sábado, 17 de agosto de 2013

A GLÓRIA DE MIRANDA

Se houvesse justiça neste mundo, Miranda Otto seria indicada ao Oscar por "Flores Raras". Essa atriz australiana é (pouco) conhecida por sua participação na trilogia "O Senhor dos Anéis", mas foi no filme de Bruno Barreto que ela encontrou o melhor papel de sua vida. E que papel: Elizabeth Bishop, poeta, alcóolatra, assustada/deslumbrada com o Brasil e com Lota Macedo Soares. As duas viveram um romance que, como disse  Contardo Calligaris na "Folha" de ontem, trouxe à tona o melhor de cada uma. Lota construiu o Parque do Flamengo, e Elizbeth escreveu um livro que ganhou o prêmio Pulitzer. Mas nem tudo eram flores. Para começar, Mary, a ex de Lota que trouxe a amiga Elizabeth para o Rio, nunca saiu de perto. A brasileira tinha um temperamento fortíssimo, e a americana afundava na bebida os traumas de uma infância sofrida. Tudo isto está no filme, que no entanto não consegue evitar uma certa barriga lá pela metade. Mas também capta a efervescência cultural brasileira logo antes do golpe de 64, e o baixo astral que se seguiu e que ajudou a terminar este amor transcontinental. Glória Pires está esforçadíssima como Lota, mas para mim seus diálogos em inglês soam muito decoradinhos demais, pouco naturais. Mesmo assim, ela cresce mais para o final. Mas não chega a ser páreo para Miranda Otto, que constrói com olhares e silêncios um dos maiores nomes da literatura em inglês do século 20.

E já que hoje é sábado e temos tempo a perder, aqui vai o poema mais conhecido de Bishop, "One Art" (conhecido popularmente como "The Art of Losing"):

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

A tradução mais conhecida em português é a de Paulo Henriques Britto:

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça
(Escreve!) muito sério.

Existe uma outra, de Nelson Ascher, muito boa. Mas eu prefiro a de Britto.
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant 
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied.  It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
- See more at: http://www.poets.org/viewmedia.php/prmMID/15212#sthash.ed3vVQPl.dpuf
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant 
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied.  It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
- See more at: http://www.poets.org/viewmedia.php/prmMID/15212#sthash.ed3vVQPl.dpu

18 comentários:

  1. Tony, se não é fácil para gente hoje, imagina viver um romance(não estou falando de pegação escondido) há somente algumas décadas atrás?
    Eu tb quero! rsrs

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  2. A química entre a dupla é muito boa. Miranda está competente, sutil e delicada. Mas Gloria preenche a tela inteira e só não engole a parceira porque é uma profissional generosa.

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  3. "soam muito decoradinhos demais"

    I rest my case.

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  4. Estou louco para vero o filme. Glória é um monstro! Adoro ela!
    E esse poema que você postou eu já conhecia, é um dos meus favoritos.

    Agora, Tony, nem uma palavrinha sobre o Globo Reporter de ontem?
    Mesmo?

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  5. O filme tem uma barriga como o Tony disse. E no começo tudo é rápido demais: as apresentações das protagonistas, a situação que Lota vivia com Mary e o rápido desembarque de Bishop no Rio, que aliás foi realmente em Santos. O arco da história é a transformação de Lota e o como ela se exauriu com a relação com Bishop e o aterro do Flamengo. Mesmo assim, o filme é delicado e Mirando soube dar o tom exato da melancolia de Bishop.

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  6. Não, o desembarque não foi em Santos. O navio passou primeiro por Santos e depois se dirigiu ao Rio. Está no livro Flores Raras e Banalíssimas.

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  7. nao, nao gostei da gloria no filme.nao,nao vou assistir pq tb n gosto de filme sobre sapata.

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    1. Puxa, você se deu ao trabalho de vir aqui escrever essa bobagem? Achou o quê, que ia ter graça? Ou que ia conseguir ofender alguém? Da próxima vez que se der ao trabalho de escrever bobagem, seria bom ao menos fazer um esforço maior pra escrever direito, né???

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    2. Se ainda não assistiu o filme, como pode afirmar que não gostou da Gloria no filme? Não gostou dela ter sido escalada é isso? Ah, esses anônimos...

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    3. Depois do ponto final tem espaço, ok?

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    4. Ô gente, eu vi o trailer e nao gostei daquele inglês forçado da gloria. parei aí. nem acompanhei mais e mt menos ver o tal filme. quanto ao filme sobre sapata, tenho o direito de gostar ou não?

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  8. Lindo poema! Jabor também escreveu sobre o filme - na verdade, falou mais a respeito da Elizabeth Bishop. Pra quem não leu e tem interesse: http://oglobo.globo.com/cultura/a-rara-flor-da-poesia-9493311

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    1. Gente que curte o Jabor, argh!!!!

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  9. Linda estória outros tempos!!!!

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    1. Pode usar "história" nesse sentido também. Hoje em dia é admitida a utilização para os dois sentidos.

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  10. Deve ser um ótimo filme. Espero que por ser do tipo "não muito procurado", eles não deixem apenas por uma semana em exibição nos cinemas daqui como geralmente acontece com este tipo de filme.

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