quarta-feira, 30 de abril de 2014

ELEGÂNCIA CASUAL

Flash mob é tããão 2009, né não? Mas a arte de surpreender transeuntes com performances em espaços públicos ainda não está de todo morta. O grupo de teatro Improv Everywhere fez há poucos dias um mannequin mob numa loja da Gap em Nova York. E como foi que a Gap reagiu? Chamou a polícia. Se eu fosse diretor da empresa, demitia o vendedor que ligou para 911. Tem gente que merecia ser presa por não perceber uma boa oportunidade de marketing.

LUTA DE CLASSE

Mais um para a minha lista dos "I-don't-get-it": Wong Kar-Wai. já tentei várias vezes gostar dos filmes desse badalado diretor chinês, mas embalde. Acho tudo sublime, mas não consigo me empolgar. E, no caso de "O Grande Mestre", também não consegui entender muita coisa. É tanta luta, mas TANTA luta, que eu apenas não captei a história. Ou vai ver que tudo não passa de pretexto para encenar embates cada vez mais incríveis, com piruetas, giros no ar e muito carão. Estou começando a achar que o gênero "kung-fu de arte" já deu o que tinha para dar: foi uma grande novidade com "O Tigre e o Dragão", mas isto já tem quase 14 anos. "O Grande Mestre" foi indicado aos Oscars de melhor fotografia e melhor figurino, e é de fato classudo e deslumbrante. Mas, no meio de tanta porrada, para mim faltou a mais importante de todas: a porrada emocional.

terça-feira, 29 de abril de 2014

ESSA FANTA É COCA ZERO

A essa altura já devem estar achando que eu sou acionista do Põe na Roda, ao que eu respondo: quem me dera, porque esses garotos vão ficar muito ricos. Este é o terceiro vídeo deles e o terceiro que eu posto aqui no meu blog, porque está simplesmente muito engraçado. E instrutivo também: eu, por exemplo, aprendi a expressão "fazer amizade com o Wolf Maya". Agora vou usar sempre.

TRI-LEGAL

Mias um tabu que cai por terra: o primeiro beijo gay triplo da TV aberta brasileira foi ao ar nesta madrugada, durante o "Programa do Jô". O entrevistado era George Sauma, vocalista da banda Choque do Magriça. Ele contou que durante seu show há um momento em que troca um beijo com um dos músicos, Nicolas Bartolo. Foi o gatilho para que todos se assanhassem, inclusive o auditório. O mais divertido é ver o próprio Jô tentando conter sua empolgação. Viva o gordo!

segunda-feira, 28 de abril de 2014

YES, NÓS TEMOS BANANAS

Achei incrível a reação do jogador Daniel Alves, que apanho do chão e comeu a banana que algum torcedor racista lhe atirou durante a partida Barcelona e Villareal deste domingo. Também achei incrível a campanha espontânea que surgiu logo depois, com diversas celebridades postando fotos de si mesmas comendo bananas. E daí que a do Neymar foi sugestão de uma agência de propaganda? Claro que há uma dose de cinismo e autopromoção, assim como houve quando Valesca Popozuda aderiu totalmente nua ao hashtag #EuNãoMereçoSerEstuprada. Mas a importância da mensagem é tão grande que ofusca essas tentativas de marketing pessoal, assim como engrandece o confortável "ativismo de poltrona". Estou de tão bom humor hoje que achei incrível até mesmo a postagem de Gretchen em sua página no Facebook. Sim, dá para fazer uma ligeira crítica à cantora: o Richarlysson jamais saiu do armário, portanto uma campanha #SomosTodosViados seria à sua revelia (e um cara que não se assume não merece ser defendido, creio eu). Ela também está exagerando um pouco: tivemos o caso do Michael, aquele jogador de vôlei que sofreu bullying homofóbico, e que logo em seguida foi adotado pela torcida de seu time, o Vôlei Futuro. Mas, gentem, a ideia partiu da Gretchen (ou pelo menos ela a encampou - já estão dizendo que ela "kibou") - a mesma Gretchen que bateu na filha quando soube que esta era lésbica. É uma trajetória admirável e que me dá um pouco de esperança na humanidade. E vontade de comer banana.

ATUALIZAÇÃO: Estão me dizendo que o perfil da Gretchen no Feice é fake. Não tenho certeza e nem importa, porque a postagem foi mesmo kibada: a autoria é de uma moça chamada Fer Santana. O que não invalida boa parte do meu post!

O GENÉRICO DE WOODY ALLEN

Muita gente está indo ver "Amante a Domicílio" achando que é o novo filme do Woody Allen. O tema até parece plausível para o diretor (um sujeito falido vira cafetão de um amigo igualmente falido), assim como a ambientação em Nova York e o elenco de estrelas. Mas "Amante" é só com Woody Allen: direção e roteiro são de John Turturro, que aproveitou a oportunidade para se pintar como um garanhão irresistível. Não sei em qual planeta que beldades como Sharon Stone e Sofía Vergara precisam pagar para trepar, ainda mais com um brutamontes de meia idade sem maiores atrativos (pelo menos para mim). Isto até que não seria grave se o filme fosse mesmo a comédia que se anuncia, mas quase que não há piadas no roteiro frouxo e inverossímil. O que pareceu não incomodar o público da pré-estreia a que eu fui: muita gente riu a mais não poder, crente que estava diante de um autêntico Woody Allen. Eu sabia que não estava, e fechei a cara.

CARNAVAL FORA DE ÉPOCA

Vocês estão sabendo que a parada gay de São Paulo acontece domingo que vem? Que nós já estamos em pleno Mês do Orgulho LGBT? Pois é: precisou ser tudo antecipado, por causa da Copa do Mundo. Há quase 20 anos que a parada paulistana acontece no domingo do feriadão de Corpus Christi. É o segundo maior evento turístico da cidade, só perdendo para o GP da Fórmula 1. Só que em 2014 ela cairia em 22 de junho, dia de jogo. Claro que teve político fundamentalista querendo cancelar o evento - mas, como sempre, o dinheiro falou mais alto, e a micareta gay foi antecipada em quase dois meses. Só que eu acho que esqueceram de avisar os interessados. Pouca gente está ciente de que já nesta semana embarcaremos na tradicional maratona de festas. Que, aliás, está mais magra: a programação das boates diminuiu, com ingressos a preços camaradas e sem atrações internacionais mirabolantes. Foi assim em outros lugares do mundo: por onde aconteceu, o avanço das conquistas LGBT esvaziou um pouco o tamanho das paradas. Aqui também elas se tornaram rotina. Não percebo mais aquela eletricidade no ar. Ou sou eu que estou ficando velho?

domingo, 27 de abril de 2014

ENCAIXOTANDO O PARAGUAI


Eu nunca tinha visto nenhum filme paraguaio, e aposto que você também não. Nosso vizinho não tem nem fiapo de indústria cinematográfica. Por isto é surpreendente que um longa de lá chegue às telas brasileiras - e ainda mais com a qualidade de "7 Caixas", que vem sendo chamado de uma versão local de "Cidade de Deus". A comparação se justifica pela câmera nervosa, pela edição clipada e pela trama que se passa num mundo de crime e miséria. Aliás, miséria é o que não falta: sensibilidades mais frágeis talvez devam rever "Frozen" em DVD. O ponto de partida do roteiro é simples: um moleque que trabalha como carregador num mercado de Assunção recebe de dois açougueiros a tarefa de ficar zanzando a esmo com sete misteriosas caixas de madeira durante um dia inteiro. Se cumprir a missão, receberá a inimaginável fortuna de 100 dólares - o suficiente para comprar um celular usado com câmera de vídeo. A ação se passa em 2005, antes do advento ds smartphones, e o sonho do garoto é ser filmado e aparecer numa tela. Daí para a frente emerge um submundo povoado por policiais malandros, comerciantes coreanos e o inevitável travesti. Ninguém nasceu vilão, mas todos têm boas razões para cometer atos de vilania. "7 Caixas" seria melhor se o roteiro fosse mais enxuto: o ponto de chegada é vislumbrado várias vezes, mas demora para ser atingido. Para piorar, a única cópia em exibição em SP traz as legendas em português sobrepostas às legendas em espanhol (porque o filme é quase todo falado numa mistura peculiar de espanhol e guarani), causando dor de cabeça no espectador já nos primeiro cinco minutos. Mas vale muito a pena, ainda mais porque a mensagem é clara: assim como o protagonista do filme, o Paraguai quer ser filmado e aparecer na tela. Está começando a conseguir.

sábado, 26 de abril de 2014

PAPAPALOOZA

Amanhã acontece em Roma uma inédita canonização simultânea de dois papas mortos, com a presença de dois papas vivos. Um congestionamento papal que trouxe milhares de turistas à cidade e que, claro, já está recebendo uma encíclica de críticas. Mas não adianta reclamar do marketing: os santos sempre foram os garotos-propaganda da Igreja, e a escolha de quem deve ser canonizado sempre correspondeu às necessidades do momento. O que nos leva ao segundo ponto: será que este é mesmo o momento de santificar João Paulo II? Será que este momento existe? A colunista do "New York Times" Maureen Dowd, que é católica praticante, escreveu um artigo esta semana defendendo que Karol Wojtyla não merece halo algum, por ter encoberto os escândalos de abuso sexual cometido por sacerdotes e dificultado sua investigação. Eu concordo, e vou além. João Paulo II merece ser esquecido o quanto antes. Seu papado tentou desfazer todos os avanços conseguidos a partir do Concílio Vaticano II, a grande obra de seu colega de canonização João 23. Que os dois sejam elevados a santos no mesmo dia é de uma ironia, digamos, divina - são opostos em quase tudo. O azedo reacionarismo do polonês era mascarado por seu inegável carisma, e não se sustentou quando seu sucessor, o antipaticíssimo Ratzinger, assumiu o trono de São Pedro. Hoje temos Francisco, que até agora não deu um passo em falso (e nem foi dele a ideia desse circo que se armou em Roma este fim de semana). Mas o que este papa até agora ainda não bastou para me fazer voltar à missa.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

GRÂNDOLA, VILA MORENA

Eu tinha 13 anos e meio quando aconteceu a Revolução dos Cravos em Portugal. A imprensa brasileira não escondeu que havia caído uma ditadura. E eu me indignei: como é que ninguém tinha me contado que Portugal era uma ditadura? Para mim, ditadura eram os países comunistas. Mas foi naquela mesma época que eu percebi que o Brasil também não era uma democracia, apesar do regime daqui ser mais brando que o português. Por lá a censura chegava às raias do ridículo: não só filmes como "O Último Tango em Paris" eram censurados, como também a notícia desta censura. O salazarismo estourou numas três décadas seu prazo de validade e insistia em manter um império anacrônico, que o pequenino Portugal não tinha a menor condição de manter. Os anos que se seguiram foram de caos, e depois veio uma certa prosperidade. Hoje Portugal não está mais tão bem, mas quem está? O desalento atual é mil vezes preferível ao atraso mental imposto pelos chamados "3 Fs" (fado, futebol e Fátima), sancionado pelo regime. Hoje mando um cravo mental para os amigos d'além-mar e canto com eles o hino informal da revolução. Dentro de ti, ó cidade / O povo é quem mais ordena...

quinta-feira, 24 de abril de 2014

"VEEP" À FRANCESA


Aqui no Brasil só conseguimos rir da corrupção dos nossos políticos. E assim ignoramos um traço que é ainda pior: a incompetência. A série americana "Veep" faz isto com maestria: a vice-presidente Selina Meyer, descaradamente inspirada em Sarah Palin, é despreparada para o cargo e vive se metendo em confusão. O filme "O Palácio Francês" tem alguns pontos em comum com a sitcom de Julia Louis-Dreyfus. Aqui o protagonista é um fictício ministro das Relações Exteriores (o palácio do título é o Quai d'Orsay, o Itamaraty deles), que disfarça com arrogância e hiperatividade o vácuo que existe em sua cabeça. É um personagem e tanto, mas o roteiro - adaptado de uma história em quadrinhos baseada em fatos reais - não sabe o que fazer com ele. O filme anda em círculos, com algumas boas piadas mas sem um plot propriamente dito. O veterano Niels Arestrup ganhou seu terceiro César de coadjuvante como o assessor que conserta as cagadas do patrão, mas a fantástica interpretação de Thierry Lhermitte como o ministro desastrado sequer foi indicada. Mesmo que fosse incrível (não é), "O Palácio Francês" não tem muito interesse para o espectador brasileiro. A não ser para aquele que quiser ver Julie Gayet, a amante do presidente François Hollande, que também está no elenco.

SEND IN THE CLONES

"Breaking Bad" deixou um buraco na minha vida, que eu venho tentando preencher com muitas séries diferentes. Uma delas é a canadense "Orphan Black", cuja primeira temporada eu termino hoje (a segunda acaba de estrear lá fora). É uma trama policial com fartas doses de ficção científica: uma moça meio punk descobre que tem vários clones, e que todos foram gerados numa misteriosa experiência genética. Mas uma seita de fanáticos religiosos quer eliminar os clones, e um dos personagens tem rabo. Essa despirocação toda é compensada por temas de fundo realmente sérios: quem sou eu? Como eu seria se fosse diferente? Devo encaracolar o cabelo? A atriz Tatiana Maslany dá vida a quase uma dezena de personagens idênticas porém diferentes e, como disse um crítico americano, tem muita química com si mesa. "Orphan Black" tem momentos de muita tensão e outros de comédia de boulevard, como nas muitas vezes em que um clone tem que se passar por outro. Não chega a ser transcendental como a saga do Walter White, mas é um dos programas mais interessantes da TV contemporânea. Procure no Netflix.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

PODE SER A GOTA D'ÁGUA

Acho um acinte essa história do governo de São Paulo querer multar quem aumentar seu consumo de água. Isto é uma medida digna de Hugo Chávez, que a implantou durante uma seca na Venezuela quatro anos atrás. É passar recibo de incompetência. Também é sinal de que passa da hora do PSDB sair do Palácio dos Bandeirantes. Sim, sou eu quem diz isto: eu, tido como tucano de carteirinha por boa parte dos leitores deste blog. E como acredito que o rodízio dos partidos no poder é um dos pilares da democracia, não vou votar em Alckmin nas próximas eleições. Meu saco transbordou.

VENIMOS A BRASILAR

Por quê que a FIFA cismou que os hinos "oficiais" das Copas precisam ser cantados em inglês por latinos? Ela acha que isto que é ser global? O torneio de 2010 teve "Waka Waka" na voz de Shakira, discretamente acompanhada por uma banda da África do Sul. Agora há uma enxurrada de temas, inclusive uma atrocidade cometida pela própria Shakira. Sem falar em "We Are One (Ole Ola)", que reúne Pitbull, Jennifer Lopez e Cláudia Leitte e conseguiu a façanha de não agradar a absolutamente ninguém. Mas nada é pior do que "Vida", cujo clipe foi gravado por Ricky Martin nas praias do Rio de Janeiro. A música é de uma banalidade espantosa, e o vídeo é mais anódino do que um comercial de Coca-Cola. Fora que Ricky, ainda sensacional aos 40 anos, envelheceu uns 10 com essa barba rala sal-e-pimenta. Deus é testemunha de que eu sou um grande apreciador de porcarias, mas elas têm que ser bem feitas. Não é o caso aqui.

terça-feira, 22 de abril de 2014

VAMOS ABRIR A RODA, ENLARGUECER

Acaba de sair o segundo vídeo do Põe na Roda, dessa vez com a participação de um grande elenco. Eu inclusive: já vou antecipando os haters anônimos e dizer que estou gordo, velho e ridículo. Portanto, nem se deem ao trabalho. Foquem no vídeo! Que está engraçado e muito bem editado. Daqui a pouco vão rolar remixes funk, e o Pedro HMC vai ficar rico. Vamos ver se ele põe os lucros na roda?

PROVA DE CONFIANÇA

Não me lembro de ter visto um filme brasileiro de suspense antes de "Confia em Mim". Só isto já me deixou bastante interessado na estreia em longa-metragem do diretor Michel Tikhomiroff. Junte-se a isto o elenco encabeçado por Mateus Solano e o argumento instigante (moça insegura cai nas mãos de um vigarista), e lá fui eu com a maior das boas vontades para o cinema. Não me decepcionei, mas também não saí maravilhado. O roteiro não tem barriga e segura a atenção até o final de enxutos 90 minutos. Mateus me lembrou muito o Félix no começo, mas lá pela metade eu já tinha esquecido da bicha má de "Amor à Vida". E Fernanda Machado mostrou que tem "star quality" quando ganha um papel com um mínimo de coerência. Mas o excesso de planos fechadíssimos remete às novelas de vinte anos atrás, e a fotografia sem brilho dá um ar corriqueiro a um filme que precisava de um toque de glamour. Em resumo: "Confia em Mim" parece ter sido feito para a televisão, onde certamente fará sucesso. Mas é uma boa incursão num gênero raro no cinema nacional, e um começo promissor para todos os envolvidos. Dá para confiar.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A BOSSA NOSSA E A DOS OUTROS

Um amigo gringo que havia acabado de se mudar para o Rio me perguntou qual era o melhor lugar para se ouvir bossa nova na cidade. E eu respondi... (grilos). Curioso como a música brasileira mais famosa do mundo virou quase que peça de museu por aqui. A bossa nova não gerou variantes: até existem versões eletrônicas dos clássicos, mas nada que se compare ao que aconteceu com o tango na Argentina. Mas não morreu para sempre. De vez em quando surge um bom disco novo do gênero, ainda que sem acrescentar muito ao que já existe. É o caso de "Gilbertos Samba": a releitura que Gilberto Gil faz de diversos temas gravados por João Gilberto (inclusive um co-escrito pelo próprio Gil). O ex-ministro da Cultura é excelente violonista, e sua voz tem mais alcance do que a do pai da bossa nova (se bem que eu nunca gostei muito de seu timbre). Com bom gosto e sobriedade, ele fez um álbum forte e delicado ao mesmo tempo, com uns toques moderninhos aqui e ali. Mas Gil acaba sendo reverente demais, aparentando medo de profanar um campo sagrado. Ou vai ver que ele sente que já profanou o suficiente com a Tropicália.

Mais interessante, para mim, é a bossa nova que os gringos fazem. Como a da dupla americana Thievery Corporation, que faz um som "lounge" assumidamente influenciado pelo Brasil. Agora eles lançam "Saudade", um CD inteirinho do que acham que seja bossa nova. Digo acham porque mesmo as faixas cantadas em português (há também em inglês, francês, espanhol e italiano) e acompanhadas por uma leve batucada não soam como standards de Tom Jobim. Há um certo excesso de melancolia. Outras estão mais para a praia de Henry Mancini do que qualquer outra coisa, sem o menor aroma de brasilidade. Mas tudo bem: o que importa é que o disco é um ótimo exemplar do estilo "rede sonora". É só ouvir para você se sentir balançando numa rede à beira-mar, com um drink na mão.

GORÓ EM PÓ

Acaba de ser liberada nos EUA a comercialização do Palcohol, o primeiro álcool em pó. Apesar do som sugestivo em português, o nome é uma contração de "pal" (amigo) com "alcohol", e a propaganda do produto fala que ele é "um amigo que te acompanha por toda parte". Aí que mora o perigo: o Palcohol vem em saquinhos discretos que podem ser levados no bolso para cinemas, estádios, escolas e qualquer lugar onde é proibido o consumo de bebidas alcóolicas. Basta acrescentar água para que ele se transforme num drink (já existem cinco sabores, inclusive o suspeito kamikaze). Ou nem isto. O Palcohol também pode ser cheirado, causando um porre instantâneo. A princípio o fabricante exaltou essas "virtudes" no site, mas já mudou a linguagem por causa das reações negativas. Também avisou que tornará o pó mais grosso, para desestimular o consumo nasal. Ainda é cedo para dizer, mas o estrago do Palcohol pode ser enorme. Periga até mudar o final da frase histórica atribuída a Jânio Quadros: "...se fosse sólido, aspirá-lo-ia".

domingo, 20 de abril de 2014

MEU PROBLEMA COM BRASÍLIA

Esta é só a terceira vez que eu venho a Brasília, e a primeira em que dormi na cidade. Claro que ainda é pouco para ter uma boa noção do lugar, ainda mais porque ficamos 90% do tempo absorvidos pela chegada da Aurora. Mas também não foi o suficiente para apagar a má impressão que eu tive na outra vez. Verdade que as ruas me pareceram mais limpas e os jardins melhor cuidados. Minha pinimba agora é com os serviços. Para começar, onde se meteram os táxis? Uma cidade com transporte público deficiente e distâncias imensas, e o táxi chega a levar quase meia hora para chegar ao hotel depois de chamado? Ah, o hotel: o Eurostar Brisas do Lago inaugurou há quatro meses, mas ainda não está totalmente pronto. Seu staff também não está: no café da manhã, por exemplo, tive que acenar freneticamente para que algum dos garços distraídos me notasse. Também precisei mostrar para um deles que eu, desastrado como sempre, havia derramado um copo inteiro de suco de laranja - caso contrário, o chão estaria melado até agora. Nos shoppings, nenhum vendedor parece muito interessado em atender o cliente. E os endereços cheios de siglas, para quem vem de fora, parecem coordenadas estelares usadas pela nave Enterprise. Pelo menos a parte nova do aeroporto está sensacional; tem até Hudson News, igualzinha às de Miami. Sei que, para ter uma opinião mais justa, eu precisaria passar uma temporada em Brasília. Mas será que eu quero?

sábado, 19 de abril de 2014

AURORA

Nasceu a neta do meu marido. Como a filha dele insiste que ela também é minha, então eu também sou avô. O parto aconteceu em Brasília com o auxílio de uma doula e o bebê nasceu empelicado - ou seja, dentro da bolsa, que não se rompeu. É um acontecimento raríssimo (um a cada 80.000 partos) e há toda uma mitologia ao redor. As criancas que nascem empelicadas teriam uma proteção especial. Só descobrimos que era menina depois do nascimento, pois minha enteada, apesar de ter feito todos os exames, se recusou a saber o sexo. Vai se chamar Aurora, nome de princesa. E passar a vida escutando: "se você fosse sincera, ôôôô...".

sexta-feira, 18 de abril de 2014

GABO

Só li cinco livros de Gabriel García Márquez: "Cem Anos de Solidão", "Crônica de uma Morte Anunciada", "O Amor nos Tempos do Cólera", "Noticias de un Secuestro" (que me surpreendeu epla crítica feita às FARC, ainda mais vinda de um notório comunista) e "Memórias de Minhas Putas Tristes"(que eu detestei, por ser incrivelmente machista). Por isto não me tenho como profundo conhecedor de sua obra, e quer saber? Sou mais team Vargas Llosa. Mas é claro que Gabo era maravilhoso. O impacto de "Cem Anos..."é sentido até hoje, quase meio século depois de sua publicação, e é uma dos obras chave quem quiser ter noção do que é a América Latina. O cara teve todas as homenagens possíveis em vida, então só nos resta uma coisa a lamentar: não teremos mais livros novos dele.

DOMINGÃO DO FALSTAFF

Gosto muito de ópera, mas só vou quando os ingressos me caem no colo. Foi o que aconteceu desta vez: um casal de amigos que tem assinatura da temporada foi viajar no feriadão, e lá fomos nós para o Municipal de SP ver "Falstaff". A última obra composta por Verdi é uma adaptação da peça "As Alegres Comadres de Windsor" de Shakespeare, e é a mais engraçada de todas. Verdi tira sarro do próprio gênero: árias são interrompidas por resmungos, e por pouco os personagens não soltam palavrões. O diretor italiano Davide Livermoore traz a ação para a Londres dos anos 70, com direito a punks e rainhas no palco. Mas as marcas são pobrinhas, e o cenário que reflete o próprio teatro não diz muito a que veio. Salva-se o excelente baixo-barítono Ambrogio Maestri, que parece ter nascido para o papel-título. Imenso no corpo e na voz, ele ainda tem o timing cômico afiadíssimo. Quem se interessar ainda tem tempo: haverá récitas nos dias 19, 20, 22 e 24.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A REPÚBLICA DOS G0YS

Você conhece algum g0y? Sei não, mas o tal do movimento que está eriçando a internet - umas cinco pessoas já me mandaram links para notícias a respeito - me parece meio fake. Ouvi falar dos g0ys há mais de um mês, graças a esta matéria no site Lado Bi. Depois disso eles ganharam site e página em português no Facebook, além de várias menções na imprensa. Mas o que eu acho de tudo isto? Pra começo de conversa, claro que eu acho que é tudo viado. Esse papo de "homens que curtem homens, mas não fazem penetração" não diminui em nada a homossexualidade dos envolvidos. Aliás, como que até hoje é difícil para alguns se assumirem, hein? Quando eu era adolescente, conhecia caras que comiam os viadinhos do colégio e nem por isto se achavam gays. Mais tarde, tive um amigo que se gabava de ser "ativo radical" e de nunca ter tocado num único pinto, apesar de só transar com homens (hoje em dia parece que ele aliviou as regras). Fui olhar a fanpage dos g0ys no Face e, apesar de não ter reconhecido ninguém, achei que todos levam jeito. Até aí zuzo bem: cada um tem o direito de gostar do que gosta, e de procurar outras pessoas que compartilhem do mesmo gosto. Mas repito que o fato desses rapazes criarem um nominho ishperto para si próprios - e até mesmo uma bandeira, que mais parece a de uma republiqueta do Caribe - me soa tão falso quanto aquele jornalista da Dinamarca.

IT'S THE FREAKIEST SHOW

Marquei uma bobeira épica e perdi a exposição do Kubrick, que ficou meses em cartaz em SP. Quase marquei de novo com a do David Bowie, que está na reta final. Ontem corri para o MIS e enfrentei uma ligeira fila, mas nada de grave. Pior foram as legendas dos itens expostos: impressas em letras brancas e miudinhas sobre fundo preto (como as desse blog...),  mal iluminadas e mal posicionadas. Tampouco há ordem cronológica, e quem não souber detalhes da vida de Bowie vai sair embananado. Mas nada disso importa diante do esplendor dos figurinos de todas as fases, ou dos cadernos rabiscados com versões primitivas das letras, ou as artes finais das capas dos discos clássicos. Bowie emerge como o artista pop mais influente depois dos Beatles, e de fato é difícil apontar alguém legal que não "descenda" dele de certa forma. Também fica claríssima a caretice dos dias que correm, em contraste total com o desbunde dos anos 70. Nada disso teria valor se a música de Bowie também não fosse excepcional, mas os fones de ouvidos distribuídos na entrada nos lembram o tempo todo da grandeza de "Heroes" ou "Space Oddity". E eu ainda me emocionei com o clipe da belíssima "Life on Mars?", um pioneiro do gênero e moderno até hoje. Quem ainda não viu tem só até domingo. Coragem.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

VALOR DE FACE


Volta e meia compro discos só por causa da capa. Óbvio que já errei rude muitas vezes, mas também costumo acertar na mosca. Foi o que aconteceu com Stromae. Adquiri o álbum "Racine Carrée" na iTunes Store pensando que se tratava de uma cantora branca. Nananina: é um mulato belga, filho de mãe flamenga com pai ruandês. E a música do rapaz até lembra a porcariada que toca em rádios europeias como a NRJ, mas é bem mais elaborada. Seu nome quer dizer "maestro" em verlan, a antiga gíria francófona que inverte as sílabas das palavras. E seus vídeos são os mais criativos que vi este ano até agora. Para entender "Papaoutai" (corruptela de "papa ou tu est", papai onde você está?) é preciso saber que o pai de Stromae voltou para a África quando o cantor era pequeno, e foi morto durante o genocídio em Ruanda. Esse momento melancólico é contrabalançado por outros de plena euforia, como "Ta Fête" - o hino da seleção da Bélgica para a Copa. "Racine Carrée" (ou, para os íntimos, "√") pode ser escutado na íntegra aqui. E a capa é linda, né, gente?

A KISS IS NOT JUST A KISS

Há cerca de um mês dei uma entrevista para Bruce Curb, um jornalista ida BBC baseado no Rio. Ele queria saber a minha douta opinião sobre o beijo gay de "Amor à Vida", e o que isto implicava para a guerra cultural que se trava no Brasil. Pena que, por questão de tempo, ele cortou a parte em que eu digo que, como nos EUA, os evangélicos não vão ultrapassar os 25% da população nem conseguir impor sua agenda retrógrada aos demais. A matéria pode ser ouvida aí acima. Dois alertas: 1) é toda em inglês. 2) Silas Malafaia aparece no final.

terça-feira, 15 de abril de 2014

PAÍS CIVILIZADO É OUTRA COISA

A Finlândia vai lançar uma série de selos homenageando um de seus filhos mais ilustres, o desenhista homoerótico Tom of Finland. Já tem gente querendo lamber.

CHEQUE COM FUNDOS

Até que demorou para surgir uma versão arreganhadamente gay do "Porta dos Fundos". Mas voilà: saiu hoje o primeiríssimo vídeo do Põe na Roda, capitaneado por Pedro HMC, meu colega no F5. Eles prometem um esquete novo toda terça, e making of às sextas. Em breve terão camisetas, chaveiros, preservativos...

SOMBRAS NA PASSARELA

Pierre Bergé não só aprovou o roteiro de "Yves Saint-Laurent" como permitiu que o apartamento do casal em Paris e a casa em Marrakech servissem de locações. Por isto mesmo, é surpreendente o tom sombrio do filme: muitas indiscrições são reveladas, como as puladas de cerca, o consumo de drogas e a instabilidade emocional do protagonista. Talvez porque o objetivo derradeiro seja mesmo pintar Bergé como um herói, que permitiu que Saint-Laurent desse vazão a todo seu gênio e ainda o salvou de si mesmo inúmeras vezes. Claro que não falta glamour na tela: desfiles, festas, loucurinhas, está quase tudo lá (faltou Catherine Deneuve, uma das musas do estilista). É irresistível saber que Saint-Laurent roubou um namorado de Karl Lagerfeld nos anos 70, e interessante ver como a moda evoluiu em poucas décadas de um circuitinho fechado para um negócio global de bilhões de dólares. Este é só o primeiro filme do ano sobre o mais importante costureiro da segunda metade do século 20: um outro, chamado apenas "Saint-Laurent", estreia na França em outubro, sem o aval de Pierre Bergé. O que vem por aí? Uma visão ainda mais pessimista da vida de Yves?

segunda-feira, 14 de abril de 2014

PT-ROBRÁS

Empresas que fornecem serviços públicos devem ser privadas ou estatais? O debate não tem fim, e há argumentos fortíssimos para ambos os lados. Muita gente reclama das operadoras de telefonia, mas antes delas a vida era muito pior - linhas telefônicas eram consideradas artigos de luxo, e valiam mais do que alguns imóveis. Por outro lado, o Brasil deve ser um dos poucos países do mundo onde os transportes públicos podem ser explorados por companhias particulares, e o resultado está aí: nossos ônibus são caros e ineficientes. A coisa se complica ainda mais quando se trata das riquezas do subsolo. Nosso primeiro instinto é achar que o está debaixo da terra pertence à toda a nação. Mas é inegável que a Vale deu um salto de produtividade depois que foi privatizada. Fora que ficou fora do alcance dos interesses políticos, o que está afundando a Petrobrás. Está cada vez mais óbvio que a petrolífera brasileira está sendo usada há mais de uma década para gerar recursos para o PT, sofrendo com o aparelhamento e perdendo boa parte do investimento de seus acionistas. Lula foi reeleito em 2006 em parte porque espalhou que os tucanos queriam privatizar a Petrobrás. Não era verdade, mas começo a achar que não seria má ideia.

MEU PROBLEMA COM A ROMÊNIA

Não sou de confiança. Já declarei em alto e bom som que o cienma da Romênia não me pegava mais. Mas basta um filme daquele país ganhar uma porrada de prêmios para eu romper meu voto - e depois me arrepender, claro. "Instinto Maternal" venceu o festival de Berlim do ano passado, foi o indicado de seu país ao Oscar de filme estrangeiro e vem ganhando elogios por onde quer que passe. O argumento até que é original: uma senhora da alta sociedade faz de tudo para livrar a cara do filho playboy, que atropelou e matou um garoto quando dirigia em altíssima velocidade. Mas a câmera tremida, os planos longuíssimos e a ausência total de trilha sonora me afastam da história. Sim, o problema está em mim, mas fazer o quê? Ninguém pode dizer que eu não esteja tentando superá-lo.

domingo, 13 de abril de 2014

AMAZING GRACE

Boa parte da humanidade (eu inclusive) nunca tinha ouvido falar de Grace Coddington até ver o documentário "The September Issue". O filme foi encomendado por Anna Wintour para mostrar que ela não é tão mostruosa como sugere "O Diabo Veste Prada", mas quem acabou roubando a cena foi Grace, seu braço direito na "Vogue". Uma editora de moda em atividade há mais de 40 anos, que já viu de tudo, trabalhou com todo mundo e ainda quer mais. Grace é tão cheia de graça que se tornou uma mini-celebridade, a ponto de haver demanda para um livro com suas memórias. Comprei há mais de um ano e estou terminando agora: é na verdade uma visão por dentro do mundo fashion desde o final da década de 60, contada de maneira despretensiosa (a autora admite que não leu mais que dois livros na vida) e fartamente ilustrada por desenhos dela mesma. Longe de ser uma leitura eletrizante, "Grace: a Memoir" funciona como um longo e divertido bate-papo, com algumas fofocas deliciosas e momentos de reflexão profunda. O que emerge no final é uma mulher vivida e resolvida, ainda fascinante aos 73 anos. Moral da história: ninguém envelhece se continua interessado no mundo ao seu redor.

sábado, 12 de abril de 2014

BRRR


Há até bem pouco tempo, eu assistia a todos os desenhos animados importantes de longa metragem. Não vejo mais porque meus sobrinhos cresceram, e sem uma criança junto não tenho muitas razões para enfrentar "Carros 2" ou "Meu Malvado Favorito". Foi por isto que perdi "Frozen" nos cinemas. Aí o filme se tornou a animação de maior bilheteria de todos os tempos (em valores absolutos - se levarmos em conta a inflação, "Branca de Neve" ainda ganha) e ganhou vários Oscars, inclusive o de melhor canção. "Let It Go" tornou-se um sucesso tão grande que a Disney se animou a lançar o clipe acima, uma compilação de 25 versões internacionais diferentes do baladão de "Adele Dazim" (pena que o Brasil não esteja representado...). Hoje finalmente nos atualizamos graças a um esplendoroso Blu-Ray. "Frozen"é, antes de mais nada, um triunfo do marketing. O título original do conto de Andersen, "A Rainha das Neves", foi alterado para não espantar os meninos (a mesma estratégia que transformou "Rapunzel" em "Enrolados"), e os adoráveis trolls parecem milimetricamente calibrados para vender muitos bonequinhos nos parques da Disney. Mas duas irmãs como protagonistas, sem nenhum vilão no começo, não deixa de ser uma inovação - e pena que um malvado convencional precise aparecer antes do desfecho. A trilha em estilo Broadway empolga menos do que deveria, mas a experiência sensorial é plenamente realizada peloo visual alucinante. Apesar do dinheirão que fez, "Frozen" não é um clássico instantâneo, nem chega aos pés dos primeiros filmes da Pixar. Mas mostra que a Disney ainda tem a fórmula mágica para misturar comérico e arte nas proporções adequadas.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

CEGOS DE AMOR

Fui bobo o suficiente para perguntar a um gay cego como foi que ele havia descoberto que gostava de homem. Se o cara fosse hétero, uma pergunta tão estúpida não teria me ocorrido. A visão é o mais tirânico dos sentidos, e às vezes tratamos quem não a tem como se fossem deficientes mentais. É o que fazem os pais de Leonardo, o protagonista cego de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”. Mesmo assim não conseguem protegê-lo do bullying na escola – e nem evitar que ele se apaixone por Gabriel, um novo colega de classe. O longa de estreia de Daniel Ribeiro é uma extensão de seu premiadíssimo curta “Não Quero Voltar Sozinho”, com o mesmo elenco e argumento. Por vezes parece que a história foi esticada mais do que deveria; isto não evita a sensação de que o final é prematuro, já que novos conflitos surgiriam depois dele. Ficaram para a continuação? Nada contra: passo feliz mais duas horas na companhia desses garotos, todos excelentes – especialmente Ghilherme Lobo, que não é cego na vida real. “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” resvala um pouco no excesso de fofura, mas o primeiro amor é sempre fofo.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

MI ANHELO NO ESTÁ

Depois de quatro anos sem lançar um disco completo de inéditas, o uruguaio Jorge Drexler reaparece com o trabalho mais animado de sua carreira. "Bailar en la Cueva" foi gravado em Bogotá e traz uma mistura de ritmos inesperada. Também traz convidados como Caetano Veloso (cantando num espanhol tão perfeito que eu quase não o reconheci) ou a rapper chilena Ana Tijoux, que dá pinta em "Universos Paralelos". Quase não há os momentos introspectivos que fizeram a fama do menestrel cisplatino, e isto é ótimo. Drexler nunca foi chato, mas corria o risco de se repetir. Saiu da zona de conforto, e o resultado é seu melhor CD em uma década. Que dá mesmo anhelo (ânsia) de dançar, apesar dele ser o pior dançarino do mundo.

MA MÈRE EST UNE PIÈCE

É incrível a semelhança entre "Minha Mãe É uma Peça" e o filme francês "Eu, Mamãe e os Meninos". Os dois projetos nasceram de monólogos teatrais, onde o autor e ator interpreta a própria mãe em chave cômica. Ambos foram adaptados com sucesso para o cinema: o filme de Paulo Gustavo foi a maior bilheteria nacional do ano passado, e o de Guillaume Gallienne ganhou uma pá de prêmios na última edição dos Césars (inclusive melhor filme e ator). É uma das maiores atrações do Festival Varilux, que começou esta semana em várias cidades brasileiras, e deve entrar logo em cartaz. O título original é quase cruel: "Meninos, Guillaume, está na mesa", como se o protagonista não fosse um dos meninos. A edição rápida e a atuação engraçadíssima de Gallienne compensam a leve barriga que se acumula mais para o final. Que, aliás, é surpreendente. À primeira vista parece caretérrimo, mas o fato é que é profundamente liberador. E é todinho verdadeiro: o que se vê na tela aconteceu mesmo na vida real de Gallienne. Não sei se o filme entra para a minha lista de melhores do ano, mas gostei bastante.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

MUITO PELO CONTRÁRIO

Olha aí outro equívoco mercadológico: a marca Veet, de produtos para depilação, retirou do ar o comercial acima. Foi acusada de machista e de querer impor um padrão de beleza rígido para a mulherada. Ué, mas então ela deveria dizer que uma mulher não precisa se depilar para ficar bonita - ou melhor, desejada pelos homens? Pessoalmente, eu achei o anúncio engraçado, apesar de meio grosseiro. Será que é um humor muito masculino? Comenta aí.

A TERRA DOS FANÁTICOS

"Geocentrismo" soa como um termo de agronomia, mas é um conceito que está enterrado desde Copérnico e Galileu. É mais do que inacreditável - é inadmissível - que tantos séculos depois alguém venha defender que é o sol que gira em torno da Terra, e não o contrário. Este despautério é o tema do documentário "The Principle", que já está eriçando pelos só por causa do trailer acima. Cientistas renomados que aparecem no filme dizem que jamais deram entrevistas para o diretor, que estaria usando imagens de outras fontes. E a atriz Kate Mulgrew (a Red da série "Orange is the New Black") alega que gravou a narração em off sem saber direito do que se tratava. "The Principle" é só mais um ato desesperado dos fundamentalistas nos Estados Unidos, onde estão levando uma surra na chamada "guerra cultural". Outro exemplo é a grita em torno da rede de televisão PBS, que vem exibindo séries como "Cosmos" ou filmes como "Your Inner Fish" (que foca num peixe pré-histórico que tinha dedos, nosso antepassado comum). Os fanáticos alegam que uma TV pública tem a obrigação de dar espaço aos "dois lados" da questão. Só que criacionismo não é ciência, simples assim. Essa discussão mal chegou ao Brasil, mas é bom a gente ficar atento. Vigia, irmão!

terça-feira, 8 de abril de 2014

SUAVE É O INVERNO

Alguém aí não adorou o 1o. episódio da 4a. temporada de "Game of Thrones"? A série da HBO voltou quebrando recordes e resistências. Para comemorar, nada como uma versão "smooth jazz" do tema de abertura. Sim, você leu direito.

MAL SÚBITO

Dilma está com gripe. Dilma está afônica. Dilma está com diverticulite. De uns dias para cá, aumentaram na imprensa os boletins sobre a saúde da presidenta. Sei não, mas me parece que estão preparando o terreno para sua eventual saída de cena. Dilma precisaria se tratar de alguma doença gravíssima (quem sabe até de seu câncer já curado, que voltaria de uma hora para a outra), abandonando a candidatura à reeleição e deixando o caminho livre para a volta de Lula. Sempre achei que este era o roteiro a ser cumprido. Só não o seria se Dilma estivesse favoritíssima para vencer no primeiro turno. Como já não está mais...

segunda-feira, 7 de abril de 2014

SERGIO K.FONA

A linha de camisetas para a Copa lançada pela marca Sergio K. já seria de uma escrotidão sem tamanho se não fosse homofóbica. Frases pseudo-malandras como "Zidane is Over" ou "Messi Cabrón" ilustram perfeitamente aquela típica cafajestagem brasileira que acha engraçado tratar mal os turistas. Para quê irritar quem viajou até aqui para gastar dinheiro com nossos hotéis e restaurantes? Para que não voltem nunca mais?

Mas a burrice vai além. Também fazem parte da coleção os modelitos que enfeiam este post e incitam o preconceito. No Brasil de 2014 não pode mais ser ofensa chamar alguém de gay. Sem dizer que a Sergio K. repele boa parte de seu público em potencial - ou vai dizer que eles não estão interessados no dim-dim dos homossexuais? Deixe seu protesto na fanpage da marca (já apagaram o meu, mas vamos insistir). E nunca mais compre nada desses cafonas.

CONTAGIANTE

Por causa dos direitistas que escrevem na Veja, a editora Abril ganhou fama de ser o bastião do reacionarismo no Brasil. Não é bem assim: vários outros produtos do grupo adotam uma linha mais progressista (é o caso do portal Brasil Post), e é a campanha #AtitudeAbril quem está por trás de "Viral", a minissérie sobre AIDS do Porta dos Fundos. O primeiro dos quatro capítulos foi lançado no sábado passado, e mantém todas as características do grupo: diálogos rápidos que beiram o nonsense, palavrões a granel e muitas piadas boas. Sim, piadas. Dá para rir, não do vírus HIV, mas de todo o preconceito e desinformação que ainda o cerca. "Viral" é ótimo, e precisa ser transmitido para todos os nossos parceiros.

domingo, 6 de abril de 2014

LOLLA E SEUS IRMÃOS

Cheguei a me gabar no Facebook de que não preciso mais me submeter ao Lollapalooza, porque já passei da idade. Tive mais de 100 curtidas, mas a verdade é que me submeti um pouco. Encarei uma das Lolla Parties. Fui ao Gran Metrópole assistir à atração que mais me interessava de todo o festival, a dupla inglesa Disclosure. Os irmãos Guy e Howard Lawrence parecem mais do que gêmeos (apesar de terem mais de dois anos de diferença): parecem vindos diretamente de um filme de terror, daquele tipo onde é encontrado um álbum antigo com fotos de crianças mortas. Mas o som deles não tem nada de tétrico, muito pelo contrário. A apresentação dos garotos não é um show, é um DJ set sem um pingo de produção. Não importa. Dancei como não fazia há tempos.

SHE'S GOT IT, YEAH BABY, SHE'S GOT IT

Percebi um padrão. De três em três anos, no mês de abril, eu assisto no teatro a um texto formidável, desses que vão entrar para a história. Em 2008 foi "O Deus da Carnificina", que eu tive a manha de ver em Londres e Paris na mesma semana. Em 2011 foi "Cock", numa montagem com Diego Luna na Cidade do México. E este ano foi "Vênus em Visom", uma comédia americana que está fazendo sucesso no mundo inteiro (e que até já ganhou versão para o cinema dirigida por Roman Polanski). Aqui no Brasil ela está em cartaz em São Paulo, depois de uma temporada carioca, estrelada por Bárbara Paz e André Garolli (que substitui Pierre Baitelli) e com direção de Hector Babenco. O ponto de partida é simples: uma atriz amalucada e aparentemente simplória aparece sem ser chamada para fazer um teste para o papel principal de "Vênus em Visom", uma adaptação teatral para o livro de Sacher-Masoch. Depois de muita resistência do diretor, ela se revela mais esperta e preparada do que parecia, e o que era só uma audição se transforma na peça propriamente dita. Então os papéis se invertem... Bárbara está fantástica, engraçadíssima (vai surpreender quem acha que ela só faz choronas como a Edith de " Amor à Vida") e em plena ebulição como atriz. Como diz a canção "Venus" (a do Shocking Blue, não a da Lady Gaga), she's got it. Fazia tempo que eu não me embevecia tanto no teatro.

MELHOR QUE A BIENAL

Está decidido: gosto mais de feiras de arte do que de qualquer bienal. Dá para ver mais coisas legais e não tem curadorias pretensiosas tipo "o homem urbano e o tempo paralelo". Claro que também tem muita porcaria, mas qual a bienal que não tem? A primeira vez que me joguei nesse formato de exposição foi na Art Basel de Miami, há pouco mais de um ano. Depois dei um rasante na SP-Arte de 2013, e ontem passamos a tarde na edição de 2014. Há stands de galerias do mundo inteiro, com obras de artistas que nunca haviam vindo ao Brasil. Também tem muita coisa antiga fabulosa, do naipe de Picasso, Miró e Portinari. Fora que tudo está à venda, o que me fez lamentar mais uma vez o fato de eu não ser bilionário. O ingresso é caro (40 reais), mas vale a pena. Corre que fecha hoje.

sábado, 5 de abril de 2014

UM CARA FELOMENAL

Tenho conhecido muitas estrelas da TV nos bastidores do "Vídeo Show". Mas adivinha justo quem eu deixei escapar? Sim, José Wilker. Eu até estava no estúdio no dia em que foi gravado o programa com ele (exibido quarta passada, dia 2), mas fiquei no switcher o tempo todo. E assim perdi a chance de roçar num dos maiores atores brasileiros de todos os tempos, que pelo menos vai continuar brilhando para sempre nas telas. Wilker era adorado pelas colegas. Além do enorme talento, era culto, bem-humorado e fácil de se trabalhar junto. Ainda está todo mundo tentando digerir o impacto da notícia. E não perca o "Vídeo Show" da próxima segunda: provavelmente iremos reprisar os melhores trechos daquela que talvez tenha sido a última entrevista de Wilker para a TV.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O ALIADO MAIS PODEROSO

Sempre achei que o movimento LGBT só teria chances reais de sucesso se conseguisse o aliado mais poderoso de todos: o dinheiro. Os homofóbicos não mudariam de opinião porque viram a luz e ficaram bonzinhos, mas porque a hmofobia começa a lhes doer no bolso. É exatamente o que está acontecendo nos Estados Unidos, onde cada vez mais empresas estão apoiando abertamente a diversidade e a igualdade de direitos. E não cedendo às pressões dos conservadores, muito pelo contrário. O caso do cereal Honey Maid é exemplar. No mês passado a empresa lançou este comercial aí de cima, mostrando um casal gay como a coisa normal que de fato é. Recebeu protestos de ONGs reacionárias e, ao invés de tergiversar, respondeu com o vídeo aí embaixo.

Ah, e por falar nisso, quem tentou escapar pela tangente foi a Mozilla, que produz o browser Firefox. A indicação de Brendan Eich para CEO da companhia gerou uma saraivada de protestos: o sujeito não só fez doações para a campanha contra o casamento gay na Califórnia como também já apoiou candidatos anti-LGBT. Num primeiro momento a Mozilla quis defender a "liberdade de expressão" de todos os seus funcionários, mas não adiantou. Eich trabalhou ativamente contra os homossexuais, e o público que consome Firefox simplesmente não perdoa isto. O caso vai servir de lição: quero só ver quem vai ter peito de contratar executivos reacionários daqui para a frente.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A INCRÍVEL CARREIRA QUE NÃO ROLOU

George Michael tem absolutamente tudo para ser um dos maiores nomes da música pop de todos os tempos. Ótima voz, fantástica presença no palco, enorme talento como compositor, sensibilidade aguçada e visual de superstar. Mas alguma coisa não rolou. Ele arrebentou nas vendas e ganhou um Grammy de melhor do ano com "Faith", seu primeiro disco-solo, e emplacou hits que tocam até hoje (como "Freedom 90") com "Listen Without Prejudice". Mas aí brigou com a Sony e passou seis anos sem gravar. Sua carreira nunca mais se recuperou desse hiato. Seus trabalhos se tornaram raros, e, para piorar, a biba se meteu em alguns escândalos envolvendo drogas e/ou sexo em lugares públicos. Seu último CD saiu há uma década; de lá para cá, um ou outro single e olhe lá. Depois de encarar uma doença quase fatal há dois anos, Georgios (seu nome de batismo, de origem cipriota) reaparece com "Symphonica", um álbum gravado ao vivo com a participação de uma orquestra. Ele nunca cantou tão bem e os arranjos são belíssimos, mas um pouco mais de novidade só faria bem. Não há uma única canção inédita, além de covers que ele nunca havia cantado antes. Um deles é o standard "Wild is the Wind", que sofre na comparação com a versão de David Bowie. George Michael promete um disco novo em folha até o final de 2014. Mas não se anime: o moço não é de confiança.

MAIS LIMPO QUE VENDER A ALMA

Mais uma para a série "Quando a Gente Acha que Já Viu Tudo": esta é Claudette, uma prostituta hermafrodita suíça de 77 anos. Claudette é casada há 52 anos com uma mulher, tem filhos e netos, e até hoje roda bolsinha nas ruas. Mostoru-se uma personagem irresistível para a fotógrafa francesa Malika Gaudin-Delrieu, que produziu com ela uma série de fotos chamada "La Vie en Rose". Claudette se recusa a posar de vítima, muito pelo contrário: diz que controla a própria vida e que foi abençoada por nascer com dois sexos ao mesmo tempo. Foi registrada como menino, mas sempre se sentiu mais mulher - só que nunca pensou em entrar na faca. E diz que prefere vender a bunda porque "é mais limpo que vender a alma". Como cabe coisa nesse mundo de meu Deus.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

FLORA INTESTINAL

É realmente espantosa a nova campanha de Activia estrelada por Shakira. Parece dessas ideias que a gente tem de piada durante um braisntorm e nem sonha em levar para o cliente. Mas um projeto deste tamanho deve ter sido pré-testado no mundo inteiro, e é a prova definitiva de que as pesquisas são mesmo furadas. Quem é que pode ter achado legal entrar no intestino de Shakira, onde diversas Shakirinhas rebolam à espera de serem expelidas? Como estão dizendo nas redes sociais, talvez a moça finalmente esteja em seu devido lugar.

O LADO FLAMEJANTE DA LUA

Um dos grandes mistérios da cultura pop: por quê, ó raios, que "The Dark Side of the Moon", do Pink Floyd, "sinca" perfeitamente como "O Mágico de Oz"? O disco parece ter sido concebido como uma trilha sonora alternativa ao filme, mas Roger Waters e sua turma jamais admitiram isto. Agora esta cebola ganha mais uma camada: a banda americana The Flaming Lips lançou ontem "The Flaming Side of the Moon", que é para ser ouvido JUNTO com o "Dark Side" - e a experiência fica ainda mais psicodélica se ambos forem tocados ao mesmo tempo que o clássico de Judy Garland. Esta maconha sonora pode ser apreciada aqui em estado puro, e quem tiver preguiça ou inaptidão para sincronizar as três obras pode degustá-las juntas aí embaixo. Ó internet, a cada dia que passa eu te amo mais. Te amo mais.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A PRIMEIRA FAZ TCHAN

O blog da Casa Branca anunciou hoje a instalação do Conselho Presidencial de Barbas. Entre os membros desta nova comissão estão uma mulher barbada e até mesmo o cachorro da família Obama. O site não esclarece, mas se trata de uma pegadinha de 1o. de abril. A presidente Dilma Rousseff também aderiu à brincadeira e declarou que o Brasil gastou mais de um bilhão de dólares numa refiNÃO PERA

AMIZADES ROUBADAS

A ideia central de "Entre Nós" é tão boa que até já foi usada num filme de Woody Allen: um escritor ruinzinho rouba para si o romance excepcional de um amigo fora de combate (em "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos", o cara está em coma; aqui, mór-reu).É uma coincidência, não um plágio, mas é pena que o roteiro não consiga desenvolvê-la a contento. Os personagens do filme de Paulo Morelli são mal desenhados - e, entre os homens, até difíceis de distinguir uns dos outros, pois todos usam barba rala. Toda a ação se passa numa casa em São Francisco Xavier, nos anos de 1992 e 2002. Existe a ambição de discutir o amadurecimento, as frustrações e o que fazer com o resto de nossas vidas, e o elenco com jovens estrelas globais dá conta lindamente do recado. Mas os diálogos empolados não deixam que a coisa flua naturalmente, e o final meio assim faz com que o espectador saia do mesmo jeito do cinema. Queria ter gostado mais.