segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O MUNDO COM A BOCA NO MUNDO

Ucrânia, Tailândia, Turquia, Brasil, e agora a Venezuela. Países tão distantes entre si e com história e cultura completamente diferentes se veem passando por processos semelhantes, e ao mesmo tempo. A grosso modo, o que está acontecendo nesses lugares é mais ou menos o seguinte: uma parcela considerável da população (quando não a maioria), que desfruta de renda mediana e acesso à internet, foi às ruas para reclamar da incompetência de governos eleitos democraticamente. É uma situação complicada, pois em todos os casos os governantes de plantão chegaram ao poder com o aval das urnas. Quem protesta, portanto, estaria indo contra a vontade soberana da maioria. Mas quando examinamos mais de perto cada um desses países, outros pontos em comum ficam claros. Estes governos eleitos negligenciaram quem não votou neles. Promoveram redistribuição de renda e reduziram a desigualdade, mas não investiram em infraestrutura nem fizeram com que o cidadão comum sentisse que seus impostos estavam revertendo em serviços públicos de qualidade. O resultado está aí, e causa espanto em quem se aferra aos antigos conceitos de esquerda e direita: uma massa onde há predominância de jovens bem informados, exigindo reformas profundas que o establishment não está disposto a fazer. Na Ucrânia, a oposição ganhou a rodada. Numa reedição da Revolução Laranja de dez anos atrás, Viktor Yanukovich foi defenestrado e Yulia Tymoshenko resgatada com loas (sim, exatamente os mesmos nomes). A diferença é que dessa vez há mais 80 mortos, o que talvez dê mais "leverage" para o pessoal pró-Europa. Mas como os russos irão reagir? Não duvido nada que a Ucrânia se parta, com a metade oriental e a península da Crimeia sendo anexadas pela Rússia, de quem sempre estiveram próximas historicamente. Enquanto isto, na Venezuela, o pau come solto. As alternativas parecem ser a truculência chavista e a extrema-direita que saqueou o país durante décadas. Já no Brasil o debate foi reduzido ao mínimo: a violência da PM versus o vandalismo dos black blocs. O buraco é bem maior, mais em baixo, mais acima, mais tudo. Mas a quem, fora essa parcela insatisfeita porém desorganizada, interessa que mude alguma coisa para valer? Ainda mais em ano de eleição presidencial?

7 comentários:

  1. Tem tb a questão da aturação da democracia. As pessoas não se sentem representadas, e o sistema eleitoral elege sempre os mesmos - pode mudar o nome e o rosto, mas a bagagem e vínculos políticos são os mesmos. É uma ilusão achar que temos poder de eleger quem quisermos com nosso voto, porque o próprio sistema é viciado e oferece sempre as mesmas opções.

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    1. Oferece as mesmas opções porque nós, que queremos administração pública de qualidade e achamos que sabemos como fazer, não estamos dispostos a sacrificar a vida, a privacidade e a honra por um mandato, ainda mais conhecendo a ingratidão humana. Quer bem feito, faça você mesmo. É nisso que quixotes como Marina Silva e outros acreditam. Mas esse tipo de cidadão proativo é muito raro, e não cai do céu...

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  2. O que esses países tem em comum: são horríveis pra se viver.

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  3. Aqui no Brasil ainda vamos ver e ter muita confusão muito quebra quebra muita desgraça,a hora que tudo isto estourar mesmo vai ser um caos. O nosso sistema político está carcomido pela corrupção de norte a sul, nada funciona direito, o sistema de voto não tem nada de democrático nada de confiável, se fosse assim os países desenvolvidos adotariam o mesmo sistema. Este País ainda vai apanhar muito o povo né, até que se torne um lugar decente de se viver, mas não sei não!!!!

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  4. O grande problema no Brasil é que a sociedade é totalmente ineficiente, não tem meios de interferir no processo político, salvo a cada quatro anos, através da merda do voto e isso é muito pouco. Entidades de classe, de moradores, de defesa de idéias e segmentos sociais tudo é trampolim para cargos e desvio de dinheiro. Vereadores roubam ali, diante da calçada por onde passamos e ninguém consegue dete-los. Em Brasilia então, longe de tudo, ceu é o limite.
    Em outros países, idosos ou pacientes de determinadas doenças - fibrose cística, por exemplo - estão organizados em cada cidade, por todo o país, elegem deputados e exigem do governo atenção para seus problemas e necessidades.
    No Brasil, quando é assembléia de condomínio para eleger um novo síndico, não aparece ninguém na reunião. Todo mundo continua esperando que o rei de Portugal baixe um decreto... Assim fica difícil e os Luppis, os Malufs, os Renans, os Sarneys vão continuar os reis da cocada preta.

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    1. Disse tudo, assino em baixo!!!!!

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  5. Então não adotaram nosso sistema? Conte-me mais sobre as fraudes ocorridas nos últimos 20 anos por causa desse sistema "não confiável".

    O imposto de renda no Brasil é totalmente eletrônico, os processos judiciais estão seguindo o mesmo caminho... Será que nós vira-latas estamos errados apenas porque os dachshunds não adotaram os mesmos sistemas?

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