segunda-feira, 31 de agosto de 2015

VALHA-NOS DEUS

Haddad, Russomano, Marta, Datena, João Dória e agora - ta-dá - Infeliciano. A disputa pela prefeitura de São Paulo está ficando lotada de candidatos high profile, todos supostamente fortíssimos, mas que na prática estarão dividindo o eleitorado em fatias finas como as do presunto de uma padaria chique. A notícia do dia está fazendo algumas pessoas correrem para as colinas: o PSC escolheu seu candidato mais midiático para concorrer, e os alarmistas já acreditam que ele irá vencer de barbada. Vai nada: é impossível fazer uma previsão acurada com mais de um ano de antecedência, mas duvido que o deputado-pastor chegue ao segundo turno. Ele é divisivo demais, e políticos assim vão bem nas eleições proporcionais (para o Legislativo) mas costumam naufragar quando pleiteiam um cargo majoritário. E São Paulo, apesar da caretice reinante, rejeita os extremos. Um dos fatores que determinou o fiasco de Russomano em 2012 foi o medo dele entregar a administração da cidade à Igreja Universal (mesmo sendo católico). Um personagem folclórico e homofóbico, portanto, só vai fazer barulho, e seu partido deve saber disto. O que eles querem, então? Provavelmente, visibilidade e vender bem caro o apoio a quem passar para o turno final. Como o pastor Everaldo quis fazer ano passado, mas não conseguiu (nhé nhé nhé). De qualquer forma, valha-nos Deus. Vamos precisar.

CARREIRA BRILHANTE


Vamos tirar logo uma coisa da frente: o sotaque do Wagner Moura. É nítido o quando ele se esforçou para atuar em espanhol, um idioma que ele não falava até ser convidado para a série "Narcos". Nosso conterrâneo teve aulas intensivas e o apoio de um coach vocal. O resultado é que suas falas como Pepe Escobar estão boas, mas não perfeitas. Wagner é traído pelas palavras que são idênticas em português - "comprar", por exemplo - pois as pronuncia como um brasileiro. Ou seja, não usa os apenas cinco sons de vogais que existem em castelhano, mas as dezenas que temos na nossa língua. Mas seu trabalho como ator está excelente, assim como o de todo o resto do elenco - que inclui o chileno Pedro Pascal, mais conhecido como o príncipe Oberyn de "Game of Thrones" e menos conhecido como o pai misterioso do filho de Lena Headey, a Cersei. Aliás, essa nova série do Netflix é mesmo ótima, pelo menos até os quatro primeiros capítulos que eu já vi. É importante levar em conta que, apesar dos muitos latinos na equipe, esta ainda é uma produção americana. Ou seja, o ponto de vista é o deles, e os mocinhos são todos agentes do DEA. Mesmo assim, é curioso que as críticas estejam melhores por aqui do que por lá. O que me importa é que estou gostando muito: "Narcos" é mais um ponto brilhante num ano que já está repleto de boas séries de televisão.

domingo, 30 de agosto de 2015

TODA FILOSOFIA É BULLSHIT


Já disseram que todo grande cineasta está sempre fazendo o mesmo filme. Não é verdade, mas claro que existem aqueles que retornam sempre aos mesmos temas. Woody Allen, por exemplo, parece obcecado pela noção do crime perfeito.Depois de "Crimes e Pecados" (para mim, sua maior obra-prima) e "Match Point", ele retoma o assunto com "Homem Irracional". O personagem principal é um professor de filosofia que é o primeiro a admitir que o que ensina é bullshit; sua aluna mais aplicada reconhece que ele tem a capacidade de complicar qualquer coisa com palavras. O cara se convence de que matar um estranho será um bem para a humanidade, e comete esse crime sem nenhum remorso. O que Woody Allen quer dizer é que podemos nos convencer de que até uma abominação pode ser da mais elevada moral, se soubermos embalá-la com as frases certas. Joaquin Phoenix está com uma barriga tão grande que eu pensei que fosse prótese (não é), mas não perdeu o ar ao mesmo tempo sedutor e repelente necessário ao papel. Emma Stone justifica porque é a musa da vez do diretor: linda, carismática, boa atriz, praticamente uma cura gay. A história mais uma vez se passa num ambiente 100% branco de classe média alta onde não existem problemas econômicos, mas isto nem vem ao caso. O que interessa é que Woody Allen continua a soltar um filme por ano, sempre acima da média geral. E este "Homem Irracional", aparentemente despretensioso, na verdade é um de seus grandes filmes.

sábado, 29 de agosto de 2015

A QUEDA DA BABILÔNIA

Dois anos atrás, Marta Kauffman, uma das criadoras de "Friends", esteve no Brasil dando curso e palestra. E em todos os lugares ela repetiu a mesma coisa: o formato novela está com os dias contados, vocês não vão demorar a fazer apenas séries. Eu ri com os meus botões: quem é essa gringa que nem conhece a nossa cultura para vir dizer como será a nossa TV? Eu nem gosto tanto de novela, mas a profecia dela me pareceu radical demais. Hoje não acho tanto. O final patético de "Babilônia" me reforçou a impressão de que novela já era mesmo. Mesmo com a trama tendo sido encurtada em quase dois meses, o último capítulo parece ter sido escrtio às pressas, como se os autores quisessem se livrar logo do abacaxi. Houve furos gigantescos, como o fato de Beatriz (Glóira Pires) confessar um assassinato na frente de muitas testemunhas, e logo em seguida Inês (Adriana Esteves) ser condenada pelo mesmo crime. Também teve situações forçadíssimas, como as duas indo parar na mesma cela e depois fugirem da cadeia sem ninguém ver, nem mesmo uma câmera de segurança. A cena final da dupla, chupada de "Thelma & Louise", não teve um pingo de emoção e pareceu dirigida com o pé. Antes disso, a revelação do assassino de Murilo foi jogada fora, sem o menor impacto. Foi-se o tempo em que o Brasil parava por causa de um "quem matou?". Terminar novela com esse recurso é sinal de preguiça e/ou desinformação. "Babilônia" foi muito mal de audiência para os padrões do horário, e "A Regra do Jogo", que estreia segunda, pode reverter essa situação. Também foi um ponto fora da curva do momento atual da Globo: todas as outras tramas estão indo bem, até a reprise de "Caminho das Índias". Mas sei não, desconfio que nunca mais teremos outra "Avenida Brasil". Os hábitos mudaram e a rotina criada pela telenovela está mesmo em queda livre.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

AINDA RESTA UMA ESPERANÇA


Comédia brasileira virou sinônimo de porcaria. Boa parte da crítica despreza qualquer obra do gênero, acusando o cinema de copiar o pior da TV e de repetir fórmulas desgastadas (aliás, a expressão "fórmula desgastada"  também já deu o que tinha que dar). Muito disso é verdade, mas de vez em quando surge um filminho despretensioso que não apela para a baixaria nem para as soluções mais fáceis. "A Esperança É a Última que Morre" não é nenhuma obra-prima, mas um digno exemplar do cinema comercial. Seu defeito é não ter calcado o pé no acelerador: um tom de farsa, menos realista, teria ajudado a história absurda a descer melhor. Também teria soltado as frangas de Dani Calabresa e Katiuscia Canoro, que aparecem muito mais contidas do que as conhecemos da televisão. Por outro lado, Rodrigo Sant'anna mostra recursos como ator que vão muito além de seus tipos do "Zorra". O filme só entra em cartaz na semana que vem (eu vi em pré-estreia), e pode ser uma boa opção para quem só quiser se distrair.

O GOVERNO PASSA CHEQUE

Eu que não queria estar na pele do governo. Porque é um ato de desespero querer ressuscitar a CPMF, agora rebatizada de CIS. Inventar um novo imposto num momento de recessão, em que a popularidade da presidenta bate recorde negativo, é limpar cagada com pano sujo. É atrair ainda mais a ira da classe média, que tem a sensação de que as taxas escorchantes que paga vão todas para o ralo (ou para o bolso dos malandros). Mas, para chegar a este ponto, é porque a coisa tá feia mesmo. As despesas não param de subir, empurradas pelas pauta-bomba que Eduardo Cunha na Câmara. E as receitas estão secando. Qual é a solução, se não se pode cortar mais gastos? Não sei, porque a resposta vai além da mera economia. Passa pela política, que é uma coisa que este governo realmente não sabe fazer. O finado "imposto do cheque" - até o nome saiu de moda, já que quase ninguém mais usa cheque - é uma merda que não tem tamanho.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

VOCÊ TEM QUE SENTIR A LETRA

Não gosto da Taylor Swift. Não suporto o ar de princesinha mimada nem nenhuma de suas músicas. Mas admito que ela tem recebido convidados interessantes em sua turnê pelos EUA. Alguns têm até bem pouco a ver com seu estilo, como a diva do folk Joan Baez. Ontem, em Los Angeles, a namorada do Calvin Harris surpreendeu de novo. A visita da vez foi ninguém menos que Phoebe Buffay - não a atriz Lisa Kudrow, mas sua personagem na série "Friends". E a dupla cantou, lógico, o maior hit do Central Perk Café, a épica "Smelly Cat". Antes Taylor pediu que a plateia recebesse com carinho uma cantora que nunca havia se apresentado num lugar tão grande, mas isto não evitou que ela levasse um pito no meio do número: "you really have to feel the lyrics". Indeed you do.

MENTIRAS SECRETAS

A notícia saiu no Sensacionalista, e parecia falsa como todas as outras que são publicadas lá. Mas não era: o Infeliciano tentou mesmo processar o melhor site de humor do Brasil, e ainda queria que ninguém ficasse sabendo. O deputado-pastor tem boas razões para não querer piadas com seu nome: seu eleitorado é dos mais desinformados do país, e não sabe distinguir um boato falso de um fato verdadeiro. Mas nem por isto ele está autorizado a atentar contra a liberdade de expressão, e ainda menos a posar de bom moço, como se nada. Graças a Deus (que com certeza não é o dele) que o juiz Raimundo Silvino da Costa Neto, de Brasília, julgou a ação improcedente. Agora ela pode ser divulgada, e a máscara desse farsante cai mais um pouco. Esta foi só mais uma das tentativas da classe política - em especial a bancada teocrática - de calar os meios de comunicação e a sociedade civil. Temos que ficar ligados o tempo todo, porque senão essa corja toma nossos direitos e até nosso dinheiro. E temos que expor esses hipócritas ao ridículo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

#CUMBERBITCH

Consegui. Tentei, tentei, demorei mas consegui. Entrei dias a fio no site do Barbican, o maior centro cultural de Londres, na esperança de alguma desistência. Todo dia surgiam algumas, o que já era previsto. Afinal, os ingressos se esgotaram todos há mais de um ano, quando a produção foi anunciada. E em um ano as pessoas mudam de ideia, arranjam programa melhor, morrem... Mas nunca havia para os dias em que eu vou estar na cidade. Até que hoje surgiram muitos. Depois de esperar um pouco na fila do site - sim, isso mesmo, fila no site - me deparei com vários lugares disponíveis, em vários setores do imenso teatro. Consegui na última fila da plateia. Wuhuu: vou ver Benedict Cumberbatch de perto, no papel mais importante de toda a literatura inglesa: "Halmet". Sem essa de ser ou não ser, I'm a cumberbitch.

ADEUS, MAMÃE MONSTRO

Uma reinvenção das mais interessantes está acontecendo no showbiz americano, feat. Lady Gaga. Os três primeiros anos de superestrelato da cantora foram sopa no mel. Tudo o que ela lançava virava hino, ganhava Grammy e atingia o primeiro lugar das paradas do mundo inteiro. O caldo começou a entornar quando "Born This Way" revelou-se um arremedo de "Express Yourself", ainda que não-intencional. Madonna passou de protetora a inimga, e muita gente começou a achar que Gaga não era mesmo a última Coca-Cola do deserto. Um degrau para baixo decisivo foi o álbum seguinte, "Artpop". Com título pretensioso e exaustiva campanha de lançamento, o disco não estourou e foi logo eclipsado pelos de Katy Perry e Beyoncé. Para completar, os shows da moça no Brasil ficaram longe de lotar. Mas aí rolou um lance curioso, ou melhor - vários. O trabalho seguinte de Lady Gaga foi um inesperado CD de duetos com Tony Bennett, onde ela pôde mostrar que canta pra valer. Depois ela surgiu esplendorosa no Oscar deste ano, cantando um pot-pourri de canções da "Noviça Rebelde" que arrancou lágrimas de Julie Andrews. Agora vem mais um passo na reconstrução dessa carreira que, se não chegou a despencar, balançou legal. Estreia em outubro nos Estados Unidos a quinta temporada de "American Horror Story", pela primeira vez sem Jessica Lange no elenco. A estrela agora é Gaga. E sabia que foi ela quem se ofereceu aos produtores? A série deve vir mais over do que nunca - tem até uma personagem chamada Ramona Royale, rárárá - mas se encaixa perfeitamente na estratégia traçada pelo novo empresário da Germanotta, Bobby Campbell. Claro que a grande cartada será o próximo álbum de inéditas, que só deve sair em meados do ano que vem. Minha suspeita é que ela vai abandonar os vestidos de carne e adotar um visual mais limpinho. Por isto, quem ainda quiser vê-la de monstro, vai ter a última chance com a nova temporada de "AHS". Bom proveito.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A CONSAGRAÇÃO ABSOLUTA


O jainismo é uma das muitas religiões da Índia, e bem pouco conhecida no Ocidente. Seus fiéis não passam de seis milhões de pessoas, uma gota no oceano bilionário da população daquele país. Tampouco ajuda o fato dos jainistas não fazerem proselitismo, nem que suas regras rígidas atraiam muita gente. Além de serem obrigatoriamente vegetarianos, os seguidores dessa fé antiga não podem matar nada, nem mesmo um inseto. Hoje o "New York Times" publicou uma matéria interessantíssima sobre uma prática controversa do jainismo: o santhara (ou sallekhana, ou samadi-marana, ou sanyasana-marana, ufa), o jejum ritual que leva à morte. Quando uma pessoa sente que já cumpriu sua missão na Terra, ou está desenganada, pede permissão ao guru para parar de comer e beber. Tem família que chega a publicar anúncio em jornal comunicando o fato, e a casa se transforma num centro de peregrinação. Todo mundo quer ver de perto o futuro santo - acredita-se que o santhara liberte a alma do ciclo de reencarnações. Dizem até que seus praticantes morrem sorrindo, emitindo um brilho misterioso. Depois o cadáver é colocado em pose de oração e desfilado pelas ruas, para dar o exemplo. Mas este rito milenar está sendo contestado na Índia, cujas leis de inspiração britânica (e do século 19) proíbem o suicídio. Estão querendo criminalizar o santhara (a família seria responsável) e já teve até passeata de jainista clamando por liberdade religiosa. A reportagem me deixou encafifado, e me questionando o quanto eu ando distante de qualquer tipo de espiritualidade. O jainismo nem tem um deus como o entendemos: suas divindades estão mais para os nossos anjos, e ninguém criou o universo nem o tempo, que são eternos e cíclicos. Claro que não estou pensando em me converter, mas fiquei curioso. E com uma certa inveja desse desprendimento todo, muito longe da minha vida ávida por confortos. Sem falar que desfilar morto nos braços do povo é um luxo.

A MULHER-POROROCA


Quem diria? O melhor disco brasileiro do ano até agora é "Do Tamanho Certo para o Meu Sorriso", que celebra os 40 anos da carreira de Fafá de Belém. Gravado em apenas quatro dias sob o comando do DJ Zé Pedro, o novo trabalho da "Musa das Diretas" é brega, esparramado, moderno e contagiante feito uma gargalhada. Fafá chegou ao sul em 1975, quando o Pará praticamente não existia no mapa musical brasileiro. Apesar de sempre ter gravado compositores da Amazônia e até de ter sua cidade natal no nome, ela nunca foi associada aos ritmos paraenses como Ivete Sangalo ou Daniela Mercury são ligadas ao axé. Mas hoje em dia o Pará é um caldeirão fervente, e sua filha mais famosa se atira nele com gosto. Todas as faixas têm aquelas guitarrinhas meio faroeste e percussão eletrônica fortemente influenciadas pela cumbia e pelo reggaetón. Algumas são boleros pós-modernos, como a assumidamente gay "Volta", do pernambucano Johnny Hooker - e que foi tema de "Tatuagem", um dos filmes mais bichas de todos os tempos. Fafá, aos 59 anos, não só está com a voz praticamente intacta, como se tornou uma grande atriz: ela modula intenções para atingir o maior efeito dramático, ao mesmo tempo em que o riso incontrolável não deixa que nada seja levado demasiado a sério. Gaby Amarantos, Lia Sofia e muitas outras estrelas da constelação amazônica são todas tributárias desse rio caudaloso que é Fafá de Belém, uma mulher que se joga de encontro ao novo com a fúria de um vagalhão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

PINCHE GÜEY


Não é que ninguém consiga acompanhar todas as séries que aparecem por aí: ninguém consegue acompanhar nem as séries exclusivas do Netflix. Parece que toda semana sai uma nova, e quase todas são bacanas. Agora começam a surgir as primeiras gravadas em outras línguas que não o inglês. A pioneira em espanhol é a mexicana "Club de Cuervos", uma comédia dramática sobre um time de futebol fictício. Seus autores foram responsáveis por um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos por lá, "Los Nobles: Quando os Ricos Quebram a Cara" (que, no entanto, passou batido pelos cinemas daqui). Essa incursão pela TV não é nenhuma obra-prima, mas mais do que dá para o gasto. Os roteiros são engraçados e eficazes, a direção é segura e o elenco é encabeçado pelo ator mais badalado deste momento no México: o magérrimo Luís Gerardo Mendez, que é bem my cup of tea. Mas uma das razões que mais me prenderam ao programa é a avalanche de gírias mexicanas. Durante dez anos eu fui muito ao DF, mas há mais de quatro anos que não piso lá. "Club de Cuervos" está me martando as saudades de expressões como padrissimo, güey, pinche e cabrón.

SINCRONICIDADE

Meu marido passou mal no sábado e me pediu para comprar um remédio contra náusea. Pedi uma indicação para o farmacêutico e ele me recomendou Dramin, um medicamento do qual eu havia me esquecido totalmente. Naquela noite fui ao aniversário de uma amiga e uma das convidadas contou que tinha tomado Dramin para poder dormir num voo de longa distância. Ontem conheci um americano que nasceu em Sleepy Hollow, uma cidadezinha no estado de Nova York. Cheguei em casa e liguei a TV - adivinha que filme estava passando? "Sleepy Hollow", conhecido no Brasil como "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça". Hoje de manhã li um artigo que citava um certo Eduardo Jorge (não o ex-candidato pelo PV). Logo depois, li na seção de cartas do jornal um reclamação assinada por um outro Eduardo Jorge. E estas foram só algumas das muitas coincidências que vêm me acontecendo nos últimos três dias. Carl Jung chamava isto de "sincronicidade". Em outros tempos, eu acharia que todos esses acasos seriam um sinal de que alguma coisa interessante estaria por acontecer. Hoje não sei mais se acredito nisto. E você, ainda pensa que o universo conspira a seu favor?

domingo, 23 de agosto de 2015

NÃO ME CATIVOU


Saímos de casa com o firme intuito de ver "Linda de Morrer", a nova comédia boba da Glória Pires. Mas o meu Alzheimer está avançando e eu me confundi com os horários das sessões. Chegando ao cinema, o único filme que vagamente nos interessava e começava naquele horário era "O Pequeno Príncipe". Digo vagamente porque eu nunca li o clássico de Saint-Exupéry. Ele era conhecido como o favorito das misses quando eu era pequeno, e como miss era uma coisa beyond cafona, achei melhor não. Mas meu marido guarda uma boa lembrança, portanto lá fomos nós. E nos arrependemos amargamente. Sim, porque o que está em cartaz não é "O Pequeno Príncipe": é uma história chatíssima de uma menininha com uma mãe workaholic, que a obriga a estudar sem parar. O que a faz descobrir o personagem é um velho aviador que mora na casa ao lado, meio que o próprio Saint-Exupéry. Como se o escritor não tivesse desaparecido com seu avião no mar durante a 2a. Guerra. Aí entram cenas do principezinho em seu planeta, com uma técnica de computação tão sofisiticada que eu jurava que era stop motion. Mas é muito pouco e, para estragar de vez, o roteiro deturpa a mensagem original. Que não é sobre manter acesa a chama da infância dentro de nós: isto é "Peter Pan". "O Pequeno Príncipe" é muito mais complexo - é sobre a morte, a solidão, a sabedoria, as transformações (não, não li o livro, mas sei do que se trata, e sei citar muitas passagens). Como se não bastasse, a animação da história principal, que toma uns 80% da duração, segue o mesmo estilo de traço da Pixar, com pessoas de olhos enormes. Uma traição e tanto aos desenhos de Saint-Exupéry. Tu te tornas responsável por aquilo que cativas: como meus leitores se tornaram importantes para mim pelo tempo que gasto com eles, recomendo a todos que mantenham distância dessa joça. Ou deixem-se morder pela serpente.

sábado, 22 de agosto de 2015

DIVÓRCIO À ISRAELENSE


Depois de ter passado duas horas preso numa laje em Buenos Aires com seis mulheres falando sem parar, parece que eu tomei gosto pela coisa e fui ver "O Julgamento de Viviane Amsalem". E aí passei duas horas trancado num tribunal rabínico em Israel, com juízes e queixosos falando, falando e falando. E não chegando a lugar nenhum. Este é o ponto do filme: a protagonista quer se divorciar, mas depende do aval do marido. O processo se arrasta por CINCO ANOS. É uma crítica dura ao machismo do judaísmo tradicional, onde a mulher reclama mas não tem voz. O absurdo da situação enlouquece a todos, mas ninguém quer ceder. Por isto, só posso recomendar "Viviane Amsalem"- que foi o escolhido dos israelenses para representá-los no Oscar deste ano, e que conseguiu ser indicado ao Globo de Ouro - para quem se interessar muito por costumes arcaicos e religiões opressivas. Na matriz abrâmica está a origem do sistema sexista que perdura até hoje, e é apavorante vê-lo operar sem restrições. Mas agora preciso ver um filme de ação com muitos efeitos especiais, e logo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

CATAPLOFT

Vou para Londres a trabalho daqui a pouco mais de um mês, justo a tempo de perder a Dismaland. O parque temático criado por Banksy abriu hoje perto de Bristol e vai até 27 de setembro, dois dias antes de eu pisar solo britânico. Mas, mesmo se a duração for prorrogada, vai ser difícil conseguir ingresso. Tem tanta gente tentando que o site não para de cair. E claro que os engraçadinhos já estão dizendo que toda essa raiva e frustração fazem parte da experiência macabra...

FLAGRANTE DELITO

E aí, já chegou se o seu nome aparece na lista que vazou com os dados de 37 milhões de clientes do Ashley Madison? Duvido: como boa parte do meu leitorado é gay, imagino que nenhum de vocês que me prestigiam tenha se inscrito no mais famoso site de adultério do mundo. Fora que, para pular a cerca, as bibas contam com apps muito mais discretos e eficientes. Eficiência, aliás, nunca foi o forte do Ashley Madison: consta que 80% dos usuários do site são homens héteros, portanto não deve rolar muita coisa na real. E por falar em real, 37 MILHÕES de usuários? Levando em conta que os EUA têm algo em torno de 65 milhões de homens casados, isso implicaria numa proporção absurda deles tentando marcar aventuras pelo site. OK, o A.M. é canadense e está disponível quase que no mundo inteiro, mas tá na cara que esse número inclui muitos fakes e duplicados. Mas alguns são pra valer: já surgiram histórias de caras que receberam e-mails de chantagistas ameaçando contar tudo para as esposas se não receberem uma bolada. Enfim, como eu disse neste post de 2010, o Ashley Madison vende basicamente uma fantasia, e aposto que pouca gente chegou às vias de fato. Tanto que o marketing deles nunca se preocupou em seduzir o público feminino, como se pode ver no delicado anúncio acima. Quem sabe agora, que a mulherada vai começar a tomar Addyi, a coisa mude de figura.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

CONTRA MAS A FAVOR

Quem gosta de absurdos também foi bem servido pelas passeatas de hoje. Como esse aí do lado, que fustiga ao mesmo tempo um algoz do governo e o seu mais importante ministro. Não foi o único: o que mais me chamou a atenção foi a quantidade de gente se dizendo contra o impeachment mas criticando a presidenta (nesse ponto, tamo junto!). O apoio a Dilma está longe de ser amplo e irrestrito, o que só demonstra a fraqueza política dela. Mas a incoerência também campeia no lado que pede seu afastamento. Como já disse muitas vezes, ninguém pode ser a favor da Lava-Jato e defender Eduardo Cunha. Infelizmente, esse parece ser um retrato acabado do Brasil de hoje. Todo mundo é contra, mas também é a favor.

A INJUSTIÇA É CEGA

Pronto: Eduardo Cunha e Fernando Collor de Mello foram denunciados pela PGR ao STF. É mais do que provável que as denúncias sejam aceitas e os dois se tornem réus. Collor não deve ter nenhum apoiador fora de Alagoas e já entrou para a história como o presidente que traiu a redemocratização do Brasil. Mas Cunha ainda tem milhares de fãs, pelo menos até o momento. Este fenômeno é para lá de curioso: basta olhar a página do cara no Facebook e perceber que são pessoas com acesso à informação. E no entanto, elas insistem na ficção de que o deputado fluminense é o paladino da justiça contra a bandalheira do governo. Não há anti-petismo que justifique tamanha cegueira; é só passar uma vista d'olhos na biografia de Cunha para entender que ele se envolveu em escândalos desde o primeiro momento, quando foi presidente da extinta Telerj. Seu currículo inclui de PC Farias a Garotinho, seu rastro cheira mal e, como se não bastasse, suas ideias são as piores possíveis. Só o fato de defender o financiamento das campanhas por empresas com unhas e dentes já mostra que ele está à venda, e disposto a tirar vantagens financeiras de tudo. Mas nem sua oposição ao casamento igualitário impede que alguns amigos gays o achem "digno". Vão ler jornal, queridos. Quem frequenta este blog sabe que eu também não gosto do PT, mas Cunha é o demônio encarnado. Todos os defeitos políticos numa só pessoa. Por isto, vou abrir uma garrafa de champagne quando ele tiver que sair da presidência da Câmara, e duas quando ele for preso.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O TIC-TAC DO MEU CORAÇÃO

A votação na ALERJ do projeto de lei que prevê multas para quem "satirizar" religiões foi adiada para daqui a cinco dias. A sessão do STF que talvez descriminalize a posse de drogas foi suspensa até amanhã. A denúncia de Eduardo Cunha na Lava-Jato, que chegou a ser anunciada para hoje, talvez não saia até sexta. Todas essas notícias encruadas trarão consequências para o Brasil, mas não dá para apressar o relógio. Estamos à espera. E o meu coração na alegria bate muito forte, mas na tristeza bate fraco porque sente dor...

O PL DA DESGRAÇA

E de repente, em cima da hora, somos avisados que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro está votando HOJE um projeto de lei que pode criminalizar a liberdade de expressão no Brasil. Elaborado por um deputado evangélico (claro), o chamado "PL da Desgraça" estabelece que qualquer encenação ou charge que ridicularize ou erotize qualquer religião não só pagará 270 mil reais de multa como poderá ser imediatamente interrompida pela PM. O texto foi inspirado pela performance da trans Viviany Delebony na parada gay de São Paulo, que de sátira não tinha nada: era uma denúncia séria contra a violência sofrida pelos LGBT. O autor dessa patacoada, Fábio Silva (PMDB) citou até o massacre no "Charlie Hebdo" para se justificar: "o insulto à crença de um povo motivou esse absurdo, que foi a morte de 12 pessoas". Hã,  mas então foram os cartunistas os culpados pela própria morte? Não foram os terroristas? Ainda não sei do resultado da votação na ALERJ, mas não duvido que tamanho descalabro passe com louvor. Aí temos que rezar para o governador Pezão vetar, e talvez se indispor com boa parte de seu eleitorado. Ah, Brasil, como tá difícil viver aqui.

(Leia aqui a opinião do Gregorio Duvivier, e assine a petição ASAP)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

AS GAROTAS DA LAJE


O cinema argentino desandou? Ou os poucos filmes que têm chegado até aqui não são representativos da cinematografia de lá? "Las Insoladas" é o quarto espécime que eu vejo este ano, e a quarta decepção. O diretor Gustavo Toretto emplacou um hit com o mediano "Medianeras", que todo mundo ama menos eu. Ele parece ter se obrigado a ambientar seus filmes em prédios, pois este se passa quase todo numa cobertura em Buenos Aires. Não há plot: só seis portenhas numa laje falando sem parar. Todas reclamam muito da vida, apesar de jovens e saudáveis. Como o filme se passa nos anos 90, há detalhes engraçados como um recém-chegado celular (ainda com antena) e menções ao ex-presidente Menem (eu não sabia que a gente deve se benzer quando ouve o nome dele, porque dá um azar pelotudo). Mas Toretto acha suas garotas muito mais interessantes do que elas realmente são. A câmera lambe com volúpia os corpos dourados, que são todos bonitos - já os rostos... Só que nenhuma delas se torna um personagem palpável, com passado e presente. O futuro, já sabemos que dificilmente se realizará, posto que elas sonham com uma viagem a Cuba que está fora do alcance de seus bolsos. "Las Insoladas" não chega a ser chato, mas para mim só serviu para matar as saudades do sotaque de Baires. Cadê o "Relatos Selvagens" de 2015?

AHAM, SENTA LÁ, XUXA

Um dos vários programas que Dercy Gonçalves teve entre os anos 60 e 70 chamava-se "Dercy de Verdade". O título se referia à ausência de freios da apresentadora, que falava o que lhe viesse pela cabeça. Esse nome também combinaria com Xuxa, que estreou ontem na Record sem a menor papa na língua. A espontaneidade sempre foi o ponto forte da ex-rainha dos baixinhos: desde os tempos da TV Manchete, o que encantava as crianças era a falta de cerimônia com que ela as tratava, de igual para igual e até com uma certa rispidez. Xuxa perdeu o bonde da história ao insistir em se aferrar ao público infantil mesmo quando seus fãs já estavam todos crescidos, e agora corre atrás do prejuízo. Talento e experiência ela tem de sobra para se firmar como apresentadora adulta, sem perder o frescor e a desfaçatez. Dito isto, o programa "Xuxa Meneghel" ainda tem muito a melhorar - mas isto é normal para qualquer estreia. O palco é grande demais e me passou várias vezes a sensação de vazio. Vazia também estava a pauta, como bem reparou o Mauricio Stycer: depois de um longo prólogo cheio de boas piadas sobre si mesma, os primeiros convidados foram... os atores de "Os Dez Mandamentos". Sim, vai ser difícil trazer convidados de peso toda semana, mas a Hebe conseguia. Beleza que a Record queira promover sua novela, mas para quem não a assiste (como eu) foi a senha para mudar para a Globo e ver mais uma grande cena de Grazi Massafera como nóia em "Verdades Secretas".

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CANSADO DE MATAR


Acho que nenhum assunto foi tão explorado pelo cinema e pela TV nos últimos tempos quanto os serial killers. As histórias já estão se repetindo: o sujeito com a cara mais inocente do mundo na verdade é um cruel assassino de mulheres, e no fundo ele sofre muito por ser tão mau. Foi assim na minissérie "Dupla Identidade" que Globo exibiu no ano passado e é assim no filme francês "Na Próxima, Miro no Coração". A diferença é que aqui a trama horripilante é baseada em fatos reais, e o bandido é o próprio policial encarregado de investigar as mortes. O ator Guillaume Canet foi indicado ao César e está assustador no papel de um homem que se autoflagela para tentar controlar o desejo. Mas o clima soturno e o estudo psicológico não são suficientes para evitar uma certa fadiga do gênero.

INFLADOS

No final deu empate: as manifestações não floparam, como alguns petistas renitentes ainda teimam, mas também não foram o tsunami capaz de derrubar tudo o que aparecesse pela frente. Teve mais gente do que em abril, mas menos do que em março - e olha que os números da economia pioraram muito de lá para cá. Sim, não faltaram malucos com cartazes absurdos ("Volta Sarney" é o campeão na categoria), mas eles também aparecem quando há protestos da esquerda. Fazem parte da democracia, por mais que a gente os ache ridículos.

Às quatro da tarde de ontem peguei meu cachorro e fomos dar um rolé no final da Paulista. Ainda havia muita gente. É bizarro ver o Batalhão de Choque da PM posando feito popstars, mas não faltavam indignados com boas razões para estar lá. Só que tive  a sensação de não estarmos saindo do lugar: uma galera vai para as ruas, outra fica na internet chamando os demais de coxinha, o governo balança mas não cai. E a crise continua, sem soluções à vista. Talvez isto seja bom: o que menos precisamos neste instante é de um salvador da pátria montado num cavalo branco. A Itália passou por uma convulsão anti-corrupção há alguns anos e acabou elegendo o Berlusconi. Mas o fato é que estamos num looping desde o começo de 2015, sem nenhum lado forte o suficiente para se impor ao outro. Pelo menos o dia 16 de agosto produziu uma imagem fortíssima, o inflável do Lula presidiário que flutuou no DF. Não é um ponto de inflexão, mas é um símbolo.

domingo, 16 de agosto de 2015

IR OU NÃO IR

As manifestações marcadas para hoje prometiam ser as maiores de todos os tempos. Com o governo fraco como está, uma enxurrada de gente nas ruas seria o golpe de misericórdia. Mas parece que as pessoas pararam para pensar no day after. E não só as pessoas: nesta semana que passou foi costurado um acordo entre as elites econômicas e o Planalto, pois o clima de instabilidade faz mal para os negócios. Porque a história não acaba com a queda de Dilma. Depois viria o Temer, ou - pé de pato mangalô três vezes - Eduardo Cunha. Aliás, não faz o menor sentido as passeatas protestarem contra a presidenta e pouparem o líder da Câmara, a figura mais nefasta a surgir no cenário político em muitos anos. Quem diz que é a favor da Lava-Jato mas prefere poupar Cunha esquece que, se o nobre deputado assumir o poder, sua primeira providência vai ser despachar Rodrigo Janot para Marte e melar as investigações. Por tudo isto, não me animo a ir para a Paulista. Continuo sendo contra o governo, mas também continuo sendo contra o impeachment. Será que existe alguma manifestação que me represente?

sábado, 15 de agosto de 2015

A PÓS-VIDA DE ADELE


"A Dama Dourada" levanta uma questão importante: a quem pertence uma obra de arte? Quem pagou por ela? Ou à cultura de onde ela surgiu? Ou, aham, à toda a humanidade? O filme conta a história real de Maria Altmnann, uma sobrevivente do Holocausto que processou o governo austríaco para recuperar as telas de Klimt saqueadas pelos nazistas da casa de sua família em Viena. Entre elas está um dos quadros mais espetaculares de todos os tempos, o "Retrato de Adele Bloch-Bauer". Sim, Adele era tia da nossa protagonista, mas será que, passado tanto tempo, a chamada "Mona Lisa da Áustria" deveria sair da parede do palácio Belvedere e ir parar numa coleção particular? O caso aconteceu há mais de dez anos, e eu fui para o cinema já conhecendo o desfecho. Que, aliás, é óbvio para qualquer espectador com um mínimo de quilometragem. Mas o que salva "A Dama Dourada" da overdose de fofura de outros trabalhos recentes de Helen Mirren (como "A 100 Passos de um Sonho") são os flashbacks, com primorosa reconstituição de época, e as reverbarações que afetam a personagem. Maria Altmann não luta apenas por justiça: ela também sofre pela culpa de ter deixado os pais para trás. O roteiro bem amarrado, mais o elenco cheio de caras conhecidas (quantos atores de séries de TV você cosegue identificar?), fazem desse filme uma surpresa agradável. Adele Bloch-Bauer, já eternizada numa imagem esplêndida, ganha mais uma camada de sobrevida.

MORTA SUPLICY

Mór-reu. Morreu qualquer tentativa de Marta Suplicy de nos fazer acreditar que ela teria deixado o PT por razões ideológicas. Quem troca de partido em busca de ares mais puros não vai para o PMDB, a cloaca máxima da política brasileira. Morreu também qualquer chance de eu votar nela para prefeita de São Paulo, no ano que vem. Nem por decreto-lei que eu vou entregar a cidade que eu moro para a mesma agremiação de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, José Sarney e tantos outros luminares que escurecem nossas vidas. Marta emporcalha sua biografia ao se juntar a essa gangue, e mostra que no fundo jamais defendeu ideal nenhum: só quer o "pudê", mais nada, e foda-se todo o resto. Do jeito que a coisa vai, com Datena, Russomano e João Dória também disputando o pleito paulistano, eu vou acabar votando no Haddad.

(a foto  foi roubada da página do Facebook que tem o mesmo nome desse post)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A MEMÓRIA DAS RUAS

Em 2011, quando eu estive em Johannesburgo, na África do Sul, reparei que muitas ruas tinham nomes de antigos políticos africâneres. Ou seja: todos apoiadores do odioso regime do apartheid, extinto em 1994 quando Mandela assumiu a presidência Perguntei porque mantinham essa homenagem aos algozes, e me responderam que eles fazem parte da história do país. Uma maneira bonita de dizer que essa manutenção deve ter feito parte do acordo que permtiu a transição para a democracia. Agora a prefeitura de São Paulo quer mudar o nome de todos os logradouros batizados com figuras ligadas de alguma maneira à ditadura militar. Estão no mesmo saco personagens relativamente benignos como o marechal Castelo Branco (também nome de rodovia), que acabou com a inflação e pretendia devolver logo o poder aos civis, como vilões consumados como Henning Boilesen e Sergio Fleury. O projeto "Ruas de Memória" prevê que sejam instaladas placas com os nomes antigos, explicando o porquê da mudança. Por um lado acho bacana; por outro, me cheira a um certo revanchismo. Quem está no poder gosta de rebatizar tudo: São Petersburgo virou Leningrado e depois virou São Petersburgo novamente, o que mostra que nada é para sempre. Mas também é legal que o monstruoso elevado Costa e Silva, que ninguém jamais chamou desse jeito, seja oficialmente Minhocão, antes de vir ao chão de uma vez por todas. Pelo menos em São Paulo não se faz o que é comum em outras parte do Brasil, onde se usam nomes de políticos ainda vivos e até de seus filhos pequenos para batizar lugares.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

TOMO GUARANÁ, SUCO DE CAJU


Ivete Sangalo e Criolo são como as bebidas citadas na letra de "Do Leme ao Pontal". Cada um é gostoso do seu jeito, mas a ideia de saboreá-los juntos não parece muito tentadora. Só que os dois combinam entre si, e também com o repertório de Tim Maia. O disco que reúne os três, gravado ao mesmo tempo que a turnê patrocinada pela Nivea rodou o Brasil, é uma delícia. Criolo é ótimo cantor, mas nem de longe tem o vozeirão de Tim. Na verdade, Veveta canta em tom mais grave do que ele nas faixas mais lentas. Só que a química funcionou entre essa dupla inusitada. A crítica que se pode fazer é à relativa chapa-branquice do projeto. Os arranjos são competentes, mas nada ousados. E as músicas são quase todas hits consagrados: a única que não se encaixa nessa categoria é "Telefone". Mas esperar inovação seria demais de algo que, em última análise, é uma ação de marketing que procura atingir o maior público possível. "Viva Tim Maia" é tão bacana que é impossível não cantar junto.

O SEGUNDO IMPÉRIO


Imagine uma trama chamada "Império", sobre uma empresa com o mesmo nome. Seu dono e fundador tem um passado misterioso, e agora não sabe para qual de seus filhos deve deixar a companhia. Para complicar, sua ex-mulher está disposta a embolar o meio de campo. Soa familiar, e é: tanto a novela de Aguinaldo Silva quanto a série "Empire", que estreou ontem no canal Fox brasileiro, são descendentes da peça "Rei Lear" de Shakespeare. A versão americana é simplesmente o programa de maior audiência deste ano nos EUA, e eu estava morrendo de curiosidade para ver. Mas o primeiro episódio não me pareceu sensacional. Apenas somos apresentados aos personagens - o empresário poderoso dona de uma gravadora (onde que isso ainda dá dinheiro?), o filho caxias engomadinho, o filho rapper vagabundo, o talentosíssimo filho gay e a mãe incendiária, que sai da cadeia depois de 17 anos. Ela se sacrificou pela família: assumiu toda a culpa do marido, quando os dois, que eram traficantes de drogas, foram pegos pela polícia. Agora a bitch quer vingaaançaaaa, e isto é ótimo. Dá para perceber que Taraji P. Henson, a única do elenco que foi indicada ao Emmy, está se divertindo muito no papel de Cookie Lyons, a matriarca barraqueira. Mas no geral os diálogos são bem óbvios e algo forçados, algo que é típico na TV aberta também por aqui. As coisas devem melhorar nos próximos capítulos, se levarmos em conta a bola de neve em que o seriado se tornou. "Empire" lembra uma versão negra e adulta de "Glee". Ah, e preparem-se para mais uma mini-polêmica: o protagonista Lucious Lyons, interpretado por Terrence Howard, sofre de esclerose múltipla. A mesma doença que afligirá o personagem de Alexandre Nero em "A Regra do Jogo"...

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

MODELOS DE ROLA

Um leitor me chamou a atenção para um artigo para um texto publicado no site Os Entendidos. O artigo "Querido Gay Bonito, Para que Tá Feio", assinado por Fabricio Longo, critica a reação de Harry Louis aos internautas que o xoxaram no Instagram. Consta que o ex- de Marc Jacobs postou fotos dele e do namorado exibindo os tanquinhos em Paris, galgando vários degraus na escadaria da ostentação. Concordo com muito do que o Fabricio diz, mas gostaria de acrescentar umas coisinhas. Primeiro: acho fascinante quem segue um famoso em rede social só para trolá-lo. Isso está virando tão comum que parece que o Comitê Olímpico irá regulamentar essa nova modalidade para os jogos de Tóquio em 2020. O que se passa na cabecinha dessa gente? Quem segue o Harry Louis espera que ele poste o quê? Reflexões profundas sobre o vazio da existência? E aí caímos em outro assunto. Com todo o respeito ao rapaz, que é realmente uma beleza, para quê levar tão a sério o que ele diz? Harry Louis é ex-ator pornô e agora "ataca de DJ". Não quero soar moralista, mas é só a comunidade gay que endeusa os astros XXX. Os caras gozam (hehe) de status de semideuses entre nós, como se fossem resolvidíssimos e "role models". São só modelos de rola, perdão pelo trocadilho óbvio. Tenho certeza que o Harry é um fofo e não tenho absolutamente nada contra ele. Mas se incomodar com as besteiras que ele diz é meio que concordar com elas. Deixar que ele nos oprima é querer ser oprimido. Dá pra ser melhor.

ORIENTE PEQUENO

"O Árabe do Futuro" é a nova sensação dos quadrinhos políticos. Tem alguma semelhança com o já clássico "Persépolis" de Marjane Satrapi, pois conta - também em preto-e-branco e em quatro volumes - uma infância em lugares conturbados do Oriente Médio. Riad Sattouf é filho de um sírio com uma francesa e, quando pequeno, morou na Líbia de Kaddafi e na Síria de Assad (o pai do atual ditador). Os dois países eram, na virada dos anos 70 para os 80, as vitrines do "socialismo árabe". A Líbia, inclusive, atraía profissionais de todo o mundo árabe, como foi o caso do pai de Sattouf. Mas por baixo dos discursos retumbantes e das promessas de paraíso na terra havia miséria, corrupção e brutalidade. MUITA brutalidade, entranhada nas culturas locais. Sattouf com certeza seria chamado de racista e agente do imperialismo se não fosse, ele mesmo, o árabe do título de seus livros. Chega a ser engraçado saber que as casas líbias não eram propriedade privada e podiam ser tomadas por qualquer um. Mas, se uma família saísse junta para um passeio, corria o risco de encontrar outra família em seu lugar quando voltasse, e todos seus pertences jogados no meio da rua. A Síria é ainda pior, com crianças violentíssimas (há uma cena com um cachorrinho que vai me apavorar pelo resto da vida) e muito ódio irracional aos israelenses e às minorias étnicas. Com humor adulto e assombro infantil, Sattouf espalha pistas das razões pelas quais o Oriente Médio continua uma bagunça. Uma região onde a primavera não vinga, os direitos humanos são considerados exotismos ocidentais e o progresso material só se sustenta com petróleo ou ajuda externa. Claro que não há só horrores: também surgem figuras simpáticas como as avós, ou mesmo intrigantes como o pai, que se pretende moderno e secular mas no fundo é tão preconceituoso quanto os anciãos de sua aldeia. Por enquanto só saíram dois volumes em francês (o primeiro já foi traduzido no Brasil). Os próximos dois saem em 2016 e 2016, respectivamente. Essa infância fascinante, riquíssima em detalhes de que eu jamais conseguiria me lembrar com tão pouca idade, ainda tem alguns anos pela frente. Leitura obrigatória e divertidíssima.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

REVISTINHA SUECA


A Suécia foi um dos primeiros países do mundo a legalizar a pornografia, no começo dos anos 70. Um dos resultados foram as famosas "revistinhas suecas", uma das possessões mais preciosas e cobiçadas da época da minha adolescência. Esse começo foi só para dizer que eu vou passar em revista dois lançamentos recentes da música pop da Suécia. Desde os tempos do ABBA, o país se tornou a terceira maior potência global do gênero, atrás apenas dos EUA e da Grã-Bretanha. Seus compositores e produtores são disputados por artistas do mundo inteiro. Eles estão por trás de vencedores do Eurovision e dos ídolos do K-Pop, por exemplo. Mas de vez em quando fazem trabalhos para si mesmos. É o caso do Galantis, uma dupla de DJs/produtores que inclui o semi-famoso Bloodshy, parte do trio Miike Snow e co-autor do "Toxic" da Britney Spears. Este novo projeto não tem nada de experimental. Pelo contrário: o Galantis só quer emplacar hits e botar o povo pra dançar nos festivais de música eletrônica. Todas as faixas do álbum "Pharmacy" têm apelo comercial, o que chega a ser irritante se ouvidas em sequência. Mas não há apelaçâo como a dos conterrâneos Aviici e Alesso nem vocalistas sensualizando, e sim uma preocupação em fazer vídeos interessantes. Achei divertido, ainda que meio para adolescentes (o público das revistinhas, hehehe).

Os mais crescidinho vão preferir Jay-Jay Johanson, há anos na estrada. "Opium" não traz grandes novidades: ele continua cantando bem sobre tristonhas bases eletrônicas (o rockinho "Moonshine", o primeiro single, é uma exceção). Jay-Jay nunca foi muito famoso no Brasil, apesar de já ter emplacado música em trilha de novela e feito alguns shows por aqui. Merece deixar de ser "cult", pois é um dos pratos mais finos desse smorgasbrod que é pop sueco.

CARNINHA


"Real Beleza" está sendo uma bomba de feito retardado para mim. Não morri de paixão quando vi o filme no cinema. Achei até um pouco lento, e olha que são apenas 84 minutos. Mas tem uma sequência que não me sai da cabeça. É aquela em que Adriana Esteve aparece totalmente nua. Passada a excitação juvenil de ver a Carminha pelada, a real beleza da cena foi aos poucos se decantando. A personagem é uma mulher casada com um homem muito mais velho (Francisco Cuoco, canastrão como sempre), que além de tudo está ficando cego. Ela se despe para terminar de seduzir um fotógrafo (Vladimir Brichta, seu marido na vida real). É interessante essa necessidade de se sentir bonita, de ser observada e registrada pela câmera. Depois disso os dois se agarram com vontade, e eu quase me senti sem graça por estar espionando um casal de verdade. No mais, o mundo das modelos aqui apresentado é mamão com açúcar perto da decadência de "Verdades Secretas". E o final tem algo de "As Pontes de Madison", mas sem melodrama. É até discreto demais. "Real Beleza" é um filme pequeno, mas tem seu lá seu encanto.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

NOVÍSSIMA ZELÂNDIA

Hoje o governo da Nova Zelândia revelou os 40 desenhos finalistas do concurso que talvez eleja uma nova bandeira para o país. Houve mais de 10 mil inscritos, alguns tão bizarros que parecem ter sido feitos por uma criança sob o efeito de LSD. Agora um painel de experts escolherá quatro que serão submetidas a um plebiscito no final deste ano. A campeã do voto popular participará de uma outra consulta, a se realizar em 2016: se esta nova proposta subsituirá a bandeira atual, que ainda inclui a britânica Union Jack e é frequentemente confundida com a da vizinha Austrália. Mas pesquisas recentes revelam que a maioria da população não quer mudança nenhuma e prefere manter tudo como está. Acho uma pena: alguns desses designs modernos são realmente bonitos. Muitos incluem a samambaia prateada típica da flora de lá, outros (meus preferidos) incorporam o "koru", um motivo gráfico característico da cultura maori. Por outro lado, ainda bem que não estão fazendo nenhum concurso parecido no Brasil. Do jeito que as coisas vão, nossa nova bandeira teria a cara do Cristiano Araújo.

(examine aqui as 40 finalistas em detalhe e escolha a sua favorita)

O HOMEM QUE SABE O QUE QUER

Neste final de semana circulou a notícia de que Lula teria sido sondado para assumir um ministério no governo Dilma. Ele não aceitou. Dá para entender as razões dos dois lados. A presidenta não tem mais a quem recorrer: seu antecessor entraria em cena como a cavalaria num filme antigo de faroeste, salvando o forte do ataque dos índios. O fato de que Lula provavelmente eclipsaria Dilma é o de menos - ainda mais se fosse para a Casa Civil, que pode dar superpoderes ao seu ocupante. Com ele no comando da coordenação política, o segundo mandato ganharia uma grande chance de navegar sobre águas mais tranquilas até o seu final. Claro que existe um risco embutido: o ex-presidente não tem mais a aura que tinha em 2010, quando a economia bombava e ele teria sido reeleito com folga se pudesse concorrer. Mas Lula não quer saber de riscos. Ele sonha em voltar ao Planalto nos braços do povo em 2018, ou até antes, se esse delírio aecista de eleição antecipada se concretizar. Por isto, o melhor que tem a fazer é se manter a uma distância segura do atual governo. Para que nada respingue sobre ele e para manter a sensação de que no tempo dele é que era bom. Como dizia o slogan do extinto cigarro Minister, Lula é um homem que sabe o que quer. Um ministério para ele, neste momento conturbado, não lhe traria muitas vantagens práticas. Melhor ver o circo pegar fogo de longe e depois aparecer com um extintor.

domingo, 9 de agosto de 2015

A COMÉDIA DA TOLERÂNCIA


"Que Mal Eu Fiz a Deus?" foi o maior sucesso de bilehteria da França no ano passado, e isto é um ótimo sinal. Num país que vem sendo palco de atentados contra sinagogas e jornais satíricos, a popularidade desta comédia contra o racismo e a favor da tolerância mostrou que esses crimes vêm das margens da sociedade,  e que a maioria é favorável às mudanças. Não é um grande filme, mas é bem feito e despretensioso. A premissa é até bastante forçada: numa família tradicional, evidentemente branca e católica, as quatro filhas se casam com membros de minorias étnicas. Um judeu, um árabe, um chinês e um negro. A grande sacada do roteiro é fazer com que o pai deste último genro também seja um racista: o embate entre os dois patriarcas, um o negativo do outro mas na verdade idênticos, rende as melhores cenas. Só ficou faltando um filho homem que surgisse com um namorado.

sábado, 8 de agosto de 2015

D-BEDGE

Fui baladeiro profissional durtante muito tempo. Ia pra night todo fim de semana, 52 semanas por ano, durante anos a fio. Claro que esse ritmo não ia durar para sempre. Hoje saio muito menos do que antes, talvez uma vez a cada dois meses. Ontem foi uma dessas vezes, ou quase. Incentivado por uns amigos, me animei e pus nossos nomes na lista VIP do aniversário de uma das festas mais bacanas de São Paulo. Eu e a torcida da seleção brasileira, porque, ao chegar lá, a fila dobrava a esquina e fazia pirueta. Ou melhor, todas as filas, de todas as listas. Inclusive a vipérrima onde os nossos nomes se encontravam. Passaram-se alguns minutos de aflição, em busca de uma hostess conhecida ou uma bóia de salvação. Eu não tinha para quem ligar: agora deixo o celular em casa, depois de ter sido roubado duas vezes em boates. Tampouco tenho mais saco. A experiência me ensinou que não há festa que justifique mais de uma hora de fila, ainda mais com tumulto. Resolvemos bater em retirada. Meus amigos foram em busca de outras plagas menos concorridas. Meu marido e eu fomos para a melhor balada do mundo, a D-Bedge. Nossa caminha.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

CARTA AOS PETISTAS

Oi galera, tudo bem? Não, né? Acho que a maioria de vocês nunca passou por um apuro tão grande. Nem na época do mensalão o PT foi tão achincalhado como agora. Concordo que muitos dos seus críticos são ignorantes e/ou mal intencionados. Tem muita gente mal-informada e muita gente que quer tomar o poder para nos roubar ainda mais. Mas também tem muita gente legal, honrada, que paga os impostos em dia e sonha coma sociedade mais igualitária. Muita mesmo. Eu me vejo entre eles. Não sou protofascista, não sou coxinha, não sou elite branca. Sim, sou branco e economicamente faço parte da elite, mas não nesse sentido pejorativo que vocês usam. Fico puto quando insinuam que eu não quero que pobre ande de avião, por exemplo. Claro que eu quero: quanto mais gente com poder de compra, melhor para todo mundo. Fico mais puto ainda quando ouço "fura fila na padaria, mas é a favor da Lava Jato". Pelamordedeus, que comparação é essa? Para começar, eu não furo a fila da padaria. Em segundo lugar: se eu furasse, não estaria roubando bilhões de dólares nem traindo a confiança de milhões de eleitores. Não, não é a mesma coisa, sorry. Fora que quem diz isto soa como sendo a favor da corrupção. Ah, tem mais: não ironizem os panelaços. Taticamente, vocês nem deviam mencionar os panelaços. Sabem aquele lance do "não pense num elefante"? É assim: não pensem num elefante. Pensaram, né? Pois é. E parem de achar que todo mundo que não votou na Dilma é nazista. Eu tenho horror ao Bolsonaro, ao Feliciano, ao Renan Calheiros, ao Eduardo Cunha, etc. etc. Mas continuo achando a Dilma uma péssima presidenta. Um desastre como administradora e uma política pior ainda. Isto não quer dizer que eu queira a volta da ditadura, ou que eu  seja ingênuo e esteja caindo na lábia do lobo mau. Quero - exijo - um governo competente e honesto. Hoje. Ontem. Sei que vocês também querem. Temos muita coisa em comum. Temos que construir pontes. Mas isto não está no DNA de muitos militantes do partido. Lula criou o clima do "nós ou eles" e surfou nessa onda muito tempo. Mas essa tática só dá certo quando se tem um amplo apoio, maior do que a maioria simples. Agora não funciona mais. Sim, acho feio que ex-ministros sejam agredidos em aeroportos e restaurantes, mas... lembram do "fora FHC"? Lembram como a Yoani Sánchez foi recebida no Brasil? Até puxaram aquele cabelão dela. Ou seja, não foi a oposição quem começou. Mas isto não vem ao caso: não estamos mais no jardim de infância, não importa quem começou. Deem o exemplo e parem primeiro. Na boa: a estratégia de vocês está TODA errada. O programa de ontem na TV só pregou aos convertidos. Não fez ninguém mudar de ideia. Até piorou o clima. Estou falando como um ex-publicitário que ainda manja um pouco do assunto e como alguém que quer o melhor para o país. Ufa! Por hoje é só. Beijos a todos e vamos "se" falando.

SUDÁRIO: IMPOSSÍVEL

Esta semana o nu frontal masculino deu as caras na mídia. Primeiro tivemos o acidente com Lenny Kravitz na Suécia; depois, o vídeo de Kevin Bacon pedindo mais piroca no cinema. E agora temos ninguém menos que Tom Cruise, se bem que apenas em ilustração. O astro de "Missão: Impossível" foi homenageado pelo artista plástico Daniel Edwards num sudário, comemorando seus 25 anos de filiação à Igreja da Cientologia. Edwards é um especialista em obras polêmicas: são dele uma escultura de Britney Spears dando à luz de quatro e outra do príncipe Harry morto em combate, com direito a um abutre. Cruise já declarou que não autorizou nem posou para o sudário, mas aposto que ficou lisonjeado. Sua representação edwardiana está batendo um bolão (ou dois, repare bem).

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

FALTA DE FOCO

Foi constrangedor o programa do PT. A primeira coisa que chamou a atenção foi a má qualidade da imagem: apesar de eu estar assistindo por um canal em HD, tudo me pareceu meio borrado e fora de foco. As legendas, então, estavam ilegíveis. Sabotagem do PIG? Ou faltou dinheiro para a pós-produção? O defeito na forma acabou servindo de metáfora visual para o conteúdo. E o áudio? Não deu para ouvir direito, muito barulho aqui na vizinhança. Panelas, buzinas e até gritos. Mais uma vez, acho que a programa mais prejudicou do que ajudou ao partido. A lógica tortuosa, jogando a culpa da crise econômica no exterior e delirando que ainda não existe crise política, foi indigna de João Santana. E para quê ironizar os panelaços? Para provocar ainda mais a classe média? Engraçado, pensei que estavam precisando de apoio. Essa propaganda foi uma aula do que não fazer.

BEIJA-ME MUITO

A novela portuguesa "O Beijo do Escorpião" acabou faz quase um ano, mas só ontem eu fiquei sabendo de sua existência. Fez muito sucesso no além-mar, e no entanto eu tremo em pensar na celeuma que causaria se fosse exibida por aqui. Tudo por causa do casal Paulo (Pedro Carvalho) e Miguel (Duarte Gomes), que se beijou, abraçou, amassou e transou durante meses a fio. As cenas entre os dois seriam consideradas fortes demais até para "Verdades Secretas", mas em Portugal nem causaram tanto escândalo. Também não prejudicaram a carreira dos atores: Pedro Carvalho está no Brasil, gravando a novela "Escrava Mãe" para a Record. Aí em cima tem uma compilação dos beijos entre Pedro e Miguel, mas no YouTube tem muito, muito, MUITO mais. Por que ninguém me avisou antes?

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

JANOT TE QUERO MAIS

Rodrigo Janot encabeça com folga a lista tríplice votada por seus pares, que o querem por mais dois anos no cargo de procurador-geral da república. Se for seguir a tradição, Dilma irá recomendá-lo ao Senado (e demonstrará grandeza de espírito). Mas é aí que mora o perigo: oito dos 27 titulares da Comissão de Constituição e Justiça do Senado estão sendo investigados pela Lava-Jato, além do presidente da casa, Renan Calheiros. Eles talvez não tenham o culhão político de rejeitar abertamente o nome de Janot, mas podem adiar a sabatina indefinidamente e criar um vácuo. Portanto, eis uma causa justa para ser lembrada nas manifestações do próximo dia 16. Não basta gritar "fora Dilma!": tem que lembrar que muitos dos inimigos da presidenta são mais podres que todo o PT junto. E Janot é peça importante para que essa corja continue a caminho da cassação e da cadeia. Mas, felizmente, parece que não é imprescindível: os dois outros procuradores da lista também são pró-Lava Jato. Agora é rezar - e gritar, se preciso for - para que ele permaneça onde já está.

COCK'N'ROLL

Faz um bom tempo que Lenny Kravitz não emplaca um sucesso nas paradas, mas desde ontem ele está de volta às manchetes do mundo inteiro. Para quem ainda não sabe: durante um show na Suécia, Lenny se abaixou durante um solo de guitarra, fez cara de coelho feroz e rrraaasg - suas calças de couro se abriram no meio, revelando que:
1) ele não usa cueca;
2) ele tem um piercing genital (ou seria um cock ring?)
3) ele é circuncidado (o pai dele é judeu, e a maioria dos americanos o é)
4) ele bate um bolão. Se mesmo flácido e esmagado o pau dele consegue emergir desse jeito, imagine quando estiver batendo continência.
Lenny percebeu o estrago e tapou o rombo com a guitarra quando se levantou, e depois foi para os bastidores trocar de roupa. Mas está levando de boa o acidente (apelidado de "penisgate" pela mídia americana), ainda mais depois que choveram elogios de todos os lados. Tomara que mais ex-famosos sigam seu exemplo e deixem escapar as joias da coroa para conseguir voltar à mídia.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O SAL DO ESPÍRITO

Acabei de saber pelo "Jornal Nacional" que está em vigor no Espírito Santo uma lei absurda: a que proíbe os restaurantes de colocar saleiros e sachês de sal nas mesas. Quem quiser, tem que pedir para o garçom. E adorei as soluções encontradas pelos estabelecimentos, como varais e colares de sachês. Mas só isto não basta: os capixabas têm mais é que se revoltar, e defenestrar do poder os responsáveis por esta aberração. Porque a lei é uma intromissão inaceitável do estado na vida privada e trata o cidadão como criança. Consumir sal em excesso faz mal à saúde, mas não vicia nem prejudica quem está em volta. Fora que gente como eu, que tem pressão baixa, PRECISA comer mais sal.

INDEPENDENCE GAY


"Stonewall" não é o primeiro filme sobre Stonewall. Teve um longa independente nos anos 90 com o mesmo nome e elenco desconhecido que pasou em branco e foi rapidamente esquecido. Mas esta versão de agora é uma grande produção, dirigida por ninguém menos que Roland Emmerich - autor de blockbusters como "2012" e Independence Day". Acontece que Emmerich é gay, e usou de seu prestígio em Hollywood para filmar a história do nascimento do orgulho LGBT. Sim, já existiam organizações e até revistas que defendiam os homossexuais antes da revolta de Stonewall. Mas foi o levante dos clientes desse bar em Nova York, cansados de serem levados em cana pela polícia, que foi o marco zero do movimento propriamente dito. Foi em junho de 1969, e é por causa dessa data que a maioria das paradas gays mundo afora acontece nesse mês. Portanto, se você quer ser uma bicha politizada, "Stonewall" é programa obrigatório. Assim que marcarem a estreia no Brasil, é claro (nos EUA entra em cartaz em 25/09).

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

DIRCEU BORBOLETA

Não há surpresa. Só a tristeza de perceber que o Brasil continua nas mãos da mesma quadrilha há mais de doze anos. Tivemos três chances de apeá-los do poder. Nas duas primeiras a economia ia bem, e o pouco carisma dos candidatos de oposição mal deu pro gasto. Na terceira, ano passado, bateu na trave. Digo e repito que se a eleição tivesse acontecido uma semana mais tarde o Aécio teria vencido, porque Dilma estava em queda livre. Ela ganhou, mas a queda só se acelerou. Agora vai ter que pagar um dobrado para convencer a sociedade de que nunca teve nada a ver com as borboleteadas de Zé Dirceu. É verdade que os dois jamais se bicaram. E não duvido que a presidenta tenha posto Graça Foster na Petrobras justamente para dar um basta no petrolão que jorrava solto. Mas Dilma se enrolou na própria incompetência: arrasou com a economia do país e não tem mais para onde correr. Tenho medo que a prisão de Dirceu seja só o começo do destape de um oceano de lama - não, não quero ver o Lula na cadeia, porque não vai ser bom para o Brasil. Mas nunca nutri a menor simpatia por seu sinistro braço direito. Que volte pro xilindró, de onde nunca devia ter saído. E diante da denúncia de que ele recebia 96 paus por mês como propina, será que dessa vez rola vaquinha na internet para aliviar suas dívidas? Cadê o punho cerrado e erguido? Que tristeza.

CABEÇADA NA PAREDE

Logo depois de lançar com pompa o número comemorando seu 20o. aniversário, a revista gay francesa "Têtu" (que quer dizer "teimoso" ou, hmm, "cabeçudo") anunciou seu fechamento. Como presente de despedida, a edição derradeira pode ser baixada inteiramente grátis do site. Que talvez continue: a "Têtu" está procurando um novo dono, que lhe garanta sobrevida online. Tomara, porque, ao lado da americana "Out" e da britânica "Attitude", a "Têtu" era uma das três grandes publicações voltadas para o público homossexual masculino. Mas não chega a ser surpresa que ela tenha terminado. Os tempos estão bicudíssimos para qualquer coisa que se venda em bancas de jornais. Aqui no Brasil já perdi a conta de quantas já fecharam, de todos os gêneros. E pensar que há alguns anos tivemos um boom de revistas gays: de uma hora para a outra, surgiram a "Junior", a "Dom" e a "Aimé". Só a primeira sobrevive, e mesmo assim eu não tenho lhe dedicado muita atenção. Talvez porque eu não seja junior: me encaixava muito mais numa outra revista da mesma turma, a "H", com a qual eu tive o prazer de colaborar e que infelizmente durou pouco mais de um ano. Um dos problemas crônicos foi a falta de propaganda, que raramente furava o cerco de produtos e serviços dirigidos ao "mundinho". E ainda teve a épica "G Magazine", que em sua última fase diminuiu os paus duros e tentou ser fina como a concorrência, mas não adiantou. Putaria hoje em dia a gente vê na internet, e as notícias circulam nas redes sociais. Quase nem existem mais blogs... Mas eu vou continuar escrevendo, vou continuar dando cabeçada, nem que meu último leitor seja a Monotemática.

domingo, 2 de agosto de 2015

A SELVA DELES


Se me falam "Paraná", eu penso em araucárias, muito frio e descendentes de poloneses. Os argentinos pensam em coisas diferentes: o rio Paraná é o Amazonas deles, e a província de Misiones, que faz fronteira com o Brasil, é a selva. Em mais de um sentido, pelo que se vê no filme "O Ardor", em exibição no Festival de Cinema Latino-Americano em São Paulo. A história já começa com tiros por causa de um conflito de terra que nunca é explicitado. Não importa: o que interessa é a violência. Mas o roteiro peca ao deixar bem claro que um lado é totalmente bom e o outro totalmente mau. E a direção (também de Pablo Fendrik) é sutil feito um golpe de peixeira na jugular. A trilha sonora bombástica funciona com um spoiler para quase todas as cenas de tensão - taraaaaaaaaam... POU! Pelo menos os atores estão intensos e lindos. Gael García Bernal continua com ar de moleque e Alice Braga, com quem eu impliquei outro dia, dessa vez tem poucas falas e muitos olhares significativos. Apesar de ser uma co-produção com o Brasil, "El Ardor" ainda não tem data de estreia por aqui. Na boa: não vai fazer falta.