quinta-feira, 5 de novembro de 2015

LATINOS À MOSTRA


A Mostra de Cinema de São Paulo acabou ontem, e nenhum dos quatro filmes deste post foi incluído na repescagem. Então não sei se este texto vai ser de alguma serventia para alguém, mas vamos lá. Todos esses longas têm origem latina e muitos prêmios no currículo. O primeiro da lista é "O Abraço da Serpente", que vai representar a Colômbia no próximo Oscar. Um dos meus sites favoritos o aponta como um dos favoritos, mas eu não achei tão empolgante assim. O roteiro se divide um duas épocas: no começo do século, quando um naturalista alemão se embrenha na selva guiado por dois índios, e uns 50 anos depois, quando outro cientista vem atrás dos passos do primeiro, guiado por um dos mesmos índios. Há sequências impressionantes, como a de uma missão comandada por um único padre que submete um bando de curumins a um regime atroz; a mesma missão reaparece ainda mais assustadora meio século mais tarde. Mas eu não me deixei envolver pelo ritmo lento, e tenho um pouco de preguiça daquele discurso de que os índios são perfeitos e os brancos sempre péssimos. Mas meu marido, que é chegado nestes assuntos selváticos, adorou.


Ele não gostou nada de "Desde Allá", o filme venezuelano que venceu o último Festival de Veneza. Muita gente reclamou do viés pró-América Latina do presidente do júri, o diretor mexicano Alfonso Cuarón, e eu tendo a concordar. Porque esse longa não chega a ser sensacional. A história do gay de meia idade que paga para rapazinhos tirarem a roupa diante dele é prejudicada pela montagem em ritmo lento, daquelas que começam uma cena muito antes que aconteça alguma coisa. O desfecho também é bastante amargo, na direção contrária do conceito de que "só o amor constrói". Mas não deixa de ser um retrato impiedoso dos muitos obstáculos que a homossexualidade enfrenta na nossa região. Muda a geração, muda a classe social, mudam até os problemas, e no entanto a barra continua pesadíssima.


Agora, chato mesmo é o guatemalteco "Ixcanul", que também está no páreo do Oscar para o melhor filme em língua estrangeira. Boa parte da crítica adora esse tipo de filme: planos longos, poucos diálogos, tramas primitivas. Só o fato dos personagens viverem hoje como se estivessem no Pleistoceno já basta para alguns caírem de joelhos, mas em mim não cola.  A protagonista é uma mocinha muito bonitinha que está prometida pelos pais a um viúvo, mas ela prefere se engraçar com um rapaz mais jovem. O filme é falado num dialeto maia e tem lá seu interesse antropológico. Mas para mim não serviu nem para lembrar das paisagens da Guatemala, onde eu estive em 2006.

O último filme que eu vi na Mostra também vem de um país latino, o mais isolado de todos: a Romênia. "Aferim!" se passa na região da Valáquia em 1835, mas a história é digna de um faroeste. Uma espécie de policial e seu filho saem em busca de um escravo cigano fugido, para trazê-lo de volta a um senhor de terras. A brutalidade casual é chocante, e que ninguém vá esperando um final redentor. Mas a fotografia em preto-e-branco e os enquadramentos clássicos dão uma atemporalidade ao filme: se eu estivesse zapeando e desse com ele em algum canal, iria achar que era antigo. "Aferim!" é o concorrente romeno ao Oscar, e não duvido que emplaque uma indicação. O título quer dizer "bravo!", e é isso mesmo o que merece o diretor Radu Jude.

2 comentários:

  1. os indicados ao oscar serão: son of saul, que horas ela volta?, o clube, mustang e the assassin. o filme alemão labyrinth of lies correndo por fora.

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