quarta-feira, 23 de julho de 2014

DOWN DOWN DOWN NO HIGH SOCIETY

Na primeira versão de "O Rebu", Tereza Rachel interpretava Lupe Garcez, uma personagem descaradamente inspirada numa pessoa real: Beki Klabin, a primeira socialite a desfilar numa escola de samba. Lupe foi transformada em Vic na versão atual da novela e agora é feita por Vera Holtz. Mas qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas será mera coincidência. Meu ponto: foi-se o tempo em que havia socialites famosas o suficiente para serem retratadas na TV. Porque não existe mais a alta sociedade, pelo menos como existiu até os anos 80. Claro que ainda tem gente rica que dá festas. Mas, como num remake, mudaram roteiro e elenco.

O que eu chamo de "alta sociedade" era um grupo de pessoas que tinha mais do que dinheiro: tinha "berço". Achavam-se "bem-nascidas" (até este termo sumiu de circulação). Iam aos mesmos colégios, namoravam entre si, casavam-se e reproduziam-se em cativeiro. Quase sempre de distante origem portuguesa ("quatrocentões", como se dizia em São Paulo), com um sobrenome francês ou inglês aqui e ali. Apesar deste encastelamento, foram mudando de perfil ao longo do século 20 à medida que algumas famílias de imigrantes iam enriquecendo: primeiro os italianos, depois os árabes e os judeus. Curiosamente, os japoneses nunca foram admitidos no clube - não sei se porque a própria comunidade se isolou até a terceira geração, não sei se por racismo dos demais. Os negros, então, nem passaram perto, por causa do apartheid social que perdura até hoje no Brasil.

O "high society" era um produto cultural influente. Um Olimpo jamais criticado e por todos almejado.  Sambas populares falavam em Teresa (Sousa Campos) e Dolores (Guinle). As colunas sociais eram lidas por todas as classes. Nos anos 40 surgiu a revista "Sombra", antepassada do que hoje é a "Caras" - mas com um design gráfico tão avançado que sua descendente mais parece um catálogo de supemercado. Em SP havia o caretérrimo Tavares de Miranda, que escrevia coisas como "a noite transcorreu sobre carretéis". No Rio, firmaram-se o elegante Zózimo Barroso do Amaral - tão influente que ganhou até estátua no Leblon - e o folclórico Ibrahim Sued, que, mesmo cometendo erros atrozes de português, conseguia emplacar expressões como "geração pão com cocada".

A única jornalista que ainda segue este estilo antigo é Hildegard Angel, que saiu do que sobrou online do "Jornal do Brasil" e hoje tem seu próprio site. Nos grandes jornais do Rio e São Paulo, o que era o colunismo social hoje fala mais em política e economia, ou simplesmente desapareceu. As razões são inúmeras. Antes de mais nada, o dinheiro mudou de mãos. Muitos dos ricaços de antanho hoje são "nouveaux pauvres", enquanto que cantores sertanejos, jogadores de futebol e empresários de áreas inusitadas são os novos grã-finos (outra palavra que saiu de moda). A indústria das celebridades explodiu, e hoje qualquer um se acha no direito à fama instantânea.

Mas também mudou a cultura. Hoje somos um país mais democrático, e pega mal ostentar privilégios. Ainda assim, o colunismo social persiste nas capitais das províncias e pelo interior adentro, onde figuras como Lucas Celebridade cobrem a mais finíssima maionese ainda servida nos convescotes locais. Causam impacto regional, mas viram motivo de chacota nos grandes centros. Enquanto isto, proliferam as blogueiras de moda, os eventos corporativos e os shoppings de griffes. Estes são alguns vetores da elite atual. Porque o que era a alta sociedade, com suas senhas secretas ("cântri", não "cáuntri"), evaporou feito o gás de uma champagne esquecida aberta. Tim-tim.

38 comentários:

  1. Por que um texto tão bom está aqui no seu blog ao invés de estar no F5?

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    1. Porque eu escrevi este post hoje de manhã (as ideias já vinham ruminando na minha cabeça há alguns dias), e o meu "deadline" no F5 é terça-feira. Mandei ontem à noite a coluna que deve subir daqui a pouco.

      Você acha que este assunto combina com o F5? Não é um sofisticado demais? Ou eu estou sendo esnobe feito os grã-finos de antigamente?

      Vou mudar algumas coisas e talvez mande para lá na semana que vem (a não ser que aconteça algo mais urgente que necessite de comentário). Não posso publicar lá exatamente o que saiu no meu blog, a Folha exige exclsuividade.

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    2. No F5 vão te xingar de tudo, menos de esnobe e sofisticado, pois hj em dia (e ainda mais em internet e facebook) ninguém nem conhece essas palavras.

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  2. Texto delicioso, daqueles que dá peninha quando nos aproximamos do ultimo parágrafo! Parabéns, querido!

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    1. Concordo! Mais textos assim!

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  3. Acho que além da falta de socialites, também a falta de atrizes com donaire, com elegância suficiente para interpretá-las, como a Tereza Rachel e a Beatriz Segall tinham (têm).
    A festa deste Rebu atual não parece festa de grã-finos, selecionada, exclusiva. Além de ter gente saindo pelo ladrão, os atores escolhidos não passam esta impressão de riqueza.

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  4. Que lindo o comentário do anônimo. Relação mais louca essa entre o bloqueiro e o leitor. Há uma certa intimidade ao comentar, mas ele se coloca como anônimo... e ao mesmo tempo uma resposta honesta . Não sei se foi o momento mas eu fiquei minutos olhando esses comentários achando intrigante essa relação . Bjs e também adorei seu texto

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  5. Hum... um 'artigo' saborosíssimo... surge um colunista dos colunistas.

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  6. Tambem tive que parar e comentar. Delicia de texto, muuuuuito bem escrito! Parabens !

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  7. Muito bom o texto, com direito a ilustrações e bem explicativo, a impressão é que foi escrito por alguém que conhece bem o meio e tem até hoje certo fascínio por ele. Acho que essa relação de amor que ocorria entre a população em geral pela vida da socialites perdeu sentido com o aumento de novos ricos que vem ocorrendo há um bom tempo no Brasil, e talvez de um aumento na auto estima das classes menos desfavorecidas que hoje preferem se ver retratadas em novelas e afins.

    Mudando de assunto, viu que será lançado um filme sobre o Alan Turing, interpretado pelo talentoso Benedict Cumberbatch, e com seu queridinho Matthew Goode no elenco.
    http://www.papelpop.com/2014/07/veja-trailer-de-the-imitation-game-filme-que-pode-render-indicacao-ao-oscar-para-benedict-cumberbatch/

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    1. Falando em Alan Turing:
      http://www.theguardian.com/music/2014/jul/20/pet-shop-boys-alan-turing-enigma-proms-tribute-interview

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  8. Na Hípica Paulista, eram vetados sem dó todos os judeus, árabes, orientais e negros. No caso dos judeus, os cristão novos, mesmo não sendo judeus há gerações, também sofriam para passar ileso pela bola preta.
    Engraçado como ainda existem senhores e senhoras no meio hípico saudosos desses tempos. Mas a maioria, como bem disse, hoje são nouveaux pauvres - ou simplesmente não acompanharam a bala na agulha dos emergentes.

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  9. Tony, somando, existem hoje as "Socialites Coxinhas" ou "Socialites de Instagram". Será que uma pessoa muito refinada dividiria a vida pessoal dela no Instagram? Essas socialites são aquelas que ficam uma pendurada e marcada na foto da outra no instagram, em festinhas de gosto muito duvidoso ou mesmo em festas que o povo considera como "Festas de bom gosto" onde os participantes são da classe média brasileira e chamados de "Chiqueria". Vc não acha muito cafona? Adoraria ver esse tópico dentro de um texto que vc faça talvez para o F5. bjs

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    1. Este é um bom ponto. As redes sociais permitem que cada um faça sua coluna social pessoal, e apelam ao exibicionismo de muita gente.

      Mas muita gente do antigo "high society" não era exibicionista. Muitos até se escondiam das colunas - e isto num tempo em que não havia tanta ameaça de sequestro, como hoje há.

      Já ouviu um antigo ditado americano? "Uma moça de família aparece nos jornais três vezes na vida: quando nasce, quando casa e quando morre".

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    2. Mas seguindo esse ditado não haveria colunismo social, justamente no país que o inventou. Acho interessante a crônica social, pq ela joga holofote sobre uma elite(seja esta qual for: social, intelectual...), criando personagens que inspiram a outros.

      Uma vez li uma entrevista do Jorginho Guinle(um dos símbolos desse glamuroso retrato antigo brasileiro) dizendo que a família dele, em algum momento na história, tb não passou de uma família nova-rica na América, e por isso não haveria lógica o preconceito sobre os novos detentores de fortuna e poder.

      As atuais mídias sociais potencializaram essa idéia, tirando o poder de quatro, cinco jornalistas que escreviam para os principais jornais do Brasil. Inclusive vc é um pouco colunista social aqui no seu blog, Tony! rsrs Tive conhecimento de várias figuras gays bem sucedidas em suas respectivas atividades nos nossos dias, aqui pelo seu blog.

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    3. O colunismo social nos EUA é totalmente diferente do daqui. Muito mais discreto, talvez por causa da influência protestante. O "New York Times", por exemplo, só tem uma página com fotos de casais recém-casados. E colunistas como Liz Smith falam basicamente de celebridades de Hollywood.

      E você tem razão, meu blogo no começo era muito mais coluna social do que é hoje. Eu vivia falando de festas, noite gay, badalação. Ainda saio muito (menos que antes, é verdade), mas prefiro falar de outros assuntos.

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  10. O mio babbino caro

    A burguesia fede!
    (Cazuza)

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  11. E por onde anda Carmen Mayrink Veiga, simbolo-mor dessa galera? E os emergentes da Barra da Tijuca? A única q ainda dá o que falar é a Narcisa, mas por outros, digamos, "talentos"... :)

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  12. Carmen está meio fora de circulação - pudera, está com 88 anos de idade.

    Os emergentes da Barra se misturaram à paisagem.

    E Narcisa é de fato uma remanescente do society tradicional. Mas de grande dama não tem nada...

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    1. Quando você falou no texto de socialites inspirando personagem de TV, lembrei da Meg de Por Amor (Françoise Forton), inspirada na Vera Loyola. Acho que foi uma das últimas.

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  13. Alta sociedade. .. zzzzzzzzzzzz

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  14. Alta sociedade e colunismo social são duas coisas diferentes mas que se cruzam em determinadas situações. Pessoas realmente ricas e poderosas evitam aparecerem junto com pessoas populares de instagram, camarotes ou festas coxinhas. Na Europa algumas familias protestantes não se misturam. Outras não se misturam com quem não tenha titulos de nobreza. A realeza é sempre poppular e deve continuar sendo pq para isso são reis . No final acho tudo superficial, apenas acho interessante mencionar que ainda creio que senhoras muito elegantes e ricas em qualquer lugar no mundo evitam jornalismo popular. O resto são coxinhas populares. Se vc tem acesso privilegiado à um ambiente, vc é um coxinha pq quem realmente tem privilégios não frequenta locais onde hajam não privilegiados papagaios de pirata....

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    1. Que saudade do tempo em que coxinha era um salgadinho muito gostoso. Tem gente que abusa do termo. É isso-coxinha, aquilo-coxinha, caralho-coxinha! VTNC....

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  15. Faltou citar a Danuza Leão, o livro Quase tudo tem histórias ótimas, ela tb fez colunismo social e acredito que a mesma foi limada da Folha pelo fato de ser um tanto chique para os padrões classe c de hoje. Tony, sou leitor assíduo do blog, um abraço aqui de Brasília.

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    1. A Danuza tinha (tem) um humor muito refinado e muita verve. Ela fala de lagosta ao termidor como quem fala de arroz e feijão. Nunca senti uma ponta de esnobismo nela, parece uma velha amiga.

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  16. Há tempos eu não lia um texto tão saboroso. Parabéns, Tony, querido! E obrigado.

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  17. Esse texto tem um ar de canto do cisne da realeza, agora noveaux poivre. Vide o tamanho dele em relação ao padrão do blog.

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    1. "Nouveau poivre" quer dizer pimenta nova.

      Serve.

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  18. Tony, o texto combina com qualquer coluna, seja aqui, no F5. Vc retratou uma época, que tb conheci, e nunca me dei conta para parar e analisar. Claro que sei que o dinheiro mudou de mãos, mas esse retrato de socialites que eram citadas em novela, musicas e sabe o que mais, não havia pensando. Se formos mencionar os tipos que quase se aproximam do que era a elegância dos bem nascidos esbarraremos em Beth Boca Suja Szafir, Valdirene do Frango Marchiori e até uma Andreia Não Sabe o que Faz no Mundo Nóbrega...Eu gostava de ver esse povo ostentar...rs rs rs...abração...excelente texto.

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  19. Adorei o texto também. Mas, os comentários não ficaram atrás. E ambos (texto e comentários), não por que motivo, me remeteram a um filme bem revelador: "O sorriso de Monalisa" (ou Mona Lisa, como no título). Talvez tenha sido a colocação do último parágrafo, ou o comentário do próprio Tony Goes: ""Uma moça de família aparece nos jornais três vezes na vida: quando nasce, quando casa e quando morre". Achei de um puritanismo penoso. E hipócrita, como tem de ser. Talvez seja o charme do high society a hipocrisia. Uma certeza de que é tudo jogo de cena. Delícia falar mal deste mundinho.

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  20. Ah, mas esse "mundinho", por mais superficial e elitista, ainda mantinha um pouco de classe, cultura e refinamento eram "assets', hj a dita alta sociedade é composta por pagodeiros, cantores sertanejos, jogadores de futebol, reis do camarote e afins, e basta ter dinheiro e ostentar (muito), cultura, classe, refinamento se tornaram irrelevantes nessa nova ordem, onde a vulgaridade e o exibicionismo imperam.

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  21. Realmente está cada vez mais down o high society. Concordo!
    Entretanto, as socialites loucas e sem noção de hoje em dia, que não tem nada a ver com as finas e elegantes de antigamente são personagens fantásticas, que ainda não foram devidamente exploradas na ficção. Não lembro de nenhuma que não fale coisa com coisa, sequelada pela colocação e cheia de tiques como a Narcisa. Bonita, que adora ostentar, maldosa, alpinista, que quando finalmente consegue ficar famosa, surgem notícias do seu passado negro e pobre que lutou a vida inteira para esconder e enterrar (Val Marchiori). Ou riquíssima, porém desbocada e barraqueira como a Beth Zafir. São tipos super interessantes que dariam muito certo como inspiração para qualquer enredo televisivo.

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    1. Já deram (oi?), e podiam continuar dando. A elas pertencem algumas das passagens mais marcantes do humor televisivo brasileiro em 2012 e 2013.

      E mais: à luz de uma mídia onipresente e iconoclasta como a atual, qualquer socialite "classuda" do passado pareceria tão tresloucada quanto. De perto ninguém é normal.

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  22. Sinto falta da boa educação e de pessoas que chegam no horário. Ou que, quando atrasam, pedem desculpas. Pessoas que colocam os talheres no lugar certo, cumprimentam os pais dos amigos e agradecem quando podem. Não é o que vejo nesses novos ricos.

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    1. Pois é... nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

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  23. Esse assunto merecia um belo texto no F5. Sinto um problema sério de crise identidade que a alta sociedade, os vips, os coxinhas, os papagaios de camarote, os convidados do promotor de festas, os presenças vips, etc...onde estão andando as pessoas realmente importantes? Como vc disse, a Carmem não sai mais de casa mas não acho que seja apenas pela idade. Outras senhoras se retiraram...

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