sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

VAMOS ÀS TORTAS E ÀS COMPOTAS

"Alô, Dolly" parece um bolo em camadas coberto de glacê colorido: absurdamente bem feito, gostoso a mais não poder e absolutamente desnecessário. A primeira remontagem brasileira em mais de 40 anos deste musical da Broadway, mais antiquado do que propriamente antigo, não tece nenhum comentário relativo à nossa realidade nem responde aos nossos problemas. Mas cumpre uma única e gloriosa finalidade: serve de showcase para os múltiplos talentos de Marília Pera, que chegou naquele ponto em que o papel da casamenteira Dolly Levi lhe cabe como uma luva. A montagem em cartaz no Rio é suntuosa, com figurinos de Fause Haten e cenários elaboradíssimos. Também conta com um elenco afiado, que não faria feio em Nova York. Tudo por obra e graça de Miguel Fallabella, que adaptou as canções, dirigiu o espetáculo e ainda atua pela primeira vez ao lado de Marília. Ela tem com ele uma química perfeita, só comparável à que dividia com Marco Nanini (se bem que em dinâmicas diferentes). Também deve ser por influência de sua disciplina que Fallabella está quase contido, menos Caco Antibes - seu modo default - do que de costume. Ele fala em sotaque mineirim para ressaltar a caipirice de seu personagem, mas quase não recheia o texto de cacos e está cantando melhor do que nunca. Ainda assim, deixa Marília brilhar fulgurosa. Nenhuma outra atriz nacional, de qualquer geração, dança, canta e atua com o timing cômico dela. "Alô, Dolly" ainda tem música ótimas - inclusive aquela que, com letra alterada, servia de tema de abertura para o "Viva o Gordo", um antigo programa humorístico de Jô Soares: "vamos às toras e às compotas..." Não traz inovações formais, mas é a prova concreta de que o nosso showbiz tem tudo o que é preciso para produzir musicais nababescos. Engordativos, mas irresistíveis.

9 comentários:

  1. Nenhum musical é "necessário". Qual seria, por exemplo?

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    1. "Necesseario" no sentido de discutir alguma questão importante. Um exemoplo clássico: "Hair", que falava de contracultura, dorgas e Guerra do Vietnam. Um exemplo contemporâneo: "The Book of Mormon", que fala de religião, fanatismo e tolerância.

      "Alô, Dolly" é um mero "divertissement", uma bobagem sem maiores consequências. Mas é delicioso.

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    2. Eu diria que TODOS os musicais são absolutamente imprescindíveis e maravilhosamente necessários.
      Um velho conhecido meu, que teve uma vida muito fudida e adorava musicais, falava entusiasmado de um deles, em uma festa, quando uma mulher tipo executiva, de laquê e sapato bicudo, contrapôs:
      -- Eu odeio musicais, eles não têm nada a ver com a realidade!
      E ele, humilde, considerou:
      -- O problema não é os musicais não terem nada a ver com a realidade, o problema é a realidade não ter nada a ver com os musicais.

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  2. Agora mesmo me vem "O Beijo da Mulher Aranha", por exemplo.
    Ai, o Falabella imitando sotaque mineiro é duro de ouvir..... a única que imita bem (perfeito) o nosso sotaque é a Débora Bloch.

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    1. Talvez porque ela seja mineira de Belo Horizonte?

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    2. Gotta love you, Tony.

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    3. mt bem. bate na cara dessa bi nojenta.

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  3. Obrigado pela resposta Tony! E sob esse ponto de vista, me lembrei de "RENT", que na época falava sobre aids, o que era realmente oportuno. Abç!

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  4. Em tempo: adorei "Hello Dolly", principalmente no aspecto visual, tudo lindíssimo, super chique! Recomendo pra quem goste de musicais.

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