quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A LASCA

Eu demorei a reconhecer Londres numa das imagens da abertura da série "Sense8". OK, a Tower Bridge estava lá, mas o que era aquela trolha gigantesca ao lado da ponte? Ando tão apatetado que não sabia da existência do The Shard, que foi inaugurado em 2102 e é o prédio mais alto da cidade. Tive até a manha de não percebê-lo no ano passado, quando passei um dia e meio na capital britânica. Mas dessa vez não tive dúvidas: aproveitei um tempinho livre no meu primeiro dia aqui e fui subir no catatau. O nome quer dizer literalmente "o caco de vidro", e é como se os proprietários quisessem oficializar o apelido que o troço fatalmente ganharia (outros edifícios modernos em Londres são conhecidos como "o pepino", "o walkie talkie" e "o ralador de queijo"). E nos números esse menir nem é tão grande assim: são 72 andares, o que fazem dele a quarta construção mais alta da Europa e apenas a 92a. do mundo. Mas ele se destaca na paisagem londrina, que ainda é composta por prédios baixos. Subir até o topo custou a bagatela de 30 libras, algo como 180 reais - este sim, o elevador mais caro de todos os tempos. A vista, é óbvio, é de tirar o fôlego. Mas o que mais me impressionou foi mesmo a arquitetura de Renzo Piano. A "lasca" incorpora escritórios e um hotel, e tem cara daqueles edifícios do "Blade Runner". Ainda não sei se gosto dele no contexto da cidade, mas adorei subir ao "The View" e tirar muitas fotos. E olha que eu me borro de medo de altura.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

PLEBEIA POR UMA NOITE


Gosto de assistir a bordo algum filme que tenha a ver com o lugar para onde estou indo, para já ir entrando no clima. E não tinha nada mais british no cardápio do meu voo do que "A Royal Night Out", uma fantasia com um pezinho nos fatos reais que vai agradar a quem gosta de "Downton Abbey". A premissa do filme é bastante simples, mas provavelmente seria proibida no Brasil. Pois ficcionaliza um momento da vida de ninguém menos que a pessoa mais importante da Inglaterra: a rainha. A trama se passa na noite de 8 de maio de 1945, o chamado "V E Day": o dia da vitória dos Aliados na Europa. As princesas Elizabeth e Margaret, exaustas por terem passado a adolescência toda trancadas e/ou trabalhando no esforço de guerra, estão loucas por uma baladinha. Insistem muito e o pai autoriza (o rei George é feito por Rupert Everett, veja a que ponto chegamos). As duas vão para uma recepção esnobérrima no hotel Ritz, mas claro que a doidivanas da Margaret dá um jeito de fugir com uma turma bem animada para outra festa. Elizabeth, perdida, vai atrás da irmã - e acaba entrando num ônibus sem saber para onde ele vai e sem dinheiro para a passagem. O que se passa depois é um delírio total, pois na vida real as princesas estavam de volta ao palácio à uma hora da manhã. Mas não há nada de insultante, pelo contrário. O filme acaba servindo quase como propaganda para a casa de Windsor, pois enfatiza que eles são "gente como a gente". Não são, claro, mas um dos segredos do sucesso de Elizabeth II é sua habilidade de parecer uma dona de casa comum usando uma coroa.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A MOÇA DO SALÃO DO AUTOMÓVEL

Hoje eu embarco para Londres. Vou ter uma série de reuniões na matriz da produtora onde eu trabalho. Depois, no fim de semana que vem, me mando para Cannes, onde vou ter mais trabalho ainda. Sou delegado do MIPCOM, a maior feira de televisão do mundo. Já estive lá uma vez e posso garantir: é uma loucura. Tem gente do mundo inteiro, programas incríveis e outros um tanto bizarros. Mas dessa vez não vou circular tanto. Minha principal missão será ficar no stand da produtora recebendo os clientes, mostrando o nosso imenso catálogo. Meio como aquelas moças do Salão do Automóvel, que fazem pose na frente dos carrões.

A PEÇA ERA MELHOR


O problema de gostar muito de uma peça e depois ver o filme é que a gente sempre se decepciona. Isto aconteceu comigo com "O Deus da Carnificina" e agora acontece de novo com "A Pele de Vênus". Os dois filmes foram dirigidos por Roman Polanski, que está se especializando no gênero (antes ele também já havia rodado outro marco do teatro contemporâneo, "A Morte e a Donzela"). E ambos me deixaram meio assim, apesar dos textos originais estarem lá, na íntegra. Mas não tem os atores em carne e osso, nem aquela sensação de perigo que o teatro ao vivo oferece. "A Pele de Vênus" foi montada no Brasil com um título mais próximo ao original (e ao livro de Sacher-Masoch), "A Vênus de Visom", dirigido por Hector Babenco e estrelado por Bárbara Paz. Vi no ano passado e adorei. O filme foi lançado no exterior há dois anos, e não sei porque demorou tanto para chegar ao Brasil. Quem não conhecia antes vai gostar. Toda a ação se passa dentro de um teatro, onde uma atriz vulgar e folgada vem fazer um teste para um diretor que já estava de saída. Durante o embate que se segue ela se revela espertíssima e ele cai feito uma mosca na teia de sedução armada pela moça. Os papéis da peça se misturam com os da vida real, e depois se invertem, num jogo de reflexos que lembra o espelho que Vênus costuma empunhar nas pinturas renascentistas. Mas eu achei chato em alguns momentos. Faltou a eletricidade do palco, com elenco em 3D.

domingo, 27 de setembro de 2015

PORQUE ESTÁ LÁ


É assim que os alpinistas de "Everest" respondem quando lhes perguntam por que querem escalar a montanha mais alta do mundo. A minha primeira reação - aposto que a mesma de muita gente - é achar uma bobagem. De fato, eu jamais arriscaria a minha vida só por causa disso. Sem dizer que um pacote de ida e volta, com direito a guia, custa a bagatela de 62 mil dólares. Mas depois, assistindo ao filme, lembrei das duas vezes em que me propus subir até o topo de uma montanha ("escalar" é um termo um pouco forte para mim, a pessoa menos esportista do mundo). Uma delas foi no parque Torres del Paine, no extremo sul do Chile; OK, não cheguei até o topo, mas sim à base dos pilares de pedra que dão nome ao lugar. Foi uma jornada de dia inteiro que me deixou tão cansado e "exhilarated" qu,e naquela noite, cantei "We Are The Champions" no bar do hotel. A segunda foi ainda mais dramática: subi ao cume do monte Machu Picchu, no Peru, com direito a espremida numa trilha onde só cabia meia lhama de cada vez. Portanto, pelo menos um cromossomo do meu DNA se identifica com a necessidade que esses malucos têm de se superar. Mesmo assim, o filme deixa patente a irresponsabilidade coletiva. É baseado num fato real acontecido em 1996, quando os tours do gênero estavam no auge: até gente que nunca tinha subido um morro na vida estava querendo escalar o Everest. O resultado foi uma enorme tragédia, que têm pego alguns espectadores desprevenidos. "Everest" não é cinema "feelgood"; não tem vitória do bem sobre o mal. Mas é um puta espetáculo que merece ser visto em IMAX e 3D. Eu, que tenho medo de altura, quase passei mal em algumas cenas. Vá preparado: leve seu próprio oxigênio.

O FARISEU

Tenho horror ao circo armado em torno de Andressa Urach, mas acredito na sinceridade de sua conversão. E fiquei com pena dela ao ver como foi tratada por Hélio Costa, âncora de uma afiliada da Record em Florianópolis. Aposto que este sujeito se acha "cristão", mas é óbvio que não passa de um fariseu. Basta lembrar como Jesus tratava as prostitutas. Como trataria, então, uma ex-prostituta arrependida? Pode ser que o entrevero não passe de um esforço de marketing para promover o livro "Morri para Viver", e Costa já pediu desculpas a Andressa pelo Facebook. Mas apavorante mesmo são os comentários que o aplaudem.

sábado, 26 de setembro de 2015

UMA LÁGRIMA DO MEU OLHO ESQUERDO

Acabou o blog da Cleycianne. Thiago Pereira, o criador da personagem, decidiu matá-la. Mas acho que é só por enquanto: o título do último post é "até logo", não "adeus", e a diva do Senhor já avisou em seu perfil do Facebook que vai continuar por lá e no Twitter.   Lembro de seu blog ter entrado em hiato pelo menos outras duas vezes, portanto, nunca se sabe. Mesmo assim, rolou uma lágrima do meu olho esquerdo... Mas talvez ela já tivesse cumprido sua missão na Terra. Cley explodiu na internet em 2009, quando muita gente ainda achava que era pecado falar mal dos evanjegues. O texto era tão bem escrito que, na primeira vez que eu a li, também acreditei que era para valer. Mas era tudo piada, gentchy! Thiago passou a mão na bunda dos fundamentalistas, e fez com perdêssemos o medo deles. Ao longo desses anos, este bravo enfrentou várias ameaças de processo e até de violência física, mas não sei se sofreu alguma consequência. Acho que só das boas: graças à sua loura convertida, ele se tornou colunista de fofocas e um dos DJs mais requisitados do país. Agora vou orar para que a Cleycianne retorne algum dia. E tomara que volte tendo visto a luz. Torço para que ela reapareça bem putona, toda arreganhada, dando para todo mundo e falando palavrão.

BOEHNER BRASA

Não tenho a menor simpatia pelo Partido Republicano americano. Mas não deixo de admirar o gesto de grandeza de um de seus membros mais proeminentes, John Boehner, o presidente da Câmara de Deputados de lá. Ele não só renunciou a essa liderança como irá abandonar seu mandato em outubro. A data marcada tem uma boa razão de ser: nesse meio tempo Boehner irá trabalhar com os democratas para aprovar o orçamento do país. Caso contrário, o governo "fecha", como aconteceu no passado - todas as estatais param de funcionar, dos ministérios ao zoológico de Washington. Como seus correligionários são a favor do quanto pior, melhor, Boehner está sacrificando sua própria carreira política para evitar este desastre. Um exemplo e tanto para o PSDB, que tem votado sistematicamente contra todas boas que a Dilma vem propondo para a economia (e contra tudo aquilo que os próprios tucanos apoiaram no passado). É a turma do Aécio, que está se igualando aos partidos mais ralé nessa luta do "pudê" pelo "pudê". A exceção honrosa foi o deputado paulista Samuel Moreira, que ainda prefere um país que funcione minimamente do que um precipício.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

PMDBOLHA

Indescritível... indestrutível.. nada consegue pará-la! Esse era o slogan de um dos melhores filmes trash de todos os tempos, "A Bolha Assassina". Também cai como uma luva no PMDB, o partido que está prestes a abocanhar o governo federal. Pois é: enquanto tanta gente reclamava que Aecim estava tramando um golpe, as velhas raposas peemedebistas trabalharam no escuro e agora estão quase chegando lá. Com a diferença de que o PSDB chegou em segundo lugar na eleição do ano passado, muito próximo do primeiro. Já o PMDB nem lançou candidato próprio. Isso sim é golpe, pois eu duvido que o partido de Renan Calheiros e Eduardo Cunha vá precisar de muita ajuda dos tucanos para se consolidar no poder. Tanto que estão se dando ao luxo de recusar até o bilionário ministério da Saúde, tendo em vista um prêmio ainda maior. A bolha se esparrama pelo Brasil e atrai aproveitadores para seus tentáculos gelatinosos. Hoje senti engulhos ao ler na Folha o artigo de Marta Suplicy, que se regozija por ser fagocitada por esta ameba gigante. Pelo menos o Alessandro Molon, um dos deputados mais decentes do país, fez jus à fama e deixou o PT pela Rede.

AINDA BEM QUE TEM O JACK

Anjelica Huston é um caso curioso. Apesar de ter nascido numa família ligada ao cinema, ela demorou para engatar sua carreira de atriz. Aí ganhou um Oscar por um de seus primeiros filmes e entrou na moda. Durante uma década e meia, Anjelica trabalhou com diretores do calibre de Francis F. Coppola e Woody Allen. Estrelou grandes sucessos como "A Família Addams" e ainda conseguiu mais duas indicações ao prêmio da Academia. E então... praticamente sumiu dos radares. Seu último papel de algum destaque foi na televisão, na finada série "Smash". Na telona, nem lembro mais de quando a vi pela última vez. Este sumiço se deve em parte à sua vida pessoal: ela passou um bom tempo cuidando do marido doente, que acabou falecendo. E também, é claro, à escassez de bons personagens em Hollywood para as mulheres mais velhas. Para piorar, Anjelica embarangou legal nos últimos anos - e isso depois de ter sido uma das top models mais requisitadas dos anos 1970. Mas ainda bem que ela descobriu uma nova carreira como escritora. Seu texto (que é dela mesma, sem ghost-writers) é leve e coloquial, e suas lembranças mais distantes ganham vida em seus livros de memórias. Li o primeiro volume, "A Story Lately Told", no começo do ano passado, e me encantei com sua infância de conto de fadas. Agora estou no meio do segundo, "Watch Me", cujo filé mignon é o tumultuado romance com Jack Nicholson. Anjelica sofreu feito mulher de malandro na mão do ator, mas aguentou quase vinte anos ao lado dele (com muitas idas e vindas, é verdade). Não há nenhuma revelação bombástica,  mas ela - que ainda tem uma figura imponente e até um pouco assustadora - surge das páginas como uma pessoa inteira, de carne, osso e lágrimas. Mesmo com berço de ouro e todas as oportunidades do mundo, Anjelica passou por poucas e boas (como todos nós, aliás). Mas continua interessante, o que não é pouco.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

FAMÍLIA ÊH, FAMÍLIA AH

O governo federal é um desastre, mas o Congresso consegue ser ainda pior. Uma comissão especial da Câmara de Deputados aprovou hoje a definição de família como sendo exclusivamente o resultado da união de um homem com uma mulher. Ou seja: aquela enquetinha que rolou durante mais de um ano e meio e que acabou sendo vencida pelo lado do bem acabou não servindo para porra nenhuma. A sessão foi tumultuada, com deputados fundamentalistas dizendo que representavam a "vontade da maioria" - aquela definição primitiva de democracia, que só valeu na Grécia antiga. Não duvido nada que, se posto em votação, um projeto de lei que entronize essa barbaridade seja aprovado com louvor. Resta o veto da Dilma, que ultimamente vem abusando desse poder presidencial - será que ela vai gastar munição só para proteger os LGBT? Duvido, além do mais se levarmos em conta que ela e o PT nos rifaram TODAS as vezes que precisaram fazer uma barganhinha política. Mas o que pode barrar o despautério é, mais uma vez, o STF. Nossos juízes estão longe de ser perfeitos, mas, nesse momento de escuridão, o Supremo virou um farol.

CHUVA DE PRATA QUE CAI SEM PARAR

Tive um compromisso na noite de terça e perdi o capítulo de "Verdades Secretas". Ontem me senti desembarcando de Marte: parecia que a humanidade só tinha dois assuntos, o estupro de Larissa e o "golden shower" dado por Anthony em Maurice Argent. Foi realmente muita coisa para um episódio só, que, como se não bastasse, ainda teve uma morte a facadas. Claro que consegui ver tudo na internet, e hoje minha coluna no F5 faz um balanço final da novela. Que foi divertida, exasperante e, de certo modo, caretérrima. Porque praticamente todo mundo é punido, por causa dos "tóchicos" ou da fornicação. Walcyr Carrasco conseguiu enfiar até um discurso anti-aborto na boca dos personagens, uma de suas causas prediletas. Isso não diminuiu o prazer que sentimos vendo o castigo de quem está fazendo o que gostaríamos de fazer, mas não temos coragem.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

CAI, CAI, REAL

Vou para a Europa na semana que vem. Eu deveria estar dando pulos de alegria, e estou. Mas também estou com medo de comprar um alfinete e estourar o cartão de crédito. Medo não, pânico: tenho a sensação de que o dólar vai estar a 5 reais na segunda-feira, o euro a 10 e a libra a 200. E olha que estou indo a trabalho, com passagem, hotel, traslados e refeições pagas. Mas não quero passar nem perto da nova coleção de alfinetes do Paul Smith.

ÊÊÊ, PUXA BEM DEVAGAR

O arrastão não é novidade nas praias do Rio de Janeiro, mas dessa vez tenho medo que o estrago seja maior. Já tem lutador de jiu-jitsu se organizando em bandos para pegar de pau os ladrões; se os roubos na praia continuarem neste fim de semana, aposto que teremos a foto de um jovem negro morto a pauladas nos jornais de segunda-feira. Sou totalmente contra esse tipo de justiça com as próprias mãos, é claro, mas a ineficácia da polícia em coibir esses crimes é notória. E nem tem como prevenir: a ultra-polêmica proposta para retirar rapazes "suspeitos" de dentro dos ônibus rumo à zona Sul não tem amparo legal, e foi criticada por todas as ONGs. Por outro lado, sempre desconfio de armação quando acontece esse tipo de coisa - algum político está por trás desses ataques, para atingir um outro político. Meu suspeito favorito é um certo ex-governador, mas não tenho provas. Enquanto isso, ir à praia tornou-se uma atividade de altíssimo risco. Mais perigosa que um esporte radical. E isso a menos de um ano das Olimpíadas, quando o Rio vai estar na mira do mundo inteiro...

terça-feira, 22 de setembro de 2015

CABEÇA DE PORCO

Não tem nada mais caipira do que esse escândalo do "PigGate" que engolfa a Grã-Bretanha neste semana. Só gente jeca (para não dizer recalcada) que se horroriza com o fato do primeiro-ministro David Cameron, em seus tempos de faculdade, ter feito sexo oral com a cabeça de um porco morto. Sim, isto mesmo que você leu: era o ritual de iniciação para um clube de alunos em Oxford. Grande coisa para um país em cujas escolas rola a maior putaria, especialmente entre rapazes. Pelo menos Cameron não machucou ninguém (talvez só a si mesmo). Bem melhor que os trotes mortais que rolam entre os calouros brasileiros.

REBELDE COM CAUSA


Paira uma maldição sobre os filmes que abrem o Festival de Cannes. Apesar de estarem competindo, eles nunca ganham nada - só críticas negativas. Foi o que aconteceu com "Ensaio sobre a Cegueira", de Fernando Meirelles, ou "Grace de Mônaco" no ano passado. Este ano a praga amainou um pouco: "De Cabeça Erguida" foi bem recebido, mais nada. E não era mesmo para mais. O filme da diretora francesa Emmanuelle Bercot é bem feitinho, ponto. Fala de um delinquente juvenil, filho de uma mãe desajustada e que passa a vida pulando de reformatório em reformatório. Lembra um pouco o "Mommy" de Xavier Dolan, mas a diferença é que lá o diretor também é um rebelde com causa. Aqui viceja um olhar paternalista, e uma visão otimista que não tem muito reflexo na realidade. Por isto mesmo, suspeito que "De Cabeça Erguida" será esquecido em pouco tempo. Como quase todos os outros filmes que tivera a dúbia honra de abrir Cannes.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

SHAME! SHAME! SHAME!

Fiquei satisfeito com o resultado dos Emmys, como disse na minha coluna de hoje no F5. A única coisa que realmente me deixou puto foi a derrota de Lena Headey (a Cersei de "Game of Thrones") na categoria de melhor atriz coadjuvante em série dramática. Ela provavelmente não terá outra chance tão boa: vai ser difícil superar a "Caminhada da Vergonha". Mas a Academia da Televisão preferiu premiar de novo Uzo Aduba, que nem estava tão bem assim na 2a. temporada de "Orange is The New Black". Queriam fazer história: Uzo agora é a única atriz a vencer em drama e comédia pelo mesmo papel, na mesma série. Mesmo assim, como diria a freira má: que vergonha a Cersei não ganhar! Vergonha! Vergonha!

DILMA R.

Um eventual impeachment da Dilma vai ser infernal. O processo promete ser demorado e doloroso. Muita gente está contra a presidente, mas não há no ar o mesmo clima que havia contra Collor. Ela poderia poupar o país desse trauma se renunciasse, mas duvido. Dilma acha que está certíssima, sempre esteve, mesmo com a economia desmoronando e a base política indo para o ralo. Errados são os outros. Ela reluta até mesmo em se livrar do Mercadante, que embolou seu meio de campo como nem a oposição conseguiu. Fora que tem fome de poder, tanto que mentiu à pampa para ser reeleita. Mas então, qual é a solução para o impasse? Hmm, que tal um golpe branco? Forçada por todo mundo - inclusive por Lula e o PT - Dilma indicaria um super ministro da Casa Civil, na prática um primeiro-ministro que governaria de fato. E se recolheria a uma função estritamente cerimonial, como a rainha da Inglaterra. Iria a inaugurações, acenaria para o povo, faria discuros para a mandioca. Mas nunca mais daria um pio sobre a condução da política ou da economia, já que deu sobejas provas de que não entende picas nem de uma e nem da outra. Seria uma saída honrosa para um mandato equivocado e um paliativo para o país. Só que tem um probleminha: quem seria esse primeiro-ministro? Fuén fuén fuén, não tem. Nem para rainha a Dilma serve.

domingo, 20 de setembro de 2015

BLOCKBUSTER PARA INICIADOS


Preste atenção em Elizabeth Debicki. Essa atriz australiana despontou há dois anos na versão de Baz Luhrmann de "O Grande Gatsby". Ela fazia a socialite Jordan Baker, que tem a melhor fala do filme: "I like large parties. They're so intimate. At small parties there isn't any privacy." Agora ela é a melhor coisa de "O Agente da U.N.C.L.E.", dirigido por Guy Ritchie (o ex-sr. Madonna). Elizabeth interpreta uma vilã glamurosa que quer dominar o mundo, o tipo de coisa que só existe na mais alucinada espionagem ficcional. "O Agente da U.N.C.L.E.", asim como "Missão Impossível", é baseado numa série de TV dos anos 60. Mas, ao contrário da franquia estrelada por Tom Cruise, não foi atualizado para os dias de hoje, e isso é ótimo. A trama continua se passando na época da Guerra Fria, juntando um gente americano e outro soviético (com os icônicos nomes de Napoleon Solo e Ilya Kuryakin) contra inimigos comuns. Nos papéis principais estão Henry Cavill e Armie Hammer. O primeiro é o mais recente Super-Homem e, apesar de ser lindo de morrer, tem o carisma e a expressividade de um boneco dos "Thunderbirds". O outro, que a gente já viu em "A Rede Social" e "Espelho, Espelho Meu", também é bonitaço, e ganhou um papel melhor: o de um espião que não consegue controlar seu pavio curto. Com edição impecável e trilha sonora que inclui até um samba futurista de Tom Zé, o filme é uma espécie de blockbuster cult, só para iniciados. Eu sou um deles, e me diverti muito.

sábado, 19 de setembro de 2015

I'VE GOTTA BE COOL, RELAX

Fiquei sabendo em cima da hora que o Queen + Adam Lambert iria tocar em São Paulo dois dias antes do Rock in Rio. Os ingressos começaram a ser vendidos em maio e se esgotaram rapidamente, e eu nem percebi. Perdi a chance de conferir em carne e osso a nova encarnação da banda que eu mais amei na vida. Dessa vez eu até estava a fim - diferentemente de 2008, quando Roger Taylor e Brian May vieram ao Brasil acompanhados por Paul Rodgers. O ex-vocalista do Bad Company tem um vozeirão, mas zero da atitude camp de Freddie Mercury. Os remanescentes do grupo perceberam isso e, para mais uma turnê mundial, recrutaram Adam Lambert, a quem tinham conhecido durante o "American Idol" de 2009. Vi algumas coisas deles na internet e não achei horrível, mas comi bola. E acabei vendo o show pelo Multishow na madrugada de ontem para hoje, na companhia de dezenas de amigos nas redes sociais. Acho que me diverti mais do que se tivesse visto ao vivo (e ainda economizei 600 reais, fora o táxi).
Adam é ótimo, mas não é Freddie. Ninguém seria. Outros nomes possíveis para essas substituição temporária seriam George Michael (meu favorito), Robbie Williams e Mika (mas este, só nas músicas calmas). A voz de Adam alcança os agudos necessários, e sua bichice incontrolável também combina com o repertório. Saiu-se especialmente em "Crazy Little Thing Called Love", onde o próprio Freddie imitava um pouco o Elvis. Mas ele tem algo de mulherzinha que incomodou a mim, fã ortodoxo. Freddie também era uma bicha louca, mas era macho. E isto não tem nada a ver com sexualidade, se é que me faço entender. De qualquer forma, o show foi bem bacana. E bem óbvio: só os hits mais conhecidos com os arranjos de sempre, porque é disso que o povo gosta. Incrível perceber o poder dessas músicas, que agora hipnotizam uma geração que nem era nascida quando Freddie morreu. O show de Porto Alegre, dia 21, talvez seja a última vez na vida que Roger e Brian toquem sob a marca Queen no Brasil (depois ainda seguem para Buenos Aires e Santiago). Então, para quem nunca viu, resta uma derradeira chance. Eu tive a graça de ver o original, no Morumbi em 1981 e no primeiro Rock in Rio, em 1985. Isso ninguém me tira.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

JURÍDICAS NÃO SÃO GENTE

Deveria ser óbvio que o financiamento de campanhas políticas por pessoas jurídicas é absurdo e criminoso. Nenhuma empresa financia um candidato porque acredita nas ideias dele, e mesmo se acreditasse: bitch, please! Além do mais, as campanhas ficarão mais baratas e monstrengos como Eduardo Cunha terão muito mais dificuldade para se reeleger. "Ah, mas vai aumentar o caixa dois". Vai, mas talvez seja mais fácil identificá-lo: quem lançar um comercial megaproduzido  deixará explícito que tem maracutaia ali. Pelo menos vai acabar essa chorumela de que "as doações foram todas dentro da lei" - nhénhénhé, não serão mais.

GIVE ME ONE IN EVERY COLOR

Já está disponível nos Estados Unidos essa versão de Doritos com as cores da bandeira LGBT. Só dá para comprar online e cada pacote custa pelo menos 10 dólares - na verdade o freguês pode pagar o quanto quiser acima disto. O lucro vai todo para a ONG It Gets Better, que ajuda vítimas de bullying. Também é bem bacana o slogan da campanha: "There's nothing bolder than being yourself" (não tem nada mais corajoso do que ser você mesmo). O curioso é que esta assinatura é EXATAMENTE o oposto do conceito por trás do infame comercial que o salgadinho veiculou no Brasil em 2009. O filme, que causou polêmica e chegou a ser denunciado pelo próprio Conar, mostrava um garoto dançando ao som de "YMCA", só para ganhar olhares desaprovadores. E aí entrava um locutor dizendo: "Quer dividir alguma coisa com os amigos? Divide um Doritos". Na época a agência e a marca juraram de pés juntos que não, imagina, não somos homofóbicas, temos até amigos gays. Não colou, e mesmo assim o comercial não foi tirado do ar. Hoje em dia talvez a história fosse outra, haja vista o quiproquó enfrentado pelo creme dental Close-Up. Agora ficou bem mais fácil ter coragem para ser gay. Mas, cadê a coragem para comer Doritos azuis?

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

VERBETES TARDIOS


"Pequeno Dicionário Amoroso" foi um marco no cinema brasileiro. Lançado em janeiro de 1997, ainda na época da retomada da produção nacional, surpreendeu na bilheteria. E acabou gerando uma onda que durou alguns anos: a "comédia de verão", romântica e despretensiosa. Mas, apesar do sucesso, só agora ganhou continuação. O que por um lado é bom sinal, pois não é só a ganância o que move os produtores: também é a existência de algo mais a dizer. Por outro lado, passou-se tempo demais. 17 anos depois, eu só lembro que o casal formado por Andrea Beltrão e Daniel Dantas terminava separado porém feliz - cada um com seu novo par, e a vida continua. Agora ficamos sabendo que não foi bem assim. Ambos estão saindo de relacionamentos fracassados, e claro que se reencontram. Enquanto isto, a filha dele experimenta com a bissexualidade e o poliamor. A estrutura em vinhetas curtas, cada uma baseada numa palavra em ordem alfabética, permanece funcionando. Também se mantém intacta a química entre os protagonistas. Mas... alguma coisa se quebrou. Além de uns probleminhas de ritmo, "Pequeno Dicionário Amoroso 2" traz uma mensagem que se pretende esperançosa, que no entanto me pareceu justamente o contrário. Saí do cinema mais deprê do que entrei, e aposto que não era esse o objetivo dos responsáveis pelo projeto.

BAFO DE ONÇA

Ah, as delícias de ser um marqueteiro moderno no Brasil. O creme dental Close-Up (para quem eu já trabalhei em priscas eras) sempre usou o beijo em sua comunicação, pois sua promessa básica é o hálito puro. Nesses tempos de mídias sociais, alguém teve a brilhante ideia de fazer uma açãozinha no Instagram, postando fotos de casais se beijando. Fotos para lá de pudicas, aliás: nada de línguas se roçando, nem de qualquer sinal de paixão. Até aí tudo bem, porque as bocas precisam aparecer semi-abertas de modo a denotar que ninguém está com bafo de onça. Como estamos em 2015, uma das fotos publicadas trazia dois rapazes. Mas como também estamos em 10.000 a. C., um punhado de boçais expeliu um punhado de comentários homofóbicos - recheados, é claro, de erros crassos de português.

E aí, o que foi que a marca fez? Removeu a foto do Instagram. Não teve o culhão de O Boticário. Provou, por A + B, que de moderna não tem porra nenhuma. E atirou no próprio pé: a reação a essa cagada está sendo intensa, e a imagem de Close-Up pode ficar seriamente prejudicada justamente entre o público prafrentex que eles pretendiam atingir. Tomara, mas, para isso acontecer mesmo, não podemos ficar calados. Sugiro que todo mundo entre na página deles no Facebook, no perfil do Twitter ou na própria conta do Instagram, e manifeste seu desagrado. Close-Up não sabe brincar, portanto nem deveria ter descido pro play. E seu bafo de homofobia é podre e repugnante. Volta pra Idade da Pedra, que naquela época ninguém escovava os dentes.


ATUALIZAÇÃO: Já deu certo. A Close-Up não só colocou a foto de volta no Instagram, como incluiu fotos de beijo a três, interracial, etc. Ah, mais uma vitória do bem contra o mal.

ATUALIZAÇÃO 2: Os responsáveis pelas redes sociais de Close-Uo entraram em contato comigo e com outros sites que repercurtiram este caso para esclarecer que a foto dos rapazes se beijando foi publicada primeiro como post patrocinado no Instagram (daqueles que aparecem na sua timeline sem você precisar seguir a marca) e só depois incluída no perfil oficial do creme dental. Foi este intervalo de tempo que, segundo eles, gerou a sensaçnao em muita gente de que a marca havia apagado a foto por causa dos comentários homofóbicos. Acredito,  mas também falei para eles melhorarem essa estratégia de postagem. O público gay é MUITO sensível a qualquer coisa que cheire a discriminação. A gente magoa fácil e não perdoa. De qualquer forma, é ótimo saber que Close-Up sempre esteve oficialmente do lado dos LGBT.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

MUITO BEM TEMPERADO

Um dos sinais do sucesso inequívoco é ser satirizado. A temporada do "Master Chef" que terminou na madrugada de ontem para hoje (ou ainda não, segundo o Sensacionalista) não só bateu recordes de audiência como ganhou esse vídeo do Porta dos Fundos, um dos melhores do grupo em algum tempo. Eparrêi Iansã!

TOUJOURS CHARLIE

Desde o atentado de janeiro, tudo o que o "Charlie Hebdo" publica é revisado com lupa pela internet. Cartuns que outrora passariam batido agora causam escândalo nas redes sociais, entre gente desabituada com a pegada agressiva do jornal e que não sabe interpretar o que está vendo. A bola da vez são essas duas charges. Numa delas, a mais polêmica, o corpinho do menino Aylan aparece ao lado de um cartaz do McDonald's, sob o título "Tão Perto do Objetivo". Claro que eu entendo que é delicadíssimo usar o garoto para fazer troça, mesmo que o alvo não seja ele (para quem ainda não entendeu: o alvo é a sociedade de consumo). Mas pessoalmente eu nem achei muita graça, pois é cerca de um bilhão de vezes melhor morar num país com promoções de fast-food do que em outro devastado pela guerra. Bem mais engraçada é a outra charge, que mostra Jesus (simbolizando não ele, mas os supostos cristãos) caminhando sobre as águas enquanto que um garoto muçulmano se afoga. Aqui a "vítima" é a xenofobia dos países que não querem ter sua cultura cristã de araque ser contaminada pelos infiéis. Mesmo assim, já surgiu na internet um movimento #JeNeSuisPasCharlie". Não vou aderir. Embora eu ache algumas piadas pesadas e outras sem graça nenhuma, continuo Charlie.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

LINGUAGEM DE SINAIS

O Facebook anunciou hoje que finalmente vai lançar o botão de "dislike", uma antiga reivindicação dos internautas. Já tem muita gente prevendo o Armageddon, e claro que a chance de se entrar em brigas de foice com estranhos aumentaram muito. Pois eu já acho que esse botão chegou tarde, e que ainda faltam muitos. Por exemplo, como reagir quando alguém comunica que a mãe morreu? Dar "like" parece gozação, dar "dislike" parece grosseria. E ainda faltam os botões de "não tô nem aí", "dobre a língua, rapazinho", "vá se fuder de verde e amarelo", "fora Dilma", "fica Jiang" e tantos, tantos outros. Por isto mesmo, ainda bem que eu sei escrever.

ESQUENTA

"Que Horas Ela Volta" estreou relativamente mal. Mesmo com críticas favoráveis, o filme de Anna Muylaert fez apenas 66 mil espectadores nas duas primeiras semanas em cartaz. É muito pouco para um título da Globo Filmes, com direito a comerciais no horário nobre da maior emissora do país. O descompasso entre expectativa e realidade foi tão grande que o crítico Inácio Araújo escreveu um artigo comentando o esforço de marketing (ou a falta de) que envolveu este lançamento. Minha opinião pessoal: para começar, o título brasileiro é ruim. Além de conter um errinho de português (o certo seria "a que horas...", mas vá lá), ele não quer dizer nada. Muito melhor é o nome internacional, "A Segunda Mãe" (que ficaria mais sutil e intrigante como "A Outra Mãe). Parece bobagem, mas um título fraco pode arruinar a carreira de qualquer obra. Mas mais importante é a maneira como os patrões são retratados na tela. Os personagens são inconsistentes, beirando o caricato, e os atores foram muito mal escolhidos. Conheço muita gente que se sentiu incomodada com o que viu, pois parece que aqueles dois idiotas representam todos os patrões do país. O mesmo Inácio Araújo voltou ao assunto em mais uma coluna, e eu concordo em tudo com ele. Os produtores parecem ter esquecido que quem compra ingresso de cinema no Brasil é da classe média pra cima... Mas alguém deve ter se tocado, porque uma matéria sobre o filme exibida pelo "Fantástico" de domingo passado só mostrava casos de amor entre patroas e empregada da vida reals. Uma óbvia tentativa de esquentar as bilheterias, mas nem precisava: conforme o esperado, "Que Horas Ela Volta" foi o escolhido para disputar pelo Brasil uma indicação ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira. A reação foi imediata: o filme aumentou sua renda em 68% na terceira semana de exibição, algo raríssimo de acontecer, e entrou pela primeira vez na lista do dez mais vistos do país. No momento, aproxima-se dos 150 mil espectadores. Ainda é pouco, mas pode melhorar muito. Principalmente se a saga de Val ficar entre os cinco finalistas da Academia. Estou torcendo, é claro, apesar de só ter gostado (e não adorado) o filme. Mas nessas horas me baixa o patriota e eu visto a camiseta amarela. Vai que é tuuuua, Muylaert.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A MANCHA DELÉVEL

A P&G é uma das companhias mais gay-friendly do mundo. Ela oferece benefícios para cônjuges do mesmo sexo há muito tempo, bem antes do casamento igualitário ser aprovado na maioria dos países. Também costuma mostrar casais gays em seus comerciais, pelo menos lá nos Estados Unidos. Esse aí em cima acabou de sair e tira sarro de hipócritas homofóbicos como a tabeliã Kim Davis. Está bombando na internet, claro. Ótimo sinal: quando uma mudança cultural chega à propaganda, é porque ela é para valer.

ATUALIZAÇÃO: Este comercial, na verdade, é um "spec": a produtora o fez sem brief do cliente ou da agência, na esperança de conquistar a conta. Procurada, a P&G não se manifestou se vai veicular o filme ou não.

YOOOU... ARE MY AAANGEL...


O tema de abertura da novela "Verdades Secretas" soa como novidade para muita gente, mas na verdade é velho de 17 anos. Trata-se de "Angel", a faixa de abertura de "Mezzanine", o terceiro álbum da banda Massive Attack, lancado em 1998. Na época eu comprei e gostei, mas menos do que "Protection", o trabalho anterior dos caras. Achei tudo soturno demais, com faixas muito parecidas entre si. Mesmo assim, o disco estourou no mundo inteiro, virando a trilha sonora oficial de qualquer lugar que se pretendesse transado. Durante um bom tempo, não dava para ir a um restaurante ou loja moderninha sem que "Mezzanine" estivesse tocando ao fundo. E, na verdade, está tocando até hoje, através de seus inúmeros descedentes. É um dos CDs mais influentes de todos os tempos, com texturas intrincadas, clima hipnótico e vocais ameaçadores. Voltei a ouvir "Mezzanine" depois de muito tempo, e me surpreendi como ele ainda soa atual. Poderia ter sido gravado semana passada. Isso talvez diga mais sobre a estagnação do panorama atual do que sobre as qualidades intrínsecas do disco, mas o fato é que "Mezzanine' é bom pacas, da primeira à última música. Se você não conhece, procure na rede.

domingo, 13 de setembro de 2015

FILMEZINHO DA PORRA


Eu já era grandinho quando foi lançado o primeiro filme "normal" com cenas de sexo explícito: o japonês "O Império dos Sentidos", que hoje, passado o escândalo, é visto como um clássico do cinema. De lá para cá houve algumas tentativas para incorporar transas de verdade em filmes de arte, de Marushka Detmers "tocando flauta" em "Diabo no Corpo" à pansexualidade divertida de "Shortbus". Mas são casos isolados, e toda vez que surge um, é um acontecimento. Como agora, que "Love" chega às telas brasileiras. O diretor argentino Gaspar Noé (que mora na França há muitos anos) gosta de chocar. É dele um dos filmes mais polêmicos da década passada, o violento "Irreversível", que contava de trás para a frente a história de um estupro e suas consequências. Esse novo trabalho tem muitos pontos em comum com aquele anterior: festinha em casa de amigos, sexo numa passagem subterrânea, clube de pegação. E, mais uma vez, o protagonista é um homem preso ao ciúme e ao machismo. Aqui ele é um rapaz bem novo, um estudante de cinema americano que mora em Paris. O cara arranja uma namorada bacanérrima e juntos resolvem explorar suas fantasias. Chamam a vizinha para transar a três. "Love" já começa no day after dessa relação, com o casal separado pelo popular "motivo de força maior". Minto: "Love" abre de cara com uma cena de sexo, com o casal de pombinhos se masturbando mutuamente. Havia uma moça na sala onde eu estava que teve um ataque de riso nervoso, e eu quase gritei "volta pro templo!". É a primeira foda de uma série de muitas: lá pelas tantas, são tantas que a gente nem liga mais. Mas nunca são vulgares, nem expõem demais as mulheres, se é que eu posso dizer isto. Porque o verdadeiro astro do filme é o pau do cara. Inclusive há uma cena dele em close gozando na direção da câmera, em 3D - finalmente alguém fez isto!! Aliás, o 3D é melhor usado do que em muitos filmes de ação, com a câmera sempre parada e várias camadas de profundidade. E a trama em si, é profunda? Porque os personagens não são. Eles se acham modernos, mas não lidam bem com as próprias limitações. O rapaz, então, é um poço de imaturidade - que no entanto toma uma decisão adulta e dolorosíssima. Nesse sentido, "Love" não tem nada de libertário, mas tampouco é moralista. Talvez não passe de uma historinha banal, temperada com cenas tórridas de sexo. Mas isto não é a própria vida?

(quer ver um cartaz super NSFW de "Love"? Clique aqui, mas CUIDADO)

sábado, 12 de setembro de 2015

O HOMEM QUE FILMAVA AS MULHERES

A mostra "Truffaut: um Cineasta Apaixonado" estava em cartaz na Cinematheque Française quando eu estive em Paris em outubro do ano passado. Queria muito ter visto, mas acabou não dando tempo. Voltei à cidade em dezembro e a exposição continuava: dessa vez não me escapa, pensei. Escapou. Ela precisou atravessar o Atlântico e se instalar no MIS de São Paulo para que eu finalmente conseguisse visitá-la. E então... achei plus ou moins. Claro que é legal ver os cadernos de anotações de um dos maiores diretores de todos os tempos, ou rever Jeanne Moreau cantando "Le Tourbillon". Mas não deixa de ser frustrante que nenhum dos filmes dele esteja passando no bom cinema do museu (eu só vi seis, olha que lacuna no meu currículo). A montagem também tem alguns equívocos. Como as meia cabines muito baixas, onde os altos como eu inevitavelmente batem a cabeça. Ou a sucessão de portas fechadas onde é preciso espiar pelo olho mágico para ver (bem mal) alguma cena de um filme dele estrelada por uma mulher. Truffaut era na vida real o título de um de seus filmes - "O Homem que Amava as Mulheres" - mas esse amor nunca foi uma travessura, e muito menos ilícito. Era escancarado, e portanto indigno de uma instalação boba dessas. No final, o que eu mais gostei foi um recorte de jornal com a programação dos cinemas de Paris no final dos anos 1950. Sabe quantas as salas a cidade tinha naquela época? E estou falando só da cidade mesmo, sem o banlieu. Adivinha... 350.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

UBER PRESSURE

O cálculo político é o seguinte: existem 30 mil motoristas de táxi em São Paulo. Se o prefeito Fernando Haddad vetar o projeto que proíbe o Uber, ele terá 30 mil famílias contra ele. Alguma coisa entre 90 e 150 mil votos a menos na eleição do ano que vem, mais do que o suficiente para decidir um pleito que promete ser apertado. Portanto, foda-se o Uber e todo mundo que gosta dele. Os motoristas do serviço ainda são poucos; os usuários não vão decidir seus votos por causa de um vetinho desses. Só que não precisa ser assim. Eu nunca usei o Uber, mas acho um absurdo São Paulo proibir o serviço. A concorrência é saudável: os táxis já pararam de cobrar a taxa extra de 50 reais para levar passageiros para o aeroporto de Cumbica, que fica em outro município. Se não tiver mais Uber, a qualidade dos táxis (que em SP costuma ser melhor que no Rio) vai despencar ainda mais. Fora que é pra frente que se anda: que se faça como em Nova York, onde táxis e Uber compartilham o mesmo aplicativo. Por tudo isto, aderi a mais um movimento que está rolando no site Panela de Pressão (o mesmo site que pressionou os deputados fluminenses a desistir do "PL da Desgraça"). Haddad precisa saber que, se está agradando a uma categoria profissional, também está indo contra os interesses de muitos consumidores. Democracia também é isto.

A CRISE LHE CAI BEM

Ao longo de toda sua vida pública, Dilma Rousseff nunca esteve tão bonita quanto agora. Além de muito mais magra, a presidente também tem aparecido sorridente e bem disposta nas fotos recentes. E tudo isso enquanto lá fora rola a maior crise política e econômica desde o governo Collor. De onde é que ela tira tamanho bom humor? Para usar uma expressão bem machista, Dilma está com cara de mulher bem comida. Mas por quem? Quem é que teve a manha? Até onde sabemos, ela só anda fodendo com o Brasil.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

BITCH, I'M TIRED

Engraçado: a nova turnê da Madonna estreou ontem em Montreal, e nos sites que eu frequento não havia uma palavra a respeito. Precisei fuçar na rede para encontrar o setlist (nada de muito surpreendente, tirando uma versão acústica de "La Vie en Rose" no final). Já o YouTube está pululando de vídeos gravados com celular, a maioria com som e imagem terríveis. Esse aí de cima é o melhorzinho. E o que eu achei? (suspiro) ...mais do mesmo. Madonna diz que se "reinventa", mas faz mais ou menos a mesma coisa há mais de dez anos. Por isto, nem fiquei triste desse show não ter (ainda) datas no Brasil. Acho que já tive a minha cota.

LADEIRA ABAIXO

Não adianta dizer que as notas das agências de avaliação de risco "não significam nada", nem que elas costumam errar muito. Erraram, por exemplo, em 2008 - nenhuma delas previu que a bolha imobiliária iria estourar nos EUA, arrastando para o buraco boa parte da economia do planeta. Mesmo assim, essas agências continuam tendo credibilidade entre quem tem dinheiro para investir - e nesse momento a S&P não está recomendando investir no Brasil. Isto é um desastre de grandes porporções, porque só ajuda a piorar uma crise que já estava grave. E vai ficando cada vez mais claro a tragédia que é o governo de Dilma Rousseff. Como diz o colunista Sergio Malbergier, da Folha:
"(Dilma) demoliu o caminho duramente construído de progresso econômico e social e colocou no lugar um intervencionismo estatal rudimentar que matou o espírito animal da economia brasileira. De quebra, quase quebrou o país com um populismo fiscal calibrado para reelegê-la, custasse o que custasse". Repare que nem há menção aos escândalos descobertos pela Operação Lava-Jato: a presidente não precisou deles, se enterrou sozinha. E a todos nós. Confesso que estou com o saco na lua de tanta má notícia - e também da Dilma. Continuo contra o impeachment, mas adoraria que ela saísse logo da presidência. Ontem.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

PERNA-DE-PAU

Tem tanta série dando sopa por aí que são frequentes os pedidos de dica. Então lá vai uma, negativa: NÃO assista "Crossbones". Não perca seu tempo com essa porcaria, que foi cancelada depois de uma única temporada. Eu perdi, e assisti aos nove episódios que estão disponíveis no Netflix porque tinha a esperança de que melhorasse. Ao contrário: o final é uma das maiores bombas que eu já vi. E olha que o argumento até era interessante: no século 18, um agente britânico se infiltra na ilha secreta comandada pelo pirata Barba Negra. A produção também é esmerada, John Malkovich está mais repelente do que nunca no papel principal, e ainda tem o inglês Richard Coyle, que eu acho uma coooisa desde os tempos da sitcom "Coupling". O problema é o roteiro mesmo. Fuja dessa série perna-de-pau, do olho de vidro e da cara de mau.

A POLÍCIA DOS COSTUMES

Olha, tô pra ver classe mais desunida que a bicharada brasileira. Impressionante nossa capacidade para a auto-sabotagem. Quem precisa da bancada evangélica quando existem agentes da jihad infiltrados entre nós? Como o sujeito que foi à festa dos onze anos da The Week, em São Paulo, no sábado passado. Ao invés de bailar ao som de Offer Nissim ou simplesmente paquerar, o cara se deu ao trabalho de sair gravando casais se pegando dentro dos banheiros ou mesmo na pista de dança. Depois, é claro, compartilhou as imagens por WhatsApp, e elas imediatamente viralizaram. Isso é o mais triste: nos fazemos de chocados, "ó, meus sais", e fazemos questão de expor à execração pública quem não anda na linha. Sim, porque somos quase todos uns santos. Piores que a polícia religiosa da Arábia Saudita, aquela que zela pelos bons costumes com espadas na mão. E já vou avisando: não adianta me mandar comentários com links para esses vídeos, porque eu não vou publicar. Ainda não me filiei ao Estado Islâmico.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A CIDADE DE AÇÚCAR

São Paulo não estava preparada para a estiagem que já dura dois anos, e o resultado é a crise hídrica que parece não ter fim. Isto não quer dizer que a cidade esteja preparada para a chuva: basta cair uma aguinha para os sinais quebrarem e o trânsito piorar ainda mais. Em dias como hoje, com alagamentos e falta de luz generalizada, ela parece feita de açúcar. São Paulo derrete e escorre pelo ralo. 

MINHA DÚVIDA, MINHA DÍVIDA

Quem você preferia irritar: o povão ou a classe média? Esse é o dilema atual da presidente da república. Durante anos, tanto ela como seu partido não tiveram o menor prurido em eriçar os pelos de quem está no meio da pirâmide social (mas não os da classe A-gargalhada, de quem os políticos sempre dependem para doações). A classe média foi chamada de "coxinha", "elite branca" e hostilizada por luminares como Marilena Chauí. Deu no que deu: foi só a economia balançar para Dilma ver se voltar contra ela uma enorme massa insatisfeita - na verdade, foi até antes, com as manifestações de junho de 2013. "Mas essa turma não está reclamando de barriga cheia?", pensou o PT - e nem as passeatas, nem a vitória raspando em 2014 fez o partido mudar de orientação. Porque a matemática é simples: existem mais pobres do que remediados, então vamos garantir o voto da maior parcela da população. E assim chegamos a esse ano fatídico, com o inflável Pixuleko fazendo turnês triunfais pelo país e o orçamento teimando em não fechar. Mesmo assim, Dilma continuou insistindo em provocar a classe média, criando novos impostos para tapar o rombo causado por sua incompetência. Agora percebeu que só isso não basta: talvez tenha que cortar os gastos também. Diminuir programas sociais como o Minha Casa, Minha Vida. O pior é que, antes de medidas como essa darem certo, a presidente corre o risco seríssimo de perder o pouco apoio que ainda tem, entre as classes mais pobres (e é por isso que Lula já está se manifestando contra). Eu que não queria estar na pele dela. Estar na minha já dói o suficiente.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A GAROTA COM ALGO MAIS

Semana passada foi divulgado o primeiro trailer de "A Garota Dinamarquesa", que está competindo no festival de Veneza e já é um dos mais cotados para o próximo Oscar. Eddie Redmayne periga dar uma de Tom Hanks e levar dois troféus consecutivos. Também eclodiu uma polêmica que vinha se formando há algum tempo: personagens trans devem ser feitos apenas por atores trans? Eu acho que não, absolutamente não. Até entendo as razões de quem defende o contrário: atores trans têm pouquíssimas oportunidades (mas também é verdade que uns 99% de TODOS os atores têm pouquíssimas oportunidades). Também se alega o fato de que um trans interpretando um trans traria mais autenticidade para a obra, porque muitos dos dramas seriam comuns. Só que aí é que está: ser ator não é só interpretar a própria história. É, principalmente, encarnar a história dos outros. Ser muitos, ser alguém que não se é. Por isto, a rigor, eu acho que um ator deve poder interpretar qualquer papel. De outra idade, outra nacionalidade, outra raça e até outro sexo. Isso vale para todos. E taí o exemplo da Nany People, uma das melhores atrizes, period, com quem eu já trabalhei: ela está fazendo uma mulher cis na peça "Caros Ouvintes", que voltou ao cartaz em SP. Alguém vai reclamar?

VAI TOMAR NO CULT


Com apenas alguns anos de atraso, eu finalmente me dei conta de que existe na cena brasileira a figura incadescente de Johnny Hooker. Esse pernambucano é exatamente o que eu responderia se me perguntassem do que a nossa música precisa para despertar da letargia sertanejo-coxinha: gay, brega, carnavalesco e rock'n'roll. Sim, eu tinha visto "Tatuagem" e adorado, mas foi só com o disco que Fafá de Belém acabou de lançar que eu percebi a joia que é "Volta". Foi o que bastou para Johnny Hooker começar a me aparecer por todos os lados - até convite para show dele em SP eu recebi pelo Facebook. Não tive outro remédio a não ser conferir seu álbum de estreia, "Eu Vou Fazer Macumba pra te Amarrar, Maldito!". Também adorei: produção crua, letras pansexuais e mais atitude do que todo o festival Villa Mix. O mais legal é que Johnny Hooker tem emplacado canções em trilha de novela e aparecido amiúde na TV aberta. Não vai ser cult. O Brasil não afundou!

domingo, 6 de setembro de 2015

CHRISSIE HYNDE QUE NÃO DEU CERTO


Meryl Streep é conhecida pela elasticidade de voz e pela facilidade de adquirir sotaques. Mas em "Ricki and the Flash" ela faz algo que eu nunca tinha visto antes: consegue falar rouca durante o filme inteiro. Ela faz uma roqueira envelhecida que largou marido e filhos em busca de um sucesso que nunca aconteceu. Lancçu um único disco e nunca se aproximou de lendas como Chrissie Hyde ou Deborah Harry. Hoje canta num barzinho da Califórnia, para meia-dúzia de gatos pingados tão antigos quanto ela. Mas aí sua filha tenta se matar depois de levar um pé do marido, e Ricki é chamada de volta para casa. Feridas se abrem, roupa suja é mais ou menos lavada e alguns desvios acontecem até o obrigatório final feliz. Absolutamente nada de especial, e o diretor Jonathan Demme já ousou bem mais. Mas Meryl está fantástica - e não é só ela, folgo em dizer. Rick Springfield, um roqueiro da vida real, surpreende ao fazer uma cena super emotiva com a maior atriz do mundo. E Mamie Gummer, filha de verdade de Meryl, dá um show como a filha desequilibrada de Ricki. Essa menina ainda vai herdar o trono materno.

sábado, 5 de setembro de 2015

TREM MAU


Um dos temas recorrentes da ficção científica é o enorme acirramento da desigualdade entre as classes num futuro próximo. Desde "Metrópolis" que vemos no cinema uma casta de eleitos sendo mantida a pão de ló por uma multidão de escravos. "O Expresso do Amanhã" acrescenta um componente ecológico: em 2014 teria acontecido uma catástrofe provocada pelo misterioso CW7, que o filme felizmente se poupa de explicar. A Terra congelou e os únicos sobreviventes estão a bordo de um trem que percorre todos os continentes sem parar, furando a neve (o título original) quando preciso. Nos vagões da frente vive uma elite ociosa, que depende do trabalho braçal dos coitados que vivem atrás. Até que um dia esse povo se revolta e decide assumir o controle do trem. O diretor coreano Joon-Ho Bong cria um universo claustrofóbico, onde lutas de machado acontecem em espaços apertados, e o povoa com alguns dos melhores atores do cinema ocidental: John Hurst, Ed Harris, Jamie Bell, Octavia Spencer e, pairando acima de todos, a diva Tilda Swinton. Ela é a melhor razão para se enfrentar as mais de duas horas dessa viagem e, como sempre acontece quando encara um papel de pegada cômica, parece estar se divertindo muito. Eu, nem tanto: apesar do roteiro escapar das soluções fáceis e do óbvio final feliz, "O Expresso do Amanhã" é um pouco violento demais para minha delicada sensibilidade. Mas quem gosta de tiro, porrada e bomba vai se divertir muito, sem ser tratado feito um débil mental.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

GUATEMALA A MEJOR

Era uma vez uma nação da América Latina onde a presidência da república era ocupada por uma pessoa extremamente impopular. Essa impopularidade se devia à ineficácia de seu governo e ao seu evidente envolvimento com um vasto esquema de corrupção. Durante semanas a fio, multidões ocuparam as ruas exigindo não só sua saída do poder como também sua prisão - e isto apesar da tal pessoa ter sido legitimamente eleita, como manda a consituição. Mas a voz do povo se fez ouvir e o presidente Otto Pérez de Molina não só renunciou como foi direto do palácio para a prisão. E isto tendo apenas quatro meses de mandato pela frente, sem poder concorrer à reeleição. A Guatemala, como muitos países da região, está de saco cheio não só de seus governantes de plantão, como também de todo o sistema que os governa. Quase todos foram ditaduras militares até meados dos anos 80 ou 90. Quase todos transicionaram para a democracia. E quase todos estão desencantados com ela. Felizmente, poucas pessoas pedem a volta dos milicos: a maioria quer mesmo é uma reforma política profunda e abrangente, que impeça a ascensão de quadrilhas como a comandada por Pérez de Molina. Domingo agora tem eleição no país mais rico e populoso da América Central. Ele terá a chance de evitar a piada que o persegue desde sempre - que está indo de Guatemala a peor. Mas só uma eleição não basta, como bem sabemos aqui no Brasil. A América Latina inteira precisa ser passada a limpo. Será que começou?

ORANGE IS THE NEW BLERGH

A extrema-direita americana está ovulando: eles acham que finalmente conseguiram o mártir que tanto queriam. A prova irrefutável de que os "cristãos" (põe aspas nisso) estão sendo ""perseguidos"" (aspas duplas!) nesses novos tempos de """ditadura gayzista""" (OK, você já entendeu). A tabeliã Kim Davis, do atrasado estado do Kentucky, foi em cana por ter se recusado a emitir licenças de casamento para casais gays. Ela é obrigada a fazê-lo: desde que a Suprema Corte decidiu em junho que proibir o casamento igualitário vai contra a constituição dos EUA, nenhum funcionário público pode alegar razões de fundo religioso para descumprir a lei. Se Kim Davis acha que sua fé está sendo violentada, ela deveria pedir demissão e ir trabalhar com outra coisa. Mas essa mulher de vida pessoal turbulenta - está no quarto casamento, e a paternidade de seus filhos é uma baita confusão - quer aproveitar a oportunidade para se transformar num símbolo e faturar com livros e palestras. O mais patético de tudo é que, daqui a menos de uma geração, o "sacrifício" dessa nojenta vai soar tão grotesco e inútil quantos os esforços dos que lutaram pela manutenção do racismo ou da escravidão. Ah, e quem sabe ela não aprende alguma coisa na prisão? Confinada entre quatro paredes e exposta a mulheres dos mais diversos estratos da sociedade, de repente Kim Davis pode até se descobrir lésbica.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

THAMMY JUNTO

A coerência nunca foi o ponte forte dos políticos brasileiros. Taí a Marta Suplicy, que disse que não podia mais conviver com a corrupção do PT - e foi para o PMDB conviver com Renan Calheiros, Eduardo Cunha e José Sarney. Se uma figura tarimbada como ela faz isso, o que se pode esperar das celebridades (e sub) que resolvem se aventurar? Mesmo assim, a filiação de Thammy Miranda ao PP me surpreendeu. O filho trans da Gretchen tem se mostrado uma pessoa forte e sensata: não se deixa abalar pelas críticas, nem abre mão da dignidade (ano passado ele chegou a se retirar do meio de um "debate" na TV com o Infeliciano). Como é que então ele aderiu à turma do Maluf e do Bolsonaro? Nem critico o fato dele ser de direita - acho que a democracia se faz como todos os pontos do espectro - mas compactuar com a roubalheira e a homofobia não dá (o PP é o partido mai enlameado da Lava Jato). Thammy vai ser usado como uma desculpa - "olhaí, nós temos candidatos de todas as orientações, viu como somos bacaninhas?" - enquanto que seus colegas escrotos continuarão perseguindo os LGBT. Thammy, abre o olho, rapaz. Você já venceu tantas lutas, vai abrir o flanco justo agora?

UM NOME E UMA CARA

Todos os dias, milhares de animais são caçados por esporte no mundo inteiro, mas precisou ter uma vítima com um nome e uma "cara" - o leão Cecil - para gerar comoção.

As reações à Cracolândia vão da indiferença ao nojo. Só quando aparece um noia "de família", com o qual podemos nos identificar, é que nos solidarizamos e tentamos fazer alguma coisa para tirá-lo dali.

O caminhão com 71 mortos anônimos abandonado numa estrada da Áustria não causou um décimo da celeuma que o menino Aylan Kurdi, encontrado afogado numa praia da Turquia.

Somos assim: precisamos personalizar os dramas para poder senti-los.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

FINANCIANDO A PRIVADA

O Senado enlouqueceu? Como é que a casa comandada por Renan Calheiros aprova o fim do financiamento privado às campanhas eleitorais? Nosso Legislativo é tão desacreditado que, quando fazem alguma coisa certa, a gente logo suspeita de maracutaia. Tem treta aí, só pode ser. Como é que os políticos vão abrir mão dos rios de dinheiro que garantem suas campanhas? Ta certo que o texto alterado (que por isto agora tem que voltar à Câmara) também inclui a proibição aos órgãos de comunicação de contratar institutos de pesquisa em época de eleição, uma lei da mordaça mal disfarçada. Mas impedir que as empresas patrocinem candidatos é coisa certa, pois é mais do que óbvio que nenhuma faz isto por idealismo - e mais óbvio ainda que todas cobram a conta depois. Enquanto isto, Gilmar Mendes esconde seu voto há mais de um ano, porque sabe que já há maioria no Supremo pela proibição... O Brasil vai além do realismo mágico. Aqui nada faz o menor sentido.

FORA DA MINHA TERRA

O ser humano é um animal territorial. Defendemos o torrão onde vivemos dos invasores porque antes dependíamos da caça e depois da agricultura. Se fôssemos herbívoros como as vacas, não iríamos nos incomodar com a chegada de estranhos. Esse instinto básico se mantém até hoje, mesmo nas sociedades onde não faz mais sentido. Como na Europa contemporânea, que está envelhecendo rapidamente e precisando muito de imigrantes jovens que queiram trabalhar. Mas o medo de perder o emprego (infundado, segundo especialistas) é tão grande que alguns países fecham suas fronteiras mesmo para quem só quer atravessá-los. A Hungria, por exemplo, governada pela direita, quer construir um muro que a separe da Sérvia, só para não ver os refugiados sírios cruzando seu território rumo à Alemanha ou à Escanidnávia. Enquanto isto, cada nova geração espanhola é 40% menor que a anterior, e os únicos que não estão vendo suas populações encolher são França e Grã-Bretanha. Fora que a caridade cristã, valor tão caro ao continente, manda abrir as portas ao pessoal que foge das guerras no Oriente Médio ou da miséria na África. A imensa maioria se acultura rapidamente, mas isto não basta para sossegar os xenófobos - e nem os políticos que manipulam a ignorância do eleitorado. Já existem estudos que dizem que todas os controles fronteiriços deveriam ser abolidos, no mundo inteiro. Isso geraria crescimento econômico e traria paz. Mas ainda estamos muito próximos do australopiteco: queremos nosso território de caça só para nós. Uga uga.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O FILHO DE FRANCISCO

Edir Macedo parece ter se inspirado no papa para dizer que Jesus nunca pregou nada contra os gays (e não pregou mesmo). As declarações do líder da IURD causaram celeuma no mundo evangélico, mas parecem ter o mesmo objetivo que as do bispo de Roma: estancar a hemorragia de fiéis. Seja para lotar os templos ou os cofres, a fala de Macedo é sintomática. A Universal não é a maior denominação neopentecostal do Brasil, mas é a de maior visibilidade e talvez seja a mais forte politicamente. Os caras também são bons de marketing: uma reviravolta dessas só aconteceria se sentissem para que lado o vento sopra. E está soprando uma brisa fresquinha, anunciando os novos tempos.

DORMINDO NO EMPREGO


Existem dois conflitos em "Que Horas Ela Volta?". O maior e mais importante deles é entre mãe e filha. Val (Regina Casé, fabulosa) é uma empregada à moda antiga, daquelas que dormem no emprego e ficam anos na mesma casa. Sua filha vem do Nordeste prestar vestibular em São Paulo, e as duas se estranham. A mãe deixou a menina com parentes e ficou mais de dez anos sem visitá-la, por razões que o filme não explica. A filha não só se ressente disso como ainda tem uma atitude completamente diferente com relação aos patrões da mãe. Não se sente inferior; quer ficar no quarto de hóspedes e nadar na piscina. É um embate interessante e a cara do Brasil moderno. Val representa a velha classe C (ou D), "ciente de seu lugar" e sem muitas perspectivas. Jéssica é o país pós-Plano Real e pós-Lula, que conseguiu estudar e agora quer mais. Todas as cenas entre as duas estão impecáveis. Onde o filme falha é no outro conflito, delas com os patrões. Os personagens foram escritos por alguém que dormia: era para serem ambíguos, mas acabaram saindo incoerentes mesmo. E os atores foram mal escalados. Nenhum combina com o papel. Também é estranha a relação que a empregada tem com o filho do casal: tudo bem que ela foi a segunda mãe (o título internacional do filme, bem melhor que o brasileiro) do rapaz, mas que garoto de 15 anos dorme de conchinha com qualquer mãe, adotiva ou biológica? Esses deslizes me fazem duvidar que "Que Horas Ela Volta" seja mesmo esse ímã de prêmios que estão dizendo. Provavelmente será o nosso candidato ao Oscar, também pela falta de concorrentes. Mas é só um bom filme, não ótimo. Isso é pouco para tanto auê.