segunda-feira, 31 de março de 2014

50 ANOS ESTA NOITE

É interessante ler na imprensa e, principalmente, nas redes sociais, como algumas pessoas têm uma visão homogênea do regime militar instaurado no Brasil depois do golpe de 1964. Tem gente que acha que foi, literalmente, a salvação da pátria, e que de modo geral éramos muito mais felizes e seguros sob a tutela dos milicos, esses paladinos anticorrupção. Também tem gente que acha que o Brasil mergulhou na mais profunda treva ditatorial e de lá só saiu em 1985, ou quem sabe em 2002, quando Lula foi eleito presidente pela primeira vez. Algumas dessas pessoas nem eram nascidas durante o governo Figueiredo, então é mais um ouvir falar do que uma experiência vivida na própria pele. Bom, eu já tinha três anos de idade quando Jango caiu, e só fui votar para presidente com quase 29. Não participei da luta armada nem do movimento estudantil, mas sofri com a censura e fui a várias passeatas pelas Diretas-Já. Mesmo com tanta repressão, ou talvez até por causa dela, a cultura brasileira dos anos de chumbo viveu um período de efervescência que não tem comparação ao semi-marasmo de hoje. A verdade é que o golpe não pode ser analisado sem levar em conta o contexto da época. Cuba havia virado comunista poucos anos antes, e os próprios comunistas gostavam de espalhar que o mundo inteiro se comunizaria mais cedo ou mais tarde. O medo do comunismo era real, e bastante justificável: já se sabia então do Gulag e dos horrores do stalinismo. Mas, como bem apontou FHC, a reação à guerrilha foi brutalmente desproporcional. A meia-dúzia de gatos pingados que pegou em armas foi dizimada com uma violência absurda, gerando mártires e feridas jamais cicatrizadas. Hoje as Forças Armadas nos envergonham ao não admitir os erros do passado, mas isto não quer dizer que a luta da extrema esquerda fosse justa e popular. Pelo menos de uma coisa estou convicto: apesar das marchas com a família e do ressurgimento da direita raivosa, não há a menor condição para uma ruptura institucional. O Brasil não é mais o mesmo, e está mesmo melhor. Só um pouco, mas está.

13 comentários:

  1. "A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão".
    Aldous Huxley (1894-1963)

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  2. Faltou dizer que a tal ameaça comunista de Jango jamais existiu. As "temidas" reformas de base que ele propunha hoje soariam até como discurso infantil perto do que já é realidade por TODOS os governos pós-ditadura (até os de direita). Sim, houve uma reação muito desorganizada de estudantes pró-comunismo idealistas nos anos que se seguiram (e se os fins eram diferentes, os meios, no mínimo, eram os mesmos que eu defenderia contra os militares). Mas a ditadura nunca foi um contra-golpe. Foi golpe militar mesmo. Mas não o primeiro do Brasil. Espero que tenha sido o último.

    Engraçado é como os EUA, principal patrocinador do golpe, acabou achando uma grande merda depois quando a coisa saiu de controle e até amigos dos americanos passaram a ser perseguidos. O apoio deles despencou. A ditadura virou uma briga de egos/oportunidade$ entre os milicos e ela acabou por incompetência própria mesmo. Não teve um pingo de influência do gado... digo, do povo.

    Imagino que você tenha boas memórias afetivas do movimento das diretas-já. Mas a verdade é que com ou sem o movimento, a ditadura já estava fadada a terminar desde que Figueiredo assumiu declaradamente com esse propósito. Mas acalma as massas imaginar que o movimento teve alguma importância na redemocratização. Na verdade foi tudo muito bem negociado (lei de anistia > governo civil, mas indiretamente eleito > total de 10 anos até eleições realmente diretas). Até pra romper com o regime de exceção, fomos devagarinho e cautelosamente (sinceramente, não sei que país teríamos hoje se o Lula de 89 tivesse sido eleito).

    E PARE de falar do golpe em 31 de março. A movimentação começou na madrugada do dia 1º, mas pros militares, era conveniente que a história não registrasse a "revolução" no dia da mentira. Pelo menos meu pai (que teve que participar do serviço militar obrigatório durante o regime) nunca contou nesta data, e sim amanhã. Eu também.

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  3. Cara, vc pode até não gostar do político FHC, mas é inegável a lucidez desse homem!
    O pessoal da chamada luta armada pensava que o povo brasileiro tinha passado uma procuração pra eles.

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    1. É isso aí. E a luta armada foi mais um delírio onírico do que realidade.

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  4. Hoje sabemos que a ameaça comunista não existia. Na época, não. Como eu disse no texto: a revolução cubana era muito recente, e havia no ar a sensação de que o comunismo era inevitável. Muito fácil julgar em retrospecto.

    Muita gente que apoiou o golpe não queria ditadura. Houve até eleições livres para governador em 1965. Foi a partir do AI-5 que a coisa ficou feia mesmo.

    O movimento das Diretas foi importantíssimo para sinalizar que quase toda a sociedade era contra o governo militar. Foi o que fez o Colégio eleitoral se voltar contra Maluf: todos ficaram com medo de não serem reeleitos, como no impeachment de Collor. Bobagem total dizer que não serviu para nada.

    Sei que a movimentação foi no dia 1o. - reparou no título do post? "Esta noite" se refere à noite desta segunda. Mas eu passei a adolescência estudando e cantando hino no dia 31. Vou continuar usando a data.

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    1. Foi exatamente o que o embaixador americano aqui disse pro Kennedy. Que o Brasil seria a próxima Cuba. Por isso recomendo "O dia que durou 21 anos". Apesar de ter sido dirigido pelo filho de um dos presos políticos libertados em troca do embaixador Elbrick (o que pode prejudicar a parcialidade do doc), joga muita luz no que os EUA pensavam do Brasil na época (e no comentário que você respondeu). Tem até depoimentos de "pobres militares iludidos" que queriam que a "revolução" realmente só botasse ordem na casa e não tivesse durado 21 anos. Pode ser parcial demais, mas é um must see pela reunião de todos os documentos abertos pela CIA + depoimento do assessor do embaixador americano na época. Deve ter aí pra ver pela internerd.

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    2. Eu assisti este documentário e gostei, pena que o povão não viu e nem sabe de nada!!!

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  5. Bicha Reclamona Leitora do B.log31 de março de 2014 21:02

    Não vou escrever nenhum tratado sobre, MAS....

    Nasci durante ditadura, mas meu senso crítico jah foi apurado num brasil pós-ditadura, anistia e coisa e tals...... Dou-me direito de ser fútil neste caso e dizer que do que me lembro eh tudo meio borrado, lembro de uma espécie de ficha na tela da tv, advertindo que esse ou aquele programa tinham passado pelo crivo da censura, lembro de algumas historias horripilantes, mas tenho certeza que fora isso, os relatos dessa fase não me dizem nada porque NÃO VIVI os anos de chumbo, logo, assim como meu babbino caro, sou bicha reclamona, fútil e hedonista e digo que essa gente que foi torturada tem de superar isso tudo, trabalhar cabeça, enfim era isso mesmo, pronta para ser espraguejada em 3,2,1.....

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  6. Tal como a velha propaganda da Emulsão de Scott - o homem carregando um bacalhau do tamanho dele nas costas - a gente vai ter de carregar esse bacalhau nas nossas costas por toda a vida.
    A história da luta armada brasileira que melhor ilustra a porralouquice reinante aconteceu com o filho do Nelson Rodrigues e é deliciosa.
    A facção do Nelsinho organizou um assalto ao portão do Ministério da Marinha e Arsenal de Marinha, no Centro do Rio, bem à frente da Candelária, visando conseguir armas. O grupo foi ao ataque e o Nelsinho, funcionando como motorista, ficou esperando dentro do carro, em uma rua próxima. De repente ele percebeu que um fuzileiro que passava na rua começou a olhar para o carro desconfiado e não saia dali. Sentindo-se descoberto, ele saiu do carro e botou o revolver no peito do militar, que trêmulo disse 'pô, moço, eu pensei que o senhor tava a fim de um programa... '

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  7. O fantasma comunista foi fabricado com ajuda da mídia (Globo, Folha, JB e outros) como um pretexto, da mesma que esta sendo criado pelos colunistas da mesma mídia, o atual fantasma do "bolivarismo" - seja lá o que isso signifique. Embora não haja mais condições, tenho a impressão que alguns desses colunistas acreditem e trabalhem numa ruptura institucional atual. As redações desses não evoluíram de 1964 para cá. Temos uma mídia jornalistica de Republica de Bananas.

    Curioso que nessa atualização que fazem da ditadura, ainda não tenham sido amplamente divulgado os favorecimentos que a Globo recebeu pelo apoio e participação.

    Só para finalizar, não havia esquerda armada antes de 64. Em qualquer regime autoritário e com restrição de liberdade, as "resistências" se armam.

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    1. Não dá para cada um inventar a História como melhor lhe parece, pois ela ela é uma escrita coletiva e mundial.
      O fantasma do comunismo surgiu em cada lugar exatamente no dia em que a notícia da Revolução Russa ali aportou. No Brasil houve uma Intentona Comunista, no início dos anos 30, com mortos, a marcha do Prestes, a reação do Integralismo e do Getulismo, entre outras manifestações.
      Mas você acha que The Globe inventou o fantasma do comunismo em 1964.
      Interessante, você devia escrever uma tese de doutorado a respeito disso e da ruptura institucional trabalhada pelo Chico Caruso, Zuenir Ventura, Scofield, Xexeo, Veríssimo...
      Mas as redações da imprensa reacionária mudaram bastante, e não só pelos computadores e internet. Os viados, por exemplo, podem soltar a franga e ganhar promoção.



      .
      Mas voc

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    2. Acho que a única pessoa até agora que colocou o Jango como um presidente de um regime autoritário e com restrição de liberdade foi você...

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