quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

MAU ESTADO ISLÂMICO


Dois anos atrás, uma milícia ligada à al-Qaeda tomou a região norte do Mali e tentou instalar por lá um estado independente chamado Azawad. A brincadeira durou pouco: uma intervenção francesa derrotou facilmente os jihadistas, mantendo a integridade territorial daquele desolado país africano. Mas, durante os meses em que dominaram a região, a Ansar el-Dine impôs um regime de terror, proibindo a música, o futebol e qualquer coisa que parecesse infringir sua interpretação alucinada do Islã. Foi esse período de exceção que inspirou “Timbuktu”, uma das surpresas da atual temporada do Oscar. O primeiro filme inscrito pela obscura Mauritânia conseguiu ficar entre os nove pré-selecionados na corrida pelo troféu de longa em língua estrangeira. Por razões estéticas (é de fato muito bom), mas principalmente políticas. Porque, apesar da história se passar no norte da África (o nome da cidade de Timbuktu jamais é mencionado, nem aparecem na tela seus prédios históricos), é mais do que óbvio o paralelo com o que o ISIS anda aprontando no Oriente Médio. O diretor Abderrhamane Sissako mostra os islamistas não como monstros, mas como pessoas comuns que de repente se veem donas de um enorme poder – e, portanto, capazes das maiores crueldades para conseguir seus objetivos mesquinhos. Há cenas cômicas, como a da peixeira que se recusa a usar luvas e oferece as mãos para serem cortadas. Ou de um intenso lirismo, como a pelada jogada sem bola, mas com gol e tudo. Entretanto, também há um apedrejamento e muita violência arbitrária. Por isto “Timbuktu” não é exatamente um filme gostoso de se ver, e o tom meio plácido me faz duvidar que esteja entre os cinco indicados ao prêmio da Academia. Mas é obrigatório para quem se interessa pelo que está acontecendo no mundo agora.

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