quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

SUFLÊ ARRIADO


Dizem que não se deve comparar um filme à obra que lhe deu origem. Ele deve ser julgado por seus próprios méritos - além do mais porque, quando se trata de adaptações de livros volumosos, é impossível traduzir na tela todas as sutilezas do texto. Só que eu não consigo fazer isto. Eu li "Suíte Francesa", o romance inacabado de Irène Nemirovsky, e estava curioso para ver a versão para o cinema. E não consegui evitar a decepção, mesmo sabendo que uma tradução perfeita seria impossível. Os produtores resolveram focar no segundo volume do que seria uma série (uma "suite") de cinco novelas, que conta o romance proibido entre uma dona-de-casa francesa e um soldado alemão. Todas as muitas histórias da primeira parte, que narra uma fuga em massa da Paris invadida pelos nazistas, foram solenemente ignoradas. Em vez disso, os roteiristas resolveram apimentar a trama com um fuzilamento que não existe no original, e ainda inventaram um final mais, digamos, cinematográfico. Tudo isto e mais uma abominável narração em off, que explica com palavras o que o espectador deveria estar vendo na tela. Michelle Williams parece ter exagerado no Rivotril, e minha amada Kristin Scott-Thomas está caracterizada como vilã de desenho animado. Só o belga Mathias Schonaerts, um nome em ascensão, dá conta plena do recado. Mas é pouco: rodado em inglês e amputado de sua grandeza, "Suite Francesa" é indigno de suas raízes. Talvez uma minissérie francófona fizesse mais jus, mas agora é tarde, Esse suflê já murchou.

Um comentário:

  1. Eu não li o livro e curti bastante o filme. É claro que ser falado em inglês e ter atrizes americanas tira muito do sabor gaulês da coisa - Michele Williams remete ao Wyoming e a camponesa piranha é a peladona de 'Lobo de Wall Street' -. O belga Mathias de nazista também não é lá uma Brastemp. Mas a Scott Thomas até de Kruelia Kruel é sempre inspiradora e o gostosão Lambert Wilson, mesmo velho e traidor, tem seu charme. E as histórias dos civis de qualquer frente de luta da 2a. Guerra sempre me tocaram fundo, desde criança, quando vi 'Jeux interdits'.

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