domingo, 27 de janeiro de 2013

A FIGHT FOR LOVE AND GLORY

Terminou hoje o seminário “Story” que Robert McKee deu no Rio de Janeiro. Estou cansado como se tivesse corrido a maratona de salto alto. Não é mole passar quatro dias, oito horas por dia, sentado numa cadeira dura ouvindo um sujeito falar sozinho num palco. É o mais longo número de stand-up do mundo. Durante os três primeiros dias, há pouquíssimo suporte visual: meia-dúzia de gráficos bem basicões e olhe lá. McKee ilustra seus conceitos citando centenas de filmes, sem projetar absolutamente nada. O aluno tem que puxar da memória (muitos títulos eu vi décadas atrás) ou simplesmente imaginar (foi o que fiz com o “Diabolique” de Clouzot, que ele contou do começo ao fim – e agora tenho a sensação de ter visto o filme). Mas os pontos que o mestre ensina vão muito além dos meros roteiros. Fica claríssimo que o homem só entende o mundo e a si mesmo contando histórias. Ou melhor: contar histórias é a única maneira de dar algum sentido a um mundo desprovido dele. Religiões e histórias, aliás, são no fundo a mesma coisa. Ambas têm a mesma origem, os mitos, o mais antigo gênero literário da humanidade.

Hoje a carga foi mais leve. McKee projetou “Casablanca”, e foi parando o filme quase que cena a cena para fazer comentários. Eu só tinha visto esse clássico indispensável há mais de 20 anos, na TV, e foi como se eu fosse quase virgem (digo quase porque há pelo menos algumas falas que qualquer pessoa razoavelmente educada conhece de cor). A interpretação dos atores parece meio exagerada para os padrões de hoje, mas todo o resto permanece moderníssimo. Não, não é este o termo: “Casablanca” é extraordinariamente sofisticado, sem deixar de ser entretenimento em estado puro.

Diálogos, enquadramentos, direção de arte, figurinos, tudo salta aos olhos com novos significados – alguns até óbvios, muitos surpreendentes. Várias sequências foram repassadas três ou quatro vezes, no limite da encheção de saco. Mas a experiência foi estarrecedora de tão rica. No final, McKee divide com a plateia sua teoria para as razões que mantiveram esse filme em voga por mais de 70 anos. Segundo ele, “Casablanca” responde, de maneira subliminar, à pergunta que aflige o Ocidente desde os filósofos pré-socráticos: qual é a essência da realidade, ser ou mudar? A resposta aparece quando Rick e Ilse se despedem na pista do aeroporto: as duas coisas.

Até gostaria de me afundar nos detalhes, mas aqui não dá. Recomendo o seminário “Story” (que não é bem uma oficina, porque não há exercícios em classe nem lição de casa) não só para os roteiristas diletantes, mas para todo mundo que gosta de cinema, TV, teatro, literatura ou contar histórias ao redor de uma fogueira. Voltei para São Paulo com o corpo doído como depois da proverbial surra de cabo de vassoura, mas com a cabeça encharcada de ideias. Agora recomeça a luta pelo poder e a glória: vencer a inércia e colocar no papel pelo menos algumas delas. “You must remember this”, sussurram os botões.

9 comentários:

  1. Essa é a hora de vc voltar para a dramaturgia!

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  2. Tony, deve ter sido bem interessante mesmo esse seminário! Gosto muito de roteiros e também morro de preguiça de começar a escrever alguma coisa. Me ajude a entender esta pergunta, que eu boiei: "qual é a essência da realidade, ser ou mudar?". Dá pra elaborar um pouco melhor?
    Valeu,
    Luiz

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    1. Essa é uma discussão simples e complicada ao mesmo tempo. Uma parte dos filósofos pré-socráticos dizia que a essência de um ser continua sempre a mesma e que toda mudança é ilusória. Outra parte dizia exatamente o contrário: que a única certeza da existência é a mudança constante e que nada é para sempre, nem mesmo a alma.

      É bom lembrar que esta é uma questão ocidental, europeia, e que filosofias orientais como o budismo propõem perguntas e respostas totalmente diferentes.

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    2. Obrigado pelo esclarecimento ;) Realmente é um tema interessante e infinito
      Luiz

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  3. Pegue aquela lista de perguntas que seus amigos heteros lhe fazem sempre e mais a história do desmaio da senhora sua mãe - nem o Woody Allen teve essa colher de chá - e você terá ótimo material para começar a por em prática os conhecimentos adquiridos.

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  4. vc tem ideia de quando será o proximo seminário?

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    1. Não há nenhum seminário previsto para o Brasil em breve. Asd próximas edições acontecerão em março em Los Angeles, e em abril em Nova York e Londres.

      O site do McKee traz as datas: http://mckeestory.com/?page_id=27

      Mas ele tem se tornado figura frequente no Brasil. Já esteve aqui várias vezes e tem vindo quase todo ano. Em setembro de 2011, seu seminário "Genre" atraiu centenas de pessoas em São Paulo.

      McKee provavelmente voltará ao Brasil no ano que vem. Assim que eu souber de alguma coisa, fiquem ligados.

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  5. Casablanca realmente merece o status de cássico que possui. É provavelmente o melhor roteiro de todos os tempos.

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  6. Mas não foi maravilhoso? Eu dormi 12 horas seguidas depois do fim do seminário, mas, nossa, já estou com vontade de fazer de novo.

    E vamos colocar as ideias no papel, quero você bom-ban-do!

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