sábado, 31 de janeiro de 2015

PROGRAMA DO CONTRA

Amanhã é o dia do Super Bowl, cuja transmissão costuma ser o programa de maior audiência do ano nos Estados Unidos. E o que podem fazer as pobres emissoras que não têm os direitos de exibição do jogo? Uma coisa que é até rara no Brasil: contraprogramação. Os nossos canais gostam de combater novela com novela, jornal com jornal e assim por diante. Mas como se combate o maior evento do calendário esportivo americano? Nem tentando. Há dez anos o Animal Planet inventou o Puppy Bowl - isso mesmo, futebol de cachorrinhos. QUATRO HORAS de futebol de cachorrinhos. O sucesso foi tão grande que logo surgiram concorrentes, como o futebol de gatinhos e o futebol de criancinhas. Mas nada supera o Fish Bowl do Nat Geo Wild. Um aquário redondo com UM único peixinho dourado nadando pra lá e pra cá. Tudo anunciado com pompa e circunstância, inclusive coletiva de imprensa. Este ano o canal resolveu inovar e inventou o Fish Bowl in a Farm. Um aquário redondo com um único peixinho na fazenda. Já não achei tanta graça: vai haver cortes, cenários variados e muitos outros bichinhos como coadjuvante. Ano que vem vão estar escrevendo diálogos e subtramas.

FELIZES PARA SEMPRE?


"Into the Woods" causou comoção quando estreou na Broadway. O libreto do musical de Stephen Sondheim foi considerado revolucionário: além de entrelaçar diversos contos de fadas, ele também avançava para o "day after" - o que aconteceria depois do final das hinstórias? Cinderela, por exemplo, descobre que seu príncipe é um tremendo dum galinha, e João (o do pé de feijão) tem que lidar com a viúva do gigante que matou. Vi duas montagens do espetáculo no teatro e acabei de assistir à versão para o cinema, "Caminhos da Floresta". Como das outras vezes, foi uma delícia reencontrar esses personagens da nossa infância. E o elenco está mais que fabuloso. Não vou nem citar Meryl Streep, perfeita como sempre. Quem realmente me surpreendeu foi Chris Pine, o novo capitão Kirk de "Jornada nas Estrelas", que canta muito bem e tem um timing afiado. O filme é de encher os olhos e os ouvidos, mas alguma coisa me pareceu fora do lugar. E não é culpa do diretor Rob Marshall, que também fez "Nine" e "Chicago"; é do texto original. A "moral da história" de "Caminhos da Floresta" é a de que a vida não é um conto de fadas, mas a mágica de vez em quando acontece. Não é exatamente uma mensagem que combine com esta época estranha que estamos vivendo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

EU NÃO VOU SENTIR SUA FALTA

Ano passado, a disputa pelo Oscar de melhor canção tinha dois hits em escala global: "Let It Go", de "Frozen" (que levou a estatueta), e "Happy", que pouca gente se lembra que surgiu na trilha de "Meu Malvado Favorito 2". O páreo de 2015 não tem nenhuma música muito conhecida, mas eis que já desponta um favorito. É "I'm Not Gonna Miss You", composta e interpretada pelo cantor country Glen Campbell para um documentário sobre si mesmo. A melodia não é grande coisa, mas a letra é devastadora: "Você é a última pessoa que eu vou amar/o último rosto que eu vou lembrar/e o melhor de tudo, eu não vou sentir sua falta". Foi a última canção que ele gravou, antes do mal de Alzheimer tirá-lo do ar para sempre. Hoje Glen Campbell vive num hospital, e "I'm Not Gonna Miss You" será interpretada na cerimônia de premiação por Tim McGraw. E aí, já tá chorando?

O VILÃO DESMASCARADO

Nestor Cerveró ameaça processar quem produzir máscaras de carnaval com seu rostinho inconfundível. Alega direitos de imagem e possíveis danos morais. Os fabricantes já cederam, pois não querem saber de problemas: tudo depende da interpetação do juiz de plantão, e o Brasil não tem uma tradição sólida de defesa da liberdade de expressão. Mas este caso abre um precedente gravíssimo. O carnaval brasileiro nunca livrou a cara de ninguém. As máscaras sempre retrataram quem estivesse no noticiário naquele momento, para o bem e para o mal: Lula, Saddam Hussein, Osama Bin laden, Joaquim Barbosa. Nenhum deles falou em processo. Algum babaca politicamente insuportável pode dizer que a fisionomia de Cerveró não se encaixa no padrão estético vigente, e que portanto ele faz parte de uma minoria fragilizada que precisa ser protegida. Mas não é porque tem um olho caído que o ex-diretor da Petrobrás periga virar máscara. É porque está no centro do maior escândalo da história do Brasil, que tragou uma fortuna inimaginável dos cofres públicos e solapou a imagem do país no exterior. Cerveró é a cara desse verão inclemente onde está derretendo tudo, inclusive nossa confiança no futuro. Seu mau exemplo pode inspirar políticos e outros vilões a tentar impedir que sejam satirizados em programas de TV ou caricaturados em charges nos jornais. Pelo menos a marchinha do bloco carioca Lima É Tio Meu continua liberada: "Lindo, lindo, lindo / É o Cerveró/ Por favor seja bem-vindo / A casa é sua: o xilindró".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

É UM AVIÃO


É um Boeing. Ou talvez seja um jatinho executivo, para poucos e bons. Porque não é todo mundo que vai se ligar em "Birdman". O filme é adulto, sofisticado, inteligente e muito engraçado. Além de ser um prodígio técnico. Tirando o comecinho e o fim, o resto todo é montado para parecer sem cortes, como se fosse um único take. Mas sem tempo real: o dia de repente vira noite, ou outro dia, sem que a gente veja onde foi a emenda (acho que eu só percebi uma). Michael Keaton está soberbo como o ator de meia idade em crise, e o resto do elenco mantém o pique - especialmente Edward Norton, mais irritante do que nunca. "Birdman" fala sobre o ofício de atuar, a necessidade da fama e a passagem do tempo, e é óbvio que uma fatia enorme da Academia vai se identificar. O filme ganhou esta semana o prêmio SAG de melhor elenco e o de melhor filme pelo sindicato dos produtores, tirando o favoritismo absoluto de "Boyhood" no Oscar. Desde sua estreia com "Amores Perros", o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu jamais me decepcionou, muito pelo contrário. O cara está sempre alargando os limites do cinema. Merece os prêmios que vai levar.

O HERDEIRO NÃO-APARENTE

Está se formando um vácuo na política brasileira. Ou uma grande oportunidade. De um lado, o governo Dilma se enrola em medidas impopulares, no mega-escândalo do petrolão e até mesmo no fogo amigo vindo de dentro do próprio PT. Do outro, Aécio Neves não consegue se firmar como o líder da oposição e Geraldo Alckmin vê sua credibilidade evaporar feito a água da Cantareira. Isto quer dizer que não há um sucessor à vista para 2018. Nem mesmo Lula, que está doido para voltar mas vai ter que superar não só os prováveis descalabros de sua pupila como ainda sua via crucis particular, que passa pela "amiga" Rosemary Noronha e pelos insistentes boatos de que sua saúde não vai lá muito bem.

O Brasil parece mais do que pronto para a tão falada terceira via. Mas quem seria este novo nome? Um candidato óbvio era Eduardo Campos, que não está mais entre nós. Marina Silva já provou duas vezes que não tem estofo para segurar o tranco. Talvez algum jovem governador, mas qual? E nisso tudo ainda há o risco de elegermos mais um farsante, como o foram Jânio Quadros ou Fernando Collor de Mello. Figuras de fora do sistema que prometiam combater a corrupção, mas se mostraram muito aquém do que o cargo exigia - nenhum dos dois completou o mandato, aliás. Alguns analistas temem que a atual onda moralizante acabe dando a descarga nos atuais partidos e entronizando um Silvio Berlusconi, como aconteceu na Itália. Mas talvez já tenhamos pago esse pedágio. Talvez estejamos maduros para um autêntico reformista. Talvez. Quem?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

YVES X SAINT LAURENT

Já aconteceu de dois atores serem indicados a um prêmio por um mesmo personagem. Anthony Hopkins e Frank Langella, por exemplo, interpretaram Richard Nixon em filmes diferentes, e receberam indicações ao Oscar de melhor ator. Só que foi em anos diferentes. O que acontece nos Césars deste ano é inédito. Os finalistas ao "Oscar do cinema francês", como o prêmio é chamado no Brasil, foram revelados hoje, e há um congestionamento de Saint-Laurents. "Yves Saint Laurent", a cinebiografia do estilista que saiu no começo do ano passado, recebeu sete indicações. Já "Saint Laurent", lançado no final do ano, conseguiu dez. Inclusive duas preciosas que seu rival não emplacou: melhor filme e melhor diretor. Mas ambos os longas foram lembrados nas categorias melhor ator e melhor ator coadjuvante, e pelos mesmíssimos personagens - Yves e seu marido/empresário, Pierre Bergé. Pena que não haja muito suspense nesse combate. A Academia francesa deve favorecer o segundo filme, que teve críticas melhores e foi o escolhido pela França para representá-la no Oscar. Não rolou, mas há algumas coincidências entre as duas listas: "Timbuktu", Marion Cotillard por "Dois Dias, Uma Noite" e o documentário "O Sal da Terra", sobre Sebastião Salgado. A premiação será dia 20 de fevereiro, e que vença o melhor costureiro.

COOPER FEITO

No comecinho da carreira, quando ainda não era famoso nem indicado ao Oscar, Bradley Cooper se deixou enrabar numa cena de "Mais um Verão Americano". Hoje seria até de se imaginar que ele tentaria dar uma de Xuxa e tirar o filme de circulação, mas Bradley não só não renega o passado como irá retomá-lo. "Mais um Verão Americano" vai ganhar uma prequel em oito episódios a ser exibida em meados do ano pelo Netflix, e todo o elenco original estará de volta - inclusive ele, que acaba de fazer um papel super macho em "Sniper Americano". Acho digno.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

BREGA NÃO-CHIQUE

Ai, gente, não adianta. Não consigo me empolgar com quase nada do cinema independente brasileiro. Execrei "Depois da Chuva", que está sendo saudado como nosso melhor filme da década até agora. Não entendi a celeuma ao redor de "O Som ao Redor" dois anos atrás. Só gostei mesmo de "Tatuagem", a ponto de incluí-lo na minha listinha dos melhores de 2013. Foi por causa desta exceção que confirma a regra que me animei a ver "Amor, Plástico e Barulho". E também por causa do trailer, que promete uma briga de unhadas entre duas cantoras da cena brega do Recife. Mas o filme consegue ser chato apesar de curto, e de contar com números musicais tão horríveis que são fabulosos. Salva-se a dupla de atrizes, Maeve Jinkings e Nash Laila (onde foi que elas arranjaram esses nomes? também quero!). Mas vou pensar muito antes de sair de casa para ver a última pérola do cinema regional que está agitando a crítica.

O CAZUZA PORTUGUÊS

De vez em quando eu deixo o iPod em modo aleatório, e aí afloram músicas das quais eu nem lembrava mais. Foi o caso de "Canção de Engate", um autêntico hino à pegação gay que se tornou um dos maiores hits de todos os tempos em Portugal. Mas não aqui no Brasil: António Variações nunca se tornou conhecido no além-mar. Talvez por ter morrido (de AIDS) em 1984, uma época em que o contato cultural entre os países lusófonos era ainda mais pobre do que é hoje. Variações tinha esse nome por causa de sua primeira banda, António & as Variações, mas assumiu o novo "sobrenome" com gosto. Achava adequado para um artista que não se prendia a nenhum gênero, e isto quando ainda nem se falava em diversidade. Teve uma carreira curta na qual regravou até fados de Amália Rodrigues, mas seu impacto no pop português é sentido até hoje. "Canção de Engate" foi regravada por lá inúmeras vezes, inclusive pela banda Delfins. Ainda falta um cover brasileiro.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

MISS UNIVERSO AO MEU REDOR

Não faltam lances bizarros em concursos de beleza, mas o mais engraçado é a pretensão deles serem mais do que aquilo que são. No Miss Universo, por exemplo, repete-se o tempo todo que importante mesmo é o trabalho filantrópico que a coroada irá realizar, não suas medidas perfeitas. E por causa disto surgiu aquela constrangedora etapa das perguntas. A pobre coitada, com dois litros de laquê na cabeça e de cima de um salto doze, tem 30 segundos para responder como acabaria com o terrorismo islâmico, ao mesmo tempo em que continua linda e simpática. A 63a. edição do certame teve disso tudo, e ainda um desfile de fantasias absurdas que ainda são chamadas de "trajes típicos" - como se uma camponesa da Indonésia fosse colher arroz vestida de templo de Borobodur. Esta, aliás, foi a roupa favorita do público, mas é óbvio que nenhuma superava a apropriadíssima Nossa Senhora encarnada pela Miss República Dominicana. Mas se a vencedora também tivesse sido eleita pelo voto popular, a vencedora provavelmente seria a Miss Jamaica, minha preferida e a da plateia também. Era das poucas que escapava do clichê corpão/carão/cabelão, com um corte joãozinho e um rosto anguloso que teriam feito história. Mas o júri caretão preferiu a Miss Colômbia, totalmente clichê. Aliás, todas as escolhas pareceram subjetivas ou aleatórias: havia muitas belezas exóticas entre as 88 candidatas, a maioria bem melhor que as finalistas. O Miss Universo voltou para a mídia depois que foi comprado por Donald Trump alguns anos atrás, mas é uma relíquia de priscas eras. Sempre me sinto culpado por assistir, e mesmo assim continuo assistindo.

SYRIZA DO BOLO

Para os leitores que ainda acham que eu sou um reacionário de direita: adorei a vitória do Syriza nas eleições gregas. Pela simples razão de que o arrocho imposto por Angela Merkel às economias em crise na zona do euro não deu certo. A chanceler alemã exigiu que a Grécia e outros países aumentassem impostos e cortassem salários nem tanto porque acreditasse que isto iria ser bom, mas para dar uma satisfação a seu público interno. Os alemães estão fartos de financiar a gastança na Europa, e não estão de todo errados. Mas a austeridade não deu certo: haja vista os Estados Unidos, onde Obama injetou dinheiro na economia. O resultado é que os EUA já voltaram a crescer e a Europa ainda patina. A Grécia, então, parece arrasada por uma guerra: encolheu 25% em cinco anos e o desemprego chega a 26% (e a espantosos 60% entre os jovens, um número que não tem como não gerar convulsão social). Quando estive em Atenas, dois anos atrás, fiquei estarrecido com a quantidade de lojas fechadas em pleno centro da cidade. O Syriza e outros partidos similares, como o Podemos da Espanha, me parecem uma esquerda pós-moderna, sem ranço ideológico e muito mais preocupada com o bem-estar imediato das pessoas do que com a construção de uma utopia. Talvez haja espaço para uma sigla semelhante no Brasil - já está em gestação o Avante, formado por dissidentes da encruada Rede de Marina Silva. Mas, assim como na Grécia, acho que a situação teria que piorar ainda mais por aqui para que um projeto desses fosse adiante. Não sei se torço por isto.

domingo, 25 de janeiro de 2015

DECOLOU

Sabe aqueles comerciais de cerveja onde um cara "que não é ator" é levado "de surpresa" para uma festa sensacional num lugar incrível cheio de gente linda? Foi assim que eu me senti quando subi ao fumódromo do PanAm, antes conhecido como o heliponto do Maksoud Plaza. Que mané Rio de Janeiro: a vista 360o de um dos pontos mais altos de São Paulo é de cair o queixo. A gente se vê rodeado por uma dezena de antenas coloridas e uma cidade que não tem fim. O novo clube de Bob Yang, Facundo Guerra e Cacá Ribeiro ainda está em esquema de soft opening, testando as instalações, e talvez nem haja uma inauguração propriamente dita. Também não vai haver uma programação regular, com festas x nos dias y, para que todas as ocasiões sejam especiais. Estava mais do que na hora de SP ocupar seu espaço aéreo, e agora surgiu uma mais que bem-vinda onda de baladas no topo de arranha-céus. Mas o PanAm é bem mais que só panorama. Também tem barmen vestidos de comissários de bordo, música descoladex e preços módicos. Além disso, as luzes da decoração refletem nos vidros, proporcionando fotos dramáticas - e por que eu não trouxe meu pau de selfie? Ainda tive a sorte de estar na pista quando a dupla de DJs Selvagem soltou sua marca registrada, um remix da versão em português de "I Feel Love" da Donna Summer (você leu certo). Baixe esta pérola do Soundcloud dos rapazes e sinta como é o clima do PanAm, que já é a boate mais bacana de São Paulo.

sábado, 24 de janeiro de 2015

HOMEM DE UMA NOTA SÓ

"Invencível" parece um filme de Clint Eastwood - um filme ruim de Clint Eastwood. Em seu segundo trabalho como diretora, Angelia Jolie se revela quadrada e convencional, apesar da opulência da produção. O roteiro, trabalhado a muitas mãos por alguns dos nomes mais celebrados de Hollywood, conta a história verdadeira de Louis Zamperini: campeão olímpico, náufrago no Pacífico, prisioneiro de guerra. Só aí tem material para uns três filmes diferentes, mas "Invencível" não matou minha fome de cinemão. Porque o protagonista tem uma única característica: é um cara durão, que não se dobra para ninguém. Ponto. Não ficamos sabendo mais nada sobre ele, seus gostos, seus defeitos, suas manias. Coisas horrendas acontecem com o sujeito, que aguenta tudo sem jamais reclamar. Há muitas sequências bem feitas, e o inglês Jack O'Connell provavelmente terá uma longa carreira de sucesso. Já o cantor japonês Miyavi traz um componente gay desnecessário para o sádico comandante do camo de concentração, mas pelo menos ele é sempre interessante de se olhar. "Invencível", nem tanto: ao longo de mais de duas horas de duração, chega a ser monótona sua insistência na bravura de seu herói.

CHAVE DE TORNOZELO


Eu me frustrei com "Foxcatcher". Achava que essa história de obsessão e morte ia ser right up my alley. Que meu lado escuro da força iria se identificar. Qual o quê: o filme é soturno, arrastado e sem grande impacto emocional. Um pouco da culpa é dos atores: Steve Carell, tão badalado e indicado, constrói um vilão asqueroso de fora para fora, só maquiagem e sotaque, sem ter nada lá dentro. Mark Ruffalo não justifica estar entre os finalistas do OScar como ator coadjuvante, e justamente Channing Tatum - que faz muito bem um brutamontes burríssimo, uma criancinha com músculos - foi esquecido das premiações. Mas o grande responsável por essa chatura é mesmo o diretor Bennett Miller, outro que vem colhendo louros imerecidos há algum tempo. Ele vem sendo acusado de ter aumentado o teor gay desse caso escabroso, mas é difícil explicar a motivação do bilionário John Du Pont, um aficcionado pela viadérrima luta greco-romana, sem apelar para a viadagem. Não admiro que tamanho baixo astral tenha fracassado nas bilheterias.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ARÁBIA NEFASTA

Pela quinta vez consecutiva, o trono da Arábia Saudita está sendo passado de um meio-irmão para outro. O fundador do reino, Ibn Saud, teve pelo menos 45 filhos homens (de inúmeras mulheres diferentes), e o resultado é que desde 1953 que a dinastia saudita não sai da segunda geração. Aliás, sabia que se trata do único país do mundo que incorpora em seu nome o sobrenome de uma família? A Arábia Saudita tem muitas outras peculiaridades, quase todas horripilantes. Decapita condenados à morte no meio da rua e sem aviso prévio; proíbe as mulheres de dirigir; e agora mesmo um blogueiro está entre a vida e a morte, depois de ter recebido a primeira de VINTE rodadas de 50 chicotadas a que foi condenado. Esta nação de apenas 20 milhões de habitantes (muitos deles imigrantes) tem um poder desproporcional a seu tamanho, mas condizente com a fortuna trazida por suas imensas reservas de petróleo. Ela exporta sua interpretação radical do islã, o wahhabismo, através do patrocínio de mesquitas mundo afora - a de Buenos Aires é um exemplo, e com certeza existem algumas no Brasil. Taliban, al-Qaeda, ISIS, nada disso existiria sem uma forcinha dos sauditas. O rei Abdullah morreu esta semana (na foto acima ele aparece ainda bonitão), mas será que alguma coisa vai mudar com seu sucessor Salman? Acho que não: ele já tem 79 anos, e deve funcionar como um mandatário-tampão até que seu sobrinho Muqrin um dia assuma. Aí finalmente uma nova geração será coroada, e então, quem sabe?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

VERÃO CRUEL

Será este o pior verão de todos os tempos? O mais quente decerto é. Mas ainda tem engavetamento de más notícias, umas três ou quatro todo dia: Charlie Hebdo, aumento de impostos, Boko Haram, aumento de juros, promotor "suicidado", falta d'água, balas perdidas, surfista assassinado, corte de verbas, falta de luz, mau humor generalizado. Pelo menos hoje a temperatura caiu um pouco, e não é que a Dilma estava elegante na terceira posse do Evo Morales? Muito melhor ela assumir a imagem de mulher fodona e tacar uma cor brilhosa e sólida em cima, do que tentar passar por sílfide diáfana como na própria posse. Talvez seja um sinal de que dias melhores virão. Enquanto isto, vale dançar ao som do Bananarama, um trio de meninas inglesas absolutamente comuns, que no entanto fez sucesso planetário nos anos 80. Atenção para o guardinha "releasing the chicken" no final do clipe.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

TRANSAMAZÔNICA

Demorei, mas consegui ver os cinco primeiros episódios de "Transparent". E posso garantir: a série da Amazon é mesmo essa maravilha que andam dizendo por aí. Roteiro afiadíssimo, direção segura, e no meio de tudo um personagem que já entrou para a história da TV: Maura, o pai que se revela transexual para os três filhos adultos (ele é o "trans parent", sacou? sacou?). Mas o programa é muito mais do que isto. O verdadeiro tema de "Transaparent" é o sexo (todo mundo transa muito, o tempo todo) e a identidade (por incrível que pareça, o único que conhece a sua é o "moppa", ou "pãe"). Agora, como que a Amazon ainda não disponibilizou essa pérola para o resto do mundo? Tem que ver isso aí, em todos os sentidos da frase.

O MONSTRO DAS PROFUNDEZAS


Não tenho o chip para apreciar a grandiosidade de filmes como "Leviatã". O vencedor do Globo de Ouro de longa em língua estrangeira também está indicado ao Oscar, depois de ter arrancado aplausos no festival de Cannes e recebido críticas excelentes no mundo inteiro. Mas eu simplesmente não consigo embarcar no estilo cerebral do diretor Andrey Zvyagintsev, e isto apesar de ter gostado muito de "O Retorno". Claro que eu consigo gostar do trabalho dos atores, ou das paisagens espetaculares da cidadezinha às margens do mar de Barents onde se passa a história. Que é inspirada em fatos reais e digna de arrepios: todo o poder público da cidade se une para "desapropriar" a casa de um sujeito, revelando a corrupção e a monstruosidade da Rússia de Putin. É tamanho o baixo astral que, no fundo, acho que só aumenta as chances do único indicado que tem humor levar a estatueta dourada para casa: o argentino "Relatos Selvagens".

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

CRISTINA VARGAS?

Por quê um cara que se dizia ameaçado de morte iria se matar na véspera de apresentar as provas de sua denúncia? O caso do procurador argentino Alberto Nisman me lembra muito o atentado contra Carlos Lacerda em 1954. Não estou dizendo que ele foi morto sob as ordens diretas de Cristina Kirchner, mas parece meio óbvio que o mandante do crime é ligado de alguma forma ao governo. Só que, ao invés de eliminar um problema, criou um ainda maior para o kirchnerismo, que corre até o risco de não sobreviver até as eleições de outubro. Mas duvido que a viúva K. tenha a mesma dignidade de Getúlio e dê um tiro no próprio coração.

A PRESIDENTA APAGADA

Mas então, trata-se de uma paida elaborada? De uma maxi-pegadinha? O novo governo não tem nem um mês e já conseguiu romper quase todas as promessas da campanha. Está acontecendo tudo o que diziam que se passaria caso a oposição fosse eleita, do aumento de impostos à escolha de ministros ligados ao mercado financeiro. E como é que a "Pátria Educadora" começa cortando sete bilhões do orçamento da educação? Nesse contexto trágico, o apagão de ontem soa como galhofa - ainda mais lembrando que São Paulo teve seu dia mais quente em 72 ANOS. Mas o PT não tem como jogar esse desastre na conta da "herança maldita". Está há doze anos no poder, e é óbvio que não está fazendo o que deveria no setor energético. Sem ter como se justificar, Dilma permanece calada. Também parece continuar no escuro, sem ter ideia de como conduzir o país.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

PARIS GRAMMAR


Outro dia me vangloriei aqui no blog da minha formidável capacidade de comprar CDs só pela capa e acertar na mosca. É claro que eu também erro: dessa última viagem, trouxe dois discos que eu achei bem plus ou moins. Mas o pior foi não ter dado bola para Christine and the Queens. Achei que era rock, e eu já passei dessa fase. Depois vi que a revista "Les Unrockuptibles" escolheu "Chaleur Humaine" como o melhor álbum de 2014, francês ou não, e resolvi averiguar. Aí descobri que não se trata de uma banda, e sim de uma cantora solo cujo nome de batismo é Héloïse Letissier. E então me arrependi: o som da moça é bem do tipo que eu ando ouvindo ultimamente. Ela faz parte da onda atual de vocalistas que evitam a sensualidade explícita, apesar de não serem nada caretas. Sua música lembra um pouco a da Lorde, e nas várias faixas em inglês parece bastante o London Grammar. Mas Christine and the Queen também tem uma pegada performática original, com dancinhas interpretativas e uma certa dose de carão. Gostei bastante, e prometo me informar melhor antes de invadir as lojas de disco numa próxima viagem.

DÁ PARA IR MAIS BAIXO?

Vou tentar impedir que o sangue me suba à cabeça e analisar do ponto de vista mercadológico as imagens que o ISIS divulgou na semana passada. Algumas parecem encenadas, como as que mostram uma mulher antes e depois de seu suposto apedrejamento, ou mesmo as do menino de dez anos que teria executado a tiros dois supostos espiões russos. O que é que esses terroristas pretendem com isto? Nos aterrorizar, é claro. Agem como o bandido que mata sua vítima à toa, só para manter sua fama de mau. Mas será que tamanhas barbaridades ajudam no recrutamento de novos membros para o grupo? Já estão surgindo relatos de ingênuos idealistas que se mandaram para a Síria achando que iam combater a ditadura de Assad, e de repente se viram lutando por uma facção ainda mais cruel. Mas é arrepiante pensar que pelo menos uma parte da população das áreas ocupadas apoia o ISIS - ou se deixa enganar por ele. Os jihadistas se gabam de estar eliminando todos os "sodomitas" de seu território. Acontece que alguns desses executados não são homossexuais. São adversários políticos, talvez até mesmo dissidentes surgidos no meio da milícia. Mas, para convencer o populacho de que esses caras merecem a morte, o ISIS alega que são gays. Dá para perceber, nas fotos dos dois infelizes que foram atirados do alto de um prédio em Mossul (fotos autênticas, infelizmente), que tem nego no chão aplaudindo. Se você tiver estômago, veja aqui mais imagens que irão revirá-lo.

domingo, 18 de janeiro de 2015

TRANSAS E CARETAS

"Glee" ainda está no ar, apesar de ninguém mais se importar com a série há pelo menos uns dois anos. Mas o programa ainda reservou algumas surpresas para esta última temporada. No episódio que foi ao ar nos Estados Unidos na semana passada, um personagem se revelou transexual - ou melhor, pronto para iniciar a transição. Não, não foi a Sue Sylvester: foi sua rival Dot-Marie Beiste, a treinadora de futebol que, apesar da aparência ultra-masculina, sempre foi hétero e até casada com um sujeito que batia nela. Detalhe: depois da transição, ela se tornará gay, pois sua atração por homens continua inabalada. É de dar nó na cabeça de ingênuos como eu existir alguém que troca de gênero para se tornar homossexual, mas tá assim de casos por aí. E "Glee", que sempre foi um seriado prafrentex, marca mais alguns pontos em sua reta final. Vai deixar saudades.

sábado, 17 de janeiro de 2015

BOKO MOKO HARAM

Toda vez que aparece um movimento na internet em prol de alguma coisa, não demora muito para que surja também uma reação: não um movimento explicitamente contrário, mas um que diz que há um outro problema muito maior, e portanto muito mais digno da nossa indignação. Foi assim com o desafio do balde de gelo, e já está sendo assim com o caso do "Charlie Hebdo". Estou fascinado com o número de pessoas que estão chamando a atenção nas redes sociais para as vítimas do Boko Haram na Nigéria, muito mais numerosas que as de Paris, como se esses dois problemas não fossem exatamente o mesmo. Para quem ainda não sabe: o Boko Haram é uma milícia jihadista que quer converter a Nigéria na marra para sua interpretação radical e equivocada do Islã, e que vem causando estragos consideráveis por lá há pelo menos cinco anos. No começo do ano passado, sequestraram centenas de meninas (para talvez vendê-las como escravas, anunciou um dos chefões do bando) e provocou o surgimento do #BringBackOurGirls. Pena que não passou de uma hashtag. Os ativistas virtuais não conseguiram comover o governo nigeriano, um dos mais corruptos do mundo, possivelmente não interessado em antagonizar sua população muçulmana. O exército de lá está fazendo quase nada contra os extremistas. Talvez fosse o caso de uma intervenção estrangeira como a que acabou com o grupo ligado à al-Qaeda que tomou o norte do Mali, retratado no filme "Timbuktu". Mas a Nigéria não é o miserável Mali: é a nação mais populosa da África, e riquíssima em petróleo. É verdade que matanças de pretos pobres nos confins do mundo não impactam muito a mídia ocidental, e é mais do que justo que fiquemos indignados por causa dela. Mas ignorar que o conflito é muito mais amplo e difundido do que uma escaramuça tribal é pior do que ser desinformado: é ser boko moko, como dizia uma propaganda do guaraná Antarctica veiculada na era mesozóica.

CAMINANTE, NO HAY CAMINO


Tenho dois amigos que estão faazendo o Caminho de Santiago neste exato momento. Ela é de família judia, e nenhum dos dois é especialmente religioso. Mesmo assim, eles estão enfrentando com garbo a mais famosa peregrinação da cristandade, em busca de Deus ou de si mesmos - o que talvez no fundo sejam a mesma coisa. Nunca fiz nada parecido, mas entendo perfeitamente e até tenho vontade de fazer também (se bem que com alguns eunucos para carregar a bagagem e as garrafas de Evian). Por tudo isto fiquei curioso para ver "Livre", o filme que deu indicações ao Oscar para Reese Witherspoon e Laura Dern. Reese faz uma mulher em crise que, depois da morte da mãe, do vício em drogas e em sexo anônimo e de um divórcio, parte sozinha para a Pacific Crest Trail, uma trilha de mais de mil quilômetros que atravessa os três estados do oeste americano. Não acontece muita coisa além dos incidentes esperados e de alguns flashbacks, que não chegam a elucidar as causas da angústia da personagem. Mas o diretor canadense Jean-Marc Vallée (do ótimo "Clube de Compras de Dallas", do ano passado) consegue transformar esta árdua caminhada numa jornada de iniciação. Baseado numa história real, "Livre" é um filme diferente do que costuma se produzir em Hollywood, e não vai agradar a quem só gosta de história com começo, meio e fim. Para apreciá-lo, é preciso entrar no cinema como quem começa um viagem sem rumo definido: pronto para o que der e vier, porque chegar lá é o que menos importa.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

BANG YOU'RE DEAD

A segunda coisa que mais me entristece nesse caso do brasileiro que será fuzilado na Indonésia no próximo domingo é a politicagem em torno desta execução. O presidente Joko Widodo foi eleito por pregar uma repressão ainda mais brutal ao tráfico de drogas em seu país. Sei não, mas essa tática me parece ser a de instalar pânico moral no eleitorado: duvido que a Indonésia tenha um grande número de viciados em qualquer coisa, ou que a sociedade civil esteja sendo ameçada por traficantes como já o foi a Colômbia e hoje é o México. Invanta-se um inimigo, para depois se dar cabo dele. É sintomático que Marco Moreira tenha que enfrentar o pelotão, mas o terrorista islâmico Umar Patek, que fabricou as bombas para um atentado em Bali que matou mais de 200 pessoas em 2002, tenha sido condenado "apenas" à prisão perpétua. Explica-se: a Indonésia tem a maior população muçulmana do mundo, e claro que muita gente deve nutrir alguma simpatia pelos islamofascistas. Já o coitado do Marco Moreira é estrangeiro, vindo de um lugar distante, que tem poucos laços culturais ou comerciais com os indonésios. Por isto que Widodo se sentiu tão à vontade para recusar mais um pedido de clemência de Dilma Rousseff. Moreira não era um "dealer" profissional: só um sujeito que achou que poderia ganhar uma granalhaça fazendo um avião, e se deu mal. Morrerá única e exclusivamente para impressionar os eleitores de Widodo, mais nada. Como eu disse, essaa politicagem é a segunda coisa que mais entristece nesse caso. A primeira? Os comentários deprimentes dos brasileiros nos sites de notícias. A maioria dos que eu li defende a volta da pena da morte ao nosso país (ela foi abolida por d. Pedro II ainda no século 19), de preferência com requintes de crueldade e para qualquer tipo de delito. Depois me espanto de tantos de nós não fazerem a puta ideia de quem seja Charlie.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

ÊÊÊ, MEU AMIGO CHARLIE

Um amigo meu encontrou conforto na religião católica depois que se descobriu HIV-positivo. Este amigo declarou nas redes sociais que ficou horrorizado com o atentado ao "Charlie Hebdo", MAS que não admite piadas com a religião de quem quer que seja. Nem à dele, que proíbe a camisinha que poderia ter evitado que ele se contaminasse... Tem até uma charge famosa do "Charlie" que mostra o papa consagrando um preservativo como se fosse uma hóstia. Hoje o próprio Francisco disse que não é Charlie, porque acha que nenhuma religião possa ser "ofendida". Que isto venha dele, zuzo bem - eu também não acredito que o Bergoglio seja esse encanto de liberal. Mas ele deu a senha para que muita gente soltasse também seus "mas". Gente para quem o Iluminismo ainda não chegou. Gentem! Toda religião tem algo de ridículo, porque toda religião quer exercer algum tipo de poder sobre seus fiéis - e não tem nada mais risível do que a sede de poder. Por isto, fiz questão de ilustrar este post com uma das capas mais escandalosas do pasquim francês. Também recomendo a todos a leitura do artigo que o escritor (e meu amigo) Bernardo Carvalho escreveu para o jornal "Libération" (désolé, está em francês). Para completar, baixe aqui a versão em pdf do histórico "Charlie Hebdo" desta semana. Não é delicioso pensar que os tiros dos terroristas saíram pela culatríssima? Que eles agora estão mortos, mas que o "Charlie Hebdo" está mais vivo e sacudido do que nunca?

SANTUCCI IS THE NEW CHANCHADA



Daqui a uns trinta anos, os estudiosos do cinema brasileiro irão se debruçar sobre esta fase de comédias populares que atravessamos agora e resgatá-las para a posteridade. Vai ser parecido com o que aconteceu com as chanchadas dos anos 50 ou as pornochanchadas dos anos 70. Malhadíssimas pela crítica enquanto estavam em cartaz, elas só foram valorizadas quando envelheceram - e isto apesar de arrastarem multidões às salas. Hoje em dia é nítida a má vontade de parte da imprensa com filmes como "De Pernas pro Ar" ou "Até que a Sorte nos Separe" (não por acaso, todos dirigidos por Roberto Santucci). Tanto que a nova obra do diretor, "Loucas pra Casar", foi recebida a pedradas e os comentários de sempre: parece um especial de TV, humor óbvio, atores manjados, etc. etc. Mas filmes como este são a espinha dorsal de qualquer indústria conematográfica, em qualquer país que se disponha a ter uma. Fora que "Loucas para Casar" é acima da média: o bom roteiro de Marcelo Saback tem um twist interessante no final, que eu talvez tivesse previsto se tivesse ligado as pistas que ele vai soltando aos poucos. Mas não previ, e me surpreendi: de repente o que parecia ser apenas uma comédia desmiolada sobre três mulheres que disputam o mesmo homem atinge uma profundidade inesperada. Nada muito nietzscheano, lógico, mas o bastante para que o filme seja um bom programa para esses dias tão quentes.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

INDICATOR TABAJARA

As indicações ao Oscar saem às 11 e meia da manhã de amanhã. Como já faço há alguns anos, aqui vão minhas previsões para as principais categorias. Dessa vez estou marcando em negrito os cinco prováveis indicados (no caso de melhor filme, nove) e deixando no final de cada lista um possível penetra. Ano passado errei uma barbaridade. Vamos conferir amanhã se eu recuperei o meu mojo?

MELHOR FILME
American Sniper
Birdman
Boyhood
Garota Exemplar
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
A Teoria de Tudo
Selma
Whiplash
O Abutre

ATUALIZAÇÃO: Foram só oito indicados. "Garota Exemplar" ficou de fora. Mas todos os outros que eu previ, entraram.

MELHOR DIRETOR
Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)
Ava Du Vernay (Selma)
Alejandro González Iñárritu (Birdman) 
Richard Linklater (Boyhood)
Morten Tyldum (O Jogo da Imitação)
Clint Eastwood (American Sniper)

ATUALIZAÇÃO: Clint Eastwood ficou de fora, ainda bem. Acho um chato supervalorizado. Mas algo estranho aconteceu: ao invés de Selma DuVernay, entrou Bennett Miller por "Foxacatcher" - que NÃO foi indicado a melhor filme. Primeira vez que isto acontece desde que a Academia aumentou o número de indicados em sua principal categoria

MELHOR ATOR
Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação)
Jake Gylenhaal (O Abutre)
Michael Keaton (Birdman)
David Oyelowo (Selma)
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
Steve Carell (Foxcatcher)

ATUALIZAÇÃO:Aqui errei um pouco. Jake Gylenhaal, tão badaldo ultimamente, não chegou lá. Mas Steve Carell, que andava meio desprestigiado, chegou. Assim como Bradley Cooper, outro que eu acho supervalorizado, mas que agora já tem tem três indicações consecutivas.

MELHOR ATRIZ
Jennifer Aniston (Cake)
Felicity Jones (A Teoria de Tudo)
Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Rosamund Pike (Garota Exemplar)
Reese Witherspoon (Livre)
Amy Adams (Grandes Olhos)

ATUALIZAÇÃO:Nem Jennifer, nem Aniston. A Academia parou de ignorar Marion Cotillard e deu a ela sua segunda indicação, apesar do filme belga "Dois Dias, Uma Noite" não ter ficado nem entre os semi-finalistas de língua estrangeira.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Robert Duvall (O Juiz)
Ethan Hawke (Boyhoo)
Edward Norton (Birdman)
Mark Ruffalo (Foxcatcher)
J. K. Simmons (Whiplash)
Josh Brolin (Vício Inerente)

ATUALIZAÇÃO:Acertei todos, nhénhénhé.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Arquette (Boyhood)
Jessica Chastain (O Ano Mais Violento)
Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Emma Stone (Birdman)
Meryl Streep (Caminhos da Floresta)
Laura Dern (Livre)

ATUALIZAÇÃO:Supresita: Jessica Chastain, tão queridinha ultimamente, cedeu o lugar para a veterana Laura Dern.

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Force Majeure (Suécia)
Ida (Polônia)
Leviatã (Rússia)
Relatos Selvagens (Argentina)
Timbuktu (Mauritânia)
Tangerinas (Estônia)

ATUALIZAÇÃO:Entrou a Estônia, saiu a Suécia. Raro não haver um único filme escandinavo entre os cinco felizardos. Mas acho que vai dar mesmo "Relatos Slevagens": é o único diveritdo numa categoria onde só tem barra pesada.

RELIGIÃO 007

A melhor sequência do filme "Êxodo: Deuses e Reis", ainda em cartaz, é a das dez pragas do Egito. É até mais impressionante do que a abertura do mar Vermelho, porque os flagelos são mostrados com o máximo de realismo. Chega a ser divertido ver os "malvados" egípcios sofrendo debaixo de toneladas de sapos e moscas. Mas a última praga não me caiu bem. Claro que eu sabia do que se tratava, porque conheço o que diz a Bíblia. Mas vê-la a cores na tela grande me revirou o estômago. Para punir os algozes dos hebreus, Jeová mata os filhos primogênitos de todas as famílias. Inclusive o herdeiro do faraó, um bebê de colo. É preciso lembrar que na Antiguidade existia o conceito de culpa familar: se o pai cometia um crime, era perfeitamente aceitável que filhos e netos pagassem por ele. Mas esta passagem bíblica tão violenta é um exemplo perfeito de como o Antigo Testamento não pode servir de guia espiritual para quem vive no século 21. Ele defende uma moral datada, que não se encaixa no mundo multicultural e quase integrado onde estamos hoje. O massacre dos primogênitos também me fez concluir outra coisa. O judaísmo é a mais antiga das três religiões abrâmicas, que nasceram no Oriente Médio e descendem todas da tradição do patriarca Abraão (as outras duas são o cristianismo e o islamismo). E Moisés, o personagem central do Êxodo, é tido como o codificador da fé judaica. Pois ele também lançou uma ideia que permeia até hoje essas três grandes religiões e que, no frigir dos ovos, é responsável pelo ISIS, pelo ataque ao "Charlie Hebdo" e pelos massacres na Nigéria. A noção de que Deus quer que o fiel mate o infiel. Não importa que seja uma criancinha inocente que ainda não saiba nada de coisa nenhuma: se ela está do lado infiel, é um alvo válido. Esse paradigma é puramente abrâmico e tem a ver com a conturbada geopolítica da chamada "Terra Prometida", desde sempre disputada por muitas tribos diferentes. Deus torce por nós; Deus nos manda eliminar nossos inimigos, porque nós somos o povo escolhido. Religiões de outros lugares do mundo, como o budismo, o confucionismo ou o hinduísmo, não dão a seus seguidores esse caráter de agente 007,  que tem licença para matar. Não estou tentando eximir os fundamentalistas de nenhuma culpa. Milhões de outras pessoas nasceram e cresceram na mesmíssima cultura que eles, e nem por isto saem por aí atirando em cartunistas. Mas acho que a reflexão é interessante. As raízes do terrorismo islâmico estão lááá atrás, na escravidão dos hebreus pelos egípcios. Um fato que até hoje não foi cientificamente comprovado, veja só.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

GELATINA TÓXICA

Gilberto Kassab está se tornando um dos mais repugnantes políticos brasileiros, e com um poder desproporcional a sua magra votação. O ex-prefeito de SP amargou um distante terceiro lugar na úlitma eleição para senador, mas foi agraciado com o ministério das Cidades. O segredo está no PSD, o gelatinoso partido sem ideologia que ele criou para atrair parlamentares que queriam entrar para a base de apoio do governo. Aproveitou-se de uma brecha na lei, que pune a infidelidade partidária com a perda do mandato - a não ser que o infele esteja migrando para um partido recém-fundado. Agora Kassab repete a maracutaia: inventou o Partido Liberal só para servir de guarida para quem quiser puxar o saco e cobrar favores da presidência. E ainda teve a desfaçatez de anunciar que o o PL vai durar pouco: assim que terminar essa temporada de adultérios, ela será incorporado ao PSD. Enquanto isto, Marina Silva não consegue juntar as assinaturas necessárias para criar sua Rede. Ainda pode levar um tempo para a justiça eleitoral melar essa festa, pois uma mudança na lei vigente não se aprova de uma hora para a outra. Isto se for aprovada, porque nossos queridos políticos estão adorando as espertezas do Kassab. É uma pena: ele poderia ter se tornado um expoente da moderna direita brasileira, sem coronelismo, tão necessária ao funcionamento da democracia. Preferiu ser um bosta como muitos de seus pares.

DUROS DE OUVIDO

De vez em quando acontece: o roteiro de um filme é bem melhor que sua direção. É o caso de "A Família Bélier", um simpático drama familiar que poderia ter se tornado um blockbuster internacional nas mãos de um realizador mais competente. O argumento foi calibrado para emocionar as multidões. Numa família onde pai, mãe e irmão são surdos, a irmã é a única que escuta, e todos dependem dela. Aí a garota resolve ir estudar em Paris, porque descobre que tem um talento fora do alcance de seus parentes: canta muito bem (ela é interpretada por Luane Emera, que foi finalista da versão francesa do "THe Voice"). O desenlace é mais do que previsível, mas a mensagem de tolerância é importante e algumas boas piadas tornam agradável a ida ao cinema. Além de tudo, Karin Viard dá um show no papel da mãe. Ela não é uma diva como Isabelle Adjani ou Fanny Ardant, mas é talvez a melhor atriz francesa em atividade no momento. Pena que tantas qualidades não sejam o bastante para tornar "A Família Bélier" inesquecível.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

VOCÊ TEM NÍVEL PARA SER CHARLIE?

Je suis fatigué. Passei boa parte do fim de semana discutindo com estranhos no Facebook e tentando convencer gente do bem que elas tinham, sim, que ser Charlie. Como qualquer unanimidade em tempos de internet, a que surgiu na quarta-feira passada não sobreviveu ao dia seguinte. Claro que isto é saudável, mas eu me decepcionei com alguns amigos, que eu considerava inteligentes e bem-informados, dizendo que não eram Charlie. Alguns não entenderam: achavam que afirmar "Je Suis Charlie" significava apoio incondicional a todas as barbaridades publicadas pelo "Charlie Hebdo". Preferiam dizer "Je Suis Ahmed", em referência ao policial muçulmano morto pelos terroristas, sem se dar conta de que o próprio Ahmed ERA Charlie. Esses, eu consegui que mudassem de ideia.
Mas uns poucos, não. Uma conhecida tem uma visão edulcorada da humanidade: quer um mundo "sem ofensas", como se isto fosse bom. Não, eu prefiro ter a liberdade de ofender! Um outro veio me justificar o terrorismo islâmico lembrando as atrocidades que a França cometeu na Argélia. Só que o terrorismo não é só contra a França. A imensa maioria de suas vítimas são muçulmanos em países muçulmanos. Sorry, esquerdistas à moda antiga, os fundamentalistas não estão combatendo o capitalismo nem se vingando do colonialismo. Estão é querendo acabar com o humor, a irreverência, a pluralidade, as outras religiões, os direitos das mulheres, os gays e por aí vai. A lista é imensa. São piores que os nazistas.
Ficou claro para mim que muitos brasileiros ainda têm um autoritarismo latente. Nossa democracia é jovem, e jamais passamos pelo anticlericalismo que vingou na França desde o século 18. Aqui ainda julgamos normal que uma repartição pública tenha um crucifixo pendurado na parede, uma óbvia violação à separação entre Igreja e Estado. Também estamos passando por uma fase de exagerado mimimi, achando que tudo nos insulta ou nos tira algum direito. Quando um cara como Leonardo Boff - que sofreu a censura de um estado medieval (o Vaticano) e teve a vida e a carreira truncadas por causa disso - vem defender a censura estatal, é porque uma grande parte de nós também não saiu da Idade Média.
Muitos condenaram o "Charlie Hebdo" por causa de meia dúzia de charges republicadas pela mídia mundial. O jornal é bem mais do que isto. Ele é um remanescente da esquerda festiva do final dos anos 60, a mesma que que gerou "O Pasquim" no Brasil (eles inclusive são todos amigos entre si). E o alvo preferencial do "Chalrle" não é o Islã nem o fundamentalismo islâmico, mas a extrema-direita francesa - esta sim, inimiga declarada dos muçulmanos e de todos os imigrantes (tanto que Jean-Marie Le Pen se recusou dizer que era Charlie). No mais, a linha de humor deles é semelhante à do desenho animado "South Park", que tira sarro de gay, negro, evangélico, criança, cadeirante, Michael Jackson, gordo, Tom Cruise, morto, político, Jesus, você, eu e todo mundo. Se você já riu com Henfil, Jaguar ou "South Park", sinto dizer: você é Charlie pra caralho.

MARTA DE RIR

Estou me divertindo muito com Marta Suplicy ultimamente. Suas entrevistas andam mais sincericidas do que uma caricatura de Maomé dando a bunda. Ontem ela disse ao "Estadão" que Lula está alijado do segundo governo Dilma, e desceu o pau (mais uma vez) na presidenta. O que ela pretende com isto? Ser expulsa do PT, para poder se candidatar à prefeitura de São Paulo por outro partido? Ou deixar claro que existe um racha no núcleo do poder federal, com criador e criatura irremediavelmente separados? Difícil dizer. Inclusive porque não sei o quanto ela continua próxima do ex-presidente, depois dele tê-la preterido por Fernando Haddad. Não estou entendendo muito, mas estou me divertindo.

domingo, 11 de janeiro de 2015

EU SOU NUVEM PASSAGEIRA


Uma atriz famosa é convidada a participar da remontagem da peça que a lançou para o sucesso, há mais de 20 anos. Só que agora querem que ela faça o papel da mulher madura, não o da jovem espevitada que fez antes. A atriz entra em crise. Esse argumento com potencial melodramático parece um mash-up de "A Malvada" com "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant", e daria um filme explosivo nas mãos de Almodóvar. Mas a ideia partiu da comedida Juliette Binoche, e ela chamou o diretor Olivier Assayas para desenvolvê-la. O resultado é "Acima das Nuvens", uma meditação sobre a passagem do tempo com boas doses de humor, mas que nunca resvala para o transbordamento emocional. Talvez o filme seja suíço demais: a plácida paisagem dos Alpes parece contaminar a protagonista, que nunca deixa vir à tona o turbilhão que deve estar sentindo por dentro. Juliette está perfeita como sempre, mas eu me surpreendi com as americanas Chloë Grace Moretz e, principalmente, Kristen Stewart. Ela lembrava um zumbi com sono na "saga" (eca) "Crepúsculo", mas aqui está bem acordada. "Acima das Nuvens" é um filme esquisito e um pouco longo, mas não chega a ser chato.

sábado, 10 de janeiro de 2015

O OSCAR DA CHIQUERIA

O Ailton Botelho teve a cara de pau de dar o Vipado Award de blog do ano para o Kadu Dantas, só porque ele tem trocentos trilhões de acessos por dia e eu não. Quem é Kadu Dantas na fila do pão? Não me resta outra opção: vou ter que invadir a redação do Vipado e fuzilar o Ailton. OK, piada horrível na hora errada, mas viva o humor irresponsável! E viva qualquer tipo de premiação, porque é sempre divertido discordar delas.  Algumas escolhas do Ailton são polêmicas, como o Jean Wyllys. Outras são óbvias mesmo: jura que não tem outro empresário gay no Brasil além do André Almada? (se alguém responder André Fischer, vai levar um tiro de fuzil). Confira aqui a lista dos vencedores do Viado de Ouro, aham, Vipado Awards.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

NÓS, OS PÁSSAROS

Ontem rolou um passaralho na redação de "O Globo". Gente do calibre de Artur Xexéo foi demitida. Nesta mesma semana, a editora Abril também desocupou metade de seu prédio em São Paulo. Ainda não sei de cortes por lá, mas não devem demorar. Podemos culpar a administração míope dessas empresas - no caso da Abril, há até pouco tempo tinha diretor que achava que a internet era um modismo passageiro. Mas o fenômeno se repete mundo afora. Toda a mídia impressa vem sofrendo "ajustes". Os jornais estão sendo escritos por equipes cada vez mais juniores (ou seja, mais baratas), e já dá para perceber que o nível vem caindo. Nas redes sociais, muitos lamentam essas demissões e criticam os patrões. Eu também. Mas é preciso lembrar que nós, os internautas, também somos culpados. Queremos ter tudo de graça: filmes, músicas, textos. Baixamos ilegalmente quando não nos dão de bandeja. Trocamos links e senhas para ler sites pagos sem ter que pagar. E achamos a coisa mais normal do mundo, como se os profissionais que fazem esses filmes, músicas e textos já fossem regiamente recompensados e não precisassem do nosso dinheirinho. Claro que precisam: desse jeito, daqui a pouco só teremos blogs amadores e/ou patrocinados por partidos políticos para nos informarmos. É óbvio que a indústria cultural e jornalística precisa construir um novo modelo de negócios, e para ontem. Mas ela terá ainda menos tempo isso se a nossa mentalidade infantil e predadora continuar fomentando passaralhos.

TUM-DUM-TSS


Eu estava curioso para ver "Whiplash" mais por causa das excelentes críticas. A história me parecia manjada: professor cruel maltrata o aluno, para o próprio bem deste. No fundo o malvado é boa praça. Só que o filme vai bem mais fundo do que isto. O aluno não é nenhum santinho. Extremamente competitivo, despreza os rivais e toma atitudes que beiram o mau-caratismo. Mas o professor é ainda pior... Mais não posso contar. Ambientado numa fictícia escola de música, "Whiplash" se passa quase todo em auditórios e salas de ensaio, e é refrescante ver no cinema o mundinho das jovens virtuoses do jazz. Miles Teller é o novo menino-prodígio de Hollywood: apesar da cara comum, tem muita presença em cena, e aprendeu a tocar bateria como um profissional. Mas a grande sensação é o veterano J. K. Simmons, já favorito para o Oscar de ator coadjuvante. "Whiplash" é muitíssimo bem dirigido, atuado e editado, e tem mais supense do que muitos filmes de ação. É tenso, divertido, energizante feito um solo improvisado. O primeiro grande filme de 2015.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

MARIDOS QUE MORDEM FRONHAS

O documentário "Meu Marido NÃO é Gay" ainda não foi ao ar pelo canal pago americano TLC, mas já está provocando gritaria. Várias entidades pró-LGBT estão promovendo abaixo-assinados para que o programa seja engavetado, porque ele não seria suficientemente crítico de seu assunto: homens casados que assumem sentir atração pelo mesmo sexo. São todos mórmons, maridos e esposas, e eu mal consigo imaginar o grau de loucura que infesta a cabeça desse galera. Porque não há falta de macho no mercado que justifique que uma mulher se case com um sujeito que está "lutando" contra a própria viadagem (a gente sabe quem costuma ganhar). Por isto mesmo, eu fiquei curioso para ver este especial. Além disso, acho que cada um tem todo o direito de fazer o que quiser com a própria vida, inclusive jogá-la fora. Só espero que esses coitados não sirvam de exemplo para as bibas reprimidas que vivem em ambientes religiosos.

PAULETTE VIVE

No começo dos anos 70, no auge da ditadura militar, uma revista chamada "Grilo" publicava no Brasil a nata dos quadrinhos underground que se produziam na Europa e nos Estados Unidos. Nomes como Robert Crumb, Jules Pfeiffer e Guido Crepax frequentavam o gibi, que, apesar do conteúdo erótico e político, era vendido livremente nas bancas de jornal - e ao alcance de um garoto de 12 anos ávido por historinhas de qualquer tipo. A "Grilo" foi um dos meus ritos de passagem para a idade adulta. Uma das minhas personagens favoritas da revista era a gostosíssima Paulette, na verdade um velho de mais de 100 anos preso no corpo de uma linda mulher. As aventuras de Paulette tinham muita sacanagem e humor negro, e o senso comum diria que elas eram totalmente inadequadas para um pré-adolescente. Mas acabaram sendo importantes para a minha formação, tanto a intelectual quanto a sexual. Paulette era desenhada por Georges Pichard, mas o autor de seus roteiros era Wolinski. O mesmo Wolinski que tombou ontem em Paris, aos 80 anos de idade, sob os fuzis de dois nuls que devem estar sendo presos ou mortos pela polícia no momento em que escrevo este post. Os imbecis acharam que estavam vingando Maomé: mal sabem eles que teriam que matar muito mais gente para elminar a liberdade e a irreverência da face da Terra. Como milhões de outros leitores, caí no caldeirão da poção de Paulette quando eu ainda era relativamente pequeno. Ela vive dentro de nós.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

SOMOS TODOS CHARLIE

Será que este foi o primeiro atentado do Estado Islâmico em território europeu? Os relatos dizem que os terroristas falavam mal francês, um sinal de que não devem ter crescido no país. Também é preocupante o fato deles aparentarem terem sido bem treinados: não foi coisa de amador. E como é que a sede do "Charlie Hebdo", alvo de bombas no passado, não gozava de segurança máxima? Fico tristíssimo pelo Wolinski, um dos autores de "Paulette" - minha introdução aos quadrinhos eróticos, quando eu tinha 12 aninhos de idade. Fora que o timing foi terrível para a comunidade islâmica da Europa, em boa parte pacífica e integrada. Num momento em que acontecem passeatas anti-Islã em vários países, esse crime medieval dá mais munição à direita anti-imigração. Aliás, é complicado reagir a essa barbárie sem resvalar para o racismo ou a intolerância religiosa. Mas não podemos piscar: o atentado foi contra todos nós, mesmo os que não acham graça ou se sentem ofendidos pelos cartuns publicados pelo "Charlie Hebdo". Todos os órgãos que acreditam na liberdade de imprensa e na de expressão deveriam republicar as charges, para mostrar a esses celerados que eles perderam essa luta faz tempo. O ataque em Paris deixa a nossa discussão sobre regulação da mídia parecendo picuinha de comadres. Há algo muito maior em jogo do que este ou aquele partido político: é a própria civilização, e não vou colocar ocidental depois dela. É a civilização, ponto.

AVALIAÇÃO: REGULAR


O argumento de "O Crítico" é melhor que sua realização. Este pequeno filme argentino parte de uma premissa adorável: um crítico esnobe, que odeia comédias românticas, vê sua vida virar de cabeça para baixo quando esta se torna... uma comédia romântica. Mas o diretor e roteirista Hernán Guerschuny não sabe se homenageia ou tira sarro, tanto do cinema comercial quanto do "de arte". Seu protagonista é um dinossauro que talvez exista apenas às margens do Prata: um crítico de cinema que só pensa em francês (boa sacada), e cujo gosto parou de evoluir quando acabou a nouvelle vague. Mas o erro fatal foi ter dado esse personagem a Rafael Spregelburd, um ator sem um pingo de carisma. Apesar da curta duração, o ritmo patina. E os raros momentos divertidos dão a sensação de que "O Crítico" poderia ter sido incrível, se tivesse um pouquinho de autocrítica.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

MONOPOLIOMIELITE

Meu post sobre a regulação da mídia gerou uma enxurrada de comentários negativos, muitos deles me criticando por não aceitar comentários negativos. Alguns leitores também não sabem interpretar textos, e me cobram por coisas que eu não disse. Então deixa eu repetir mais uma vez: não sou contra a regulação da mídia, muito menos contra o debate. Só tenho certeza de que o objeitvo do PT é calar a imprensa que não compactua com o partido. Apenas.

Tanto sou a favor do debate que quero fazer aqui um post mais informativo do que opinativo. Muita gente fala em "monopólio" da mídia, referindo-se quase que exclusivamente à TV aberta. Mas parecem não saber como funciona o sistema de concessão de canais pelo governo. Vou tentar explicar, sem ser um especialista na área - se eu falar muita bobagem, por favor me corrijam.

O que chamamos de "TV aberta" é, a grosso modo, aquela que ocupa a banda VHF ("very high frequency"). Durante algumas décadas, era a única frequência do espectro radiofônico captada pelos televisores brasileiros. É bastante limitada: vai dos canais 2 ao 13 (o 1 costuma ser de uso exclusivo e interno do estado). Mesmo assim, a maioria das cidades não tem mais do que cinco ou seis canais em VHF. Porque eles precisam ter um canal vazio entre eles, para não haver interferência mútua. Quanto mais baixo o número, maior o alcance do canal: é por isto que os canais educativos, estatais, costumam ocupar o 2.

Como há espaço para poucos canais VHF, os governos costumam se reservar o poder de decidir quem os ocupa. Em muitos lugares, é o próprio estado: mesmo em países capitalistas, a TV estatal frequentemente é a mais poderosa e a de maior audiência. É o caso da BBC britânica, que é pública mas não é governamental - o governo de plantão não apita em sua programação. Isso não acontece no Brasil, nem nas TVs federais e muito menos nas estaduais.

O Brasil seguiu o modelo americano, onde quase todo o VHF é explorado pela iniciativa privada. Mas como distribuir tão poucos canais para tantos interessados? Muita coisa conta, e não só a influência política. Uma delas é a capacidade econômica do grupo em colocar uma TV no ar. O investimento é altíssimo, e a probabilidade de dar errado é enorme. O Brasil é pródigo em emissoras que naufragaram: Tupi, Excelsior, Manchete, Continental... E, quando uma emissora naufraga, o estrago é considerável. Salários atrasados, dívidas trabalhistas, o escambau.

Isto não impediu que os diversos governos ao longo da nossa história concedessem canais apenas a quem lhes interessava. Empresas de mídia tradicionais como a Abril e o Jornal do Brasil jamais conseguiram a tão sonhada concessão de TV aberta, e isto lhes foi fatal. Por outro lado, o presidente Figueiredo aprovou a venda da Record para a Igreja Universal, inexperiente no ramo, e canais regionais costumam pertencer aos caciques políticos locais.

É possível evitar que tanto poder se concentre na mão de poucos? Na Colômbia, um mesmo canal pode ser dividido entre empresas diferentes. Isto quer dizer que até tal hora assistimos à programação de X. Depois, sem mexer no seletor, começa a programação de Y. Parece mais justo? É meio confuso...

Qual seria a solução para o caso brasileiro? Partir para uma TV 100% regionalizada, impedindo que um mesmo grupo tivesse canais em mais de uma cidade? Isto é impossível, utópico e potencialmente desastroso. Se a televisão fosse assim pulverizada, no espaço de uma geração os brasileiros estariam falando dialetos diferentes, com consequências políticas imprevisíveis. Fora que todos os países, de qualquer sistema, têm emissoras de alcance nacional. Como sou a favor da iniciativa privada, acho que saudável que canais privados também tenham esse alcance, não só os estatais. Com muita concorrência entre eles.

A lei brasileira já proíbe que a mesma pessoa ou grupo tenha mais que um canal. Isto obrigou Silvio Santos a vender a participação que tinha na Record, por exemplo. No México não é assim: a Televisa tem quatro canais abertos (e dois deles passam "Chaves" todo dia!), e sua concorrente Azteca tem dois (fora que elas ainda têm uma porrada no cabo). E é uma merda, eu posso garantir.

Mesmo assim, o Brasil vive uma situação única entre os países capitalistas. Só aqui que uma única emissora tem um domínio tão grande da audiência, de segunda a segunda e em praticamente todos os horários. Na nossa vizinha Argentina, a competição é pau a pau.

Mas, sorry, não dá para dizer que a Globo desfrute de um monopólio. Ela tem concorrentes, e muitos deles são incentivados pelo próprio governo. O PT deu todo apoio para que a Record se expandisse, e em troca recebe dela um noticiário pra lá de favorável. E o que dizer da Rede TV!, que sobrevive mesmo dando meio ponto de média? Também é escandalosa a maneira como muitas concessionárias públicas loteiam seus horários para terceiros, geralmente igrejas evangélicas. Mas esse debate nem começa no Congresso...

Toda essa discussão soa um pouco antiga no momento em que existem trocentos canais pagos e alguns milhões de sites na internet. No frigir dos ovos, é isto o que vai afetar o panorama da mídia brasileira, mais do que qualquer tipo de regulação. O avanço da tecnologia, o surgimento de novas plataformas e de novas maneiras de consumir conteúdo, o advento de um público conectado muito mais online do que na telinha... tudo isto vai mudar tudo. Aliás, já está mudando. Como diz a musiquinha de fim de ano da Globo: o futuro já começou.

AS CAPITANIAS NÃO-EXTINTAS

É impressionante como a mentalidade brasileira ainda vive no tempo das capitanias hereditárias. Adoramos um cartório, uma reserva de mercado, um privilégio que passe de pai para filho. Agora que se está questionando a real necessidade dos carros terem um extintor de incêndio, todo mundo está lembrando de uma obrigatoriedade que, felizmente, não colou: a dos kits de primeiros socorros, desmascarada a tempo como apenas um esquema para propiciar lucros a alguns poucos. Lembro de outro caso semelhante: quando se renovaram os quiosques da praia de Copacabana, alguém - um deputado, um vereador, um fodão qualquer - tentou garantir para si mesmo o monopólio do fornecimento de bebidas e comidas. Todos os quiosques teriam que servir as mesmíssimas coisas, compradas da empresa do sujeito, para não haver "concorrência desleal" entre eles. Era tão descarado que não deu nem para a saída. Hoje os quiosques são variadíssimos, e é assim que tem que ser. Vamos ver se a indignação provocada pela revelação de que poucos países exigem extintores nos carros nos livra de mais esse achaque ao nosso bolso.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

NÃO PENSE NUM ELEFANTE

Em pleno escândalo de Watergate, o então presidente americano Ricard Nixon falou uma coisa que o perseguiria pelo resto de seus dias: "I'm not a crook" (eu não sou um bandido). A frase colou nele com tal tenacidade que até hoje o nome "Nixon" é associado à palavra "crook". É a velha história do "não pense num elefante": basta dizer isto para alguém, que esta pessoa imediatamente pensará num elefante. A maneira como formulamos nosso pensamento é tão importante que existe até um livro com o mesmo título deste post, escrito por Geroge Lakoff e dedicado a ensinar os políticos a usar os termos certos na hora de expressar alguma ideia. Uma leitura que teria feito bem ao ex-ministro Gilberto Carvalho. Ao se despedir de seu cargo, o braço direito de Lula tentou defender a própria inocência de um jeito tão atabalhoado quanto Nixon: "não somos ladrões", soltou ele. Tarde demais: agora já colou...

REGULANDO MIXARIA

Não tenha dúvida. O que o PT quer mesmo fazer quando fala em "regulação da mídia" é reimplantar a censura no Brasil. Por mais que digam que todos os países civilizados têm suas mídias reguladas, não é nos Estados Unidos ou na Suécia que essa turma está se inspirando. É na Argentina, na Venezuela, no Equador, todos baluartes da liberdade de imprensa, não é mesmo? Por mais que falem em "quebrar o monopólio econômico", o que querem mesmo é censura. Não há outra palavra, nem mesmo o eufemismo "controle social da mídia". É censura, ponto. Só que o anúncio de Ricardo Berzoini ao assumir o Ministério das Comunicações não é para ser levado a sério. Não passa de um aceno para as alas mais à esquerda da base do governo, tão ultrajadas com as indicações de Joaquim Levy e Kátia Abreu. Um afago na galera, para não perder o apoio. Porque não há o menor clima político para aprovar a regulação. Aliás, nunca houve: Lula e Zé Dirceu bem que tentaram durante a euforia do primeiro ano do PT no poder, e volta e meia a ideia ressuscita. Mas sempre em vão, e agora não vai ser diferente. O país rachou nas últimas eleições, a oposição está mais feroz do que nunca e vai ser impossível conquistar a adesão popular. Esse debate vai durar mais uns dias, e é até interessante e instrutivo. Mas podemos respirar aliviados: a censura não volta.

domingo, 4 de janeiro de 2015

É DAROS QUE SE RECEBE

Passei 2014 vindo ao Rio praticamente toda semana, sempre a trabalho e com tempo para no máximo um cineminha. Nessa toada acabei ignorando completamente a Casa Daros, de cuja existência só fiquei sabendo ontem. Trata-se de um centro cultural mantido por uma ONG suíça e instalado em Botafogo num imenso casarão do século 19 que já foi colégio e orfanato. O lugar ficou sensacional, e é maravilhoso saber que é só mais um dos muitos que vêm surgindo no Rio nos últimos tempos. Estamos nos civilizando!

Uma única exposição ocupa o prédio atualmente: a kúdica "Ilusões", cheia de trocadilhos visuais e ilusões de ótica em 3D. Dá para ver obra por obra aqui, mas quem puder visitar in loco não vai se arrepender, Fica em cartaz até 13 de fevereiro e é uma introdução perfeita ao mundo das artes plásticas para as crianças. A Casa Daros é um oásis, e um programa super recomendado para quem quiser escapar da muvuca das praias cariocas.

sábado, 3 de janeiro de 2015

OIÊ MULHER RENDEIRA

A intenção era boa. Dilma queria suavizar a própria imagem, algo compreensível para uma mulher que tem a fama de ser a mais sisuda do universo. Escolheu a renda para dar leveza e o tom "nude" para desideologizar o modelito (também havia a questão de que cores fortes brigariam com a paleta tropical da faixa presidencial). Deixou o vermelho-PT para a filha Paula, que trajou um horrendo vestido de prom americana - este sim, realmente indefensável. Mas a presidenta errou no corte Ou sua estilista errou, o que é ainda mais grave, já que estão juntas há 20 anos. A modelagem em A ressaltou o ponto fraco de Dilma, a silhueta, que nem os cinco quilos já perdidos na dieta conseguiram amenizar. O fato é que, como cliente de alta costura, Dilma é um pesadelo. Além do corpo pesadão, ela tem um gestual ainda mais pesado. E não está nem aí para maquiagem, cabelo, essas frescuras todas. Aposto que, se não precisasse se empetecar para o cargo, passaria o dia inteiro de macacão e chinelo. Acontece que ela é uma figura pública, e não é só sua competência profissional (bastante questionável, aliás) que conta. Sua maneira de se apresentar também, e quem a critica não está sendo necessariamente machista. Claro que as mulheres têm que passar por um escrutínio muito mais rígido do que os homens, e isto é injusto. Todo mundo acha fofo o desmazelo do Mujica, mas ai da Michelle Obama se aparecer menos do que impecável. O fato é que o visual na posse acabou sendo uma tradução quase perfeita da própria presidência de Dilma. Ela tentou disfarçar os problemas, mas não conseguiu; o objetivo era nobre, mas seu jeitão atabalhoado pôs quase tudo a perder. Esse vestido de renda "nude" a representa.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A MEGERA INDOMÁVEL


Os executivos da indústria de entretenimento dizem que a plateia precisa gostar do protagonista de uma história. Precisa se identificar com ele, caso contrário o filme/peça/novela em questão estará fadado ao fracasso. Isto faz com que "Olive Kitteridge" seja ainda mais admirável. Nem o roteiro, nem o desempenho formidável de Frances McDormand abrem qualquer concessão. Não fazem o menor esforço para que a personagem-título seja nem um teco mais simpática. Evitam a caricatura, que tornaria a mal-humoradíssima professora de matemática de meia-idade mais engraçada - e menos crível. Olive na verdade sofre de depressão, como também seu pai e seu filho. O primeiro se matou, o segundo toma Prozac. Para ela, a solução foi criar uma couraça de ironia contra um mundo nem sempre tão hostil. O marido, por exemplo, é até bonzinho demais. Só no terceiro episódio dessa minissérie da HBO é que percebemos que ele é tão chato quanto a mulher. É uma cena admirável, durante um assalto a um hospital por dois junkies: mesmo diante de um maluco armado, o casal simplesmente não consegue parar de falar merda. "Olive Kitteridge" está sendo indicada a todos os prêmios importantes, e merece ganhá-los. Não tem uma trama arrebatadora, nem suspense ou grandes revelações. Mas tem o mais importante de tudo: personagens bem construídos, defendidos por um elenco primoroso. E ainda conta com a direção inspirada de Lisa Cholodenko (de "Minhas Mães e Meu Pai", aquele filme de lésbicas com Annette Benning), que deixa mais lindas as paisagens do Maine e salpica a narrativa com uns poucos efeitos especiais. Depois de vencida a estranheza do primeiro capítulo, o resto vem fácil. Assisti aos quatro episódios numa sentada só. "Olive Kitteridge" está disponível no NOW: fica a dica para este fim de semana.

CHURRASQUINHO GREGO


"O Talentoso Ripley" é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. O falecido diretor Anthony Minghella conseguiu melhorar a elegante trama policial de Patricia Highsmith, deixando explícita a viadagem do protagonista e elevando o quociente de glamour ao redor dele. Um toque minghelliano teria feito bem para "As Duas faces de Janeiro" (que, por causa do título, fiz questão que fosse meu primeiro filme deste ano, hehe). Apesar do filho de Minghella, ser o produtor executivo, o filme - também adaptado de um livro de Patricia Highsmith - dá pro gasto feito um churrasquinho, mas não atinge as delícias de "Ripley". Muitos dos mesmos ingredientes estão lá: o escroque aproveitador, a Europa turística dos anos 60, as mortes quase-que-acidentais. Viggo Mortensen faz um salafrário big time que cruza caminhos com outro, arraia miúda, durante uma viagem com sua jovem mulher pela Grécia. As sacanagens mútuas são inevitáveis, e muitas reviravoltas acontecem antes do final. Para mim, ainda teve o bônus de rever muitos dos lugares onde estive há quase dois anos: Atenas, Creta, Istanbul. Mas o melhor é Oscar Isaac, um ator de origem guatelmateca que está prestes a se tornar um astro. Podem anotar e virem me cobrar depois.