domingo, 23 de fevereiro de 2014

ERUPÇÃO PLINIANA

"Pompéia" é um desastre de proporções épicas. É um fortíssimo candidato a pior filme do ano - e me dói pensar que, com o mesmo dinheiro e um roteiro melhor, a destruição da célebre cidade romana de veraneio poderia ter ganho a versão cinematográfica que nunca teve. Mas os produtores restringiram seu público-alvo a adolescentes que gostam de vídeogames, e rechearam o filme com cenas de violência grotesca. Há lutas de gladiadores, perseguições sangrentas, ataques de legionários e até mesmo uma briga numa taverna. Em troca, quase nada do dia-a-dia de Pompéia. O elenco vem quase todo de séries de TV ("Game of Thrones", "Lost", "Mad Men", "24") e está todo péssimo. Os erros históricos se acumulam: o Vesúvio é mostrado desde o começo com uma cratera borbulhante, quando naquela época seu cume era fechado, como o de uma montanha qualquer (os habitantes da região nem desconfiavam que se tratava de um vulcão). Um lutador é chamado de "O Celta" em Londinium (a atual Londres), uma cidade onde quase só havia celtas. A erupção provoca um tsunami que jamais aconteceu: só faltou a fúria das águas despertar Godzilla. A devastação causada pelo Vesúvio no ano de 79 foi tão grande (a própria montanha foi arrasada) que, depois de descrita pelo historiador romano Plínio, o Jovem, deu origem ao termo "erupção pliniana". "Pompéia", o filme, é seu equivalente na telona. Fujam!

12 comentários:

  1. não vi.. vou ter a curisiodade depois pra ver...

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  2. Todo filme que o Tony diz ser ruim, eu gosto. Vou querer ver.

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  3. A Felicidade Custa Caro, Work Bitch!24 de fevereiro de 2014 03:21

    Hahahaha... Certeiro como sempre, como não amar qdo vc diz 'em troca (de toda bobajada self service para aborrecente) quase nada do dia a dia de Pompéia'. Concordo. Esse tipo de filme já nasce com unico intuito de mostrar todo o bagulho explodindo e dane-se coerencia e narrativa cinematográfica em andamento.

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  4. Há um documentário português disponível no You tube que conta a história de Pompéia nos mínimos detalhes inclusive o porque dos mortos serem achados como estátuas dentro de seus lares. Algo como se uma bomba atômica os tivesse congelado. Vale mais a pena do que o filme. Hollywood as vezes perde a grande chance de ser uma historiadora de verdade.abraço

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  5. Então, já imaginaram se ocorresse uma erupção em sequencia principalmente no chamado circulo de de fogo que vai do final da América do Sul lado do Pacífico até o outro lado do mundo chegando na oceania, seria o fim mesmo das grandes cidades e humanidade em todos os sentidos.

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  6. Tinha que ser o Paul Anderson mesmo. Ele também deixou os roteiros dos filmes da série Resident Evil fracos e focou somente em efeitos e ação. É mesmo uma pena que tudo isso se repita. Entretanto, ainda estou com vontade de ver, não sei se no cinema.

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  7. Só de ver o poster me deu vontade de passar longe. Sabe o que você sente pelos filmes de super-herói? Então... é o que eu sinto por todos os blockbusters americanos, sejam os de pré-Oscar, sejam os de verão.

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  8. Tony, também poderias ter falado do ridículo em mostrar os habitantes de Pompéia vendo os romanos como "eles". Desde as guerras civis dos tempos dos irmãos Graco todos os habitantes da Itália (o que inclui Pompéia) que fossem livres possuíam a cidadania romana. Um império não se mantém só pela força, e sim pela aliança entre os dominadores e as elites locais. Nunca houve, em todas as cidades da Índia ou do Egito coloniais, um general britânico a pentelhar e humilhar os notáveis, somente nas cidades principais, e assim mesmo, com muita negociação e puxa-saquismo mútuos. E nos últimos 100 o império americano fez a mesma coisa, negociou com as elites latino-americanas com muito dólar a financiar indústrias, construção civil ,dívida pública etc. Um império durar mil anos só na base da opressão? É filme para quem assiste Discovery Kids.

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  9. Há muitos anos, nos idos da década de 1960, assisti na TV o filme "OS ÚLTIMOS DIAS DE POMPEIA". Só me recordo que o roteiro incluía uma trama envolvendo gladiadores e o domínio romano. Desde então, me interessei muito pela cidade de Pompéia e Herculano e uma terceira que não me recordo o nome. Estudei alguma coisa na cadeira de história das artes na faculdade de arquitetura e também li na década de 1970 uma matéria especial na ENCICLOPÉDIA BLOCH". Terminei indo a Pompeia. Viagem de grande interesse cultural! Mas quanto ao filme, embora não seja nada comparável àqueles que marcam época, de todo é interessante, ou seja, como fazer um filme sobre Pompéia, em que o ápice não seja a erupção do Vesúvio. Se querem aula de história, assistam o documentário que foi exibido no Discovery.

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    1. Concordo que cineastas não são historiadores. E além do mais, um filme não pode ser chato. Mas há um limite para erros históricos. Se exagerados, como nessa bomba atômica aí, presta um desserviço, considerando que a maior parte das pessoas não gosta de ler e passará a achar mesmo que Roma era um império malvado, quando na verdade era uma unidade política como qualquer outra, ou seja, quando pode, domina os povos mais fracos. É cruel de se dizer, mas se os índios tivessem armas melhores que os portugueses, teriam dizimado eles.

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  10. Verdadíssima, Tony! Gênero, número e grau. Também tive a feliz ilusão prévia de que, finalmente, teríamos na telona uma boa produção sobre a história singularmente fascinante de Pompéia... Afinal, só tínhamos filmes como “Os últimos dias de Pompéia” , “Pompeia – o último dia” e documentários similares. Quanto ao documentário português mencionado aqui nos comentários, concordo também: possui amparo acadêmico e é mais respeitável que as próprias produções do cinema.

    Quanto à temática histórica, acho que nosso entusiasmo (anterior) se deu porque estava mesmo mais do que na hora de voltar à telona – e, supostamente, com embasamento histórico fidedigno e roteiro abarcador (naturalmente abordando a vida cotidiana da cidade; também não contive o meu desapontamento de ver “a fita rolar” sem que se descortinassem tais cenas)... Eis a decepção! Como você define no início do texto, “um desastre de proporções épicas”. Que pena!

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