segunda-feira, 30 de novembro de 2015

MESTIÇO FEITO O OBAMA


Consumimos pouca música pop africana no Brasil, apesar dos laços que nos unem ao outro lado do Atlântico. Ainda bem que serviços como o Spotify ou o Apple Music agora nos dão acesso a muita coisa que vem de lá, como a Owiny Sigoma Band. São dois ingleses e dois quenianos que se juntaram para fazer um som que é primitivo e sofisticado ao mesmo tempo. O terceiro álbum dos caras, "Nyanza", mistura batuque, lounge e até um antepassado do funk carioca. O nome do disco é o de uma província no oeste do Quênia onde vivem os luo, o mesmo grupo étnico do pai do Obama. Mas a música é mestiça e difícil de classificar: só sei que eu estou adorando.

SEINFELD AO CURRY


Aziz Ansari provavelmente ficaria puto com o título desse post. O criador, diretor, roteirista e astro da série "Master of None" quer romper os preconceitos que os descendentes de indianos enfrentam nos Estados Unidos. Mas a "indianidade" é parte importante de sua série, cuja primeira temporada está disponível no Netflix. Há todo um episódio que discute a maneira como os indianos são retratados na TV americana, e o próprio Aziz aparece fazendo um teste onde se recusa a engatar um sotaque hindi. Sim, seu personagem também é um ator: assim como Jerry Seinfeld em "Seinfeld', ele também faz uma versão de si mesmo. E esta nem é a maior semelhança entre os dois programas. Os diálogos também costumam ser sobre o "nada", há muitas idas e vindas com namoradas de todos os tipos e até uma turma de quatro amigos inspeparáveis. Porque é 2015, essa turma é um primor de diversidade: ela inclui um obeso, um descendente de chineses e uma lésbica negra. Mas não se assuste, não há nada que cheire a politicamente correto. "Master of None" cumpre o primeiro requisito de toda boa comédia: os personagens sabem rir de si mesmos. Vale conferir.

domingo, 29 de novembro de 2015

SAINDO NO LUCRO


"Capital Humano" foi o escolhido pela Itália para concorrer ao Oscar de filme em língua estrangeira no ano passado. Também foi o grande vencedor do prêmio David di Donatello de 2014, o Ocar italiano, vencendo nada menos que o fenomenal "A Grande Beleza". E no entanto essa obra-prima estreou por aqui sem alarde, e está fazendo carreira discreta. Uma tremenda injustiça: é um dos melhores longas deste ano, com um roteiro incrível. São três capítulos, cada um focado num personagem: todos têm segredos a esconder. E todos estão de certa forma envolvidos no atropelamento de um ciclista, a cena que abre o filme. Houve um momento em que eu achei que estava vendo uma versão estendida daquele segmento de "Relatos Selvagens" em que o filho de um ricaço atropela uma grávida, mas as surpresas são muitas até o epílogo. É um estudo do egoísmo e da generosidade, onde cada um puxa a brasa para sua sardinha mas no final todos precisam de todos. Não deixe essa maravilha passar batida: vá assistir, que ainda está em cartaz.

MÚSICA QUE DÁ NOS NERVOS

"Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" é um marco do cinema, mas fracassou redondamente quando foi adaptado para um musical da Broadway. Esse fiasco não desanimou os produtores brasileiros, que enxergaram no espetáculo um veículo para grandes atrizes. A montagem em cartaz em São Paulo cumpre esse papel: Marisa Orth e Totia Meirelles estão melhores do que nunca, apoiadas por um grande elenco. A produção é pra lá de luxuosa, com inúmeros cenários, figurinos devidamente almodovarianos e até mesmo um palco giratório, que não existia no exterior. Mas, com quase três horas de duração (incluindo o intervalo), a peça é bem mais longa que o filme. E comete um pecado mortal que não foi sanado pela adaptação e direção de Miguel Falabella: as músicas são todas ruins. Algumas são lentas demais para o ritmo frenético pretendido, outras são apenas feias. Nenhuma empolga, nenhuma vai ter vida fora do palco (elas mal têm sobre ele). É uma pena, porque eu fui para o teatro disposto a adorar. Adorei Marisa, adorei Totia, adorei o visual, as coreôs, a entrega dos atores. A trilha sonora, que deveria ter sido composta um compositor latino, não consegui.

sábado, 28 de novembro de 2015

CARAPUÇA FOLGADA

César Menotti é gordo, mas a carapuça lançada por Bruno Gagliasso e João Vicente de Castro coube nele com folga.  Como todo homofóbico, ele diz que não é preconceituoso, e ainda rebate um internauta que o criticou com um "seja mais tolerante". Pois eu não vou ser. Menotti merece ser execrado como Joelma ainda está sendo. Dificilmente ele perderá shows como a ex-sra. Ximbinha, pois não tem muitas guei em seu público - o sertanejo é o gênero musical brasileiro menos diverso que existe, dominado por homens brancos e héteros. Mas reações como a dele só comprovam como o gesto dos atores ainda é importante num país como o nosso, que anda a passos largos para trás. Estou com horror com H, e vou demonstrar.

WIKIMERDIA

Sempre fomos a república das desculpas esfarrapadas, onde políticos pegos em flagrante delito justificavam seus ganhos absurdos dizendo ter ganho 200 vezes na loteria. Todo mundo ria e ninguém acreditava, mas o sujeito não só não ia preso como ainda era reeleito. Essas figuras continuam na base do vai-que-cola, mas não está colando tanto quanto antes; talvez seja culpa das redes sociais. Eduardo Cunha conseguiu melar a sessão do CCJ que abriria um processo contra ele, mas não só não convenceu ninguém de não ter manobrado como ainda foi afrontado no plenário da Câmara e humilhado com a saída de mais de 100 deputados. O advogado de Delcídio "do" Amaral jura que seu cliente só foi levar "conforto" a Nestor Cerveró, como se pudéssemos desescutar a fita onde o senador propõe um plano de fuga mirabolante ao ex-presidente da Petrobrás. Essa poeira ainda nem baixou e Luiz Cláudio Lula da Silva apresenta à PF um texto copiado da Wikipedia como prova de seus valiosíssimos serviços de consultoria. Essa corja não só acha que somos todos imbecis como também têm certeza que a internet não pega em nossas casas. Na boa - Wikipedia? O cara nem se deu ao trabalho de pesquisar um site um tiquinho menos óbvio? O pior vai ser ouvir a chorumela de que ele está sendo perseguido só porque é filho de Lula, coitadinho. Pois eu sugiro que se crie uma lei contra quem acha que a opinião pública é burra. A pena seria a guilhotina.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O PEIXE E A BOCA

Meu, queria tanto acreditar no Romário. Não por ele, mas por mim. O cara parecia um bastião de honestidade dentro do Congresso, sem papas na língua nem rabo preso. Rico por causa do futebol, não precisaria se envolver cm maracutaias. E vinha dando um um show de bola. Foi até à Suíça alguns meses atrás para provar que não tinha conta lá, fazendo com que a "Veja" se humilhasse e se desculpasse. Agora ele morre pela boca ao admitir que talvez, veja bem, não tem certeza, pode ser que ele tenha uma conta NO MESMO BANCO citado pela revista, que talvez, perhaps, olha lá, não tenha sido exatamente fechada depois que ele parou de jogar na Europa. Ter conta no exterior não é crime, mas quem faz uma eduardocunhadice - primeiro jura de pé junto que não tem e depois assume que vá lá, pode ser, talvez tenha - está passando recibo de culpado. Agora só falta contratar o Kakay como advogado.

SONÍFERA ILHA


"A Ilha do Milharal" ficou entre os nove pré-finalistas do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano passado, mas não chegou entre os cinco indicados. Mesmo assim, esse pequeno filme da Geórgia foi longe, superando concorrentes badalados como o canadense "Mommy" ou o brasileiro "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". E não, não é melhor do que nenhum desses. Quase sem diálogos, não lembra em nada o tipo de filme que agrada à Academia. Deve ter tido um RP muito forte, ou um grande amigo na comissão julgadora. Isto não quer dizer que seja ruim: tem lá seu interesse. Ainda mais porque mostra um canto do planeta que até costuma frequentar o noticiário, mas não as nossas salas. Toda a ação se passa numa ilha temporária, surgida com a vazante num rio sem nome do Cáucaso. Um velho chega de barco, constrói uma cabana e prepara o terreno para semear milho. Depois vem uma garota, que deve ser neta dele (nunca fica claro). E aí aparecem uns soldados, de ambos os lados do conflito entre a Geórgia e a região separatista da Abkházia. "A Ilha do Milharal" trata de assuntos primordiais, como a luta pela sobrevivência, o impulso sexual e a violência, tanto a do homem como a da natureza. É lento, bonito e um pouco chato. A crítica está amando; eu, pra variar, fui fazer turismo no cinema.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

SUICÍDIO DO AMARAL

Há que se admirar a desfaçatez do futuro ex-senador Delcídio do Amaral. Ele teve a cara de pau de propor um plano de fuga que beneficiaria a ele, a André Esteves e a sabemos a quem mais, dãã, mas que obrigaria Nestor Cerveró a passar o resto de seus dias como um foragido da Justiça brasileira. Também é fascinante a proposta de 4 milhões à vista, mais mesada de 50 mil. Tem gente alegando que essa grana viria do BTG, mas cêisjura que acreditam que o banco iria mexer nos seus próprios ativos? E que delícia ouvi-lo citando ministros do STF pelo nome. Agora todos vão se voltar contra ele in saecula seculorum, amém. Mas o mais divertido foi ver os petistas renegando-o, inclusive nas redes sociais. De repente, Delcídio, que é ex-PSDB, virou um tucano infiltrado, apesar de estar no PT desde 2003 prestando bons serviços à legenda. Também foi de fuder de dar risada o argumento de que ele é líder do governo no Senado, não do PT, como se o partido não tivesse nada a ver com isto. Delcídio virou um leproso, e agora todo mundo foge dele. Esse aí já era: vamos ver quantos serão arrastados junto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

YÊSHIVA OU YESHIVÁ?

Tálmud ou Talmúd? Alessandra Maestrini abre  "Yentl em Concerto" perguntando à plateia a pronúncia certa desses termos judaicos. Ela, que não é judia, mergulha nas canções do filme de Barbra Streisand e conta a história da moça que se passou por rapaz para poder estudar a Torá, escrita por Isaac Bashevis Singer. O espetáculo-solo está em cartaz intermitente pelo Brasil afora desde o ano passado, e ontem eu assisti à última récita do ano em São Paulo. A única vez que eu vi Alessandra no palco, tirando a apresentação do Prêmio Bibi Ferreira no mês passado, foi há muitos anos atrás, quando ela fez a Fantine da montagem brasileira de "Les Misérables". Ela ainda não era uma das maiores estrelas do nosso teatro musical, mas agora não resta mais dúvida. Com pleno domínio de cena e um alcance vocal assombroso, ela enfrenta as canções dificílimas de "Yentl" com galhardia. Verdade que força um pouco a amizade nas brincadeiras com a plateia, mas pode ser só um sintoma do confessado nervosismo. Sua interpretação de "Papa Can You Hear Me?" é assombrosa, e ela ainda deu bis com uma outra pérola do repertório de La Streisand, "What Are You Doing the Rest of Your Life?". Sem imitar a über-diva, mas chegando nas mesmas notas. La Maestrini é bárbara.

BUMLAI SERENADE

The plot thickens. E tão depressa que está difícil acompanhar. Ontem foi a prisão do José Carlos Bumlai, uma figura da qual eu nunca tinha ouvido falar até a semana passada. O amigão de Lula é tido como muito religioso, o que não o impediu de estar envolvido em maracutaias. Agora o PT treme de medo que ele abra a boca, pois não só é um chorão como não tem ideologia. A serenata das delações ficou ensurdecedora hoje, com a prisão de Delcídio do Amaral, André Esteves e outros peixes grandes. Delcídio incorporou o "do" ao seu sobrenome no ano passado, aconselhado por uma numeróloga. Não lhe valeu, evidentemente. O senador petista me parecia um dos poucos de seu partido que não estava enrolado em malfeitos, mas pelo visto eu fui ingênuo mais uma vez. Sua proposta de fuga premiada para Nestor Cerveró, gravada por um filho deste, derrubaria o governo de qualquer país mais consequente. Ah, lembrei, estamos no Brasil.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

TANTO MONTA, MONTA TANTO...

...Isabel como Fernando. Quem já esteve na Espanha certamente já ouviu este dito popular, que iguala o poder de Isabel de Castela com o de seu marido Fernando de Aragão. Mas a verdade é que ela era MAIS poderosa do que ele, e teve uma ascensão ao trono pra lá de tumultuada. Tanto que rendeu a superprodução da TVE "Isabel, Rainha de Castela", cuja primeira temporada está sendo exibida pelo canal + Globosat (são três ao todo) e disponibilizada no Now. Eu até fui visitar os túmulos dos Reis Católicos quando fui a Granada muitos anos atrás, mas só sabia  que eles haviam derrotado os mouros, descoberto a América e unificado a Espanha. A história real é digna de "Game of Thrones", tantas são as intrigas palacianas. "Isabel" se ressente um pouco do excesso de sequências interiores, com muito close nos atores e pouca ação. Não há dragões nem "white walkers", mas o nível de maquiavelismo daria inveja a Cersei. Taí uma sugestão para quem está procurando uma série interessante para assistir.

MAIORRR APOIO

A "Escolinha do Professor Raimundo" bombou na televisão brasileira numa época em que eu só queria saber de sitcom americana. Achava o programa antigo, com piadas óbvias - o contrário do suposto refinamento do "Seinfeld". Claro que eu conhecia alguns personagens (não todos) e alguns bordões (ainda menos), mas nunca parei para assistir a um episódio inteiro. Foi preciso o humorístico ressuscitar no canal Viva com um elenco contemporâneo para eu me dispor a vê-lo do começo ao fim. Aí, adivinha: adorei... Descobri que eu sou mais familiarizado com a "Escolinha" do que meu esnobismo me fazia crer. Os atores estão todos bem - a começar por Bruno Mazzeo, que "recebeu" o pai. Foi especialmente aflitivo ver Betty Goffman como Dona Bela (que ela já havia feito no teatro e algumas vezes na TV) ou Dani Calabresa como Catifunda (uma escolha óbvia, porém acertadíssima). Mas, no meio de tantos craques, teve um que marcou um gol de bicicleta: Marcos Caruso como seu Peru, irreconhecível e irretocável. Não só a atuação estava perfeita, como também o texto. Tanto que fiquei com vontade de adotar a criação imortal de Orlando Drummond como meu role model. Sim, Seu Peru ("com mel, de Vila Isabel") é uma bicha louca caricata, mas também é incrivelmente libertário. Não tem a homofobia introjetada de outros personagens gays e muito menos aquela mensagem conservadora tão cara ao humor brasileiro tradicional. É um rebelde, e é fa-bu-lo-so. Tomara que ele apareça de novo nos próximos episódios dessa reencarnação, que vão ao ar no Viva às 23:15 até a próxima sexta-feira e depois serão reprisados pela Globo. Não vou perder: entrei para a irmandade.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O CHAPELEIRO DESCHAPELADO


Adoro o Johnny Depp, mas ele está esquisitíssimo em "Aliança do Crime". Sua intepretação de um chefão mafioso, que anda cotada para o Oscar, é um pouco over, mas quem o caracterizou deveria ser expulso de Hollywood. Cabelo e maquiagem fracassaram redondamente; o pior de tudo são as lentes de um azul tão falso que lembram outro personagem do ator, o Chapeleiro Maluco de "Alice do País das Maravilhas". Depp parece ter só trocado de figurino e esquecido e lavar o rosto para fazer este filme de gângster, mais um que emula Scorsese sem ser Scorsese. O resto do elenco está bem, de Benedict Cumberbatch fazendo um americano a Dakota Johnson ("50 Tons de Cinza") quase irreconhecível de roupa. Mas o roteiro trombeteia tudo o que vai acontecer no minuto seguinte, e não há nada que surpreenda ou emocione o espectador. Já estou quase me esquecendo do que vi.

EU SOU O QUE VOCÊ NÃO FOI ONTEM

Um comercial de vodka dos anos 80 inspirou a expressão "efeito Orloff": aquela regra não-escrita que estabelece que tudo que se passa na Argentina acontece no Brasil um pouco depois. Claro que já houve inúmeras exceções, e o resultado das eleições de ontem por lá pode não significar nada para o nosso próximo pleito presidencial, daqui a três anos. Mas tenho a sensação de que por pouco a regra não foi invertida no ano passado. Depois de uma campanha tumultuada, a situação ganhou raspando no Brasil: a diferença entre Dilma e Aécio foi de apenas 3% no segundo turno. Na Argentina ocorreu o oposto: Macri, da oposição, venceu com 3% de votos a mais que Scioli, da situação. Na verdade, acho que a tendência de "desbolivarização" da América do Sul já começou faz tempo. Mas a onda ainda não estava forte o suficiente para mudar o governo brasileiro, o que acabou agravando a crise que já vivíamos. A Argentina estava no ponto. A economia de lá vai pior que a nossa, mas a sensação não é de fim de mundo como aqui. A personalidade de Cristina Kirchner pesou muito em sua derrota: grande parte do povo estava simplesmente farto de seu estilo de apresentadora de telebarraco. A bem da verdade, a viúva K. já entrou derrotada na campanha eleitoral, pois não conseguiu impor seu candidato. Scioli, de outra ala do peronismo, é parecidíssimo com Macri: ambos vêm do mesmo meio social, a elite portenha, e eram amigos pessoais, de jogar bola juntos, até bem pouco tempo. Também têm ideias parecidas sobre o que fazer com o país. Agora que Macri venceu, estou aflito para ver o que ele fará com o casamento gay (antes era contra, depois se disse a favor) e com os presos ligados à ditadura (já garantiu que não vai soltar ninguém, mas nunca se sabe). De qualquer forma, o kirchnerismo sai de cena, e talvez não volte tão cedo. Daqui a alguns dias rola a eleição legislativa na Venezuela: aí teremos uma noção mais clara da tendência política para o nosso continente.

domingo, 22 de novembro de 2015

O QUE ACONTECEU COM MAJOR TOM

Milênios depois do astronauta ter desaparecido no espaço sideral, seus restos mortais foram encontrados por uma raça de mulheres de vestido de chita. Agora elas veneram sua caveira como se fosse uma relíquia sagrada. Esta é uma das interpretações possíveis para os dez minutos sem sombra de refrão de "Blackstar", o clipe para o novo single de David Bowie. Faça a sua você também!

sábado, 21 de novembro de 2015

EPISÓDIO NÃO-ESPECIAL


Greta Gerwig foi imediata e inevitavelmente comparada a Lena Dunham quando lançou "Frances Ha" alguns anos atrás. O filme era em preto-e-branco, mas, tirando isso, lembrava muito "Girls", a série que Lena criou para a HBO. Agora as duas ficaram ainda mais parecidas: "Mistress America", escrito e estrelado por Greta, parece mesmo um episódio especial de "Girls", com um monte de elementos presente no seriado: uma menina branca que quer ser escritora em Nova York, uma outra menina branca maluquinha que também mora em Nova York e uma série de problemas que podem ser seríssimos ou não existir. A personagem de Greta é provavelmente mais uma extensão dela mesma, mas sem o foco de produzir nada que valha. Toda a primeira metade do filme é agradável feito uma sitcom descolada, e culmina num encontro memorável da protagnista com uma ex-colega de escola. Mas aí a ação se desloca para a casa de um casal rico, onde há personagens demais e assunto de menos. "Mistress America" se ralenta, e aperece durar muito mais que uma hora e meia. Um bom editor teria dado conta, e transformado esse longa num episódio normal de TV.

MAY THE REAL ADELE PLEASE STAND UP

Charlie Chaplin se inscreveu certa vez num concurso de imitadores de Charlie Chaplin. Chegou em quarto lugar. Adele tentou fazer coisa parecida, mas foi desmascarada. Ou não? Difícil dizer se este segmento exibido ontem no talk show do Graham Norton, na BBC britânica, é fake ou para valer. Adele não está lá tão irreconhecível debaixo do nariz e do queixo falsos, e tem um pouco de câmeras demais para ninguém se tocar. Mas as reações das outras candidatas parecem reais. De qualquer maneira, é mais uma maneira engraçada de se promover um disco que talvez não precise de mais nenhuma promoção.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

WOMEN'S DEATH

Tá todo mundo falando do fim da "Playboy" brasileira, mas pouca gente deu atenção às duas outras revistas que vão terminar junto com ela: as versões nacionais da "Men's Health" e da "Women's Health". O fechamento desta última me atinge diretamente, porque é lá que eu ainda escrevo a primeira coluna que tive o prazer de assinar, "Pergunte ao Amigo Gay". Comecei há exatos seis anos, em novembro de 2009, substituindo um rapaz que estava tendo problemas no trabalho por se expor tanto. Tomei coragem, fiz um teste e topei aparecer não só com meu nome mas também em fotos de corpo inteiro e horrivelmente maquiado. Foi um dos trabalhos mais divertidos que eu já tive, e fui parado algumas vezes na rua por leitoras-fãs. Mas fazia tempo que eu esperava pelo encerramento da revista. Em 2013, meu espaço caiu pela metade, e meu cachê (que já era irrisório) também. Por isto, o fim da coluna não vai ser nenhum baque nas minhas finanças. Mas nem tive tempo de me despedir: a derradeira, a de dezembro, já foi escrita e enviada. Melhor assim? De qualquer forma, é uma pena ver a editora Abril liquidando aos poucos seus títulos mais emblemáticos. O trio que agora é extinto nem vendia tão mal (a WH estava na casa dos 37 mil exemplares por mês), mas se tornou inviável por causa dos royalties que têm que ser enviados para suas matrizes. Também influíram a internet, óbvio, e uma administração antiquada, que não soube se adaptar aos novos tempos. Mas erra quem acha que é "o povo" dando o troco aos Civita. A "Veja", joia da coroa P.I.G. e bicho-papão dos metralhas, continua firme, cheia de anúncios e assinantes.

A RAINHA DA SOFRÊNCIA

Pela primeira vez, Adele nos encara de frente da capa de um de seus discos. Mas sua música não ficou mais confessional: ao contrário, são tantos os produtores e os co-autores que eu tenho cá comigo que ela agora só finge ser Adele. Aquela Adele desprezada, traumatizada, sem chance no amor, que seduziu o mundo inteiro há alguns anos, não existe mais. A verdadeira Adele se esconde atrás da máscara: é uma mulher realizada, feliz no amor, com um filho pequeno e quaquilionária. Só que, se ela começar a cantar sobre as vantagens de sua vida privilegiada, vai cair no mesmo erro de Madonna, que parou de vender quando passou a focar em sua própria fabulosidade. Adele precisa sofrer, ou dar a impressão de que está sofrendo muito. E isto "25" dá: apesar da cantora dizer que é um álbum de reconciliação. Nem todas as faixas são de dor-de-cotovelo, mas nenhuma é exatamente alegre. E nenhuma é tão boa quanto os hits de "21", nem mesmo "Hello" - cujo vídeo eu nem postei porque até os marcianos já viram. Se bem que daqui a alguns meses elas vão estar incrustradas nos nossos cérebros, porque a expectativa é que "25" venda zilhões e se torne a trilha sonora oficial do planeta Terra. Os empresários de Adele estão dando uma forcinha para que essa vendagem atinja a estrastofera: o álbum não está disponível no Spotify, no Apple Music nem em nenhum serviço de streaming. Beyoncé e Taylor Swift fizeram o mesmo ao lançar seus trabalhos maios recentes, e deu certo para elas. Mas Adele não contava com minha astúcia: sim, vou comprar o CD físico, mas já dei um jeito de ouvir "25". Ouça você também. Não tem nada de inovador, mas é incontornável.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

LEVANTA DESSA CADEIRA

Finalmente alguém teve coragem de dizer na cara do Eduardo Cunha que ele nos trata como imbecis. O presidente da Câmara convocou sua gangue para melar a sessão da Comissão de Justiça que abriria um processo contra ele, e conseguiu - com a ajuda do PT, ó que surpresa tão rude, esse partido tão ético e que jamais abre mão de seus princípios em causa própria. Precisou que a deputada Mara Gabrili - de quem eu já discordei muitas vezes, diga-se de passagem - levantasse de sua cadeira de rodas para chamar Cunha na chincha. Mara, que é paraplégica, levantou-se com mais brio do que o bandido do Cunha e todos os seus asseclas. A manobra de hoje pode ter dado certo, mas rendeu também a cara de cu do deputado. Hoje ele não vai poder dizer que não ouviu. Mas continua rastejando...

ANJO VITORIOSO

Estou muito chocado com a morte súbita do jornalista Vitor Angelo. Eu não o conhecia pessoalmente, mas éramos amigos de Facebook e tínhamos pencas de amizades em comum. Vitor era uma figura central da cena gay de São Paulo e um dos poucos jornalistas brasileiros a se dedicar quase que integralmente à cobertura de pautas LGBT. Seu blog no ste da Folha de São Paulo, o Blogay, trazia discussões fundamentais para os tempos que correm, e comprou muita briga com os homofóbicos. É um espaço e tanto a ser preenchido. O último post data de anteontem, assim como as derradeiras publicações de Vitor nas redes sociais. Ainda não sei direito o que aconteceu, mas fica aqui o meu respeito e a minha admiração.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A MARCA DA PANTERA

"I'll Never Write My Memoirs" é a primeira frase da letra de "Art Groupie", gravada por Grace Jones nos longínquos anos 80. Mais de 30 anos depois, a mulher mais feroz do mundo deu esse título ao seu livro de memórias. Escrita com o jornalista inglês Paul Morley, a autobiografia da diva é longa demais (mais de 400 páginas), mas recheada de momentos irresistíveis e muito name dropping. Grace nasceu numa família religiosa da Jamaica, muito antes da ilha se transformar num fumódromo de bererê. Todo esse período leva um tempão para acabar no livro, mas dali em diante é pura gostosura. A moça se atirou de cabeça na cena pré-disco da Nova York setentista, conheceu todo mundo, tomou todas, transou com tudo. Depois virou modelo, cantora, atriz e, finalmente, um ícone facilmente reconhecível. Todas essas metamorfoses estão contadas com muito humor e sem nenhum remorso; a Grace Jones que emerge da narrativa é mais humana que a das fotos manipuladas por seu ex-namorado Jean-Paul Goude, mas só um pouquinho. Hoje Grace tem 67 anos, uma neta e muito menos fama do que em seus dias de glória. Mas quem acha que Miley Cyrus é rebelde ou que as roupas de Rihanna são ousadas não sabe o que é uma perigosa de verdade. Tenho medo dela até hoje, porque sei do que essa mulher é capaz. Duvida? Saca só o que ela fez com o apresentador de talk show que não estava lhe dando a merecida atenção.


O TEMPO E O LENTO


Em 1999, eu era roteirista da série "Santo de Casa", uma co-produção entre a Band e a Columbia Tri-Star Television. O programa era gravado num dos estúdios do Pólo de Cinema do Rio de Janeiro, e no estúdio vizinho aconteciam as filmagens de "Chatô, o Rei do Brasil". Visitei o set algumas vezes: minha cunhada foi a cenógrafa do filme, e eu me maravilhei com o requinte dos cenários. O lançamento estava previsto para o ano seguinte, mas todo mundo sabe que não foi isto o que aconteceu. Guilherme Fontes, diretor de primeira viagem e produtor mais inexperiente ainda, de repente se viu sem dinheiro para completar sua obra. Seguiram-se 16 lentíssimos anos de problemas legais, burocracia sem fim, acusações de roubo e até suspeitas de sabotagem. E, em cada um desses anos, Guilherme garantiu que estava finalizando "Chatô" e que o filme sairia no ano seguinte. Lá por volta de 2007 eu parei de acreditar. "Chatô" estava virando lenda. Um caso exemplar de má versação de dinheiro público e um castigo merecido para um delírio megalomaníaco?  Aí, de uma hora para outra, sem aviso nem alarde, o longa finalmente chega às telas brasileiras. Pegou todo mundo de surpresa, inclusive a crítica - que estava esperando um abacaxi mal-costurado, depois de tanto perrengue nos tribunais. Essa baixa expectativa pode ter contribuído para as resenhas estelares, mas o fato é que "Chatô" é mesmo muito bom. Fui ontem à pré-estreia em São Paulo e saí encantado do cinema. É um filme ousado, coeso, inovador, lindo de ser ver. E um pouco difícil de entender, admito. O roteiro é meio alegórico e não-linear, e só quem leu o livro de Fernando Morais vai usufruir plenamente. Quem conhece a história meio por alto, como eu, vai penar um pouco. Além do mais porque, tirando o protagonista e Getúlio Vargas, todos os demais personagens ganharam nomes fictícios. Agora, quem nunca ouviu falar de Assis Chateaubriand vai pagar um dobrado. Periga ficar sem saber que foi ele quem inaugurou a televisão brasileira ou patrocinou o MASP. "Chatô" não é didático, nem abre concessão para o público médio. É um filme de arte, sofisticado e ambicioso. Todo o elenco está ótimo, com a desonrosa exceção de Paulo Betti. Claro que está todo mundo muitos anos mais jovem, mas é impressionante como Andrea Beltrão e Letícia Sabatella continuam idênticas. Pois é, o tempo não para, mas de vez em quando faz uns desvios. Traçando muitos paralelos entre as crises d'antanho e as atuais, "Chatô" não tem nada de lento: é um filme urgente, que poderia ter sido rodado ontem e que (ainda) fala de hoje.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

ATITUDE POSITIVA

Nunca gostei do Chalie Sheen, nem quando ele ainda não era o cara mais chato do planeta. Mas claro que eu aplaudo a coragem dele de se declarar HIV-positivo. Mesmo não tendo sido uma atitude totalmente altruísta: ssim como Ricky Martin quando saiu do armário, Charlie estava sendo chantageado. Resolveu se assumir porque estava farto de gastar dinheiro (milhões, disse ele à rede CBS). Tivemos nos últimos dias provas mais que abundantes da maldade humana, mas eu sempre me horrorizo quando fico sabendo de algum caso de chantagem. É muito baixo, muito torpe. Tomara que agora Charlie Sheen denuncie seus algozes, porque eles merecem ir pra cadeia.

FABULOSITY TOTALLY INCLUDED

Parece esquete do "Saturday Night Live", mas não é. A Moschino Barbie existe mesmo e o comercial acima é o primeiro da história a mostrar um menino brincando com boneca. Fui treinado a me sentir constrangido sempre que me deparo com um garoto obviamente gay, mas quer saber? Estamos em 2015!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

JE SUIS BATACLAN

Pensei em fazer um meme, talvez sem graça e inoportuno. Sobre uma foto de Heloisa Mafalda caracterizada como Maria Machadão, a cafetina da primeira versão da novela "Gabriela", eu escreveria a frase que dá nome a este post. Aí me toquei: isto não é piada. É uma tomada de posição política. Porque, como bem lembrou a Madonna, os terroristas islâmicos só atacaram gente que estava se divertindo em Paris. Gente que estava num show, em restaurantes, num estádio de futebol. E porque, como escreveu a feminista Susie Bright, esses caras do ISIS são uns tarados mal-comidos e rejeitados. É só ler o manifesto que os jihadistas divulgaram: as vítimas dos atentados seriam "apóstatas" que estariam "festejando com prostitutas" na capital da "obscenidade e perversidade". Boa parte dos losers que se juntam ao Estado Islâmico são rapazes criados em ambientes repressivos, que nunca transaram na vida: sim, eles aderem à guerra santa para meter, nem que seja numa escrava yazidi. Essa turma merece mais que o nosso desprezo e o nosso bullying. Eles merecem que a gente continue levando a vida como sempre levou, sem medo nem pudor. Como, aliás, fizeram ontem os próprios parisienses, que lotaram cafés e bares por toda a cidade. É por isto que eu bato no peito e no pau: viva a putaria, viva os bons drink, viva a paquera, viva a cantoria, viva o pornô, viva a alegria de viver.

DIVERSA IDADE


Pela primeira vez em muitos anos, não fui à abertura do MixBrasil. Tive um compromisso profissional na mesma noite. Mas aproveitei o fim de semana para ver dois longas americanos em exibição no festival, que se diz da "diversidade" mas que na prática todo mundo sabe que é gay. Ou talvez já se possa dizer que é um evento de diversas idades: um amigo meu chegou a questionar a relevância do Mix Brasil numa rede social, já que hoje em dia a temática LGBT chegou até às novelas. Será que o festival já teve dias melhores, ou está mais necessário do que nunca? De qualquer forma, vi dois filmes interessantes que falam de momentos diferentes na vida de personagens homossexuais. O primeiro deles foi o ultra-independente "Nasty Baby", dirigido e protagonizado pelo chileno Sebastián Silva. O único nome conhecido do elenco é a comediante Kristen Wiig, que faz a amigona de um casal gay disposta a engravidar de um deles. Na paralela, o trio tem probelmas com um morador de rua, que os molesta até o ponto da violência. "Nasty Baby" é um filme estranho, e não captei a mensagem de sua trama. Tem gay despreparado para ser pai? Tem, e daí? Se alguém mais viu, estou a fim de trocar umas ideias.

Gostei bem mais de "Grandma", que traz uma grande interpretação de Lily Tomlin. Ela faz uma lésbica viúva que é um poço de ironia e confrontação, do tipo que compra briga com criança. A trama toda se passa num único dia, que começa mal: ela leva o pé da namorada bem mais jovem. Logo depois recebe a visita da neta, que precisa de dinheiro para fazer um aborto. Como a vovó está dura, as duas vão a diversos lugares em busca de grana. E aí está a maravilha do roteiro: através dessas visitas, vamos aos poucos conhecendo toda a vida dessa mulher agridoce. Lily Tomlin está cotada para o próximo Oscar, e por isto "Grandma" deve estrear no Brasil no começo de 2016. Não "perdam".

domingo, 15 de novembro de 2015

007 CONTRA O ESTADO ISLÂMICO


O título desse post não passa de wishful thinking. O novo filme de James Bond mostra o agente secreto em luta contra uma organização do mal tão tentacular que seu logotipo é um polvo, e que quer dominar o mundo para fazer ainda mais maldades. Mas a Spectre passa ao largo de qualquer ideologia religiosa, nem pretende "combater o vício". Por isto mesmo, não dá medo nenhum. Christoph Waltz, como o vilão-mor, só falta morder a unha do dedo mindinho para ficar ainda mais ridículo. Mas desde quando filme de 007 serviu para dar medo? O espião é uma fantasia masculina: o homem perfeito, com sangue frio na hora da luta e quentíssimo nas cenas de cama. Criado na literatura, passou por diversas mutações no cinema, e não só por causa dos muitos atores que o interpretaram. O de Sean Connery era o mais perigoso, o de Roger Moore o mais engraçado. Pierce Brosnan emitia raios de charme com o olhar, e Daniel Craig não tem o refinamento de seus antecessores. Ele está de saco cheio da franquia e ameaça nem fazer o quinto filme previsto em seu contrato. Já começaram as apostas sobre seu sucessor, e um dos mais cotado é Idris Elba. Um ator negro no papel seria uma guinada e tanto (puristas como eu acham que James Bond tem que ser branco de cabelos negros), mas ainda menos grave do que a besteira que os produtores fizeram nos dois últimos capítulos da série. Em "Skyfal", 007 revisita o palacete onde nasceu. Em "Spectre", é revelada sua ligação familiar com o malvado Blofeld. Uma cretinice, porque James Bond é um ícone como Mickey Mouse ou Tintim: não tem família, não sabemos de onde vem, não nos importamos com isto. Porque esses personagens são só veículos para projetarmos a nós mesmos. No mais, foi meio esquisito ver "007 contra Spectre" menos de 24 horas depois dos atentados em Paris. O tema principal do filme é o avanço da vigilância eletrônica 24 horas, e de repente ela parece mais necessária do que nunca. Ao mesmo tempo, a ameaça do fundamentalismo islâmico é solenemente ignorada. Apesar dos gadgets cada vez mais modernos, James Bond continua preso à época da Guerra Fria em que nasceu. Pelo menos a sequência inicial é de arrepiar os cabelinhos da nuca: uma luta dentro de um helicóptero sobre a Cidade do México. O resto é médio.

sábado, 14 de novembro de 2015

O 13 DE NOVEMBRO

Agora vai ter guerra? Se os atentados de Paris tivessem acontecido nos Estados Unidos, com certezíssima. Mas a situação na Europa é complicada, e a mentalidade da população não é belicista como a dos americanos. Bombardear o território ocupado pelo Estado Islâmico na Síria e no Iraque talvez não adiante muito: o inimigo já está enfronhado na sociedade europeia, muito antes da atual onda de refugiados começar. Nem acredito muito que essa barbárie tenha sido resposta a algum ataque específico contra o EI nos últimos dias. Uma ação coordenada desse tamanho demanda um certo planejamento, e provavelmente vinha sendo tramada há algum tempo. O que deixa os serviços de inteligência com cara de idiotas. Como é que, com tanta espionagem eletrônica e invasão de privacidade, ninguém percebeu que esse horror todo estava para acontecer? Um pequeno consolo é pensar que o homem-bomba do Stade de France só conseguiu matar três pessoas. Ele provavelmente queria entrar no estádio, ou se detonar quando os torcedores saíssem do jogo. Todos os outros ataques foram na região boêmia do Marais - République - Belleville - inclusive no Boulevard Beaumarchais, onde eu me hospedei duas vezes no último ano. Os terroristas quiseram atingir a Paris "normal", frequentada pelos próprios parisienses, longe dos principais pontos turísticos. Como que para dizer que, se depender deles, ninguém vai ter vida normal. Chegou, portanto, o momento de tomar uma posição. Não adianta dizer que o islamofascismo é decorrência apenas da colonização ou da existência de Israel. O mundo muçulmano vive em convulsão há mais de três décadas, com guerras intestinas e massacres sangrentos do Maghreb ao Himalaia. Quero só ver o que os imbecis que "justificaram" o morticínio no Charlie Hebdo têm a dizer agora. É um momento delicado: a imensa maioria dos muçulmanos não prega a violência, mas também não se manifesta contra o câncer do radicalismo. Se a França decidir escalar a guerra contra o Daesh (como eles chamam o Estado Islâmico por lá, usando a sigla em árabe), as consequências são para lá de imprevisíveis. Mas é preciso deixar bem claro que eles representam a selvageria e nós (sim, NÓS), a civilização. Os jihadistas querem impor uma ditadura religiosa, oprimir as mulheres e matar os gays. Não tem papo com essa turma, chega de titubeação. Estamos todos em perigo.

Enquanto isso, aqui no Brasil, vários retardados foram às redes sociais para CRITICAR a comoção pelo 13 de novembro em Paris. Essa turma do contra emerge em qualquer situação: ninguém pode aceitar o desafio do balde de gelo porque, afinal, existem doenças muito mais graves e comuns do que a ELA; ninguém pode apoiar os transsexuais porque, afinal, existem criancinhas famintas na África; ninguém pode criticar a corrupção porque, afinal, todo mundo fura fila; etc. etc. etc. O mote da vez é comparar Paris com Mariana, o que não tem absolutamente nada a ver. O que aconteceu em Minas Gerais foi um acidente causado pela inépcia e pela ganância, mas sem intenção nem ideologia por trás. Felizmente houve poucos mortos, o que não quer dizer que uma vida valha mais do que a outra. Sim, o desastre ecológico é enorme, mas não é por causa dele que periga ser detonada a 3a. Guerra Mundial. O que aconteceu em Paris foi orquestrado por vilões em estado puro, vitimou muito mais gente e é uma ameaça aos nossos valores e ao nosso modo de vida. Reproduzo aqui as palavras do meu amigo Gilberto Scholze no Facebook: "Olha, se vcs não conseguem visualizar a diferença de origem, responsabilidade, resposta do governo e consequências no planeta inteiro entre o que aconteceu em Paris e o que aconteceu em Mariana e, principalmente, gostam de parecer espertíssimos na contra-corrente, criticando o #PrayForParis, como se lamentar o atentado francês fosse cagar para a tragédia mineira, não sou eu que vou desenhar pra vcs. Porque isso extrapola ser burrinho, é ser cretino e intelectualmente desonesto. Melhorem!" Voilà.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

LÉSBICA DA CINTURA PARA CIMA

Cêis viram o tal do estudo que garante que nenhuma mulher é 100% hétero? Só existem lésbicas e bissexuais nesse mundo velho sem porteira. Hmm, não duvido. Várias meninas já me disseram que acham o corpo feminino "mais bonito", e se espalha entre as universitárias do Brasil o fenômeno "LUG" ("lesbians until graduation", lésbicas até a formatura). Mas a melhor resposta foi a que uma amiga me deu: ela assumiu de boas que é lésbica da cintura para cima. "Sou capaz de fazer tudo com os peitos e a boca de outra mulher.  Mas para baixo, sei não..." Ixe, então eu também sou.

A PAIXÃO DE PIER PAOLO


Está na hora de surgir um novo Pier Paolo Pasolini. Não acho que os tempos de hoje sejam mais caretas do que os que ele viveu, mas faz falta um libertário que não peça desculpas por seu radicalismo. O diretor italiano pagou um preço alto: foi linchado e atropelado por um grupo de rapazes, inclusive o que ele estava pegando (e pagando) naquela noite. Sua via crucis, de certa forma, também validou sua obra. E já rendeu alguns livros e filmes, como este "Pasolini" que agora está em cartaz. O roteiro foca em seus últimos dias de vida, mas não é linear. Envereda pelas histórias que Pasolini estaria escrevendo naquela época, e de repente as abandona, como um escritor que muda de assunto. Willem Dafoe está assombroso no papel principal, e o diretor Abel Ferrara consegue dar uma boa ideia de como funcionava a mente de seu biografado. Pasolini era um rebelde, mas também era profundamente italiano: vivia sua homossexualidade nas sombras (como se faz na Itália até hoje), a religião estava em seu DNA e ele nunca largou da barra da saia da mãe. O filme é curto e sua piração não chega a encher o saco, mas não é para todos os gostos. Proceda com cuidado.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

DEU A ELZA

Sinto voltar de novo ao assunto Eduardo Cunha, mas essa novela está mais excitante do que a abertura do Mar Vermelho. A notícia de hoje destrói de uma vez por todas qualquer tentativa do deputado de dizer que as contas na Suíça não são dele: a senha de uma delas é o nome de sua mãe, com direito a "pergunta secreta" e tudo. Como estamos no país da piada pronta, claro que essa mãe se chama Elza. Cunha se achava muito esperto, e de fato é um político que sabe tirar vantagem do sistema como poucos. Mas astúcia tem limite, e outra derrapada feia que ele deu foi propor a tal da lei que restringe o aborto. Estava crente que iria ter o apoio dos crentes, mas o que conseguiu mesmo foi disparar um movimento feminista com passeatas ruidosas contra sua nefasta pessoa. Agora eu duvido que ele chegue até o final do ano.

BULLYING AO MAR

Nossa imprensa costuma fazer um escarcéu quando um brasileiro morre no exterior em circunstâncias misteriosas, mas eu não tenho visto muita coisa por aqui sobre o caso de Bernardo Garcia Teixeira. Será que é porque ele era gay? Radicado há anos nos Estados Unidos, o cara pulou de um navio da Royal Caribbean na semana passada, e a história é das mais esquisitas. O namorado - cujo aniversário os dois iam comemorar com um cruzeiro - conta que eles foram molestados pela tripulação desde o primeiro dia de viagem. No quarto dia a coisa chegou a tal ponto que dois seguranças invadiram o quarto de ambos, e todo o entrevero foi gravado e postado na internet pelo próprio Bernardo. O que aconteceu em seguida está mal contado: consta que o brasileiro saiu correndo pelo convés e saltou, mas ficou pendurado um tempão num bote salva-vidas até finalmente cair no mar. Tudo isso na frente de muitos passageiros, um dos quais - claro - também gravou o momento da queda. A Royal Caribbean alega que foi um suicídio e que o casal estava bêbado (o que não é crime), mas o viúvo diz que o que provocou a tragédia foi mesmo o bullying dos tripulantes. É notório que tem muito funcionário por aí preconceituoso e/ou despreparado para lidar com o mundo moderno. Mesmo que Bernardo sofresse de depressão ou seja lá o que fosse, nada desculpa a maneira como o casal foi tratado. Vem um processo daqueles por aí, e é prestarmos atenção. Pode ser criada uma jurisprudência.

(Para saber mais, leia a matéria - em inglês - que saiu no Daily Beast)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

ISN'T IT IRONIC?

Quem quer se sentir velho? Faz VINTE ANOS que Dave Grohl Fernanda Torres Alanis Morrissette lançou "Jagged Little Pill". Para celebrar a efeméride, ela foi ao talk show de James Corden. E juntos eles cantaram uma versão atualizada de "Ironic". Como diria o primeiro-ministro Justin Trudeau, because it's 2015.

LAMA RADIOATIVA

Por que será que a Dilma ainda não foi à região de Mariana? Não, não acredito que a presidente não esteja nem aí - ela tem mil defeitos, mas a indiferença a tragédias não está nem entre eles. Além do mais, por pior que seja, a tsunami de lama é perfeita para o que os americanos chamam de "photo op": a oportunidade de sair bem na foto, de se mostrar atuante e solidária. Mas a assessoria do Palácio está desperdiçando essa chance, apesar de Lula insistir para que o governo adote uma "agenda positiva". Será que a ABIN identificou a possibilidade de Dilma ser hostilizada pela população? Ou ficaram com medo que surgisse algum meme dela cercada por um mar de lama de verdade? Se for estratégia de marketing, me escapa da compreensão. E como é que o PT não está atacando a privatização da Vale, que também foi responsável por esse desastre? Por que nenhum ministro foi a Minas? Tudo muito esquisito nessa história. Não sei se é miopia política ou se a lama metafórica é ainda mais funda do que pensávamos.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

COVER BOY

Todo final de ano, a revista americana "Out" publica a lista dos 100 gays mais influentes. E em 2015, pela primeira vez na história, um presidente em exercício posou para a capa de uma publicação LGBT. Obama não tem uma trajetória impoluta com relação aos homossexuais: ele nos defendia quando ainda era um jovem senador pelo estado de Illinois, mas se declarou contra o casamento igualitário durante a campanha presidencial de 2008. Por mais hipócrita que seja, a tática deu certo. Obama "mudou" de opinião em 2012, pouco antes do pleito, o que não o impediu de ser reeleito. E em seu segundo mandato ele realmente abraçou a causa. Hoje o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal em todos os 50 estados, e as duas juízas indicadas por Obama para a Suprema Corte foram fundamentais para essa vitória. Ah, que invejinha. Aqui no Brasil, Dilma e Lula jamais disseram com todas as letras que apoiavam o casamento gay. Aécio disse, e Marina deu mais ou menos a entender que talvez achasse boa a união civil, ou não. Mas todos se borram de medo da bancada evangélica, esse bicho papão que ajudamos a criar com nossa negligência. Enquanto isso, o único deputado abertamente gay, defensor incansável dos nossos direitos, leva fogo amigo de muitas bibas todos os dias, talvez porque não encarne o figurino da barbie bombada que se veste em Miami. Nem temos mais uma revista gay bacana para um presidente ser capa...

VERÃO DA LATA

Num país decente, este caso já teria se resolvido e estaríamos falando de outra coisa. Mas estamos no Brasil, e Eduardo Cunha permanece na presidência da Câmara MAIS DE UM MÊS depois da revelação de suas contas na Suíça. De lá para cá, o nobre deputado tomou chuva de dólares falsos, foi alvo de passeatas e chamou a todos nós de idiotas, com as desculpas mais esfarrapadas de todos os tempos. Mas idiotas somos mesmo, porque ainda não pegamos em armas. O fato é que Cunha só não caiu ainda por causa do apoio do governo que ele tanto diz ser ruim. Dilma sabe que, se ele se sentir realmente acuado, não só vai deslanchar o impeachment como também abrir a boca. Um é refém do outro, e nós somos reféns de ambos. O processo de cassação do mandato de Cunha, se realmente for aberto pelo relator Fausto Pinato, pode se arrastar até meados do ano que vem. Enquanto isto, não se vota nenhuma pauta que realmente ajude a economia a sair do atoleiro. Vai ser um verão longo e cruel.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

FLA X FLU

Meu amigo Celso Dossi mandava muitas sugestões de post nos primeiros tempos deste blog. Eram tantas, mas TANTAS, que eu o convenci a ter seu próprio blog. Que fez o maior sucesso, até ele enjoar e, como muitos blogueiros, se bandear de vez para as redes sociais. Hoje o Celso tem muito mais seguidores do que eu no Twitter e no Facebook. E foi lá que ele postou o texto a seguir, que, sem pedir permissão (HAHAHAHAHAHAHAHA, como ele diria), eu roubartilho agora aqui:

"Instituto Lula recebeu 4 milhões da Odebrecht".
"Instituto FHC recebeu 975 mil da Odebrecht".
"Aécio cedeu avião de Minas a políticos e celebridades".
"PT e o o maior caso de corrupção da história".
"New York Times aponta Brasil como recordista mundial de corrupção".
"Aécio é citado diversas vezes na Lava-Jato".
"Manobra de Alckmin diminui número de homicídios registrados em SP".
"Alckmin é culpado pela falta de água, diz ONU".
"Ex-tesoureiro de Lula e Dilma recebeu R$ 400 mil em propina".
Não entendo gente que fica contra o PT "mas o PSDB é menos pior", e a favor do PT "mas o PSDB fez tudo igual".
O PT tem mais programas sociais do que o PSDB? Tem. Tirou milhões da miséria? Tirou e não podemos negar. Mas entrou no poder, pegou toda a podridão do PSDB (o PSDB é podre) e institucionalizou a corrupção. Roubou pra caralho, muito mais do que o PSDB, que já roubava pra caralho. Profissionalizou o roubo.
E não foi só isso. O PT tirou gente boa de cargos de confiança e enfiou gente despreparada, milhares e milhares de cabides de emprego. A grande mídia, que já era acostumada com a corrupção brasileira, pois fazia parte dela, arrepiou pois a grana e o poder foram parar em outras mãos. O PT foi um Robin Hood da roubalheira.
O que quero dizer é que o PT é uma desgraça, mas o PSDB também é. A maior prova de como quase todos políticos e partidos políticos brasileiros são iguais: Lula pedindo pro PT maneirar com Cunha por medo de impeachment, Aécio avisando que PSDB não assinará denúncia contra Cunha pro Conselho de Ética pra ver se o impeachment sai.
Ou seja, ambos querem a mesma coisa: grana e poder. Um quer permanecer, outro quer voltar. Políticos sempre tiveram vida boa e eles pretendem continuar assim. Mamata, propina, corrupção, regalias, isenções. O país em recessão e a Câmara votando (hoje) sobre criminalizar quem falar mal de pastor evangélico(!). Vocês tem noção que Cunha é um bandido da pior espécie (sim, agora vocês tem) e eles estão segurando o cara por causa de uma guerra de poder? Foda-se o povo. Foda-se o povo assaltado na rua, morto na lama de Mariana, perdendo emprego, sem água, com luz cara, com dengue e sem leito no hospital. Foda-se.
Daí eu olho nas redes e vejo todo mundo se matando: os anti-PT que ficam lendo Veja (aliás, o dono da Veja é um dos que tiveram avião de Minas liberado pelo Aécio), os pró-PT pixulequentos (os que não são, a minoria, me desculpe pela generalização) postando Diário do Centro do Mundo. Não votei na Marina, mas reconheço que ela estava certa quando disse "temos que sair dessa polarização".
Parem de transformar o país num Fla X Flu (a não ser que você ganhe pra isto) e aceitem que ninguém tá aí com você, não. Aécio é um bon vivant, Lula quer a trupe dele tenha a mesma vida boa. E nem vou entrar no mérito do PMDB, a pior desgraça de todas.
Eu sei que dói pensar que todos estão se lixando para você, mas só assim a política pode ser mudada. Falar que tal partido é menos pior, na situação em que nos encontramos, fica parecendo quem tem marido violento e fica arranjando desculpa pelas agressões.
Infelizmente, na tão falada polarização da Marina, ninguém se importa com a gente.

Para terminar, um comentário que eu fiz na página do Celso, onde muita gente se dizia "inocente" do imbroglio atual por ter votado na Luciana Genro ou em algum outro santo. Eu votei no Eduardo Jorge no primeiro turno e contra a Dilma no segundo, mas é ingênuo achar que o problema se resume ao presidente. Qualquer um que fosse eleito teria que negociar com o Congresso. E a solução vai além da mais que urgente reforma política: vão ser necessários alguns anos de educação e conscientização para que a qualidade do voto também melhore.

BURACO COM FUNDO


"Os 33" consegue emocionar mesmo com a gente farto de saber como acaba a história. O problema do filme é outro: é longo demais. Tudo bem que se quis passar ao espectador a sensação de passar meses confinado a quase um quilômetro abaixo da terra, e também a dúvida sobre o sucesso do resgate dos 33 mineiros aprisionados. Mas o roteiro se alonga à toa: cada nova técnica utilizada para perfurar a rocha fracassa na primeira tentativa, e são muitas essas técnicas. Também é esquisito ver atores anglófonos como Gabriel Byrne tendo que falar inglês com sotaque espanhol. Talvez isto explique porque "Os 33" está indo mal de bilheteria no Brasil, mas no resto da América Latina (especialmente no Chile) é um sucesso. Entre o novelão e o documentário, o filme carrega nas tintas, mas tem lá seus bons momentos.

domingo, 8 de novembro de 2015

ACUSADA DE MORTE


O caso da enferemeira Lucia de Boerk sacudiu a Holanda ao longo da década passada. Suspeita de matar bebês e velhinhos durante o turno da noite, ela foi condenada porque sua história de vida parecia mesmo a de uma assassina: rejeitada pela mãe, ex-prosituta, aspecto vulgar e, horror dos horrores, não devolvia livros para a biblioteca. Mas a mulher era inocente, e o filme "A Acusada" deixa isso claro desde o primeiro frame. O que é ruim para o espectador não-holandês que desconhece essa história. O suspense seria muito maior se não ficasse claro de que lado a personagem está. Mas acho que era essa mesma a intenção da diretora Paula van der Osten. Não faltam pessoas condenadas mundo afora só porque se encaixam com nossos modelos mentais do que seja um criminoso. "A Acusada" representou a Holanda no Oscar de filme estrangeiro do ano passado, e chegou à lista dos nove semi-finalistas. Não conseguiu a indicação, mas merece ser visto porquem gosta de tramas de tribunal. E a reflexão que propõe não é inédita, mas continua válida: cuidado com as aparências.

sábado, 7 de novembro de 2015

MON PÉCHÉ MIGNON


Eu adoro a Mylène Farmer, mas preciso admitir: ela é meio cafoninha. Essa cantora nascida no Canadá é uma das maiores popstars francesas, dessas de lotar estádio. Algumas de suas músicas vão estar na minha playlist até o fim dos tempos, como "Desenchantée". No entanto, seu som tem uma pegada inegavelmente brega, e ela própria tem cara de secretária de multinacional. O novo álbum saiu ontem, e está mais etéreo do que nunca. "Interstellaires" tem até dueto com Sting, outro que não é hip desde o tempo em que os bichos falavam. Mas fazer o quê? Mylène é meu péché mignon, meu guilty pleasure, meu pecadilho permitido. Estou ouvindo sem parar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

JOUT JOUT E BALANGANDANS

Tantos anos de colônia e autoritarismo imprimiram a censura no nosso DNA. Até brasileiros que nasceram depois da ditadura militar preferem calar a boca de quem discordam do que dialogar. Ao que consta, a recente guerrinha no Facebook começou na página da Dilma Bolada. Sem ter mais o que fazer, o humorista mais triste do Brasil convocou o que resta de seus seguidores para denunciar páginas realmente desagradáveis, como "Orgulho de Se Hétero". Só que a ferramenta da denúncia está ao alcance de todos, e logo começou um tiroteio que fez algums vítimas inocentes.Uma delas foi a Jout Jout, vlogueira-sensação que nem tem no Feice o principal veículo para suas ideias feministas. A página da moça já voltou ao ar e a maior rede social do mundo se viu obrigada a soltar uma loooonga explicação sobre os critérios e o processo pela qual ela exclui ou não os propagadores do ódio. É bom saber que não é preciso uma enxurrada de denúncias: uma só já basta para que a tal página ofensiva seja examinada. Mas o fato é que pululam racistas, homofóbicos e jihadistas no Facebook, enquanto que um simples cartum (nem precisa ser foto) de uma mulher com os peitos de fora pode causar a exclusão de quem o postou. Por outro lado, essas falhas primárias do FB me tranquilizam: desse jeito ele nunca vai dominar o mundo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

LATINOS À MOSTRA


A Mostra de Cinema de São Paulo acabou ontem, e nenhum dos quatro filmes deste post foi incluído na repescagem. Então não sei se este texto vai ser de alguma serventia para alguém, mas vamos lá. Todos esses longas têm origem latina e muitos prêmios no currículo. O primeiro da lista é "O Abraço da Serpente", que vai representar a Colômbia no próximo Oscar. Um dos meus sites favoritos o aponta como um dos favoritos, mas eu não achei tão empolgante assim. O roteiro se divide um duas épocas: no começo do século, quando um naturalista alemão se embrenha na selva guiado por dois índios, e uns 50 anos depois, quando outro cientista vem atrás dos passos do primeiro, guiado por um dos mesmos índios. Há sequências impressionantes, como a de uma missão comandada por um único padre que submete um bando de curumins a um regime atroz; a mesma missão reaparece ainda mais assustadora meio século mais tarde. Mas eu não me deixei envolver pelo ritmo lento, e tenho um pouco de preguiça daquele discurso de que os índios são perfeitos e os brancos sempre péssimos. Mas meu marido, que é chegado nestes assuntos selváticos, adorou.


Ele não gostou nada de "Desde Allá", o filme venezuelano que venceu o último Festival de Veneza. Muita gente reclamou do viés pró-América Latina do presidente do júri, o diretor mexicano Alfonso Cuarón, e eu tendo a concordar. Porque esse longa não chega a ser sensacional. A história do gay de meia idade que paga para rapazinhos tirarem a roupa diante dele é prejudicada pela montagem em ritmo lento, daquelas que começam uma cena muito antes que aconteça alguma coisa. O desfecho também é bastante amargo, na direção contrária do conceito de que "só o amor constrói". Mas não deixa de ser um retrato impiedoso dos muitos obstáculos que a homossexualidade enfrenta na nossa região. Muda a geração, muda a classe social, mudam até os problemas, e no entanto a barra continua pesadíssima.


Agora, chato mesmo é o guatemalteco "Ixcanul", que também está no páreo do Oscar para o melhor filme em língua estrangeira. Boa parte da crítica adora esse tipo de filme: planos longos, poucos diálogos, tramas primitivas. Só o fato dos personagens viverem hoje como se estivessem no Pleistoceno já basta para alguns caírem de joelhos, mas em mim não cola.  A protagonista é uma mocinha muito bonitinha que está prometida pelos pais a um viúvo, mas ela prefere se engraçar com um rapaz mais jovem. O filme é falado num dialeto maia e tem lá seu interesse antropológico. Mas para mim não serviu nem para lembrar das paisagens da Guatemala, onde eu estive em 2006.

O último filme que eu vi na Mostra também vem de um país latino, o mais isolado de todos: a Romênia. "Aferim!" se passa na região da Valáquia em 1835, mas a história é digna de um faroeste. Uma espécie de policial e seu filho saem em busca de um escravo cigano fugido, para trazê-lo de volta a um senhor de terras. A brutalidade casual é chocante, e que ninguém vá esperando um final redentor. Mas a fotografia em preto-e-branco e os enquadramentos clássicos dão uma atemporalidade ao filme: se eu estivesse zapeando e desse com ele em algum canal, iria achar que era antigo. "Aferim!" é o concorrente romeno ao Oscar, e não duvido que emplaque uma indicação. O título quer dizer "bravo!", e é isso mesmo o que merece o diretor Radu Jude.

SINAI DE ALERTA

Meu palpite: o avião que caiu sobre a península do Sinai se partiu sozinho. Em 2001, essa mesma aeronave deu uma bundada violenta ao aterrissar no aeroporto do Cairo. A cauda se quebrou. O avião foi remendado e depois vendido pela Middle East Airlines para a Metrojet, uma companhia russa de baixo custo. Aposto que a manutenção não é o forte dessa empresa... Um belo dia, o remendo se abriu. Mas essa hipótese está sendo veementemente rejeitada pela própria aerolinha, e até vai contra a imagem de eficiência que a Rússia gostaria de projetar para o resto do mundo. Por isto, os súditos de Vladimir Putin estão endossando que foi um atentado terrorista. Serve como desculpa perfeita para aumentarem os ataques na Síria, teoricamente contra o Estado Islâmico (e na verdade contra os rebeldes anti-Assad). O curioso é que ingleses e americanos agora também concordam com essa teoria. Mas o ISIS ou seus afiliados ainda não têm nenhum míssil capaz de derrubar um avião a 10 mil metros de altura, e é bastante improvável que uma bomba tenha sido levada a bordo por algum passageiro (quase todos russos, alguns ucranianos). Mas pelo jeito interessa às potências exagerar o poderio dos islamofascistas, para justificar uma guerra mais estruturada. Quem fica mal na foto é o Egito, que voltou a ser dominado por seus milicos. Um regime militar precisa garantir a segurança para se manter no poder. Não é o caso.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

RELATOR SELVAGEM

Momentos de suspense: quem será o relator do processo de cassação de Eduardo Cunha? O favorito das casas de apostas é o inexpressivo deputado Fausto Pinato, eleito pelo PRB paulista com apenas 22 mil votos (ele só entrou porque foi puxado pela votação colossal de Celso Russomano). A princípio fiquei desanimado com essa notícia, porque Pinato é evangélico e seu partido apoiou Cunha para a presidência da Câmara. Mas agora ele parece o melhorzinho dos três possíveis. Porque, além de ser o único advogado do trio, também está precisando dessa chance para tornar seu nome conhecido. Se engavetar o processo ou fizer corpo mole diante da montanha de provas contra Cunha, sua carreira volta para a vala comum. Além do mais, tudo o que fizer se refletirá em Russomano - que já aparece em primeiro na disputa pela prefeitura de São Paulo, mas não quer repetir os erros de 2012. Se um apadrinhado seu for marcado como conivente com a corrupção, isto pode lhe custar pontinhos preciosos numa corrida que promete ser acirrada. Mas tudo isso pode não passar de wishful thinking meu. E levando em conta a enxurrada de más notícias que o Brasil produz todo dia, deve ser mesmo.

OCORREU UM ERRO

Até cumprir a lei pode ser um pesadelo neste país. Perdi um tempão na semana passada tentando cadastrar minha empregada no eSocial, e mais algumas horas nesta semana tentando emitir a guia do DAE. O formulário era kafkiano: exigia dados que todo mundo traz no bolso, como os números dos recibos da entrega do imposto de renda dos últimos dois anos. E mesmo quem tivesse tudo na mão levava uma cara para completar o processo. Porque o sistema dava erro... e outro erro... e mais erro. Depois, outra epopeia, onde fui instado a lembrar de um código de acesso com apenas 12 algarismos, ou informar um ticket de erro com módicos 24 caracteres. Mas eu faço parte da casta dos patrões,  não é mesmo? Sou obrigatoriamente do mal, como provou po A + B o filme "Que Horas Ela Volta?". Portanto, tenho mais é que me foder. E me foderei: o total dos encargos devidos chega a mais de um terço do salário da minha empregada. Só não a mando embora porque, aos 45 anos e sem muita educação, ela vai ter bastante dificuldade para se recolocar na atual conjuntura. Mas aposto que muita gente vai preferir ter uma diarista duas vezes por semana. Parabéns ao governo, que vai gerar mais desemprego graças a essa taxação complicada e escorchante. Como disse o Elio Gaspari em sua coluna de hoje, essa trapalhada toda deriva da inépcia, da megalomania e do autoritarismo da presidente, para quem o Estado pode tudo e o cidadão contribuinte deve tudo. Sim, ocorreu um erro: elegê-la.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

JEAN-MICHEL DOS TECLADOS


Jean-Michel Jarre é um dos pioneiros do pop eletrônico, da época em que este gênero musical ainda era chamado de "progressivo". Seus discos dos anos 70 incluem clássicos como "Oxygene" e "Equinoxe", e eram apreciados por nossos ancestrais hippies para embalar viagens espaciais sem sair de casa. Entre outras façanhas, Jarre também foi casado por quase vinte anos com minha musa Charlotte Rampling. Mas de uns tempos para cá seu nome andava meio esquecido, depois que a eletrônica se imiscuiu em praticamente todos os estilos musicais. Agora ele reclama seu lugar central nessa história com o lançamento de um álbum com título pomposo: "Electronica 1 - The Time Machine". É uma espécie de "We Are the World" viajandão, e o mais legal é que Jarre viajou mesmo. Ao invés de trabalhar por e-mail, ele foi se encontrar pessoalmente com cada um dos convidados desse disco de duetos. A lista inclui luminares atuais como Moby, Del Naja (do Massive Attack), Armin Van Buren, Laurie Anderson, Vince Clark (fundador do Depeche Mode, do Yazoo e do Erasure), veteranos como o alemão Edgar Froese, do Tangerine Dream (que morreu logo após as gravações) e até gente distante do universo eletrônico, como Pete Townshend do The Who ou o pianista chinês Lang Lang. O resultado são faixas que misturam perfeitamente os estilos individuais com o som intergalático de Jarre. Tirando "If", a colaboração com a cantora inglesa Little Boots, não tem nada que possa tocar no rádio. Mas quem sobreviveu à década de 70 sabe que a música progressiva funciona melhor em formatos longos, com fones de ouvido e um certo desprendimento.

GRACE POUCA É BOBAGEM


Grace Kelly teve uma vida interessantíssima. Ótima atriz e dona de uma beleza aristocrática, fez carreira meteórica em Hollywood (dizem também que passou o rodo...). E aí, depois de apenas quatro anos de estrelato, largou o cinema para se casar com o príncipe Rainier de Mônaco. Também dizem que os dois viviam às turras, e que ela se enfastiava com os deveres da realeza. Mas jamais perdeu a pose em público: estava sempre esplendorosa nas revistas, e morreu num acidente de carro antes que a velhice a enfeiasse. Uma vida assim daria uma minissérie e tanto. Por enquanto, rendeu só um filme mais ou menos. "Grace de Mônaco" abriu o Festival de Cannes do ano passado e foi apedrejado pela crítica. Talvez porque se concentre num único momento da vida de Grace, e exagere ou invente bastante. O roteiro começa em 1962, quando sua Alteza Sereníssima é convidada por Hitchcock para estrelar "Marnie" (o que realmente aconteceu). Ao mesmo tempo, Mônaco está em crise com a França. O gigantesco vizinho (para os padrões do principado) está irritado com o fato dele ser paraíso fiscal, e ameaça invadir se o paisinho não começar a cobrar impostos. Mônaco, de fato, é uma aberração histórica: um feudo italiano que preservou sua independência e acabou rodeado pelos franceses. Não produz nem exporta nada. A solução para se manter como estado foi primeiro o jogo, depois a isenção de taxas, para atrair empresas e milionários. Mas o filme trata essa questão como se toda essa gandaia fosse uma causa nobre, e faz de Grace uma heroína da liberdade. Ainda cria um espião a serviço de De Gaulle dentro do próprio palácio, o que não tem o endosso dos historiadores. Pelo menos Nicole Kidman está perfeita no papel, e não faltam cenários luxuosos para encher os olhos. Mas a intriga política, além de fake, é desinteressante. Melhor esperar pela minissérie.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

HAKA!

Aqui no Brasil somos treinados a acreditar que o único esporte realmente globalizado é o futebol. Mas quando estive na Europa há algumas semanas fiquei espantado com a mobilização das pessoas em torno da Copa do Mundo de Rúgbi. Até nossos vizinhos argentinos participaram, e chegaram às semi-finais. Azar nosso termos ficado de fora. Perdemos, inclusive, a chance de inventar algo como a haka, a dança de guerra dos maioris que o time da Nova Zelândia faz no começo de cada partida. os "All Blacks" sagraram-se bicampeões na Copa, e comemoraram a vitória com outra haka. Valeu a pena gastar um tempo no treino ensaniando as coreôs: repare na cara de pânico dos australianos diante dessa explosão de testosterona. O mais legal é que, apesar da origem indígena, a haka foi adotada por todas as raças presentes no país. E mais legal ainda foi essa haka dançada ano passado, com os jogadores sem camisa e molhadinhos de chuva.

SULTAN ERDOGAN

Em 2013, pouco antes dos brasileiros fazerem o mesmo, os turcos foram às ruas protestar contra o governo. Quer dizer, "os turcos", não: agora está claro que foi só uma parcela da população. Porque o principal alvo das manifestações, o ex-primeiro-ministro e atual presidente Recep Tayip Erdogan, acaba de ganhar de lavada uma eleição que lhe dará ainda mais poderes. E isto depois de ter conseguido apenas 40% num pleito em junho, o que fez com que seu partido perdesse a maioria absoluta no parlamento. Erdogan foi maquiavélico: recusou-se a formar um governo de coalizão - o que, no parlamentarismo, leva à convocação de novas eleições. E aí foi chuchar os curdos com vara curta, para reavivar o medo que muitos turcos sentem dessa perseguida minoria étnica. A tática deu certo, e a Turquia - que fora dos grandes centros ainda é um país pobre e atrasado - mostrou que quer um chefão autoritário, que manda prender e manda soltar. Em outras palavras, um sultão. Erdogan já tirou do ar dois canais de TV na semana passada, construiu um palácio suntuoso para si mesmo e promete aprontar muito mais. É para desanimar qualquer um: tanto lá como cá, as manifestações de 2013 só serviram para consolidar quem já estava no poder.

domingo, 1 de novembro de 2015

LULA LÁ

Nunca votei no Lula. Mas não nego que o Brasil avançou muito durante seu governo, nem que ele seja um político extraordinariamente hábil. Sua biografia é impressionante, não importa o que se ache dele: de filho de retirante a líder operário a presidente de um dos maiores países do mundo, é uma saga e tanto. Mais importante do que isto era o mito construído ao seu redor, e que muita gente se esforçava para que entrasse para a história. Lula seria o redentor do Brasil. O novo pai dos pobres, ainda mais grandioso e altruísta que Getúlio Vargas (que, apesar de tudo, era oriundo da elite). Mas Getúlio não era santo, e pessoas bem informadas sempre souberam que Lula também não é. Até aí tudo bem, porque ninguém é. Mas mesmo o escândalo do mensalão podia ser justificado como um mal necessário para um bem maior. Os paralmentares seriam comprados para votar nas pautas progressistas do governo, cujos integrantes não tirariam nenhum proveito pessoal. Aos poucos fomos descobrindo que não era bem assim, e que até o idealista José Dirceu aproveitou para levar uns milhõezinhos. Mas Lula pairava acima de tudo, tão intocável que diziam ser revestido de Teflon. Nada grudava nele. Aí vieram as manifestações de 2013, e descobriu-se que nem ele nem Dilma eram tão queridos assim. Seguiram-se as amargas eleições de 2014, e a crise econômica e política que campeia neste ano. Lula virou alvo, e eu não duvido que exista mesmo uma conspiração para, se não levá-lo à cadeia, pelo menos para enterrar sua carreira e sua imagem. Só que o fato de haver uma conspiração não implica nele ser inocente. Os indícios que vêm surgindo nos últimos dias são grandes demais, e o entorno do ex-presidente - da filharada com empregos obscuros à "amiga" Rosinery Noronha - parece se refestelar num mar de privilégios e histórias mal contadas. Juro, vou ficar triste se for provado que Lula era mesmo o chefe de uma quadrilha. O Brasil não merecia isto. O que não quer dizer que eu defenda sua impunibilidade: a PF tem mais é que investigar, e que todos os culpados sofram as consequências previstas na lei. Só espero que o país resista a mais esse baque.