sexta-feira, 31 de maio de 2013

CEILÂNDIA, LOTE 14

Fui ver "Faroeste Caboclo" sem conhecer direito a letra da música em que o filme é baseado. Eu já tinha desencanado do Legião Urbana quando eles gravaram a canção, e minha cota de épicos russianos tinha sido mais do que preenchida com "Eduardo e Mônica". Por isto, fui para o cinema em estado de semi-virgindade - só sabia o que acontece com o protagonista no final. Mas nem isto foi grave, pois o desfecho é revelado logo na primeira cena do filme. Então assisti a tudo sem saber da história, e sem ter passado anos imaginando como ela renderia na tela. Também não senti falta de nada, muito pelo contrário. "Faroeste Caboclo" é aquele raro filme brasileiro onde tudo funciona, do roteiro enxuto à fotografia e edição primorosas. Os atores também estão todos ótimos: Fabrício Boliveira tem tudo para se tornar um grande astro, e Felipe Abib vai surpreender quem só conhece por pequenos papéis na TV. O que prova que ninguém precisa ser fanático pelo Legião para gostar desta ótima adaptação. Eu não sou, e gostei.

O ARGUMENTO BUMERANGUE

Um dos meus passatempos mais mórbidos é ler os comentários das matérias sobre assuntos LGBT na internet. Tem uma parte de mim que até gosta de sentir o sangue ferver, tamanha a boçalidade e a ignorância dos missivistas - quase sempre anônimos e quase sempre com sérias dificuldades em ortografia, pontuação e concordância verbal. Os argumentos dessa malta se dividem em dois grande grupos. O primeiro defende que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não seria "bíblico", já que na Bíblia só existiriam casais formados por um único homem e uma única mulher (e não centenas de concubinas, escravas e esposas do rei Salomão). O segundo tipo de argumento se pretende mais racional, e costuma ser usado por gente de má fé contra qualquer coisa que lhes desagrade. É a "irrelevância" dos direitos gays frente à enormidade dos problemas que assolam o Brasil, como a miséria, a corrupção e a formiga saúva. Por que perder tempo defendendo as bichas, quando o béri-béri ainda não foi totalmente erradicado? Pois eu devolvo o argumento, feito um bumerangue na testa: por que ser contrário à plena cidadania dos homossexuais, quando há tantos outros temas candentes por aí? Porque não focar essa energia toda, essa autêntica ira santa, nos mesmos problemas que o próprio comentarista arrola? Porque não, né? Apontar para o outro lado é a típica desculpa de quem pretende disfarçar o próprio preconceito com tintas cívicas. Só que não cola. Próximo!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A WASTE OF PEOPLE JUICE

Mais de 600 espécies de aves e mamíferos praticam alguma forma de homossexualidade. Também não há cultura humana que se restrinja às relações entre macho e fêmea. Por que, então, transar com pessoas do mesmo sexo se tornou tabu em quase todo o mundo? Talvez pelas razões expostas no vídeo acima, lançado por uma espécie de "Porta dos Fundos" americano. Aaahhh...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

SEM IDENTIDADE

"Sem Proteção" parece nome de filme sobre os perigos da AIDS, o que aliás cairia muito bem nessa Semana da Diversidade Sexual. Mas a história na verdade é sobre um assunto pouco discutido no Brasil: os grupos radicais que cometeram atentados terroristas nos Estados Unidos no final dos anos 60, numa tentativa descabelada de acabar com a guerra do Vietnam. Pois é, não foi só na América Latina que teve luta armada. Alguns remanescentes dessa época jamais foram presos, e devem estar vivendo sob identidades falsas há cerca de 40 anos. É um assunto interessante para o cinema - só que, neste caso, foi bem mal explorado. Robert Redford chamou uma dúzia de atores conhecidos, de seu ex-sósia Nick Nolte (que agora parece um urso polar empalhado) ao ex-feiosinho Shia LaBeouf (que ficou realmente interessante de cabelo curto e óculos). Mas o roteiro tem muitos pontos mortos, e em nenhum momento o espectador torce para que aqueles criminosos de bom coração sejam presos ou não. "Sem Proteção" talvez seja ainda pior que um filme simplesmente ruim, porque provoca indiferença.

EM NÓS DOIS, EM NÓS TODOS

Saiu agorinha há pouco, às 10 horas da manhã, o hino oficial do casamento gay no Brasil: "Joga Arroz", que também marca a primeira colaboração dos Tribalistas em mais de uma década. A música é bem simplezinha, perfeita para se cantar em passeatas ou em frente ao Congresso Nacional. Pode ser baixada inteiramente grátis do site da Marisa Monte, do site do Arnaldo Antunes e do site Casamento Civil Igualitário. Também já deveria estar disponível no site do Carlinhos Brown, mas , como é do conhecimento geral, a Bahia segue um fuso horário particular.

terça-feira, 28 de maio de 2013

PREGUAI A TODOS

O Festival MixBrasil publicou ontem, no caderno "Cotidiano" da Folha de São Paulo, este anúncio aí em cima convidando o deputado Marco Feliciano a participar do evento. Hoje saiu a notícia de que sim, o Infeliciano aceitou o convite. O nobre parlamentar enviou até uma resposta elegante, se bem que recheada de citações religiosas - e depois reclama que a mídia fica sempre martelando que ele também é pastor, né não? Mas é óbvio que vai pegar mega bem para a imagem do cara aparecer na abertura do festival (tomara que programem um filme daqueles bem pornográficos), se bem que eu não duvido que surja um compromisso inadiável bem no dia. A campanha criada pela agência Neogama também veiculará convites abertos a Joelma e ao Bolsonaro. A primeira aposto que vai: afinal, ela a-do-ra as guei, tanto que tem até um amigo cabeleireiro. Já o deputado carioca... duvideodó. Não ganha nada com isso, e seu eleitorado mesozóico até prefere que ele não frequente esses antros de perversidade. Aguardemos pelas respostas de ambos. E chequemos se eles também não fazem erros de português como o "preguai" cometido pelo pastor.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

AZUL É A MAIS QUENTE DAS CORES

Ninguém segura Adele. Primeiro ela ganhou um caminhão de prêmios. Depois levou o Oscar de melhor canção por "Skyfall". Agora ela faturou nada menos que a Palma de Ouro, o prêmio máximo no festival de Cannes. OK, não foi bem ela: foi o filme "La Vie d'Adèle", cuja história não tem nada a ver com a cantora britânica. Mas tudo a ver com esse momento que vivemos agora, aqui e na França. Ontem rolou mais uma passeata-monstro em Paris contra o casamento gay, mesmo depois dele ter sido aprovado pelo Legislativo. A coisa acabou em pancadaria e pode se prolongar por um tempo indefinido, porque o buraco é bem mais embaixo: o que acontece por lá é na verdade um embate entre a extrema-direita rertrógrada, racista e religiosa contra o resto do país, que em sua maioria aprova a igualdade dos direitos matrimoanis. Steven Spielberg, presidente do júri de Cannes, jurou por tudo que há de mais sagrado que o vencedor do festival não foi uma escolha política. Mas claro que foi: "Azul é a Mais Quente das Cores" (tradução do título do filme em inglês) conta a história do amor entre uma adolescente e uma mulher um pouco mais velha, com direito a longas sequências de sexo quase explícito. É dirigido pelo franco-tunisino Abdellatif Kechcihe, que tem um estilo peculiar com diálogos intermináveis e cenas que parecem levar a lugar nenhum. Tudo parece chatíssimo, mas de repente você se percebe hipnotizado. O filme tem estreia mundial prevista para o segundo semestre. Vamos torcer para que, pelo menos, passe no Brasil em alguma mostra.

ORGULHO CUIDADOSO

Depois da violência crescente das últimas edições e dos arrastões que marcaram a Virada Cultural, estou bem apreensivo com a Parada Gay de São Paulo. E justo num ano em que eu acho que ela virá mais politizada do que nunca, diferente da micareta trash de outras vezes. A cidade jamais me pareceu tão insegura. Por mais que o governo estadual jure de pés juntos que os índices de criminalidade estão caindo, a sensação de perigo é cada vez maior. Além disso, está claro que a PM fez corpo mole na Virada - por falta de bônus, por implicância com a nova prefeitura petista ou por todas as alternativa anterioes. Para piorar, temo que os ataques homofóbicos recrudesçam. Principalmente agora, depois de tantas conquistas da causa LGBT no Judiciário e tantos inimigos barulhentos travestidos de homens santos. O fenômeno se repetiu em todos os lugares onde os homossexuais tiveram seus direitos garantidos: vide o assassinato de um rapaz em pleno Village, o bairro mais simpatizante de Nova York, ou a ferocidade das manifestações homofóbicas na civilizada França. Mas nada disso é razão para se ficar em casa. Mais do que em qualquer outro ano, em 2013 a Parada precisa estar repleta e animada. Já foi anunciado um reforço de 600 policiais durante o evento, mas todo mundo tem que fazer a sua parte. Todo cuidado é pouco. Não vá sozinho, guarde carteira e celular em lugar seguro, evite lugares escuros, não se intoxique. Honre o seu DNA: como diz o ditado, bicha burra nasceu morta.

domingo, 26 de maio de 2013

A DOR DE QUEM FICA

Eu não tinha a menor intenção de ver "Elena". Documentário, para me fazer sair de casa, enfrentar as intempéries e morrer num ingresso de cinema, tem que ser sobre algum assunto que eu ame de paixão, tipo "As Aventuras de Tintin". Suicídio, então, é algo que me interessa tanto quanto o campeonato pernambucano de futebol de salão de 1935. Não tenho um único osso suicida no meu corpo. Nunca pensei em me matar. Nem mesmo quis morrer - só de vergonha, e foram só umas poucas vezes. Mas de repente o suicído virou o leit-motiv dos últimos dias. Há um suicídio no ceomço de "O Que Traz Boas Vindas", o penúltimo filme que vi, e ontem fui à missa de sétimo dia da filha de uma amiga. A mãe estava destroçada; era de partir o coração. Difícil imaginar que a dor de quem se mata seja maior do que a de quem fica. Foi essa dor que levou Petra Costa a fazer um filme sobre sua irmã Elena, 16 anos mais velha, que se matou com apenas 23 anos. As críticas são tão boas que eu venci minha resistência e lá fui eu, pronto para gostar. Tecnicamente é mesmo uma maravilha: imagens lindíssimas, oníricas, que se casam muito bem com antigos filmes caseiros em super 8, graças a uma montagem soberba e a um ótimo uso da música. Mas, emocionalmente, não meu pegou. "Elena" talvez devesse se chamar "Petra", porque é quase todo sobre a tristeza da irmã sobrevivente. Saímos do cinema sabendo apenas que a jovem que tirou a própria vida era bonita, alegre, dançava muito bem e tinha muitos planos. Por que então caralho se matou? Não se fala em histórico de depressão, nem em nenhum incidente que tenha detonado o processo suicida. Um belo dia, alguns meses depois de ter se mudado para Nova York para estudar teatro, Elena toma um vidro de aspirinas com cachaça e morre. Antes, havia apenas se queixado de um grande "vazio". Só isto? Queria saber mais, queria entender um tequinho melhor. Mas não: "Elena" mantém sua protagonista no escuro, apesar das cenas luminosas. Nesse ponto, achei o filme quase covarde. Ou vai ver que eu esperava outra coisa. Muita gente tem se emocionado, mas eu não nasci com esse chip.

sábado, 25 de maio de 2013

LIÇÃO DE CASA

Existe um sub-gênero do cinema que segue um paradigma bem claro: o filme de professor. Num colégio onde os alunos estão com algum problema, eis que surge um "outsider" para dar aulas para a molecada. Ele subverte as regras vigentes e entra em alguns atritos, mas logo todo mundo está apaixonado pelo cara - que, infelizmente, terá que ir embora... "O que Traz Boas Novas" se encaixa nesse figurino, mas com nuances próprias que justificam a ida ao cinema. O título em português é o siginificado do nome do personagem principal, Bashir, um argelino que substitui uma professora suicida numa escola canadese. O filme foi indicado ao Oscar de obra em língua estrangeira no ano passado e está mais para "Sociedade dos Poetas Mortos" do que "Entre os Muros da Escola". Não faz propriamente uma crítica ao sistema educacional; está mais preocupado com o drama humano. O mais impressionante é o elenco infantil, capaz de cenas fortes que deixariam os atores-mirins de "Carrossel" de recuperação para sempre. Bom programa para quem gosta de pensar e chorar.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

I WANT YOUR SIX

Precisou o Daniel Cassús me lembrar que hoje é o sexto aniversário deste blog. Para não deixar a data passar em brancas nuvens, quero todo mundo ensaiando a coreografia oficial da festa. Volto mais tarde para fazer a chamada oral.

QUE SEJA DO JEITO QUE FOR

"Novela das Oito" passou meio batido pelos cinemas brasileiros. Agora o filme é ressuscitado no YoTube graças a esta cena aí em cima, que serve para matar a curiosidade por algo que dificilmente iremos ver na nova novela das nove.

GEORGINHO BÁSICO

Já sabe com qual modelito você vai ahazar na Parada? Que tal ir vestida de George Constanza? Não como o clássico personagem da série "Seinfeld", mas com aquela caratonha linda dele cobrindo o seu corpo. O vestidinho aí ao lado é o best-seller da costureira americana Erin Pearce, que manda estampar seus próprios tecidos num lugar que aceita encomendas. Ela também aceita: por no máximo 200 dólares, você também pode usar uma roupitcha com a foto do seu cachorro, ou só com imagens de Natalie Portman chorando. Not that there's anything wrong with that - mas aposto que, se alguém fizesse coisa parecida aqui no Brasil, provavelmente os herdeiros da celebridade retratada ou até o próprio Roberto Carlos entrariam na Justiça.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A OPÇÃO DA PRESIDENTA

Dilma Rousseff despencou no meu conceito quando falou, na época da supsensão do "kit gay" (eu sei, o nome é injusto, mas pegou), que o governo "não faria propaganda de opção sexual". Como assim? Propaganda? Opção? A covardia da presidenta e de quase todo o PT me deixou bolado. Meu koo para a base aliada: ou se é moderno e progressista, ou não. Até entendo o pouco entusiasmo de Dilma pela causa LGBT. Ela vem de uma época em que toda a esquerda achava que a homossexualidade era um desvio pequeno-burguês (o próprio Gabeira só mudou de ideia depois que desbundou na Suécia). Para essa geração, que também é a de Lula, esse problema não está muito em pauta (felizmente, para a de Eduardo Campos, Aécio Neves e Sérgio Cabral, está). Mas hoje Dilmão marcou um golaço. A indicação de Luís Roberto Barroso para o STF parece um tapa com luva de pelica na cara dos fundamentalistas. No momento em que o Talibã brasileiro procura contestar na Justiça o avanço do casamento gay no país, eis que o próximo ministro é ultra simpatizante. Não é como eu gostaria que o governo estivesse promovendo os direitos igualitários, mas é melhor do que nada.

BICHA MÁ

"Amor à Vida" mal começou e a bicharada já tem um novo ídolo. Todas amam/são Félix, o enrustido-casado-com-um-filho que marca dates no shopping. E por que não deveriam? A bee é rykah, solta uma tirada espirituosa atrás da outra e ainda namora o Lucas Malvacini. Fora que é interpretada pelo Mateus Solano, meldels. As redes sociais já pululam de perfis falsos e gifs do personagem. Não importa que o problema dele - ser mais amado pelo pai do que a irmã - é digno do jardim de infância. Nem que suas maldades não façam muito sentido: o que é que ele ganha, exatamente, jogando um bebê no lixo? Mas o fato é que estamos adorando o Félix. O veneno é uma arma poderosa que muitos gays desenvolvem como auto-defesa, e é divertido ver um de nós tocando o terror na TV. Como eu disse na minha coluna de ontem no F5, é um bom sinal quando já podemos ser vilões. Mas que ninguém tenha dúvidas: a maior crueldade que o malvado faz é mentir para si mesmo.

GIORGIO BY MORODER

Está decidido: quando eu gravar meu LP solo, vou chamar Giorgio Moroder para produzir. O cara que inventou Donna Summer voltou à ordem do dia. Além de homenageado com uma longa faixa (que leva o título deste post) no novo disco do Daft Punk, ele também acaba de lançar uma nova música, que serve de trilha para um lance do Google Chrome que eu ainda não entendi bem o que é. Alguém entendeu? É um game? Precisa ter Android? Me explica? Enfim: aos 73 anos de idade, Moroder estreou como DJ numa festa em Nova York. O set inteiro pode ser escutado aqui, e é uma perfeita introdução para seu trabalho. Tem muito do que ele fez de importante: de "Beat the Clock", do Sparks, a "I Feel Love", a música mais influente dos últimos 30 anos. Tudo em versão original, sem nenhum remix pseudo-moderno. Certas coisas dos anos 70 soam avançadas até hoje.

ATUALIZAÇÃO: o set completo pode ser baixado daqui, com setlist e tudo.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

CABEÇA A PRÊMIO

Sim, tudo o que andam dizendo por aí sobre "Random Access Memories" é verdade. O novo do Daft Punk é sério candidato a disco do ano. Nem meus queridinhos do Bajofondo me impressionaram tanto. Com esse novo trabalho, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo (seguramente o nome mais cool de todos os tempos) se libertam das amarras de uma reles dupla francesa de música eletrônica, mais uma, e se tornam grandes nomes do pop universal. Só isto. Os dois ainda insistem em esconder os rostinhos atrás de capacetes, mas revelam sua eclética formação musical nesta entrevista ao site da revista "Entertainment Weekly", com direito à audição de todas as faixas citadas por eles. Também existe uma música extra do álbum, incluída apenas na versão japonesa - uma injustiça que, felizmente, pode ser facilmente resolvida. Convidados de luxo como Pharrell, Nile Rodgers e - gasp - Giorgio Moroder, gênio absoluto da disco music, confirmam que sim, estamos do lado de cá das cordinhas de veludo que delimitam a área VIP. De resto, "RAM" (para os íntimos) é aquele tipo de disco que quase não se faz mais: para ser escutado do começo ao fim, de preferência com fones de ouvido. Bon voyage.

SURUBA PORTENHO

"Dois Mais Dois" foi a maior bilheteria do ano passado na Argentina. No começo, tive a sensação de que poderia repetir o mesmo sucesso por aqui. Tem muitos elementos comuns às "globochanchadas", como já são conhecidas comédias como "De Pernas pro Ar" ou "Até que a Sorte nos Separe" - inclusive o tom debochadamente moralista, que a classe média adora ver no cinema antes de ir comer uma pizza (coisa, aliás, que os próprios personagens fazem na tela). Um cirurgião de sucesso é meio que desafiado pelo sócio e melhor amigo a aderir à troca de casais; sua mulher fica toda assanhada, e lá vai ele arrastado a um suruba povoado por figuras meio repelentes. Situação mais do que previsível, mas prenhe de possibilidades cômicas. Só que lá pelas tantas o filme revela seu DNA argentino. Os protagonistas entram em crise e todos começam a discutir a relação, antes do final conservador para tranquilizar a classe média. Com um pouco mais de pimenta e um pouco menos de encucação, "Dois Mais Dois" poderia ter se tornado uma "sex comedy" realmente memorável, do nível das italianas dos anos 60. Saiu borrachudo como uma pizza de antontem.

terça-feira, 21 de maio de 2013

SERIA TRÁGICO SE NÃO FOSSE CÔMICO

Dominique Venner ficou tão triste com a aprovação do casamento gay na França, mas tããão triste, que se matou com um tiro na boca dentro da Catedral de Notre-Dame na tarde desta terça-feira. Parece piada, e não deixa de ser. Venner era um historiador francês de extremíssima direita, que vociferou o quanto pôde contra o avanço dos direitos igualitários em seu país. Além de homofóbico, o sujeito também era racista e especialista em armas de fogo. Hoje de manhã, antes de se matar, ele ainda escreveu em seu site: "É certo que precisamos de gestos novos, espetaculares e simbólicos para despertar as solnolências, sacudir as consciências anestesiadas e acordar a memória de nossas origens. Entramos num tempo onde as palavras devem ser justificadas pelos atos". Fascinante o cara achar que seu protesto desastrado vai adiantar alguma coisa contra a marcha da história - e olha que ela era a matéria-prima de seu trabalho, deveria sentir para que lado o vento sopra. Nada a lamentar do final desse paspalho. Só torço para que a moda pegue.

ISENTO DE VERDADE


A "Folha" me convidou para ir à pré-estreia dos dois primeiros capítulos de "A Menina Sem Qualidades", que aconteceu ontem no MIS em São Paulo, para depois fazer a crítica do programa. Avisei que eu já estava indo de qualquer jeito, porque sou irmão do Zico Goes, o diretor de programação da MTV. Fui então gentilmente desconvidado, porque de fato não tenho a isenção necessária. Melhor assim: eu adorei os episódios, e teria feito um texto incensando a primeira minissérie produzida pela emissora. "A Menina Sem Qualidades" é uma porrada altamente qualificada. Tudo é bom, da direção de Felipe Hirsch ao corajoso desempenho de Bianca Comparato. Tem cenas fortíssimas de sexo e violência, e deve causar alguma celeuma quando estrear no dia 27 de maio. Estou dizendo isto para valer: não importa que meu irmão seja o maior gênio da TV brasileira.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

MUNIÇÃO AO INIMIGO

Pensando cá com meus botões, cheguei a uma conclusão assustadora. O movimento pelos direitos igualitários é um presente dos deuses para a bancada evangélica, que com ele tem um inimigo concreto a combater - e a chance de ganhar as manchetes e mostrar a seu eleitorado ignorante que está fazendo alguma coisa pela "família". Já tem até deputado propondo emenda constitucional proibindo o casamento gay... Sem a causa LGBT, esses nobres parlamentares talvez fossem desmascarados pelo que de fato são: faltosos, omissos, ineptos. Os poucos projetos de lei propostos por essa cambada são todos irrelevantes ou em prol deles mesmos. E o comparecimento deles ao plenário é baixíssimo, pois não estão lá muitos dispostos a discutir os verdadeiros problemas do país. Agora, isto quer dizer que é melhor os gays maneirarem, para não darem cartaz para essa gentalha? Claro que não. Temos mais é que contra-atacar, porque os pontos fracos deles são muitos. A luta continua, mas essa guerra está no papo.

CORDEL ENCANTADO

Finalmente eu me deixar seduzir por um musical. O responsável pela façanha é "Lampião e Lancelote", em cartaz no Teatro do SESI em São Paulo até o dia 30 de junho. O tema, os cenários e figurinos inevitavelmente remetem àquela novela das seis que fez tanto sucesso em 2011: o mesmo encantamento, a mesma irreverência respeitosa com que a nossa cultura tradicional é tratada. Sim, há uma certa sensação de teatro infantil: o espetáculo dura apenas uma hora, e o pouco conflito que há é resolvido num passe de mágica. Mas os excelentes atores, as músicas de Zeca Baleiro e a direção precisa de Débora Dubois levam tudo a um outropatamar. Só ficaadica para quem está acostumado a ir de graça ao SESI: depois de ser praticamente invadido por loucos que falavam durante as peças, o teatro agora cobra os valores quase simbólicos de 10 (inteira) e 5 reais (meia) nos finais de semana. Leve dim-dim.

domingo, 19 de maio de 2013

O CULTO DA PRINCESA

A princesa Isabel deu uma puta duma sorte. Passou para a história como "A Redentora", a grande responsável pela libertação dos escravos, como se a vida inteira tivesse lutado pela abolição. Existem até desenhos dela arrebentando correntes com as próprias mãos, como se fosse uma super-heroína. A verdade é bem mais prosaica: Isabel foi uma típica mulher de seu tempo, focada nas prendas do lar, desinteressada pela política e católica fervorosa. Provavelmente teria sido uma imperatriz fraca, facilmente manipulável e refratária aos avanços sociais. Um perfil revelador da princesa e seu marido, o conde d'Eu, é traçado pela historiadora Mary del Priore em seu novo e maravilhoso livro, "O Castelo de Papel". Isabel também teve outra grande sorte, a de ser feliz num casamento arranjado. Mas não subiu ao trono, e entre seus descendentes atuais estão os pavorosos príncipes do ramo de Vassouras, membros da TFP e extraordinariamente reacionários. Adoro uma monarquia, mas acho que o Brasil se livrou de boa a proclamar a república.

sábado, 18 de maio de 2013

SÓ LÁGRIMAS

Como esperado, "Only Teardrops" venceu o Eurovision 2013. O nome da canção dinamarquesa traduz fielmente meu estado de espírito com as concorrentes deste ano. Foi uma seleção medíocre, repleta de baladas insossas e produções pobrinhas. Nada que chegasse aos pés do kitsch sublime das vovós russas do ano passado. Pelo menos a apresentadora Petra Mede protagonizou um balé em prol do casamento gay. Que a edição do ano que vem chegue depressa.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

KISS ME KRISTA

Comi uma barriga daquelas. Escrevi um longo post sobre os concorrentes do Eurovision aqui no blog, e a minha coluna de hoje no F5 também fala do festival. Ainda assim, não falei em lugar nenhum que "Marry Me", a música que representa a Finlândia, é um hino pró-casamento gay. Na performance de ontem, durante a segunda semi-final, a cantora Krista Siegfrids deu um beijo lésbico numa de suas backing vocalists. Deu certo: a canção está classificada para a finalíssima de amanhã. Não é lá grande coisa, mas já pensou se ganha? Todas torce!

FOI CULPA DO REMÉDIO

Tem assunto mais em voga do que a depressão e seus tratamentos? Só falta virar samba-enredo da Beija-Flor. "Terapia de Risco", o novo filme de Steven Sodebergh, é mais um que se junta à lista de obras sobre um dos temas "in" deste ano. A premissa é interessante: um médico receita uma droga nova para sua paciente, até que... Não dá para contar muito mais, para não estragar o prazer de quem não viu. Só adianto que o roteiro não é óbvio, a direção usa imagens desfocadas de maneira magistral e os atores estão ótimos. Ninguém mais do que Rooney Mara, revelada na versão americana de "Os Homens que Não Amavam as Mulheres", e que aqui parece um cruzamento de Audrey Hepburn com Olívia Palito. Mesmo quem for tarja preta pode ir sem medo de se debulhar em lágrimas: apesar de criticar a indústria farmacêutica, "Terapia de Risco" está mais um thriller inteligente do que para um tratado sobre a doença mental. E ainda tem Channing Tatum, se bem que de camisa.

É HOJE O DIA

Hoje é o Dia Internacional de Combate à Homofobia. É uma data importante, porque nunca se falou tanto no assunto. Aqui no Brasil, temos muito a comemorar: a decisão do CNJ que obriga cartórios de todo o Brasil a não recusarem casamentos entre pessoas do mesmo sexo é um marco histórico, ainda que frágil. Muitos deputados já prometem lutar contra a medida, o que mostra que a luta ainda não acabou. Mas não se assustem: ela já está vencida, e por nós. Foi o que eu disse numa entrevista que gravei ontem para a MTV, que deve ir ao ar esta noite, durante a mesa-redonda que a emissora transmite a partir das 20 horas. Só os tapados e os de má fé não percebem que o avanço dos direitos igualitários é impressionante e inexorável, por todo o mundo ocidental. Basta abrir um mapa para ver o número crescente de lugares onde os homossexuais conquistaram a cidadania plena. Claro que resta muito a ser feito, ainda mais nesse país maluco onde vivemos. Não seria maravilhoso se a Dilma se pronunciasse? Mas a covardona nem vai tocar no assunto, aposto. Enquanto isto, embaixadas como as do Holanda, da Grã-Bretanha, da Suécia e da Bélgica irão hastear a bandeira do arco-íris em Brasília. O Banco do Brasil também fez anúncio na internet. E você, o que vai fazer? Ir na boate para comemorar? Ótimo, mas não se esqueça de sair do armário antes. Sei que é difícil para muita gente, mas nada assegura mais o avanço da causa LGBT do que a visibilidade. É só convivendo com homossexuais assumidos, na escola ou no trabalho, que muitas pessoas percebem que somos tão normais como qualquer um. Exponha-se!

quinta-feira, 16 de maio de 2013

SALDÃO ELETRO-ELETRÔNICO

Chegamos ao um ponto em que o termo "música eletrônica" não faz mais muito sentido, já que praticamente todo o pop atual é eletrônico. Até na Turquia os samplers e beats entraram di cum força, como eu pude constatar nos 40 CDs que comprei por lá (sim, 40. Meta-se com a sua vida). Tenho ouvido tantos turcos que só agora estou dando atenção a alguns lançamentos importantes do lado ocidental do planeta, alguns deles já "velhos" de meses. Um dos melhores é "Bankrupt", o primeiro CD da banda francesa Phoenix depois de estourar nos EUA e faturar um Grammy. O som deles está cada vez mais difícil de classificar: adolescente e adulto ao mesmo tempo, cantado em inglês mas com climão européen. Porém é facílimo de escutar, com faixas ensolaradas e otimistas, que eu assobiaria se soubesse assobiar.
O Daniel Cassús vai me odiar por causa disto, mas eu não pirei o cabeção com os últimos discos do Depeche Mode. Talvez porque, ao contrário dele, eu já era nascido quando a banda surgiu. Acompanhei a garotada desde os tempos em que Vince Clarke ainda estava entre eles, e ainda prefiro os singles dessa fase, como os clássicos "Just Can't Enough" ou "Everything Counts". Depois eles foram ficando cada vez mais dark e menos melódicos, e eu fui me desinteressando. Mesmo assim, costumo adquirir todos os novos trabalhos for old times' sake, e dessa vez gostei mais do que esperava. Não, "Delta Machine" não é um retorno aos saltitantes anos 80. As letras ainda falam em morte e desespero, e quase todas as faixas têm pegada meio lenta. Mas as melodias estão de volta, os arranjos mais variados (tem até cordas, de verdade) e Dave Gahan está cantando como nunca. Ele, que não era um grande vocalista quando jovem, agora está em pleno domínio da própria garganta, temperada por anos de problemas pessoais. Um CD para se mergulhar.

O nome Toro y Moi sugere uma dupla, mas na verdade é uma pessoa só: Chazwick Bradley Bundick, um americano que é filho de mãe filipina e pai negro e um dos pioneiros da chamada "chill wave". O rapaz já veio tocar no Brasil e lançou três discos em menos de três anos. Comprei o novo, "Anything in Return", e não me conformo com as faixas escolhidas para single. Nem "So Many Details", do vídeo acima, nem "Say That", são tão "catchy" quanto "Rose Quartz". Mas vai ver que a ideia é essa mesmo.

Termino esse giro eletrônico aqui no Brasil, onde uma das sensações do momento é a Gang do Eletro, de Belém do Pará. Confesso que muitas vezes fico furioso com a ascensão da famosa "nova classe C" e o emporcalhamento cultural que ela impinge ao país. Tenho especial horor ao sertanejo universitário. Mas de vez em quando surgem coisas que me enlouquecem, como o tecnobrega. A Gang do Eletro chega ao sul na esteira de Gaby Amarantos (com quem gravaram a frenética "Galera do Laje"), e não é fácil ouvir seu disco de estreia numa tacada só. Mas não resisto à versão brasileira da batida do reggaetón, nem a letras tipicamente amazônicas como "vou de barco".

Já sei, já sei: está faltando o disco mais importante de todos os tempos desta semana, o "Random Access Memories" do Daft Punk. Acontece que o ancião aqui até tentou, mas não conseguiu baixar o álbum, vazado há poucos dias, de lugar nenhum. Vou ter que esperar pela semana que vem, quando ele chega às boas lojas do ramo, e aí farei um post a respeito. #honesto #velho #ultrapassado

quarta-feira, 15 de maio de 2013

ENROLADA NA PRÓPRIA REDE

A história se repete. Marina Silva jura que agora sim, está mais prafrentex do que nunca, e os hipsters acreditam. Marcam shows em apoio à sua candidatura, criam camisetas e hashtags, acreditam num jeito novo de fazer política. Aí ela vem e caga em cima. Parece aquele escorpião que afundou junto com o sapo no meio do rio, porque não resistiu a picá-lo: Marina simplesmente não consegue ir contra sua própria natureza. Hoje ela pregou um pregão daqueles no caixão de suas pretensões presidenciais, ao dizer que o Infeliciano está sendo "perseguido por ser evangélico". Não, Marina: o cara está sendo repudiado porque é racista, homofóbico, desonesto, estelionatário, despreparado e oportunista. Sei que no Brasil de hoje muitos desses termos servem de sinônimo aos neopentecostais, que deveriam ser os primeiros a refutar excrescências como pastor Marcos Pereira. Marina, como muitos evangélicos, adora dizer que sofre preconceito por sua religião, o que é uma tática de marketing consagrada desde os primórdios do cristianismo. Não, querida, estão aí os vinte milhões de votos que você levou em 2010. Até eu votei em você. Mas não voto mais: não quero mais saber de candidato duas caras, que fica em cima do muro tentando agradar a gregos e troianos. Minha paciência se esgotou. Para mim, a tal da #Rede que Marina Silva quer tecer já nasce furada.

BANHO DE LOJA

Muita gente está se escandalizando com as declarações do CEO da Abercrombie & Fitch, que não quer gente gorda ou feia usando as roupas da marca. O cara só verbalizou o que é prática corrente entre muitas grifes. Até mesmo aqui no Brasil, nesses tempos de "nova classe C", é comum que vendedores de lojas metidas digam que a peça solicitada acabou naquele número, se o comprador não se encaixar nos padrões desejados. Mas os tempos são outros. Hoje todo mundo quer ser "incluído", seja lá no que for. O vídeo acima pode fazer um estrago daqueles no "branding" da A&F, que no fundo sempre foi uma marca brega. Mas cabe a pergunta: ninguém vai protestar contra a Louis Vuitton, que prefere incinerar os produtos encalhados do que vendê-los em liquidação?

DÚVIDA BALCÂNICA

Parou tudo: já começou o Eurovision, o festival de música mais cafona do mundo. A edição deste ano acontece na progressista cidade de Malmö, no sul da Suécia, e conta com alguns desfalques importantes. Países com Portugal, Polônia ou Bósnia simplesmente não tiveram dinheiro para enviar um representante. Já a Turquia ficou de fora porque não concorda com as novas regras de votação, e também porque quer fazer parte do time dos "grandes": os países que já estão automaticamente classificados para a final (hoje são Espanha, Itália, França, Alemanha e Grã-Bretanha). Vão fazer falta, porque a seleção deste ano está beeem fraquinha. Muita baladinha insossa, muito vencedor do "The Voice" local. Tive a pachorra de assistir a todo o vídeo acima e não consegui cair de amores por nenhuma das concorrentes. Mesmo assim, se faz mister escolher uma favorita. Estou dividido entre dois candidatos dos Bálcãs...

Será que torço por por Cezar, o contra-tenor da Romênia? #CastratiFeelings.

Ou pela dupla Esma & Lozano, da Macedônia? A finalíssima deve ser transmitida na tarde deste sábado pela Televisión Española. Que vença o menos horrível.

terça-feira, 14 de maio de 2013

SEGURA O ROJÃO

Vou apertar, mas não vou acender agora. Não vou comemorar a decisão do CNJ de estender o casamento igualitário a todo o Brasil. Ainda não. Porque vivemos num país surrealista: quem garante que amanhã ou depois nossos queridos congressistas não vão criar uma lei proibindo-o em todo o território nacional, para todo o sempre? Joaquim Barbosa já avisou que isto seria um contrassenso, mas desde quando o Brasil faz sentido? Ainda mais agora, com os fundamentalistas convocando uma manifestação monstro (em todos sentidos) em Brasília, no dia 6 de junho. Uma das bandeiras dessa corja é "escolas sem homossexualidade" (que quer dizer exatamente o quê? Escolas sem "kit gay"? Sem professores gays? Sem alunos gays? Todas as alternativas anteriores?). Imagina o escarcéu que vão fazer por causa desta decisão (Malafaia já se manifestou, claro). E o PT, sempre tão a fins de amordaçar o Judiciário, é bem capaz de mandar a causa LGBT para a cucuia, como aliás já fez o governador do Distrito Federal. De qualquer forma, parabéns ao Jean Wyllys, ao João Mdna Junior e a todos os militantes que levaram essa questão até o CNJ. Vocês me representam!

MULHER DE PEITO

O procedimento não é novo. Há mais de uma década que mulheres com casos na família de câncer no seio realizam a mastectomia preventiva. Mas nunca uma celebridade havia vindo a público contar que fez as cirurgias, ainda mais uma do quilate de Angelna Jolie. Confesso que sempre a achei um teco antipática, apesar dela estar envolvida em trocentas causas nobres. Talvez fosse inveja de sua vida perfeita ou de seu eterno ar de rainha dos vampiros. Mas dessa vez Angie merece todos os aplausos. Ao alertar os leigos sobre a existência de um gene defeituoso que propicia o aparecimento de tumores nos seios e nos ovários, ela provavelmente salvou alguns milhares de vidas. Sim, o teste para descobrir se alguém é portador do tal gene ainda é caríssimo, mas basta o histórico familiar para se verificar a tendência. Dois peitos não valem uma vida longa e saudável ao lado do marido e dos filhos, e, além do mais, Angelina já os reconstruiu. Talvez nem precisasse: peito é o que não lhe falta.

(O artigo que ela assina no "New York Times" de hoje pode ser lido aqui.)

COMO ERA GOSTOSO O MEU BEBÊ

Várias das mil maneiras de se acasalar no mundo animal foram retratadas por Isabella Rossellini em suas séries de curta-metragens "Green Porno" e "Seduce Me". Mas, o que acontece depois? Este é o assunto de "Mommas", que acaba de estrear no canal pago americano Sundance. O primeiro episódio já está no YouTube e mostra como a fofa mamãe hamster lida com o excesso de ninhada. Conheço mães humanas que fazem a mesma coisa, ainda que metaforicamente.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

VOCÊ ESTÁ FICANDO COM SONO...

Danny Boyle ee excelente diretor, mas de que adianta isto quando o roteiro não é bom? "Em Transe" começa como mais um filme de roubo no mundo das artes, mas depois faz muita força para se transformar numa variante de "A Origem". Um leiloeiro leva uma pancada na cabeça ao tentar impedir o furto de um quadro de Goya; desmaia, é hospitalizado e, quando acorda, é torturado pelos bandidos para revelar onde escondeu a pintura. Sim, ele era cúmplice, e esta é só a primeira das ligações perigosas que o filme revela. Aos poucos a trama vai ficando mais complicada, e a hipnotizadora interpretada por Rosario Dwason - mais bonita do que nunca, e com intensa presença na tela - é um dos personagens mais mal escritos de toda a história do cinema. "Em Transe" não chega a ser chato por causa da montagem frenética, mas é uma bobagem pretensiosa e colossal. Em momento algum o filme conseguiu me sugestionar de que eu estava me divertindo.

MALHA FINA

Uma matéria assinada pelo Raul Juste Lores na "Folha" de hoje (aqui, para assinantes do jornal ou do UOL) chama a atenção para a situação fiscal de muitas igrejas nos Estados Unidos. Assim como aqui, lá também elas são isentas de impostos. Acontece que uma lei dos anos 50 prevê multas e o fim do privilégio para aquelas que forem ativas politicamente. Nada de sacerdotes recomendando candidatos, nada de doações a esta ou aquela campanha. No entanto as punições são raras, e muitas ONGs pressionam o governo para acabar com essa farra. Seria fabuloso que algo parecido acontecesse no Brasil, mas nossa situação lembra a dos EUA uma década atrás: o fundamentalismo religioso parece cada vez mais forte. O pior é muitas denominações neopentecostais surgem por geração espontânea, justamente para aproveitar as benesses fiscais previstas pela lei. E ai de quem se opuser: será taxado de intolerante, inquisidor, inimigo da liberdade de expressão e representante do diabo na Terra. Enquanto isto, esses pastores pregam o ódio livremente, atacam as religiões de matriz africana e praticam alegremente o mais descarado charlatanismo, vendendo toalhas mágicas e prometendo milagres a mais não poder. O governo não faz rigorosamente nada: cada vez me convenço mais de que político nenhum é favorável ao que quer que seja. Todos estão unicamente interessados a se reeleger, custe o que custar. Já ouvi dizer que a isenção fiscal às religiões é cláusula pétrea da nossa constituição, e portanto "imexível". Pesquisei a respeito e não a encontrei; não sou advogado, talvez não tenha procurado direito. De qualquer forma, uma investigação mais profunda, policial ou mesmo jornalística, certamente que revelaria muitos casos parecidos com o do pastor Marcos Pereira. Mas cadê a motivação para tanto?

domingo, 12 de maio de 2013

SEUS MALES ESPANTA

Agora é moda fazer musicais sobre temas espinhosos. Depois de ver "As Mulheres de Grey Gardens", semana passada, ontem fui assistir a "Quase Normal", sobre uma paciente bipolar. Nada de números de sapateado ou coreografias elaboradas: o que há é praticamente uma peça cantada, na verdade um drama bem pesado. Vanessa Gerbelli está fantástica no papel principal: não é só é uma puta atriz, como canta fantasticamente bem. O resto do elenco não compromete, mas houve um fator que me impediu de mergulhar completamente no espetáculo: a música. Ou melhor, as versões em português de canções escritas com fraseado musical tipicamente americano, para serem cantadas em inglês. Mesmo quando as rimas funcionam, sobra uma sensação de aritficialidade. Ou talvez seja porque eu não tenha nenhum caso de tarja preta na família imediata (na ampliada, sim de todos os lados). Como no filme "O Lado Bom da Vida", eu não me identifico com aquela história. Mas outros, sim: tinha muita gente chorando no teatro, e iso é sempre um bom sinal.

sábado, 11 de maio de 2013

TODO MUNDO GANHA!

O julgamento dos ex-seguranças de PC Farias terminou da maneira mais feliz possível. Os quatro zé manés, que provavelmente abdicaram de suas funções de guardiães em troca de dois tostões e um prato de comida, foram contemplados com a clemência do júri. Esse mesmo corpo de jurados concluiu que sim, PC e sua namorada Susana Marcolino foram de fato assassinados, confirmando assim as suspeitas de 99,999% dos brasileiros. Agora, quem foi que matou? Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém está mais interessado. Dessa forma todo mundo fica contente. Os coitados dos réus saíram soltos, o misterioso assassino permanece nas sombras e o Brasil fica com a indescritível sensação de que sua Justiça faz jus ao nome. Que bom, agora só faltam dois milênios para sermos civilizados!

A MOÇA QUE VIROU SUCO

Minha chapa Marina Person sempre encantou os amigos com as receitas que ela mesma inventa. Agora o resto da humanidade vai poder se deliciar também: ela estreou esta semana o programa "Marinando", em canal próprio do YouTube. Em apenas alguns dias o episódio de estreia já passou de duas mil visualizações, o que já fez o site colocar um anúncio no começo do vídeo. Ou seja, Marina vai faturar uma grana. Ei, por que eu não posto minha receita de gazpacho?

sexta-feira, 10 de maio de 2013

SISSIES ON THE TELLY

Duas séries inglesas de temática gay estrearam há pouco tempo. Uma delas é "Vicious", que conta a história de um casal de senhores que vivem juntos há mais de 40 anos. É estrelada por dois luminares do teatro britânico, Ian MacKellen e Derek Jacobi, e fez tanto sucesso que já tem uma segunda temporada garantida. A outra é uma minissérie de apenas três capítulos (os ingleses gostam de coisas curtinhas) que dá uma cara nova ao tema mais batido do momento: zumbis. Passa-se num futuro onde se descobriu a cura para os mortos-vivos, e tem como protagonista um garoto que se matou porque era apaixonado pelo melhor amigo. Alguém sabe onde podemos ver esses programas com conforto e segurança?

(Thanks galore for the precious tips, Paulo Belem, my dear boy)

ARÁBIA MALDITA

Imagina se eu ia resistir a um filme da Arábia Saudita. Ainda mais o primeiro filme rodado inteiramente no país, que não tem salas de cinema, e, como se não bastasse, dirigido por uma mulher. Só isto já qualifica "O Sonho de Wadjda" como um pequeno milagre. Mas além do mais é um filme político, que protesta contra a maneira absurda como as mulheres sauditas são tratadas. Wadjda é uma menina inteligente que quer comprar uma bicicleta; sua família de classe média até tem o dinheiro, mas acha que não fica bem ela sair pedalando pelas feias ruas de Riad. A própria produção teve toques surrealistas: a diretora Haifaa al-Mansour precisou trabalhar de dentro de uma van, comandando sua equipe por walkie-talkie, já que não podia ser vista em público falando diretamente com homens. Seu filme mostra como muitas mulheres acabam se tornando cúmplices do sistema que as oprime, sem a chatice do cinema iraniano e terminando numa nota otimista. A vida imita a arte: a Arábia Saudita acaba de permitir que mulheres andem de bicicleta, CONTANTO que não estejam indo a lugar nenhum - podem pedalar em círculos, num parque, por exemplo. Mais um descalabro da amaldiçoada cultura wahhabi, que nos brindou, entre outras coisas, com os atentados de 11 de setembro.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

QUANDO VOCÊ ESCOLHEU SER HÉTERO?

Um dos argumentos mais comuns dos defensores da "cura gay" é que ser homossexual é uma escolha. Bichas e lésbicas analisam cuidadosamente todas as opções possíveis e depois tomam a decisão consciente de ter uma vida sexual desviante do padrão vigente, o que lhes renderá uma vida difícil e lhes custará muitos direitos que são garantidos às demais pessoas. Claro que todo gay sabe que isto é balela, mas o que dizemos raramente é levado em conta. Felizmente, esse argumento furado é fácil de ser revertido: basta perguntar a um hétero quando foi que ele escolheu ser hétero. Este singelo vídeo aí em cima mostra como é simples fazer pessoas que pensam assim terem um súbito "insight". E se alguém insistir no erro, sugiro a técnica do meu ídolo Dan Savage. Ele desafiou um religioso homofóbico a provar que a orientação sexual é uma escolha: "escolha ser gay por alguns instantes e venha aqui chupar o meu pau!"

DIZE-ME COM QUEM ANDAS

Estou curioso para ver como a prisão do pastor Marcos Pereira afeta a permanência do Infeliciano na CDH. Pode até vir a calhar: evangélicos, como se sabe, precisam de inimigos o tempo todo, e claro que já estão alegando "perseguição religiosa" e comparando o facínora a Jesus Cristo. Mas o caso de Marocs Pereira lembra o de outros acusados de estupros em série: durante anos a fio nenhuma das vítimas fala nada, até que uma finalmente toma coragem e o denuncia. Aí todas as outras denunciam também. O fascinante é que os preceitos da Adud (Assembleia de Deus dos Últimos Dias, a igreja de Marcos) são parecidos com os do Taliban: a Cleycianne publicou-os na íntegra, com a ressalva de que não se trata de piada. Também é muito esclarecedor este longo artigo de Leonardo Boff , que já está viralizando.

ENFERRUJADO

A história se repete: assisto a um filme de super-herói, acho marromeno e juro que será o último. Passa-se um tempo e outro filme de super-herói é lançado com fanfarra. As críticas são boas: dizem que "reinventa o gênero", "quebra as regras", "dá um sopro de vida à franquia", e lá vai o idiota aqui para o cinema. Aí acho marromeno e juro que será o último etc. Esse padrão se repetiu ontem, quando fui ver "Homem de Ferro 3". É divertido, tem tiradas inteligentes, e qualquer coisa com Robert Downey Jr. imediatamente se destaca do resto da manada. Mas nenhum clichê ficou de fora: do vilão ridículo que quer conquistar/destruir o mundo à "épica" batalha final, cujo resultado não temos nem ideia do que possa ser, SQN. Nem os efeitos são mais de cair o queixo: tenho a impressão de que já vimos tudo, menos um gato parir a si mesmo. Assisti numa sala 4dX, com poltrona chacoalhando e vento e água sendo jogados na minha cara: legal, parece que estamos num parque de diversões. Agora preciso ver um Bergman, que é para o cérebro não atrofiar.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

UM FRAME DE CADA VEZ

Ray Harryhausen morreu ontem, e hoje o YouTube já está pululando de vídeos em homenagem ao cara. Para quem não está ligando o nome à p'ssoa: Harryhausen foi o maior mago dos efeitos especiais de todos os tempos, conseguindo criar monstros incríveis numa época em que não havia computação gráfica. Suas criaturas eram movimentadas frame a frame, com a técnica "stop motion" até hoje empregada nos filmes de Wallace & Gromit. Também teve a sorte de trabalhar numa época em que as aduiências nnao estavam acostumadas a ver qualquer coisa na tela. Hoje, há tantos estúdios de CGI, tanta pressão para baixarem os preços que muitos estão até falindo, por incrível que pareça.

THANK YOU GARY, THANK YOU MARION

Este é o terceiro vídeo de uma faixa do álbum "The Next Day", e o terceiro que eu posto aqui no blog. Mais um sinal de que, visualmente, David Bowie está muito mais interessante do que na música. Também é impressionante sua capacidade de atrair celebridades: depois de Tilda Swinton, agora é a vez de Gary Oldman e Marion Cotillard abrilhantarem esse clipe que lembra "Losing My Religion" do R.E.M. Mas será que alguém ainda se escandaliza com ese tipo de "blasfêmia"?

ATUALIZAÇÃO: Pelo jeito, tem gente que se escandaliza sim. O YouTube retirou o vídeo do ar, horas depois dele subir. Pelo menos ainda dá para vê-lo no canal da Vevo. Caminhamos céleres para uma nova Idade Média?

terça-feira, 7 de maio de 2013

UMA MULHER JOGADA FORA

Quem lembra do final de "Camille Claudel", com Isabelle Adjani? Depois de dizer perseguida pelo ex-amante Rodin e dar vários vexames públicos, a escultora era despachada pelo próprio irmão para um asilo de loucos. Passou os 30 últimos anos da vida internada, sem a chance de exercitar seu talento. Hoje Camille talvez fosse considerada esquizofrênica ou bipolar, e sua condição talvez pudesse ser controlada com remédios. Deu azar de nascer numa época errada, em que moças inconvenientes eram tiradas de circulação sem mais nem menos. Agora sua história triste ganha um novo filme, justamente sobre o período em que esteve presa (esta é a palavra). "Camile Claudel 1915" traz Juliette Binoche no papel título, com uma interpretação que provavelmente será coberta de prêmios. O ritmo é seco e muitas cenas são dificílimas de se assistir, mas é inevitável pensar na maneira complicada como ainda lidamos com as doenças mentais. Conheço tantos casos piores que o de Camille Claudel...

PC DO B

Vivo, PC Farias encarnava muito do que o Brasil tem de ruim: o corrupto quase ostensivo, que se gabava de seu poder escuso e da certeza de impunibilidade. Morto, PC se tornou o centro de uma trama emblemática do pior do nosso país. O mistério que envolve o assassinato dele e da amante nem é tão misterioso assim, mas não há provas concretas: só suspeitas e medo. O julgamento dos quatro seguranças que deveriam protegê-lo, inacreditáveis 17 anos depois do crime, testemunha a morosidade da nossa justiça, a impotência dos nossos promotores e a permanência indecente das estruturas arcaicas na política do Nordeste (e não só lá, infelizmente).

TODA CANALHICE SERÁ PREMIADA

Reparou como, na imensa maioria das séries de TV, o homem é um paspalhão ou um mau-caráter enquanto que todas as mulheres são perfeitas? Este padrão se repete de "Os Simpsons" a "Louco por Elas". Mas até que enfim surge uma sitcom disposta a revelar o lado negro feminino. Não por acaso, ela é escrita e dirigida por uma equipe quase toda composta por mulheres, capitaneada pela ótima Anna Muylaert. "As Canalhas" esterou ontem no GNT e o primeiro episódio foi irretocável: a história de uma quarentona que se envolve com um moleque de 18 anos, só para descobrir depois que se trata do namorado da filha. O melhor é que sim, há drama interior, mas sem punição ou lição de moral. O programa é no formato antologia, com novos personagens toda semana, e eu não quero perder nenhum capítulo. Tanta qualidade chega até a me assustar: tenho um projeto de série tramitando lá no GNT, e vejo que o nível de exigência está alto pacaray.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

CUMISINHA

Uma empresa americana está desenvolvendo o primeiro preservativo exclusivo para o sexo anal, para ser usado do lado de quem fornece o rabicó. Se aprovado pelo FDA, chega ao mercado em 2015 (eu sei! tempo demais!) O troço parece ótimo, mas o vídeo de demonstração é dos mais brochantes de todos os tempos.

A FELICIANA DA ITÁLIA

Menos de 24 horas. Foi o quanto Micaela Biancofiore durou no cargo de sub-ministra das Igualdades, um posto no governo italiano que tem algumas semelhanças com o de presidente da Comissão de Direitos Humanos da nossa Câmara de Deputados. Tudo porque a bonitona disse que os gays "se isolam em guetos por si sós", e olha que ela só estava criticando a indiferença dos líderes LGBT locais às causas feministas. A gritaria foi tanta que o recém-empossado primeiro-ministro Enrico Letta transferiu-a para o Ministério da Administração Pública e Simplificação. Micaela é do partido Forza Italia, de centro-direita e fundado por Silvio Berlusconi - não exatamente um paladino dos direitos igualitários. Já tinha dado declarações polêmicas antes, mas nada que se aproxime das boutades fundamentalistas do nosso Infeliciano. Mesmo assim, não ficou nem um dia num cargo-chave para a causa gay na Itália. Sim, na Itália: o mais atrasado país da Europa Ocidental nesse quesito, onde a Igreja faz e desfaz e o machismo está impregnado na cultura como o molho de tomate no macarrão. Moral da história: o novo governo italiano precisa estar bem com os gays se quiser sobreviver. O daqui não precisa.

TEMPO SEMI-PERDIDO

Quem adora Renato Russo também vai adorar "Somos Tão Jovens". Mas quem quiser saber mais sobre a vida do cantor em seus anos de formação, pré-Legião Urbana, vai sair do cinema sem ter aprendido muita coisa. O garoto que aparece na tela é meio pedante, metido a intelectual e ligeiramente confuso em sua sexualidade. Mas não se envolve com drogas, não namora nem transa com ninguém, não briga a sério nem com os amigos nem com os pais. É só um adolescente feio e chato. O filme é uma biografia chapa-branca do cantor, que, mesmo depois da morte, continua mantendo em segredo quase toda sua vida íntima e amorosa. Não que tenhamos o direito de saber tudo, é claro. Mas desconfio que, com um material tão ralo, "Somos Tão Jovens" só irá agradar aos "legionários" mais radicais, que poderão matar um pouco as saudades do ídolo e se divertir em identificar nomes como Herbert Vianna ou Dinho Ouro Preto entre os integrantes da primeira geração (única?) que botou Brasília no mapa cultural do país. Renato Russo merecia um filme bem mais selvaaaagem. (Falo mais sobre o assunto aqui, na minha coluna de hoje no F5)

domingo, 5 de maio de 2013

ISTO É O FIM

Este trailer parece esquete do "Saturday Night Live", mas é de um filme de verdade. Melhor momento? Rihanna sendo tragada por uma cratera que se abre.

sábado, 4 de maio de 2013

PRAGAS DE JARDIM

"As Mulheres de Grey Gardens" é uma experiência teatral das mais esquisitas. A começar pela história, que já rendeu um documentário premiado e um filme da HBO: duas milionárias falidas, mãe e filha, que se isolam do mundo numa mansão à beira-mar e nunca mais lavam um prato ou levam o lixo para fora, até o lugar se transformar num autêntico aterro sanitário. Que ótima matéria-prima para um musical, não é mesmo? Até seria, mas as músicas não ficaram boas e as versões em português soam meio canhestras. Some-se a isto a estranha disposição da Sala Baden Powell, no Rio (que é inclinada para trás, como um avião decolando) e uma platéia pela metade e algo frio, e o resultado é bizarro. Pelo menos o talento de Soraya Ravenle sobrevive intacto, mas Mirna Rubim, apesar de cantar bem, não tem o carisma de Suely Franco, que precisou deixar a produção. Não desgostei ( não desgosto de nada. Que tenha Pierre Baitelli no elenco), mas não foi o delírio camp que eu esperava.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

É PROIBIDO FUMAR

Responda rápido: qual é o verdadeiro prejuízo que a homossexualidade causa à sociedade? Hmmm... os homossexuais costumam não ter filhos? Errado, porque padre católico também não tem. Talvez porque... hã... Pois é: como é difícil apontar um problema realmente sério causado pelos gays, os homofóbicos inventam. Uma acusação frequente é de que todas as bichas são pedófilas (mentira, há muito mais héteros que comem criancinhas do que homos), ou de que transmitem doenças venéreas só pelo olhar (e as lésbicas, que raramente têm DSTs?) Como esses argumentos já não colam como antes, o negócio é apelar. Esta semana saiu nos Estados Unidos este vídeo asqueroso, em que a homossexualidade é considerada "ainda mais perigosa" do que o hábito de fumar. O discurso é tão patético que atéo YouTube removeu o troço do ar - que subiu de volta como espelho, para ser estudado e repudiado. É um sofrimento ver até o fim, mas necessário: precisamos conhecer o inimigo, para melhor derrubá-lo.

Ah, em tempo: o "verdadeiro prejuízo" causado pela homossexualidade é contra a estrutura patriarcal e machista. Mas isto é tão complicado de entender que os homofóbicos preferem dizer que foi "Deus" quem quis assim.

A RAINHA DESENXABIDA

Maria Antonieta é um personagem do qual o cinema nunca se cansa. Um novo filme sobre a rainha aparece a cada seis ou sete anos, talvez por ela ter sido uma figura histórica que vivenciou quase tudo - do fausto mais opulento ao sofrimento mais atroz. "Adeus, Minha Rainha" conta só um pedaço da história, e do ponto de vista da leitora particular da soberana. É uma das atrações de mais um Festival Varilux do Cinema Francês, e deve entrar em cartaz normalmente em breve. Também é uma obra austera, sem nada da féerie visual do "Maria Antonieta" de Sofia Coppola. Quase toda a ação se passa nos aposentos privados do palácio de Versailles, que aparecem pobrinhos e até mesmo sujos. Cenários e figurinos também não são de encher os olhos, uma raridade neste tipo de filme. Ainda assim, "Adeus, Minha Rainha" ganhou os prêmios César nessas categorias, talvez por falta de concorrência. A história conta como essa criada tão íntima da monarca acaba se decepcionando justamente por ter sido tão fiel a ela, e lança mais do que uma suspeita sobre o possível lesbianismo de Antonieta. Mas o roteiro é tão lacônico que eu fiquei com a sensação de que o livro deve ser melhor, e o visual tão simples que o orçamento da produção não deu para muito.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

DE BAD BOY A PIOR

Tenho uma preguiça master desse filho do Edir Macedo. Uma hora o moleque posta vídeos "ousados" na internet e todo mundo comemora a hipocrisia da Igreja Universal. Agora ele desmente o site "O Fuxico Gospel" e jura que, apesar das muitas matérias já publicadas, nunca foi gay e nunca o será. Além da valiosa informação sobre a existência de um site chamado "Fuxico Gospel", não vejo muitas entrelinhas nessa notícia. Moisés Macedo me parece mais um garoto pseudo-rebelde do que um mártir da causa LGBT. Se ele está sendo massacrado pela IURD ou se foi cooptado pelo poder do pai, talvez só saibamos daqui a alguns anos. Ou não. Por enquanto, estou mais interessado na Taça Libertadores, e olha que eu não estou nem aí para o futebol.

PROGRAMA DE FIDELIDADE

Um comentário no post logo abaixo perguntou se a fidelidade é possível num relacionamento homossexual. Possível eu acho que é, mas será que ela é mesmo necessária? Antes que me chamem de promíscuo ou pervertido, gostaria de lembrar que a fidelidade conjugal é um conceito machista, criado para controlar as mulheres e determinar com o maior grau de certeza possível quem é o pai da criança. Homens não engravidam, então esse valor patriarcal parece meio sem sentido quando aplicado entre os gays. Por outro lado, a fidelidade é valorizadíssima na nossa sociedade, seja a um cliente, a um empregador ou à pessoa amada. Mas também acho que não existe uma regra universal, válida para todos os casos. Cada casal precisa chegar num acordo e traçar os próprios limites. E você, o quê acha? O que é ser fiel para você?

quarta-feira, 1 de maio de 2013

DE NOVE EM NOVE ANOS

"Antes do Amanhecer" foi lançado em 1995 e contava a história de um americano e uma francesa que se conhecem num trem em Viena. Os dois passam a noite perambulando pela cidade e acabam se apaixonando. Marcam um encontro para dali a seis meses. Em 2004 saiu "Antes do Anoitecer", onde descobrimos que ela faltou a encontro. Mas eles voltam a se cruzar, dessa vez em Paris, e finalmente resolvem ficar juntos. Essas duas comédias românticas ganharam mais uma continuação, "Antes da Meia-Noite", que estreia no Brasil em junho. A tarefa do diretor Richard Linklater é das mais ingratas: agora o casal vive junto há quase uma década, com duas filhas, contas a pagar e o desgaste do dia-a-dia. Mas pelo trailer dá para perceber que ainda sobra encantamento na vida dos dois, realçado por belíssimas paisagens na Grécia. Claro que eu acho que reconheço muitos lugares onde acabei de estar, o que só me aumenta a vontade de ver este filme.