quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O TEMPO E O LENTO


Em 1999, eu era roteirista da série "Santo de Casa", uma co-produção entre a Band e a Columbia Tri-Star Television. O programa era gravado num dos estúdios do Pólo de Cinema do Rio de Janeiro, e no estúdio vizinho aconteciam as filmagens de "Chatô, o Rei do Brasil". Visitei o set algumas vezes: minha cunhada foi a cenógrafa do filme, e eu me maravilhei com o requinte dos cenários. O lançamento estava previsto para o ano seguinte, mas todo mundo sabe que não foi isto o que aconteceu. Guilherme Fontes, diretor de primeira viagem e produtor mais inexperiente ainda, de repente se viu sem dinheiro para completar sua obra. Seguiram-se 16 lentíssimos anos de problemas legais, burocracia sem fim, acusações de roubo e até suspeitas de sabotagem. E, em cada um desses anos, Guilherme garantiu que estava finalizando "Chatô" e que o filme sairia no ano seguinte. Lá por volta de 2007 eu parei de acreditar. "Chatô" estava virando lenda. Um caso exemplar de má versação de dinheiro público e um castigo merecido para um delírio megalomaníaco?  Aí, de uma hora para outra, sem aviso nem alarde, o longa finalmente chega às telas brasileiras. Pegou todo mundo de surpresa, inclusive a crítica - que estava esperando um abacaxi mal-costurado, depois de tanto perrengue nos tribunais. Essa baixa expectativa pode ter contribuído para as resenhas estelares, mas o fato é que "Chatô" é mesmo muito bom. Fui ontem à pré-estreia em São Paulo e saí encantado do cinema. É um filme ousado, coeso, inovador, lindo de ser ver. E um pouco difícil de entender, admito. O roteiro é meio alegórico e não-linear, e só quem leu o livro de Fernando Morais vai usufruir plenamente. Quem conhece a história meio por alto, como eu, vai penar um pouco. Além do mais porque, tirando o protagonista e Getúlio Vargas, todos os demais personagens ganharam nomes fictícios. Agora, quem nunca ouviu falar de Assis Chateaubriand vai pagar um dobrado. Periga ficar sem saber que foi ele quem inaugurou a televisão brasileira ou patrocinou o MASP. "Chatô" não é didático, nem abre concessão para o público médio. É um filme de arte, sofisticado e ambicioso. Todo o elenco está ótimo, com a desonrosa exceção de Paulo Betti. Claro que está todo mundo muitos anos mais jovem, mas é impressionante como Andrea Beltrão e Letícia Sabatella continuam idênticas. Pois é, o tempo não para, mas de vez em quando faz uns desvios. Traçando muitos paralelos entre as crises d'antanho e as atuais, "Chatô" não tem nada de lento: é um filme urgente, que poderia ter sido rodado ontem e que (ainda) fala de hoje.

21 comentários:

  1. Será que Chatô terá força pra ganhar prêmios internacionais?

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    1. Acho que não. Os gringos não vão entender um puto do filme. Mas aqui no Brasil deve ganhar alguma coisa, nas áreas de edição, fotografia, direção de arte e figurinos.

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  2. Falando nas suas resenhas: não viu ainda "Master of none"? É ótimo. É a única coisa que presta no Netflix ultimamente.

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    1. Vi o primeiro episódio. Gostei bastante, o tom do humor lembra um pouco "Curb Your Enthusiasm". Vou ver o resto.

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    2. Vi todo de uma vez, gostei bastante de Master of None.

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  3. Sendo roteirista de ficção há tantas décadas, nunca quis lançar um livro, um romance? Uma peça de teatro?

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    1. "Tantas décadas" não. Comecei como roteirista em 1998, voltei para a propaganda em 2001 e só em 2013 voltei a considerar que os roteiros são minha principal ocupação.

      Claro que já pensei em centenas de livros, peças, o escambau. Tenho alguns começados, outros tantos na cabeça. Preciso tomar vergonha na cara e terminar algum.

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  4. Nossa Tony ou você é muito velho ou sou eu que sou um bebe. Em 99 eu estava na 3 serie e ainda nem tinha pelo no saco e você já trabalhava como roteirista de seriado pra tv

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  5. Alguem mais percebeu que o gostoso do marco ricca COM cabelo perde um poco do sex appeal?

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    1. Nossa, achei que só eu que reparava no Marco Ricca!

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  6. Concordo, Marco Ricca me produz calor nas coxas, mas com esse cabelinho aí perdeu todo o encanto.

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    1. Deus me livre pegar resto da Carminha.

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  7. que amor ver josé lewgoy <3

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  8. O povo pega no pé de Chatô e esquece de O Guarani de Norma Bengell, mais tosco que filme da Xuxa e dos Trapalhões, e que rendeu a ela imóvel no Rio comprado com dinheiro público (ainda recebeu 100 mil de bolsa-ditadura).

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    1. Olha, minha cunhada que trabalhou no "Chatô" diz que não houve má fé por parte do Guilherme Fontes. Ele não desviou nada para si mesmo, não ficou rico. Mas gastou mal o dinheiro e se enrolou nas contas.

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    2. Pior que acredito. Mas Bengell, RIP, forçou a amizade. As provas de malfeitos (como gosta de dizer Dilmandioca) são fartas e acessíveis.

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  9. Dinheiro público (meu e seu) mal administrado merecia uma pena de reclusão bem severa pra quem quer que fosse, de Presidente da República a cinasta.

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