segunda-feira, 25 de maio de 2015

NAVALHA NA CARNE

Se até hoje a vida não tá fácil pra mulherada, imagina na segunda metade do século 19. Foi nessa época que grandes autores criaram protagonistas inesquecíveis. Todas pularam a cerca; todas encontraram o mesmíssimo fim, e pare de ler agora se você não quiser mais spoilers. Foi assistindo à nova versão para o cinema de "Senhorita Julia", a peça clássica de August Strindberg, que eu me dei conta que a moça termina como suas contemporâneas Anna Karenina e Madame Bovary. Rebatizada de "Miss Julie" e transferida para a Iranda, esta adaptação dirigda por Liv Ullmann é pouco mais do que teatro filmado. Com a ajuda de pouquíssima música e apenas três atores em cena, o texto acaba se tornando enfadonho quando deveria eletrizar. Interessante mesmo foi pensar porque todos esses escritores "suicidaram" suas mocinhas. Desenlace dramático inevitável, crítica à sociedade machista à la "Thelma & Louise" ou - gasp - ou nenhum deles sabia lidar de outro jeito com a sexualidade feminina?

4 comentários:

  1. "Charles deixou de visitar Emma. Entretatnto a violencia do seu desejo protestou contra o servilismo da sua conduta e, por uma especie de hipocrisia ingenua, julgou que aquela proibicao de ve-la era para ele como que um direito de ama-la".

    Nunca esqueci esse trecho de Madame Bovary, obra-prima de finura e delicadeza que em termos esteticos ao meu ver se compara apenas a "A Educacao Sentimental", do mesmo Gustave Flaubert e "Razao e Sensibilidade", de Jane Austen. Li em portugues, ingles e o original em frances. No final, a protagonista se suicida pelos dois motivos que voce descreveu ai, de algum modo era inevitavel e tb era uma critica a sociedade machista, mas nao compartilho da hipotese de que ele nao soubesse lidar com a sexualidade feminina. Em um momento em que teve que defender a sua obra das acusacoes moralistas que sofria na epoca ele chegou a dizer: "Madame Bovary sou eu"! A fragilidade da protagonista era a propria fragilidade do autor e a sexualidade dele era a mesma que a dela, alem de tantas outras idiossincrasias.

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  2. Uau! Muito obrigada pelo comentário. Madame Bovary é um daqueles livros sobre os quais eu já li tanto que, de alguma forma, pareceria repetitivo lê-lo de fato. Mas é claro que uma obra literária é sempre muito mais do que a história contada: é como esta é contada que realmente a diferencia de todas as outras boas histórias.

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  3. Porque na vida real é assim. As pessoas se matam, a vida não dá certo, os relacionamentos vão pro ralo, etc.

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  4. E a brasileira Capitu que não se matou porque também não haviam provas concretas de seu adultério...
    E até hoje em dia há um certo escândalo na traição feminina, o que não ocorre em hipótese alguma na masculina, que é totalmente perdoável.

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