quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

MENSAGEM DE FIM DE ANO

Para fechar com chave de ouro, lá vai o vídeo desta semana do Põe na Roda. Com a participação de diversos amigos do canal, inclusive eu. Uma maneira de me redimir: este ano dei muito mais atenção aqui no blog à política geral do que à causa LGBT, mas foda-se. A luta continua. Feliz 2016 para todo mundo, amém.

NO APAGAR DAS LUZES

A retrospectiva já acabou, o ano está acabando, e ainda falta eu falar de três filmes aqui no blog. Um deles é o italiano "Mia Madre", de Nanni Moretti. O estilo frouxo do diretor está um pouco mais focado, mas nem tanto. Como quase sempre, trata-se de uma obra autobiográfica. O curioso é que dessa vez ele conta algo que lhe aconteceu - a morte da mãe durante uma filmagem complicada - através de uma protagonista feminina. Margherita Buy é uma escolha interessante: ótima atriz, "mulher bonita de verdade" e zero de glamour. O americano John Torturo se esforça para falar italiano nas cenas mais engraçadas, que não são muitas.

Finalmente assisti ao último filme da série "Jogos Vorazes", mais de um mês depois da estreia. Mais pelo desencargo, já que li os livros e vi os outros três episódios.  A ganância dos produtores levou a um erro fatal: dividiram em dois longas o último volume da trilogia. Saíram dois filmes inferiores, que renderam menos que os dois primeiros (bem feito). Essa parte 2 de "A Esperança" é melhor que a parte 1, porque pelo menos há uma conclusão. E Jennifer Lawrence é mesmo uma atriz excelente, ou talvez a única do elenco que leva a sério seu papel. Mas essa saga demorou demais para acabar, bem mais tempo do que durou o interesse por ela. Já foi tarde. Eia, passa, sus.
"Labirinto de Mentiras" é o candidato da Alemanha ao próximo Oscar, e conseguiu ficar entre os nove pré-classificados para o prêmio. Mais pelo assunto do que por suas qualidade cinematográficas. É um filme que fala de nazismo, mas não se passa durante a 2a. Guerra Mundial. A ação se desenrola no final dos anos 1950, quando um grupo de jovens advogados resolveu processar os acusados de crimes nos campos de concentração, que até então viviam livres como se nada. Um monumental acerto de contas, pelo qual o Brasil se recusou a passar depois da ditadura militar. O personagem principal é duro e puro feito Sergio Moro, mas as coisas ficam interessantes justamente quando ele descobre que o mundo não é em preto e branco. "Labirinto de Mentiras" talvez nem seja indicado, mas não importa: o Oscar de filme estrangeiro vai para "Filho de Saul".

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A VÊNUS DAS PELES

E estamos de volta com a nossa programação normal. Na reta final do ano, um momento de glória: Aretha Franklin canta "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman" no tributo do Kennedy Center a Carole King, na presença da própria. A mãe de todas as divas já está na categoria entidade, e ai daquele que ousar criticá-la por seu casaco de pele natural (quem mais achou que ela fosse jogá-lo na plateia?). Mas o melhor mesmo é ver Carole, uma das mais importantes compositoras pop de todos os tempos, losing her shit. Uma homenagem dessas vale uma vida inteira. As internets também estão dizendo que o Obama se emocionou até as lágrimas, mas para mim ele só estava tirando um cisco do olho.

MINHAS PESSOAS DE 2015

Aqui vou listar alguns dos nomes que marcaram o noticiário do ano sem ordem de importância. Mas há uma figura nefasta que se impõe sobre as demais: EDUARDO CUNHA, que consegue concentrar todos os defeitos de um político brasileiro. Corrupto, vingativo, hipócrita, e daí para baixo. Alguém de que eu nunca tinha ouvido falar até ele se eleger presidente da Câmara dos Deputados, naquela que foi talvez a maior barbeiragem política do governo Dilma. Agora boa parte do destino do país está nas mãos deste sacripanta, que até o momento resistiu imune a todas as tentativas de removê-lo do cargo. Não vai conseguir por muito mais tempo, mas já causou um estrago considerável. Entre eles, nada menos do que o fim do impeachment: seu aval envenenou o processo e deu sobrevida a uma presidente mais do que desacreditada. Bem feito para quem o apoiou.

Mas nem tudo foi horrível no Brasil. O juiz SERGIO MORO, por exemplo, virou uma espécie de super-herói nacional. Sob sua batuta, a Lava-Jato entra em seu terceiro ano, e promete lances devastadores. Aguardemos. No mundo do showbiz, alguns pontos brilhantes. Como MAJU COUTINHO, que está sendo preparada pela Globo para alçar voos maiores. GRAZI MASSAFERA encarou um papel difícil em "Verdades Secretas" e se saiu muito bem. MONICA IOZZI se firmou como apresentadora, um papel que não estava em seus planos. E JOUT JOUT é só um dos exemplos mais vistosos do fenômeno dos vloggers, que dispensam a televisão para fazer sucesso e faturar alto. Mas terá vida longa?


No exterior, a ascensão de DONALD TRUMP é simplesmente assustadora. Se conseguir se eleger presidente dos EUA no final de 2016, estará confirmando nossos piores pesadelos. Já CAITLYN JENNER se revelou uma porta-voz menos do que ideal da causa trans. Saudada em prova e verso a princípio, ela soltou declarações ao longo do ano que comprometeram sua credibilidade. E continua republicana... Pelo menos no Canadá já sopram novos ventos, com a eleição do prafrentex JUSTIN TRUDEAU. Na Grécia, o também bonitão ALEXIS TSIPRAS fez o que pôde para tirar o país do buraco. Mas a palavra final na Europa cabe mais do que nunca a ANGELA MERKEL, uma espécie de Dilma que deu certo.

E a retrospectiva desse ano árduo fica por aqui. Tá na hora de ciscar pra frente.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

MINHAS SÉRIES DE 2015

Já faz alguns anos que as séries de TV se tornaram a melhor manifestação da cultura pop. Melhor que cinema, melhor que música, quase tão bom quanto doce de leite. E hoje em dia não só a oferta é tamanha como também se multiplicaram as maneiras de assistir. Quem tem Netflix ou Now só se entedia se quiser. Tem tanta coisa boa por aí que ficou impossível fazer a lista das dez melhores. Por isto, este ano dividi em duas categorias principais: novos dramas e novas comédias. Mesmo assim não coube tudo, sem falar nas séries antigas. Ainda bem.

MELHOR DRAMA NOVO

1) SENSE8, Netflix
Os irmãos Warchavski só têm feito bombas no cinema, mas cometeram na TV a série mais moderninha do ano. Visual arrebatador, personagens transgressores e a melhor cena de sexo grupal não-explícita de todos os tempos. Um épico.

2) NARCOS, Netflix
Chega de debater o sotaque do Wagner Moura. Ele está mesmo soberbo, e foi indicado ao Globo de Ouro. O diretor José Padilha também é digno do nosso orgulho patriótico. Mas acho que só há assunto para mais uma temporada.

3) BETTER CALL SAUL, Netflix
A "prequel" de "Breaking Bad" ainda não incendiou o mundo como sua antecessora, mas calma. Walter White também só pegou lá pelo final do segundo ano. E Saul Goodman/Jimmy McGill é um personagem tnao complexo quanto.

4) HOW TO GEAT AWAY WITH MURDER, Sony/Netflix
A rara série da TV aberta americana que não trata o espectador como um deficiente mental. Viola Davis tem aqui a grande chance que o cinema lhe negou.

5) ISABEL, RAINHA DE CASTELA, + Globosat
Um "Game of Thrones" da vida real, sem dragões mas com muita intriga. Talvez um pouco de intriga demais: são tantas reviravoltas que a trama quase não avança. Mas é um sinal inequívoco de que se fazem boas séries fora dos EUA.

MELHOR COMÉDIA NOVA

1) TRANSPARENT, Amazon
Talvez o melhor que a TV ofereceu este ano, em qualquer gênero e língua. O pai trans é só a ponta de lança de uma família complexa e altamente erotizada. Melhor texto, melhor direção, melhores atores, melhor tudo. Roube se precisar.

2) MASTER OF NONE, Netflix
Aziz Ansari lançou a versão pós-moderna de "Seinfeld": multiétnica, polisexual, conectada. Mas a ansiedade continua a mesma, se não pior. Terá vida longa.

3) UNBREAKABLE KIMMY SCHMIDT, Netflix
Nem tudo funciona na nova série criada por Tina Fey. O negão viado, por exemplo, não tem a menor graça. Mas quando é bom, é muito bom.

4) GRACE AND FRANKIE, Netflix
Dados os talentos envolvidos (Marta Kauffman, Jane Fonda, Lily Tomlin), eu até esperava mais desse "Friends" da terceira idade. Mas quando elas acertam...

5) CLUB DE CUERVOS, Netflix
Uma produção mexicana com muito sexo, drogas e mariachis. Ah, sim, e futebol. Muito mais cáustica do que qualquer sitcom brasileira da atualidade.

MELHORES SÉRIES ANTIGAS
1) GAME OF THRONES, HBO
2) VEEP, HBO
3) PENNY DREADFUL, HBO
4) HOUSE OF CARDS, Netflix
5) ORANGE IS THE NEW BLACK, Netflix


Melhor Antologia: BLACK MIRROR, Netflix

Melhor Minissérie: WOLF HALL, Netflix

Melhor Comeback: THE COMEBACK, HBO

MEUS DISCOS DE 2015

Finalmente aconteceu. Depois de anos frequentando esparsamente o Spotify, em 2015 eu aderi di cum força a um serviço de streaming. Escravo de Jobs que sou, assinei o Apple Music no primeiríssimo dia, e me joguei. O resultado? Minhas compras de CDs físicos despencaram. Adquiri apenas seis quando fui à Europa em outubro, uma cifra impensável alguns anos atrás. Também comecei a ouvir coisas ainda mais esquisitas, agora que o acesso a elas ficou mais fácil. Mas minha lista dos melhores do ano não está muito diferente: meu gosto continua o mesmo, afinal. Muita eletrônica, muita world music e bem menos MPB do que eu gostaria.

1) IN COLOUR, Jamie xx
O disco solo de um dos membros do The xx amplia a sonoridade etérea da banda, incorporando ritmos mais dançáveis e oferecendo um cardápio colorido para valer. Um sucessaço de crítica, indicado ao Mercury Prize e ao Grammy. Soa como agora, aponta para o futuro. Baixe agora se você ainda não tem.

2) DÉJÀ VU, Giorgio Moroder
Já este aqui soa como ontem e aponta para o passado. Mas que passado: Moroder foi um dos maiores produtores das décadas de 1970 e 80. Inventou Donna Summer e foi um dos pioneiros do pop computadorizado. Ficou anos na moita, mas voltou em grande estilo e acompanhado por Sia, Kylie, Britney e muitos outros. O disco é tão bom que parece uma compilação de "greatest hits".

3) CARACAL, Disclosure
Os irmãos Lawrence cumprem a promessa da estreia e voltam com um trabalho ainda melhor. Tem fila de famosos querendo emprestar os vocais: Sam Smith, Lorde, The Weeknd... Não há um grande hit pegajoso, mas uma abundância de boas faixas. Muitas rápidas, outras lentas, todas legais. Prefira a versão deluxe.

4) CHALEUR HUMAINE, Christine and the Queens
Não é uma banda, é só o nome artístico da cantora e compositora Héloise Letissier. Se ela fosse americana, já estaria dominando o mundo. Como é francesa, é apenas a maior revelação da música francófona da última década.

5) FFS, FFS
Duas bandas de países e gerações diferentes se juntaram para criar um supergrupo. Uma delas é uma das minhas favoritas de toda a vida: Sparks, especialista em letras excêntricas e melodias intrincadas. A outra é o Franz Ferdinand, que só me interessou no comecinho da carreira. Mas aqui eles se fundem numa entidade única, cheia de energia e humor. Só faltou virem ao Brasil.

6) REBEL HEART, Madonna
Coitada da tia: seu melhor trabalho desde "Confessions on a Dancefloor" foi um relativo fracasso de vendas. Só nos shows que ela continua sendo a rainha. Mas "Rebel Heart" tem ótimas composições e arranjos variados. Pena que as letras continuem adolescentes e autocomplacentes. Tá na hora de crescer, Madonna.

7) TRENET, Benjamin Biolay
Um dos maiores cantores e compositores franceses do século 20 ganha tributo do maior cantor e compositor francês da atualidade. Meu noivo secreto faz seu primeiro disco como intérprete, acompanhado por jazzistas de responsa. Suave, profundo, lindo do começo ao fim. Charles Trenet (que era gay) iria se derreter.


8) INTERSTELLAIRES, Mylène Farmer
Demorei um pouco para me render ao novo disco da "Madonna francesa" (que, na verdade, nasceu no Canadá). Muita coisa nela me incomoda, dos penteados cafonas à parceria com o jurássico Sting. Mas as canções são boas, e me levam a um universo muito particular, rarefeito e envolvente. Pas mal de tout.

9) MUSIC COMPLETE, New Order
Com nova/velha formação (sai Peter Hook, volta Gillian Gilbert, fica Bernard Sumner), a remanescente do Joy Division mostrou que continua uma das melhores bandas dos últimos 30 anos. Não há mais inovações radicais como "Blue Monday": só um disco sólido, animado, cheio de convidados especiais.

10) DO TAMANHO CERTO PARA O MEU SORRISO, Fafá de Belém
Me dói que só haja um único disco brasileiro nesse meu Top 10. Pelo menos é uma beleza: a volta triunfal de Fafá, conduzida pelo DJ Zé Pedro. Do neo-brega paraense à ousadia de Johnny Hooker, cabe de um tudo no decote da diva.

E para chegar em vinte...
11) HOW BIG, HOW BLUE, HOW BEAUTIFUL, Florence + The Machine - O melhor disco até agora de uma artista que veio para ficar
12) JAAKO EINO KALEVI, Jaako Eino Kalevi - um finlandês inclassifcável
13) CHEMICALS, The Shoes - dois franceses que fazem colagens incríveis
14) OUR LOVE, Caribou -  a terceira identidade de um músico canadense
15) HAIRLESS TOYS, Róisin Murphy - Lady Gaga para adultos
16) ELECTRONICA 1: THE TIME MACHINE, Jean-Michel Jarre - o passado, o presente e o futuro da música sintetizada, repleta de convidados VIP
17) UNBREAKABLE, Janet Jackson - ela encarna o espírito do irmão
18) UPTOWN SPECIAL, Mark Ronson - o produtor de Amy Winehouse homenageia a black music dos EUA
19) HOMAGE, Jimmy Somerville - o ex-Bronski Beat ressuscita a discothèque
20) 25, Adele - boa música para vovós

E o pior? Essa é mole: o domínio absoluto que o sertanejo exerce sobre a música brasileira, que um dia já foi boa. Hoje o mercado se curva a este gênero sem diversidade, onde as letras são alienadas e os acordes paupérrimos. A trilha sonora de um país conformista e desinformado. A antítese da bossa nova e do tropicalismo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

MEUS FILMES DE 2015

Pronto, passou, passou, começa aqui a minha retrospectiva de 2015. Engole esse choro. Até porque, em termos de indústria cultural, o ano não foi dos piores. O cinema, por exemplo, foi generoso. Aqui estão os meus dez prediletos:


1) UMA NOVA AMIGA
A transexualidade foi um dos temas dominantes de 2015. E o diretor francês François Ozon, há tempos um dos meus favoritos, conseguiu fazer um filme engraçado e emocionante sobre o assunto. Romain Duris está um tesão absoluto, tanto como homem quanto como mulher. Vi no avião que me levou para a Suíça, em junho, e tive que rever quando estreou no Brasil um mês depois. Ainda vou comprar em DVD; enquanto isto, revejo esta cena no YouTube até riscar.



2) YOUTH
Por muito pouco o italiano Paolo Sorrentino não levou o bicampeonato (era dele o melhor filme de 2013, "A Grande Beleza"). Seu novo trabalho é mais focado, mas nem por isto mais facinho: seu estilo ainda é para paladares refinados, com uma certa bagagem de vida. E haja bagagem nessa meditação sobre a passagem do tempo, com trilha sonora impecável e enquadramentos que mereciam molduras. Vi em Cannes, em outubro - ainda não tem data para estrear nos cinemas daqui.

3) FILHO DE SAUL
Outra pérola que só entra em cartaz no Brasil em 2016 (vi na Mostra de SP). Mas virá com pompa, embalado pelo Oscar de melhor filme em língua estrangeira. A estreia de Laszlo Némes na direção de longa-metragem é espantosa. Um tema batidíssimo, o holocausto, ressurge literalmente por um ângulo novo. Planos fechadíssimos, design de som apavorante, o mais próximo que conseguiremos chegar de um campo de concentração. Aviso importante: não é para os fracos.

4) BIRDMAN
Um tour de force do mexicano Alejandro González Iñárritu, que finalmente faturou seu Oscar. Uma comédia ácida sobre os limites da fama e da vida, num aparente único take. Michael Keaton tira sarro de si mesmo e de seu papel mais icônico, o Batman, apoiado por um roteiro afiadíssimo e um elenco primoroso. Sensacional.


5) CAPITAL HUMANO
Indicado pela Itália para o Oscar do ano passado, foi ignorado pela Academia e está fazendo carreira discreta entre nós. Mas é do grande cazzo: egoísmo, diferenças sociais, laços de família, ambição e outros grandes temas afloram pelos pontos de vista de três personagens diferentes da mesma trama. 

6) DIVERTIDA MENTE
O melhor desenho animado para crianças que só os adultos vão entender plenamente de todos os tempos. Uma festa para os olhos e para o cérebro. Muito possivelmente, a obra-prima dos estúdios Pixar, o que não é dizer pouco.

7) WHIPLASH
O professor mais infernal de toda a história do cinema. E que, numa reviravolta surpreendente, não se redime no final. Pelo contrário: o desfecho melodramático tem sabor de vingança. Novelão mexicano temperado com jazz e testosterona.


8) GRANDMA
Só vi dois filmes no festival MixBrasil, mas um deles entrou direto nos meus Top 10. Lily Tomlin ganhou o melhor personagem de sua carreira, uma lésbica viúva e desbocada que precisa arranjar o dinheiro para a neta fazer um aborto. Libertário e divertido, com um toque de amargura. Indicação ao Oscar de atriz à vista.

9) O JOGO DA IMITAÇÃO
Alan Turing, um dos pioneiros da computação e um mártir da causa LGBT, já tinha ganho o perdão do governo britânico. Agora ganhou um filme à altura de sua tragédia e um intérprete do calibre de Benedict Cumberbatch. Um filme para ser esfregado na cara dos fundamentalistas, que hoje desfrutam da internet.

10) CHATÔ, O REI DO BRASIL
Por esta ninguém esperava: quase vinte anos depois do início das filmagens, Guilherme Fontes finalmente deu à luz uma obra-prima. Alegórico, tropicalista, pouco didático e, ainda assim, exuberante. O melhor filme brasileiro de 2015, diretamente dos anos 1990. Ah, e a cenografia é da minha cunhada, hahaha.

E para chegar em vinte, aqui vai o resto da minha lista: 
11) 45 ANOS - sublime Charlotte Rampling!
12) O HOMEM IRRACIONAL - Woody Allen num ano bom
13) PERDIDO EM MARTE - ora, vá plantar batatas
14) AFERIM! - um faroeste na Romênia do século 19
15) CIDADÃO DO ANO - se Tarantino fosse norueguês
16) PECADOS ANTIGOS, LONGAS SOMBRAS - a Espanha pantanosa
17) MACBETH - Shakespeare + Game of Thrones
18) O CLÃ - a Argentina acerta mais uma conta
19) SAMBA - os imigrantes na Europa dançam para não dançar
20) QUE HORAS ELA VOLTA? - um grande filme pela metade

E o pior do ano? Vou fazer uma provocação, porque sei que se trata de um filme que muita gente adora: o alemão PHOENIX. Eu simplesmente não comprei a história da mulher que, tendo o rosto desfigurado durante a 2a. Guerra, só não é reconhecida pelo próprio marido. Uma bobajada pretensiosa. Mas o fato é que vi pouca bombas: aprendi a evitar filmes de super-heróis e comédias com Leandro Hassum. Ah, a sabedoria que só a maturidade pode trazer...

REBELDES SEM CALÇAS


Queira ter gostado mais de "As Sufragistas" do que de fato gostei. Afinal, trata-se de um raro filme sobre um movimento importantíssimo, porém hoje meio esquecido: a luta pelo voto feminino. Esse direito hoje nos parece mais do que óbvio, mas é surpreendente constatar que ele não existia há até relativamente pouco tempo. E a campanha por ele, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, levou mais de meio século - uma eternidade quando comparada, por exemplo, à rapidez com que os gays conseguiram suas vitórias. As sufragistas chegaram a recorrer à violência, fazendo o que hoje seria tachado de terrorismo. O filme não hesita em tocar nesse ponto polêmico, o que as torna menos simpáticas. Esse retrato matizado é bom; ruim é a contrução da personagem principal. Carey Mulligan ótima como sempre, faz uma pobre lavadeira que adere à causa tardiamente. Bastam algumas passeatas para ela ir em cana e perder tudo: emprego, casa, marido, filho. É duro de acreditar que alguém suportasse tudo isso em troca de um ideal meio incerto. Talvez por isto Carey tenha sumido das bolsas de apostas para o Oscar: não adianta interpretar bem um papel que foi mal escrito. O movimento sufragista nasceu e foi conduzido pelas elites, e eu também senti falta de conhecer mais sobre a líder Emmeline Pankhurst, uma aristocrata incendiária vivida por Meryl Streep numa única sequência. De qualquer forma, "As Sufragistas" cumpre um papel didático, ao resgatar essas heroínas esquecidas. Nos créditos finais, que mostram o avanço através dos tempos do voto feminino pelo mundo, percebemos que essa briga ainda está longe de acabar.

domingo, 27 de dezembro de 2015

PREFIRO A LENDA


"Moby Dick" talvez seja a maior obra da literatura norte-americana de todos os tempos. O livro de Herman Melville transforma uma caça à baleia numa luta transcendental entre o homem e seus demônios internos. Mas a imaginação do escritor trabalhou sobre fatos reais: um cachalote de verdade, que despedaçou um navio baleeiro cerca de 30 anos antes do livro ser publicado. É essa história real que "No Coração do Mar" pretende contar. O filme, como todos do diretor Ron Howard, é cinemão clássico: tão quadrado que parece ter sido produzido pela Disney nos anos 1950. Os efeitos especiais dão ao espectador a sensação de que ele está mesmo sendo atacado por um monstro das profundezas. Só que, apesar do visual soberbo, não há grandiosidade. E Chris Hemsworth é um Brad Pitt piorado: tão bonito e canastrão quanto o sr. Jolie no começo da carreira, mas sem o carisma deste. Fora que, em tempos de consciência ecológica, eu torci o tempo todo pela baleia. Por isto, prefiro ficar com a lenda. Os recursos tecnoloógicos disponíveis hoje em dia permitiriam que se fizesse uma adaptação à altura de "Moby Dick". Mas teria que ser com um diretor ousado. Ron Howard é certinho demais.

sábado, 26 de dezembro de 2015

THE SCREAM BRASIL

A única fase que eu acho medianamente interessante do "The Voice Brasil" é a primeira. Sempre me contorço por dentro quando alguém termina de cantar sem que nenhum jurado tenha virado a cadeira. Mas depois o programa vira um concurso para ver quem grita mais alto, sem a menor emoção ou necessidade. E tudo isto é incentivado pela produção. Ou era, pois este ano Lulu Santos resolveu se rebelar. Acolheu como pupilo o frangote Ayrton Montarroyos, um pernambucano magérrimo de voz potente e suave ao mesmo tempo. Com apenas 20 anos, Ayrton parece ter vivência suficiente para entender o que está cantando - quase sempre pérolas da MPB, enquanto seus concorrentes escolhem qualquer merda que estiver tocando no rádio. Mas o público foi treinado para achar que o "The Voice Brasil" é uma prova olímpica de arremesso de voz. Escolheu Renato Vianna, o bolovo humano, que grita como se não houvesse amanhã. Para ele não haverá mesmo: sua carreira deve terminar por aqui, pois ninguém compra ou baixa música de quem grita o tempo todo. Quanto a Ayrton Montarroyos, espero vê-lo e ouvi-lo por muitos e muitos anos. Este sim, é um talento de verdade. Além de bonitinho...

SOMETHING WICKED THIS WAY COMES


Se não fosse por "Game of Thrones", talvez não existisse essa nova versão para o cinema da peça escocesa. OK, não vou seguir a velha superstição que avisa que o nome dessa obra de Shakespeare não deve ser pronunciado fora de cena, pois dá azar. Mas é inegável que há um certo sabor de Westeros no filme do diretor Justin Kurzel. Trata-se, na verdade, de uma proeza e tanto: ele e seus roteiristas conseguiram traduzir quatro horas de texto num espetáculo visual, com cenário arrebatador e algumas das cenas de batalha mais sangrentas que eu já vi. Tudo o que acontece fora do palco, no teatro, aqui aparece em toda sua glória e horror. Mas esse "Macbeth" está longe de ser uma bobagem violentíssima à la série "Spartacus". A trama está intacta, e eu fiquei pensando em como ela se repete até hoje. Eduardo Cunha, por exemplo: ele pode não ter matado ninguém (não que a gente saiba), mas suas intrigas são dignas de alguém cegado pela ambição. Ele e sua mulher não têm o glamour de Michael Fassbender e Marion Cotillard, mas acabarão mal como seus personagens. Como diz uma bruxa da peça, algo ruim está chegando.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

I'M DREAMING OF A BLACK CHRISTMAS

Achei que o especial do Bill Murray ainda não tinha estragado completamente o espírito de Natal. Arrematei com "White Christmas", o episódio natalino da série britânica "Black Mirror". Para quem ainda não conhece: trata-se de uma antologia de histórias bizarras, que pode ser vista em qualquer ordem. Uma espécie de versão atualizada da antiga "Twilight Zone". Todos os sete média-metragens já estão disponíveis no Netflix, e este é estrelado por ninguém menos que Jon Hamm. É mesmo de arrepiar, mas garanto uma coisa: não é o mais assustador de todos. Procure aí nas internets, e espante você também o Papai Noel para longe.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

HO HO HOLTZ

Um feliz Natal, com votos roubartilhados do perfil da Vera Holtz no Facebook.

NATAL NÃO-FOFO


Como nos Estados Unidos não existe um equivalente a Roberto Carlos, lá os especiais de Natal puderam se desenvolver em liberdade. Existe até uma tradição: algum artista famoso recebe a família e alguns amigos em sua "casa" (evidentemente um cenário bem fake) e todos cantam músicas natalinas enquanto neva lá fora. Bill Murray achou que seria engraçado fazer um especial de Natal à moda antiga, e convocou Sofia Coppola - a diretora de "Lost in Translation", que lhe rendeu sua única indicação ao Oscar. Sofia chamou o marido, alguns primos, e voilà: fizeram um programinhaa bem mais ou menos, já disponível no Netflix. A longa primeira parte se passa no hotel Carlyle de Nova York, onde Bill apresentaria um especial diretamente do lindíssimo bar. Mas a nevasca está forte e os convidados não chegam. Ele então põe para cantar quem lhe passar pela frente, e os resultados são desastrosos. Chris Rock não tem voz, Dave Johanssen perdeu a que tinha e Maya Rudolph e Rashida Jones até que fazem um certo esforço. Pior é a participação do Phoenix, a banda francesa da qual faz parte o marido de Sofia. A coisa só melhora quando Bill cai, bate a cabeça e sonha com um cenário suntuoso, onde finalmente aparecem estrelas de algum quilate: Miley Cyrus, que solta o vozeirão, e George Clooney, que nem precisava cantar. "A Very Murray Christmas" parece essas ideias que eram sensacionais no papel. Uma lástima que a realização preguiçosa e o jeito não-fofo de Bill não combinem com a data.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O BARRIGÃO DE NOEL

Hoje vi alguém no Facebook reclamando do "pouco espírito natalino" das multidões que invadem os supermercados em busca de ingredientes para a ceia. Muitos concordavam com ele. Pois é: além de reclamar do consumismo desenfreado dessa época do ano, agora também pega super bem criticar a comilança. Pena que esses incultos desconheçam que consumismo e comilança já eram de rigueur no solstício de inverno, muitos séculos antes de Jesus nascer. Aliás, não existe nenhum registro da data exata do Natal: estudos modernos apontam que, se for verdadeira a história de que Maria e José foram a Belém por causa do recenseamento, Jesus teria nascido em meados de abril (mas o tal recenseamento na verdade aconteceu alguns anos antes do que seria o nosso ano um...). O cristianismo simplesmente se apoderou de uma comemoração que já existia. Enfim, o final de dezembro é um tempo escuro e frio no hemisfério norte. A colheita já foi feita e a semeadura só será possível na primavera. O que fazer, então? Comer, festejar, trocar presentes e chamar o sol de volta. Porque, se não fizermos muito barulho, ele vai embora para sempre.

(mais detalhes sobre a história da gulodice natalina neste artigo em inglês)

UM CARA CHAMADO LILIAN


Lilian Renaud é o vencedor deste ano da versão francesa do "The Voice". Não entendi porque ele tem esse nome: cheguei a pensar que se tratasse de um trans. O rapaz cresceu numa fazenda produtora de queijos na região do Franche-Comté, e seu primeiro disco soa como o equivalente francês da nossa música sertaneja (ou seja, não é muito bom). Mas achei que vocês iam gostar de conhecê-lo, pois ele tem cara de quem saiu de algum filminho da Bel-Ami.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

APESAR DE VOCÊS

Sou totalmente a favor de que políticos que ocupam cargos públicos sejam interpelados quase a qualquer momento, quase em qualquer lugar (velórios e funerais são a exceção). Merecem ser cobrados, xingados, alvejados com tomates. Mas sou totalmente contra que isto aconteça com cidadãos comuns. E nem me venham dizer que o Chico Buarque não não é comum: o que aconteceu com ele ontem, na saída de um restaurante no Rio de Janeiro, é só mais uma prova de como estamos despreparados para a democracia. Uma turba de mauricinhos embebedada achou engraçado encurralar o compositor, que se saiu muito bem. Mal estão esses babacas, dos quais não dá nem para sentir vergonha alheia. E olhe que eu não concordo com quase nada do que o Chico acredita.

POUCO STAR, MUITO WARS

Não tomei Chewbacca na mamadeira. Eu já tinha 17 anos quando saiu o primeiro "Star Wars". Portanto, escapei de achar que Han Solo e sua turma são a melhor coisa do universo. Mas esse distanciamento crítico nunca me fez desprezar a série: assisti a todos os filmes no cinema, e acho que "O Império Contra-Ataca" é uma obra-prima. Nem por isto eu esperava ansiosamente pelo "Despertar da Força". Só fui vê-lo ontem, no quinto dia de exibição. É, de fato, aquilo que todo mundo anda dizendo: uma continuação à altura da primeira trilogia, e muito melhor do que a segunda. Claro que é gostoso rever os personagens clássicos, e os novos não deixam a desejar. Mas é tanta satisfação que o roteiro parece ter sido escrito com a ajuda de "focus groups". Inúmeras cenas dos filmes passados são recicladas: luta entre pai e filho, explosão da fortaleza-planeta, cantina povoada por criaturas bizarras... Acho que tiveram tanto medo em desagradar aos fãs hardcore que faltou um tiquinho de ousadia. Alguma surpresa genuína, e não mais do mesmo em nova embalagem. Além disso acho que teve pouco star (novos monstros, novos planetas) e muito wars (batalhas e persguições em excesso). Por outro lado, tenho que admitir que as duas horas e quinze de duração passaram voando. O feio-bonito Adam Driver é um golaço como o novo vilão Ryo Ken. John Boyega, Daisy Ridley, Oscar Isaac, todos ótimos. Harrison Ford continua dando um caldo aos 72 anos, mas podiam ter pensado num penteado melhor para Carrie Fisher: aos 59, ela parece a Vovó Donalda. Algumas perguntas ficaram sem resposta, mas claro que é só um gancho para o próximo capítulo. Que já está sendo filmado e sai daqui a meros dois anos, diminuindo a ansiedade - e também o frisson - em torno da franquia. A força vai enfraquecer...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

ACABA LOGO, 2015

Quem está atraindo tanto azar para o Brasil? Dilma, Cunha ou quem os elegeu?

TANGO ATRAVESSADO


Não tenho nada contra os remakes americanos de filmes estrangeiros. O público dos EUA tem uma enorme dificuldade em ler legendas, desacostumado que está. E é sempre sinal de prestígio para uma cinematografia quando algum de seus títulos é refeito em outra língua. O cinema argentino, também nesse quesito, vence o brasileiro. Há poucos anos, "Nove Rainhas" ganhou versão em inglês. Agora chegou a vez de outra joia da coroa: "O Segredo de Seus Olhos", Oscar de filme estrangeiro de 2009. O problema é que nenhuma dessas traduções ficou boa. Em "Olhos da Justiça", como o filme se chama no Brasil, o diretor Billy Ray resolveu mexer no roteiro original. Algumas mudanças são plenamente justificáveis. No anterior, o assassino de uma moça era protegido pela polícia porque tinha ligações com a ditadura militar que vigorava na Argentina. Aqui, essa proteção se deve ao fato do criminoso também ser um informante infiltrado numa mesquita suspeita de abrigar terroristas, no ano seguinte aos atentados do 11 de setembro. Até aí tudo bem, mas por que mexer no desfecho? Para retirar a passionalidade latina e católica, e deixá-la racional e moralista para uma plateia protestante? É como um tango tocado por músicos country. Soa esquisito, inorgânico, artificial. Para piorar, o ritmo é lento e soturno, e Chiwetel Ejiofor se revela um tremendo canastrão. Por outro lado, Julia Roberts tem um dos melhores desempenhos de sua carreira. Indo no sentido totalmente oposto de sua persona luminosa e sorridente, ela está fantástica como a mãe que perde a filha adolescente e arquiteta uma vingança inusitada. Pena que o final edificante acaba comprometendo seu esforço de atriz.

domingo, 20 de dezembro de 2015

LITTLE HIGH, LITTLE LOW

"Bohemian Rhapsody" completa 40 anos em 2015. Não vou ter a arrogância de dizer que se trata da melhor canção de todos os tempos, mas talvez seja a canção da minha vida. Eu tinha 15 anos quando ela saiu, e já era fanático pelo Queen; fiquei ainda mais, e essa música me acompanhou nesses anos todos. Agora o que sobrou da banda encomendou ao English National Ballet a coreografia acima, assinada por James Streeter e dançada por Erina Takahashi e James Forbat (o homem mais bonito do mundo esta semana). O desafio era grande: permanecer dentro dos parâmetros do balé clássico, sem concessão a modernices. Ficou estranho na parte operática e incrível no segmento rock'n'roll. Mas "BoRhap" é a prova de bala: se fizerem versão sertaneja, eu vou achar boa.

sábado, 19 de dezembro de 2015

A FAMÍLIA MONSTRO


"O Clã" é um puta filme, mas não é divertido de se ver. O escolhido pela Argentina para representá-la no próximo Oscar não gera o mesmo prazer histérico que "Relatos Selvagens", o indicado do ano passado. Porque aqui a história não só é pesada demais, como também verdadeira. E muito conhecida pelo público de lá, o que fez com que o roteiro começasse pelo final. Uma pena: as plateias estrangeiras mereciam um pouco mais de suspense. Mas o mais importante é a monstruosidade de uma família de classe média, capaz de cometer os crimes mais hediondos. O epicentro é o pai, interpretado por Guillermo Francella - um especialista em papéis cômicos, quase irreconhecível como o cruel Arquímedes Puccio, que se deu bem nas sombras da ditadura militar. Quando esta acabou, resolveu reforçar o caixa sequestrando os amigos ricos de Alex, o filho mais velho, que era da seleção argentina de rúgbi. O rapaz é o verdadeiro protagonista da trama: um cara normal, sem maiores pretensões do que jogar bola e comer a namorada. A princípio ele se deixa levar pelas maldades do pai; depois tenta se rebelar, mas não tem forças - é uma espécie um Hamlet portenho. O coração de um filme deprimente, que no entanto precisa ser visto.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

WHY WOULD YOU NOT DO THIS?

Já que o post sobre o programa da MTV americana com atores "gay-for-pay" fez sucesso na semana passada, aqui vai mais uma palhinha. Muito bom ver a tranquilidade dos rapazes, ambos héteros com namoradas, em encarar mais uma cena bareback. Dá até para imaginar que depois eles ficaram discutindo no vestiário qual mina é mais gostosa, Emma Stone ou Jennifer Lawrence, vlw flw.

ELA VOLTOU ONTEM

Fiquei chateado com a ausência de "Que Horas Ela Volta" da lista dos nove semi-finalistas na disputa pelo Oscar de filme em língua estrangeira. Não sou fã incondicional do longa de Anna Muylaert, mas nessas horas eu visto a camisa da seleção. E até arrisco um palpite: os velhinhos da Academia de Hollywood sentiram o mesmo incômodo que eu e muita gente mais. Porque eles também têm empregada, e não gostaram de ver os patrões retratados como débeis mentais. Algo, aliás, que nem fazia muita falta: o núcleo do roteiro é a relação entre mãe e filha, contada de maneira impecável. Bom, jamais saberemos o que de fato se passou na cabecinha deles. Então o melhor é aplaudir toda a equipe pelas conquistas aqui e torcer por mais sorte em 2016.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O FUTURO EX-

Joaquim Levy subiu no telhado. Para falar a verdade, ele nunca esteve com os dois pés plantados firmes neste governo. Dilma o aceitou a contragosto e fez da vida dele um inferno, com a ajuda de setores do PT e dos movimentos sociais. Agora a imprensa diz que o ministro da Fazenda está prestes a sair, e que um novo nome está sendo procurado. Henrique Meirelles, o favorito de Lula, já avisou que só topa se tiver carta branca - o que a presidente não irá dar, é claro. O que ela quer é alguém que produza um efeito especial a curtíssimo prazo, para arrefecer o descontentamento geral. Algo tipo distribuição de panetones para toda a população. É aí que mora o perigo: Dilma continua achando que sempre esteve certíssima. Os números e a realidade é que estão errados. O pessoal que ainda a apoia vai amar o fim do ajuste fiscal, esse marvado, mas o Brasil todo vai pagar por mais essa travessura. Já perdemos duas notas de agências de avaliação, vamos perder muito mais. Foda-se, não é mesmo? A única coisa que realmente importa é Dilma se aguentar no poder.

DESCONECTADOS DA REALIDADE

Ainda somos um país de botocudos. Nações mais sérias só bloqueiam serviços de mensagens em caso de ameaça terrorista ou coisa que o valha. Aqui basta um único juiz cuidando de um único caso para tirar do ar o WhatsApp, prejudicando milhões e milhões de pessoas. Se a moda pega, daqui a pouco voltaremos a ter vereadores do interior exigindo que toda a internet saia do ar, só para ele não ser criticado nas redes sociais. Nossa cultura é pior que autoritária: é feudal, é medieval. Por outro lado, é absurda a dependência da galera. Uai, no telefone docêis num tem mais SMS? Que agora também manda mensagens pela internet? E o Messenger do Facebook, cêis num usa? E o Telegram, o favorito do Estado Islâmico? De qualquer forma, me espanta essa situação ainda não ter sido normalizada. Mas não deveria: afinal, em que país que estamos mesmo?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

MARISMA ASSASSINA


Um leitor reclamou num comentário que eu só posto sobre filmes que ninguém vê. Minha única resposta admissível é postar sobre mais um desses filmes, "Pecados Antigos, Longas Sombras", que sequer ocupa todos os horários da única sala onde está em cartaz em São Paulo. O que é uma injustiça: trata-se do campeão absoluto do último Goya, o Oscar da Espanha. Levou espantosos dez prêmios, inclusive melhor filme, diretor e ator. Mas por aqui está passando na surdina, porque, além de não ser falado em inglês, não tem ninguém conhecido no elenco. Mas é um thriller de primeira linha, com cenas impactantes e conotações políticas. Porque se passa num momento delicado: 1980, quando a redemocratização pós-Franco ainda titubeava. A trama não chega a ser original e lembra a primeira temporada de "True Detective" (garotas são encontradas mortas, etc.), e tampouco se escapa do clichê dos tiras de personalidades opostas. Só que o resto compensa, do excelente trabalho de câmera às paisagens estranhas das Marismas del Guadalquivir, uma zona pantanosa perto de Sevilha. "La Isla Mínima" (prefiro mil vezes o título original) não tem nada de esotérico ou de experimental. Quem procura um policial não vai se arrepender.

O DIA SEGUINTE

Vou deixar bem claro mais uma vez: gostaria que o governo Dilma acabasse hoje. Ontem. Antes de começar. Mas tenho medo do que pode acontecer se ela for mesmo impichada. Porque não será só Temer que assumirá o poder: é todo o PMDB, o partido mais nocivo do Brasil. Aliás, nem é bem um partido. Na definição precisa de Marcos Nobre, o PMDB é "uma empresa de fornecimento de apoio parlamentar, com cláusula de permanente revisão do valor do contrato". Já pensou nessa turma no comando do país? A Lava-Jato seria imediatamente cancelada. Capaz até de Sergio Moro ir preso. Enquanto isto, Eduardo Cunha continuaria firme e forte na Câmara. A economia talvez até melhorasse a médio prazo, mas as instituições que ainda funcionam estariam comprometidas. Enquanto isto, Lula faria campanha como salvador da pátria e se diria mais perseguido do que nunca, aumentando bastante seu cacife para voltar em 2018. Qual dos males é o menor?

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

CHORANDO E ANDANDO

Detesto propaganda apelativa. Aquela que se esforça para emocionar. Odiei, por exemplo, aquele comercial alemão de uma rede de supermercados que está bombando nas internets. Mas esse aí de cimna me pegou de jeito. O mais impressionante é que se trata de um trabalho avulso de dois alemães que não trabalham para nenhuma agência que atenda a conta de Johnnie Walker. E, coisa rara nesses casos, o filme está perfeitamente alinhado com o conceito da marca. Tomara que esses rapazes consigam emprego logo. Mas teve uma coisa que eu não gostei: a cena de consumo do produto. Meio forçada, né? De resto, chorei.

QUO USQUE TANDEM, CATILINA?

Hoje o Brasil acordou cantando: a megaoperação de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal em vários estados encheu de alegria nossos corações. São vários os alvos da vez, mas nenhum tão vistoso como Eduardo Cunha, o inimigo número 1 de todos os brasileiros. A PF gosta de dar nomes eruditos para suas ações, e acertou em cheio ao batizar esta nova fase da Lava-Jato. "Catilinárias" são os quatro discursos que o senador romano Cícero proferiu no longínquo ano de 63 a.C, contra um colega que aprontava mil maracutaias na maior cara-de-pau. Tirei o título deste post da mais famosa destas falas, cuja tradução eu transcrevo aqui na íntegra:

Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?
Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?
A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?
Nem a guarda do Palatino,
nem a ronda noturna da cidade,
nem o temor do povo,
nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado,
nem a expressão do voto destas pessoas, nada disto conseguiu perturbar-te?
Não te dás conta que os teus planos foram descobertos?
Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?
Quem, dentre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, com quem te encontraste, que decisão tomaste?
Oh tempos, oh costumes!

Não é impressionante como ele parece estar falando de Cunha? Tomara que a as coincidências não parem por aí. Catilina caiu em desgraça e fugiu, montando um pequeno exército particular. Mas foi perseguido e morto numa batalha, um ano depois do discurso de Cícero. Os registros históricos garantem que lutou bravamente: alguém aí acredita que o inseto do Eduardo Cunha faria o mesmo?

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

BANDEIRA DOIS


"Táxi Teerã" venceu o último Festival de Berlim mais pelo que significa do que pelo que realmente é. Se tomado pelo valor de face, é só um filme de orçamento ultra baixo que tem algumas cenas interessantes e outras perfeitamente dispensáveis. Mas é preciso levar em conta o contexto onde ele foi feito. Trata-se do terceiro longa rodado pelo diretor Jafar Panahi desde que o regime dos aiatolás o condenou a vinte anos sem filmar. Dessa vez Panahi se arrisca para fora de casa, através de um truque simples: câmeras instaladas num táxi que ele mesmo dirige. Seus passageiros - todos atores amadores - discutem política e amenidades, mas ninguém faz críticas realmente pesadas ao sistema. Talvez por isto o novo governo do Irã, mais liberal que o anterior, olhe para o outro lado e deixe passar essa estripulia. O filme mostra o lado mais rico da capital iraniana, mas não é o mergulho na sociedade que o marketing pretende. E ainda deixa uma dúvida: será que por lá os táxis também estão em guerra contra o Uber?

MINI-FESTAÇÃO

Ontem à tarde fui a um cinema na Paulista, e na volta, a caminho do metrô, tive que atravessar um quarteirão abarrotado de gente. Era o "Esquenta do Impeachment", que teve apenas um quinto dos participantes da primeira manifestação do gênero, no longínquo mês de março. Por que minguou tanto a adesão? Afinal, pesquisas indicam que a maioria da população apoia a abertura do processo de impeachment. Como esta já ocorreu, teria esvaziado o ímpeto dos protestos. Sair à rua para pedir algo que já está em andamento? Faz um certo sentido, mas acho que não é só isso. Acredito que finalmente caiu a ficha para os mal-informados: se a Dilma sair, quem assume não é o Aécio. É Temer e o PMDB, que inclui Eduardo Cunha. O presidente da Câmara não engana mais ninguém, tanto que dessa vez não vi faixas o apoiando. Talvez tenha por aí mais gente como eu: contra a Dilma, mas não exatamente a favor do impeachment. Ô tempinho complicado.

domingo, 13 de dezembro de 2015

A FALTA QUE TUDO LHE FAZ


"Ausência", de certa forma, é uma extensão de "A Casa de Alice", o filme anterior do diretor Chico Teixeira. Naquele longa a protagonista era uma mulher de meia idade, separada e angustiada, que criava sozinha três filhos com problemas distintos - um deles fazia programas com homens para faturar uns trocados. Aqui o foco é num adolescente que vive num lar parecido. O pai abandonou a família e a mãe resvala para o alcoolismo. Sem ter quem o ampare, o garoto projeta sua carência para cima de um professor. Aí acontece um conflito interessante, porque o adulto sente desejo pelo mais jovem, mas sabe que se ceder o problema ficará muito maior. Há muitos planos silenciosos onde parece não acontecer muita coisa, mas na verdade o mundo desmorona ao redor do protagonista. Tenho um pouco de ressalvas com o desfecho, que é a encarnação de um clichê. Mas também é um sopro de esperança para um dos filmes mais angustiantes do ano.

sábado, 12 de dezembro de 2015

FORA DILMA, FORA IMPEACHMENT

Uns amigos me chamaram para a manifestação pelo "impítima", que acontece amanhã a duas quadras da minha casa. Eu disse que dessa vez não vou, nem para observar. Ninguém entendeu: "ué, mas você não era contra a Dilma?". Sou, cada vez mais. A presidente não para de me surpreender com suas burradas, uma mais catastrófica do que a outra. Agora sabemos como seria o Brasil governado por Brizola, sem o charme e o veneno do velho caudilho gaúcho (Dilma foi anos do PDT antes de mudar para o PT). Mas o processo de impeachment está cada vez mais se empesteando com o fedor de uma conspiração do PMDB, agora totalmente respaldada pelos frouxos do PSDB. Os tucanos me decepcionaram muito este ano: votaram contra medidas que eles mesmos haviam aprovado antes, e se mostraram oportunistas e desonestos. Já o PMDB nunca me enganou. Eu só não sabia que a merda era ainda maior do que eu pensava. Se chegarem ao poder desse jeito, o Brasil não vai se unir como na era Itamar, muito pelo contrário. A cizânia vai continuar pelo menos até 2018, veja só que perspectiva adorável. Por outro lado, iria ser ótimo se Dilma caísse fora logo. Apesar de eleita democraticamente, ela não vai se segurar se a situação piorar ainda mais. Nenhum presidente cai se o governo estiver bem, por maiores que sejam as maracutaias cometidas: foi o que aconteceu com Lula na época do mensalão. Havia razões de sobra para acusá-lo de crime de responsabilidade, mas a economia crescia e o povo o adorava. Agora é o inverso, mas ainda assim estou tendo arrepios por causa das sombras à espreita. Sou contra Dilma e contra o impeachment, mas acho que vou aderir à campanha "vem, meteoro".

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

IN VINO VERITAS

O pugilato tomou conta da república, e não só dentro do Congresso. Não me lembro de uma época tão crispada, como tantos políticos indo às vias de fato. A taça de vinho que Katia Abreu jogou na cara de José Serra até que é um alívio cômico: não faz mal ao país, ao contrário do que acontece na Conselho de Ética. Mas é um indício claro de como os ânimos estão acirrados, por todos os lados. E porque não deveriam estar? Nunca o Brasil esteve tão dentro do popular "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" (e ainda transmite o zika vírus). Não há boa saída para a crise, com impeachment ou sem. A economia apodrece, o grau de investimento despenca e os vilões continuam todos no poder. Talvez a Lava-Jato desinfete o ambiente, mas só a médio prazo. Então é Natal: vamos todos beber.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

CRETINA KIRCHNER

Uma das medidas do caráter de um governante é a maneira como ele trasnmite o poder para seu sucessor. O general Figueiredo, por exemplo, coroou sua desatrada carreira ao sair literalmente pela porta dos fundos, para não passar a faixa a José Sarney - o coroamento do processo de abertura que ele mesmo presidiu. Já FHC fez bonito na posse de Lula, que derrotou seu candidato. Vaidoso como sempre, o ex-presidente não perde oportunidade para se gabar disso. Mas vaidade é preferível ao papelão que Cristina Kirchner fez hoje. A sra. K exigia passar a faixa para Macri no Congresso, uma "tradição" inventada por seu marido. Macri bateu o pé, pois queria que fosse como sempre foi: na Casa Rosada. Os dois chegaram a bater boca pelo telefone, e ainda deixaram em suspenso as delegações estrangeiras que foram a Buenos Aires para assistir à posse. Resultado: Cristina não só fez forfait como levou junto a conta do Twitter da presidência, veja só. Essa aí na oposicão vai dar todo o trabalho que puder.

CORREÇÃO: Minha amiga Sylvia Colombo, que já foi correspondente em Buenos Aires e é grande conhecedora da Argentina, me alertou que não é bem assim. Cristina não inventou nada, e a mídia local - quase toda pró-Macri - veiculou uma versão cozinhada dos fatos, que não corresponde à realidade. Vejamos o que diz a constituição argentina:  “Al tomar posesión de su cargo el presidente y vicepresidente prestarán juramento, en manos del presidente del Senado y ante el Congreso reunido en Asamblea, respetando sus creencias religiosas, de ‘desempeñar con lealtad y patriotismo el cargo de Presidente (o vicepresidente) de la Nación y observar y hacer observar fielmente la Constitución de la Nación Argentina’”. Mas a história colou em Cristina, por causa de seu temperamento confrontador. Vamos ver quanto tempo ela leva para criar outro caso.

ESTRANHA FORMA DE VIDA


O cinema português é esquisitíssimo, ou pelos menos os poucos filmes de lá que chegam até nós. Devem existir comédias bobas em Portugal, mas quase tudo que eu vi até hoje é descendente do quase imortal Manoel de Oliveira. É um estilo não-hollywoodiano de filmar, com longos silêncios, toques de surrealismo e uma ou outra cena sensacional. A crítica adora; eu faço força para pelo menos entender. E nesse intuito fui ver o primeiro "volume" (são três) de "As Mil e Uma Noites", do diretor Miguel Gomes. É um painel da crise econômica portuguesa que se vale da estrutura do clássico árabe, com Xerazade (com x mesmo) e tudo. Quase que uma coleção de curtas metragens, alguns sem pé nem cabeça. Mas é difícil se interessar pelos personagens: os únicos que comovem são pessoas reais que contam para a câmera as terríveis dificuldades por que vêm passando. Agora preciso criar coragem para assistir aos outros volumes. O segundo, inclusive, é o representante de Portugal no próximo Oscar.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

HE WORKS HARD FOR THE MONEY

Talvez eu devesse estar postando o enésimo post sobre a enésima manobra do Eduardo Cunha, mas confesso que estou sem saco. A crise brasileira piora todo dia, sem solução à vista. Numa hora dessas, nada como relaxar com um episódio do programa "True Life", da MTV americana, sobre atores héteros que fazem pornô gay. Pena que eu só tenha o trailer aí em cima. Mas reconheci um dos rapazes: o tal do Luke usa o nome artístico Vadim Black. Dá uma googlada aê.

CANADA DRY


As indicações para o Grammy saíram anteontem, e a imensa maioria delas eu deixo passar reto. Mas tem uma categoria que sempre me interessa: a de dance/eletrônica. Todo ano são incluídos nomes de que eu nunca tinha ouvido falar, e foi para momentos como este que Deus inventou o Apple Music. O resultado é que minha trilha sonora desta semana é "Our Love", indicado como melhor álbum d/e. É o disco de uma banda de um homem só: o canadense Dan Snaith, que já usou os pseudônimos Manitoba e Dafni e aqui se assina como Caribou. O cara já fez hits para as peeshtas, mas agora seu som é atmosférico, mais para ouvir do que para dançar. Mas não acho que leve o Grammy: aposto que os Chemical Brothers serão premiados de novo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

AGARREM-NO


Não faço parte dos que acham que Louis Garrel é a criatura mais linda que Deus pôs sobre a Terra. Mas gosto o suficiente dele para ter visto sua estreia como diretor. "Dois Amigos" é um filme simpático, com algumas boas sacadas no roteiro. Pena que longo demais: a história caberia toda em apenas uma hora, o que daria no máximo um especial de TV. Garrel faz um dos amigos do título, uma dupla inseparável que se envolve com a mesma mulher. Só que ela não pode se envolver com ninguém, pois está cumprindo pena no regime semiaberto. Os rapazes agem feito crianças, cometendo besteiras que os levam até em cana. Mas no final ninguém parece amadurecer um segundo, e nem há a discussão sobre uma suposta passagem à idade adulta. Ou seja, nada de mais. Só posso recomendar para quem quiser muito agarrar o Louis.

VERBA VOLANT, SCRIPTA MANENT

Que em latim castiço quer dizer: "vou colocar na tua bunda". Ah, e quer saber? Dilma merece. Como diz um outro provérbio, este espanhol, "cría cuervos que te sacan los ojos". Michel Temer não é José de Alencar. Não é um velhinho bonachão, vindo de um partido pequeno, muito mais preocupado em se tratar de um câncer terminal do que em ocupar a presidência. Temer é um político profissional, coisa que Dilma nunca foi e nunca será. Tem séculos de experiência, circula por todos os lados, está firme e forte, e ainda por cima é casado com uma belíssima modelo-e-atriz. Tudo o que lhe falta é a faixa verde-e-amarela, e agora ela parece ao seu alcance. Mas Dilma e seu entorno sempre o trataram como se ele não fosse também o presidente do maior partido do Brasil, capaz de lhes puxar o tapete a qualquer momento. Tem um lado meu que pensa, "bem feito". Tem outro que está com medo. Essa carta-bomba pode ser o começo do fim deste ciclo do PT no poder, mas nada garante que vem aí um governo melhor. E junto virá um clima de insatisfação, de acusações de golpe, e mais divisões entre nós. Continuo contra o impeachment, mas quero que Dilma saia. E Cunha. E Renan. E, sim, Temer. E que não assuma o Aécio, que se mostrou despreparadíssimo para o cargo. Mas, e aí? Quem tem envergadura para um desafio desses? Tempus fugit.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

AMADURECEU

Era óbvio que o chavismo ia perder essa eleição. Nenhum governo responsável por uma redução de 10% do PIB ou por uma inflação por volta dos 200% consegue vencer nas urnas. A dúvida era se a oposição ia mesmo levar. O governo da Venezuela redesenhou o mapa eleitoral para dar vantagem à situação, abusou de seu controle da mídia e fez terrorismo psicológico para evitar a derrota. O presidente Nicolás Maduro chegou a prometer resistência armada caso fosse derrotado. Mas nada disso aconteceu, ainda bem. Não só a vitória da MUD foi arrasadora (pelo menos 99 das 167 cadeiras do parlamento, e provavelmente mais) como o regime reconheceu de imediato a derrota. Vai ver que ficaram com medo do Macri, hahaha, que ameçou suspender a Venezuela do Mercosul. Agora estou curioso para ver o que acontece: a oposição dominará apenas a Assembleia Nacional. Todas as demais instiancias do governo, inclusive o Judiciário, continuam em mãos chavistas. Mas o desastre econômico é de tal ordem que pode ser que agora só dê para melhorar. Sempre tive medo do contágio: muitos setores do PT adorariam fazer por aqui o que Chávez fez por lá, jogando ainda mais um segmento da sociedade contra o outro. Estive em Carcas pela última vez há quase seis anos, e o caos já era aparente. Até que demorou para chegar essa derrota. Ainda bem que Maduro deu sinal de estar, hmm, mais maduro, e quem sabe se agora abra para o diálogo. Este é mais um largo passo rumo ao fim do ciclo da esquerda populista e incompetente na América do Sul. Agora só falta...

(Este artigo do site Opera Mundi explica como o chavismo bagunçou as finanças venezuelana. É tendencioso - o autor acredita na tese da "guerra econômica" propalada pelos seguidores do Comandante - mas deixa claros os erros da esquerda no poder. Inclusive no Brasil.)

TOTAL RECALL

Quem é contra o impeachment da Dilma diz que ele vai contra a vontade do povo. Afinal, a presidente foi reeleita com 53 milhões de votos. O que falta dizer é que esses votos todos foram em outubro de 2014: dificilmente ela repetiria agora a mesma marca. Mas aí surge aquele argumento de que o sistema presidencialista é assim mesmo, e que é preciso esperar longos anos até a próxima eleição. Além do mais, alegam alguns, incompetência não é motivo suficiente para tirar alguém do cargo. Mas deveria ser. Nos países parlamentaristas, primeiros-ministros caem por muito menos do que Dilma está sendo acusada. Mas o Brasil já rejeitou várias vezes este sistema, assim como quase todos os países das Américas. Não entendemos direito como ele funciona e preferimos um presidente-rei, com plenos poderes (na verdade, quase todos as nações americanas copiaram os Estados Unidos). No entanto, alguns países presidencialistas e até estados americanos têm um mecanismo em suas constituições que permite que governantes caídos em desgraça sejam ejetados de maneira mais ou menos indolor. É o chamado "recall": uma eleição extraordinária onde a população decide se o sujeito fica ou sai do poder. Mas não dá para ser de qualquer jeito. Geralmente são necessárias milhões de assinaturas para que um pleito desses seja convocado. Dois exemplos me vêm à memória. Hugo Chávez passou por um "recall", previsto na constituição que ele mesmo patorcinara - e continuou presidente da Venezuela, para desgraça de todos. Na Califórnia, um governador impopular também foi defenestrado desse jeito, abrindo caminho para ninguém menos que Arnold Schwarzenegger (que no final fez uma boa gestão, mas saiu tão desiludido que nunca mais se candidatou a nada). Na remota hipótese de algum dia se fazer uma reforma política aqui no Brasil, acho que valia a pena discutir a inclusão do "recall" na nossa constituição. Além da facilidade de se despachar os incompetentes e/ou corruptos, o mecanismo também serviria como uma arma eternamente apontada para todos os políticos. "Alá, hein? Saiu da linha, descumpriu promessa, mentiu? Tácale recall!". Mas até parece que nossos representantes vão votar uma lei dessas contra si mesmos.

domingo, 6 de dezembro de 2015

TARCISÃO EM CARNE E OSSO

Tarcísio Meira fez pouco teatro ao longo de sua extensa carreira. Ele diz que é por causa de seu tom de voz, quase sempre baixo. Mas hoje em dia existe amplificação no palco, e eu finalmente consegui colocar o Tarcisão no meu currículo. Fui ver "O Camareiro", que fica em cartaz em São Paulo só até domingo que vem. Esta peça inglesa já está se tornando um clássico contemporâneo, mas nunca havia sido montada no Brasil. E a montagem de Ulysses Cruz faz jus ao texto, sobre a relação complicada entre um grande ator (chamado apenas de "Sir") e o camareiro que o acompanha há anos. Kiko Mascarenhas está fantástico nesse papel, que na verdade é o maior do espetáculo. Mas como resistir a Tarcísio? Ainda bonito aos 80 anos, e com uma presença avassaladora em cena. Ele não é mais um astro. Já é uma entidade.