sexta-feira, 19 de junho de 2015

QUEER CINEMA A BORDO


Havia tantas opções no entretenimento de bordo do meu avião para Zürich que eu consegui fazer meu próprio festival de "queer cinema" nas alturas. Abri os trabalhos com "Der Kreis" ("O Círculo"), um docudrama que venceu o prêmio Teddy Bear no festival de Berlim do ano passado e ainda representou a Suíça nos Oscars deste ano. O círculo em questão era uma revista gay suíça publicada de 1932 a 1967, um recorde, que primava mais por ensaios intelectuais do que fotos eróticas (e parte do conteúdo em inglês para escapar da censura local). Os assinantes também tinham direito a frequentar uma secretíssima festa-baile semanal, muito mais bacana do que qualquer buatchy moderna. A dramatização do passado é entremeada por depoimentos reais de alguns dos sobreviventes, inclusive o casal que aparece no poster ao lado. E, se por um lado é reconfortante saber que muita coisa mudou - quase ninguém mais precisa de uma identidade secreta, sob o risco de perder família e trabalho se for descoberto  - pelo outro, claro, é chato perceber que ainda estamos nos anos 1950. Esta pequena pérola que merecia pelo menos vir ao próximo MixBrasil.


Meu festival particular prosseguiu com um dos melhores filmes que eu vi etse ano até agora, "Une Nouvelle Amie" ("Uma Nova Amiga"). É o trabalho mais almodovariano de um dos meus diretores predileitos, o francês François Ozon. E o tema não podia estar mais na ordem do dia: a transexualidade. Uma mulher descobre que o viúvo de sua melhor amiga gosta de se vestir de mulher. E aí... não posso contar muito mais sem estragar o filme. Não há nenhuma revelação retumbante nem uma virada surpreendente, mas sim uma história muito bem construída sobre identidades de gênero e preferências sexuais. Todas cambiantes, todas viáveis. E ainda há uma sequência inesquecível numa boate (também melhor do que todas que a gente conhece): primeiro com uma drag cantando "Une Femme... Avec Toi", um dos hits franceses mais cafonas da década de 70, depois com o casal sensualizando na peeshta ao som da icônica "Follow Me" da Amanda Lear. Como não amar? E assim desembarquei na Suíça ainda mais queer do que eu tinha embarcado, como se isto fosse possível.

8 comentários:

  1. Luciano Mangabeira19 de junho de 2015 21:35

    Tony, assisti hoje à tarde no Cine Sesc (São Paulo) o filme "Der Kreis". Excelente filme. Na próxima segunda-feira haverá uma sessão às 17h. Fica a dica.

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  2. Amo/Sou "Follow me". É muito amor.

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  3. Vê-se que você não viajou de Tam, né? A seleção de filmes parece ótima.

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  4. François Ozon <3 desde o primeiro filme dele que eu assisti, "Le temps qui reste", confiro todos.

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  5. Lindo!! Delicia!! Aproveita! Vc viu aquele bagulho loco da milklady no metrô do aeporto de Zurich?

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  6. Qual foi a companhia aérea, TG?

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  7. Estou vendo "O círculo". É interessante pelo aspecto histórico.
    Só gostaria de entender como é que um homem passa por todo aquele medo de ser descoberto, e ao finalmente entrar num ambiente onde pode se relacionar com outros homens, se apaixona de cara pelo travesti que ele pensa que é uma mulher.
    É um caso em que a vida real parece inverossímel.

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