domingo, 19 de outubro de 2014

ELECTRIZANTE

Eu nunca tinha visto uma peça do teatro grego clássico. Claro que conheço as histórias de Édipo, Medéia e sua turma, mas assistir a uma montagem? No Brasil elas são raríssimas. Talvez porque a gente imagine o teatro grego como aquela chatice sem tamanho onde atores de máscara falam sozinhos ou com os deuses, e um coro também mascarado faz comentários sem enxo até que todo mundo morre no final. Mas, como qualquer clássico, um texto de Sófocles pode ser adaptado – até “modernizado” – sem perder a sua essência. É o que acontece com a versão de “Electra” que eu tive o privilégio de ver no lendário teatro Old Vic, um dos mais tradicionais de Londres. E, no papel-título, ninguém menos que uma das minhas atrizes favoritas EVAH, a divina Kristin Scott-Thomas. Que não decepciona. Com cinquenta anos e uns trocados, ela consegue se transformar numa adolescente raivosa (Electra tem uns quinze) que quer matar a própria mãe, porque esta matou o pai, porque este matou a outra filha. Sim, a Grécia antiga era barra pesadíssima, e tragédias em série como estas podem nos parecer distantes no tempo. Mas a condição psicanalítica de Electra é tão comum que se transformou, graças a Jung, na contrapartida feminina do complexo de Édipo. Voltando à peça: com um cenário simples porém impactante, figurinos despojados e música de P. J. Harvey, essa “Electra” é uma pedrada. O elenco inteiro está perfeito, mas Kristin – que se descabela, se espoja no chão, grita feito uma desesperada e ainda faz a plateia rir – entrou para o panteão das deusas que eu já vi no palco, como Vanessa Redgrave, Maggie Smith e Isabelle Huppert. Obrigado, papai do céu, por reconhecer que eu tenho sido um bom menino.

4 comentários:

  1. Muito bom! A coisa continua barra pesada, tenho um amigo que diz que mãe e filha devem ficar em jaulas separadas.

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  2. Se vc soubesse da minha mãe...

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  3. KST, no cinema, já um presente dos deuses. No Old Vic, sai de baixo.
    E você ainda brada ser ateu.

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  4. No gancho dos seus últimos posts, a ópera Elektra de R.Strauss é uma demonstração extraordinária do que há de melhor no teatro, na literatura, na música! Quando te aparecer uma oportunidade de assistir ao vivo, não perca! Não é tão comum de ser encenada no Brasil, porque assim como no Teatro, a ópera exige protagonistas com recursos artísticos quase sobre-humanos! Mas, pra quem está na plateia, é um show!

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