domingo, 1 de junho de 2014

CORAÇÃO VALENTE

O teatro americano produziu pelo menos três grandes peças sobre a AIDS: "Angels in America", "As Is" e "The Normal Heart". Consegui assistir às duas primeiras na Broadway (e depois ambas foram montadas no Brasil), mas nunca vi a terceira - a mais polítizada e áspera de todas. A versão para o cinema também levou décadas para ser feita. Os direitos ficaram um tempão nas mãos de Barbra Streisand, que queria transformar a médica cadeirante, um papel coadjuvante, na protagonista absoluta da trama. Ela nunca se entendeu com o autor Larry Kramer, que anos mais tarde acabou fechando negócio com Ryan Murphy - o criador das séries "Glee" e "American Horror Story", e gay de carteirinha.

"The Normal Heart" virou um telefilme, que começou a ser exibido ontem pela HBO Brasil. É uma porrada. A fúria de Ned Weeks, o ater ego de Kramer, encharca todas as cenas. Ela tem, inclusive, um certo ranço moralista. Ned já se mostra incomodado com a putaria desenfreada das bichas antes mesmo da primeira delas sucumbir aos sintomas da "maldita". Quando fica claro que há uma epidemia dizimando a comunidade, o cara assume ares de "ahá! bem que eu avisei", o que o torna ainda mais desagradável. Mark Ruffalo está tão bem no papel que pode ir abrindo espaço na prateleira para o Emmy que vai ganhar, apesar dele - que é hétero na vida real - ser o único que compôs um personagem levemente desmunhecado. Mas pelo menos temos alguns atores homossexuais fazendo personagens homossexuais, como Jim Parsons (o Sheldon de "The Bing Bang Theory") ou Matt Bomer (a coisa mais linda que Deus colocou na Terra).

Muita gente vem criticando o filme por apresentar uma visão parcial e enviesada dos primeiros anos da AIDS. Mas é claro que é parcial: é o ponto de vista de uma única pessoa, que foi extremamente afetada pela doença e que desempenhou um papel fundamental na conscientização do público e dos políticos no início dos anos 80. Aqueles tempos foram apavorantes: no final da década eu tinha a sensação de estar perdendo um conhecido por mês, e escapei por pura sorte (ou por ser relativamente travado). "The Normal Heart" capta bem esses momentos de terror, e é de rasgar o coração. Um filme obrigatório para quem o tiver no lugar.

14 comentários:

  1. Acho que o forte do filme são as interpretações:Ruffalo maravilhoso,assim como Julia Roberts,Jim Parsons eTaylor Kitsch.O monólogo poderoso de Joe Mantella é um espetáculo à parte.Mas Matt Bomer está simplesmente perfeito como Feliz Turner.Sua entrega total ao papel é visível.As cenas finais mostram um ator de rara sensibilidade.
    Um filme obrigatório,agora já passados 25,30 anos do pavoroso início da epidemia de AIDS.Para quem quiser ver mais,recomendo o documentário "How to survive a plague" e o livro essencial "And the band played on",de randy Shilds(não sei se foi traduzido).
    E sim,Matt Bomer é o homem mais lindo que Deus pôs nessa terra.
    Matheus

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  2. Pois é, 25 anos depois e com tanta informação disponível, muita gente ainda teima em transar sem camisinha, perpetuando essa doença desgraçada...

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  3. Jim Parsons?? I LOVE him!!

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  4. É impressionante o estigma que o HIV ainda carrega. A hepatite C, por exemplo, mata mais que a aids (pelo menos nos EUA).

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  5. um dos filmes mais tristes que ja vi... muito foda...

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  6. Um dos Filmes mais tristes que ja vi :( esta online na integra e com legenda.

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  7. Rent não entrou na lista das grandes peças? :(

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  8. Filme chaaaaato.....Todo mérito em contar uma história que nem os gays hoje em dia conhecem. Mas como filme é piegas, previsível, moldado pra fazer chorar platéia que se emociona com filme sobre doença e morte.
    Muito lindo chorar e achar o ator lindo, difícil mesmo é se envolver numa luta que não terminou e carrega um estigma que quase nenhuma outra condição médica carrega.

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    1. Enfim uma opinião sensata no meio de tanta histeria e deslumbramento. Angels in America também é um porre completo. E no resumo da ópera a doença continua aí e muito pouca gente disposta a encarar a vida real.

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  9. gostei muito, apesar de achar que o filme tem aquela coisa dramalhão de tv, mas é muito bom voltarem a relembrar da aids como nesse filme; de uns anos para cá a propaganda de camisinha pegou mais leve no foco aos gays, houve aquele pensamento de que os coquetéis iriam torná-la uma simples doença crônica e o povo querendo se contaminar para"perder a nóia". o filme relembra, de uma maneira ou de outra, aspectos bem interessantes que hoje raros filmes tocam, graças ao politicamente correto, que o sarcoma de kaposi era um letreiro da doença (hoje a lipodistrofia do coquetel pode ser bem corrigida), que os mais belos, logo mais desejados e que conseguiam mais transas, morriam primeiro, que os passivos tinham maior probabilidade de contrair pela fragilidade da mucosa anal, e que sim, a aids se 'colou' à comunidade gay pela promiscuidade, e não adianta se fechar os olhos, pq é isso mesmo. e, num tempo em que gente larga de usar camisinha no segundo mês de namoro e que os mais jovens estão aumentando taxas de contágio esse filme, a meu ver, é obrigatório

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  10. É preciso entender o contexto em que a peça foi escrita por Larry Kramer,em 1984-85,quando muito pouco se sabia sobre a AIDS.Se o estigma ainda existe,imaginem naquela época!E Kramer perdeu sim,namorado,amigos muito queridos.Não havia nada o que fazer.E foi sim,devido à militância gay e a um punhado de médicos e pesquisadores que hoje temos antiretrovirais.
    É um filme excelente sim,com grandes interpretações,direção e roteiro primorosos.
    E se é um "filme para chorar" que seja.Eu peguei na mão de 2 amigos nas últimas em 1988-89,algo que nunca vou esquecer-e não foi muito diferente do Felix de Kramer.
    As novas gerações pouco sabem sobre HIV e AIDS,e muitos gays acham que transar sem camisinha "é tendência".Precisam saber,entender como começou,o pânico enorme em que as pessoas viviam na época.
    E "Angels in America " tem o texto mais belo de uma peça escrita nos últimos 30 anos. Thiago

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  11. Era criança no início dos 80, mas lembro do pânico, da histeria e do preconceito em muitas reportagens da TV sobre o avanço e disseminação mundial do HIV, era coisa de louco mesmo. lembro que aos 11-12 falava p/ meus pais que tinha medo de cortar cabelo por conta de alguns salões da época não esterilizarem lâminas e tesouras....

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