domingo, 24 de fevereiro de 2013

COUNTRY LIVING

Danuza Leão escreveu uma carta de ódio e desprezo ao Rio de Janeiro Country Club em sua coluna na "Folha" de hoje. É uma declaração de solidariedade à atriz Guilhermina Guinle, que recentemente teve seu "nome na pedra" só para "levar bola preta". Um texto bem humorado, que no entanto não esconde uma ponta de ressentimento. Minha mãe contou que a própria Danuza levou bola preta, lá se vão tantos anos.

Não sei se é verdade, mas sei que é perfeitamente plausível. Conheço bem as engrenagens do Country: passei toda a infância e adolescência lá dentro. Meu pai foi diretor, membro do famigerado Conselho e, por dois mandatos consecutivos, presidente do clube. Esta foi sem dúvida a maior conquista de sua vida: ele transbordava de orgulho por dentro ao pensar que o rapaz de classe média da Tijuca tinha alcançado tamanha honraria. Por isto morreu realizado, sem casa própria - morava num apartamento alugado num prédio pegado ao Country.

Vendemos seu título por 45 mil reais e dividimos a grana pelos cinco irmãos. Isto foi em 2005; hoje em dia deve valer um pouco mais. Parece caro, mas o que custa mesmo os olhos da cara é a transferência: luvas pagas diretamente ao clube, que hoje estariam por volta de um milhão de reais. Um dinheiro gasto que não se converte em patrimônio.

O processo de seleção não é muito diferente do de outros lugares. O Country não é o único que coloca seus candidatos "na pedra": um quadro de avisos logo à entrada social, onde ficam expostas fichas com fotos 3 x 4 dos sócios potenciais e uma breve descrição de suas características - nome, idade, profissão, nome e idade do cônjuge, nome e idade dos filhos. Durante um mês, esses aspirantes têm o direito de usufruir das instalações, onde são observados pelos demais sócios. Na maioria das vezes essa análise nem é necessária, pois são filhos ou parentes de sócios antigos que já frequentavam o clube desde criancinhas.

Aí o Conselho se reúne (antigamente era na última quarta-feira do mês, não sei se ainda é assim) para analisar os pedidos. O voto é secreto e manifestado por três objetos diferentes, nas cores branca, preta e vermelha. Querem dizer, respectivamente, sim, não e tanto faz. Basta levar uma única "bola preta" para o sujeito ser recusado. Achou rígido demais? Pois bastam três "bolas vermelhas" para ser recusado também.

Sim, é extraordinariamente cruel e anti-democrático, totalmente incompatível com o mundo moderno e blá-blá-blá. Mas clubes para valer são assim. Lugares onde basta chegar e pagar para se associar não podem ser chamados de clubes. Lembre-se que, nos Estados Unidos, até os moradores de alguns prédios têm o direito de recusar novos vizinhos. Madonna foi uma que passou por tal vexame.

O que diferencia o Country de outras associações é sua visibilidade e, ao mesmo tempo, sua invisibilidade. O clube ocupa pouco mais de meio quarteirão em plena Avenida Vieira Souto, em frente à praia de Ipanema (quando foi fundado pelos ingleses cem anos atrás, era realmente um clube de campo, com um terreno muitas vezes maior). Mas não é fácil ver como é lá dentro. Dê uma googlada: quase não aparecem imagens decentes. Até o site do Country contribui para o mistério, pois só os associados podem navegar por ele.

Repare pelas poucas fotos que as instalações estão longe de ser luxuosas. São só duas piscinas, seis quadras de tênis, uma sede social e um gramado. Ponto. Nada de quadra poliesportiva ou salões suntuosos. Mesmo assim, os títulos são disputados à foice. Pois não passam de 800, sem a menor chance deste número crescer. Só quando um sócio resolve se desfazer do seu é que surge algum à venda. E não faltam pessoas dispostas a passar pelo humilhante processo de seleção, que hoje em dia lembra até a campanha bajulatória que um escritor precisa fazer para entrar para a Academia Brasileira de Letras.

Porém, não convém exagerar. Um candidato achou que estava garantido ao pagar toda a vultuosa conta do bar de um sócio influente, que estava pendurada há meses. Foi imediatamente defenestrado. Também são frequentes as rejeições a filhos de sócios - não por causa deles, mas por causa de seus pais. Um deles levou todas as bolas pretas, o que fez com que seu magoado papi se retirasse do clube para sempre. Dizem até que, se todos os membros do Conselho saíssem, metade não conseguiria voltar.

O falecido colunista social Ibrahim Sued, o mais poderoso do Rio entre os anos 50 e 80, foi barrado várias vezes. Aliás, nenhum colunista jamais foi aceito, e a razão é simples: ninguém quer um jornalista lá dentro, anotando que fulano deu vexame no restaurante ou que beltrana caiu de bêbada na piscina. Sim, baixarias a granel acontecem intramuros. E intramuros permanecem, como em Las Vegas.

A rejeição a Guilhermina Guinle ganhou as manchetes por causa do high profile da moça: além de atriz, ostenta um dos mais tradicionais sobrenomes cariocas. Desconheço as razões, mas garanto que não é pelo fato dela ser artista. O cantor Mário Reis e as atrizes Ilka Soares e Rosita Thomaz Lopes (todos de famílias "bem", é verdade) foram sócios.

Danuza sugere que a Prefeitura desaproprie o valiosíssimo terreno do Country e o transforme num parque. Eu não chego a tanto, mas claro que acho meio anacrônico o sistema de "bolas pretas". Tanto que jamais me submeti a ele, em nenhum dos três clubes a que eu costumava ir quando pequeno. Hoje não pertenço a nenhum, mas não sou como Groucho Marx ("não quero pertencer a um clube que me aceite como sócio").

Simplesmente não acho que o esforço valha a pena. É caro demais, o lugar é marromeno, e eu ainda teria que expor meu marido ao preconceito. Mas ainda tem muita gente disposta a passar por tudo isto. E, enquanto houver, bolas pretas aflorarão, como bolhas num lago sulfúrico. Ou numa taça de champagne.

34 comentários:

  1. Quando menino eramos sócios da Hípica, na Lagoa, e lá tinha o mesmo sistema de colocar os candidatos a sócios em um mural (próximo à um dos bares)e ficar esperando aprovação. Achei que isso sempre acontecesse em todos os clubes.
    Na verdade, acho que esses lugares com piscinas e bares cercados por muros são mais necessários em São Paulo, Minas etc etc... No Rio temos praias lindas, nenhum vestígio de esnobismo, somos mais simpres, não precisamos disso.

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  2. Tirando aquele caso judicial em São Paulo, gays não são aceitos nesses clubes? Porque o que não deve faltar nas familías ricas do Rio e São Paulo são "herdeiras". rsrs

    E eu sempre desconfiei de suas origens aristocráticas.
    Seu esnobe! ;)

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    1. isso nao corresponde com a realidade, o tony nao 'e esnobe, toda vez que encontro com o tony ele chora e diz nao ter dinheiro, e sabemos que ele vive muito bem...

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    2. Si, Si, Si, very aristocratic!!!, aquela coisa..., casamento entre primos vira nisso! aushaushaush

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  3. Como vc disse Tony, um lugar em que vc simplesmente chega e paga para frequentar não pode ser chamado de clube. Mas, sinceramente, é um mistério pra mim o que possa motivar uma pessoa em 2013 a voluntariamente se submeter ao custo obsceno e à humilhação suprema de um processo de "seleção" de um grupo assim... Se aprovada, que seja feliz. Se rejeitada, o castigo ainda foi pouco.

    Ao imaginar a frustração de Guilhermina, visualizo ( num universo paralelo e bizarro ) uma mulher-fruta tentando dar "umazinha" num cantinho do Copacabana Palace com seu finado e falido primo Jorginho Guinle, aos cento e tantos anos, exclusivamente para entrar para aquela mitológica galeria de Marilyns, Avas e Ritas, sendo rejeitada e, pior, ainda passando recibo pro país inteiro da dispensa. Tsc, tsc...

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    1. FOTO e OBJETIVIDADE.

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  4. É muita satisfação para um banho de sol. Antes dessa bobagem já perderia o interesse, com ela então... É mesmo de chorar.

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    1. pelo jeito, vai continuar a querer...

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  6. o rio e sao paulo tem essa coisa de se achar aristocraticos, primeiro mundo, teve uma louca que venho de sao paulo pequena,foi muita bem educada, mas pobre com uma rata e gostava de se colocar como superior pq se dizia de uma familia quatrocentona de sao paulo.E Tony a familia do seu marido teve/tem dinheiro...beijos

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    1. Aff... e vc aprendeu a escrever onde?

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    2. Rindo sem parar!, por favor anonimo 9:58, nunca deixe de postar seus comentarios!, queremos muito mais! nada como começar o dia assim...

      O que seria de nos sem a tar incrusao dijital ... hahahahahahaha

      Que seleta audiencia!, ne Tony? hehehhehehe

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    3. Antes de querer dar uma de superior honey, acentue corretamente seu texto.

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    4. que recalque anonimo 19;12 nao tenho culpa se a carapuca serviu, pobre recalcado 'e foda...

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    5. anonima 12:06, vc quer dizer que sou um mel de qualidade superior tipo o Manuka? ou a virguleta foi colocada no lugar errado?

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    6. Gente, família quatrocentona em São Paulo não existe, né?! O que seria uma família assim, descendente de um bandeirante-morador-de-casa-de-pau-a-pique?? Esse tempo todo atrás não tinha riqueza em SP; isso é algo mais recente.

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    7. "Quatrocentão" foi um termo muito em voga em São Paulo até meados do século. Quer dizer, literalmente, descendentes dos primeiros habitantes da cidade - bandeirantes inclusive.

      Era uma forma de discriminar os imigrantes novos-ricos.

      Sou quatrocentão por parte de mãe, o que deve fazer de mim um duzentão.

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  7. "Down Down down on high society..."

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    1. aliás, mais fofocas: http://oglobo.globo.com/rio/country-club-barra-sobrenome-tradicional-guinle-7512147

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  8. O Ancelmo cantou essa pedra no dia 04/01:
    "Tem gente no Country, o clube mais fechado do Rio, em Ipanema, tentando vetar o ingresso no quadro social da querida Guilhermina Guinle.
    O alvo da intentona seria, na verdade, o namorado da atriz, o advogado Leonardo Antonelli, irmão de Giovanna Antonelli.
    É pena."

    Explicado?

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    1. O nome dele é Leonardo Pietro Antonelli. "Leonardo Pietro" não combina com clube, sorry...

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  9. o mio babbino caro
    E de alguns que trazia, condenados
    Por culpas e por feitos vergonhosos,
    Por que pudessem ser aventurados
    Em casos desta sorte duvidosos,
    Manda dous mais sagazes, ensaiados,
    Por que notem dos Mouros enganosos
    A cidade e poder, e por que vejam
    Os Cristãos, que só tanto ver desejam.
    (Camões)

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  10. Sinceramente que lugarzinho podre, podre!!!!!
    Algo que não tem nada haver com este mundo do século XXI.

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  11. Sinceramente, acho que o nome disso é piru pequeno, algo avassalador, que ainda persegue muitos donos de SUVs e wannabe sócios de clubes decadentes.

    Desculpa, sou mais meu (clube) Fluminense, que apesar de decadente, pelo menos tem vitrais europeus, uma bela arquitetura no estilo Beaux-Arts do início do século XX, e ainda nome de parentes meus na parede.

    Um beijo, country. Nem as pichações na parede vocês conseguem limpar.

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  12. Como você bem disse, é um clube oras. Babaca é quem tem a auto-estima tão baixa que se não entra dá faniquito e se sente menos gente por isso.

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  13. Thank God for the delusional people! KKKKKKKKKK

    Como assim..., nem papi tinha casa propria!? no good...

    Thank God PT!, minha casa, minha vida! (peninha que nao se estende na regiao dos Jardans, ne?!)

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  14. nome na pedra, bola preta, etc..., isso ta mais pra club de macumbaria!

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  15. Ola Tony,
    Fazendo uma pesquisa no google sobre o caso me levou aqui, acabei de chegar de Aspen e quiz me inteirar do caso.
    Me recordo do seu pai e de vcs no Country, vcs eram considerados exóticos pela turma mais conservadora, pois chegavam sempre de coletivo, sempre achei um horror a atitude dessa turma.
    Eu acho que a Gui foi muito bobinha em submeter-se a essa humilhação, pois estava na cara que iria ser barrada, continuo frequentando o Country de vez em quando, mas o Leblon, demais de bom.
    Beijos,

    Cressida

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  16. Não chegávamos de coletivo porque meu pai morava na mesma quadra do Country, no prédio pegado ao clube na rua Prudente de Morais.

    Jura que você "quiz"? Bola preta!

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    1. Acho "pegado ao" tão engraçadinho. Adoro regionalismos antes desconhecidos.

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  17. quanto bicha recalcada,antes de toda essa empafia queria ver os extratos bancarios desse povo, tony adoro seu blog... e para as professoras de portugues de plantao, quero deixar claro que nao estou afim de colocar letra maiuscula nos meus textos, nem acentuar e nem passar por corretor, entao anonimo 19;12 nao adianta tentar me atingir, a conta bancaria vai bem e o proprio tony, que escreve maravilhosamente bem e dono da bagaca, nao esta tao preocupado em corrigir as pessoas como vc!!!

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    1. anonima querida, começa a assinar!, assim seria mais facil reconhece-la entre tantas antas por aqui, sabia tb que a dona da bagaca e' uma eximia professorinha e que adora corrigir as que nao concordam com ela?
      Quanto a mostrar meus extratos, a sra tb quer o PIN number?

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