sexta-feira, 21 de novembro de 2014

DOIS DILEMAS


A beleza eternamente tensa de Juliette Binoche cai como uma luva para sua personagem em "Mil Vezes Boa Noite". Rebecca é uma fotógrafa especializada em cobrir conflitos armados, e enfrenta dois grandes dilemas na vida. O primeiro é moral, e explicitado logo na excelente sequência que abre o filme. Ela acompanha uma mulher-bomba no Afeganistão até o momento da explosão, e só grita para avisar os transeuntes inocentes no penúltimo segundo. Por que não denunciou logo a terrorista? Uma reportagem vale mais do que muitas vidas? Essa contradição é exarcebada ainda mais na cena que encerra o filme, outra porrada. Mas, entre uma ponta e outra, "Mil Vezes Boa Noite" se arrasta um pouco explorando o outro dilema que consome a vida de Rebecca: a incompatibilidade entre sua vida profissional, que a mantém constantemente viajando pelo mundo em regiões de altíssimo perigo, e sua vida familiar, onde sua ausência frequente é sentida pelas filhas e pelo marido (o translumbrante Nikolaj Coster-Waldau, o jaime de "Game of Thrones"). Isto seria perdoado num homem, de quem se espera que saia de casa para ganhar a vida e fazer o mundo. Mas de uma mãe-esposa-dona-de-casa? Impossível, mas essa discrepância não é discutida no roteiro. Não chega a ser um puta filme, mas pelo menos faz pensar.

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