sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O ÚLTIMO FAVELA MOVIE


"Cidade de Deus" foi um sucesso estrondoso no mundo inteiro e influenciou o cinema brasileiro por mais de uma década. Foram tantos os filmes que seguiram o caminho aberto pelo de Fernando Meirelles que se cunhou até um termo para defini-los: favela movie. A onda arrefeceu quando o público, cansado de ver tanta miséria e violência na telona, migrou para as comédias de costumes. Esgotado no Brasil, o gênero tem talvez seu último suspiro com "Trash", uma co-produção internacional dirigida pelo britânico Stephen Daldry. A história não tem nada de intrinsicamente brasileira, tanto que cogitaram rodá-la na Índia. Mas aí talvez ficasse parecido demais com "Quem Quer Ficar Milionário?", que levou uma penca de Oscars em 2009. Do jeito que está, "Trash" parece uma versão pré-adolescente de "Cidade de Deus", misturando crítica social com um plot de caça ao tesouro digno das aventuras de Tintim. Três crianças que vivem num lixão descobrem uma carteira jogada fora com números misteriosos; aos poucos juntam as peças do quebra-cabeças e chegam a uma grande fortuna, roubada por um funcionário de um político também ladrão. Os atores mirins são excepcionais como esperávamos que fossem, mas o filme patina quando eles têm que falar inglês com os personagens de Rooney Mara e Martin Sheen. Estes, por sua vez, falam um português decorado, que não soa nada como falariam estrangeiros que morassem aqui há algum tempo. Mas a maior falha do roteiro é uma aparição fantasmagórica perto do final, que se torna ainda menos plausível quando entendemos que não se trata de um fantasma. Ainda assim, "Trash" é muito bem feito e interessante. Mas dificilmente será indicado aos Oscars de melhor filme e/ou melhor diretor, como todos os quatro filmes anteriores de Stephen Daldry.

3 comentários:

  1. Todas as críticas que eu li do filme dizem que ele faz jus ao título.

    ResponderExcluir
  2. Trash é ótima diversão e muito bem feito, mas parece escrito pela Glória Perez. Se não "voar" não vai apreciar o filme. A sucessão de implausibilidades é tão grande que às vezes chega a incomodar, e vai desde os garotos favelados com poderes de dedução de fazer inveja a James Bond até o garoto que mora nos subterrâneos e joga videogame em uma tela de TV dentro do esgoto sob a cidade, passando pela cena do cemitério em que a garotinha... deixa para lá que aí já seria spoiler.

    ResponderExcluir
  3. Eu me diverti com Trash. Mas, quando se pensa nos três primeiros filmes do Daldry, absolutamente primorosos, sendo Billy Elliot táo original e simples, parece que o casamento hetero fez ele lamentavelmente perder o domínio da coisa.

    ResponderExcluir