sexta-feira, 27 de setembro de 2013

MY MTV

Em 1990, eu fiz teste para VJ na MTV. Já estava com quase 30 anos e acima da idade máxima exigida, que era 28. Mas vai que cola, né? Não colou. Mas a minha história com o canal só estava começando. O Zeca Camargo, grande amigo meu desde os tempos da faculdade, foi contratado como diretor de jornalismo, e eu acompanhei de perto todo o processo de implantação. A inauguração aocnteceu no mesmo dia do meu aniversário, 20 de outubro, e muitos dos funcionários deram uma esticada na minha festa. Dois anos depois, Zeca chamou meu irmão Zico para fazer umas traduções por lá. Mais alguns anos e foi a vez do Zeca sair, de volta à "Folha" e rumo à Globo. Mas o Zico continuou, chegando a diretor de programação. É neste posto que ele passa o ferrolho na MTV Brasil, talez o fenômeno mais importante da TV brasileira nas duas últimas décadas.

Nesse tempo todo, tive um único contato profissional para valer com a emissora: escrevi as perguntas para o "Quiz MTV", que foi ao ar de 1999 a 2000. Mas os contatos sociais foram inúmeros e constantes. Conheci muita gente, fiz muitos amigos, fui a quase todos os VMBs. Assisti de camarote ao surgimento das ideias mais malucas e a todo o drama da derrocada. É fácil dizer que a MTV deixou de ser o que era porque parou de passar tanto clipe, ou que foi vítima da ascensão das redes sociais. A juventude de hoje não é mais a de uns anos atrás, e não é só questão de gosto. Também é bom lembrar que a MTV perdeu força no mundo inteiro, e que, em países como a Rússia, ela sequer existe mais.

Vai sobreviver no Brasil, mas claaaro que não vai ser mais a mesma coisa. Há muito investimento e muita gente boa envolvida na nova encarnação, mas, enfiada no meio dos canais pagos, a MTV corre o risco de se tornar tão relevante quanto sua irmã VH1. E, mesmo que arrebente na audiência, os tempos são outros. A marca não tem mais o apelo que teve um dia, a garotada não tem quase mais nada de transgressora e a nova classe C prefere o sertanejo uiversitário.

Para mim é um ciclo enorme que se fecha, apesar de eu ter vivido muita coisa por tabela. Meu irmão está recebendo alguns convites interessantes, e dentro em breve deve anunciar para onde vai. De qualquer forma, ele conseguiu armar uma despedida de arromba para o canal onde trabalhou durante quase toda sua vida adulta. Neste domingo ele assina um artigo sobre sua experiência na revista "Serafina". Estou explodindo de orgulho - tanto que a melancolia se faz pequena, já que vem coisa nova pela frente. A MTV Brasil sai do ar, mas continua na linguagem que implantou, nos profissionais que se espalharam por outros canais e, principalmente, numa atitude de curiosidade e ousadia que nem a breguice dos dias que correm conseguiu eliminar. We gotta move these colour TVs!

22 comentários:

  1. É a geração Y tomando o espaço da geração X.
    Apenas isso.

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  2. Nicolette Parsons a.k.a. Wândala Ensandecida27 de setembro de 2013 17:27

    Já vi tudo, vai ser mais um canal pago sem sabor, sem alma, vendido na grade, oferecido em algum 'pacote' ou combo #RelevanciaDeIsopor... Pela MTV Brasil passou o que há de melhor - Astrid, Thunderbird, Tatá Werneck, Babi Xavier, Zeca, Didi Wagner, Adnet, Dani Calabresa, Sarah, Marina Person, Léo Madeira, Penélope Nova ... todos guardados no S2 de quem curtiu muita música nos anos 90 e início dos 2000...

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    1. Eu me lembro de Sabrina Parlatore, Chris Nicklas(acho que escreve assim!), Sarah Oliveira, quando chegou uma tal de Silvinha(não me lembro o sobrenome) era também o fim de minha adolescência, foi o momento de adeus como telespectador da emissora!
      Agora curioso, a emissora tão moderna de seu irmão não me ajudou a sair do armário e me entender melhor. A revolução da internet, que com certeza contribuiu para o fim da emissora, foi um fator mais importante para me tornar um adulto mais saudável.

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  3. A MTV dos anos 90 e início dos 2000 vai deixar muitas sdds.

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  4. SEM CONTAR QUE A MTV FEZ MUITO PELA CAUSA GAY COM SEUS INUMEROS PROGRAMAS, VINHETAS, DOCUMENTARIOS E SEMPRE TRATOU DESSE ASSUNTO SEM TABU E COM MUITO RESPEITO.

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    1. Nicolette Parsons a.k.a. Wândala Ensandecida27 de setembro de 2013 22:11

      Sem dúvida foi no programa da hoje global Fernanda Lima - Fica Comigo? era o nome se não me engano - que aconteceu o primeiro beijo gay da TV brasileira, lá em 2001, isso contribuiu sim e muito em visibilidade, lembro que G Magazine e outras publicações gays da época repercutiram muito essa ousadia da MTV que bem podia fazer como outros canais hipócritas de televisão, mas não se intimidou, gravou o programa e exibiu na íntegra. Penélope Nova tinha o Ponto Pê que atendia ligações c/ dúvidas sobre sexo, por inúmeras vezes a pauta do programa atendia mais a questões homo que hetero e ela tb era super gente boa, incentivava autoaceitação, pregava o respeito à diversidade... Enfim MTV vai ficar mesmo na memória afetiva de muitas gerações...

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  5. Ai, eu vivo em Goiânia, e tipo uma vaca jogada no mar, pois não curto estar num local onde sertanejo e predominante.
    MTV de verdade deixara saudades pra mim, se a nova MTV se tornar um VH1 espero que entre no pacote.
    Tomara que MTV continue sendo um celeiro de novos comunicadores!!!

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  6. Descanse em paz MTV. Foi ótimo até aqui. Mas nem tudo é eterno.

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  7. Doeu em mim a constatação da classe C e o gosto dela pelo sertanejo universitário, e pensar nos desdobramentos disso... tristes tempos!

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  8. Tony, boa sorte para seu irmão e para a MTV. Mas o que a "classe C" tem a ver com o destino da emissora? Quem hoje gosta de sertanejo universitário antes gostava de axé, pagode e sertanejo normal. Nunca deu a mínima para a MTV.

    E o que existia de transgressor em sentar no sofá e ver TV por horas? Quem "transgredia" dessa forma continua "transgredindo" no Youtube e no Vevo, não vejo de que forma as coisas ficaram piores.

    Sem querer pegar pesado mas já pegando, tanto preconceito de classe incrustado desnecessariamente em um só post ameaça tornar hipócritas todos os textos onde você reclama de discriminação contra os gays...

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    1. A nova classe C - em termos MUITO gerais - só está interessada em consumo. Qeur comprar mais. Ainda são muito conservadores, tanto no comportamento como na cultura. É natural: a maioria tem muita informação, mas não tem formação, pelas deficiências crônicas do nosso sistema educacional. A tendência, oxalá, é melhorar com o tempo.

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    2. Tony, análise boa a sua, mas ousaria ir mais longe e dizer tb que a classe c - inclusive e principalmente os jovens que nela cresceram -, é homofóbica em potencial pela crassa (de)formação educacional-cultural que tiveram ou acharam que tiveram, FATO. No mais vc foi na mosca.

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    3. Perfeito. Só não entendo de que forma isso tem a ver com a MTV, cujo público supostamente seriam as classes A e B, as quais não diminuíram de tamanho nos últimos anos.

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    4. Anônimo, mas foi isto o que eu falei na minha resposta: a nova classe C é conservadora tanto na cultura como no COMPORTAMENTO, e isto inclui a homofobia. Tudo culpa da falta de educação.

      Giovanni, a ascensão da nova classe C e seu gosto estragado é só um dos motivos do final da MTV Brasil. A expansão da internet e de sites como o YouTube tem uma parcela de culpa muito maior.

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    5. Não tem nada mais "classe média" do que dizer que a "nova classe C" tem mal gosto musical, ao contrário de nós. O gosto pelo sertanejo universitário por exemplo é muito mais uma questão geracional do que classista. Tem um post hilário no TDUD sobre um dueto dos irmãos Rudge (Itaú + Trussard apenas). Advinhem o sonho do menino? Ser cantor sertanejo. Existem outros trocentos casos de herdeiros quatrocentões que adoram o estilo. Sobre a MTV, acho que ao tentar promover uma cena musical tão específica (Emicida, Crilo, Gaby Amarantos, Cone Crew, etc ) acabou perdendo o diálogo com a realidade. Um professor jovem e gay certa vez comentou na aula de propaganda da minha pós que o trabalho do colega parecia uma esquete da MTV, uma loucura que ninguém conseguiu entender. Eu pessoalmente adorei essa última fase da MTV, mas a opção de não dialogar com o mundo ou querer criar um mundinho só dela foi um dos fatores que fez o canal perder a relevância, bem diferente do que ocorre com a MTV nos Estados Unidos que respira POP e fala o que as pessoas em geral estão interessadas em ouvir. RIP MTV Brasil.

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  9. Eu lembro do primeiro dia, em que todos os VJs se apresentavam pelo primeiro nome, com um sonoro "BOM DIA"

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  10. Fala ae Tony, eu tbm faço niver em 20/10, pude acompanhar minha adolescência inteira a MTV, adora o Contos do Thunder (era mto bizarro), Beavis e Butt-head, Disk MTV, super nova (com a Didi e o Marcos Mion novinhos na TV), conhecer músicas novas e principalmente ver as imagens das musicas, saber a cara de quem cantava no radio. Fico triste com o termino da emissora, mas infelizmente nos últimos anos não estava bacana como antes. Agora estou assistindo o Disk especial com a Sabrina com um gosto de despedida mesmo.
    Boa sorte pro seu irmão e um feliz niver antecipado pra nós rs.
    Abraço
    (PS: Primeiro lugar agora Garota Nacional do Skank)

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  11. Momento nostalgia: chegar em casa da escola e ir correndo ver o Disk MTV. Eu e meu irmão anotávamos num quadro negro a parada de todo dia e comparávamos com a do dia anterior. Quase uma bolsa de clipes: Sobe Patience. Desce Being Boring...
    E no Rio a MTV passava no canal 9 VHF, mas só depois do meio-dia. Antes, ainda era a programação da TV Corcovado (eu acho). LEvou uns anos para ir pra UHF.

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  12. Lola Divônika-Baphônika29 de setembro de 2013 03:05

    As prémieres de vídeos reuniam todos no sofá c/ direito a pipoca e guaraná - nesse esquema chegaram ao Brasil Black or White e Remember the Time do MJ, November Rain do Guns, Justify My Love da Madonna.... O Zeca Camargo era gatinho...

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  13. Querido Tony, gostei muito do texto.

    Tinha 13 quando circulava a informação que a MTV seria inaugurada. Comprei um conversor UHF e coloquei antena com Bombril pendurada na janela da sala. Captava o colorbar Rede Abril com muitos chuviscos. Era possível também ver alguns testes que foram ao ar antes da emissora começar oficialmente. Nestes testes, lembro do Gastão fazendo algumas cabeças e alguns clipes que passavam seguidos do retorno do colorbar. Ao meio dia de 20 de outubro de 1990 lembro quando inaugurou: entrou um promo de 10 minutos apresentando os VJs e os programas. As bandas da época apareciam dizendo Te vejo na MTV. Era tudo muito excitante. Desde criança sempre gostei do muito pop, andava com meus discos de vinil para lá e para cá. Com a MTV, a música ganhava uma cara e eu tinha acesso a novidades: não perdia o Lado B, nem as paradas do DISK MTV. A MTV trouxe um acesso que eu não tinha e de certa forma influenciava nos círculos de amigos: tinha a turma do Deee-Lite, a turma do Nirvana e por aí vai. A inovação e a ousadia sempre foram a marca do canal. Que outra emissora mandou o jovem desligar a TV e ler um livro ou falou com o jovem tão de perto sobre política e sexualidade? Se nos últimos anos eu não assistia tanto a MTV ou achava algumas coisas não tão boas foi porque envelheci. Mas isso é um problema meu, não da MTV. Aos meus 13 anos vi quando entrou no ar e aos 36 vi o encerramento. Vai fazer muita falta.

    Um abraço, Marco Antonio.
    https://www.facebook.com/docgori

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  14. Querido Tony, gostei muito do texto.

    Tinha 13 quando circulava a informação que a MTV seria inaugurada. Comprei um conversor UHF e coloquei antena com Bombril pendurada na janela da sala. Captava o colorbar Rede Abril com muitos chuviscos. Era possível também ver alguns testes que foram ao ar antes da emissora começar oficialmente. Nestes testes, lembro do Gastão fazendo algumas cabeças e alguns clipes que passavam seguidos do retorno do colorbar. Ao meio dia de 20 de outubro de 1990 lembro quando inaugurou: entrou um promo de 10 minutos apresentando os VJs e os programas. As bandas da época apareciam dizendo Te vejo na MTV. Era tudo muito excitante. Desde criança sempre gostei do muito pop, andava com meus discos de vinil para lá e para cá. Com a MTV, a música ganhava uma cara e eu tinha acesso a novidades: não perdia o Lado B, nem as paradas do DISK MTV. A MTV trouxe um acesso que eu não tinha e de certa forma influenciava nos círculos de amigos: tinha a turma do Deee-Lite, a turma do Nirvana e por aí vai. A inovação e a ousadia sempre foram a marca do canal. Que outra emissora mandou o jovem desligar a TV e ler um livro ou falou com o jovem tão de perto sobre política e sexualidade? Se nos últimos anos eu não assistia tanto a MTV ou achava algumas coisas não tão boas foi porque envelheci. Mas isso é um problema meu, não da MTV. Aos meus 13 anos vi quando entrou no ar e aos 36 vi o encerramento. Vai fazer muita falta.

    Um abraço, Marco Antonio.
    https://www.facebook.com/docgori

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