sábado, 16 de fevereiro de 2013

O LADO ESCURO DA VIDA

Nunca me comovi com notícias de que os Estados Unidos estariam torturando prisioneiros ligados à al-Qaeda para obter informações. Prefiro um terrorista (ou um amigo de terrorista) machucado do que 300 pessoas mortas num atentado. Por isto foi com prazer quase sádico que encarei a primeira cena de "A Hora Mais Escura": uma longa sessão de waterboarding, uma técnica de simulação de afogamento denunciada por tudo que é órgão de defesa dos direitos humanos. Só que a tal sessão é longa demais. E não envolve só água: o malvado também é esbofeteado, acorrentado, chutado e encaixotado, até se borrar nas calças. Foi o bastante para que eu me horrorizasse e pedisse por clemência. Mas a diretora Kathryn Bigelow brinca com as suas emoções: assim que você começa a se apiedar do sujeito, ela corta para a explosão de um ônibus em Londres ou coisa que o valha. Não deixa nunca a gente se esquecer por quê aqueles caras estão sendo torturados. Ainda assim, "A Hora Mais Escura" perdeu sua condição de favorito ao Oscar por causa destas cenas iniciais. A esquerda americana acusou o filme de apoiar a tortura; a direita, de estar revelando segredos da CIA que poriam o país em perigo. Bigelow e o roteirista Mark Boal alegaram que estão apenas relatando a sequência de acontecimentos que levou à execução de Osama bin Laden, ou pelo menos o que pode ser relatado. A protagonista Maya, uma agente secreta sem vida pessoal, é uma combinação de várias mulheres diferentes. Jessica Chastain está bem no papel, mas ele não exige a mesma entrega emocional que suas rivais Jennifer Lawrence ou Emmanuelle Riva enfrentaram em seus filmes; duvido que fature o Oscar. Mas Bigelow estar fora do páreo pelo prêmio de melhor direção é inexplicável. A impressionante sequência final, que mostra o ataque dos Navy SEALS à casa de bin Laden em Abbottabad, é cinema em estado puro. O espectador fica com a respiração suspensa, tão palpável é a tensão - e isto apesar de saber como as coisas vão terminar. Pelo que se vê na tela, a ação não teve uma precisão tão cirúrgica assim, com crianças chorando, cachorros latindo e vizinhos acendendo luzes e vindo ver o que acontecia (além de um helicóptero que cai e explode, hehe). "A Hora Mais Escura" é um pouco longo demais e tem momentos maçantes, mas propõe um debate interessantíssimo ao jogar luz no lado sombrio da nossa moral e ainda tem um clímax grandioso. É um filmaço.

25 comentários:

  1. E se torturar a pessoa errada? Abrir exceção, legitima a tortura como ocorreu no Brasil em suas ditaduras? Esse assunto é meio fodão, viu!

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    1. Ah, vc tirou a originalidade do meu comentário! Rs

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  2. Não consigo acreditar que Kathryn Bigelow não foi indicada e David O. Russel foi... O lado bom da vida é um filme tão bobinho. Tony, não vi sua crítica de Indomável sonhadora,vc já fez? E qual o seu filme favorito?

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    1. Não baixo filmes da internet, então só vou ver "Indomeavel Sonhadora" quando estrear nos cinemas brasileiros semana que vem.

      É o único dos nove indicados que me falta. Dos oito que vi até agora, meu favorito continua sendo "Argo", com a "A Vida de Pi" em segundo.

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    2. Quando saí do cinema depois de ver O Lado Bom da Vida tive a sensação de ter sido roubado. Duas horas da minha vida que não voltarão jamais.

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  3. To alucinado pra ver esse!

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  4. Eu já assisti todos baixados... na minha cidade não tem cinema. hehe

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    1. Que beleza, pirateando tudo... Dane-se o esforço de quem financiou e fez o filme, não é mesmo? O melhor de tudo é piratear (roubar) e contar pra todo mundo que fez mesmo!
      Essa mesma amoralidade de tolerar/praticar pequenos delitos permeia a vida brasileira, depois voces não entendem porque todo mundo é desonesto.

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    2. Anônimo 2, vc tem razão; mas com a falta de fiscalização da meia-entrada, o valor do cinema está quase proibitivo. Paguei R$22,00 pra ver As Aventuras de Pi, meu amigo que tem uma carteirinha de estudante falsificada (como muita gente tem) pagou R$11,00. Se eu fosse vir no cinema todos os filmes bons do momento gastaria algo em torno de R$200,00.
      Em tempo: As Aventuras de Pi é deslumbrante.

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    3. Anonimo 2 nao tem razao coisa nenhuma!
      Primeiro pq piratear não é roubar, são coisas BEM DIFERENTES! Não estou aqui dizendo que piratear é legal, certo ou justo, mas é completamente diferente de roubar. Equiparar pirataria a roubo é um lobby muito bem vendido das indústrias, mas esse aí eu não compro!
      Segundo pq TODO MUNDO pirateia, não apenas brasileiros. Então não venha com esse seu preconceito velado.

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    4. João, o fato de todo mundo no Brasil, na China, na Índia e outros arrabaldes subdesenvolvidos piratear não faz o ato mais aceitável. Só uma pessoa com valores morais distorcidos concordaria com você. Mas entendo que a imersão em um ambiente onde pequenos delitos como este são aceitos gera esse tipo de complacência, e serve para validar delitos maiores. É um acinte depois ver gente se vangloriando de piratear mesmo porque todo mundo faz.
      Tolerância zero começa assim, mas é provavelmente fantasioso de minha parte que realmente aconteça.

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    5. Só um esclarecimento: o João acima não sou eu.

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    6. João, who cares ?

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  5. Poxa, Tony...
    Confesso que me admirei com a sua indiferença à prática de tortura utilizada pelos diversos países ocidentais na chamada Guerra contra o Terror. Achei que um cara como vc seria inflexível num assunto como este.
    O primeiríssimo problema é pegar o cara errado (e acredite! Os EUA pegaram vários caras errados que sofreram pra caralho só por ter a pele mais morena, um nariz adunco ou qq coisas que o dê "cara de árabe") e, ainda que os caras pegos sejam os certos - os terroristas - acho muito questionável que um país que se diz democrático se utilize desses métodos, mesmo por uma questão de segurança nacional.
    E já que o assunto é cinema, impossível não lembrar de V de Vinganca, filme no qual uma ditadura horrorosa é fundamentada na manipulação do medo na mente dos indivíduos.
    Enfim, alguns valores são pétreos justamente pq sua importância é maxima sob qualquer circunstancia. Mantê-los, ainda que em determinadas circunstâncias seja mais vantajoso jogá-los fora ou flexibilizá-los, é sempre mais seguro e efetivo a longo prazo...

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    1. Se por acaso me pegassem por engano e me torturassem assim, em poucos minutos eu teria admitido até ter matado Kennedy.
      Mas em matéria de filmão, recomento Argo. Logo no começo eles deixam claro como cristal que a causa da revolução islâmica foi o imperialismo anglo-americano.

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    2. Pedro, não é tão fácil dar este parecer de ser contra a tortura ainda mais neste caso. Se você for ver o filme Unthinkable de 2010, vai notar o que estou dizendo. O filme trata de uma ameaça terrorista, em que um infiltrado do oriente médio instala 3 bombas nucleares em 3 cidades do EUA.
      Aí não sabendo mais o que fazer para saber onde elas estão e havendo grande risco de destruição das maiores cidades: NYC, LA e Chicago o FBI apela para um ex-torturador de guerra. Aí começam as sessões de "maus tratos", mas como o terrorista capturado tem o objetivo e não cede por nada eles começam a ficar sem saída, até o momento de ser pensado torturar os filhos ainda crianças dele em sua frente com grandes chances dele dizer onde elas estão. Então a atriz Carrie Anne Moss fica com aquele papinho de Convenção de Genebra de pacto de não tortura (mesma visão que você). O tempo vai se esgotando e no fim depois de tanta pressão ela decide direcionar sua atitude para não torturar as crianças, mesmo que isso acabe com milhões de vidas, pois os agentes estão tendo dificuldades de achar as bombas. Além disso, tinha uma bomba a mais e aí o filme acaba. Bummmm! E aí Pedro, valeria a pena ter torturado as 2 crianças, mesmo que inocentes para possivelmente ter salvo milhões? Ah detalhe: salvar milhões de americanos e machucar ou só ameaçar 2 estrangeiros, ou melhor, meros árabes (acho que isso têm relevância para o povo lá de cima, não?)

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    3. Não, Caio, nem assim teria valido a pena torturar as duas crianças (nem o pai).
      O problema é justamente esse: primeiro flexibilizamos a tortura em casos extremos (como no do filme que vc citou), depois flexibilizamos em casos graves, depois em casos não tão graves e, qnd nos dermos conta, a tortura estará banalizada...
      Unthinkable parece interessante, vou procurar pra assistir. Por outro lado, tbm te recomendaria O Suspeito, com Reese Witherspoon e Jake Tudo de Bom Gyllenhaal. Um bom filme sobre o tema, porém mostrando qnd pegam o cara errado.

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    4. Exatamente, Pedro. Nem assim teria valido.

      That's the spirit.

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    5. Bom então nesse caso teria deixado morrer milhões de pessoas levando acima de tudo o lado emocional. Eu penso o contrário, tive raiva da personagem ao fazer o que fez, achei ela fraca para o cargo que ocupava, enfim. Pena que tive que contar o filme, não tinha outro jeito de te explicar o ponto de vista que eu queria. Da mesma forma que também sinto raiva ao ver a injustiça no caso do filme que você citou, já vi um parecido, mas vou ver esse também.

      Abraço.

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  6. Tortura no cu dos outros é refresco.

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  7. Apoiar tortura - contra qualquer pessoa, até um Hitler ou Stalin da vida - é se equiparar a essa pessoa. Ponto final. Quem está acima disso, apenas prende; isola. Demoramos séculos para entender que "olho por olho, dente por dente", penas em espaços públicos, etc, são totalmente hediondas, além de possivelmente poderem ser aplicadas a pessoas inocentes. Quem nunca prejulgou? As justiças (de qualquer país) não erram? Aliás, esse é o argumento mais forte contra a pena de morte e coisas afins: uma prisão pode ser algo ruim, mas é reparável. Tortura e morte não são.

    Sinceramente, Tony, Bolsonaros pensam assim. Não adianta ser LGBT-friendly (por motivos óbvios) sem se colocar no lugar de outras pessoas, que sofrem com outros problemas.

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  8. O mio babbino caro

    O fato dos americanos
    Desrespeitarem
    Os direitos humanos
    Em solo cubano
    É por demais forte
    Simbolicamente
    Para eu não me abala
    (CV)

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  9. Acho engraçado que a vida seja um valor relativo, mas a proibição à tortura não.

    Você pode matar para salvar a sua vida, a vida de terceiros e a própria pena de morte no Brasil é permitida para crimes de guerra.

    Torturar alguém? Jamais. Isso é inflexível.

    Mas deixar muita gente morrer por má gestão pública (falta de $ pra hospitais, etc), isso é perfeitamente tolerável no Brasil.

    Quando os princípios nos convém, nos agarramos a eles. Quando somos forçados a admitir que a realidade não é perfeita como eles, aí a coisa muda.

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    1. Foi exatamente ao ponto, Daniel. Essas opiniões absolutas sobre tortura são típicas de gente que leu mas não parou para olhar ao redor...

      Tortura é condenável sim, mas nenhum preso retratado no filme estava ali por acaso. Provavelmente estava fazendo coisa errada no momento da prisão ou antes dele. Portanto, Fárlley, não faz sentido pensar que você seria selecionado aleatoriamente para ser preso e torturado até confessar ter matado Kennedy.

      Quanto ao filme, não teria ido ver espontaneamente. Fui ver convidado por um amigo, achando que não gostaria, e acabei gostando muito. O mais incrível é que, mesmo sendo um filme longo, em nenhum momento achei que foi maçante. Passou até rápido. Agora entendo por que a diretora ganhou o Oscar com outro filme do gênero.

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