sábado, 4 de julho de 2015

MISS SIMONE GODDAMM


Fui ver Nina Simone logo na primeira vez em que ela esteve no Brasil, em 1988. A mulher era uma entidade. Um orixá, como disse Jorge Amado de Maria Bethânia. Mas não era uma divindade benfazeja: era torturada, instável, violenta. Suas três visitas ao ao nosso país contribuíram com várias anedotas ao seu vasto folclore. Consta até que, certa vez, ela reagiu a bala aos moleques que faziam algazarra na casa vizinha à sua, no sul da França. Agora todo esse gênio e loucura ressurge capturado no excelente documentário "What Happenned, Miss Simone", disponível no Netflix e desde já um dos favoritos ao próximo Oscar. Com depoimentos da filha e de muita gente que a conheceu, mais muito material de arquivo, a diretora Liz Garbus monta em menos de duas horas um retrato preciso de uma das maiores artistas do século 20. Nina era bipolar, e suas variações de humor punham tudo a perder mesmo quando as coisas iam bem. Seu engajamento político em prol dos direitos civis (i.e., contra as leis racistas americanas) custou-lhe um estrelato ainda maior e a tornou uma mulher amarga, com a vida pessoal despedaçada. Mas quando cantava e tocava piano, não tinha para ninguém. Os dedos voavam, a voz ia às profundezas e a plateia ficava hipnotizada (mesmo levando broncas de vez em quando, como o filme também mostra). Deixou clássicos absolutos como a deliciosa "My Baby Just Cares for Me" e a furiosamente ativista "Mississippi Goddamm" (essa última palavra era considerada palavrão na época). Nina Simone morreu relativamente cedo, em 2003, com apenas 70 anos de idade. Merece ser descoberta por quem ainda não a conhece. Nada contra Beyoncé e similares, mas isso é que era diva.

4 comentários:

  1. A senhora é destruidora mesmo hein viado! Conhece tudo quanto é artista!

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  2. Nina cantando "Ne me quitte pas" é de arrepiar. Emocionante. E você disse tuodo:-"...isso é que era diva." Abraços.

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  3. O mio babbino caro
    Era um caso grave de pitiatismo, que seu talento e soberania superava em muito. A apresentação em Montreux é absoluta.

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  4. Isso que era diva (3)...Mas entre as grandes do jazz, minha favorita ainda é a Ella Fitzgerald, questão de gosto...

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