidão do Tuca, quando o texto pediria um teatro mais aconchegante? Preciso analisar.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

NÃO EXISTE MULHER FEIA

E eu que achei que a pegadinha desse comercial  da Shiseido que bombou nas redes era que todas garotas são a mesma? Pouco racista, ou impressão?

quinta-feira, 16 de junho de 2016

INDISFARÇÁVEL CANALHA

Perto da desfaçatez com que Eduardo Cunha pintou e bordou nos últimos meses, Renan Calheiros assumiu ares de sábio estadista. Mas que ninguém tenha dúvidas: o presidente do Senado é um bandido ainda mais safado do que o futuro ex-presidente da Câmara. E tampouco está acima de usar seu poder para se vingar dos adversários, tanto que declarou que irá "examinar" o novo pedido de impeachment de Rodrigo Janot que lhe caiu nas mãos. Duvido que os senadores - em geral mais cultos e preparados que seus colegas deputados - tenham o culhão de defenestrar o procurador-geral da república, num ato explícito para melar a Lava-Jato. Mas é ótimo que Renan não consiga, de vez em quando, disfarçar a própria canalhice. No Japão, ele já teria se suicidado faz tempo.

SAPATAS RURAIS


Se já não é fácil ser gay nos dias de hoje, imagine há 40 anos. Este é o tema de "Um Belo Verão", que está passando no Festival Varilux de Cinema Francês. O filme conta a história de uma jovem lésbica que vive com os pais numa fazenda. Ela precisa esconder sua sexualidade no ambiente rural, mas solta a franga quando vai a Paris. Lá ela conhece uma estudante feminista, e as duas engatam um tórrido romance. Aí o pai da caipira sofre um AVC e ela precisa voltar para o interior, mas sua namorada resolve ir junto... O roteiro tem uma pronunciada barriga no meio, mas começa e termina muito bem. Melhor ainda são as atrizes, especialmente Cécile de France. Aos 40 anos de idade, ela convence totalmente como universitária. E tem uma cena com a mãe de sua amada (feita por Noémie Lvovsky, outra fera) que é de arrepiar. "Um Belo Verão" mostra como evoluímos um pouco, apesar de tudo.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

FERNANDA 40 GRAUS


Eu nem lembrava mais da existência da Fernanda Abreu, e olha que ela foi uma das minhas cantoras favoritas no começo dos anos 90. Seu disco de estreia na carreira solo, "SLA Disco Club", talvez seja o mais cool da música brasileira de todos os tempos. Mas a ex-backing vocal da Blitz não lançava nada há 12 anos, e mais tempo ainda nos separa de hits como "Rio 40 Graus". Agora ela ressurge com "Amor Geral". O álbum é conciso: são apenas 10 faixas, mas nenhuma está lá para encher linguiça. Todas têm letras bem cuidadas, arranjos interessantes e sabor indiscutivelmente carioca (sem falar na participação do lendário rapper americano Afrika Bambaata em "Tambor"). Voltei a ser fã de Fernanda Abreu, pô. Quero meu crachá.

SANTALUZ NO FIM DO TÚNEL

Dois professores gays (não sei se eram um casal) foram mortos na sexta-feira passada na cidadezinha baiana de Santaluz. Os corpos foram achados no porta-malas do carro de um deles, tudo incinerado. Esse tipo de crime deve ser tão comum pelo Brasil afora que nem chegou a ser notícia em São Paulo. Mas a reação chegou às manchetes: na segunda-feira, uma passeata de protesto tomou as ruas de Santaluz, e isto é ótimo. Edivaldo Silva de Oliveira e Jeovan Bandeira foram reconhecidos como membros importantes da comunidade, que agora exige justiça. Estou admirado, ainda mais porque o lugar parecia se encaixar perfeitamente no clichê do grotão atrasado e homofóbico. O Brasil está mudando?

terça-feira, 14 de junho de 2016

QUEM TEM CUNHA TEM MEDO

Algo muito importante aconteceu hoje no Brasil. A opinião pública - na base do grito, da passeata e, principalmente, das redes sociais - conseguiu reverter o placar da Comissão de Ética da Câmara. Não só Tia Eron votou pela cassação de Eduardo Cunha, como também Wladimir Costa, até hoje um dos mais ardentes defensores do malvado. Os dois devem ter ficado com medo dos internautas, que nos últimos dias infestaram as páginas de políticos clamando por justiça. Claro que ainda falta o voto em plenário, que não tem data para acontecer. Mas este voto será em aberto e, portanto, a missão ainda não foi cumprida. Aos mouses, cidadãos!

A VACA VAI PRO BREXIT?

2016 está sendo um ano de lascar, e pode ficar ainda pior. No dia 23 de junho (quinta-feira da semana que vem), o Reino Unido vota para decidir se fica na União Europeia ou sai. O plebiscito foi convocado pelo primeiro-ministro David Cameron, que já deve estar arrependido. Partidário da permanência, ele viu a campanha pelo "Brexit" (Britan + exit) crescer a ponto de não ser mais possível prever o resultado das urnas. E se os britânicos quiserem mesmo ir embora, vai ser uma merda. Sabe quem é o mais interessado nessa história? A Rússia, que torce por uma Europa menor e mais fraca. Podemos argumentar que os súditos de Elizabeth jamais entraram di cum força no projeto da União - nem cogitaram em adotar o euro, por exemplo. E em tempos de nacionalismo (vulgo egoísmo) exarcebado, o apelo por um país "independente" vem calando fundo no coração dos incultos. Mais um sintoma da onda de boçalidade que varre o planeta.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

REI DO GAME

Ou Gado of Thrones.

ME LIGUEI NO CHOCOLATE


O que é mais difícil: ser gay ou ser negro? A homossexualidade, pelo menos, de vez em quando dá para disfarçar. Já um negro vivendo num mundo dominado por brancos está exposto o tempo todo, por mais que alise o cabelo. Se a barra está pesada até hoje, imagine como era cem anos atrás. Esse é o tema de "Chocolat", que está passando no Festival Varilux do Cinema Francês e entra em cartaz no Brasil em 21 de julho. O filme conta a história do primeiro palhaço negro a fazer sucesso em Paris, em plena Belle Époque. Mas metade da graça que achavam em Chocolat era o fato dele ser chutado, espancado e vilipendiado o tempo todo por seu parceiro Footit. Os dois foram eternizados em telas de Toulouse-Lautrec, mas caíram no esquecimento depois da 1a. Guerra Mundial. Esse longa bem ao estilo cinemão - roteiro quadradinho, produção requintada, atores fenomenais - resgata a história, que me fez pensar se alguma coisa de fato mudou. Lembrei do Mussum, que, mesmo tendo vivido mais de meio século depois, também teve uma carreira acossada pelo racismo de seu público. Omar Sy, que já encantou o planeta com sua performance em "Intocáveis", encontra aqui mais um papel à altura de seu enorme talento. Mas quem me surpreendeu mesmo foi James Thierée, que faz seu parceiro de cena. Tão flexível e expressivo que confirma sua ascendência: o cara é neto de Charles Chaplin.

domingo, 12 de junho de 2016

UM BEIJO É MELHOR QUE UMA BALA

Finalmente aconteceu. O radicalismo islâmico atacou os gays no Ocidente, na maior matança em solo americano desde o 11 de Setembro. Estou horrorizado, entristecido, tonto e puto da vida. E não precisa vir ninguém me lembrar que não fiquei assim por causa das vítimas da Samarco ou das criancinhas de sei lá onde, porque eu não fiquei mesmo. Dessa vez a bala passou muito perto, apesar de eu estar a milhares de quilômetros de distância. Dessa vez morreram amigos meus, apesar de eu não conhecê-los. É fácil jogar a culpa na cultura homofóbica que ainda permeia a nossa sociedade. Também é bico apontar o dedo para os muçulmanos, como se nós fôssemos muito mais liberais do que eles. Ou reclamar da legislação frouxa dos EUA, que permite que alguém com porte de arma entre com um rifle numa boate. Todos esses acusados têm culpa, mas nenhum deles está sozinho. Mais preocupante do que identificar um vilão é ler os comentários à notícia na internet. Nem mesmo uma tragédia desse porte faz com que alguém mude de ideia. Os homofóbicos estão gritando "bem feito", os islamofóbicos acham que o Trump tem razão, os babacas em geral querem mais armas, pena de morte e redução da maioridade penal. O pior de tudo é que esse imbecil que invadiu a Pulse pode ter dado ideia a outros. Já houve o caso de um sujeito parado a caminho de um festival gay com o carro cheio de explosivos, e temo que haja mais. Resta torcer para que o motivo dessa chacina - Omar Saddiq Mateen disse que não saberia explicar ao filho que nem chegou a ter porque dois homens se beijariam - sirva para convencer alguns de que um beijo é sempre melhor do que uma bala.

ACEITA QUE DÓI MENOS

Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar esfregando na cara dos solteiros como eu sou feliz + realizado feat. casado há mais de 25 anos. Mas não: estou é compartilhando o simpaticíssimo curta-metragem "Aceito". Escrito, dirigido e interpretado por Felipe Cabral (que também esteve na equipe de colaboradores da novela "Totalmente Demais"), o filme estreou no MixBrasil de 2014, rodou festivais mundo afora e colecionou uma penca de prêmios. Hoje, Dia dos Namorados, foi finalmente disponibilizado no YouTube. Diga "sim" e divirta-se.

sábado, 11 de junho de 2016

NAVALHAS NA CARNE

Lembro bem de cruzar com Plínio Marcos nas portas dos teatros, nos anos 80 e 90. Obeso, o dramaturgo vendia poemas e me causava uma certa aflição. O que só contribuiu para eu não me interessar por seu teatro, povoado por marginais e prostitutas. Meu preconceito acabou ontem, depois de eu ver "Bentido Seja Seu Maldito Nome", uma colagem de vários textos de Plínio, dirigida por Jean Dandrah e interpretada pela companhia Palco Meu (eita nome bom). A montagem está em cartaz até agosto na Casa Amarela, um casarão centenário na rua da Consolação, em São Paulo. O lugar passou anos abandonado até ser ocupado por artistas, e se mostrou o cenário perfeito para o albergue onde se cruzam diversos personagens que antes estavam em peças diferentes. Como os atores não são famosos e eu estava na primeira fila - na verdade, no primeiro degrau de uma escada - tive a sensação de estar presenciando cenas reais. E violentíssimas, conduzidas por diálogos afiados feito lâminas e uma visão de mundo para lá de pessimista. O espetáculo é toda uma experiência sensorial, reforçada pelo frio que anda fazendo. Recomendo aos estômagos fortes.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

OS HOMENS PREFEREM AS LOUCAS


Marilyn era esquizofrênica? A mãe dela era, e provavelmente a avó também. Mas eu nunca tinha ouvido falar que a maior sex symbol do século 20 escutava vozes até ver "A Vida Secreta de Marilyn Monroe". Esta minissérie em dois episódios (na verdade, dois longa-metragens) está sendo exibida pela HBO e já está disponível no Now, coincidindo com o 90o. aniversário da atriz. É uma biografia à moda antiga, do berço ao túmulo, mas bastante didática. E a atriz principal, Kelli Garner, é, de longe, a melhor intérprete de Marilyn que eu já vi. Susan Sarandon faz a mãe, que primeiro a abandona e depois dá muito trabalho. O roteiro não deixa claro se a estrela se matou de propósito ou por acidente, e provavelmente nunca saberemos a verdade. Em compensação, explica por que ela sofria tanto.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

DOIS BOTÕES


"O Botão de Pérola" na verdade são dois. Um deles foi oferecido a um índio da Patagônia, que em troca aceitou ser levado para a Inglaterra - onde foi justamente apelidado de Jimmy Button. O outro é tudo que restou de um dos milhares de dissidentes que a ditadura Pinochet jogou no mar. Alguns séculos separam os dois, e o que os une é o Chile. Segundo o diretor Patricio Guzmán, também é a água, numa comparação meio forçada que torna esse documentário muito bonito, mas sem muita inconsistência. Mas o pior é a locução, tão mecânica que parece ter sido gravada do Waze. Pena: o filme levou muitos prêmios em festivais, mas não me ganhou.

MARCHINHA À RÉ

Eduardo Cunha,
Por que estás tão triste?
Mas o que foi
Que te aconteceu?
Minha mulher caiu na Lava-Jato
E agora é ré, assim como eu

Vai lá, Claudinha
Vai com o juiz
Não fique triste
Que este trust é todo seu
Você pode ir pra cadeia
Mas a grana não perdeu

quarta-feira, 8 de junho de 2016

MUDANDO O CANAL

O livro do Mauricio Stycer tem uma aparente contradição. O título é "Adeus, Controle Remoto". Mas o conteúdo passa a sensação de um grande zapping pela TV brasileira dos últimos anos: quase todo capítulo é dedicado a um programa específico, geralmente das emissoras abertas. Na verdade, muitos desses textos foram publicados na coluna que Stycer assina na Folha todo domingo. E juntos formam, de fato, um painel do melhor e do pior que a nossa televisão vem produzindo. Só que a proposta do volume é mais ambiciosa: retratar o momento de transição entre a TV "linear" (com horário, grade, comerciais, essas chatices todas) e a liberdade que o "streaming" e os aparelhos móveis dão ao espectador. As consquências serão profundas - como que fica, por exemplo, a propaganda, que ainda financia quase tudo o que assistimos? Este asunto é tratado, principalmente, nos textos inéditos que abrem cada segmento. "Adeus, Controle Remoto" não esgota um tema tão complexo, e nem era essa a pretensão do autor. Mas já é um livro fundamental para quem quiser começar a entender uma mudança que promete ser tectônica.

REINA MAS NÃO GOVERNA

Dilma acreditou quando lhe disseram que, quando afastada, ela se tornaria uma espécie de rainha da Inglaterra. Não governaria, mas reinaria. E continuaria com quase todas as benesses de antes: o salário cairia pela metade, mas o Palácio da Alvorada continuaria a seu inteiro dispor. Só que o Brasil nunca teve um presidente nessa situação, nem lá nem cá. Collor renunciou antes que seu impeachment chegasse ao Senado. Acontece que Dilma é turrona, e aposto que continuará lutando mesmo depois do fim. Ela estava crente que contaria com aviões da FAB para continuar zanzando pelo país, e agora ainda passa pelo vexame de reclamar que sua despensa está vazia, apesar do Alvorada ter gasto, este ano, uma média de 62 mil reais por mês em supermercado. O que gerou um vexame ainda maior: o vídeo onde Tássia Camargo pede doações de mantimentos para Dilma, como se a presidente afastada fosse uma desabrigada pelas enchentes. Amanhã ela irá a Campinas num voo comercial. Estou curioso para ver se será vaiada ou aplaudida.

terça-feira, 7 de junho de 2016

ORANGEFACE


A maior atriz do mundo acaba de provar, mais uma vez, que não há papel que ela não seja capaz de fazer. Meryl Streep encarnou Donald Trump ontem de manhã durante um evento teatral em Nova York. Christine Baranski (com quem Meryl fez "Mamma Mia!") interpretou Hillary Clinton, e as duas recitaram um soneto de Shakespeare devidamente adaptado à política americana. O vídeo acima é o mais decentezinho que encontrei na rede: incrível não existir um registro profissional desse momento histórico. Deus proíba que Trump seja eleito presidente dos EUA - mas, se for, já sabemos quem poderá parodiá-lo no "Saturday Night Live".

A MESMA MALTA

Lula disse no Rio que "os coxinhas estão com vergonha". Os mortadelas também deveriam estar, porque o fato é que o governo não caiu: só tiraram os petistas. O resto do esquema continua todo lá, como comprovam as últimas revelações da Lava-Jato. Está mais do que na hora de todo mundo entender que não tem bonzinho nessa história. Agora não dá mais para falar em "vazamento seletivo" quando Janot pede que Jucá, Romero e Sarney sejam presos (no caso deste, na verdade, prisão domiciliar tornozeleira eletrônica). Todos eles meteram a mão no erário, com a cumplicidade e o entusiasmo de Lula, Dilma, Delcídio, Cerveró e até de Aécio e outros luminares do PSDB. O Estado brasileiro vem sendo assaltado há décadas pela mesma malta, enquanto que nas redes sociais nós, tolinhos, acreditamos que eles se dividam entre vilões e heróis.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

LIMPA-JOIAS

Faltam-me palavras para comentar este comercial de Nadkins, as "toalhinhas refrescantes para as joias masculinas". Passo a bola (hmmm) para vocês.

ÁGUA ENVENENADA

"Um Inimigo do Povo" é uma das melhores peças do norueguês Henrik Ibsen. Escrita no final do século 19, tem uma trama que continua atual. Um médico descobre que a água de uma estação termal está contaminada. Tenta alertar os turistas e a população, mas é calado pelos poderosos (inclusive seu irmão, o prefeito da cidade). E aí... todo mundo cai doente. Vi este texto na TV há uns 40 anos, quando a Globo ainda adaptava teatro para o horário nobre. E o revi agora, numa montagem musical feita pelo grupo paulistano Cia. da Revista. O espetáculo é divertido e agitado, apesar da caracterização over dos atores me incomodar um pouco. Mas a mensagem da peça combina com os tempos que correm - tanto que, no final, ouvimos gravações de diversos políticos brasileiros.

domingo, 5 de junho de 2016

DO CAMBURÃO À ÁREA VIP


Finalmente tomei vergonha na cara e fui ver "São Paulo em Hi-Fi", que já está em cartaz há três semanas depois de passar dois anos rodando por festivais. É um documentário sobre a noite gay paulistana do final dos anos 60 até o começo dos 90. Nos primórdios dessa época, as bichas eram invisíveis. Os bares que elas frequentavam eram escondidos, não apareciam em guias e recebiam visitas frequentes da polícia. O primeiro a ganhar a notoriedade foi o K-7, que durou pouco - mas seus donos então abriram a primeira grande boate gay da cidade, a Medieval, que estava mais para um cabaré do que para os caldeirões tribais de hoje em dia. O diretor Lufe Steffen faz um ótimo uso do pouco material de arquivo que conseguiu: recortes de jornal, shows gravados em VHS, filipetas. Mas o filme ganha vida nos depoimentos dos sobreviventes dessa era, com destaque para Elisa Mascaro - dona do Medieval e depois da Corintho - e Kaká di Polly, uma drag queridíssima. A partir de certo ponto, eu me lembro de todas as casas citadas: HS, Val Improviso, Off... A Caneca de Prata, reduto dos cacuras, está lá até hoje. Há um certo clima de que "antigamente era muito melhor", o que é normal: as coisas sempre pareciam melhores quando éramos jovens. Muitos se queixam da falta de glamour dos tempos que correm, mas os espetáculos resgatados no filme não são muito diferentes dos da Blue Space - e ainda mais pobrinhos. Achei curioso ver aquele monte de travestis se levando tão a sério e achando que estavam em Paris, enquanto que no Rio os Dzi Croquettes faziam algo muito mais transgressivo e libertador. Mas não vou diminuir a coragem desses pioneiros, que deram a cara a tapa num período muito mais opressor do que o atual. Além do mais porque esta foi a geração sofreu um "strike" da AIDS, o que faz o filme terminar meio para baixo. Mas se hoje temos camarotes e bibas ressentidas, é bom lembrar que houve um tempo em que a área VIP era o camburão da PM. Todos nós temos uma dívida com essa turma, e "São Paulo em Hi-Fi" é um filme obrigatório para quem se interessa pela cultura gay brasileira.

sábado, 4 de junho de 2016

THE GREATEST

Demorei muito para entender qual era a de Muhammad Ali. Quando eu era pequeno e ele estava no auge da carreira, me irritavam sua postura agressiva e sua conversão ao Islã (eu tive uma fase muito carola, ai ai ai). Depois, impliquei quando Whitney Houston lançou a melosa "The Greatest Love of All" (I believe that children are the future...), trilha de um documentário sobre o boxeador. Como assim, o maior amor de todos é o que a gente sente por si mesmo?? Foi só quando me tornei uma bicha insubmissa que eu saquei. Muhammad Ali foi o rei dos insubmissos: rebelou-se contra o racismo, a desigualdade, o governo americano. Foi muito mais do que um campeão dos peso-pesados. Influenciou a cultura e a história. O destino cruel mandou-lhe o mal de Parkinsons há cerca de 30 anos, e já fazia algum tempo que ele estava tão fraco que nem aparecia mais em público. Mas fez jus à sigla G.O.A.T., título de um pesadíssimo coffee table book que lhe foi dedicado pela editora Taschen: o maior de todos os tempos.

GUTEN ZUG


Qualquer comercial brasileiro que insinue apoio ao "homossexualismo" é imediatamente alvo de queixas e processos no Conar (que, invariavelmente, dão em nada). Seria impensável por aqui um filme como esse da Deutsche Bahn, a estatal ferroviária alemã. Além do mais porque a nossa cultura de futebol ainda remonta ao Pleistoceno, como lembra a coluna de hoje da Mariliz Pereira Jorge.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

UH, TIAZINHA

Eronildes Vasconcelos Carvalho parecia destinada a uma carreira discreta na Câmara. Vereadora de dois mandatos em Salvador, ela está apenas em seu segundo ano como deputada federal. Mas sua submersão no baixo clero foi interrompida por uma manobra da tropa de Eduardo Cunha. Tia Eron (seu nome "artístico") foi alçada de uma hora para a outra à Comissão de Ética. Como é evangélica, dava-se como favas contadas que votaria contra a cassação do presidente afastado. Mas agora, segundo consta, a tia balançou. Está sendo pressionada por todos os lados, pois deve ser dela o voto que decidirá o desenlace desse tumultuado processo. Não que seja uma pessoa de muitas luzes (ninguém ligado à Igreja Universal o é): a moça foi uma das que votou contra o projeto de lei que garante aos transexuais o direito de usar em documentos seus nomes sociais, como se ela mesma tivesse sido batizada de Tia. Mas tenho um fiapo de esperança que La Eron perceba a grandeza do momento histórico e a importância do papel que irá desempenhar. Seu voto pode ajudar a corrigir o curso deste país. Será que ela consegue transcender a própria mediocridade?

quinta-feira, 2 de junho de 2016

AVE GALINHA CHEIA DE GRAÇA

Não é só Michel Temer e seus comparsas que vivem na era pré-internet. Vejam o caso desse juiz de Goiânia que proibiu a artista Ana Smile de produzir, divulgar e vender suas obras que misturam imagens de santos católicos com personagens da cultura pop. Tem a Galinha Pintadinha, a Mulher Maravilha, o Batman, o Coringa,  a Malévola, a Minnie, o Chapolin Colorado... Por causa de uma ação movida pela Igreja Católica (esta ainda nem saiu da Idade Média), a moça foi obrigada a derrubar até mesmo sua página no Facebook, sob pena de multa de 50 mil reais por dia de desobediência.
Aí o caso foi parar nos sites de notícias, fartamente ilustrado. E adivinha o que aconteceu? Muita gente está postando fotos dessas pequenas maravilhas nas redes sociais, dando uma projeção a Ana Smile que ela nem sonhava em ter. O que era uma manifestação regional agora repercute do Oiapoque ao Chuí. Tremo só de pensar quanto cada uma dessas estatuetas já deve estar valendo no mercado negro... Neste momento em que o Brasil retrocede a passos largos, também acho que é um dever moral e cívico espalhar essas madonas coloridas por toda a rede. Abaixo a censura, viva o estado laico, viva a liberdade de expressão. E pode vir me multar que eu não estou nem aí.


ATUALIZAÇÃO: A internet já está em chamas. Descobriram que as obras de Ana Smile são descaradamente "inspiradas" nas de uma artista francesa chamada Soasig Chamaillard. Não são idênticas, mas a ideia é a mesma: reinterpretações pop da iconografia católica. As imagens de Soasig são até mais refinadas. Mas isto não desmerece o repúdio à censura que Ana e todos nós estamos sofrendo.

O PRÍNCIPE DESENCANTADO

Calma, gente. Essas fotos do príncipe Charles beijando um suposto namoradinho não provam nada. Para começo de conversa, não dá para dizer que o senhor que aparece no maior chamego com o rapazola seja mesmo o herdeiro da coroa britânica. Fora que o tablóide americano "Globe" tem credibilidade negativa. Esse pasquim já noticiou que Charles matou Diana, que a rainha morreu e passou o trono direto para William, que Camilla foi internada num rehab e assim por diante. Dito isto, também não há nada que me faça por a mão no fogo pela heterossexualidade do Sua Alteza. Há tempos que circulam boatos sobre escapadas gays e casinhos com a criadagem. Além do mais, ele estudou nos melhores colégios para moços da Grã-Bretanha - e todo mundo sabe o que acontece lá dentro, né? Então relaxemos, e God save the future king.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

ALFABETO RETROATIVO


O ABC não foi a primeira banda a misturar o som de uma orquestra com batidas dance: a Electric Light Orchestra já fazia isto uns dez anos antes. Mas "The Lexicon of Love", o disco de estreia de 1982, trazia um glamour que nem o próprio ABC conseguiu repetir nos trabalhos posteriores. Depois de duas décadas meio na moita, eles reaparecem - ou melhor, ele, Martin Fry, o único que sobrou dos membros originais - com "The Lexicon of Love II", que imita até na capa o disco de tanto tempo atrás. E de repente não parece que se passaram 34 anos: o ABC voltou igualzinho, elegante e arrebatador, sem soar datado. O single "Viva Love" é a melhor faixa, mas o álbum inteiro é um luxo só. Entendeu, Daniel, como a gente se divertia naquela época?

EVA ANGÉLICA

Fátima Pelaes, a nova Secretária de Política para Mulheres, é contra o aborto em qualquer situação. Essa posição é mais radical do que a prevista pela Constituição brasileira há muitas décadas, e encontra eco apenas em nações avançadas como El Salvador. O curioso é que até 2002 essa deputada federal pelo PMDB do Amapá não era evangélica e até defendia a descriminalização do aborto. Eu desconfio muito de políticos que de repente descobrem Jesus, como esse beato do Eduardo Cunha. Agora só falta Michel Temer indicar o Bolsonazi para cuidar dos assuntos ligados aos LGBT.

ATUALIZAÇÃO: Pressionada pelo escândalo que sacode o Brasil esta semana e pela má repercussão de sua nomeação, Fátima declarou que sim, é a favor da possibilidade de abortamento legal em casos de estupro. O melhor desse governo Temer é que nóis reclama e eles vorta atráis. Ao contrário da turrona da Dilma.