terça-feira, 31 de maio de 2016

O HOMEM DE PAU GRANDE

Estou ficando craque em comentar peças depois que elas já saíram de cartaz. Assisti à derradeira récita de "Garrincha - Uma Ópera das Ruas" neste domingo, e agora não adianta mais recomendar o espetáculo porque baubau. Mas vamos nessa: a concepção é do americano Robert Wilson, o que significa que não é para todo mundo. Cenários fabulosamente minimalistas, luz sensacional, atores incríveis, mas só um fiapo de dramaturgia. Quem não souber o básico da história de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos (nascido em Pau Grande, Rio de Janeiro) vai boiar legal, Ah, sim, é um musical - mas não tem nada a ver com as franquias da Broadway que chegam por aqui. Meu marido, que é um aficcionado do gênero, não curtiu muito. Eu já gostei mais, mesmo achando que alguns dos belíssimos tableaux vivants poderiam ser um teco mais curtos.

TRANSPARENTE OBSOLESCÊNCIA

Parece piada. Justamente o titular do recém-inventado Ministério da Transparência foi flagrado conspirando contra a Lava-Jato? Ouvi dizer que essas gravações do Sérgio Machado incluem até o Temer. Enquanto este momento fatal não chega, o presidente interino precisa mudar muita coisa se quiser ficar no posto até 2018. Pode começar por uma limpa. Não é com apaniguados do Renan e do Cunha que ele vai conseguir o apoio da opinião pública, neste momento mais importante que o do Congresso. Temer deveria fazer o mesmo que eu achava que seria uma saída para Dilma: montar um gabinete de notáveis, só com nomes ficha-limpa, e cagar para o toma-lá-dá-cá exigido pelos parlamentares. Mas isto vai contra todo o jeito brasileiro de fazer política das últimas três décadas. É o único que os caciques do PMDB conhecem, mas não cola mais em tempos de internet. Só que essa galera antediluviana ainda não percebeu, e por isto perigam ser extintos pelo meteoro que vem aí.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

AMAR SEM TEMER

A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo está virando rotina? A de ontem arrastou uma multidão que novamente lotou a Paulista - trocentos bilhões segundo os organizadores, 250 mil de acordo com o Datafolha. Mas dessa vez não rolaram assassinatos, nem escândalos como a trans crucificada de 2015. Este ano Viviany Belebony veio de Estátua da Justiça, numa crítica escancarada à ganância dos fundamentalistas, mas sem causar reações como a ridícula alegação de "cristofobia". O que acabou marcando o evento foi a política, apesar da Prefeitura ter proibido que os trios elétricos trouxessem mensagens explícitas. Nem todos obedeceram, mas quem se manifestou para valer foi o povo no aslfato. A frase "Amar Sem Temer" estava presente em centenas de cartazes e camisetas, além de protestos contra o atual governo, o anterior e políticos pontuais. Como Marta Suplicy, que dessa vez fez forfait: a senadora é habitué da Parada desde os primórdios, e ano passado desfilou garbosa em cima de um carro com a faixa "Fora Cunha". Este ano ela está no mesmo partido que Cunha, então achou mais prudente ficar em casa. Outro que faltou foi Fernando Haddad, pela primeira vez desde que se tornou prefeito: será que ele quis evitar uma foto comprometedora, que poderia ser usada por seus adversários na campanha deste ano? Se não causou o frisson habitual, a Parada também não registrou maiores problemas. Um sinal inequívoco de maturidade, e de que ela já está incorporada ao calendário da cidade. Como já é no resto do mundo. Mas ainda há uma diferença fundamental entre as nossas paradas e as americanas ou europeias. Lá, o público recebe apito da Pepsi, ventarola da Mercedes, boné do McDonald's. Aqui nossos anunciantes fogem delas, como um cristófobo da cruz.

ATUALIZAÇÃO: Fui informado de que a Parada Gay de SP recebe, há anos, muitas ofertas de patrocínio. Mas a diretoria da Associação que promove o evento recusa quase todas, pois prefere que ele seja mais político e menos festa (por isto, também, que não existem mais os carros de boates que faziam a alegria do povo). Eu, como ex-publicitário, acho essa posição equivocada. Deixar que marcas famosas apareçam numa Parada Gay é, sim, uma atitude política: prova que os LGBT são um segmento importante, inclusive financeiramente. Além de mostrar que essas grandes marcas nos apoiam, o que tornaria um boicote evangélico a elas cada vez mais difícil. Bom, mas este ano houve o patrocínio da Skol, que deve ter comprado os direitos de venda exclusivos: vi um monte de ambulantes "autorizados", com jalecos da marca. Eu mesmo me abriguei debaixo de um guarda-sol da cervejaria. O que me contaram é que a organização da Parada teve que aceitar esse patrocínio, já que a verba repassada pela Prefeitura caiu muito em relação à do ano passado (e não acusem o Haddad de homofobia: o ano é de crise e TODOS os orçamentos do governo precisaram ser cortados). Ou seja, aceitaram o patrocínio da Skol para fechar as contas. Pois eu repito: ano que vem aceitem quem vier, e façam uma Parada mais rica e mais bonita. E com ainda mais peso político, pois é sempre bom ter o capitalismo do nosso lado.

domingo, 29 de maio de 2016

VAZIAS MARAVILHAS


Existe uma única razão para ver "Alice Através do Espelho": o visual delirante. Cores psicodélicas, efeitos incríveis e caracterizações absurdas fazem do filme uma viagem de LSD que não faz mal para a saúde. Porque a história em si é de uma trivialidade absoluta. Mais uma vez os roteiristas jogaram fora quase tudo o que havia nos livros de Lewis Carroll. A Alice que eles criaram é adulta, feminista e capitã de longo curso - algo impensável para uma aristocrata inglesa do século 19, mas estamos no 21. O Chapeleiro Maluco também ganha uma importância que não tinha, só porque é feito por Johnny Depp. Este novo longa não é dirigido por Tim Burton, mas não dá para perceber. O estilo do diretor original permanece intacto, inclusive seu desprezo por tramas envolventes. Nessa barafunda salva-se Helena Bonham-Carter, sempre tirando o máximo de qualquer papel. Convenhamos que é pouco.

MARISA ÓTIMA

Hoje, último domingo do mês, circula com a Folha a revista "Serafina". A capa deste número é Marisa Orth, e lá dentro, além da entrevista que a atriz deu ao Chico Felitti, também há um textinho meu sobre sua trajetória. Ou melhor, sobre a minha relação com a carreira da Marisa. Virei fã incondiconal desde a primeira vez que a vi no placo, lá se vão quase 30 anos. Já quis muito trabalhar com ela, mas o máximo que consegui foi escrever o "Vídeo Show" que a homenageou. Foi até difícil manter um certo distanciamento crítico e não cometer uma coluna totalmente baba-ovo. Agora, só me resta aguardar pelo vídeo-resposta.

sábado, 28 de maio de 2016

ANA PAULA CALADÃO

Sabe porque a Ana Paula Valadão não se manifestou até agora sobre os estupros coletivos que assombraram o Brasil esta semana? Porque ela defende o mesmíssimo sistema patriarcal que permite que essas barbaridades aconteçam. E sabe por que ela sente "santa indignação" quando vê o comercial da C&A? Porque a moda unissex, mesmo que apenas numa propaganda e sem muita presença nas ruas, vai contra o patriarcado. Quando homens e mulheres se vestem da mesma maneira, fica difícil identificar quem é o opressor e quem é o oprimido. A cantora gospel não foi a única a se calar sobre a violência. O Malafaia também não deu um pio em seu Twitter, preocupado em que está em vender as bugigangas de sua loja. O Feliciano pelo menos se posicionou, mas logo entrou numa discussão com a Monica Iozzi (ele me bloqueou, mas não contava com a minha astúcia: vivo em pecado com outro homem há muitos anos, e sei todas as senhas dele). Enquanto tivermos líderes assim, que acham mais pertinente combater a "ideologia do gênero" do que lidar com problemas reais, o Brasil vai continuar andando para trás. E para baixo.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

PIRES NA MÃO


G
Glória Pires nunca fez teatro. Praticamente nascida dentro de um estúdio de TV, ela sempre preferiu as câmeras ao palco. Diz que não sente a menor vontade de fazer as mesmas cenas todos os dias durante meses a fio. Gosta de ensaiar, gravar e partir para outra. Pois bem: acho que esta falta de prática teatral finalmente a prejudicou. Porque Glória está simplesmente péssima em "Nise - O Coração da Loucura". Mais preparo e mais raciocínio talvez não tivessem levado essa boa atriz a uma atuação tão rasa e artificial.  Convenhamos que o roteiro não ajuda: a figura admirável de Nise da Silveira foi reduzida a uma única dimensão, sem sombra de conflito interno. Ela tem sempre a certeza de estar certa, e sempre está. Mas o resto do elenco rende bem, e a trajetória da brasileira que revolucionou os tratamentos psiquiátricos usando a arte e os animais não tem como não impressionar. Pena que quando a verdadeira Nise aparece nos créditos finais, já bem idosa, o contraste com sua intérprete não poderia ser maior. Doce, engraçada e com gestos grandiloquentes, ela não tem picas a ver com a austeridade monocórdia que Glória Pires inventou para a personagem.

MUITO MAIS QUE 33

Achei que eu tinha lido errado. Primeiro entendi que havia ocorrido mais um caso de estupro coletivo no Piauí, como há um ano. Depois achei que tivesse sido no Rio de Janeiro. E só então percebi que eram dois casos diferentes, um em cada estado, ambos horripilantes. O pior é que devem ser apenas os que foram noticiados: quantos outros vêm acontecendo por aí, sem chegar à polícia ou à imprensa? A cultura do estupro é quase universal. Mesmo os Estados Unidos, tão avançados em tantas áreas, ainda padecem deste mal, disseminado até mesmo dentro das universidades. Aqui no Brasil, parece que estamos nos equiparando à Índia. É chocante que os canalhas postem vídeos de suas vítimas nas redes sociais: além de continuarem a violência por outros meios, provam que têm certeza da impunidade. E isto mostra que não foram só 33 selvagens que violentaram a menina de Jacarepaguá. Fomos todos nós, que vivemos nessa cultura e pouco fazemos para mudá-la. Pelo menos a reação tem sido veemente: não me lembro de ver a opinião pública tão mobilizada quanto a este assunto, e com tão pouca paciência para os boçais que jogam a culpa na mulher. Mas claro que isso ainda é pouco. Enquanto elegermos religiosos de araque e nazistas de verdade, a cultura do estupro continuará com respaldo oficial. Se queremos um país melhor, não é só combatendo a corrupção ou exigindo um governo eficiente que chegaremos nele. Há uma mudança muito mais profunda a ser feita, dentro das nossas cabeças.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

QUEM QUER DINHEIRO?


Nunca houve tantos filmes americanos criticando o capitalismo, e isto é ótimo. Também é um sintoma de uma mudança generacional que já rendeu o movimento Occupy Wall Street e a candidatura de Bernie Sanders, mas que ainda não chegou ao poder. Enquanto isto não acontece, chegam ao cinema comédias ácidas como "O Lobo de Wall Street" ou "A Grande Aposta". "O Jogo do Dinheiro" não quer fazer rir, mas o personagem principal é um bufão: o apresentador de um programa de dicas financeiras que não hesita em comprometer sua credibilidade dançando hip hop ou conversando com um papagaio empalhado em frente às câmeras. Como alguém seguiria os conselhos de um cara desses me escapa, mas a história deslancha quando um rapaz que perdeu todas suas economias invade o estúdio e faz todo mundo de refém (como ele conseguiu chegar lá nesses tempos de segurança paranóica é um mistério maior ainda). Joide Foster dirige com ritmo este thriller classe B, elevado à A por causa de George Clooney e Julia Roberts. Pena que a resolução seja simples demais e deixe barato para o capitalismo.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

RENÃÃÃÃÃOOO!

Ó, não! O Renan, não! Justo ele, em quem eu depositava tanta confiança? Estou me sentindo um pato maior que o da FIESP: todos esses líderes do PMDB estão se revelando umas boas biscas, hein? Confiei neles cegamente para varrer do poder os malvados corruptos do PT, e é assim que eles retribuem? Meus amigos petistas têm razão em tirar sarro de mim: era melhor ter deixado a incompetente da Dilma no poder, porque pelo menos os ladrões daquele governo eram guerreiros do povo brasileiro. Fora que a presidente afastada nunca fez nada para proteger alguém da Lava-Jato. Só trocou o ministro da Justiça. E nomeou o Lula para a Casa Civil.  E manteve o Mercadante. Mais nada. Ai, que saudades! Agora estou ao deus-dará, com medo dos próximos acontecimentos. Quem será o próximo? O Sarney?? Nããão!!!

terça-feira, 24 de maio de 2016

MARQUETEIROS DELIVERY


Um dos projetos em que estou trabalhando agora tem a ver com marketing político, e por isto tenho visto tudo que eu posso sobre o assunto. Como o filme "Especialista em Crise", que nem chegou aos cinemas brasileiros e foi direto para o Now. Essa comédia fraca com Sandra Bullock é baseada num documentário sobre a campanha presidencial que o marqueteiro James Carville fez na Bolívia, no começo da década passada. Mudaram o sexo do personagem, arranjaram-lhe um rival também americano e deram à história um final feliz. Mas o timing de Sandra vale a pena, assim como seus cabelos maravilhosamente bem tingidos. E não é que eu aproveitei alguns insights?

Mais denso é o telefilme "Até o Fim", em exibição na HBO. Esse vem de uma peça de teatro, e manteve o mesmo ator no papel principal: Bryan Cranston, mais conhecido como o Wlater White de "Breaking Bad". Ele está irreconhecível como o presidente Lyndon Johnson, e não só por causa da maquiagem. Mudou o centro de gravidade do corpo, a voz e todo o gestual, e eu tive a sensação de estar vendo meu avô materno (que era a cara do Johnson). A trajetória desse figurão é fascinante: ele traiu seus pares e perdeu a chance de se reeleger, mas aprovou a maior parte da legislação que garantiu os direitos civis (leia-se dos negros) nos turbulentos anos 1960. Mas o filme não é bem sobre técnicas de marketing, e mais sobre os intestinos da política. Só quem tiver interesse sobre o assunto vai gostar - e se maravilhar com uma atuação que deve vencer todos os prêmios do ano.

NOVE SEM TIRAR

Hoje meu blog completa nove anos, que é mais do que a idade de muitos dos meus leitores. Chega a esta data provecta com mais audiência do que nunca, mas eu sei que não é por causa da minha prosa saborosa. É tudo culpa da situação política, essa marcada, que nos atazana há tantos anos e não tem hora para acabar. O mundo mudou muito nesta quase década, e eu também. Ando mais sem paciência, comprando brigas bobas e encarando o futuro com menos otimismo do que antes. Mas continuo escrevendo aqui todo dia, e nada se compara ao frisson de ver na caixa-postal um monte de comentários aguardando moderação - ainda que sejam todos da Monotemática. Valeu, parças!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

CHAMA O JUCÁÁÁÁÁ

Só a Velhinha de Taubaté (googla aí se você não tem idade para saber quem é) ainda acreditava na probidade do ministério Temer. Não é surpresa nenhuma ouvir Romero Jucá dizendo que a Lava-Jato precisa ser limitada (o que quer dizer "acelerada" em sua novilínga, como traduziu depois de ser pego no flagra). A biografia dele, como mostrou Marcelo Tas, é um resumo da história recente do Brasil. O sujeito fez parte de todos os governos desde Figueiredo, inclusive os do PT. Agora caiu a máscara, e sua situação ficou insustentável. Espero que ele saia até amanhã. E para quem ainda está na dúvida: sim, eu fui contra o governo Dilma, e nem por isto aplaudo qualquer coisa que o Temer fizer. Sete ministros citados na Lava-Jato é algo inadmissível, André Moura como líder do governo na Câmara também é. Mas não tenham dúvidas de que a quase ex-presidente teria dado cargos e privilégios a todos eles, se isto lhe garantisse alguma sobrevida no Planalto. Este é o problema da política brasileira em geral: sempre dá vontade de vomitar.

JÁ ERA DE AQUARIUS

Os resultados do Festival de Cannes sempre refletem a personalidade do presidente do júri. Seria mesmo de se admirar que George Miller, o diretor de "Mad Max", fosse se encantar pelo cinema quase meditativo de Kléber Mendonça Filho. Eu mesmo não gostei muito do badalado "O Som ao Redor", mas claro que eu estava torcendo para que "Aquarius" levasse alguma coisa - principalmente para Sonia Braga, que é o tema da minha coluna de hoje no F5. Nessas horas eu visto mesmo a camisa. Mas o fato do filme não ter levado nada não quer dizer muita coisa. "Aquarius" provavelmente fará uma bela carreira internacional, e aposto que será o indicado pelo Brasil para concorrer ao próximo Oscar. Também aposto que nada disso servirá para mudar a opinião do pessoal que se melindrou com os protestos nos degraus do Palais.

domingo, 22 de maio de 2016

50 TONS ACIMA


Kate Winslet é uns 15 anos velha demais para ser a protagonista de "A Vingança Está na Moda". Mas isto nem é o que causa mais estranheza neste filme australiano, baseado num romance que fez muito sucesso por lá. Toda a produção está vários tons acima: nos figurinos, no roteiro, na direção e, principalmente, nas atuações. Todo mundo ligeiramente mais over do que seria necessário para uma comédia negra. E quem é tão divertida assim: do meio para o final, a coisa desanda e assume ares trágicos, para acabar de um jeito que justifica o título brasileiro (o original era mais simplismo, "A Modista"). O longa ganhou um monte de prêmios no equivalente dos Oscars na Austrália por falta de concorrência, mas não tem nada de mais. É como uma sobremesa exótica: bom para variar o cardápio.

BRIGADÔRO

O americano médio não presta a menor atenção no Brasil. Por isto, foi uma surpresa ver "Dilma Rousseff" surgir na bancada do quadro "Weekend Update" do "Saturday Night Live" exibido ontem à noite nos EUA. A divina Maya Rudolph não se preocupou em imitar o jeitinho meigo e cativante da nossa quase ex-presidente, e ainda recheou seu discurso (que pelo menos era desconexo) com palavras em espanhol e outras pronunciadas errado, como "brigadôro". Mas uma coisa ficou clara: para o programa, o que rolou por aqui não foi um  golpe.

sábado, 21 de maio de 2016

DOIS PAÍSES

São dois países horríveis de se viver. Dois países em crise, cheios de problemas. Mas são problemas muito diferentes: os que afetam um deles parecem não atingir o outro, e vice-versa. Esses países são próximos, porém paralelos. Não se tocam. Num deles existe um rombo de 170 bilhões na economia. As consequências são recessão, inflação e desemprego. Neste país também há uma investigação em andamento para extricar os corruptos do aparelho estatal, contaminado durante mais de uma década. Enquanto isto, no outro país, houve um golpe branco. Um governo eleito pela maioria dos votos foi trocado por outro, que dificlmente teria suas propostas aprovadas pelas urnas. Os corruptos e/ou reacionários invadiram o ministério, e os avanços sociais dos últimos anos estão em marcha-ré. Para completar, a cultura foi eliminada das prioridades governamentais. A minha timeline no Facebook está dividida: parte dos meus amigos mora em um país; a outra parte, no outro. Todos sofrem muito, mas uns não veem os problemas dos outros. Em qual desses países você vive?

sexta-feira, 20 de maio de 2016

ANA PAULA SAFADÃO

Rindo alto da reação da internet às imbecilidades cagadas pela boquinha de Ana Paula Valadão. A cantora gospel (que já deu palestra sobre as delícias de se pagar o dízimo) sentiu "santa indignação" quando viu o comercial da nova coleção unissex da C&A. Só que nem a Bíblia ela conhece direito. O trecho citado por ela, Gálatas 1:10, é assim: "Persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo". Onde está dito aí que homem tem que se vestir de homem e mulher, de muher? Fora que Jesus usava um vestidão e cabelos baloiçando ao vento... e pregava o amor ao próximo, claro.
Porque, persuado eu agora a homens ou a Deus? ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo.
Gálatas 1:10
Porque, persuado eu agora a homens ou a Deus? ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo.
Gálatas 1:10

ENCUNHALADO

É ótimo, só para variar, ver Eduardo Cunha nervoso e hesitante. Ontem o futuro ex-presidente da Câmara dos Deputados estava longe de desfrutar dos habituais 150% de sua notória cara-de-pau. Gaguejou, subiu o tom, olhou para baixo, confirmou que está se borrando de medo. Mas nós também deveríamos estar: mesmo afastado de suas funções, Cunha continua exercendo um poder nefasto. Tem boa parte dos colegas nas mãos e conseguiu emplacar vários aliados no primeiro escalão do governo Temer. Agora ele avisa que, a partir de segunda-feira, voltará a dar expediente em seu gabinete no Congresso, mesmo não podendo mais presidir as sessões nem definir a pauta do dia. É óbvio que seus pares não irão cassá-lo, ainda mais porque as eleições de 2018 estão longe e eles confiam no esquecimento do povo. Talvez só nos reste a saída à moda americana: o bom e velho assassinato.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

FALTA DE CULTURA

MinComoda ver tanta gente educada, tantos amigos queridos, falando besteira na internet sobre os mecanismos de incentivo à cultura. Os colunistas de direita souberam criar, ao longo de anos, a noção de que o governo dá dinheiro para que os artistas amigos continuem a apoiá-lo; dinheiro esse que não iria para obra nenhuma, e sim para a compra de suntuosos apartamentos em Paris. Ignoram que o finado Ministério da Cultura consumia apenas 0,2% do orçamento da União, quando a Unesco recomenda que seja pelo menos 1%. E que essa quantia ínfima vai não só para o cinema e o teatro, mas também para os museus, a conservação do patrimônio histórico, as feiras do livro, os programas de intercâmbio, e por aí afora. Não: o que interessa é reclamar que, se um filme tem potencial comercial, então porque precisaria captar dinheiro pela Lei Rouanet? E, se não tem, então por quê fazê-lo, já que seria total desperdício do dinheiro público? Essa galera ignora que quase todos os países têm órgãos estatais de incentivo à cultura (inclusive os EUA, onde o National Endowment for the Arts conta com um orçamento milionário), e que a França, a Itália e muitos outros TÊM SIM um Ministério da Cultura, ao contrário do que vem sendo espalhado nas redes sociais. Também esquecem que os empréstimos do BNDES e as renúncias fiscais têm vários objetivos. Um deles é fazer a economia girar. Um filme, uma peça, um show, tudo isso dá emprego. E emprego gera salário. E com salário as pessoas compram. E pagam imposto. Aliás, sabia que um "blockbuster" financiado em parte pela Lei Rouanet - digamos, uma comédia do Leandro Hassum - gera impostos diretos e indiretos MUITO MAIORES do que foi captado? Os ingressos do cinema, o estacionamento, a bombonière, o DVD, a venda para a TV aberta, a TV a cabo, o Netflix... Nada disso aconteceria sem o empurrãozinho do governo. "Ah, mas e os filmes que não dão lucro?". Sim, muitas obras financiadas com ajuda do governo não dão lucro. Acontece que governo não é empresa: não tem fins lucrativos. Um dos objetivos dessas políticas públicas é DIVERSIFICAR a cultura nacional. Para que haja de tudo, não só os "blockbusters". E também gerar emprego, renda, imposto, essas coisinhas. Não conheço um único artista que tenha ficado rico graças aos incentivos fiscais ou o BNDES. Chico Buarque, por exemplo, comprou seu famoso apartamento em Paris nos anos 1970, quando ainda era perseguido pela ditadura militar e com recursos próprios. Hoje o cinema brasileiro flutua entre 13 e 19% do mercado interno, o que é muito para qualquer país que não seja a Índia ou os EUA. Sem os incentivos, só haveria novela da Globo e olhe lá. O audiovisual injeta mais dinheiro na economia do que o turismo: é uma indústria, portanto merece proteção oficial. Veja bem, não estou dizendo que nossos mecanismos sejam perfeitos, nem que não ocorram distorções. Mas não existe essa de só beneficiar os apaniguados: Danilo Gentilli, por exemplo, um dos maiores críticos do PT, recebeu autorização para captar uma bolada via Rouanet para um projeto seu. Mas é mais divertido "denunciar" Kléber Mendonça Filho, o diretor de "Aquarius", por ser funcionário público. Ele ganha menos de 4 mil reais por mês como coordenador de cinema da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife -  cargo que ocupa desde a era FHC, e onde realiza um trabalho sério e respeitado no setor. Vamos parar com essa histeria coletiva, gente. Cultura gera emprego, aquece a economia, incrementa o turismo e as exportações, cria identidade e "soft power". Em qualquer país sério, ela é tratada como política de estado. Ufa.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O SECRETÁRIO-MAGIA

Assim que anunciaram Marcelo Calero como o novo secretário nacional da Cultura, eu fiz o que qualquer pessoa normal faria: fui vasculhar o perfil dele no Facebook. Hmm, gato. Hmmmmm, 30 amigos em comum - babado fortíssimo! Hmm, o cara só tem 33 anos. Aí fiz uma piadinha na minha timeline dizendo que, dada sua tenra idade, Calero só aprovaria projetos tipo Minecraft, e boa parte desses amigos partiu em seu socorro. Só me falaram coisas boas! Competente, preparado, you name it. É, bebé, parece que o Temer finalmente deu uma dentro.

NOSSO PRIMEIRO SEX-SYMBOL


O documentário "Cauby: Começaria Tudo Outra Vez" passou nos cinemas um ano atrás e já estava disponível no Now há alguns meses. Mas claro que só agora, com a morte do cantor, eu me dispus a assisti-lo. Não é exatamente uma ampla retrospectiva da carreira de Cauby Peixoto: há poucas imagens antigas, e perde-se muito tempo com um desinteressante fã de 15 anos que sonha em conhecer em seu ídolo. Mas ver Cauby em ação é sempre uma delícia. Nos últimos tempos, ele aparece meio catatônico quando não está no palco, como se não entendesse direito o que acontece à sua volta. Mas nos anos 1950 Cauby irrompe serelepe, magérrimo e sedutor. Foi aí que me caiu a ficha: ele foi o primeiro sex-symbol da MPB. Até então, nossos cantores só eram vozeirões. Francisco Alves, Mário Reis, Orlando Silva, Nélson Gonçalves, nenhum precisou de fina estampa para fazer sucesso. Mas Cauby coincide com a chegada da TV no Brasil, e não é por acaso que sua imagem conte tanto quanto seu talento. Depois, é claro, ele se tornou outra coisa: nosso único astro capaz de entrar em cena usando um mantô de vison, como mostra uma cena do filme.

terça-feira, 17 de maio de 2016

SERGAYNEJO

A música é odiosa. O roteiro é atroz. As interpretações - inclusive a de Felipe Titto - são pífias. E no entanto, o novo clipe de Thiago Di Melo (por quê "Di", santo Deus? porquêporquêporquê?) não deixa de ser revolucionário. Salvo engano, é a primeira vez que um sertanejo mainstream abraça a viadagem. Golpe de marketing? Ou uma saída do armário que não ousa dizer seu nome?

(Nem lembrei que 17 de maio é o Dia Internacional de Combate à Homofobia, mas tá valendo. E nem lembrei de agradecer mais esta dica do Marcelo Borges. Foi ele que também me mostrou o clipe do Silva que eu postei semana passada.)

VELHO, DESCONECTADO E NO AR

Michel Temer é a pessoa mais velha a assumir a presidência do Brasil. Ele está com 75 anos - quatro a mais do que FHC tinha quando deixou o Planalto. Verdade que o presidente interino aparenta uns dez a menos, mas é só aparência. Os primeiros atos de seu mandato demonstram que ele tem os pés e a cabeça em outra época, quando ainda não existia internet, demanda por direitos ou mesmo opinião pública. Seu ministério formado apenas por homens brancos é de uma insensibilidade ímpar: como foi que ele achou que tudo bem? Aliás, de onde ele tirou a brilhante ideia de extinguir o MinC? E alguém mais antenado dificilmente cairia no trote tosco que uma rádio argentina lhe aplicou no dia da posse, onde um locutor se fez passar por Macri. Como se não bastasse, o logo de seu governo lembra o de uma novela da Globo dos anos 90 - e o designer ainda cometeu a bobagem de usar a bola com 22 estrelas da bandeira do regime militar, quando a atual tem 27. Por enquanto nada disso é especialmente grave: a inflação e o desemprego não vão subir por causa dessas derrapadas. Mas elas sinalizam que Temer, tantas vezes comparado ao Drácula de Bela Lugosi, está mais para o Vovô do antigo seriado "Os Monstros". Um presidente analógico e em preto-e-branco num mundo digital e HD.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

À MARSELHESA


Marselha é uma espécie de Rio de Janeiro da França: segunda maior cidade do país, à beira-mar, bagunçada e com altos índices de criminalidade. Por isto mesmo vive inspirando filmes com seu nome, geralmente policiais. Agora chegou a vez da TV. "Marseille" é a primeira série francesa produzida para o Netflix, e encampa com gosto todos os clichês sobre a cidade. O que faz com que os episódios demorem um teco para engrenar: afinal, será que precisamos mesmo de mais um programa sobre corrupção, sexo e drogas? Mas a força de Gérard Depardieu se impõe, compensando o biquinho de nojinho que Benoît Magimel não tira do rosto. A história acaba se tornando um novelão, com filho bastardo, doença terminal e amores impossíveis, deixando a disputa política para o segundo plano. Não é uma versão gaulesa de "House of Cards", mas tem umas reviravoltas interessantes. Vamos ver se melhora na segunda temporada.

JAMAIS CANTEI TÃO LINDO ASSIM

Impossível não gostar de Cauby Peixoto. Mesmo que suas músicas soassem demodées, o cantor era uma figuraça irresistível. Engraçado, carismático e cada vez mais aloprado com o passar dos anos, era o nosso Liberace. Cantou bem até morrer: lembro da última vez que o vi, ao lado de sua BFF Ângela Maria. Alquebrado, meio fora do ar e sentado durante todo o show, sua voz soava muito mais forte que a da lépida Sapoti. Há tempos ele vivia acossado por inúmeros problemas de saúde. Ontem Cauby se foi - mais um astro fulminado neste ano macabro que parece regido por Shiva, o deus hindu da destruição. Mas seu legado é indestrutível. Na minha coluna de hoje no F5, analiso a curiosa contribuição de Cauby Peixoto para o avanço da causa LGBT no Brasil. Ele não era um militante e muito menos politizado, mas o fato de não ter aceito ficar na caixinha que lhe deram já o torna um pioneiro. Só sei que todo cabaré o aplaudiu de pé quando chegou ao fim.

domingo, 15 de maio de 2016

A AUSTRÁLIA FICA NA EUROPA?


O Eurovision não gosta de política. O festival prefere as canções escapistas e alegrinhas, sem maiores consequências. Tanto que, alguns anos atrás, desclassificou a Geórgia por causa de uma música chamada "We Don't Want Put In". Mas a política, em senso amplo, às vezes dá um jeito de entrar em cena. Em 2014 ela encarnou em Conchita Wurst, que ganhou basicamente por ser uma mulher barbada. Isso torna a vitória de "1944", que concorreu pela Ucrânia, ainda mais surpreendente. Porque dessa vez a conotação política está na própria letra, que fala do massacre dos tártaros da Crimeia pelos soldados soviéticos. E é óbvio que se trata de um paralelo entre este fato histórico e a recente anexação da Crimeia pela Rússia. Mas o fato é que essa era mesmo a melhor candidata num ano decididamente fraco. "1944" salvou o Eurovision 2016 da irrelevância total.

Será que os russos irão boicotar o festival do ano que vem, que deve acontecer em Kiev? Ainda mais porque era deles a favorita das casas de apostas, "You Are the Only One". Um número bem pop ao estilo de Justin Timberlake (que, aliás, fez o show do intervalo), e que acabou vencendo no voto popular. Só que não teve pontuação suficiente para desbancar "1944", que ficou em segundo tanto na preferência do público quanto na dos júris nacionais. Esta foi a primeira vez que divulgaram esses resultados em separado; a soma de ambos revelou o vencedor.
Essa nova maneira de divulgar os pontos aumentou o suspense, além da expectativa de que a próxima edição fosse realizada bem longe da Europa. Porque a Austrália ganhou de barbada no voto dos jurados. Cumequié, Austrália?? Pois é: o país dos cangurus garante uma das maiores audiências ao evento, e foi convidado a participar no ano passado, quando o ESC comemorou 60 anos. O sucesso foi tão grande que resolveram efetivá-lo como membro permanente. Legal, bacana, mas Austrália ganhando o Eurovision é golpe, néam?

sábado, 14 de maio de 2016

CABEÇA DE RÁDIO


Em 1997, o mundo inteiro saudou "OK Computer" do Radiohead como o melhor disco de todos os tempos. Eu, que sou maria-vai-com-as-outras, comprei, ouvi algumas vezes e gostei. Médio. De médio para baixo, vai. Achei tudo lindo, um pouco melancólico demais. Alguns depois a banda lançou "Kid A" e aí eu achei que aquele som não era mesmo para mim. Ignorei tudo o que Thom Yorke e sua turma fizeram desde então. Só agora, quando "Moon-Shaped Pool" está disponível nos serviços de streaming, que eu voltei a me interessar. E não é que o álbum é bom mesmo? Nada que dê para tocar no rádio, nada que fique grudado na cabeça. Mas um climão envolvente do começo ao fim. Triste, sim, mas não o suficiente para cortar os pulsos. Acho que eu finalmente entendi qual é a do Radiohead. Agora só falta voltar a gostar do U2.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O IMPÉRIO DA COSQUINHA

Quando a gente acha que já viu de tudo, eis que surge "Tickled", um documentário sobre o submundo das cócegas. Pois é: jovens sem dinheiro aceitam que tarados lhes façam cosquinha. Às vezes rola até concurso, do tipo "quem será que aguenta mais tempo?". Mais bizarro ainda é o fato do repórter australiano David Farrier ter recebido ameaças homofóbicas quando começou a investigar esta cena, pois é mais do que óbvia a conotação gay dessa tara, apesar de não rolar sexo. O que só confirma que não existe preconceito maior do que o de uma bicha enrustida. "Tickled" não tem previsão de estrear no Brasil, mas fica a dica para os programadores de festivais LGBT. Deve ser de rolar de rir.

QUEM CONTA UM CONTO


O que hoje chamamos de contos de fadas estavam mais para histórias de terror quando surgiram, bem antes da pasteurização imposta pela Disney. Eram violentos, moralistas e sem necessariamente um final feliz. Três deles, compilados por Giambattista Basile no século 17, ganham um visual espetacular em "O Conto dos Contos". O diretor italiano Matteo Garrone era conhecido por filmes realistas como "Gomorra", mas essa incursão pelo mundo da fantasia mostra que ele é de fato um enorme talento. Além da direção de arte primorosa, também ajuda o fato do espectador comum não saber como essas fábulas terminam. Uma rainha come o coração de um monstro marinho para conseguir engravidar; um rei se encanta por uma mulher que ele vê de longe, sem se dar conta de que é uma velha; outro rei cria uma pulga de estimação, até ela ficar imensa. Com elenco internacional, diálogos em inglês e uma influência confessa de "Game of Thrones", "O Conto dos Contos" é um filme diferente do rame-rame imposto por Hollywood. Esqueça "O Caçador e a Rainha do Gelo", e venha se deslumbrar.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

HOMENS BRANCOS E RICOS

Vejamos pelo lado bom. Michel Temer responde às pressões e muda de ideia, diferente de sua antecessora. Indicou um "bispo" criacionista para a Ciência e Tecnologia e depois teve que desindicar, por causa da gritaria do setor. Indicou Newton Cardoso Jr., inexperiente e oriundo de uma família suspeitíssima, para a Defesa - só para recuar depois dos milicos reclamarem. Por outro lado, a fama de negociador experiente do presidente interino sai maculada com essas mancadas. E o que é pior: Temer está dando sinais de que não realmente vive no mundo de hoje. É inadmissível, em pleno 2016, formar um ministério só com homens brancos, ricos e para lá da meia-idade. É assim que ele acha que vai conseguir algum apoio popular? Fora que sete ministros indiciados na Lava-Jato fazem seu governo começar com dois pés esquerdos. Além disso, a fusão da Cultura com a Educação também lhe retirou qualquer simpatia do meio artístico, que ainda tem forte poder influenciador. E ainda há mais um monte de mazelas, que estão fazendo os petistas reagir como se os ministérios de Dilma só tivessem gente honrada, progressista e competente. Mas Temer, por enquanto, está confirmando algumas das piores expectativas. Só falta explodir quando tomar água benta.

TCHAU, FERIDA

A foto ao lado é antiga, do tempo em que a Dilma ainda era popular. Mas é uma boa tradução do dia de hoje: ferido de morte, o segundo governo da presidente se dá por encerrado, com pouquíssimas chances de sobreviver ao julgamento no Senado. Dilma, ela mesma, é uma ferida aberta na história do Brasil que vai levar um bom tempo para cicatrizar.  Ungida por Lula como sua sucessora, ela na verdade era o plano C - antes dela vinham Zé Dirceu e Palocci, que foram tragados pelas próprias falcatruas. A ex-ministra da Casa Civil ainda disputou com Marina Silva e Marta Suplicy a honra de ser a primeira mulher a concorrer pelo PT ao cargo máximo da república. Hoje Lula deve se arrepender amargamente de sua escolha, mas na época ela passava mesmo a imagem de gerentona dura e eficiente. Que seduziu até uma parte do eleitorado que não engolia o ex-sindicalista barbudo - e eu mesmo, que nunca votei nela, acreditei no começo que essa fama era merecida. Mas Dilma revelou-se uma incompetente contaminada pela arrogância. Destruiu uma economia que ia bem, indispôs-se com Deus e o mundo, mentiu descaradamente. Não conheço uma só pessoa que goste dela, mesmo entre os petistas mais aguerridos. Agora ela sai de cena, e não vai deixar saudades. O que não quer dizer que um novo Brasil, risonho e franco, surgirá amanhã: eu também não queria o Temer, e muito menos os vários citados na Lava-Jato que compõem seu ministério. Mas pelo menos Henrique Meirelles na Fazenda me dá algum alento. Está na hora de virar a página.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

OURO DE TOLO

Sim, isso aí do lado é um dildo. Um consolo. De ouro. Que. Custa. Quinze. Mil. Dólares. Ficou com vontade? Então corre pro Goop, o site da Gwyneth Paltrow que vende bobagens gourmetizadas por preços absolutamente ridículos. A atriz é muito criticada por promover um estilo de vida inacessível aos mortais comuns, mas aposto que hoje em dia ela fatura mais com negócios online do que no cinema. Quem está se fodendo somos nós. E não é com ouro.

BISSEXUAL E PONTO

Eu caí de amores pelo Silva assim que o descobri, há pouco mais de três anos. Achei que não havia nada parecido com ele no panorama atual da música brasileira. Só que seus discos seguintes me decepcionaram um pouco; o mais recente, "Júpiter", foi lançado em dezembro e sequer mereceu post aqui no meu blog. Mas agora o capixaba se redime com o clipe de "Feliz e Ponto". A música em si nem é lá essas coisas, mas a pegada libertária, meio anos 70, é modernérrima para os tempos caretíssimos que correm. Fiquei feliz da silva.

terça-feira, 10 de maio de 2016

COISA DE MULHERZINHA

Hoje a Dilma repetiu um argumento que se tornou comum entre seus defensores: ela está sendo impichada, entre outras coisas, também por ser mulher. Não, presidente. A senhora será apeada do governo por incompetência. Um desastre na economia, outro na articulação política. E ainda há a suspeita de ser, no mínimo, conivente com a corrupção. Seu sexo e/ou gênero jamais estiveram em questão. Na boa: difundir esta falácia é digno de mulherzinha. No mau sentido.

POUPADOS

Patrícia Abravanel sentiu a fúria de meia internet por causa de suas declarações contra os gays. Também está recebendo o apoio da outra metade: um dos "trending topics" do Twitter neste momento é #PatríciaAbravanelMeRepresenta, o que já desatualiza um pouco minha coluna no F5 (escrita ontem, publicada hoje). Um dado curioso dessa polêmica toda é que papai Silvio Santos foi poupado - e foi ele quem levantou o assunto em seu programa de domingo passado, manifestando desagrado com o filme "Carol" e incitando o auditório a se manifestar. Acontece que SS já está meio acima do bem e do mal. E quem lê esse blog sabe que eu acho que não adianta criticar gente mais velha por homofobia. Eles vêm de outro tempo, e vão morrer daqui a pouco de qualquer jeito Outra curiosidade é que, nessa polêmica toda, ninguém lembrou do Tiago Abravanel. Isso também é normal?

segunda-feira, 9 de maio de 2016

MEIRELLES PARALELO

Dezembro de 2014. Ciente de que a economia precisa de um chacoalhão, Dilma aceita a eterna sugestão de Lula e convoca Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda. O ex-presidente do Banco Central exige carta branca. A presidente, mesmo que a contragosto, acaba cedendo. Com o apoio do PT, Meirelles consegue implantar a maioria das reformas necessárias. A economia melhora aos poucos, e o clima pró-impeachment se esvai. Mesmo com as denúncias da Lava-Jato, a oposição não consegue com que o processo avance. O Brasil volta a crescer, e é isso o que importa para a maioria das pessoas. A crise morre no nascedouro. Claro que não foi nada disso o que aconteceu. O irônico é que, agora, com a queda de Dilma, quem deve assumir as rédeas da economia é EXATAMENTE o preferido de Lula. Que vai encarar uma situação muito pior do que a de dezembro de 2014. Quer dizer, isto se Dilma cair mesmo. Agora não me arrisco mais a prever nada.

DE TÉDIO NÃO MORREREMOS

Se o Brasil fosse um roteiro de cinema, todo mundo ia reclamar que não era crível. Os acontecimentos se sucedem de maneira atabalhoada. A suspensão do impeachment por Waldir Maranhão transformou um processo que já foi comparado a "House of Cards" ou "Game of Thrones" num arremedo de "Lost": ninguém sabe mais nada de porra nenhuma. Já ouvi teorias diametralmente opostas sobre o que estaria por trás dessa decisão, de uma manobra sinistra de Cunha a um lance desesperado de Dilma. Segurem-se, porque o dia ainda está na metade.

domingo, 8 de maio de 2016

BIOLAYRES


Depois de tantos anos de noivado imaginário (ele nem desconfia da minha existência), Benjamin Biolay e eu hoje desfrutamos de um convívio amadurecido, tranquilo. Mas de vez em quando ainda rolam umas surpresinhas, como "Palermo Hollywood". Eu nem estava esperando um álbum novo em 2016, já que o último - "Trenet", só com canções clássicas do repertório de Charles Trenet - foi lançado há menos de um ano. Só que agora Biolay vem com um trabalho totalmente inédito, e bastante influenciado pela cidade para onde se mudou - Buenos Aires! Pois é, o cara nem para me avisar, mas eu já perdoei coisa pior. O que importa é que "Palermo Hollywood" traz um clima portenho para o universo musical desse francês que é sempre comparado a Serge Gainsbourg. Tango, cumbia e rap argentino permeiam as 14 faixas do disco, já disponível nos bons serviços de streaming do ramo. E eu acabo de renovar meu noivado por mais uma década.


sábado, 7 de maio de 2016

LUTA LENTA


Os filmes de kung-fu eram considerados o suprassumo do trash até Ang Lee lançar "O Tigre e o Dragão" em 2000. O diretor taiwanês deu tratamento de arte a um gênero extremamente popular, e o resultado foi um hit mundial premiado com o Oscar. Agora chega um longa que tenta deixar o wuxia (como esse estilo é chamado na China) ainda mais rebuscado. "A Assassina" levou o prêmio de melhor direção em Cannes no ano passado, mas quem for esperando ação de tirar o fôlego vai sentir um soninho... O ritmo é lento, e algumas cenas de luta são cortadas de repente, sem que a gente saiba quem ganhou. A história - uma garota treinada para matar, que é punida quando mostra compaixão por suas vítimas - também não é das mais fáceis de acompanhar. Pelo menos o visual é deslumbrante, das paisagens misteriosas aos figurinos de luxo.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

ANA BOA ATRIZ

Eu nunca tinha visto Ana Beatriz Nogueira no palco. Preenchi essa lacuna no meu currículo com o monólogo "Tudo que Eu Queria Dizer", onde ela interpreta cinco cartas fictícias que estão no livro de Martha Medeiros do mesmo nome. Ana Beatriz é um assombro em cena: sem trocar de figurino, ela se transforma em cinco mulheres diferentes, que desabafam para maridos, amantes e analistas. A peça tem um único defeito: é muito curta, apenas 45 minutos. Ainda caberiam umas três cartas a mais, e nem assim eu sairia saciado.

YES WE KHAN

Um muçulmano acaba de ser eleito prefeito de Londres. Para nós, brasileiros, que não acompanhamos o dia-a-dia da política britânica, a notícia soa até absurda. Mas Sadiq Khan não caiu do céu. O cara já foi ministro das Comunidades e dos Transportes, e atualmente é membro do Parlamento pelo Partido Trabalhista. Também é um "case" de sucesso que merece ser explorado: filho de um motorista de ônibus paquistanês, votou pelo casamento gay e é ardente defensor da permanência do Reino Unido na União Europeia. Casado com uma muçulmana que não usa véu, Khan foi muito atacado durante a campanha por suas supostas relações com fundamentalistas. Mas ele mesmo é o objeto de uma "fatwa" (ameaça de morte) decretada por um imam radical. Sua eleição acontece num momento surpreendente, com o Estado Islâmico apavorando a Europa e Donald Trump crescendo nos Estados Unidos com um discurso xenófobo. Tomara que ele faça um excelente governo e sirva de exemplo para os boçais de todos os lados.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

JATO NELE

A suspensão do mandato de Eduardo Cunha merece ser comemorada com champagne, mas ela também descortina um drama que não estava sob os holofotes: a tensão entre os membros do STF. Teori Zavascki estava sentado em cima do pedido da PGR desde dezembro, e até dá para entender a hesitação dos juízes em interferir tão drasticamente em outro poder da república. Mas esse atraso virou piada e gerou forte repercussão nas redes sociais. Enquanto isso, Cunha comandou o impeachment na Câmara e parecia esta mais forte do que nunca. Então a Rede entrou anteontem com uma ação pedindo o afastamento do malvado, e Lewandovski marcou o julgamento para hoje. Teori ficou puto e passou na frente. Na verdade, essas picuinhas internas do Supremo pouco importam, contanto que o resultado final seja mesmo o defenestramento do Chicuncunha. É evidente que a saída dele não é nenhuma panaceia: sua gangue continua no Congresso, e não falta corrupto no Brasil. Mas é um avanço, e um alívio. Tomara que a Lava-Jato continue lavando o país.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

ESQUERDA CAVIAR

Que mané Met Gala. O evento fashion mais importante da semana foi o desfile da Chanel em Havana. Nem tanto pelos looks, que são até bem bonitos, mas por suas conotações mercadológicas e políticas. Para a maison parisiense, foi um belíssimo golpe publicitário. Conseguiu muito mais espaço na mídia do que se tivesse desfilado no Grand Palais. Para a ditadura cubana, hmm, sei não.

Ao contrário do show dos Rolling Stones, dessa vez o povo não foi convidado. A Chanel trouxe até a plateia, que incluía Gisele Bündchen, Tilda Swinton e Vanessa Paradis. O que mais me impressionou é que não há um aparato de segurança visível em torno do Paseo del Prado. Mas claro que ele está lá, e isto só reforça o fato de Cuba ser dominada por um regime totalitário. Também há um certo clima de capitulação ao consumismo supérfluo, e o escancaramento de que existe área VIP mesmo nos lugares que se juram igualitários. Isso me incomoda: sim, eu sou adepto do luxo para todos.

CRUZ CREDO

Ufa. É um alívio saber que Ted Cruz desistiu de pleitear a candidatura republicana. A mídia brasileira prestou muito mais atenção ao histrionismo de Donald Trump, mas o fato é que Cruz era ainda mais perigoso que o tresloucado magnata. Um evangélico repelente, inescrupuloso e carreirista, rejeitado por seus próprios pares no Senado, inimigo jurado dos LGBT e defensor de uma pauta retrógrada em todos os sentidos. E o que é pior: com mais chances de bater Hillary Clinton em novembro do que Trump. Mas sua campanha vinha fazendo água, e a tentativa desesperada de lançar Carly Fiorina como a vice de sua chapa saiu pela culatra. Ela é uma executiva com ambições políticas sem nenhuma experiência no governo; o grande feito de sua biografia foi demitir centenas de pessoas quando foi presidente da Hewlett-Packard, de onde também acabou sendo ejetada. Agora é torcer para que ele não reemerja daqui a quatro anos, quando houver uma nova eleição presidencial nos EUA. Mas desconfio que o partido republicano irá aprender a lição com a provável derrota neste ano, e evitar futuras aberrações.

terça-feira, 3 de maio de 2016

DIANTE DO TRONO

Qualquer resquício de boa vontade com o governo Temer escorrerá pelo ralo se for confirmado o "bispo" Marcos Pereira para o Ministério da Ciência, Inovação e Tecnologia. Não que a pasta tenha sido bem tratada por Dilma Rousseff. Seus últimos titulares foram Aldo Rebelo, que já quis proibir computadores em órgãos públicos "para preservar empregos", e Celso Pansera, um dos capangas da gangue comandada por Eduardo Cunha. Mas indicar um sacerdote da Igreja Universal do Reino de Deus é um tapa na cara da sociedade. A IURD, como todas as denominações evangélicas, defende o criacionismo e acha que homossexualidade é escolha - ou seja, são inimigos declarados da ciência. Semana passada Temer voltou atrás com seu favorito para o ministério da Justiça, depois que pegaram mal as declarações que o dito cujo soltou contra a Lava-Jato. Agora o caso é ainda mais grave. Mas também é só mais um sintoma do descaso com que o estado brasileiro trata a ciência. Tanto que uma de nossas mais brilhantes cabeças, a neurocientistas Suzana Herculano-Houzel, jogou a toalha e está de mudança para os Estados Unidos. Uma perda insgnificante para quem se ajoelha diante do trono da "governabilidade", que abre espaço para as forças mais obscurantistas em troca da manutenção de um projeto de poder.

PRESENÇA DE ANITA


Nunca se prestou tanta atenção à política no Brasil. Pela primeira vez na história, pessoas comuns sabem de cabeça o nome de pelo menos um ministro do STF. Este nosso interesse faz com que "Confirmation", que pode ser visto na HBO e no Now, alcance uma ressonância que não teria alguns anos atrás. O filme trata da confirmação do juiz Clarence Thomas para a Suprema Corte dos Estados Unidos. Indicado por Bush pai basicamente por ser negro, Thomas era tido como muito aquém dos requisitos para o cargo, e uma batalha política para derrubá-lo começou nos bastidores do Congresso. Uma das armas usadas foi a professora Anita Hill, que concordou à revelia em depor contra seu antigo chefe. A moça contou sobre o assédio e a vulgaridade com que Thomas a tratou durante o período em que trabalharam juntos, e se tornou o epicentro de um grande debate nacional. No final, o sujeito foi confirmado - e está na Suprema Corte até hoje, como um de seus juízes mais conservadores - mas o calvário de Anita, que foi achincalhada por setores da mídia, serviu para que se aprovassem muitas leis de proteção à mulher. "Confirmação" não é divertido, nem chega aos pés de outra recriação de um caso rumoroso dos anos 90 - a excelente série "The People vs. O. J. Simpson". Mas é uma espiada nos intestinos da política americana, que sempre tem reflexos em boa parte do mundo. E mais uma vez eu me pergunto: porque ainda fazemos tão poucos filmes sobre os poderosos no Brasil?

segunda-feira, 2 de maio de 2016

NOCHE TRISTE

O uso do automóvel deveria ser proibido, para evitar as mortes no trânsito. A aviação comercial também: assim só morreriam pilotos de combate. Pensando bem, elevadores são outro fator de risco, pois volta e meia alguém não verifica se o mesmo se encontra e cai no poço. Sem falar nas tomadas elétricas, nas escadas rolantes, na comida para bebês e tudo o mais que pode causar, mesmo que remotamente, a morte de alguém. Pois foi este o raciocínio que seguiu um juiz de Buenos Aires. O magistrado soltou uma medida cautelar proibindo "toda actividad comercial de baile con música en vivo o música grabada", depois que cinco jovens morreram de overdose numa rave. A capital argentina já passou por uma trauma sério na noite: em 2005, a boate Cro-Magnon pegou fogo e matou um monte de gente, numa tragédia semelhante à da Kiss em Santa Maria (inclusive a causa do fogo foi a mesma: um gênio achou boa ideia soltar fogos de artifício em ambiente fechado). O resultado foi que Bs. As. ficou quase um ano sem vida noturna. Outros lugares, como Bogotá, já inventaram toque de recolher, e tudo o que conseguiram foi afastar os "boliches" para as cidades vizinhas - e aumentar os acidentes nas estradas. A tal da medida portenha foi logo derrubada por outro juiz, mas a difícil relação do poder público com discotecas e afins permanece. Inclusive por aqui, onde já se fala em proibir megaeventos como o Tomorrowland.

ABACAXI EMPACOTADO

Impressionante a falta de grandeza de Dilma Rousseff. Ao invés de se comportar com dignidade nesse estertor de seu governo, ela resolveu botar pra foder. O pacote de bondades anunciado ontem é de um total descalabro: aumentar o Bolsa-Família e reduzir o imposto de renda são medidas populares, mas impraticáveis quando a situação é de penúria como agora. A futura ex-presidente na verdade soltou mais um abacaxi para o Temer descascar, sem pensar no bem do país. Não percebe que, ao fazer pirraças como esta, está manchando a própria biografia.

domingo, 1 de maio de 2016

OLHO PREGUIÇOSO


Berlim é o mais político dos três grandes festivais de cinema, e não iria resistir a um documentário sobre os imigrantes ilegais que tentam ingressar na Europa. "Fogo no Mar" levou o Urso de Ouro na última edição do evento, cujo júri foi presidido por Meryl Streep. Pena que o filme seja chato para caralho. O diretor Ginafranco Rosi desembarcou na ilha italiana de Lamepdusa sem um roteiro, só uma câmera. Filmou cenas pungentes de sofrimento humano, mas também resgistrou o dia-a-dia banal de uma família local. E focou num menino travesso, que no entanto enfrenta um problema de visão. Seu olho esquerdo é "preguiçoso", funcionando apenas com 10% de sua capacidade. A solução clássica é tapar o olho bom, para que o cérebro force o outro a trabalhar. É uma metáfora meio óbvia porém canhestra sobre a relação da Europa com as massas que chegam a suas fronteiras: o continente se recusa a enxergar o problema por inteiro (e as razões desse problema nem sempre são culpa dos europeus). Some-se a isto um ritmo arrastado, e o resultado é um documentário preguiçoso, que vale mais por suas boas intenções do que por suas qualidades.