domingo, 26 de maio de 2013

A DOR DE QUEM FICA

Eu não tinha a menor intenção de ver "Elena". Documentário, para me fazer sair de casa, enfrentar as intempéries e morrer num ingresso de cinema, tem que ser sobre algum assunto que eu ame de paixão, tipo "As Aventuras de Tintin". Suicídio, então, é algo que me interessa tanto quanto o campeonato pernambucano de futebol de salão de 1935. Não tenho um único osso suicida no meu corpo. Nunca pensei em me matar. Nem mesmo quis morrer - só de vergonha, e foram só umas poucas vezes. Mas de repente o suicído virou o leit-motiv dos últimos dias. Há um suicídio no ceomço de "O Que Traz Boas Vindas", o penúltimo filme que vi, e ontem fui à missa de sétimo dia da filha de uma amiga. A mãe estava destroçada; era de partir o coração. Difícil imaginar que a dor de quem se mata seja maior do que a de quem fica. Foi essa dor que levou Petra Costa a fazer um filme sobre sua irmã Elena, 16 anos mais velha, que se matou com apenas 23 anos. As críticas são tão boas que eu venci minha resistência e lá fui eu, pronto para gostar. Tecnicamente é mesmo uma maravilha: imagens lindíssimas, oníricas, que se casam muito bem com antigos filmes caseiros em super 8, graças a uma montagem soberba e a um ótimo uso da música. Mas, emocionalmente, não meu pegou. "Elena" talvez devesse se chamar "Petra", porque é quase todo sobre a tristeza da irmã sobrevivente. Saímos do cinema sabendo apenas que a jovem que tirou a própria vida era bonita, alegre, dançava muito bem e tinha muitos planos. Por que então caralho se matou? Não se fala em histórico de depressão, nem em nenhum incidente que tenha detonado o processo suicida. Um belo dia, alguns meses depois de ter se mudado para Nova York para estudar teatro, Elena toma um vidro de aspirinas com cachaça e morre. Antes, havia apenas se queixado de um grande "vazio". Só isto? Queria saber mais, queria entender um tequinho melhor. Mas não: "Elena" mantém sua protagonista no escuro, apesar das cenas luminosas. Nesse ponto, achei o filme quase covarde. Ou vai ver que eu esperava outra coisa. Muita gente tem se emocionado, mas eu não nasci com esse chip.

11 comentários:

  1. Naobtem felacao alguma ao seu post, mas queria os seus comentarios sobre a coluna do Fiuza na Epoca dessa semana.

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  2. Oppps... Ato falo, oops falho... Relacao.

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    1. "Falta o Ministério das Empresas Médias"?

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  3. Não considero covarde! O suicídio deixa uma grande interrogação. Não ha um explicação e nem como saber o que passou na cabeça da pessoa. Você convive com a pessoa, uma relação feliz, trabalhador respeitável, com bom emprego e saúde perfeita; porem um dia chega em casa e encontra a pessoa morta. Investiga e não encontra nada!

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  4. O pior do suicídio é que a pessoa acha que vai ficar livre dos problemas, mas é aquilo, sai do atoleiro aqui, e cai no abismo sem fundo!!!!

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  5. outra vez o mimimimimimimi do tony

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  6. Quantos suicídios são mortes acidentais? Mês passado, o guitarrista da Pitty foi encontrado morto. Não tinha histórico de depressão nem nada, mas foi encontrado com o cinto amarrado no pescoço. Será que não foi um breath control que deu errado, igual ao Michael Hutchence do INXS? Porque morte com aspirina e álcool me soa tão leve para uma decisão tão forte.

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  7. Eu não tinha muito interesse nesse filme, até que um amigo chegou emocionadíssimo e acabou despertando minha curiosidade. Ainda não vi, mas acho q a irmã viva não deve saber mesmo nada sobre os impulsos suicidas da outra ou quis romancear uma lembrança. Eu tenho 3 suicidas na família, de um modo geral foram todas mortes anunciadas. Ele eram deprimidos, os mais próximos não sabiam lidar, eles recusavam ajuda. E nem sempre depressão se manifesta como tristeza, né? Ano passado estava em Budapeste e por toda a cidade tinham cartazes de um intercambista que havia pulado da ponte e estava desaparecido. Pensei: poxa, q família irresponsável, como deixar um adolescente deprimido viajar sozinho pra ele se jogar no Danúbio?. Mas será q a família tinha percebido? Uma coisa sabemos, suicidas são mesmo silenciosos: quem fica deixando bilhetes pela casa ou cortando os pulsos querem só chamar a atenção....

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  8. A discussão do porquê no suicídio gera muito "pano pra manga". Tendo vivido a experiência com pessoas próximas que tentaram matar-se, na maioria das vezes a intenção não é deixar de viver por não gostar da vida ou mesmo uma vingança contra outra pessoa. Me parece que a dor e o vazio que o suicida carrega dentro de si, por "n" motivos, muitas vezes não aparentes, é tão grande que o objetivo é simplesmente deixar de sentir, parar de doer.

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  9. é preciso sensibilidade e, sobretudo, vontade em conhecer o contexto que hã por trás de uma produção artística. Petra Costa possui um histórico em trabalhar com temas profundos ( independentes de serem reais ou não). O filme ELENA foi divulgado muito mais como um filme de ensaio que um documentário, além de ser considerado como um filme de Arte. Não concordo com a opinião de que o filme deveria se chamar "Petra" e não ELENA e o motivo se encontra, essencialmente, na própria história: qualquer um pode possuir uma identificação com Elena em algum momento da vida. Na história, Elena vira arte e, como toda arte, apreciamos enquanto buscamos, compreendê-la, interpretá-la.

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