sábado, 17 de janeiro de 2015

BOKO MOKO HARAM

Toda vez que aparece um movimento na internet em prol de alguma coisa, não demora muito para que surja também uma reação: não um movimento explicitamente contrário, mas um que diz que há um outro problema muito maior, e portanto muito mais digno da nossa indignação. Foi assim com o desafio do balde de gelo, e já está sendo assim com o caso do "Charlie Hebdo". Estou fascinado com o número de pessoas que estão chamando a atenção nas redes sociais para as vítimas do Boko Haram na Nigéria, muito mais numerosas que as de Paris, como se esses dois problemas não fossem exatamente o mesmo. Para quem ainda não sabe: o Boko Haram é uma milícia jihadista que quer converter a Nigéria na marra para sua interpretação radical e equivocada do Islã, e que vem causando estragos consideráveis por lá há pelo menos cinco anos. No começo do ano passado, sequestraram centenas de meninas (para talvez vendê-las como escravas, anunciou um dos chefões do bando) e provocou o surgimento do #BringBackOurGirls. Pena que não passou de uma hashtag. Os ativistas virtuais não conseguiram comover o governo nigeriano, um dos mais corruptos do mundo, possivelmente não interessado em antagonizar sua população muçulmana. O exército de lá está fazendo quase nada contra os extremistas. Talvez fosse o caso de uma intervenção estrangeira como a que acabou com o grupo ligado à al-Qaeda que tomou o norte do Mali, retratado no filme "Timbuktu". Mas a Nigéria não é o miserável Mali: é a nação mais populosa da África, e riquíssima em petróleo. É verdade que matanças de pretos pobres nos confins do mundo não impactam muito a mídia ocidental, e é mais do que justo que fiquemos indignados por causa dela. Mas ignorar que o conflito é muito mais amplo e difundido do que uma escaramuça tribal é pior do que ser desinformado: é ser boko moko, como dizia uma propaganda do guaraná Antarctica veiculada na era mesozóica.

2 comentários:

  1. O mio babbino caro
    My God, como se esses dois problemas não fossem exatamente o mesmo, com exatamente o mesmo tratamento.

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