sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

JESUS, ME CHICOTEIA


Tentei a sessão das 19 horas, mas já estava esgotada. Só consegui ingressos para a das 21:30, e dos últimos. Um público diferente do habitual lotou a sala. O filme começou acompanhado por gritinhos infantis: parecia que íamos ver o novo desenho da Disney. Quando Christian Grey tirou a camisa pela primeira vez, mais gritinhos - e olha que o peito dele tem perebas! No final, a plateia 80% feminina parecia feliz. Algumas moças que não tinham lido o livro não sabiam que "Cinquenta Tons de Cinza" termina de maneira abrupta e inconclusiva, porque é só a primeira parte de uma trilogia. Ano que vem tem mais. Trata-se de um fenômeno cultural considerável, que no entanto vem sendo tratado com escárnio por boa parte da mídia. É verdade que, apesar das vendas e das algemas, o filme é literalmente pinto pequeno perto de outros clássicos do "soft porn", como "9 Semana e Meia de Amor". Não há sequer nu frontal da protagonista, e só vemos seus pelos púbicos numa tomada lateral muito rápida. Ele, então, só paga bunda numa única cena, e olhe lá. A produção chega ao ridículo de fazê-lo conduzir uma sessão sadomasô sem tirar os jeans. Claro que uma adaptação fiel do best-seller de E. L. James teria que ser hardcore, mas as fãs não parecem sentir falta. É uma geração que não teve "Emmanuelle" nem "O Império dos Sentidos", e se contenta com imagens em nada mais fortes do que as exibidas por uma minissérie de TV às onze horas da noite. Mas o buraco dos "Cinquenta Tons" é beeeem mais embaixo. Os personagens são completamente inverossímeis. Uma moça daquele estrato social, que chega naquela idade mais virgem que Nossa Senhora? Um cara de trinta e poucos anos que não só é bilionário como também pilota seu próprio helicóptero e ainda toca Debussy ao piano depois de transar? Bitch, puh-lease. Queria ver Anastasia gostar de um sádico que também fosse pobre. Mas seu amado tem todas as qualidades que uma fêmea procura num macho. É lindo, rico, bem-vestido, limpinho, educado, atencioso, intenso, viril. Só gosta de lhe dar umas chicotadas de vez em quando. Essa conto de fodas libera uma energia primordial mais forte que as quatro forças estudadas pela física: o tesão feminino. Tão poderosa que assusta o patriarcado (e não é por outra razão que representantes das religiões abrâmicas estão condenando o filme, dos imãs da Malásia ao Edir Macedo). Livro e filme também tratam da maior fantasia da mulher, e por isto merecem respeito. Afinal, ninguém tira sarro dos delírios masculinos, que incluem heróis mascarados e sabres de raio laser. Mas qual seria a fantasia da mulherada? Ser acorrentada à parede e apanhar até o tiso criar bico? Não, tolinho. Isto é o de menos. Reparou que, até chegar ao "quarto dos prazeres", Anastasia Steele é paparicada, idolatrada e endeusada sem parar por um dos homens mais cobiçados do planeta? Dakota Johnson está perfeita no papel: ela consegue exalar inocência sem nunca cair na palhaçada (já seu parceiro Jamie Dornan carece de borogodó). Só li o primeiro livro da série (sim, tive a pachorra), mas sei como acaba. Adivinha? É o sonho dourado de qualquer mulher. Ela muda o homem. E, ao mudá-lo, faz com que ele se adeque aos seus desejos. Quem é mesmo que está sendo dominado aqui?

25 comentários:

  1. Nossa gent eu prefiro ver toda filmografia do Tony Scott do que pagar pra ver esse filme.

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    1. Mas você vai baixar de graça da Internet mesmo...

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  2. Não faz parte dos filmes que espero para ver, mas tua crítica dando esta visão do prazer feminino, da auto afirmação do desejo das mulheres, gosto disso, deu um certo respeito pelo filme. rs gosto quando falas da geração sem Emanuelle e Imperio dos Sentidos, eu tive isso rs. Bom ler por aqui.
    ps. Carinho respeito e abraço.

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  3. Ontem minhas alunas de 12 anos davam gritinhos histéricos na sala pq as deixar ver o trailer na hora do intervalo. Eu não sabia como acabava, mas uma dela resumiu o enredo que a mãe dela contou. Safadjenhas essas portuguesas.

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  4. Tony, por isso adoro seu blog! Sua analise, p mim pelo menos, é certeira! Eu li todos os livros (sim, fui guerreiro, mas foi sofrido) e é esse ponto de vista q eu defendo desde entao. Minha grande critica na verdade é q acho o final meio moralista qto ao sexo, mas normal, pois na cultura americana pudica, sexo tem q ter culpa e redencao.

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  5. Coxinharam o Jamie Dornan pro filme. Ele tem borogodó de sobra em "The Fall", Tony. ;)

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    1. Realmente, ele está tudo de bom em The Fall, recomendo essa série pra quem tem Netflix.

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    2. O cara não quis aparecer em nu frontal... Até o mega star Ben Affleck apareceu num nu frontal e o filme nem tinha a ver com o tema como tema central...

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  6. O sucesso do livro (talvez do filme) seria por projetar a realidade de uma sociedade ou a fantasia de uma parcela?

    Esse sadomasoquismo de shopping center parece aquilo de ter religião mas não praticar. "Sou católico não praticante". As novas românticas seriam sadomasoquistas não praticantes?

    Ver uma donzela sendo desvirginada por um bilionário lindo e sexualmente não convencional desperta um desejo nelas ou amansa a frustração de suas vidas sem bilionários lindos e sádicos?

    O mais intrigante é que fenômenos culturais assim terminam por modelar um eixo moral, pode não impor, pode não convencer ninguém a nada, mas vira a bíblia não assumida do que a sociedade entende por ideal.

    A mocinha tonta que dá para um rico. Simples assim. Quase nenhuma vai conseguir, mas todas adorariam.

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  7. O pior é, depois de tudo, o final mais brochante do que coito interrompido. Não vejo a hora de decretarem o fim da era das trilogias no cinema.

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  8. "É o sonho dourado de qualquer mulher. Ela muda o homem. E, ao mudá-lo, faz com que ele se adeque aos seus desejos. Quem é mesmo que está sendo dominado aqui?" Legal, Tony, mas agora te faço uma pergunta (e não se trata de uma pergunta retórica, pois, como homem e gay, não sei como se passa o desejo de uma mulher, então realmente não sei): depois que a mulher adequa o homem aos seus desejos e inverte a lógica da dominação, ela continua feliz ou perde o interesse nesse homem que ela domesticou? Ele estar "por cima" por acaso não era um dos ingredientes dessa equação de atração?

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    1. Mas aí é que está: a mulher não muda o homem. Como eu disse no texto, é só fantasia!

      Você nunca ouviu esse ditado?
      "O homem casa com as mulher esperando que ela não mude, e ela muda.
      A mulher casa com o homem esperando que ele mude, e ele não muda."

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    2. Ela mata ele e finge que foi ele que a matou como em Gone Girl SPOILER ALERT

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    3. Gente estou desmaiada hoje, errei completamente o plot do filme, menos mal pra quem não assistiu. Adeus. https://31.media.tumblr.com/a9fff481cfe28b9f23bdaedb662800d3/tumblr_mtyzxgayUr1qhsuv2o1_400.gif

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    4. Acho que a mulher fica o tempo todo (e não só na conquista) da relação tentando mudar o homem (consegue em algumas coisas), não importa o quanto ela consiga, sempre vai ter novas coisas que ela quer mudar nele. E ele vai ficar o tempo todo mudando o mínimo suficiente para manter a relação, nem que seja fingindo que mudou. Essa dinâmica não termina nunca. E dela as relações se alimentam.

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  9. Perto do eu já fiz na finada 269, esse filme é como aqueles de princesas da disney...

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  10. Aff, eu passo. Só li até a metade do primeiro livro, e parecia que eu tava lendo um daqueles romances açucarados, tipo Sabrina, Julia... e olha que eu comprei toda a trilogia hein... se arrependimento matasse...

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  11. pois é, eu também tentei fazer uma crítica e explicar o fenômeno no meu blog blogselivros.com.br. A questão fundamental é... qual é mesmo? Bem, uma delas é a diferença da sexualidade da mulher e do homem. Achar que o livro é fraco (açucarado) é uma posição bem masculina, e nessa hora tanto faz ser gay ou não.

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  12. Patético! Mais um perfeito símbolo da péssima fase (talvez a pior) na história da humanidade em q vivemos. Vc vê aí todos os elementos do conservadorismo, a mulher tem q ser virgem, o cara tem q ser yuppie (provavelmente trabalhar no mercado financeiro e cheirar pó). Vivemos sob a tutela de um império protestante e o resultado está aí...terrible time to be alive.

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  13. O homem está numa posição de muita muita muuuiiiita vantagem na sociedade, ele n precisa 'mudar'...Como vc mesmo já disse as mulheres estão pior q os gays, pesquisas mostram. Chegou a hora de virar o jogo do conservadorismo, tenho fé q um novo Iluminismo chegará.

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  14. você nunca me decepciona, tony! tambem vejo este "poder" na anastacia... e concordo que o tesão / sexualidade feminina são grandes tabus. chamar este filme ou o livro de conservadores não tem nada a ver. acho o Jamie Dornan uma delicinha... está incrível em The Fall. bjks!
    Ju Mom loves (Soft) Porn

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  15. respeito mais o livro do que o filme...Sim tb li...rs rs rs...terminei o segundo, mas ao iniciar o terceiro e conclusivo ja estava tão farto de Anastacia dizer que não entendia o que Christian havia visto nela que deixei de lado e mandei as favas. jamie Dornan não é Christian Grey, é apenas um moço bonito, com sorrisinho apertado e um olho maior que o outro. tem seu charme, claro, mas está aquém do personagem. Ainda acredito, que Matt Bomer, apesar de gay na vida pessoal, daria mais credibilidade ao personagem, porque a impressão que temos é que a autora se baseou nele nas descrições físicas. Dakota está melhor que o livro, conseguiu dar uma cara a Anastacia mais verdadeira que o livro. Minha nota é 6...mas a mulherada realmente sai encharcada do cinema...rs rs rs...se me permite a grosseria...rs. Mulheres são e sempre serão uma incógnita....abração Tony...fiquei um tempo de ferias dos blogs e ta difícil me atualizar aqui...tu escreve demais hôme!!!

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