sábado, 28 de dezembro de 2013

MEUS FILMES DE 2013

Devo estar com altos níveis de serotonina no cérebro, porque também tive dificuldade em reduzir minha lista dos melhores filmes do ano a apenas 10 títulos. O nível de porcaria que eu vejo no cinema caiu drasticamente, talvez por eu estar evitando sequências de comédias bobas e quase tudo com super-heróis. Saca só:

Sabe aquele tipo de filme que cresce na sua cabeça depois de visto? Pois é, "A GRANDE BELEZA" está cada vez maior para mim. Um pouco graças ao Contardo Calligaris, que fez uma leitura interessante: nossa tendência é condenar o protagonista por ter dissipado sua vida em festas e mulheres. Mas quem disse que ele a dissipou? O filme de Paolo Sorrentino acaba de ganhar o Grande Prêmio do Cinema Europeu e está entre os nove pré-selecionados para o Oscar de obra em língua estrangeira. Tomara que a Academia abra os olhos.

Uau, meu. Ki du caralho. Só mesmo um espetáculo grandioso em 3D (que ainda vi em 4DX) para despertar o moleque que havia em mim. O mexicano Alfonso Cuarón, que já tinha brindado a humanidade com obras-primas tão diferentes como "Y Tu Mamá También" e "Children of Men", deu um tour de force com "GRAVIDADE". Um drama existencial no espaço sideral onde coube até um pouco de humor involuntário: quem mais achou que George Clooney ia pedir um Nespresso para Sandra Bullock naquela cena em que ele volta à nave?

Muito me espanta "BLUE JASMINE" estar sendo louvado apenas pela excepcional performance de Cate Blanchett. Para mim é o melhor Woody Allen em mais de uma década - superior, inclusive, aos mais badalados "Vicky Cristina Barcelona" e "Meia-Noite em Paris". Esta variante contemporânea de "Um Bonde Chamado Desejo" deu a uma das grandes atrizes da atualidade uma personagem complexa, que se esforça para manter uma existência frívola enquanto se corrói de culpa por ter denunciado o marido. Abre espaço na prateleira, Cate.

"A HORA MAIS ESCURA", o filme de Kathryn Bigelow sobre a caçada a Osama Bin Laden, se arriscou no pântano da dubiedade e dividiu opiniões. Tanto que saiu de mãos abanando do último Oscar (só levou meia estatueta pelo Melhor Som, dividindo-a com "Skyfall"). Também provocou um debate animado nos comentários do meu post sobre o filme, insuflado por leitores de princípios inabaláveis. Ah, é o que eu sempre digo: como deve ser triste ter uma mente pequenina, onde não cabem duas ideias contraditórias ao mesmo tempo.

Os velhinhos no cinema são quase sempre espevitados. Uns malandrinhos que curtem a vida adoidado, não dão trabalho a ninguém e ainda servem de exemplo para a gurizada. A realidade é bem mais cruel, e ganhou um raro retrato em "AMOUR". O diretor austríaco Michael Haneke nunca usou luvas de pelica para acariciar a plateia, e, pela primeira vez, eu deixei que ele me tocasse fundo. "Amour" ganhou Cannes em 2012 e o Oscar de filme estrangeiro este ano, mas nem por isto é agradável de se ver. Mas é obrigatório. Coragem.

Os gays também se acostumaram a serem retratados com simpatia no cinema. O que não falta por aí é filminho de saída de armário, onde a bicha novata encontra namorado, família e trabalho, tudo no mesmo dia. Por isto o choque que "UM ESTRANHO NO LAGO" causa nos mais sensíveis: o comportamento irresponsável de muitos homossexuais aparece escancarado na tela, embalado por cenas quentíssimas de sexo explícito. Eros e Tânato, tesão e morte, AIDS e boa-noite-cinderela. Para estômagos fortes.

A mais longa DR da história do cinema chegou ao seu terceiro episódio em "ANTES DA MEIA-NOITE". Nove anos depois de resolverem ficar juntos, dessa vez os pombinhos não estão mais se seduzindo. Estão é tentando manter vivo um bom casamento, que no entanto é sujeito a precalços como qualquer outro. Julie Delpy e Ethan Hawke fazem um casal tão crível que é difícil pensar que eles não namoram na vida real. E o filme ainda tem a Grécia como cenário - um bálsamo para os meus olhos, então recém-chegados de lá.

Outra metáfora cinematográfica, desta vez sobre a ditadura franquista. Pois a "BRANCA DE NEVE" dessa obra-prima muda e em preto-branco é a própria Espanha, que caiu em sono profundo depois de morder a maçã envenenada da Guerra Civil. Maribel Verdú está magnífica como a Rainha Má, toda caras e bocas e glamour e atitude. Um fecho de ouro para o ciclo brancanevístico que agitou o cinema e a TV do mundo inteiro nos últimos dois anos, rendendo desde tolices hollywoodianas até a série "Revenge" e a novela "Avenida Brasil".

François Ozon confirmou duas vezes em 2013 porque é meu diretor francês favorito. Primeiro com o excelente "Dentro da Casa", uma versão suavizada do "Teorema" de Pasolini para os tempos que correm. Depois com o ainda melhor "Jovem & Bela", sobre uma adolescente de classe média que se prostitui logo depois de perder a virginidade, só porque... assista ao filme. Ainda está em cartaz por aí. Agora torço para que Ozon volte a fazer um musical, como o esplêndido "Oito Mulheres". Ou que volte ao Brasil e nos agracie com sua formosura.

Sou um dos poucos que não ficou de quatro por "O Som ao Redor" o filme que o Brasil escolheu para representá-lo no Oscar (e que já foi eliminado, judiação). Mas me rendi ao cinema vigoroso que vem de Pernambuco com "TATUAGEM", uma viagem ao desbunde dos anos 70. Foi quando, em pleno regime militar, sexo, drogas e liberdade afloraram como nunca depois. O caretíssimo Brasil de hoje tinha que fazer um revival daquele tempo, pelo menos nos costumes. E "Tatuagem" ainda tem as melhores cenas de tesão entre homens do nosso cinema.

Se houvesse justiça no mundo, minha lista dos 10 Mais incluiria muito mais coisa:

ALÉM DA FRONTEIRA - OS AMANTES PASSAGEIROS - ANNA KARENINA - AZUL É A COR MAIS QUENTE - A CAÇA - CAPITÃO PHILLIPS - CONTOS DA NOITE - DEPOIS DE LUCÍA - DJANGO LIVRE - FAROESTE CABOCLO - FERRUGEM E OSSO - FLORES RARAS - FRANCES HA - GUERRA MUNDIAL Z - O GRANDE GATSBY - HANNAH ARENDT - O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG - INDOMÁVEL SONHADORA - JOGOS VORAZES: EM CHAMAS - O LADO BOM DA VIDA - MINHA MÃE É UMA PEÇA - LES MISÉRABLES - MONSIEUR LAZHAR - QUAL É O NOME DO BEBÊ? - OS SABORES DO PALÁCIO - SERRA PELADA - AS SESSÕES - O VERÃO DO SKYLAB...

Mas não há.

6 comentários:

  1. Pelamor, Tony: Os amantes passageiros? Eu achei constrangedoramente ruim...E Anna Karenina também patinou no meu conceito. Mas eu fui um dos poucos que achou Before Midnight chatinho pra cacete, portanto...
    abraço imenso e um 2014 do cacete.

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  2. Adorei a lista, mas Gravidade? O filme é um pé no saco, efeitos especiais e nothing more...

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  3. Assisti poucos filmes esse ano, uma vergonha, tipos 39 segundo minhas anotações. Gostei de Don Jon, The Way Way Back, This is the End, How to Make Money Selling Drugs e....só. -___- (tem um de 2012, Disconnect, zuber bacana). 2014 prometo assistir muito mais filmes /\

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  4. Minha mãe é uma peça,Tony? Perdeu todo o meu respeito essa lista. Filme tão falado do Paulo Gustavo, mas antes do meio pro fim me causou toneladas nas pálpebras. Xoxão.

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  5. Cate Blanchett é o filme! Nem Sandra, nem Meryl, nem Julia...Esse Oscar tem que ser da Cate!

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