quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2014 >> RAIO GOURMETIZADOR >> 2015

Passei os últimos dias do ano devorando a quinta temporada de "Downton Abbey", bem melhor que a anterior. Agora só me falta a metade final do especial de Natal. Mas também consegui ver a tão aguardada participação de George Clooney no seriado: na verdade não foi num episódio, mas nestes filmetes promocionais para a ONG de caridade Text Santa. "Downton Abbey" é um bom exemplo de TV gourmetizada. No fundo é um novelão inverossímil e pouco original, mas a apresentação é tão atraente que a gente acha justo pagar caro. Este ano eu aderi com força ao raio gourmetizador, aquele que transforma salão de manicure em "nail spa". Por isto desejo a todos um 2015 ainda mais gourmet!

O PAPARAZZO DO HORROR


Jake Gylenhaal nunca foi dos meus favoritos - mesmo depois de "Brokeback Mountain" - mas está na hora de eu rever esta opinião. Ele sabe escolher muito bem os seus projetos, e está se tornando um ator e tanto. Foi merecidamente indicado ao Globo de Ouro e ao prêmio do SAG por "O Abutre", e periga também emplacar uma indicação ao Oscar. Emaciado, com um olhar neurótico e um entusiasmo de dar medo, seu personagem é um sujeito amoral com total desprezo pelos demais. De ladrão de fios de cobre, ele passa a cameraman de crimes e acidentes, vendendo seu material para uma emissora de TV. Quanto mais sangrento, melhor; não demora muito, e o cara está dando uma ajudinha para que as cenas mais horripilantes aconteçam de um jeito que ele possa cobrar ainda mais caro por elas. "O Abutre" é a boa estreia na direção do roteirista Dan Gilroy, casado com a linda atirz Rene Russo - ela também brilha no filme, depois de um tempo sumida. Mas o show é mesmo de Jake Gylenhaal, agora oficialmente um dos meus atores prediletos de Hollywood.

MINHAS PESSOAS DE 2014

Soa arrogante dizer "minhas" pessoas, mas a intenção é o oposto: estas são as figuras que marcaram o meu ano, não necessariamente o de todo mundo. Isto não quer dizer que eu goste de todas elas. Vladimir Putin se tornou o inimigo público no. 1 do planeta. Quase provocou uma guerra mundial por causa da Ucrânia, perseguiu os gays, encarcerou adversários e arrastou a economia da Rússia para o buraco. Aqui no Brasil, uma das maiores vilãs de 2014 foi Rachel Sheherazade, porta-voz da direita raivosa e desinformada. Como essa mulher fala besteira! E o escândalo da Petrobras tem muitas faces (inclusive o picasseano Cerveró), mas a mais emblemática é a do delator premiado Paulo Roberto Costa.

A eleição presidencial também teve vários protagonistas, mas eu prefiro ressaltar uma só: Luciana Genro, que chegou num honroso quarto lugar e é um nome para o futuro. Outra revelação foi Lupita Nyong'o, que ganhou um Oscar por seu primeiro trabalho no cinema. E Fernanda Gentil foi a musa da Copa, uma das poucas coisas boas que aquele evento doloroso nos deixou como legado.

Valesca Popozuda mandou seus beijinhos no ombro no final de 2013, mas eles creceram e se multiplicaram ao longo de 2014. O Põe na Roda se firmou como o melhor canal gay do YouTube, muito por causa dos esforços do Pedro HMC. Mas minha personalidade favorita do ano foi Conchita Wurst, a melhor coisa que aconteceu para o festival Eurovision em mais de uma década. A drag barbada virou celebridade mundial, ganhando até cover no programa "Esse Artista Sou Eu" do SBT. Também é a cara de uma época em que as fronteiras da identidade sexual se tornaram mais fluidas. E agora chega de retrospectiva: xô, 2014!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

MEUS PROGRAMAS DE 2014

Ou melhor dizendo, minhas séries de 2014. Porque televisão para mim agora é isto: séries. Claro que eu ainda vejo novela, jornal, propaganda, mas o que me prende mesmo na frente da telinha são as séries. Acho que o formato seriado de TV atingiu seu ponto máximo, e os bons exemplos são tão abundantes que eu não consegui escolher os 10 melhores. Minha lista tem 12, das quase 30 séries que eu acompanhei este ano. Mesmo assim, deixei de ver tanta coisa badalada que quase que dá para fazer a lista dos melhores seriados que eu não vi: "Scandal", "Olive Kitteridge", "Transparent", "How to Get Away with Murder"...
Minha favorita continua sendo "Game of Thrones". A quarta temporada me deixou tão fissurado que precisei comprar os livros para saber o que vai acontecer. Da Inglaterra veio a terna "Call the Midwife" e, do Canadá, a inusitada "Orphan Black". Eu finalmente me apaixonei por "House of Cards", e viajei com "Marco Polo". "The Knick" foi um choque. No quesito terror, o péssimo final de "True Blood" foi facilmente superado pela suntuosa "Penny Dreadful". Este também foi ano em que terminei "Breaking Bad", mas essa conta mais como 2013.
Os dramas andam melhores que as comédias, mas algumas entraram na lista. Quase todas da HBO: "Veep" e "Girls" voltaram melhores do que nunca, e as novatas "Sillicon Valley" e "Looking" foram melhorando ao longo de suas primeiras temporadas. A segunda safra de "Orange is the New Black" também demorou para engrenar, mas o último episódio foi de chamar a polícia de tão bom.
Mas a maior novidade de todas foi a maneira de consumir televisão. Ainda vejo muito os canais abertos e fechados, mas gasto a maior parte do tempo no Now e no Netflix. A tsunami que essas plataformas estão provocando mal começou, mas cada vez mais gente está montando sua própria grade de programação e assistindo-a quando bem entender. O mundo vai virar de cabeça para baixo.

MEUS DISCOS DE 2014

Dois fatores influenciaram fortemente a música que eu ouvi em 2014: a iTunes Store e a França. A lojinha da Apple se impôs no meu modo de comprar álbuns, ainda mais porque minhas lojas favoritas já foram quase todas para o grande shopping do céu. Mas a variedade que se encontra online é muito maior que a de qualquer megastore: o mundo inteiro está ali se oferecendo, a um dólar e pouco por faixa e a apenas alguns cliques de distância. Como posso resistir? Não posso, e faço ainda pior. Se gosto muito de alguma coisa, compro também o CD físico depois de adquiri-lo em mp3. Vai ver que é por isto que eu ainda sou pobre.
Duas viagens seguidas a p\Paris também contaminaram a minha lista de melhores do ano. Na verdade, alguns francophones já estavam lá desde o começo do ano: Etienne Daho, Katerine e o belga Stromae, além do trovador medieval Luc Arbogast e dos euro-argentinos do Gotan Project com Catherine Ringer (ex-Les Rita Mistsouko) cantando em espanhol no Plaza Francia. Mas aí minhas temporadas francesas me apresentaram a Florent Pagny, Zaz e Calogero.
Claro que também dei ouvidos ao resto do mundo. Vibrei com rapper chilena Ana Tijoux, relaxei com a bossa nova gringa do Thievery Corporation e me rendi ao talento superior do Blood Orange. Mas só um brasileiro entrou na minha lista dos top 20, o Silva. Sim, vinte: não consegui reduzi-la a dez. Lá vai ela, em ordem alfabética - só adianto que meu disco favorito de 2014 foi o do Clean Bandit.
Amo Miguel Bosé - Bailar en la Cueva Jorge Drexler - Les Chansons de l’Innocence Retrouvée Etienne Daho - Cupid Deluxe Blood Orange - Dominae Ejecta - Les Feux d’Artifice Calogero - Ghosts of Download Blondie - The Inevitable End Röyksopp - It’s the Girls Bette Midler - Magnum Katerine - New Eyes Clean Bandit - A New Tango Song Book Plaza Francia - Oreflam Luc Arbogast - Paris Zaz - Racine Carrée Stromae - Settle Disclosure - Vengo Ana Tijoux - Viellir Avec Toi Florent Pagny - Vista pro Mar Silva
A retrospectiva não fica completa se eu não lembrar de algumas faixas que não fazem parte dos discos citados, mas frequentaram muito os meus ouvidos: Ancora Tu Róisin Murphy - Beijinho no Ombro Valesca Popozuda - Everything's Embarrassing Sky Ferreira - Habits (Stay High) Tove Lo - Lepo Lepo Psirico - Money on My Mind Sam Smith - País do Futebol MC Guimê - Problem Ariana Grande feat. Iggy Azalea - Rise Lke a Phoenix Conchita Wurst. Sim, ouvi muito Valesca e Psirico - algum problema?

MEUS FILMES DE 2014

Essa lista poderia chegar a 20 tranquilamente, mas, por questões de espaço e saco, só vou comentar sobre os top 10 (se você quiser saber o que eu falei aqui no blog na época em que vi cada filme, é só clicar no nome dele). E mesmo esses dez foram divididos em três grupos. No primeiro estão três títulos que, em algum momento, ocuparam o posto de melhor do ano. Todos foram indicados por seus respectivos países ao Oscar de filme estrangeiro: "Relatos Selvagens" (Argentina, o único que permanece no páreo), "Mommy" (Canadá) e "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" (Brasil). Meu favorito é a obra-prima de Demián Szafrón, o raro filme em episódios cujo todo é maior do que a soma das partes. Os outros dois são de cineastas bem jovens, Xavier Dolan e Daniel Ribeiro, que ainda prometem brilhar muito. Tenho certeza que estarão nas minhas futuras listas de melhores do ano.

No segundo grupo só tem veterano, todos na mais plena forma. Não sei de qual dos três eu gosto mais: "O Lobo de Wall Street" de Martin Scorses, "O Grande Hotel Budapeste" de Wes Anderson ou "Amantes Eternos" de Jim Jarmush. Esses filmes tão diferentes entre si têm em comum um diretor com visão e comando, atores finíssimos, boas trilhas sonoras e altas dose de cinismo.

O terceiro grupo tem quatro filmes completamente díspares. Dois têm pegada gay: "Clube de Compras Dallas" é só o começo do estrago que o diretor canadense Jean-Marc Vallée vai fazer em Hollywood, e a comédia francesa "Eu, Mamãe e os Meninos" é a autobiografia do ator e diretor Guillaume Gallienne. Os outros dois são de partir o coração: o belga "Alabama Monroe" me fez chorar uma Cantareira, e o oscarizado "12 Anos de Escravidão" me fez sentir dores no corpo e na alma. Escrevi no F5 que em 2014 a média das séries de TV foi muito mais alta que a do cinema, mas o fato é que a safra de filmes foi boa este ano.

OK, OK. Para completar a lista de 20, aqui vai o resto em ordem alfabética:
7 Caixas - O Amor é Estranho - Boyhood - Ela - Getúlio - O Homem Duplicado - O Passado - Philomena - Timbuktu - Yves Saint-Laurent
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Veja quantos puder!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

FODA-SE, EU NÃO QUERIA SER FREIRA


"Ida" é um dos favoritos ao próximo Oscar de melhor filme em língua estrangeira. Lançado nos Estados Unidos no começo do ano, arrecadou uma bilheteria considerável para um filme em preto-e-branco e falado em polonês. Sua fotografia primorosa também periga ser indicada, e o único obstáculo em seu caminho parece ser o argentino "Relatos Selvagens". Por causa disso tudo, entre no cinema com a expectativa lá em cima, só para sair desapontado. O longa é realmente muito bonito, dos enquadramentos sóbrios ao uso parcimonioso de música. Tive uma boa experiência estética e recomendo a quem curte filme-cabeça. Só que a história da noviça que descobre ser filha de judeus e entra em dúvida se quer mesmo ser freira não me pegou. "Ida" tem a vantagem com a Academia de falar no Holocausto. Mas agora, mais do que nunca, eu sou argentino desde pequeno.

AVISO NÃO FALTOU

Conheço petistas que estão quase pedindo perdão nas redes sociais pelo ministério escalado para o segundo mandato de Dilma Rousseff. Mas também conheço outros que não só não se arrependeram como elogiam a qualidade "política" do novo time, que servirá para dar sustentação ao governo no Congresso. Lo siento, mas não há arranjo político que justifique uma criatura jurássica como Aldo Rabello na pasta de Ciência e Tenologia. O luminar do PCdoB, que segue a linha que tanto sucesso fez na Albânia, chegou a propor uma lei que proibia o uso da tecnologia nas repartições públicas, para garantir o emprego (e a incompetência crônica) dos barnabés, como bem lembrou a colunista Cora Rónai. E o que dizer do pastor Jorge Hilton, futuro ministro dos Esportes, flagrado com um milhão de reais em caixas de papelão no aeroporto da Pampulha? A expertise dele vai ser útil para que o COI arranque o máximo de dinheiro nas Olimpíadas de 2016? Fora que ainda tem Gilberto Kassab, Cid Gomes, o filho do Jáder Barbalho... Nessa barafunda toda, eu nem acho ruim tão ruim a Kátia Abreu na Agricultura - só acho incoerente. Mas a mulher manja de agronegócio e, por mais que chorem os ingênuos, o agro é O negócio do Brasil, nossa maior fonte de divisas. Também ponho fé no Joaquim Levy, um sopro de racionalidade numa economia que vinha sendo tocada em ritmo de faz-de-conta. Mas não ponho fé na própria Dilma. Tudo o que eu temia que ela fizesse, se reeleita, ela está fazendo. Depois não digam que eu não avisei, nhé nhé nhé.

PARTIU MAR VERMELHO


O mais divertido nessa onda de filmes bíblicos é ver como os roteiristas tentaram dar seus toques pessoais a narrativas conhecidas há mais de três mil anos. Em "Noé", colocaram bizarros Tranformers de pedra. Em "Êxodo: Deuses e Reis", as novidades não são radicais. Mas há um sábio na corte do faraó que justifica com argumentos científicos cada uma das pragas que assolam o Egito, ecoando alguns intelectuais modernos. E uma sacerdotisa cujas previsões acertam na mosca - mas peraí, será que não deveriam estar erradas, já que ela não cultua o deus de Israel? Ah, o deus de Israel... Dificilmente alguém dos dias de hoje se converteria a ele depois deste filme, porque ele mata bebês no berço para castigar os pais. É um deus cruel que manda mensagens dúbias incoporado num moleque de dez anos, mais uma gracinha inventada pelos roteiristas. Mas o buraco da questão é bem mais embaixo. Não existe um único registro egípcio a respeito da suposta escravidão dos hebreus, e olha que estamos falando de um povo que nos legou até rol de lavanderia. Tudo indica que a história de Moisés foi inventada bastante tempo depois do reinado de Ramsés, um dos maiores estadistas da Antiguidade e que no entanto é retratado pela Bíblia como um incompetente filhinho de papai. Mas vamos deixar a discussão teológica para lá e nos concentrar no espetáculo, que é o que o diretor Ridley Scott sabe fazer bem. As pragas são mostradas com um realismo assustador, e toda a sequência do Mar Vermelho faz com que "Os Dez Mandamentos" pareça ter sido feito com barbante e cola de farinha de trigo. Curioso que em "Êxodo" os mandamentos surjam numa cena rápida, sem a grandiloquência de Cecil B. De Mille. Tentaram fazer um filme bíblico extirpando a pregação religiosa. Este Moisés é pouco mais que um líder político, e isto não deixa de ser novidade.

domingo, 28 de dezembro de 2014

CHINA OF THRONES


"Marco Polo" não é sobre Marco Polo. Se fosse, a série provavelmente começaria com ele na prisão em Veneza, já velhinho, contando suas aventuras para os companheiros de cela. E aí teríamos um longo flashback com toda a viagem dele pela Ásia do século 13, da qual a China foi apenas o ponto culminante. Mas não: o novo seriado do Netflix na verdade é sobre a China daquela época, e Marco Polo é pouco mais do que um coadjuvante num elenco gigantesco. A escolha do ator não ajudou: o italiano Lorenzo Richelmy é bonitinho, mas tem pouco carisma. E é engolido em todas as cenas que faz com Benedict Wong, realmente impressionante como Kublai Khan. Essa tentativa do Netflix de ter seu próprio "Game of Thrones" foi lançada com uma fanfarra tão grande que era quase inevitável que a crítica caísse de pau. De fato, o primeiro episódio deixa a desejar. Mas a coisa logo esquenta, especialmente depois da cena histórica em que a cortesã Mei Lin luta completamente nua com três homens armados, matando todos eles. "Marco Polo" é cheio de intrigas palacianas e personagens dúbios, mas, por ser baseada em fatos reais, não deixa muito suspense sobre o que vai acontecer entre os invasores mongóis e a dinastia chinesa Song. Mas é de encher os olhos em termos de cenários, figurinos e mulheres más, três ingredientes indispensáveis para um épico. Quem passar da metade vai ficar preso até o fim da temporada.

sábado, 27 de dezembro de 2014

O DIREITO DE SER BRIGITTE


Tenho o péssimo hábito de comprar CDs só por gostar da capa, apesar de não me arrepender em mais de 80% das vezes. Agora acertei na mosca com o novo disco da dupla conceitual Brigitte, da qual eu nunca tinha ouvido falar - e no entanto, as moças fazem um sucesso enorme na França já faz quase cinco anos. Formado por Sylvie Hoarau e Aurélie Saada, duas cantoras que haviam tentado a carreira solo e outros projetos sem conseguir grande coisa, o Brigitte tem este nome para prestar homenagem a três Brigittes célebres: a Fontaine (escritora), a Lahaie (ex-atriz pornô, hoje locutora de rádio) e, evidentemente, a Bardot. O som do Brigitte remete aos anos 60 e à chamada "varieté" francesa, o pop levinho e frequentemente sexy que já dominou as paradas de lá (hoje em dia, bem menos). O álbum "À Bouche que Veuyx-Tu" foi uma das melhores aquisições dessaviagem-reliampago que fiz a Paris e Avignon. No contrafluxo da maioria, agora passo o réveillon em família.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

TREM-BALA PERDIDO

Viajei de TGV pela primeira vez em 1982. De lá para cá, a rede europeia de trens em alta velocidade tornou-se capilar, e surgiram concorrentes como o Thalys e o Eurostar. Hoje voltei de Avignon a Paris num TGV bem velhusco, ams ainda confortável e rapidíssimo. Enquanto que na Europa é a coisa mais comum do mundo viajar desse jeito, no Brasil ainda discutimos a necessidade de termos um único trem-bala (eita termo cafona) que seja, ligando o Rio a São Paulo. Não teremos mais: daqui a pouco essa tecnologia será substituída pela flutuação magnética ou algo equivalente. Mas no Brasil o debate sobre a preemência do trem-bala vai continuar, vocês vão ver.

EM GROSSAS PINCELADAS

William Turner foi o maior pintor britânico de todos os tempos e um precursor dos impressionistas. Sua pintura, acadêmica a princípio, foi se sofisticando e se tornando quase abstrata - suas últimas telas captam a luz como nenhuma outra até então. Nem por isto ele teve uma vida mirabolante. Quem for ver "Mr. Turner" querendo emoções arrebatadoras vai sair decepcionado. Mas quem conhece a obra do diretor Mike Leigh sabe o que esperar: personagens bem definidos e cenas do cotidiano, ainda mais porque se passam na primeira metade do século 19. Com quase duas horas e meia de duração, o filme é um pouco longo demais, mas a riqueza de detalhes e a reconstituição minuciosa evitam o tédio absoluto. Turner era um homem sensual e de temperamento meio difícil, e Timothy Spall, geralmente relegado a coadjuvante, finalmente tem um papel à altura de seu talento. Mas "Mr. Turner" só vai interessar quem gostar muito de arte e história. Mas muito mesmo.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O OUTRO VATICANO

A primeira impressnao é brutal. O Palácio dos Papas em Avignon parece ter sido desenhado para gigantes, com muralhas altíssimas e torres quadradas, sem leveza nem espiritualidade. Mas ele é, antes de mais nada, uma fortaleza. Construído em cima de um rochedo cercado por uma muralha e remendado ao longo dos séculos por seus diversos ocupantes, não pretende seduzir pela beleza nem induzir os fiéis à espiritualidade. Quer mesmo é proteger quem estiver dentro, uma preocupação constante da época conturbada em que foi concebido. A Igreja Católica teve sua sede em Avignon durante setenta anos e sete papas, e depois da volta para Roma ainda houve dois pontífices dissdentes (os anti-papas) reinando na cidade francesa. Hoje o interior do palácio está praticamente vazio, mas nem por isto ele deixa de parecer um cenário de "Game of Thrones". Tive a sensação de que Cersei ia aparecer a qualquer momento e querer me matar.

LES APÉRISTOCRATES

Adoro ver TV fora do Brasil, adoro descobrir comerciais engraçados. Profitez.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

SUR LE PONT D'AVIGNON

...on y danse, on y danse. Chegamos ontem a esta cidade histórica do sul da França, que foi sede do papado no século 14 e inspiração para uma das mais conhecidas musiquinhas francesas. Reza a lenda que o original era sous le pont, embaixo da ponte, não em cima - na Idade Média, os vãos da ponte sobre o rio Ródano eram ocupados por tabernas e prostíbulos, onde todo mundo dançava e cantava. A ponte hoje não cobre um terço da distância até a outra margem, acabando abruptamente sobre as águas, mas compete com o gigantesco Palácio dos Papas como a maior atração da cidade. Ainda não visitamos nada disto: passamos o final da tarde de ontem fuçando o Mercado de Natal na Praça do Relógio, e hoje faremos um tour pelas ruínas romanas da região. Pas pressés!

MAU ESTADO ISLÂMICO


Dois anos atrás, uma milícia ligada à al-Qaeda tomou a região norte do Mali e tentou instalar por lá um estado independente chamado Azawad. A brincadeira durou pouco: uma intervenção francesa derrotou facilmente os jihadistas, mantendo a integridade territorial daquele desolado país africano. Mas, durante os meses em que dominaram a região, a Ansar el-Dine impôs um regime de terror, proibindo a música, o futebol e qualquer coisa que parecesse infringir sua interpretação alucinada do Islã. Foi esse período de exceção que inspirou “Timbuktu”, uma das surpresas da atual temporada do Oscar. O primeiro filme inscrito pela obscura Mauritânia conseguiu ficar entre os nove pré-selecionados na corrida pelo troféu de longa em língua estrangeira. Por razões estéticas (é de fato muito bom), mas principalmente políticas. Porque, apesar da história se passar no norte da África (o nome da cidade de Timbuktu jamais é mencionado, nem aparecem na tela seus prédios históricos), é mais do que óbvio o paralelo com o que o ISIS anda aprontando no Oriente Médio. O diretor Abderrhamane Sissako mostra os islamistas não como monstros, mas como pessoas comuns que de repente se veem donas de um enorme poder – e, portanto, capazes das maiores crueldades para conseguir seus objetivos mesquinhos. Há cenas cômicas, como a da peixeira que se recusa a usar luvas e oferece as mãos para serem cortadas. Ou de um intenso lirismo, como a pelada jogada sem bola, mas com gol e tudo. Entretanto, também há um apedrejamento e muita violência arbitrária. Por isto “Timbuktu” não é exatamente um filme gostoso de se ver, e o tom meio plácido me faz duvidar que esteja entre os cinco indicados ao prêmio da Academia. Mas é obrigatório para quem se interessa pelo que está acontecendo no mundo agora.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

GOING COMMANDO

Conexão foi inventada para perder mala. Já perdi mala indo para Praga, Veneza, Caracas e Atenas. Sempre reapareceram. Dessa vez perdemos uma das nossas três malas indo para Paris, e ela não reapareceu até agora. Viemos de Air Europa com conexão em Madrid, e estou há dois dias sem camisa ou cueca limpa. Não comprei nada porque achei que a mala iria chegar. Não chegou até agora. A aerolinha diz que não faz a menor ideia de onde a mala possa estar, portanto já desapeguei das minhas roupas antigas e estou mentalizando as novas que irei comprar com os 500 dólares da indenização. A partir de amanhã, se eu não conseguir passar numa loja (é véspera de Natal e tenho uma longa viagem de trem pela frente), estarei going commando. Como o Joey de "Friends", que usou sem cueca as roupas do Chandler, lembra?

JÁ COMEU ALIGOT?

Esta é a décima vez que eu venho a Paris e a segunda só este ano, mas a primeira em que comi uma coisa que deve ser descendente da ambrosia que era servida no Olimpo: o aligot, um purê de batatas enriquecido com um queijo fresco chamado Tomme que é simplesmente dos deuses. Parece um fondue, só que melhor (com um toque de alho). É o perfeito para acompanhar as salsichas do Auvergne, a região da França central de onde veio o escudo que Vercingetorix atirou aos pés de César, mais tarde recuperado por Asterix. Eu queria ter caído no caldeirão de aligot quando pequeno. Alguém sabe de um restaurante em SP que tenha?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

WHO COULD ASK FOR ANYTHING MORE?



Ir ao teatro logo no primeiro dia de uma viagem, depois de um longo voo mal dormido, é para os fracos. Fomos a duas peças no nosso domigão em Paris: "Kinship" de Isabelle Adjani à tarde, e "An American in Paris" à noite. Esta superprodução franco-americana estreou no Theatre du Chatêlet antes de embarcar para a Broadway no ano que vem, e é nada menos que espetacular. Trata-se da primeira adaptação para o palco do filme do mesmo nome, estrelado por Gene Kelly. O elenco é todo americano, assim como a concepção cênica - mas assistir a uma coisa dessas em Paris, só quando a gente nasceu com o rabo virado pra lua. Música de George Gershwin, coreografias de tirar o fôlego (tem mais dança que canto), cenários magníficos, um público empolgado e Paris de verdade ao redor: I've got music, I've got rhythm, I've got my man, who could as for anything more?

A DIVA APAVORADA

Isabelle Adjani foi minha "ídala" máxima durante mais de dez anos. Dona de uma beleza hipnotizante, ela fazia um filme atrás do outro, nos mais variados gêneros. Mas suas favoritas eram as heroínas trágicas, como Camille Claudel ou a rainha Margot, que lhe davam a oportunidade de expor seu imenso talento. Indicada ao Oscar duas vezes (a primeira aos 20 anos de idade), Adjani também logo amealhou fama de temperamental. Seus filmes se tornaram mais raros. Poucos diretores importantes se animavam a trabalhar com ela, que preferia ficar em casa cuidando dos filhos ou namorando Daniel Day-Lewis. Hoje em dia ela reaparece só de vez em quando, como na peça "Kinship".

O espetáculo entraria em cartaz em Paris na semana do meu aniversário. Não acreditei na minha sorte e comprei ingressos em agosto. Poucos dias antes de embarcar, em outubro, recebi um telefonema do teatro: o dinheiro será devolvido. Fiquei arrasado. Depois li que foi ela quem atrasou a estreia, depois de um período turbulento de ensaios onde o diretor foi subsustituído pelo figurinista (você leu certo) e a estrela coadjuvante Carmen Maura se irritou e foi embora. Pas facile.

"Kinship" finalmente entrou em cartaz e logo teve sua temporada extendida. Não acreditei na minha sorte novamente: consegui comprar ingressos para esta semana em que estou de volta a Paris, ainda melhores que os primeiros. E lá fui eu com trepidação para o teatro, anisoso para ver a estrela em carne e osso. Mas a decepção foi rude. Adjani continua lindíssima, quase aos 59 anos de idade. Suas bochechas estão artificalmente infladas, mas ela passa tranquilamente por uma mulher deslumbrante de 40. Acontece que todo o espetáculo para girar em torno disto. O texto é uma variação moderna sobre "Fedra": uma senhora que se apaixona por um rapazinho. Aqui a coisa piora porque a mãe do rapaz é a melhor amiga da senhora. Num palco despojado, os atores se enfrentam diante de projeções de céus nublados e luas cheias: são 22 cenas curtas que exijem relativamente pouco deles. Vittoria Scognamiglio, que entrou no lugar de Carmen Maura e é parecida com ela, está muito bem, e o galã Niels Schneider (que já filmou com Xavier Dolan) é mesmo um pitéu. Mas claro que minha atenção era para Isabelle. E o que eu senti foi que ela jamais se arrisca, jamais sai para fora de sua zona de conforto, jamais se atreve a parecer menos do que belíssima. Suas roupas são todas largas, para disfarçar a silhueta que já não é de sílfide. E em nenhum momento ela perde as estribeiras. Parecia um Boeing 747 taxiando numa pista de pouso do inteiror, sem espaço para mostrar do que é capaz. De vez em quando surgiam lampejos de brilhantismo, mas logo eram contidos pelos diálogos banais. Toda a mensagem da peça não passa de "vejam, eu continuo maravilhosa". Talvez por isto que o teatro não estivesse lotado. Uma diva como Adjani precisa mais do que uma egotrip sem culhões para continuar divando.

domingo, 21 de dezembro de 2014

PLUS JAMAIS ÇA


O melhor CD que eu comprei em Paris em outubro foi "Veillir Avec Toi", do cantor Florent Pagny. Como todas as faixas daquele álbum incrível foram compostas por Calogero, fui atrás deste "cantautor" popularíssimo na França. E me deslumbrei com seu novo trabalho, "Les Feux d'Artifice". Todas as faixas são boas, com lindas melodias e letras inteligentes (que não são dele). Calogero seria o postar ideal se fosse um teco mais bonitinho. Mas é um gênio musical, capaz de tocar todos os instrumentos e cantar com uma voz delicada porém potente. Seu grande sucesso atual, "Un Jour au Mauvais Endroit", denuncia um crime estúpido ocorrido em sua cidade natal, Échirolles, e termina com um coro de "nunca mais" que dá nome a este post. Estou ouvindo sem parar, e já é a trilha oficial da minha segunda viagem à França este ano. Oui, mes potes, estou de volta a Paris, na companhia de um grupo animadérrimo. Terça-feira vamos para Avignon passar o Natal. E sim, ganhei na loteria, mas não naquela que dá dinheiro. Ganhei na dos amigos.

sábado, 20 de dezembro de 2014

CORAÇÃO VAZADO

Estratégia de marketing ou acidente de percurso? Vivemos tempos tão cínicos que não sei mais se o vazamento de faixas inacabadas do novo CD de Madonna no começo da semana foi proposital ou não. Ela reclamou nas redes sociais que estava tendo sua integridade artística violada e disponibilizou na madrugada de hoje, na surdina, as seis primeiras faixas de "Rebel Heart". O álbum completo só sai em março, mas já dá para se ter uma boa ideia. Todo trabalho novo de Madonna é aguardado com a anisedade dos hebreus esperando Moisés descer do Monte Sinai, e, por isto mesmo, todo trabalho novo de Madonna invariavelmente desaponta. Ela adora dizer que está sempre se "reinventando", mas essa reinvenção nunca é radical. Não estou dizendo que ela deveria se aventurar pela cumbia ou cantar ópera. Mas, mesmo no universo limitado da dance music, Madonna se mantém dentro dos limites que traçou para si mesma há mais de 30 anos. Ela ainda se refere a si mesma como "garota" aos 56 anos de idade, e isto me cansa um pouco. Dito isto, as músicas novas até que são bastante boas. O futuro single "Living for Love" não soa como nada do que ela fez antes, apesar da letra repisar a temática da mulher desprezada/vingativa. "Illuminati" vai pirar o cabeção dos 5Dravers da vida, e "Bitch I'm Madonna" traz mais uma participação da exaustiva Nicki Minaj, além de insistir naquele mantra de "eu sou a melhor" que meio que já deu. Mas nada é ruim, pelo contrário: Madonna continua com critério. Não está reinventado a roda, porque nunca foi exatamente uma inovadora. Mas sempre fez pop de qualidade acompanhando as tendências do momento, e nesse quesito "Rebel Heart" não deve decepcionar (dá para ouvir as faixas novas aqui, e sem gastar um tostão).

FÉRIAS NO ESCURO

Já estou de férias de fim de ano, mas ainda não viajei. Então, tenho aproveitado o tempo livre para ir muito ao cinema - mais até do que de costume. Mas nada do que eu tenho visto é sensacional, portanto nenhum desses filmes vai ganhar post exclusivo. Só essas mini-críticas (para assistir ao trailer, clique no título do filme).

O diretor Jason Reitman chegou a ser saudado como uma das promessas do cinema americano. Mas "Homens, Mulheres e Filhos", seu quinto longa, foi mal de público e crítica. O roteiro entrelaça adultos e adolescentes, todos se fodendo de alguma maneira graças à internet. Tem o rapaz viciado em games, a esposa insatisfeita em busca de uma aventura e muitos outros clichês. Tampouco é novidade reclamar que passamos mais tempo olhando para as telas dos smartphones do que uns para os outros. Mas o filme não chega a ser horrível como eu esperava: deu pro gasto.

Não vou a filmes infantis desde que meus sobrinhos cresceram, mas abri uma exceção para "Uma Viagem Extraordinária". Porque o diretor é ninguém menos que o francês Jean-Pierre Jeunet, o esteta que brindou o mundo com "Amélie". Ele continua caprichando na direção de arte e no casting bizarro, mas a história não é lá muito para crianças. O irmão gêmeo do pequeno protagonista morre num acidente de tiro, que tal? Se bem que é esse lado sombrio que torna o filme original.

Agora, inexplicável mesmo é "Karen Chora no Ônibus" ter chegado aos cinemas brasileiros. Este filme colombiano de quatro anos atrás não ganhou nenhum prêmio importante e é francamente ruim. Já vimos milhões de vezes a volta por cima da mulher descasada que refaz sua vida do zero. Mas talvez nunca tivéssemos visto com atores tão ruins, nem com um diretor lacônico que acha que é moderno não usar trilha sonora. Esta bomba previsível e pretensiosa é sério candidato a pior filme de 2014. Fuja como se fosse de um ataque das Farc.

"Trinta" segue a moda atual das cinebiografias: ao invés de contar a vida do sujeito do berço ao túmulo, foca num único momento-chave. No caso do maior carnavalesco de todos os tempos, é o seu primeiro desfile como titular: o do Salgueiro em 1974, tido como um divisor de águas na história do carnaval. O recorte funciona, graças a uma estrutura clássica e a interpretações sólidas (Matheus Nachtergaele dá um piti lá pelas tantas que vai entrar para a história do cinema brasileiro). Faltou um mergulho mais profundo na alma de Joãosinho Trinta, mas funciona como entretenimento. Pena que esteja indo mal de bilheteria...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

SOZINHO E DE MÃOS ABANANDO

Nunca achei que "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" tivesse grandes chances no Oscar. O filme é fofo, mas peso-pluma demais para comover a Academia. Minha previsão se confirmou: hoje foi divulgada a lista com os nove pré-indicados na categoria de melhor filme em língua estrangeira, e mais uma vez o Brasil ficou de fora. O que não chega a ser um demérito, porque vários títulos badalados também est∫ao voltando de mãos vazias para casa: o belga "Dois Dias, Uma Noite", o turco "Sono de Inverno" (que venceu o festival de Cannes) e até meu queridinho "Mommy", do Canadá.

O fato é que a lista não traz grandes surpresas. Quase todos os bem-cotados estão lá, inclusive "Timbuktu" - o primeiro filme inscrito pela Mauritânia, sobre a invasão de uma milícia islâmica naquela histórica cidade africana. Também é notável a inclusão de dois latino-americanos. O venezuelano "El Libertador" é uma superprodução caretona sobre Bolívar e não deve ficar entre os cinco finalistas. Mas o argentino "Relatos Selvagens" já desponta como um dos favoritos (para mim é o melhor do ano).

Seu maior adversário deve ser o polonês "Ida", que estreia no Brasil na semana que vem. Aliás, é curioso como três ex-repúblicas soviéticas emplacaram na lista: Rússia, Estônia e Geórgia comparecem com dramas áridos. O grupo se completa com o drama de tribunal "Lucia de B." (Holanda) e, ocupando a vaga sempre reservada para a Escandinávia, "Force Majeure" (Suécia). Claro que eu quero ver todos.

PERSONALIDADES ARCO-ÍRIS

O Guia Gay de São Paulo divulgou hoje sua lista dos 10 LGBT mais influentes da cidade. Não, não estou entre eles, mas sou uma das 37 "personalidades arco-íris" que participaram da votação. Alguns dos meus eleitos chegaram à lista final: Silvetty Montila, André Pomba, Todd Tomorrow e Pedro HMC. Na verdade, se eu tivesse que escolher apenas um, seria o Pedro - não porque ele tenha sido O mais influente de todos (isso é quase impossível de se medir), mas porque seu canal Põe na Roda nasceu e cresceu este ano. Não votei em dois amigos queridos que estão nos primeiros lugares simplesmente porque acho que eles já são hors concours: os Andrés Almada e Fischer estão entre os LGBT mais influentes de São Paulo de todos os tempos, ponto. Nenhuma mulher ficou entre os finalistas, e a culpa disto também é minha: não votei em nenhuma lésbica porque circulo pouquíssimo entre elas e desconheço as principais lideranças. Mas me arrependo de não ter votado na Barbara Gancia, uma das pessoas mais brilhantes que eu conheço, gay ou não. E você, quem você acha que devia estar na lista? E quem não devia? Valendo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

#PNCDCDN

Então agora é assim: se você não gostar de um filme, uma reportagem ou uma simples postagem nas redes sociais, não precisa mais gastar dinheiro com advogados. Basta contratar um hacker, invadir os computadores de quem supostamente lhe ofendeu e ainda ameaçar um ataque terrorista. Foi o que fez a Coreia do Norte, plenamente bem-sucedida até o momento em seu intuito de tirar a comédia "The Interview" de circulação. A Sony não só cancelou o lançamento em salas como também em DVD ou VOD. Esse é o maior ataque à liberdade de expressão no Ocidente por um país estrangeiro desde que o aiatolá Khomeini decretou uma fatwa contra o escritor Salman Rushdie em 1989, amedrontando editores mundo afora (inclusive no Brasil, onde o livro "Os Versos Satânicos" só foi lançado muito tempo depois). Enquanto que a imprensa fica se deliciando com as fofoquinhas proporcionadas pelos e-mails vazados da produtora, um paiseco ditatorial conseguiu derrotar um dos valores mais caros da nossa civilização. Fora que o filme em si parece ser uma bobagem: as críticas que chegaram a sair são ruins, e os assassinos de Kim Jong-Ill acabam ficando amiguinhos de sua vítima. Mesmo assim, vou divulgar o link pirata assim que cair na rede. #PNCDCDN *!

(* Pau no cu da Coreia do Norte - no mau sentido, é claro.)

O LADRÃO DA DIGNIDADE

A absolvição de Paulo Maluf é bem mais grave do que parece. Porque tem o dedo podre do governo nela: foi Dias Toffoli, presidente do TSE e desde sempre ligado ao PT, quem mandou o ministro Admar Gonzaga numa importantíssima e inadiável viagem às vésperas do Natal. Aí foi só substituí-lo  e pronto! Placar virado! Maluf não é mais ficha suja e poderá voltar à Câmara de Deputados, onde seu partido - supostamente de direita - fornecerá os apoios necessários ao 2o. mandato da Dilma. De nada adiantou o Deutsche Bank devolver uma bolada à Prefeitura de São Paulo, num sinal mais do que explícito de que o ex-prefeito é ladrão. Vamos repetir em alto e bom som, já que nesse país pode tudo e ninguém é culpado de nada: MALUF É LADRÃO. Como se não bastasse, ele agora roubou a pouca dignidade que nos restava.

A FUNDO PERDIDO

Tem coisa mais fofa do que essa campanha promovida pela militância petista para que todos comprem ações da Petrobrás? O mais divertido são aqueles que se jogam no ativismo virtual, mas na hora do vamovê dizem que estão sem dinheiro. E claro que a cotação da empresa na Bolsa não subiu um pentelhésimo, porque os investidores sérios sabem que o buraco por lá é bem mais fundo que o mais fundo dos pré-sais. Agora, patética mesmo é a defesa de que, com corrupção e tudo, a Petrobrás ainda é "nossa". Sim, nossa: nossos impostos, nossa decepção, nossa vergonha.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

SIN EMBARGO

Obama só tem mais dois anos de mandato e nenhuma eleição pela frente, e resolveu botar para quebrar. Tal como um paciente desenganado, o presidente dos Estados Unidos está fazendo tudo o que tem vontade, de olho no seu legado para a história. Internamente, ele já fez muito: o Obamacare, ainda que imperfeito, é um avanço e tanto para a única democracia ocidental que não cuidava da saúde de seus cidadãos. Mas Obama quer mais: quer ser lembrado como uma versão moderna e honesta de Richard Nixon, que restabeleceu relações diplomáticas com a China em 1972. O reatamento com Cuba, num primeiro instante, não irá muito além da troca de embaixadores. A derrubada do embargo econômico depende do Congresso, que a partir do ano que vem estará inteiramente nas mãos dos republicanos. E estes, apesar de bem mais favoráveis ao livre comércio do que os democratas, podem muito bem ir contra Obama só para serem do contra. Tolinhos: não dou dois anos de sobrevida ao regime comunista depois que abrirem o primeiro Starbucks na ilha. Minha querida Yoani Sánchez, vista por tanta gente como lacaia do imperialismo ianque, acha que os EUA abriram as pernas e deram mais uma vitória aos irmãos Castro. Vou discordar dela dessa vez. Era simplesmente absurdo, mais de vinte anos depois do fim da Guerra Fria, que dois países tão próximos continuassem "de mal". E não duvido nada que Obama tente mais um feito diplomático para a reta final de sua presidência: a reconciliação com o Irã.

TODAS AS FAMÍLIAS EXISTEM

A Câmara de Deputados deve votar hoje o tenebroso Estatuto da Família, que não só redefiniria a união entre homem e mulher como o único arranjo familiar possível como ainda proibiria a adoção de crianças por casais do mesmo sexo. Seria um gigantesco passo atrás, digno de republiquetas africanas. A enquete que rolou na internet terminou com ligeira vantagem para o lado do bem, mas isto não quer dizer muita coisa. Apesar da intensa campanha promovida por militantes progressistas - o vídeo acima, dirigido pelo João Junior, é um ótimo exemplo - parece que a intenção dos nossos nobres congressistas é mesmo aprovar tal descalabro, para forçar a Dilma a vetá-lo. Há uma parte de mim torce por isto: a presidenta precisa fazer alguma coisa prática em prol dos homossexuais, ao invés de só usar-nos politicamente quando isto lhe convém. Mas há uma parte que não, porque não quero viver num país onde se aprova uma lei que prefere que crianças órfãs mofem nos orfanatos do que sejam criadas por casais gays.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

POR ISTO EU SOU VINGATIVA

Alguém aí tem o zapzap da macumbeira da Jennifer Aniston? Nove anos depois de ter sido chutada pelo Brad Pitt, a eterna Rachel conseguiu mandar um vudu daqueles para cima da rival Angelina Jolie. Para começar, "Unbroken", o novo filme dirigido pela atual sra. Pitt, ficou de fora da maioria das premiações que antecedem o Oscar. Também vazou um e-mail em que executivos da Sony a chamam de moleca mimada e sem talento. Como se não bastasse, Angelina pegou catapora de algum de seus 27 filhos - vai ter que ficar de molho, e de fora de uma série de eventos para promover seu filme. Enquanto isto, Jennifer, belíssima, foi indicada a melhor atriz tanto pelo Globo de Ouro como pelo SAG, o sindicato dos atores, pela comédia dramática "Cake". Ah, nada como um dia depois do outro.

TORTURA NA TELA


Discutir a tortura está na ordem do dia. No Brasil, a conclusão dos trabalhos da Comissão da Verdade vem provocando reações à direita e à esquerda. Nos Estados Unidos, a admissão de algo que todo mundo já sabia - torturou-se à pampa depois do 11 de setembro - também reacendeu um debate que não tem hora para terminar. No meio disso tudo, estreia "Uma Longa Viagem", um filme onde a tortura é protagonista. A história é boa: assombrado pelo sofrimento que passou num campo de concentraçnao japonês quando jovem, um ex-soldado britânico vai atrás de seu algoz em busca de um acerto de contas. Mas a realização deixa muito a desejar. Apesar do elenco oscarizado e da boa reconstituição de época, o filme parece querer se esticar ao máximo, ocupando muito tempo com cenas melancólicas e vagarosas. A meditação sobre vingança e perdão, que deveria acontecer dentro da cabeça do espectador, é explicitada na tela a mais não poder. Fugi aliviado quando acenderam as luzes.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

VITÓRIA ORGULHOSA

Viktoria Modesta vem lançando discos desde 2010 e, dois anos depois, cantou na cerimônia de encerramento dos Jogos Paralímpicos de Londres. Mas só agora ficou mundialmente famosa, graças a uma maciça campanha publicitária do Channel Four britânico. Nascida na Lituânia e criada na Inglaterra, a moça tinha um defeito congênito na perna esquerda - tão grave que ela resolveu amputá-la aos 20 anos de idade, e assim se locomover melhor. E, meu, como ela se locomove. Promovida como "a primeira popstar biônica do mundo", Viktoria ganhou as manchetes do planeta e os corações de muita gente. Mas claaaro que, em tempos de internet, tem nego reclamando que é "só marketing" e que ela estaria "glamurizando a deficiência". Como diria Silvetty Montilla, meu cu, n'est-ce pas? É marketing sim, mas por uma causa excelente: a plena inclusão dos PPDs na sociedade. E é glamurização sim, e desde quando isso é ruim? Fora que uma perna-agulha como a dela me viria a calhar em alguns momentos. Ah, e a música? A música é o de menos. Essa vitoriosa não precisa ser modesta.

MEMÓRIAS DE UM MASTODONTE

Gérard Depardieu é a maior estrela masculina do cinema francês de todos os tempos, maior até do que os míticos Belmondo e Delon. Há mais de quarenta anos que ele domina as telas de seu país de um jeito só comparável a Ricardo Darín na Argentina. Sua personalidade longe das câmeras também é gigantesca: GéGé está sempre metido em alguma confusão, seja uma mijada no corredor de um avião, seja sua esquisita amizade com Vladimir Putin. Os dois assuntos são citados em sua autobiografia, "Ça s'est Fait Comme Ça" (em tradução livre, algo como "é assim que se faz"). Os capítulos são curtos e o texto é absolutamente coloquial - provavelmente uma transcrição bastante literal do que Depardieu disse a seu ghost writer. Infância, juventude e início da carreira são contados com riqueza de detalhes. Há até um certo exagero na pobreza extrema da família (o pai vivia bêbado, a mãe vivia grávida). Ele também confirma que deixava que lhe chupassem o bite em troca de dinheiro, além de confessar uma infinidade de pequenos furtos e contravenções. Mas, depois de alcançar o sucesso antes dos 25 anos, a memória de Depardieu se torna seletiva e começa a dar pulos. E a grande tragédia de sua vida - a morte do filho Guillaume, viciado em drogas - nunca é esmiuçada, apesar do evidente arrependimento do ator em não ter dado a devida atenção ao rapaz. Gérard Depardieu não é um sujeito adorável. Sua admiração pela proto-ditadura russa (ele chega a atacar o Pussy Riot) é nojenta, e sua relação com esposas e filhos continua complicada. Terminado o livro, uma certeza: o ego dele é ainda mais colossal do que a barriga.

domingo, 14 de dezembro de 2014

NOW ALL OUR MISTAKES ARE BEHIND US

Trabalhei muitos anos com a Procter & Gamble, e posso garantir: não é um cliente fácil. Não estão abertos a ideias ousadas e testam tudo um milhão de vezes antes de por no ar. Mas isto não quer dizer que a empresa em si seja conservadora. A P&G foi uma das primeiras a garantir plenos direitos a seus funcionários gays, como plano de saúde para os cônjuges, e há muitas bibas em cargos de diretoria. Por isto, não chega a me surpreender este comercial de Tide que eles estão veiculando no Canadá. Para quem não entende inglês: no final, o barbudo diz que o produto lava todos os seus erros do passado. O namorado responde, tipo sua cueca samba-canção? E o barbudo responde: tipo seu ex.

Ah, e como é que sabemos que estamos no Canadá? Repare na quantidade de frascos de maple syrup que o casalzinho tem no armário...

E OS VERMES GIGANTES?


Acabou. Acabou. Graças a Deus, acabou. Nunca mais teremos que visitar a Terra-Média no cinema. A não ser que resolvam transformar a orelha de algum livro esquecido de J. R. Tolkien em mais uma trilogia, claro. Mas podem transformar à vontade, proque não me pegam mais. "O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos" esgotou toda a minha paciência para com este universo. O filme é ruim, ponto. O mais caro filme ruim de todos os tempos. A tal batalha do título ocupa quase todas as duas horas e meia de duração. É o suficiente para esquecermos porque os tais cinco exércitos (só contei três) estão brigando. Os próprios produtores parecem perder o fio da meada: lá pelas tantas, parou tudo porque emergem da terra os temíveis vermes gigantes. Pânico! Aí os vermes gigantes vão embora. A luta recomeça. Mas a qualquer momento, os vermes gigantes podem voltar! Mas não voltam. E a luta continua. Os malvados morrem em segundos, os bonzinhos levam hooooras para dar o último suspiro. Fora que os diálogos são pésssimos e as atuações, piores. Mas cuidado, os vermes gigantes podem reaparecer a qualquer momento! E aí a batalha termina, e Bilbo volta para casa, e a história se conecta com a do "Senhor dos Anéis". Fim. Ufa, acabou. Saí aliviado, para nunca mais voltar. Mas a pergunta continua a perfurar a minha cabeça: e os vermes gigantes??

sábado, 13 de dezembro de 2014

THE CLOSER I GET TO YOU

Sou totalmente contra o "outing" - a tirada do armário à força - mas com uma única e honrosa exceção. Gays enrustidos que trabalham contra os direitos gays merecem ser arrancados de seu cômodo escurinho e expostos ao ridículo na luz do dia. Não por serem gays, é claro, mas por serem hipócritas filhos da puta dignos de desprezo. É o caso de Florian Phillippot, dirigente do partido francês de extrema-direita Front National, uma organização que só não pode ser chamada de nazista porque não usa a suástica. Philippot foi flagrado pela revista "Closer", uma variante local da "Caras", andando de mãos dadas em Viena com seu namorado - um apresentador de TV não identificado - crente de que ninguém os conhecia por ali. Seu partido não negou o casinho, mas reclamou lançando mão de um argumento comum na França: o direito à privacidade. Tradicionalmente, a imprensa de lá não se mete na vida particular dos políticos. Foi o que possibilitou ao ex-presidente François Mitterrand ter uma segunda família durante anos a fio, o que só foi revelado depois de sua morte. Mas os tempos mudaram, e, há cerca de um ano, o casamento do atual presidente, François Hollande, ruiu quando saiu a notícia de que ele era amante da atriz Julie Gayet.

Acontece que o "affair" Philippot só pode ser considerado um atentado à privacidade se acharmos duas coisas: 1) ser gay é imoral, mas... 2) o fato dele ser gay não afeta a vida de ninguém. Esta equação vale para os casos extraconjugais (o sujeito ter uma amante vai contra a moral vigente, mas por outro lado esse pecadilho só atinge as pessoas de sua família). Mas para um político gay que milita num partido estridentemente anti-homossexual? Primeiro que ser gay não é crime nem pecado. Segundo que, sim, o fato dele ser gay afeta a vida de milhões, pois ele também é contra os direitos igualitários. Não é só a homofobia internalizada que leva esse tipos a lutarem contra si mesmos. Philippot pode muito bem concordar com a agenda racista, autoritária e atrasada do FN, e achar que não precisa se casar no civil para ser feliz com seu bofe. É a velha história do "faça o que quiser, mas seja discreto". As fotos da "Closer" estão causando um grande debate na França, um país bastante dividido quanto aos gays. A carreira política de Philippot talvez esteja liquidada: seus eleitores são boçais e não devem perdoá-lo. Mas será que o próprio Front National sairá prejudicado? Acho que não. O apoio ao partido é muito amplo e não se evaporaria com um único escândalo. Vamos imaginar se acontecesse algo semelhante por aqui. Se, digamos, o Feliciano fosse pego por um paparazzo com a boca na botija. Ele cairia em desgraça e seria alvo de escárnio, mas a ideologia que existe por trás dele continuaria firme. Pois, como vimos nos comentários pró-Bolsonaro dos últimos dias, a escrotidão está entranhada na alma brasileira.