quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

ABENIDA BRASSIL

¡Carmiña! ¡Mamá Lucinda! ¡Jorgito! ¡El tiradero! ¡Sírveme, zorra!

MATE-SE, CALHEIROS

Um dos primeiros posts que escrevi aqui no meu blog, quase seis anos atrás, comparava a atitude do então presidente do Senado Renan Calheiros com a de alguns políticos japoneses. Quando acusados de corrupção, estes últimos cometeram seppuku, o suicídio ritual (mais conhecido no Ocidente como hara kiri). Calheiros não só não sentiu um pingo de vergonha por ser pego no flagra como ainda reclamou de invasão de privacidade; hoje em dia ele se diria vítima de bullying. O escândalo de 2007 foi grande o suficiente para fazê-lo renunciar, mas o sacripanta não perdeu os direitos políticos - e foi reconduzido gloriosamente ao Senado nas eleições dde 2012, pelos mesmos alagoanos imbecis que preferiam eleger Collor no lugar de Heloisa Helena alguns anos antes. Hoje Calheiros está a ponto de retomar o cargo que perdeu, sem nenhum opositor decente. E aí cabe a pergunta: adiantou alguma coisa? O Brasil mudou mesmo, como gostamos de pensar? Eu acho que sim, que a sociedade mudou, mas que esta evolução ainda não chegou ao Congresso. Então nos resta fazer barulho. Três anos atrás, lancei aqui no blog a campanha "Morre, Sarney", tentando convencer o longevo senador pelo Amapá a caminhar em direção à luz por livre e espontânea vontade. Não adiantou, é óbvio: ele ainda está por aí todo pimpão, como se nada. Ainda assim, proponho um novo movimento cívico, e dessa vez voltado a Renan Calheiros. Não basta ele fechar os olhinhos e encomendar a alma a Deus: a única maneira de lavar a honra de seu nome é cometendo seppuku. Pense em seus herdeiros, senador! Pense no fardo que sua filha bastarda com aquela modelo-e-atriz vai carregar! Mas sei que não vai adiantar, pois o cara não tem um pingo de decência. E nem os que estão reelegendo-o. Seppuku em todos, então.

MATARAM "LINCOLN"

Eu adoro história, adoro política e estava pronto para adorar "Lincoln" também. O simples fato do roteiro ser assinado por Tony Kushner já me deixava arrepiado: o cara não só escreveu "Angels in America", a melhor e mais importante peça americana dos últimos 20 anos, como também o roteiro de "Munique" - o primeiro filme realmente adulto da carreira de Steven Spielberg. "Lincoln" também não é para a petizada, mas nem por isto é bom. Para começar, não há tensão nem suspense: todo mundo sabe que a abolição da escravatura será aprovada, e também o que acontece com o presidente no final. Até aí tudo bem: o filme quer mais é mostrar os meandros do poder, as negociações mesquinhas, o dilema de alguns políticos entre fazer o que seu eleitorado conservador espera deles ou ficar do lado certo da história. Como bem apontou o José Simão, hoje em dia Lincoln seria acusado de promover um autêntico mensalão: ele não chega a oferecer dinheiro aos indecisos, mas cargos estatais cada vez mais apetitosos. Claro que é interessante saber como as coisas realmente se passaram, e o filme tem bastante acuidade histórica. Foi incensado pela crítica americana e arrasou nas bilheterias de lá, acumulando mais de 150 milhões de dólares. Mas para nós, que mal estudamos a história de outros países no colégio, "Lincoln" chega a ser enfadonho. E ainda tem mais uma performance exageradíssima de Daniel Day-Lewis, o ator mais sobrevalorziado da atualidade. Achei que ele estava canastrérrimo em "Sangue Negro", que lhe valeu o segundo Oscar, e extraordinariamente mal-escolhido em "Nine", sem um pingo da sensualidade necessária ao personagem. Aqui ele consegue a proeza de parecer mais jovem do que é debaixo da maquiagem pesada: talvez seja culpa da voz aguda que adotou para Abraham Lincoln, que não confere autoridade nem eloquência. "Lincoln" despontou como favorito para o Oscar deste ano porque é um filme auto-proclamado "importante" sobre um vulto realmente importante, mas fracassa lindamente como entretenimento. Os membros da Academia se deram conta disto e agora parecem que vão dar o prêmio máximo ao filme de que realmente gostaram - "Argo", que é consequente sem deixar de divertir. "Lincoln" levou um tiro e agora está agonizando.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

AND NOW IT'S TIME FOR A BREAKDOWN

Este blog anda sério demais, com muito debate sobre questões de política e religião. Bora baixar o nível? Então, para quem ainda não viu, lá vai o vídeo mais divertido do ano até agora. Não bastasse a drag americana Willam Belli cantar horrores, ela ainda chamou as zamigue Detox e Vicky Vox para ficar com cara de um encontro dos sonhos entre Britney, Cher e Adele. Só que melhor, dick-pig.

I DREAMED A DREAM IN CAIRO

Há cerca de dois anos, fiz um certo carnaval aqui no blog em comemoração à Primavera Árabe. Posts como este, saudando a queda de Mubarak no Egito, já soavam meio ingênuos na época. Hoje, então, parecem ter sido escritos por Poliana sob o efeito do MDMA. Em vista das últimas escaramuças no Cairo, o Daniel e o Luciano me enviaram por Facebook este comentário do Arnaldo Jabor aí embaixo, exibido ontem pelo "Jornal da Globo". Achei lúcido e interessante, mas acho que o Jabor passa por cima de duas coisas. Primeiro: ele faz a Primavera Árabe ser "about us", o Ocidente. "A grande mudança foi o fim da nossa ingenuidade..." Não, a grande mudança foi lá mesmo: a juventude árabe descobriu que tem força para derrubar ditaduras. Foram os jovens desempregados que começaram os protestos na Tunísia e no Egito, não a Irmandade Muçulmana - que já estava por lá há décadas mas nunca conseguiu colocar tamanhas multidões nas ruas. E é essa garotada que agora volta a protestar, descontente com o fato do Egito caminhar célere para uma teocracia. Sim, eu e muitos outros estávamos impacientes. Queríamos ver logo democracias florescerem no mundo árabe. Mas este é sempre um processo longo e doloroso: lembremos que, da queda da Bastilha à proclamação de uma república funcional e democrática na França, passaram-se mais de 100 anos. Em outras palavras: "Les Misérables" está acontecendo no Egito neste exato momento. But the tigers come at night...

(E agora um pouco de galhofa: este tumbl'r aqui solta memes com cenas do filme "Les Miz" com diálogos do em-vias-de-se-tornar-um-clássico "Garotas Malvadas", aquele filme sobre meninas de high school escrito por Tina Fey e estrelado por Lindsay Lohan. Foi de lá que tirei a ilustração deste post.)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A TUA HOLANDESA NÃO PODE ESPERAR

Não resisto a uma casa real. Cheguei a votar pela volta da monarquia naquele plebiscito bizarro de uns vinte anos atrás, para horror da minha saudosa avó - o avô dela foi um dos líderes do movimento republicano brasileiro. Mas a notícia da iminente renúncia da rainha Beatrix ao trono da Holanda me deixou assim assim. Ela segue o exemplo da mãe e da avó, que também abdicaram por volta dos 70 anos. Até aí zuzo bem: é a tradição do país ter no trono alguém razoavelmente em posse de suas faculdades físicas e mentais. Acontece que a monarquia não é tradicional na Holanda. Ela foi imposta há 200 anos por Napoleão, que acabou com uma das mais antigas repúblicas da Europa. Pelo menos ele não conseguiu acabar com a atmosfera de tolerância e liberalidade do país, que vem desde o século 16. Além do mais, a família real holandesa deixa a britânica parecendo um convento. O atual príncipe-consorte recebeu propina num escândalo de venda de aviões. A futura rainha Máxima é filha de um general torturador da Argentina. E a brincadeira toda queima uma fortuna absurda: a monarquia holandesa é a mais cara da Europa. Custa quatro vezes mais que a espanhola. Ainda assim, Beatrix sai de cena com 80% de aprovação popular. Enquanto isto, do outro lado do canal da Mancha, a rainha Elizabeth II nem cogita o assunto. Os britânicos ficaram traumatizados com a renúncia de Eduardo VIII em 1936, para se casar com Wallis Simpson. Lilibeth vai reinar até o fim - nem que viva mais de 100 anos, como sua mãe. Aos 64 anos, o príncipe Charles já é o mais velho herdeiro que o país já teve. Quando o dia dele chegar, vai precisar de um trono de rodas.

CARGA PESADA

Muita gente está indignada com a charge de Chico Caruso que foi publicada ontem na primeira página d'"O Globo". Tem até blogueiro petista espumando que este é mais um golpe baixo da família Marinho em sua cruzada contra o governo. Eu não vejo assim. Até demorei a perceber que é a Dilma quem se espanta com o incêndio: pensei que fosse uma pessoa qualquer. Descontada a minha visão sofrível, é importante lembrar que charge não é sinônimo de piada. Sim, hoje em dia cerca de 99,9% dos cartuns veiculados pela imprensa se pretendem engraçadinhos, mas nem sempre foi assim. A charge é uma representação gráfica de um acontecimento recente que transmite uma carga opinativa, ou pelo menos uma emoção. É um mini-editorial sem palavras (ou com poucas, vá lá - o desenho é o mais importante). Muitas vezes é pura tiração de sarro, mas às vezes não é. Lembro da gritaria provocada por esta charge aqui, publicada pela "Folha de São Paulo" na época do tsunami que arrasou o Japão em 2011. O autor, João Montanaro, tinha então apenas 14 anos. Mas não foi ingênuo: simplesmente juntou a manchete do dia com um estilo milenar japonês. Não era para arrancar risadas, mas inúmeros leitores se ofenderam. Agora o escândalo é ainda maior, porque uma figura política está representada no desenho de Caruso. Mas eu não vejo ali uma acusação: vejo a presidente horrorizada como qualquer um de nós, sublinhada por um trocadilho óbvio e infame com o nome da cidade gaúcha. Tem graça? Nenhuma. Era para ter? Acredito que não. Inoportuna, insensível? Hmmm, pode ser. Estamos todos sensibilizados com a tragédia (cheguei a discutir no Facebook com gente que mal conheço só porque perguntei se a Kiss era uma boate gay - as primeiras imagens que vi numa TV sem som mostravam dois caras sem camisa e abraçados). Todo mundo erra, e tanto Caruso como "O Globo" podem ter errado ontem. Mas não vejo na charge um ataque político - apesar da palavra "charge" querer dizer "carga" em francês. A carga que se atira contra um alvo. E você, vê o quê?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

WHAT IS A NINTENDO?

Para relaxar tanta tensão: como seria um game vintage de "Downton Abbey"?

EU SOU VOCÊ AMANHÃ

A boate estava abarrotada. O show começou: aplausos, gritos, alegria. Alguém soltou um rojão. As faíscas atingiram o teto e em poucos minutos o lugar inteiro estava em chamas. Morreram 194 pessoas - quase meia a centena a menos do que em Santa Maria. Ainda assim, a comoção provocada pelo incêndio da República Cromañon, na noite de 30 de dezembro de 2004, foi tão grande que a tragédia logo foi chamada de "11 de setembro da Argentina". Um trauma nacional parecido com o do naufrágio do Bateau Mouche no réveillon de 1988 para 89, quando o Brasil inteiro sentiu uma espécie de culpa coletiva. Mas a repercussão por lá foi ainda maior. Durante meses, rigorosamente todas as boates de Buenos Aires permaneceram fechadas, tivessem alvará ou não - já pensou no prejuízo? E uma autêntica caça às bruxas começou. Omar Chabán, o dono do cenário da tragédia, foi transformado em inimigo público número 1. Pegou 20 anos de cadeia, mas não sobrou só para ele. Também foram condenados o gerente, vários funcionários públicos e até mesmo os membros da banda Callejeros (até hoje se discute se foi um deles ou alguém da plateia que teria soltado o fatídico rojão). E as feridas seguem abertas, com direito a páginas no Facebook e manifestações esporádicas de parentes das vítimas.

Ontem a desgraça se repetiu, com ainda mais mortos e detalhes ainda mais horripilantes. É inacreditável pensar que, mesmo depois do incêndio da Cromañon, alguém ainda solte fogos de artifício em ambientes fechados. Aliás, bem mais do que soltar: a banda Gurizada Fandangueira usava tantos efeitos pirotécnicos em seus shows que é até de se admirar que o fogaréu não tenha acontecido antes. A culpa começa com eles, não resta a menor dúvida, mas não acaba. Empresários, seguranças, autoridades, todos têm a sua parcela. É um replay perverso do antigo "efeito Orloff", cujo nome foi inspirado por um comercial de vodka: nos anos 80, tudo o que acontecia na economia argentina, se repetia na brasileira pouco tempo depois. "Eu sou você amanhã". Quem se lembra?

Eu era adolescente quando arderam os edifícios Andraus e Joelma em São Paulo, e até hoje a imagem deles me persegue. Pois morreu ainda mais gente em Santa Maria... Morreu mais gente do que no desastre da TAM em Congonhas, no da Gol na Amazônia, no da Air France no Atlântico. Uma única família perdeu quatro de seus filhos - eu comecei a chorar quando vi a notícia na TV. Desculpe-me quem acredita nessas coisas, mas se Deus estava precisando de uma nova tropa de anjos, então porque Ele não vai tomar no cu?

Um acontecimento desses faz a gente se descontrolar. Quando recuperarmos a calma, é bom repensar um monte de coisas. As entradas e saídas das casas noturnas, por exemplo. Elas são feitas jutamente para controlar a circulação das pessoas a conta-gotas. E o sistema de pagamento por cartões, tão raro em outros países? É mesmo o melhor? Veja bem, não estou acusando ninguém. Mas temos que debater as alternativas e exigir o máximo de segurança desses lugares. De qualquer lugar. A responsabilidade também é nossa.

A resposta argentina ao incêndio da República Cromañon foi duríssima. A cultura penal dos nossos hermanos é bem mais dura do que a tupiniquim: lá ainda existe prisão perpétua, por exemplo. Por aqui, não só duvido que tanta gente seja condenada, quanto mais que cumpram penas significativas. Mas isto, sinceramente, agora é o de menos. A dor e o choque neste momento são incomensuráveis. Quando diminuírem, temos que fazer o possível para que esses horrores não se repitam e mudar até mesmo a nossa maneira de pensar. Caso contrário, aquela gurizada toda terá morrido em vão.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A FIGHT FOR LOVE AND GLORY

Terminou hoje o seminário “Story” que Robert McKee deu no Rio de Janeiro. Estou cansado como se tivesse corrido a maratona de salto alto. Não é mole passar quatro dias, oito horas por dia, sentado numa cadeira dura ouvindo um sujeito falar sozinho num palco. É o mais longo número de stand-up do mundo. Durante os três primeiros dias, há pouquíssimo suporte visual: meia-dúzia de gráficos bem basicões e olhe lá. McKee ilustra seus conceitos citando centenas de filmes, sem projetar absolutamente nada. O aluno tem que puxar da memória (muitos títulos eu vi décadas atrás) ou simplesmente imaginar (foi o que fiz com o “Diabolique” de Clouzot, que ele contou do começo ao fim – e agora tenho a sensação de ter visto o filme). Mas os pontos que o mestre ensina vão muito além dos meros roteiros. Fica claríssimo que o homem só entende o mundo e a si mesmo contando histórias. Ou melhor: contar histórias é a única maneira de dar algum sentido a um mundo desprovido dele. Religiões e histórias, aliás, são no fundo a mesma coisa. Ambas têm a mesma origem, os mitos, o mais antigo gênero literário da humanidade.

Hoje a carga foi mais leve. McKee projetou “Casablanca”, e foi parando o filme quase que cena a cena para fazer comentários. Eu só tinha visto esse clássico indispensável há mais de 20 anos, na TV, e foi como se eu fosse quase virgem (digo quase porque há pelo menos algumas falas que qualquer pessoa razoavelmente educada conhece de cor). A interpretação dos atores parece meio exagerada para os padrões de hoje, mas todo o resto permanece moderníssimo. Não, não é este o termo: “Casablanca” é extraordinariamente sofisticado, sem deixar de ser entretenimento em estado puro.

Diálogos, enquadramentos, direção de arte, figurinos, tudo salta aos olhos com novos significados – alguns até óbvios, muitos surpreendentes. Várias sequências foram repassadas três ou quatro vezes, no limite da encheção de saco. Mas a experiência foi estarrecedora de tão rica. No final, McKee divide com a plateia sua teoria para as razões que mantiveram esse filme em voga por mais de 70 anos. Segundo ele, “Casablanca” responde, de maneira subliminar, à pergunta que aflige o Ocidente desde os filósofos pré-socráticos: qual é a essência da realidade, ser ou mudar? A resposta aparece quando Rick e Ilse se despedem na pista do aeroporto: as duas coisas.

Até gostaria de me afundar nos detalhes, mas aqui não dá. Recomendo o seminário “Story” (que não é bem uma oficina, porque não há exercícios em classe nem lição de casa) não só para os roteiristas diletantes, mas para todo mundo que gosta de cinema, TV, teatro, literatura ou contar histórias ao redor de uma fogueira. Voltei para São Paulo com o corpo doído como depois da proverbial surra de cabo de vassoura, mas com a cabeça encharcada de ideias. Agora recomeça a luta pelo poder e a glória: vencer a inércia e colocar no papel pelo menos algumas delas. “You must remember this”, sussurram os botões.

BEM DITTA SEJA

O seminário do Robert McKee me deixou num bagaço absoluto. Hoje só tenho forças para postar este clipe formidável da dupla inglesa Monarchy, com participação da über-stripper Ditta Von Teese. Os vocais dela não são grande coisa, mas who cares? Dá para baixar um remix de graça e dentro da lei daqui, do site da banda. E agora deixa eu correr porque já estou atrasado.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O MEU MESTRE E O OUTRO

As aulas do McKee deixam a gente louco para ir o cinema e aplicar o que aprendeu. Ontem fui ver "O Mestre" e consegui identificar todos os elementos da estrutura: alá o incidente iniciante, olha o final do primeiro ato, eis o clímax do meio do segundo ato, toma a situação sem retorno do epílogo. A trajetória do protagonista ficou claríssima para mim. E percebi que, apesar de ser um filme bem estranho, "O Mestre" segue um roteiro de design clássico. O problema, para boa parte do público, é que o personagem de Joaquin Phoenix não é nem simpático nem gera empatia. É um ex-soldado que já foi fudido para a guerra (pai alcóolatra, mãe maluca) e volta de lá sem eira nem beira, cheio de tesão e agressividade que ele não consegue controlar. Aí conhece o tal do mestre, inspirado em L. Ron Hubbard - o fundador da cientologia. O filme está sendo anunciado no Brasil como a história da misteriosa religão de Tom Cruise, e aposto que seria mais envolvente se fosse isto mesmo. Mas o diretor Paul Thomas Anderson está mais interessado nos problemas de seu recruta, muito mais do que qualquer pessoa na plateia. Tanto que muita gente saiu no meio. Mas eu fiquei até o fim, e gostei mais de ter visto do que do filme em si. Não me emocionou, e vai ver que foi isto mesmo que me deixou ver seu esqueleto. Os ensinamentos de mestre McKee surtiram efeito.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

NÃO SAIA DE CASA SEM ELA

O primeiro dia do seminário do Robert McKee foi exaustivo e intrigante. A aula na verdade é uma performance, como ele próprio admite. Um longo stand-up cheio de momentos em que ele sai do roteiro, kkkk, e se envereda por divagações antes de retornar ao assunto principal. Mas dos alunos ele exige concentração absoluta. Se um celular tocar, o dono é multado em 20 reais; se tocar novamente, expulso da sala. Mas hoje nenhum tocou, e ele pôde dividir à vontade suas impressões da recente safra brasileira. Achou "O Palhaço" bonitinho, mas desprovido de conflito: ninguém jamais tem a menor dúvida que o protagonista não conseguirá ser outra coisa da vida além de palhaço. Gostou mesmo foi de "Avenida Brasil", da qual viu cinco capítulos legendados. Disse que foi tragado para a ação desde o começo, e que as primeiras cenas já deixam muito claro quem é quem sem precisar de exposição. Também falou que se trata de uma comédia, se bem que negra. Esta opinião me deixou encafifado. Comédia? Uma história de abandono e vingança? Bom, claro que há muitos elementos cômicos, a começar pelo estilo de perua suburbana da Carminha. E só mesmo com alguma leveza que uma história daquelas consegue viralizar - lembra quando o Brasil inteiro congelou sua fotinha, ou do bordão "me serve, vadia"? E aí pensei que "Salve Jorge" não estava rendendo igual por que é ainda mais barra pesada. A não ser, é claro, a personagem mais hilária da novela: a vilã Lívia Marini, digna de entrar para o elenco do "Mulheres Ricas". Semana passada ela estrelou seu primeiro "meme" ("Vi suas fotos no Instagram, você já pensou em ser modelo?"), e agora ressurge gloriosa nesta imagem aí de cima, depois de ter protagonizado o assassinato mais "camp" da história da nossa TV. Taí um traço bem brasileiro: a gente transforma qualquer tragédia em galhofa.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O DONO DO "STORY"

Ao longo desta quinta-feira, me perdoe se você mandar um comentário para cá e ele demorar a aparecer. Vou estar enfurnado no seminário "Story", promovido pela Globosat no Rio de Janeiro. Este curso de quatro dias fez a fama de Robert McKee, o maior guru de roteiros de Hollywood (também tem o "Genre" e algumas variações). Amigos meus que já estudaram com ele dizem que o cara tem TOC em estágio avançado. Ninguém pode falar na sala de aula, nem levantar para ir ao banheiro, nem piscar, nem rspirar. Também são proibidos os celulares, óbvio, e não há wi-fi para se conectar os computadores. Neguinho tem que prestar a maior atenção na aula, e é isto mesmo o que eu vou fazer. Mas quem quiser aprender com McKee não precisa se submeter a tanto: seu livro "Story" já existe em português, nas boas casas do ramo. E agora dá licença, que eu tenho que correr pro curso.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O EVANGELHO DA INTOLERÂNCIA

Boa parte do mundo se escandalizou quando parlamentares de Uganda propuseram que os homosseuais do país fossem condenados à morte. A pressão internacional foi tão grande que agora este infame projeto de lei está numa espécie de limbo, e dificilmente será aprovado com todas as letras. Mas a homofobia come solta naquela pequena nação africana: volta e meia surgem notícias de que algum militante da causa LGBT foi assassinado. Agora está ficando claro que boa parte deste preconceito mortal é alimentada por missionáruos evangélicos americanos, que por sua vez dependem das doações generosas de seus compatriotas. O documentário "God Loves Uganda": está sendo exibido esta semana no festival de Sundance e levanta luz sobre esta conexão perigosa. Seu diretor, Roger Ross Williams, foi o primeiro negro a ganhar um oscar de direçãio (pelo documentário "Music for Prudence", de 2010). É apavorante como alguns fanáticos conseguem inflamar um país miserável, apontando os gays como bodes expiatórios dos muitos males que afligem a população. Parecido com o que acontece num outro país, nem tão pobre assim.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

SENECA FALLS, SELMA, STONEWALL

Quem diria que o Obama citaria um bar gay em seu discurso de posse do segundo mandato? Stonewall é o marco zero da luta pelos direitos igualitários: o bar onde, em junho de 1969, as bichas se revoltaram. Cansados de irem presos simplesmente por estarem ali, os frequentadores do lugar formaram barricadas e atacaram com o que tivessem à mão os policiais que queriam levá-los em cana. Este episódio deu origem às paradas gays (que, na maior parte do mundo, acontecem em junho) e à mobilização política que nos permitiu sair do armário. E ontem foi alçado ao mesmo patamar de duas outras datas simbólicas: a primeira reunião das militantes americanas pelo voto feminino, em 1848, na cidade de Seneca Falls, no estado de Nova York; e o ataque brutal da polícia contra uma manifestação pelos direitos civis dos negros em 1964, na cidade de Selma, no Alabama. Mulheres, negros, homossexuais: lutas distintas, a mesma luta. Mas é óbvio que Obama só disse tudo isto porque quer ficar do lado da maioria. É bom lembrar que, enquanto lhe foi conveniente, ele não se posicionou a favor do casamento gay. Coisa parecida se passa com os nossos políticos, que se gabam do apoio dos homofóbicos e sancionam leis pelo resgate dos valores espirituais. Mas um dia o vento muda, e eles terão que mudar também.

AIÔ SILVA

O capixaba Lúcio da Silva Souza achou que estava sendo esperto ao adotar o mais comum de seus comunérrimos sobrenomes como nome artístico. Mas acabou criando um problema para si mesmo, nesta era de buscas pela internet: experimente googlar "Silva" para ver o que aparece. A única maneira de conseguir alguma informação sobre o rapaz é acrescentar à busca o nome de seu excelente disco de estreia, "Claridão". Nem mesmo sua fanpage no Facebook esclarece muita coisa. Mas o que importa mesmo é que se trata de uma figura incrivelmente original dentro da música brasileira. O som de Silva não se parece com nada: não é rock, não é samba, não é influenciado por Caetano. O que é mesmo é pop de alta qualidade, sem medo de cantar em português nem de abusar dos teclados eletrônicos. Voz límpida, arranjos sofisticados, letras intimistas - eu não ficava assim de entusiasmado por um compatriota desde que emergiu a Gaby Amarantos, em quase tudo seu oposto. Existem milhões de Silvas por aí, mas este aqui é único.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

DE MALI A PIOR

Acho curiosa a maneira como a maior parte da imprensa noticiou o final do sequestro dos funcionários daquele campo de gás na Argélia: dezenas de reféns assassinados, terroristas prometendo novos ataques, caos e destruição. Claro que tudo isto aconteceu, mas não foi só isto. Do jeito que saiu na mídia, parece que o atentado foi uma vitória da al Qaeda. Não foi. Não só muitos militantes foram mortos, como nem uma nesga do objetivo da ação foi atingida. Que era nada menos que a retirada das tropas francesas do Mali: os islamitas queriam simplesmente que o Ocidentes permitisse que eles se aboletassem naquele país africano, tão pertinho da Europa. Não colou, e nem vai colar. Pelo contrário. Em menos de duas semanas, o exército francês já recuperou boa parte do território do chamado "Azawad", a porção norte do Mali que proclamou independência no ano passado. Era para ser uma república tuaregue, livre do controle das tribos do sul (as fronteiras do Mali, como as de quase toda a África, são artificiais, por culpa do colonialismo), mas o novo país logo caiu nas mãos do Ansar el Dine e outros grupos islamofascistas, com membros e armas vindos da Líbia e de outras partes do Maghreb. Azawad é uma região desértica, pouco povoada e meio esquecida: um lugar perfeito para o islamofascistas, que conseguiram lançar bases no Afeganistão no final da década de 90 (o que resultou no 11 de setembro) e tentaram fazer o mesmo em lugares como o Iêmen ou a Somália. Mas nada disso vai acontecer, e era importante a imprensa dar esta boa notícia. Porque a al Qaeda e seus similares merecem todo pau que houver neste mundo: eles querem apenas instalar uma ditadura religiosa global, proibindo a música, cortando as mãos dos infiéis e apedrejando os homossexuais. A Argélia reagiu de forma brutal e atabalhoada, mas, a princípio, correta. Com essa turma não se negocia.

O MAL ESTÁ NO OLHO DE QUEM VÊ





"Unintentionally Sexual Optical Illusions".

Mais aqui.




domingo, 20 de janeiro de 2013

THANK YOU, VAGINAS

E você, o que acha delas?

SPAGHETTI NIGGERS

Claro que a esta altura da guerra o estilo de Quentin Tarantino já está incrustado nas nossas cabeças. Vamos ver um filme seu não só sabendo o que vem pela frente, mas batendo palminhas de contentamento: diálogos engraçadinhos, revisão histórica, sede de vingança, dezenas de mortes absurdamente violentas. "Django Livre" tem tudo isto, e vai ver que é por isto mesmo que eu saí ligeiramente decepcionado do cinema. Não há propriamente nenhuma surpresa, apesar de Tarantino se aventurar por um tema que é quase tabu em Hollywood - a escravidão. Há tão poucos títulos sobre este assunto que alguns intelectuais reclamaram: como é que uma sátira a este período tão, aham, negro, vem antes do grande épico coberto de Oscars que não foi feito até hoje? A melhor obra sobre a escravidão continua sendo a série "Roots", produzida nos anos 70. Ainda é o programa de TV de maior audiência de todos os tempos ns Estados Unidos, mas no cinema o público foge dos negros acorrentados. "Django Livre" também causou polêmica por causa do uso abundante do termo "nigger", o maior palavrão americano da atualidade, embora perfeitamente compatível com a época em que se passa a história. Mas para mim seu maior defeito é ser longo demais: a meia hora final é tão previsível que lembra uma paródia mal feita do próprio Tarantino. Pelo menos são muitas as qualidades, do uso de funks antigos e trilhas de spaghetti westerns ao trabalho excepcional do elenco. Christoph Waltz está ótimo como sempre, mas sua indicação ao Oscar de coadjuvante é meio injusta: ele está mais para co-protagonista, ao lado de Jamie Foxx. O injustiçado nesta categoria foi Samuel L. Jackson, repugnante como um mordomo puxa-saco que não hesita em ferir sua raça para garantir a própria sobrevivência. Agora fico intrigado com os próximos passos do diretor: depois dos filmes policias, de karatê, de guerra e faroestes, que gênero falta para ele desconstruir? Musicais! Tomara.

sábado, 19 de janeiro de 2013

NOSSO BAJOFONDO

O tango eletrônico se tornou um grande produto de exportação para a Argentina. As lojas de CDs de Buenos Aires já tem seções inteiras dedicadas ao gênero, com dezenas de bandas imitando a mistura pioneira do Gotan Project e do Bajofondo. Aqui no Brasil até que rolam experiências parecidas, que misturam nossa música tradicional com programadores. O resultado muitas vezes é uma bossa nova/lounge aguada e pseudo-moderna, sem um traço do impacto comercial ou cultural que nossos vizinhos conseguiram. Mas existe um grupo que se sobressai: é o trio Bossacucanova, que desde o final dos anos 90 relê alguns clássicos de maneira heterodoxa. O quarto disco dos caras, "Nossa Onda É Essa!", acaba de ser lançado e é o melhor até agora. Não há músicas inéditas e os vocalistas convidados não são exatamente cutting edge - embora do naipe de Elza Soares ou Emílio Santiago. Mas a pegada é definitivamente contemporânea, realçada por aquela impressão deliciosa de que estão todos se divertindo muito. Ouça aqui faixa por faixa, no site da revista "Rolling Stone", e depois me diga se a versão deles de "Deixe a Menina", com a participação de Maria Rita, não é mesmo a definitiva.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O MAL DE CHAGAS

O que leva alguém a se matar aos 82 anos de idade? Geralmente, é uma doença grave e incurável. Querendo poupar à família e a si mesmo de um calvário inútil, a pessoa apressa o processo. Quase que torço que tenha sido isto o que aconteceu com Walmor Chagas, porque as alternativas são ainda mais desoladoras. Solidão; depressão; o simples saco cheio. Walmor foi um homem lindo de morrer e também a melhor voz de todo o teatro brasileiro. De sua geração excepcional, ele é o último grande nome masculino que se vai (sobraram as mulheres: Natália, Tônia, Fernanda). Em uma de suas últimas entrevistas, ele disse que queria morrer de forma surpreendente. Conseguiu. Cacilda.

A RIOS EM JANEIRO CONTINUA SENDO

Deus nos livre e guarde da sanha evangelizadora das Madalenas arrependidas. Essas Cleyciannes da vida real fornicaram a mais não poder quando eram ocas, depois viram Jesus no caminho de Damasco e hoje querem converter à força o resto da humanidade. É o caso da deputada fluminense Myrian Rios, ex-atriz da Globo, ex-amásia de Roberto Carlos (nunca se casaram no papel) e ex-cover girl da extinta revista "Ele & Ela" (mais de uma vez, aliás). A auto-intitulada "missionária" já tinha causado polêmica em 2011 ao comparar homossexuais como pedófilos. Agora ela volta às manchetes: não só o Legislativo do Rio de Janeiro aprovou, como o governador Sérgio Cabral sancionou um projeto de lei de sua autoria. É o "Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais", vago como as estrelas da Ursa Maior. Como ele vai ser implantado, ninguém sabe; mas na dúvida, por que não ir logo aprovando, né, Cabral? E olhe que estamos falando de Rio de Janeiro, onde tem praia, carnaval, malandragem, Zeca Pagodinho. Provavlemente não vai dar em nada, mas sempre existe o perigo de alguém usar a lei para proibir manifestações como a Parada Gay, a Marcha da Maconha ou até mesmo o biquíni fio-dental. Myrian Rios cumpriu seu objetivo: acenou ao eleitorado conservador, de olho nas urnas de 2014. Cabral fez média, apesar de apoiar publicamente os direitos igualitários (que, num mundo ideal, seriam considerados bons costumes). E nós já temos uma fantasia formidável para desfilar nos blocos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A CASCA DA BANANA

Já há algum tempo que eu esperava por este dia, e ele finalmente chegou. "Passa-se o ponto". Lá está a faixa fatídica, estendida sobre a fachada da Banana Music da alameda Lorena. Foi lá que eu deixei metade do meu salário, todos os meses, durante os últimos 13 ou 14 anos. Era de longe a melhor loja de CDs e DVDs de São Paulo. A única onde chegavam regularmente os lançamentos mais bacanas, sem a gente nem precisar pedir. Verdade que nem tudo está perdido: a filial do Shopping Iguatemi continua firme e forte (se bem que, até quando?). E verdade que nos últimos tempos eu passei a comprar muito disco na Livraria Cultura, que fica a uma quadra da minha nova casa, e na Livraria da Vila do shopping JK, a dois passos do meu trabalho. Esta é a tendência imediata: os CDs se tornarem apenas uma seção de uma megastore de cultura. Mas até as megastores são mastodontes em extinção, haja vista o recente fechamento da Virgin da Champs-Elysées, em Paris. Enfim, pra frente é que se anda, e eu também tenho baixado muita música. Mas nenhum site ainda conseguiu reproduzir o ambiente físico, nem o prazer de percorrer as prateleiras e se surpreender com alguma coisa. Enquanto isto, as lojas de verdade viram cascas vazias. Credo, este é um post recorrente no meu blog.

MARIAGE POUR TOUTES!

Outro dia, no post sobre a manifestação anti-gay em Paris, falei do lado feio da França: a xenofobia, a arrogância, o provincianismo. Mas bien sûr que há outro lado, luminoso como a capital do país. Este lado está lindamente ilustrado pela edição da revista "Elle" que chega amanhã às bancas francesas. "Casamento para Todas!", grita a chamada de capa, avisando que lá dentro há um editorial belíssimo com vestidos de noiva, alianças, maquiagem e penteados - tudo para a lésbica glamurosa a-ha-zar no dia de seu casório. Também há um carta ao leitor assinada pela editora Valérie Toranian (aqui, em francês) deixando claríssimo de que lado a revista está. Mas nem lá dentro da redação existe um consenso quanto à adoção ou a criação de filhos por casais do mesmo sexo. Valérie examina a surpreendente complexidade que a discussão alcançou na França:

"Este debate não opõe de maneira primária os antigos e os modernos, a direita e a esquerda, os homofóbicos e os progressistas: existem católicos gays e pró-casamento, psiquiatras tanto de esquerda como de direita ferozmente ligados à simbologia da diferença de sexos e a uma necessária alteridade de gêneros para qualquer criança potencial. Existem feministas que militam pela fertilização in vitro para as lésbicas, mas que recusam as barrigas de aluguel para os gays, pois são contra a mercantilização do corpo das mulheres. E outras militam pela regulamentação e remuneração das barrigas de aluguel".

Moda, beleza e discussão política: que outro país combina melhor tudo isto?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

SERÁ QUE ELA É?

Olha a aparência da Zezé: dá para condená-la por assassinato? Segundo milhares de internautas, dá, sim. Desde ontem que Zezé Polessa está sendo linchada virtualmente nos comentários das notícias sobre seu suposto entrevero com um motorista da Globo, que logo em seguida teve um enfarte e morreu. Mesmo que ela tenha urrado com ele, é um pouco meio muito responsabilizá-la pela morte do cara: além de tudo, nem temos como saber exatamente o que se passou. Mas o episódio acaba revelando uma outra verdade, bastante incômoda. Somos um povo resentido e ignorante, e damos vazão a esses dois defeitos na internet. O ressentimento e a ignorância têm até razão de ser, pois descendem da escravidão, que durou mais de 300 anos no Brasil, e da desigualdade social que impera até hoje. Isto faz com que achemos que qualquer pessoa com um mínimo de notoriedade seja obrigatoriamente um crápula. Esta percepção piora se o famoso for um ator de TV: achamos que se trata de uma casta privilegiada, que trabalha pouco e ganha muito. Parte de nós quer se juntar a eles, através de BBBs e outros atalhos para a fama instantânea. O resto transborda sua inveja nas redes sociais, com deformado espírito justiceiro. Li comentários do tipo "Zezé Polessa tem cara de arrogante", como se isto fosse o bastante para condená-la. Não precisamos nem conhecer pessoalmente o artista ou saber dos detalhes. Ganha mais que eu? É mais famoso do que eu? Então, pau nele.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

PERNAS PRA QUE TE QUERO

Tem gente incomodada porque os únicos filmes brasileiros que estouram nas bilheterias são as comédias bobas. Acham que a cultura nacional foi para o caralho, que o mundo está perdido, que a inclusão digital foi longe demais e por aí vai. Pois eu acho que o simples fato de termos cinco ou seis filmes por ano que ultrapassem os dois milhões de espectadores é um sinal de maturidade, seja lá qual for o gênero deles. É só com "blockbusters" que se constrói uma verdadeira indústria cinematográfica, com ritmo regular de produção e emprego para muita gente. É por isto que eu adoro o sucesso de "De Pernas pro Ar 2" - o filme em si, nem tanto. Apesar dele ser melhor que o primeiro, com mais piadas e situações ligeiramente menos forçadas. Ingrid Guimarães está em pleno domínio de seu timing cômico, e é uma lástima que tenha que contracenar com Eriberto "Roberto" Leão, o pior ator brasileiro em atividade. Ele mais uma vez dá um show de canastrice: não consegue nem mesmo ver as horas no relógio de maneira convincente. Nem por isto o público deixa de gargalhar e de lotar as salas. Aposto que o "3" vem aí, e tomara que em seu rastro surja dinheiro e oportunidade para outros filmes, de todos os tipos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A PARADA ANTI-GAY

O movimento pelos direitos igualitários enfrenta mil obstáculos mundo afora, mas este aqui era inédito até ontem. Aconteceu em Paris um protesto gigantesco contra a aprovação do casamento gay no país: a polícia diz que o evento reuniu 340 mil pessoas, os organizadores falam em mais de um milhão. Justo na França, a pátria dos direitos humanos - mas que também tem um lado feio que volta e meia se expõe, seja colaborando com os nazistas, seja mandando o partido de ultra-direita Front National para o segundo turno das eleições presidenciais. Tem muito dedo da Igreja nessa megapasseata e muita gente que veio das províncias só para desfilar na capital; vamos ver se a passeata a favor, no próximo dia 27, consegue reunir mais gente (segundo as pesquisas, a lei que regulariza o casamento civil para pessoas do mesmo sexo tem cerca de 60% de aprovação). É assustador ver tanta gente marchando contra a felicidade dos outros, e estarrecedor ver os argumentos levantados. Chegaram a dizer que, se todo mundo virar homossexual, a humanidade acaba em pouco tempo - então é isso? O mundo inteiro só não é gay porque é proibido, já que vontade todo mundo tem?

O NÃO-SILÊNCIO DA INOCENTE

Quem teve pachorra de assistir à cerimônia completa dos Globos de Ouro, na noite de hoje para ontem? Eu tive, e a primeira coisa que tenho a dizer é: volta, Ricky Gervais. Tina Fey e Amy Poehler não se saíram mal, é verdade, mas apareceram tão pouco que não me deixaram marcas profundas. Ou vai ver que apareceram tanto quanto Ricky nas três vezes em que ele foi o anfitrião do programa, mas os insultos que ele proferia eram tão fabulosos que depois só ele me sobrava na memória. Deste ano, quem vai ficar é Jodie Foster. Geralmente o discurso do homenageado da noite é mega-previsível e booooring, mas dessa vez foi inspirador, importante e emocionante. Jodie meio que se justificou por jamais ter saído oficialmente do armário: ela disse que vem de outra época, em que a celebridade primeiro contava de sua homossexualidade aos amigos mais chegados, depois aos menos, e assim por diante (eu também sou desse tempo). Hoje em dia, prosseguiu, neguinho tem que dar uma coletiva de imprensa e depois estrelar seu próprio "reality show". Jodie também declarou estar solteira, mas ainda agredeceu muito a sua ex-mulher Cydney Bernard (na hora, por causa do nome, não percebi que se tratava de uma moça). Muita gente foi às lágrimas na plateia. A fala completa está no vídeo acima e também transcrita na íntegra aqui, em inglês. Desde já, um dos momentos gays mais marcantes de 2013.

domingo, 13 de janeiro de 2013

PORRADA DE AMOR DÓI SIM

Assistir a "Amour" é como visitar uma pessoa querida no hospital. Não é exatamente divertido, mas a lembrança daquele momento permanece na sua cabeça - e acaba fazendo mais bem a você do que ao doente. O filme de Michael Haneke é um retrato austero e honesto do final da vida, bem diferente do clima alto-astral com que gostamos de ver os velhos no cinema. Talvez por culpa de "Ensina-me a Viver", todo personagem com mais de 80 anos tem que transbordar alegria e ser uma "lição de vida" - haja visto a recente Dona Picucha vivida por Fenranda Montenegro em "Doce de Mãe". Na verdade, fantasiamos com velhinhos independentes, que gozem de boa saúde e não deem trabalho a ninguém. A realidade, claro, é muito diferente. E a senhora vivida por Emmanuelle Riva ainda tem a sorte de morar num apartamento imenso em Paris e contar com um marido apaixonado, que cuida dela com carinho exasperado. Essa atriz-símbolo da nouvelle vague estaria com o Oscar no papo se fosse americana, e sua performance é mesmo de uma coragem impressionante. Tão bom quanto mas menos badalado que ela está Jean-Louis Trintignant, que vai aos poucos percebendo a gravidade do estado da mulher. "Amour" tem muitas cenas incômodas, e é impossível sair do cinema sem pensar no que nos aguarda. Consegue a proeza de ser um filme seco, cru (não há trilha sonora) e ao mesmo tempo um dos mais românticos de todos os tempos. É o amor como ele é, ou deveria ser. Uma porrada de amor, dolorida e maravilhosa.

WHAT DO YOU MEAN, FLASH GORDON APPROACHING?

Morreu Mariangela Melato, uma atriz italiana que foi importantíssima nos anos 70 e 80 - principalmente por causa dos filmes que rodou com a diretora Lina Wertmuller. Mas para mim ela será para sempre a cruel General Kala, do "Flash Gordon" de 1980. Eu era fanático pelo Queen, por isto vi o filme algumas vezes no cinema e mais umas setecentas em vídeo. Depois cresci, esqueci e só fui revê-lo novamente ano passado, no Telecine Cult. Fiquei embevecido com os efeitos low-tech e os cenários rebuscados, bem diferentes da estética minimalista de um "Guerra nas Estrelas". Acontece que, apesar de falado em inglês, "Flash Gordon" era uma produção italiana (de Dino de Laurentiis), rodado em Cinecittà e com muitos atores da península no elenco. O próprio roteiro se assume como "camp", com diálogos suntuosos e um bicho de estimação meio indefinido chamado Fellini. No meio de tanta riqueza, ninguém brilha mais que La Melato. Ela pulverizaria Darth Vader só com os punhais que saem de seu olhar.

sábado, 12 de janeiro de 2013

ZAPEANDO PELO TEMPO

O exibidor brasileiro batizou "Cloud Atlas" de "A Viagem" para que os incautos pensem que o filme é sobre reencarnação. Não é: o tema na verdade são as conexões entre as pessoas do passado, presente e futuro, tão vago que poderia servir para a próxima Bienal de São Paulo. Os irmãos Wachowski (um deles agora na forma de Lana) se juntaram ao alemão Tom Twyker para produzir um catatau de três horas de duração, mais confuso do que complexo. Mas de encher os olhos e prender a respiração: não há um só momento monótono nas seis histórias entrelaçadas. Às vezes demorei para perceber que havíamos trocado de era, e é constante a sensação de estar vendo seis filmes ao mesmo tempo, como num zapping desembestado. As tramas vão do trágico (um jovem músico que comete suicídio) ao cômico (um senhor de idade que promove uma rebelião num asilo), passando por assuntos grandiloquentes como a escravidão e os crimes das grandes corporações, para culminar num mundo pós-apocalipse. Tom Hanks dá mostras de sua versatilidade e Jim Broadbent é sempre incrível de se ver, mas ninguém me encantou tanto como o jovem ator britânico Ben Whishaw. A direção de arte e os efeitos especiais são formidáveis, mas a maquiagem é incrivelmente irregular. Os atores envelhecidos não convencem, e menos ainda os que têm sua raça "trocada" (Halle Berry faz uma judia alemã, por exemplo). A mensagem se pretende profunda, mas se dilui em bobagens como uma tatuagem em forma de cometa que assinalaria os "escolhidos" (para quê?). "Cloud Atlas" saiu de mãos abanando do anúncio de indicações ao Oscar, e dá para entender por quê. Tudo nele é ambicioso e grandiloquente, e há muitas sequências interessantes - mas rigorosamente nada está entre os cinco melhores do ano. Hmm, talvez a música.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O OGRO DO OSCAR

Há anos que acompanho na internet alguns profetas do Oscar, que fazem previsões sobre quem vai ser indicado ou não. Gosto tanto do esporte que eu mesmo me arrisco a uns palpites de vez em quando. Assim como meus mestres, eu também levo em consideração o histórico das temporadas anteriores, as tendências que estão no ar, os prêmios precursores. E tanto eu como eles invariavelmente nos esquecemos de incluir um dado crucial na equação: Harvey Weinstein. Este excelente produtor fundou, ao lado do irmão, o estúdio Miramax, responsável por alguns dos melhores filmes americanos dos anos 90. Depois venderam o troço para a Disney e ficaram um tempo na moita, até ressurgirem com a Weinstein Company. E voltaram em grande estilo: papando tudo que é Oscar que lhes passa pela frente, para ajudar na bilheteria de seus filmes. Só para dar uma ideia, foram as estratégias de marketing boladas por Harvey que trouxeram o prêmio máximo para "O Paciente Inglês", "Chicago" e "Shakespeare Apaixonado" - este último, aliás, entrou para a história como o filme que arrancou a vitória do favorito "O Resgate do Soldado Ryan". E adivinha quais filmes eles promoveram nos últimos anos? "O Discurso do Rei", que venceu em 2010, e "O Artista", que venceu em 2011. Agora eles apostam todas as fichas em "O Lado Bom da Vida", que não está fazendo boa carreira nos cinemas americanos. Não só conseguiram indicações para o filme e o diretor David O. Russell (desbancando pules de dez como Ben Affleck e Kathryn Bigelow), como para todo o elenco principal. É a primeira desde "Reds", em 1981, que um filme consegue emplacar finalistas a melhor ator, atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante. Portanto, talvez o caminho não esteja tão livre assim para o "Lincoln" de Spielberg. Há um ogro no meio dele.

ALÔ ALÔ GRAÇAS A DEUS

José de Abreu se declarou bissexual. Domingo acontece a entrega dos Globos de Ouro (que não, não são esses aí da foto ao lado). Tem coluna nova minha no site Visionari. Começam a estrear os filmes indicados ao Oscar. Comprei a segunda temporada de "Downton Abbey" em DVD. Hoje saiu na versão impressa da "Folha de São Paulo" minha crítica à série "O Canto da Sereia" (aqui, para assinantes do jornal ou do UOL). A fase está boa. Tenho mais é que levantar os braços e agradecer ao Deus que eu nem sei se existe.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

OLHOU A BARRIGUINHA

Mais uma prova insofismável de que música pop é tudo a mesma merda coisa. Aguardemos, pois, pela versão do Nissim Ourfali.

OS DESEMBOLADOS

Que pena. Eu estava crente que a corrida pelo Oscar deste ano seria uma das mais imprevisíveis dos últimos anos, sem francos favoritos em quase nenhuma categoria. Mas aí as indicações foram anunciadas agora há pouco, e pelo jeito os vencedores já estão meio definidos. A maior surpresa foram tanto Ben Affleck quanto Kathryn Bigelow ficarem de fora da disputa pelo prêmio de melhor diretor. A Academia a-do-ra atores que passam para trás das câmeras, e como resistir a indicar uma mesma diretora pela 2a. vez, fato inédito na história? Mas resistiram, apesar de "Argo" e "A Hora Mais Escura" serem, ambos, campeões de bilheteria e de crítica. Isto enfraquece as chances de Jessica Chastain levar o troféu de atriz, que agora está no papo de Jennifer Lawrence - além do mais porque o filme desta é produzido por Harvey Weinstein, o mais eficiente marqueteiro do Oscar de todos os tempos. Também acho que "Lincoln", Steven Spielberg e Daniel Day-Lewis vencerão em suas respectivas categorias. E, dado que Anne Hathaway é barbada das grandes, o único suspense sobra para os atores coadjuvantes. Muita gente boa (Javier Bardem, Leonardo Di Caprio) ficou de fora, e todos os cinco finalistas já ganharam antes seus homenzinhos de ouro. Tommy Lee Jones largou na frente, mas ainda falta mais de um mês e meio para a cerimônia de entrega. Vamos ver se há alguma reviravolta, ou se Weinstein vai levar tudo mais uma vez.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

AS BENÇÃOS DE SER ATEU

Não sei mais se acredito em Deus. Estudei em colégio de padre e tive uma fase carola no final da infância, quando ia à missa todo domingo junto com uma empregada lá de casa. Essa fase passou rápido e hoje em dia só comungo quando vou a missas de sétimo dia. Sim, ainda comungo - ainda entro em comunhão com uma organização que exige que eu violente a minha natureza e me submeta a dezenas de dogmas absurdos. Mas não me declarei católico no último recenseamento, embora ainda acredite em alguma coisa. Digo "alguma coisa" porque rejeito a ideia de um Deus masculino, barbudo, que nos envia sofrimentos cruéis e provações sem sentido, como se ele fosse o Boninho e nós os participantes do "BBB". Mas não tenho culhão para me declarar ateu, porque sonho com a vida eterna. No meu perfil no Orkut, que segue no ar, assinalei que sou "spititual, but not religious". Aí li um artigo de opinião que saiu no "New York Times" esta semana e percebi que sou covarde. A escritora Susan Jacoby assina "As Bençãos do Ateísmo" (aqui, em inglês), afirmando que na verdade é mais fácil para um ateu encarar tragédias como o recente massacre de Newtown, quando dezenas de crianças e professores foram assassinados por um maluco. O ateu não precisa entender porque Deus, que teoricamente é tão bom, permitiu tal barbaridade, e isto é liberador. Susan também rejeita rótulos como "bright" (claro, iluminado), que os ateus americanos adotaram nos últimos anos para contornar o preconceito de grande parte da sociedade. Ela diz que é bom chamar as coisas como elas são, e eu concordo - sempre preferi dizer "gay" a eufemismos como "GLS" ou "alternativo". E que ser ateu não signifca ser mau, egoísta ou imoral. Os Estados Unidos já contam com pelo menos 20% de sua população que não segue nenhuma religião organizada, e este número não para de crescer. Aqui no Brasil acontece o mesmo, apesar dos avanços dos evangélicos. O tal do artigo me deixou encafifado, e hoje li algumas cartas de resposta selecionadas pelo jornal, onde leitores lembram que a concepção de um Deus-marionetista é primária e que religiões como o budismo são não-teístas, enquanto outras nem falam em vida após a morte. Minha conclusão? Por enquanto, nenhuma. Nem sei se algum dia vou chegar nela.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

BEAU, OUI

Chamar David Bowie de "camaleão" é um clichê maior do que dizer que o camelo é o navio do deserto, mas é inegável que ele já mudava de estilo todo ano enquanto Madonna ainda estava na puberdade. Hoje, dia de seu 66o. aniversário, Bowie lançou sua primeira música inédita em mais de 10 anos, e é reconfortante perceber que ele não tentou fazer dubstep nem seguir nenhum modismo do momento. "Where Are We Now" na verdade remete às baladinhas espaciais com que ele começou a carreira há mais de 40 anos, mas tem também aquele travinho doce-amargo que a idade traz. Gostei mais da canção do que do vídeo acima, especialmente aflitivo - e surpreendentemente low-tech. Assista até o final.

SEGUNDA-FEIRA É O NOVO SÁBADO

Pelo menos até março, enquanto durar a segunda temporada de "Mulheres Ricas". A estreia de ontem foi épica, com as novas participantes concorrendo para ver quem é a mais sem "loção" - ainda estou na dúvida entre Andréa "Póbrega" ou "Aieleenígena" Varejão. Mas óbvio que nenhuma é páreo para as deusas Val e Narcisa. Não vou me estender mais do que já escrevi na minha coluna de hoje no F5, mas não resisto a comentar os comentários que recebi lá. Ainda tem gente reclamando que o programa é um acinte num país onde persiste tanta desigualdade, que é um lixo cultural, etc. etc. etc. Um sujeito chega a dizer que deveriam fazer uma variante chamada "Mulheres Pobres", mostrando o cotidiano das coitadas que ralam nas lotações e sobrem o morro com lata d'água na cabeça, um potencial estouro de audiência. Felizmente que muitos já perceberam que o ponto do "M.R." é justamente tirar sarro das cabecinhas ocas dessas sirigaitas, que expõem a si mesmas e a suas famílias em troca de falsos brilhantes. Ainda não me recuperei das gargalhadas de ontem, mas hoje tem mais: começa mais um "BBB", o reality que eu odiava mas ao qual eu devo minha carreira de colunista. Vou participar de um live-blogging com meus colegas da "Folha" e do F5 quando a "nave" decolar: quando chegar a hora, clique aqui para nos acompanhar. E seja o que o Boninho quiser.

O PRESIDENTE-ZUMBI

Quem garante que Hugo Chávez já não morreu? Ou vai ver que está congelado, em coma induzido, nu e suspenso por fios, como num filme ruim de terror médico. O que importa é que ele chegue vivo - ou que se diga que está vivo - a 10 de janeiro, o dia de sua posse. Aliás, foi justamente para manter o máximo de sigilo que Chávez preferiu se tratar em Cuba e não no Brasil, melhor equipado para seu tipo de câncer. Agora ele está naquele limbo entre a vida e a morte, e pode arrastar a Venezuela junto. Há duas lutas acontecendo ao mesmo tempo: a primeira acontece dentro do próprio chavismo, com Nicolás Maduro e Diosdado Cabello disputando o título de príncipe-herdeiro. A outra, é claro, decorre do desespero dos chavistas em se manter no poder a qualquer custo. Chávez jamais deixou que surgisse outra liderança em seu partido, e a ausência de seu carisma pode fazer com que o povo finalmente perceba que a inflação está nas alturas e que a infraestrutura do país caminha para o caralho. Mas, enquanto ele estiver ligado aos aparelhos, este impasse continuará, e sua sombra permanecerá vestindo a faixa presidencial. Como uma versão moderna de D. Sebastião, o "encoberto". Ou, quem sabe, um morto-vivo - que não anda, mas ainda come cééérebros.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

OS INFILTRADOS

Assim como o PT e outras grandes agremiações políticas mundo afora, o partido Republicano dos Estados Unidos também é dividido entre dezenas de "tendências" internas. A mais estridente é o famigerado Tea Party, mas existe outra facção ainda mais polêmica: os Log Cabin Republicans, que se proclamam gays e conservadores ao mesmo tempo. Claro que isto é possível, se bem que não recomendável. Mas os caras vivem dando tiros no pé, no deles e no resto da bibaiada. Não pestanejaram em apoiar Mitt Romney nas últimas eleições, apesar do candidato mórmon ser declaradamente contra o casamento igualitário e outros direitos que nos são negados. Agora se contradizem novamente: estão veiculando caríssimos anúncios de página inteira em jornais de grande circulação contra a provável indicação por Obama de um republicano, Chuck Hagel, para o posto crucial de Secretário (ministro) da Defesa. O pretexto são algumas declarações homofóbicas de Hagel ao longo de muitos anos - imperdoáveis, é claro, mas compreensíveis para um homem branco de sua geração. Hagel correu para se desculpar, mas a contorvérsia continua. É claro que existem outros interesses por trás disso: apesar de republicano de carteirinha, o sujeito foi um crítico vocal da Guerra do Iraque e da ideologia bélica do governo W. Bush. Os membros (hmm) do Log Cabin devem estar recebendo uma granalhaça das populares "forças ocultas" para emprestar sua (pouca) credibilidade na luta dos LGBT para derrubar um político que, não obstante seus pecadilhos, não se alinha com a mentalidade medieval dos "neocons". Moral da história: sabe o que é pior do que ser homofóbico? É posar de paladino da causa mas não passar de um infiltrado do inimigo entre as nossas hostes.

SMASHALICIOUS

Minhas férias acabaram, mas em algum lugar da minha cabeça ainda há sapateado e escadarias. Assisti a cinco musicais em menos de um mês (três na Broadway e dois no Rio), comprei alguns CDs do gênero e agora conto os dias para a estreia da segunda temporada de "Smash". A série revela os dramas dos bastidores de um musical sobre Marilyn Monroe, e ela própria passou por tantos dramas em seus bastidores que gerou material para uma série sobre si mesma. A principal roteirista, Theresa Rebeck - uma das autoras teatrais mais premiadas dos Estados Unidos - foi defenestrada e substituída sem a menor cerimônia (para jogar sal na ferida, Theresa acaba de amargar um fracasso com "Dead Accounts", a peça com Katie Holmes que ficou menos de um mês em cartaz em Nova York). Atores foram trocados, tramas paralelas eliminadas e até mesmo o figurino de Julia, a personagem de Debra Messing, agora está livre das horrendas écharpes de bag lady. Mas o melhor promete ser a chegada de Jennifer Hudson ao elenco: agora magra e mais poderosa do que nunca, ela faz uma diva vencedora de dois Tonys que vai mostrar para as novatas como é que se faz. E ainda tem participações especiais de Sean Hayes (colega de Debra em "Will & Garce", onde ele fazia o Jack) e ninguém menos que Liza Minnelli, que infelizmente não aparece no trailer aíu em cima (ela deve ter esquecido de tomar os remédios). Musicais são a mais refinada expressão artística da humanidade, e eu não sinto o menor respeito por quem não gosta do gênero porque ele não é "realista" mas aprecia filmes de elfos ou super-heróis.

(By the way, Anjelica Huston ainda não estava com cara de Jabba the Hutt quando filmou esta temporada - que pena, ia ser bom para o programa)

domingo, 6 de janeiro de 2013

FAKE IN RIO, O MUSICAL

O Rock in Rio sempre tentou se vender por aquilo que não é: uma celebração da "paz". Porque o megafestival de Roberto Medina é o antípoda de Woodstock e similares dos anos 60, onde a contracultura explodiu com toda a força. No Rock in Rio, o que está sendo comemorado é o consumo, o capitalismo e o conformismo, com qualquer traço de rebeldia soterrado por Big Macs e gel New wave da Wella. Com "Rock in Rio - o Musical" acontece coisa parecida. O longuíssimo espetáculo (quase quatro horas de duração, contando o intervalo) é pouco mais do que um comercial disfarçado para a próxima edição do evento, que acontece em setembro. Até aí tudo bem; também não tenha nada contra a ideia de se juntar músicas disparatadas num mesmo contexto. O que pega mesmo é o libreto imbecil de Eduardo Nogueira, provavelmente ditado pelos Medina, que tenta dar uma importância política ao festival que ele nunca teve e acaba se transformando num autêntico samba do metaleiro doido. O foco é a historinha de amor entre um rapaz que não fala há anos (nitidamente inspiradao no "Tommy" do The Who e com o nome improvável de Alef) e a filha pseudo-maluquete de um empresário que quer produzir um grande festival de rock chamado "Orlando Tepedino". No passado, Tepedino formou uma dupla musical de sucesso ao lado de sua mulher, que desapareceu "há 15 anos", meio por culpa de uma vaga "ditadura" que assolava o Brasil. O pai do rapaz também sumiu, e assim o enredo envereda por uma trama completamente whatthefuck. Para piorar, a direção musical destroi pérolas como "Freedom" do George Michael e mistura reggae com Britney, além de ser prejudicada por coreografias tão pobres que parecem pensadas para portadores de deficiência física. Salva-se o elenco, todo ele excepcional: chega a ser assustador o talento e o preparo dessa molecada. E também a força dos mais de 50 hits selecionados (tremo ao pensar no quanto devem ter custado os direitos), que emocionam porque formam a trilha sonora das nossas vidas. "Rock in Rio - o Musical" poderia ter sido um grande espetáculo se fosse fiel à verdade de seu assunto, mas do jeito que está não passa de uma versão ligeiramente mais adulta de "High School Musical", mas tão coxinha e chapa-branca quanto. Ôôôôô.

CAÇA AO ELEFANTE

O Rio melhorou muitíssimo nos últimos anos em inúmeros quesitos, mas há um problema crônico tão renitente que eu suspeito até que esteja impregnado no DNA da cidade: a falta de sinalização. Talvez seja um sintoma da atitude marrenta dos cariocas, que se acham o povo mais cool do mundo e desprezam quem é de fora. "Se você não sabe o caminho, é por que você não é daqui - portanto, foda-se!". Placas, qunado existem, frequentemente estão colocadas logo após a saída que o incauto deveria ter tomado para chegar ao seu destino. Ontem sentimos na pele esse descaso, ao ficarmos dando voltas a esmo tentando encontrar a Cidade das Artes (que se chamava Cidade da Música e teve o nome alterado num rompante demagógico do prefeito Eduardo Paes, já que o lugar só está equipado para a música mesmo). "Encontrar" é força de expressão, já que se trata de um imenso elefante branco que domina a paisagem da Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, mas quem disse que o acesso é fácil? Um labirinto de viadutos sempre nos levava para o lado oposto, e os poucos sinais luminosos, instalados às pressas para a ianuguração, estão soberbamente mal posicionados. Chegando lá, mais problemas: fizeram-nos estacionar a léguas do prédio principal, rentes a uma parede, e tivemos que correr pelos jardins inacabados para chegar menos atrasados à matinê de "Rock in Rio - o Musical". Aliás, "inacabado" é a palavra-chave: depois de dez anos em obras e quatro da inauguração atabalhoada por César Maia, o gigantesco complexo ainda não está pronto, e provavelmente nunca estará. É repleto de espaços mortos, passarelas que levam a lugar nenhum e espelhos d'água inúteis, num clima de monumentalidade estéril. Ainda tivemos que peitar uma funcionária que não queria nos deixar entrar na Grande Sala (admito, muito bonita) depois do início do espetáculo, mas nessa hora a marra da minha cidade natal me contaminou também. Soltei um "caguei" para ela e fomos para os nossos lugares. Sou carioca, pô, quero meu crachá.

sábado, 5 de janeiro de 2013

BECCI TO THE FUTURE

Já disse aqui no blog que jamais irei me montar enquanto não puder ficar parecido com Catherine Deneuve ou Isabelle Adjani. Caso contrário, what's the point? Enquanto o resultado for similar ao do inglês Richard Allen, tô fuera. O sujeito era um hooligan que, segundo ele mesmo admite, gostava de bater em torcedores suecos. Agora ele se assina como Becci (oi?) e está na fila da operação para mudar de sexo. Muito axé para o moço/a, e que seja feliz. Mas bem que uma alma caridosa podia dar umas dicas de visagismo para o pobrezinho, ou levar na Zara que fosse. (dica do Diego Rebouças, que continua vigilante com sua câmera)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

EM SENSURROUND

Devo ser muito mais burro do que eu fantasio ser, porque não gostei muito de "O Som ao Redor". Minha opinião vai contra a de todos os meus amigos intelectuais no Facebook, todos os críticos do Brasil e até mesmo a do "New York Times", que incluiu o filme em sua lista dos dez melhores de 2012. Achei que o pernambucano Kléber Mendonça Filho cometeu o erro fatal do diretor que também assina o roteiro, ainda mais no longa de estreia: colocou lá todas as ideias que teve na vida, e não conseguiu cortar nenhuma delas na sala de montagem. O resultado é que "O Som ao Redor" é longo demais (quase duas horas e meia) e cheio de cenas desnecessárias em tempo real. Mas é verdade que também há momentos interessantes, como uma reunião de condomínio que parece verdadeira de tão tacanha, ou os muitos sustos espalhados ao longo do filme. A tensão é permanente: o espectador passa o tempo todo esperando algo horrível acontecer. Não há um "plot" central, mas uma coleção de situações em torno do conflito de classes. Patrões e empregados numa rua de classe média em Recife convivem em diferentes graus de harmonia, e as coisas parecem que vão explodir quando dois sujeitos batem de porta em porta oferecendo serviços de "segurança". Os atores, quase todos desconhecidos (a exceção é Irandhir Santos, de "Tropa de Elite 2"), são absolutamente convincentes, e o sensacional desenho de som cumpre o que o título do filme promete: há sempre um barulho ameaçador e misterioso vindo de algum lugar da vizinhança. Mas eu não consegui me envolver emocionalmente com nenhuma das muitas tramas, nem me divertir muito. Devo ser mesmo burro.

VAMOS ÀS TORTAS E ÀS COMPOTAS

"Alô, Dolly" parece um bolo em camadas coberto de glacê colorido: absurdamente bem feito, gostoso a mais não poder e absolutamente desnecessário. A primeira remontagem brasileira em mais de 40 anos deste musical da Broadway, mais antiquado do que propriamente antigo, não tece nenhum comentário relativo à nossa realidade nem responde aos nossos problemas. Mas cumpre uma única e gloriosa finalidade: serve de showcase para os múltiplos talentos de Marília Pera, que chegou naquele ponto em que o papel da casamenteira Dolly Levi lhe cabe como uma luva. A montagem em cartaz no Rio é suntuosa, com figurinos de Fause Haten e cenários elaboradíssimos. Também conta com um elenco afiado, que não faria feio em Nova York. Tudo por obra e graça de Miguel Fallabella, que adaptou as canções, dirigiu o espetáculo e ainda atua pela primeira vez ao lado de Marília. Ela tem com ele uma química perfeita, só comparável à que dividia com Marco Nanini (se bem que em dinâmicas diferentes). Também deve ser por influência de sua disciplina que Fallabella está quase contido, menos Caco Antibes - seu modo default - do que de costume. Ele fala em sotaque mineirim para ressaltar a caipirice de seu personagem, mas quase não recheia o texto de cacos e está cantando melhor do que nunca. Ainda assim, deixa Marília brilhar fulgurosa. Nenhuma outra atriz nacional, de qualquer geração, dança, canta e atua com o timing cômico dela. "Alô, Dolly" ainda tem música ótimas - inclusive aquela que, com letra alterada, servia de tema de abertura para o "Viva o Gordo", um antigo programa humorístico de Jô Soares: "vamos às toras e às compotas..." Não traz inovações formais, mas é a prova concreta de que o nosso showbiz tem tudo o que é preciso para produzir musicais nababescos. Engordativos, mas irresistíveis.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

TELL ME THAT YOU'LL OPEN YOUR EYES

Duas notícias abalam a minha blogosfera pessoal. A primeira é má: a Marta Matui meio que encerrou oficialmente seu blog, mais interessada que está em confeccionar bichinhos de crochê. Diz que não tem mais vontade de escrever e convida seus leitores a seguirem-na no Facebook e no Instagram. Também lembra que continua assinando uma coluna no site Visionari, onde eu também estou. OK, beleza, mas para mim nada disto substitui um blog. Atóron o formato de posts curtos, que obrigam a quem escreve a ser sucinto e permitem a quem lê a ler com um olho só, enquanto o outro confere o resultado da Mega-Sena. Como a Marta é de Touro e portanto teimosa, sei que não adianta nada pedir para ela mudar de ideia. Ao contrário: se eu insistir, ela é capaz de fazer um boneco de vodu em crochê me representando.

Ainda bem que a outra notícia é boa. Depois de quatro meses de olhos bem fechados, o Daniel Cassús resolveu reabri-los. Ele voltou a escrever em seu blog "Mundo em Meus Olhos" no dia de Natal, mas eu estava curtindo a vida adoidado em Belize e só me inteirei hoje. Diz ele que o blog agora vai ter mais objetividade e interatividade e menos donzelice. Por enquanto me parece igualzinho ao que sempre foi, o que já é óteeemo. E assim minha blogosfera ganha uma sobrevida, ao lado dos meus CDs e DVDs.

A "CARAS" PARA BATER

Só costumo ler a "Caras" quando vou cortar o cabelo, mas comprei o número 1.000 da revista por uma singela razão: o calhamaço de mil páginas traz a 1a. edição na íntegra, incluindo os anúncios. Queria conferir o que mudou e o que não mudou desde outubro de 1993. Comecemos por este último quesito. A direção de arte, chupada da espanhola "Hola", permanece praticamente a mesma. Muitos dos modelitos apresentados poderiam ser usados hoje, provando mais uma vez que a moda parou de evoluir em 1978. Várias seções já estavam lá desde o começo, como as receitas ou a página de etimologia. Mas claro que há inúmeras diferenças, porque o tempo não para... Os astros da capa, Lily e Roberto Marinho, já não estão mais entre nós. Luiza Brunet aparece, aham, uns vinte anos mais nova. Mas o mais chocante foi encontrar uma longa matéria sobre Tom Jobim (que morreria menos de um ano depois), com muito texto e poucas fotos em P&B. Naquela época a "Caras" foi criticadíssima por ser uma revista sobre o nada, e penou uns bons dois anos até se firmar no mercado publicitário (apesar da circulação ter sido boa desde a largada). Hoje, quase duas décadas depois, ela está ainda mais fútil e menos densa, como se isto fosse possível. As fotos ocupam mais espaço, as "reportagens" (põe aspas nisso) estão menores e um batalhão de subcelebridades sem o menor interesse invadiu as páginas. Além do mais, o impacto da "Caras" sobre a cultura brasileira foi imenso: a revista praticamente inaugurou a era das celebridades em que a fama é um fim em si mesmo, e muitos outros títulos vieram em seu rastro (inclusive uma versão brasileira da "Hola", que chegou tarde num mercado saturado e já fechou). Gostemos ou não, hoje vivemos na Era Caras, e a culpa não é dela. É nossa.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

IABADABADU

Aqui no Brasil o boliche é imediatamente associado como o esporte favorito do Fred Flintstone. É algo que você joga no Shopping Morumbi quando não conseguiu entrar no filme que você queria. Mas nos Estados Unidos o bowling é levado tão a sério que não só existem jogadores profissionais como as finais de campeonato são transmitidas pela TV. E foi assim que a ESPN acabou registrando um momento histórico no domingo passado: Scott Norton venceu um torneio em Las Vegas e, na sequência, trocou um rápido beijo com seu marido Craig. É a primeira vez que um atleta profissional faz isto diante das câmeras. E, para os que acham que Scott teve um chilique de donzela ao perceber que tinha vencido, é bom saber que ele se emocionou porque acabou de perder um de seus melhores amigos, também jogador de boliche, e queria muito dedicar a vitória a ele. Infelizmente, nem tudo é cor-de-rosa como seu uniforme: a página deste vídeo no YouTube está cheia de comentários horrorosos. Mas é só questão de tempo para a inexorável bola do tempo fazer um strike nessa corja.

NO CONTRAFLUXO

Passei o Natal em Belize, enquanto a maioria das pessoas estava em casa com a família. Passei o Réveillon em casa com a família, enquanto a maioria das pessoas estava viajando. E hoje, dia 2, quando muita gente volta ao trabalho, cheguei ao Rio de Janeiro, onde fico até domingo. Minhas mais longas férias em quase 20 anos estão acontecendo no contrafluxo, o que não deixa de ser legal: vou quando quase todos estão voltando, fico quando quase todos estão alhures. Não passava alguns dias de folga na Maravilhosa desde julho do ano passado, e é impressionante a falta que esta cidade me faz. Por outro lado, também parece que estive aqui anteontem. Agora é tentar ver todos os amigos em quatro dias e torcer para que faça sol, o que é meio raro nessa época do ano. Dicas serão bem-vindas: quem sabe qual é a boa da night?

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

LIKE SOMETHING OUT OF JULES VERNE

Minha única resolução de ano novo: assistir à segunda temporada da série "Episodes". Nestes dias de virada de ano, me deliciei com os sete episódios da primeira, cujo DVD eu comprei em Nova York. É uma comédia anglo-americana que reúne os dois estilos de humor, porque trata justamente do choque cultural: a recriação de uma sitcom britânica para o mercado dos Estados Unidos. Os problemas começam quando a emissora decide transformar o personagem principal, um diretor de escola gordinho e velhinho, num treinador de hóquei - e dão o papel para Matt LeBlanc, o Joey de "Friends". Matt interpreta uma versão exagerada de si mesmo, com ataques de primadonna e um apetite sexual incontrolável. Seria uma caricatura cruel se os produtores não o tivessem compensado por outro lado: o Matt de "Episodes" é bem-dotadíssimo, com um pau que parece uma criatura "saída dos livros de Júlio Verne". Não sei se "Episodes" já passa no Brasil num desses canais a cabo que eu costumo ignorar, mas vou comprar a segunda temporada assim que sair em DVD (a verdade é que tenho preguiça de baixar da internet). É um dos programas mais engraçados e inteligentes dos últimos tempos, e uma boa maneira de começar 2013.