segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A DIVA APAVORADA

Isabelle Adjani foi minha "ídala" máxima durante mais de dez anos. Dona de uma beleza hipnotizante, ela fazia um filme atrás do outro, nos mais variados gêneros. Mas suas favoritas eram as heroínas trágicas, como Camille Claudel ou a rainha Margot, que lhe davam a oportunidade de expor seu imenso talento. Indicada ao Oscar duas vezes (a primeira aos 20 anos de idade), Adjani também logo amealhou fama de temperamental. Seus filmes se tornaram mais raros. Poucos diretores importantes se animavam a trabalhar com ela, que preferia ficar em casa cuidando dos filhos ou namorando Daniel Day-Lewis. Hoje em dia ela reaparece só de vez em quando, como na peça "Kinship".

O espetáculo entraria em cartaz em Paris na semana do meu aniversário. Não acreditei na minha sorte e comprei ingressos em agosto. Poucos dias antes de embarcar, em outubro, recebi um telefonema do teatro: o dinheiro será devolvido. Fiquei arrasado. Depois li que foi ela quem atrasou a estreia, depois de um período turbulento de ensaios onde o diretor foi subsstituído pelo figurinista (você leu certo) e a estrela coadjuvante Carmen Maura se irritou e foi embora. Pas facile.

"Kinship" finalmente entrou em cartaz e logo teve sua temporada estendida. Não acreditei na minha sorte novamente: consegui comprar ingressos para esta semana em que estou de volta a Paris, ainda melhores que os primeiros. E lá fui eu com trepidação para o teatro, anisoso para ver a estrela em carne e osso. Mas a decepção foi rude. Adjani continua lindíssima, quase aos 59 anos de idade. Suas bochechas estão artificalmente infladas, mas ela passa tranquilamente por uma mulher deslumbrante de 40. Acontece que todo o espetáculo para girar em torno disto. O texto é uma variação moderna sobre "Fedra": uma senhora que se apaixona por um rapazinho. Aqui a coisa piora porque a mãe do rapaz é a melhor amiga da senhora. Num palco despojado, os atores se enfrentam diante de projeções de céus nublados e luas cheias: são 22 cenas curtas que exijem relativamente pouco deles. Vittoria Scognamiglio, que entrou no lugar de Carmen Maura e é parecida com ela, está muito bem, e o galã Niels Schneider (que já filmou com Xavier Dolan) é mesmo um pitéu. Mas claro que minha atenção era para Isabelle. E o que eu senti foi que ela jamais se arrisca, jamais sai para fora de sua zona de conforto, jamais se atreve a parecer menos do que belíssima. Suas roupas são todas largas, para disfarçar a silhueta que já não é de sílfide. E em nenhum momento ela perde as estribeiras. Parecia um Boeing 747 taxiando numa pista de pouso do inteiror, sem espaço para mostrar do que é capaz. De vez em quando surgiam lampejos de brilhantismo, mas logo eram contidos pelos diálogos banais. Toda a mensagem da peça não passa de "vejam, eu continuo maravilhosa". Talvez por isto que o teatro não estivesse lotado. Uma diva como Adjani precisa mais do que uma egotrip sem culhões para continuar divando.

6 comentários:

  1. que pena! nunca me esquecerei da beleza deiabólica e da performance extraordinária em "possessão"

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  2. Descobri Isabelle Adjani quando assisti, aos 11 anos de idade, A Rainha Margot. O filme nem era indicado para uma criança, mas a beleza dela na capa do DVD me hipnotizou de tal forma que convenci meu pai a alugar. Já na época ela tinha quase 40 anos, mas parecia ter 20. Pra mim uma das atrizes mais lindas que já existiu. Que pena que ela não fez mais filmes tão extraordinários como esse, seus últimos trabalhos no cinema são decepcionantes, e que a peça também não seja o que se espera dela.

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  3. Lembrando que Adjani foi indicada duas vezes ao Oscar interpretando em francês!

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  4. Anastasia Beaverhousen22 de dezembro de 2014 14:33

    Tony, vc viu no mesmo palco Isabelle Adjani e Carmem Maura!
    Nunca tive tanta inveja de você!

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    1. Carmen Maura não: ela saiu antes da estreia da peça e foi substituída pela italiana Vittoria Scognamiglio.

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  5. TODOS OS FRANCESES QUE CONHECI A DETESTAM...

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