sexta-feira, 21 de outubro de 2016

ORIENTE MEDIANO


Pronto, começou mais uma Mostra de Cinema de São Paulo. Nem vou reclamar que a programação do Festival do Rio é bem mais bacana, porque não estou com muito tempo disponível e o evento paulistano tem títulos de sobra que me interessam. Este ano comecei minha maratona com três filmes sobre e/ou do Oriente Médio. O primeiro foi do diretor argelino Rachid Bouchareb, que já foi indicado duas vezes ao Oscar. "O Caminho de Istambul" foi feito para a TV, e trata de um problema cada vez mais comum na Europa: jovens que se convertem ao islamismo e aderem ao ISIS. O roteiro foca na mãe de uma moça que foge com o namorado para a Síria, e seus esforços para trazê-la de volta. O orçamento limitado impede que haja cenas de batalha ou maiores produções, mas a atriz Astrid Whetnall supera qualquer efeito especial. O desfecho também escapa do óbvio final feliz, deixando claro que essa tragédia ainda está longe de acabar.


Um filme ainda mais impactante é "O Apartamento", indicado pelo Irã para concorrer no próximo Oscar (o diretor Asghar Farhadi já ganhou uma vez, com "A Separação"). O personagem central é um cara bastante liberal para os padrões da república islâmica: professor de literatura, diretor e ator de teatro, montando nada menos que a clássica peça americana "A Morte do Caixeiro-Viajante". Mas, no fundo, o sujeito é tão machista quando os aiatolás, e não se importa em destruir o próprio casamento para, supostamente, limpar a honra que julga ultrajada. "O Apartamento" ganhou os prêmios de melhor ator e roteiro em Cannes, e o estilo da câmera lembra o nosso "Aquarius". Entendi o filme como uma grande metáfora: o prédio que está prestes a desabar na sequência inicial é o próprio país, com os alicerces carcomidos pela escavadeira do conservadorismo.

Não gostei de "Tempestade de Areia". É a escolha de Israel para concorrer ao Oscar, e acho que é a primeira vez que o país indica um filme falado em árabe. Aqui o assunto também é o machismo. Numa família de beduínos, a mãe sofre porque o marido casou-se com uma segunda esposa, e a filha sofre porque arranjou, à revelia dos pais,  um namorado na faculdade. Contando assim parece razoável, mas é chato pacas. E o fato deles serem árabes num país dominado por judeus nem entra em questão. Aposto que havia filmes melhores no páreo e que a seleção foi política. Assim comecei minha Mostra: um filme mediano, um bom e um ruim. Média 6, passou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário