domingo, 8 de fevereiro de 2015

O CÓDIGO DA DISCRIÇÃO


"O Jogo da Imitação" é o candidato que Harvey Weisntein emplacou entre os indicados a melhor filme no Oscar deste ano. E tem muitas das características que fizeram esse produtor vencer mais vezes do que qualquer outro: é de época, tem bons atores, é meio caretão na forma e fala de maneira delicada um tema com potencial explosivo. Mas esta também é a falha do filme. A homossexualidade de Alan Turing é tratada com total discrição, e a tragédia deste grande matemático inglês, ainda mais. O público é poupado da cena em que ele se mata comendo uma maça envenenada com cianureto, depois de ter se submetido a mais de um ano de castração química por imposição do governo. Isto não quer dizer que "O Jogo da Imitação" seja um filme homofóbico: muito pelo contrário, e os letreiros finais lembram que Turing foi só um dos 49 mil britânicos perseguidos por serem gays, de 1883 até 1967. Mas tudo neste longa parece ter sido calculado para não ofender ninguém e aumentar suas chances de prêmio. Não vai ter muita chance contra duas obras realmente inovadoras, "Boyhood" e "Birdman". Nem por isto "O Jogo da Imitação" deixa de ser um bom filme. Benedict Cumberbatch está sublime como o cientista antissocial, treinado a vida inteira para se conter - e sua explosão no final mostra que o Sherlock da TV também merecia o Oscar. Mas saí com a sensação de que Turing, um dos pais da computação e um dos gênios mais inustiçados de todos os tempos, merecia mais do que este semi-thriller de espionagem. O cara fez muito mais do que apenas decodificar as mensagens secretas dos alemães na 2a. Guerra Mundial e ajudar os aliados a vencer. mais rápido Ele é nada menos que um dos responsáveis por você estar lendo o que eu estou escrevendo agora, e por quase tudo o que acontece graças à internet. A rainha o perdoou há alguns anos, mas tem toda a razão o movimento que prega que não há o que perdoar, porque homossexualidade não é crime nem nunca deveria ter sido. Quem tem que pedir desculpas é o governo britânico, de joelhos, e trasladar os restos mortais de Turing para a abadia de Westminster - o lugar onde estão enterrados quase todos os grandes heróis e artistas da Grã-Bretanha.

14 comentários:

  1. É assustadora a quantidade de gênios injustiçados que se suicidaram ou foram mortos por não se adequarem ao status quo. Dois documentários recentes, "Citizen Four" e "The Internet's Own Boy: The Story of Aaron Swartz", deixam claro que o modelo opressor em que vivemos cria seus próprios métodos para dizimar mentes dissonantes. Difícil ser otimista.

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  2. Eu falei a mesma coisa....Como assim a rainha o perdoou? Ele não comentou crime algum...e faz muito pelo seu país e pelo mundo.

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  3. Tony, eu adorei o filme. Achei que seria meio sisudo, mas, me fez dar boas gargalhadas. Assisti A Teoria de Tudo para ter parâmetro das atuações e, relamente o Eddie está muito bem, contudo, meu coração torce pelo Sherlok. Cus I'm a Cumberbitch!
    Outra coisa, dentre os atores, dizem que há um favorito, aquele careca que não me recordo o nome agora, daquele filme... Enfim, entre as mulheres, não ouvi nada parecido, você acha que a Keira Knightley tem chances?

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    1. Não.

      Os favoritos do Oscar são:
      Filme: "Boyhood"
      Diretor: Alejandro G. Iñárritu ("Birdman")
      Ator: Eddie rRdmayne ("A Teoria de Tudo")
      Atriz: Julianne Moore ("Para Sempre Alice")
      Ator Coadjuvante: J. K. Simmons ("Whiplash")
      Atriz Coadjuvante: Patricia Arquette ("Boyhood")

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    2. Depois do Bafta, acho que Linklater reassumiu o favoritismo de direção, já que na etapa final, todos votam em todas as categorias.

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  4. Li o livro sobre o Turing chamado "O homem que sabia demais", de David Leavitt, e uma coisa que me impressionou sobre ele foi a naturalidade com a qual encarava a própria homossexualidade.

    Me lembrou uma pouco aquela coisa do Sheldon Cooper, que os geeks têm, da lógica acima de todas as coisas, acima de uma moral vigente, de uma convenção social. Ele simplesmente sabia que não havia nada de errado naquilo, e teve namorados e amantes vários.

    O problema só veio mesmo mais tarde quando infelizmente o prostituto com quem ele se engraçou, e que tinha péssima índole, o entregou para a polícia.

    Tadinho, tão bonitinho pelas fotos, aí vão e colocam essa coisa feia, esse Benedito Cumbersome para interpretá-lo no filme, que tristeza....

    RIP Alan Turing, que a maçã da Branca de Neve tenha levado você para um mundo melhor, longe destas pessoas nefastas.

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  5. http://www.telegraph.co.uk/culture/music/proms/10989090/BBC-Prom-8-The-Pet-Shop-Boys-review-skilful.html

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  6. "The legendary Pet Shop Boys make their Proms debut in this Late Night Prom, joining the BBC Singers and BBC Concert Orchestra for the world premiere of A Man from the Future, a new piece for electronics, orchestra, choir and narrator.

    The piece is inspired by the life and work of Alan Turing, who helped break the German Enigma code during the Second World War and formulated the concept of the digital computer, but was prosecuted in 1952 for his homosexuality, receiving a posthumous pardon last year. It comes as a timely homage, 60 years after Turing’s death."

    http://www.bbc.co.uk/proms/whats-on/2014/july-23/14936

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  7. 'We wrote it for Alan': Pet Shop Boys take their Turing opera to the Proms

    Tennant explains that they first heard of Alan Turing in the mid-80s after seeing Hugh Whitemore's West End play Breaking the Code: "You really get a feeling of this extraordinary quirky genius when you learn about Turing. [He] made a big impression on people that knew him, because he was such an unusual person … coming from this different era of V-neck sweaters and sports jackets, yet having this incredible vision of the Universal Machine, and going round telling people he was homosexual."

    In the 80s, though, Turing's story resonated differently. "Back then, I knew nobody who owned a computer. Fifteen to 20 years later, everyone had one. Also [in the 80s] homosexuality between men was only legal in private over the age of 21 – and of course that situation has changed. Essentially, we've all caught up with Alan Turing."

    The band's interest in Turing returned after Lowe watched a 2011 Channel 4 documentary on the polymath, prompting Tennant to read Andrew Hodges's biography, Alan Turing: The Enigma and the pair to start composing A Man for the Future. Falling in love with Hodges' poetic prose, Tennant emailed the author in late 2012, asking him to help choose passages for the libretto that would best tell Turing's story.

    Hodges – a lifelong Pet Shop Boys fan and gay rights campaigner – was delighted. "It's very direct," he says of the final work's lyrical style. "Each episode goes to the very centre of what's going on … it's not just alluding to it or inspired by it."

    After finishing the piece together, however, events changed its shape. Last Christmas Eve, Turing was awarded a posthumous royal pardon overturning his 1952 conviction for gross indecency. "Dr Alan Turing was an exceptional man with a brilliant mind," said the justice minister, Chris Grayling, who made the formal request for the pardon.

    This prompted mixed feelings for Hodges. "I don't think it's right in principle to make an exception for one person on the grounds of what they did for the state," he explains. "It should be for everyone who was in that situation." Nevertheless Tennant and Lowe explicitly address this contradiction in their piece's finale, which pleases him. "The fact that a public work like this [is] going ahead in the very centre of one of our most famous concert series, on the BBC … there's a sense of making up and making good, of expunging a lot of what was so bad about the old world." (...)

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  8. (...)
    "We had to [rewrite the ending to] point out that the convictions of tens of thousands of other men remain, and that hasn't really been discussed," says Tennant. However, the finale has a celebratory feel, and recognises the changes in attitudes towards homosexuality, globally. Tennant lists these happily: a 2013 US poll in which 52% of Americans were shown to approve of same-sex marriage, the moment in 1994 when John Major lowered the age of consent to 18 ("everyone forgets it was him that started things off").

    On a personal level, there was also the reaction to a text he sent to one of David Cameron's special advisers, after the Pet Shop Boys were asked to play at the 2012 Olympic team's winners parade. "It was a bit cheeky," he laughs now, of the text he sent after the concert, "but it suddenly occurred to me … as David Cameron is so with the gay agenda, I wondered if [the rumour of the royal pardon] was really true." Tennant's text was direct: "Could you pass on to the prime minister that in Alan Turing's centenary year it would be an amazing inspirational thing to do to pardon him?"

    "I didn't think it was going to happen," Tennant adds, especially as Gordon Brown had in 2009 issued a government apology but rejected calls for a pardon. "But what was interesting was the bloke I sent it to responded immediately. And so I thought, 'oh, they obviously do know about this'."

    Having played anti-section 28 concerts at the beginning of the Pet Shop Boys' career, did he find it odd that a Conservative prime minister supported gay rights so strongly? Tennant responds diplomatically. "It isn't really a party political issue any more. I think what really happened is we've moved, not totally, but as a society, away from toleration to acceptance, and a reasonably happy acceptance actually. All parties are supporting that now." Did he question Cameron's motives? He pauses. "You'd have to ask David Cameron about his motives, because I know what certain people say about it. Nonetheless he's run with this issue."

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  9. Estranho é que quando deixou de ser crime veio a AIDS. Pra mim uma doença 'fabricada'

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  10. We wrote it for Alan': Pet Shop Boys take their Turing opera to the Proms | Music | The Guardian
    http://www.theguardian.com/music/2014/jul/20/pet-shop-boys-alan-turing-enigma-proms-tribute-interview

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  11. Adoro o blog, mas continuo vendo estrelas ao ler a fonte branca no fundo preto, por isso não consigo ficar muito tempo :(

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  12. Saí do filme com raivinha dessa história da Rainha ter perdoado Turing. Pensei o mesmo: perdoado de quê, gente? De salvar milhões? Ainda bem que, numa rápida olhada na Wikipedia, soube que o primeiro-ministro britânico pediu desculpas formais pelo tratamento dado a Turing em 2009. Ah bom. ;)

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