quarta-feira, 31 de outubro de 2012

PUBERDADE

A revista "H" nasceu no começo deste ano, cresceu rapidamente e já está em vias de se tornar um rapazinho. Ou seja: pensa em sexo o tempo todo. No intuito de criar uma identidade bem diferenciada de sua irmã mais-velha-porém-mais-jovem, a "Junior", a "H" lançou um encarte chamado "Hard", todo em cor de rosa e recheado de matérias sobre pornografia, preferências pouco ortodoxas e outros assuntos calientes. Resultado: o leitorado rachou ao meio. Alguns adoraram o tom mais pesado (com fotos desinibidas e tudo), outros preferem uma publicação que possa ser levada à missa e ao piquenique anual da firma. Deu para perceber de que lado eu estou? No mais, acho legal a "H" já ter alcançado a idade púbere em apenas cinco números, e sei que ela vai mudar ainda mais, até achar o ponto certo. Se é que ele existe. De qualquer forma, a família de revistas do MixBrasil vai ganhar mais um irmãozinho. Até o final do ano deve sair a "Grande", em tamanho gigante e com fotos de moços pelados que fazem jus ao adjetivo. Ah, em tempo: a minha coluna desta edição saiu com um erro de diagramação. A última frase saiu incompleta: era justamente "de que lado você está?" (sim, eu repito sempre os mesmos termos). E ainda em tempo: parabéns ao André Fischer por ter entrado na lista dos 500 gays mais influentes do mundo da revista holandesa "Wink". Poderosa!

terça-feira, 30 de outubro de 2012

VIVA O ESTADO LAIKA

Um servidor da Câmara de Vereadores de Piracicaba foi expulso do plenário por dois PMs porque se recusou a levantar durante a leitura da Bíblia que abre cada sessão. Quantos absurdos cabem numa mesma frase? Sessões de nenhum legislativo no Brasil deveriam começar com leitura de Bíblia ou qualquer outra prática religiosa. O estado é laico; o estado não tem religião. Não pode proteger nenhuma em detrimento de outras, nem mesmo da ausência de religião. O camarada ser preso porque não se levantou é um escândalo imenso e um insulto à Constituição brasileira, que garante a liberdade de culto. O engraçado é que os mais interessados nessa liberdade são justamente os reigiosos: será que eles não percebem o quão ela é frágil e como pode ser invertida rapidamente, transformando-os de algozes em vítimas? Tremo em pensar quantas câmaras e assembleias Brasil afora seguem práticas parecidas, e aposto que muitos desses parlamentares nem desconfiam que estão desrespeitando a lei. Falta-lhes a mais básica educação moral e cívica. Para eles Laika é o nome da primeira cadela que foi ao espaço, mais nada.

(mais detalhes do caso aqui e aqui)

PERDENDO O INTERESSE

Sou fanático por "Sex and the City", mas nem por isto estou contando as horas que faltam para a estreia de "The Carrie Diaries". A série começa em janeiro na TV americana e conta os últimos anos de Carrie Bradshaw em sua cidadezinha natal e os primeiros em Nova York. Tentei ler o livro em 2010, mas nem cheguei à metade. O trailer acima me parece mais divertido, mas sinto que não sou seu público-alvo. Então é verdade: "Sex" fica desinteressante com o passar dos anos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

DEPOIS DA QUEDA

"Skyfall" é um bom filme de ação. Também é o melhor filme de James Bond com Daniel Craig. Mas será que é mesmo um filme de James Bond? É verdade que esta nova encarnação do agente 007 está com um pingo a mais de humor do que nas outras vezes. Também foi revelada sua origem aristocrática, que os modos rudes que Craig emprestou ao personagem nem faziam suspeitar. No quesito perigo, ele finalmente se aproxima do nível de Sean Connery. Mas alguma coisa está diferente. Não é tanto na forma: as cenas de persguição, os efeitos, as acrobacias com a câmera, tudo isto está mais nos trinques do nunca. Mas até aí, os filmes de Jason Bourne e da série "Missão Impossível" também tem. O que falta é auqele plus a mais que distinguia James Bond da manada: a sensualidade cavalheiresca (ele come uma só mulher dessa vez, e a deixa morrer bobamente), a fina ironia, a nonchalance. É um 007 dos novos tempos, adaptado à nova classe C que domina o planeta. Caiu dos céus, não é mais o semideus de antes. É até bom. Mas não é Bond.

domingo, 28 de outubro de 2012

ALGO DE BOM NO REINO DA DINAMARCA

Ver bom cinemão é como comer um bom pudim de leite. Não há novidades formais, não há surpresas: só os bons ingredientes de uma receita conhecida, fazendo as delícias do paladar. "O Amante da Rainha" está passando na Mostra de SP e é o indicado da Dinamarca ao próximo Oscar de filme estrangeiro. É até uma escolha inesperada para um país que prefere filmes de vanguarda, muitas vezes dentro do estilo "Dogma". Mas, apesar de ser co-produzido por Lars Von Trier, "O Amante..."é anti-"Dogma". Tem produção suntuosa, música envolvente e até uma estrela internacional no elenco, Madds Mikelsen, que já fez vilão em filme de James Bond. A história é baseada em fatos verídicos: no século 18, uma princesa inglesa se casa com o jovem rei da Dinamarca, um palerma total. A moça se aborrece à pampa até que chega à Corte um médico com ideias liberais, que convence o soberano a modernizar o reino. Ela se apaixona pelo sujeito e engravida dele, o que dá o pretexto à nobreza enfurecida para tentar deter o curso da história. O triângulo real me lembrou outro, que aconteceria no começo do século seguinte bem longe dali: D. Pedro I, Leopoldina e José Bonifácio. Um episódio da história brasileira que pode render um filme tão requintado quanto este dinamarquês.

UMA MÃO NO NARIZ E A OUTRA NA URNA

Eu não ia mais tocar no assunto "eleições", porque o que sobrou para este segundo turno em São Paulo não me desperta grandes paixões. Nem pró nem contra. O que não significa que eu esteja apático: estou é desgostoso. Sem tesão para fazer campanha por um candidato e nem para falar mal do outro. Aos que me "acusam" de ser tucano (para esses primitivos, ter uma preferência política diferente da deles é crime), digo que estou desconsolado com José Serra. O peessedebista vem batendo cada vez mais forte na tecla da ética nos últimos dias, mas falta de ética não é só comprar votos de deputados. Também é aceitar alianças espúrias. Também é topar vender parte de seu eleitorado fiel em troca de outro maior, mas com ideais que vão contra toda uma vida de lutas. Serra, em termos de marketing, fez muito para destruir a própria marca entre os formadores de opinião. É um ocaso melancólico e até surpreendente para uma carreira que sempre se pautou pela dignidade.

Então quer dizer que vou votar no Haddad? Não necessariamente. O sujeito em si me parece bem intencionado, mas o que está por trás dele é um projeto de aparelhamento do estado que, se deixado livre, poderá transformar o Brasil numa enorme Venezuela. Com censura aos meios de comunicação, restrições às liberdades democráticas e apaniguados incompetentes em cargos técnicos. Estou exagerando? Estou tentando ver "the big picture". Enfim, espero que Haddad faça um bom governo (não tenho dúvidas de que será eleito) e que olhe para a periferia da cidade. Mas sua vitória não pode ser lida com um perdão aos mensaleiros: é parte de um processo político complexo, que só ficará mais claro no pleito de 2014. Essas foram eleições "de transição". Agora, imagina isto depois da Copa.

sábado, 27 de outubro de 2012

ACORDA, MARIA BONITA

Eutanásia! Esse tema adorável sugere um filme lento e melancólico. Exatamente o que "A Bela que Dorme" não é. A primeira hora chega a ser frenética, com muitos personagens se confrontando em cenas intensas. Até porrada rola. A ação se passa no começo de 2009, quando a Itália se dividiu quanto ao caso Eluana Lungaro. Depois dela estar há 17 anos em coma, seus pais finalmente obtiveram a permissão para desligar as meaquinas que a mantinham viva. O filme de Marco Bellocchio mistura alguns casos fictícios com este real, e o mais impressionante é o de uma jovem belíssima e congelada. A mãe da moça é a sublime Isabelle Huppert, que não só esmerilha no italiano como consegue a façanha de ser antipeatica e fascinante ao mesmo tempo. "A Bela que Dorme", um dos destaques da Mostra de Cinema de SP, é um pouco longo demais e não chega a uma conclusão final, nem pró nem contra. Mas toca com todos os dedos numa ferida que, temo eu, vai estar cada vez mais presente.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

BRASIL EXTRAVIADO

Recebi em casa o meu passaporte com o visto para os Estados Unidos, dois dias depois de tê-lo renovado. Meu marido já não teve a mesma sorte: ele foi ontem ao consulado. Hoje a Justiça brasileira acatou um pedido dos Correios e suspendeu a entrega de passaportes pela DHL. Não entendo de leis, mas essa me aprece a típica decisão tupiniquim: interrompe-se um serviço antes que se inicie o outro, e que se fodam as pessoas que precisam dele. O visto hoje em dia até que sai fácil, mas o perrengue continua imenos e a taxa é bem salgada (cerca de 360 reais). Nossa sorte é que não temos viagem marcada para os próximos dias, mas e quem tiver? Que preguica de morar neste país, onde monopólios estatais se impõem mesmo que isto prejudique o cidadão comum.

RESSUSCITA-ME

De quem você gosta mais: da Família Addams ou dos Monstros? Este era um dos debates cruciais da minha infância, muito mais mortífero do que um reles Beatles x Rolling Stones. O pior é que as duas famílias monstruosas das séries americanas eram parecidíssimas. Não dava para definir o caráter de uma pessoa só por causa da preferência por uma ou outra. Nos últimos anos, os pioneiros Addams ressurgiram com força total, no cinema e no teatro. Os Monstros eram uma cópia deslavada, mas também eram muito engraçados - e o título do programa em inglês, "The Munsters", soava como um sobrenome de verdade. Agora eles também estão de volta. Aproveitando a proximidade do Halloween, a rede NBC exibe hoje à noite o piloto "Mockingbird Lane". Se der audiência, a família ressuscita de vez no ano que vem em formato de sitcom. Acho legal que meus favoritos estejam de volta do além-túmulo (sim, eu era team Monstros), mas não os reconheço mais. Em outras palavras: cadê o Herman??

GRANDE FRATELLO

O "Big Brother" entrou para valer na minha vida só no ano passado, quando fui chamado pela "Folha" a comentar o programa na internet. Acabei me interessando pelo assunto, e esta foi uma das razões que me levou a ver "Reality" na Mostra de Cinema de SP. A outra é que se trata do novo filme do diretor Matteo Garrone, que em 2008 assinou o violento "Gomorra" - uma espécie de "Cidade de Deus" italiano. Dessa vez ele pega bem mais leve e quase faz uma comédia sobre um sujeito obcecado em participar do reality show mais famoso do mundo. O título do filme tem uma ambiguidade irônica: o protagonista, cada vez mais convencido de que será escolhido, vai se afundando num delírio que chega a se tornar perigoso. Rodado quase todo na decrépita periferia de Nápoles, o filme tem muitos diálogos no incompreensível dialeto local, com personagens que falam alto e gesticulam muito: um toque de humor que só aumenta o potencial trágico da trama. E ainda há o dado surrealista de que o ator principal, o ótimo Aniello Arena, na vida real é um ex-pistoleiro da Máfia que cumpre prisão perpétua por seus crimes. Só teve permissão da cadeia para rodar "Reality". Essa história talvez desse um filme ainda mais interessante.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

LE BAISER DE MARSEILLE

Era para ser um protesto corriqueiro em Marselha contra o casamento igualitário, que está prestes a ser aprovado na França. Muitos estão acontecendo país afora, e nenhum ganhou as manchetes internacionais - simplesmente porque o presidente François Hollande já avisou que é a favor da nova lei, assim como a maioria da população. Mas aí duas moças modernas aproveitaram a presença de um fotógrafo no certame e voilà. O mais legal é saber que Julia Pistolesi e Auriane Susini não formam um casal. Aliás, nem lésbicas elas são: são simpatizantes! E agora temos a versão pédé da icônica foto "Le Baiser de l'Hôtel de Ville", de Robert Doisneau.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

OUÇO VOZES

Uma das boas surpresas do TEDx de hoje foi o grupo vocal carioca Gó Gó Boys, do qual eu nunca tinha ouvido falar. Nem quando eles ainda se chamavam Bombando e cantavam músicas infantis no programa da Xuxa. Hoje o repertório dos rapazes é adulto, mas nem por isto menos divertido. Eles vão muito além do conceito de human beatbox: como disse a Regina Casé, trazem a balada na boca. Cantaram uma versão de "Toxic" da Britney Spears melhor que um remix do Peter Rauhofer, fazendo toda a percussão e os sons eletrônicos com a boca. Os Gó Gó Boys ainda não têm um bom clipe, mas daqui, do site deles, dá para baixar, de graça e dentro da lei, as oito faixas de seu primeiro disco. Escute a ótima "...prá você" e tente convencer seu cérebro de que aquilo é accapella.

MEU PRIMEIRO TED

TED não é só o ursinho maconheiro. Quando escrito em caixa alta, o nome se refere a um formato de mini-conferências sobre os mais variados assuntos (apesar da sigla original se referir a Tecnologia, Entretenimento e Design). Surgiu nos anos 80, ganhou força nos 90 e na década passada se tornou um fenômeno global, com eventos realizados em muitos países e sempre disponibilizados na internet. E mesmo assim o burro aqui só ouviu falar de TED no ano passado. Agora corro contra o relógio como os palestrantes, que só tem 18 minutos para falar. Estou no Rio de Janeiro, acompanhando no MAM os 16 "talks" que compõem o TEDx de 2012, organizado pela ESPM. Com Regina Casé de mestre-decerimônias, já passaram pelo palco o ator Renato Borghi, o jornalista e produtor Nélson Motta, o empresário Luiz Calainho, os palhaços do Esquadrilha da Risada, o grupo de samba Revelação e muitos outros (a relação completa está aqui). Claro que tem palestras melhores que outras, mas no geral está sendo um dia excitante. E ainda está rolando um networking... Vem pro TED você também.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

ON VA S'AIMER, ON VA DANSER

Em 1996, eu atravessava uma crise profissional e me meti a produzir shows para ver no que dava. Eu e uma amiga trabalhamos naquela que foi a primeira vinda do cantor argelino Khaled ao Brasil, alguns anos antes dele estourar por aqui com o tema da Feiticeira no antigo programa do Luciano Huck. Khaled era cult (e ainda é), mas conseguimos lotar o extinto Carioca Club em São Paulo. Convivi com ele e sua banda durante alguns dias, e me surpreendi como o cheb* era "incurioso": não saía do quarto o dia inteiro, preferia ficar assistindo à TV francesa. Também exigia que não houvesse carne de porco na comida que ia para os camarins, já que eram todos muçulmanos - se bem que whisky não podia faltar, hehehe. Nada disso importava quando ele subia no palco: Khaled tem presença, carisma e a experiência de quem fez milhares de shows na vida, dos botecos de Argel (onde ele não pode mais pisar, pois está jurado de morte pelos fundamentalistas) aos estádios da Europa. Acabo de por as mãos em seu novo disco, "C'est la Vie", que tem muitas faixas produzidas pelo sueco-marroquino RedOne, o produtor de Lady Gaga - inclusive a que dá nome ao álbum, e que ganhou o clipe aí acima. É divertida, mas meio baba: o típico sucesso de pegada pseudo-latina que infesta as rádios francesas no verão. Apesar do apelo populista, o disco todo é bom, com arranjos eletrônicos que modernizam o raï . Bem que podia servir de trilha para alguma novela, pois já está mais que na hora de Khaled voltar ao Brasil.

(*"Cheb" quer dizer "jovem" no árabe da Argélia, e, tradicionalmente, todos os cantores de raï acrescentam a palavra ao nome. Mas Khaled foi o primeiro a abolir a prática. Menos mal, porque ele não é exatamente "cheb" já faz tempo.)

O MÁRTIR NO CINEMA

Já falei de Alan Turing algumas vezes aqui no blog, mas ninguém tem a obrigação de saber quem é. Ou melhor, as bibas têm: Turing foi um matemático inglês que decifrou os códigos alemães durante a 2a. Guerra Mundial, o que pode ter ajudado a abreviar o conflito em até dois anos e salvo milhares de vidas. Também foi ele quem lançou as bases do sistema binário, a viga-mestra de toda a computação atual. E como foi que a Grã-Bretanha recompensou este seu gênio e herói? Condenando-o à castração química, depois que a polícia descobriu que Turing era homossexual. Em 1954, não suportando mais o castigo nem a vergonha, o cinetista se suicidou mordendo uma maça com cianureto, com apenas 41 anos de idade. É impressionante pensar que os avançados britânicos ainda tinham essa lei nos anos 50, a mesma com que aprisionaram (e destruíram) Oscar Wilde no século 19. Já os suicídios de gays ainda são tristemente frequentes. Essa história trágica permaneceu esquecida por muito tempo, mas voltou à ordem do dia há alguns anos. O governo britânico chegou até a emitir um pedido oficial de desculpas. E agora existe o docudrama "Codebreaker", que mistura imagens de arquivo com dramatizações. Não há previsão de exibição do filme no Brasil, mas não deve ser difícil encontrá-lo na internet. Internet, aliás, hoje fartamente usada pelos inimigos da causa igualitária, e que talvez não fosse a mesma sem as contribuições de Alan Turing.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

REEMOLDURANDO O ÓDIO

Silas Malafaia deu uma entrevista de página inteira para a coluna de Monica Bergamo na "Folha de São Paulo" de ontem (aqui, para assinantes do jornal ou do UOL). Não falou nada que a gente não soubesse. Também não é novidade a obsessão da imprensa brasileira em dar espaço a reaças como ele ou Bolsonaro: esses caras não têm papas na língua e costumam render matérias polêmicas. Aliás, este fenômeno é universal. A mídia dos Estados Unidos também vive chamando fanáticos fundamentalistas a dar opinião, como se eles tivessem grande representatividade. Enfim, a única coisa que me chamou a atenção na fala do auto-denominado "pastor" foi a resposta que ele quando lhe perguntaram sua reação se u de seus filhos fosse gay. "Amaria 100% e discordaria da prática 100%." Esta é a maneira como os homofóbicos vem embalando seu preconceito para presente: dizem que "discordam" dos homossexuais, como se orientação sexual fosse questão de opinião. Tão ridículo quanto dizer que discorda de alguém ser louro ou alto, mas o efeito pretendido é disfarçar a disseminação do preconceito como liberdade de expressão. Em inglês, isto se chama "reframing" - "reemoldurar" uma imagem para que ela só mostre o que nos interessa, ou reescrever uma frase com palavras que soem positivas. Os arautos da escuridão vivem se passando por vítimas, alegando que os ativistas gays querem silenciá-los e impor uma ditadura do pensamento. Num ponto eles têm razão: nós, brasileiros, temos uma dificuldade imensa em engajar num debate. Preferimos mandar o outro calar a boca do que rebater seus argumentos. Este é um dado cultural, gerado pela colonização portuguesa e alimentado pelos regimes autoritários por que passamos. Os americanos têm um conceito muito mais amplo de liberdade de expressão (amplo até demais, na minha opinião), e não passa na cabeça do mais fervoroso militante mandar seu adversário calar a boca. Ainda precisamos evoluir nesse ponto, inclusive porque acabamos passando por intolerantes. Mas isto não quer dizer que devemos aceitar o discurso do ódio em nova embalagem. "Discordar" da homossexualidade é se declarar inimigo dos gays, ainda que a pessoa não cometa atos de violência física. Quem fala bobagens desse naipe merece resposta à altura. Também merece ter rasgado seu disfarce arrancado. Se bem que, no caso específico do Malafaia, não há muito o que esconder. Ele usou termos tão violentos contra os gays e Fernando Haddad que acabou prejudicando a candidatura de José Serra à prefeitura de SP. Não duvido que o tucano já esteja arrependido de ter aceito esse apoio radioativo.

domingo, 21 de outubro de 2012

NÃO É NÃO

Em 1988, 15 anos depois de instalada, a ditadura chilena se viu encurralada. Vizinhos como Argentina e Brasil já haviam se livrado de seus regimes militares. Em busca de legitimação, o general Augusto Pinochet convocou um plebiscito, ode o povo diria "sim" ou "não" a mais oito naos de sua permanência no poder. O que parecia ser um golpe de mestre saiu pela culatra: a oposição fez uma campanha moderna, alegre, quase sem ressentimentos, e conseguiu que os milicos largassem o osso. Essa história incrível ganhou um filme interessante, "No", mas que podia empolgar mais. Também é um "case" de marketing que deveria ser estudado por todos os publicitários. Usando técnicas dignas de comercial de refrigerante, a equipe criativa - que não tinha experiência como marqueteiros políticos porque simplesmente não havia eleições no país - conseguiu convencer até mesmo a parcela da população que se sentia bem sob o jugo do "Pinocho". O diretor Pablo Larrain filmou "No" com antigas câmeras de vídeo U-Matic, para que as imagens combinassem com as propagandas antigas. O resultado é um visual borrado de propósito, com menos resolução que qualquer foto tirada com smartphone. Chega a cansar um pouco, mas aumenta a sensação de documentário. Gael García Bernal está até discreto como o chefe da campanha, e é impressionante perceber como ele é minúsculo perto de seres humanos com altura normal."No" é o indicado do Chile ao Oscar de filme estrangeiro e abriu a Mostra de Cinema de SP. Segura a atenção do começo ao fim, mas não chega a emocionar. Esse "não" deveria ser mais enfático.

sábado, 20 de outubro de 2012

A MÃO PRA CIMA, CINTURA SOLTA

Descobri Gaby Amarantos uma semana antes do meu aniversário do ano passado, e a vi em pessoa pela primeira vez no dia em que completei 51 anos, no VMB de 2011. Desde então ela virou figura fácil em todo o Brasil: tem dias em que parece que Gaby está em todos os canais de TV ao mesmo tempo. E, mesmo tendo adorado seu disco "Treme", eu nunca tinha visto uma performance da diva. Este cruel jejum se encerrou nas primeiras horas de hoje, meu aniversário outra vez. Fui à festa de lançamento do projeto "Todas as Cores, Todos os Amores" aqui em SP e me esbaldei no show da Beyoncé do Pará. A moça é esperta: além de seus próprios hits como "Xirley" e "Ex-My Love", ela também canta Wando (meu iaiá, meu ioiô), "Dança Kuduro" (oi oi oi) e atinge o clímax com um medley inacreditável: versões technobrega de "The Model", do Kraftwerk ("Não me Diga Não"), "Funky Town" ("Tenho Medo de Hospital") e "Ring My Bell" ("Eu Não Vou pro Céu"). Dá para baixar daqui essa sequência gravada ao vivo, com uma qualidade bem boa. E assim estreei idade nova, balançando que é uma loucura.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

R.I.P. CARMINHA

E esse clima de final de Copa do Mundo? Comícios desmarcados, previsão de pique no consumo de energia elétrica, bares promovendo bolões... Parece que a mídia brasileira não tem outro assunto, que respingou até na do exterior. Hoje, às 7 e meia da noite, vou dar minha QUARTA entrevista sobre "Avenida Brasil" para a rádio online da revista "Monocle". Também participo do live-blogging da "Folha" e do F5 durante o último capítulo: para quem quiser acompanhar, aqui está o link. E tem também minha última coluna sobre a novela, nada menos que o obituário da vilã. Vou morrer de saudades, mas também respiro aliviado. Agora posso voltar a sair à noite, jantar fora, rever os amigos...

DENTES À MOSTRA

Talvez seja porque não vou ter tempo de acompanhar muita coisa, então estou dizendo que as uvas estão verdes. O fato é que a Mostra de Cinema de São Paulo desse ano não me deixou com o mesmo siricutico de outras vezes. Tem também a fadiga do material: sou habitué da Mostra desde 1983. Tem uma hora em que a gente cansa de ver tanto filme cabeça. E o festival criado por Leon Cakoff sempre primou pela cabecice aguda de sua seleção, em detrimento das comédias e musicais. Agora ainda tem essa picuinha absurda com o Festival do Rio, que faz com que os filmes de lá não passem cá e vice-versa. Entendo que todo evento desse tipo precisa de alguns títulos originais, mas TODOS os 456? Quem é que ganha com isto? Certamente não é o espectador. E a minha má vontade com a Mostra ainda se justifica pela mania renitente que ela tem de listar os filmes cujos nomes começam com o artigo "O" na letra "O" e os que começam com o artigo "A" na letra "A". Francamente, quem mais é que faz assim? Ah, e last but not least, tem a porra da venda de ingressos pela internet, que teoricamente começou anteontem mas que, até o presente momento, não liberou a venda para absolutamente nenhuma sessão. E agora dá licença que eu tenho que correr para o cinema.

CHANTE LE COEUR D'EMMANUELLE

Eu tinha 17 anos quando fui a Paris pela primeira vez, na companhia de ninguém menos que minha avó. Uma tarde dei um perdido na véia e fui fazer um programinha clandestino: assistir "Emmanuelle", que já estava há quatro anos em cartaz por lá e continuava proibido no Brasil. Claro que o filme era muitíssimo menos pornográfico do que a minha imaginação de adolescente gostaria; na verdade, não é mais forte do que esses semi-pornôs que passam de madrugada nos canais a cabo. Mas "Emmanuelle" foi um escândalo global tão grande que o mito perdura até hoje. Na época dizia-se que era "o filme mais erótico de todos os tempos", título que durante um par de anos ficou nas mãos de "O Último Tango em Paris" (que, como cinema, é infinitamente melhor). Acho que a celeuma toda foi causada menos pelas cenas de sexo e nudez, bastante comuns na época, mas pela atitude desafiadora da personagem: Emmanuelle se declarava "a anti-virgem", e definia "virgem" como sendo a mulher de um homem só. Sylvia Kristel ficou marcada para sempre por causa dela, e chegou a ser recebida no Congresso brasileiro quando esteve por aqui promovendo um outro filme, em 1977. Também fez uma participação bizarra na novela "Espelho Mágico" da Globo, sendo perseguida na praia por Daniel Filho e Carlos Eduardo Dollabella. Procurei estas cenas no YouTube e não achei: alguém sabe onde tem? Enfim, fiquei tristinho de saber que Sylvia morreu ontem, com apenas 60 anos e ainda bonita. De câncer, provavelmente causado pelo cigarro: ela começou a fumar com 11 anos, o que nem era raro algumas décadas atrás. Para mim, sobra a lembrança de sua sensualidade elegante e as delícias de uma tarde furtiva em Paris.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

LEVANTOU POEIRA

Ivete Sangalo é tão onipresente na mídia que o anúncio do lançamento de seu novo CD soou como uma ordem para mim: COMPRE. E olha que eu nunca gostei de axé. Não me causa pereba feito a música sertaneja, mas acho que é som de hétero que precisa estar melado de suor e cerveja para beijar umas mina desconhecida na boca. Aliás, Ivete é primeira que diz que o produto que vende não é música, é beijo na boca. E assim passamos muitos anos, ela bombando em especiais no Multishow e eu olhando para o outro lado. Até que este ano Ivetão se lançou como atriz, e me surpreendeu. Esteve bem num episódio de "As Brasileiras" e ainda melhor como a Maria Machadão de "Gabriela". Tem carisma, segurança, simpatia. Também canta muitíssimo bem e é uma entertainer consumada. Como diz um leitor amigo, sofre de excesso de autoestima - e por que não sofreria? Autoestima e arrogância não são a mesma coisa; na verdade, são opostas. Arrogância e insegurança é que são a mesma face da mesma moeda. Tergiverso; voltemos a Ivetão. Finalmente sucumbi à rainha inconteste da música brasileira e adquiri um disco seu, o luxuoso "Real Fantasia". A direção de arte é do Giovanni Bianco, que também já fez capas para Madonna e Marisa Monte. E a produção musical é estonteante. Quase todas as músicas têm potencial para se tornarem sucessos no rádio e no circuito Barra-Ondina. O escopo vai além da Bahia: tem muitos ingredientes latinos e até mesmo disco music dos anos 70, na faixa "Essa Distância" (não por acaso, a minha favorita). As letras estão longe do quilate de um Chico ou Caetano, mesmo quando a pegada não é abertamente carnavalesca, mas também nunca resvalam para o chulo ou o boboca. Ouvir o disco de enfiada chega a ser exaustivo, de tanta animação. Ivete Sangalo acaba de ganhar um novo súdito, e o próximo verão brasileiro já tem sua trilha sonora.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

SAUDADE, MEU REMÉDIO É CANTAR

Este ano está sendo bem fraquinho para o cinema nacional, não só na bilheteria como também na qualidade dos filmes. Mas eis que surge um salvador da pátria: é "Gonzaga - de Pai para Filho", que eu assisti ontem numa pré-estreia. É grandioso, brasileiríssimo e muitíssimo bem feito. Fora que resgata os repertórios de Gonzagão e Gonzaguinha, dois tesouros da MPB. E ainda tem ótimas atuações, como a do sanfoneiro Chambinho do Acordeon - que nem ator profissional era, e que só foi escolhido para o papel por ser músico e bem parecido com o velho Lua. O diretor Breno Silveira já havia conseguido me fazer gostar de um filme sobre música sertaneja com "Dois Filhos de Francisco", mas cometeu dois desastres na sequência: "Era uma Vez.." e o recentíssimo "À Beira do Caminho". Aqui ele se redime e prova que só precisa ter nas mãos um bom roteiro. Que foca num tema até pouco usado no cinema brasileiro, mas frequente no americano: a obessão com a figura paterna. Gonzagão foi um pai distante, dizem até porque desconfiava que Gonzaguinha não fosse seu filho (os dois, de fato, não se pareciam em nada). Este forte argumento teve tratamento de superprodução, pois o filme tem um caminhão de patrocinadores. Ganhou até uma campanha colossal da Globo, que o promove em quadros do "Fantástico". Mas será que vai fazer o sucesso que merece? Há mais de 20 anos que os dois Gonzagas morreram, e não sei se são muito conhecidos pela geração que curte Michel Teló ou Luan Santana. Se bem que muitas das canções são clássicos imediatamente reconhecíveis, como a inevitável "Asa Branca". Mas a que eu saí cantarolando do cinema foi "Que Nem Jiló": "Se a gente lembra só por lembrar..."

EI, VOCÊ AÍ, ME DÁ UM DINHEIRO AÍ

Primeiro eu achei que era pegadinha. O olhar 43, o cobertor jogado sobre o corpo como se fosse um pashmina... Mas então amigos curitibanos garantiram que o cara existe sim, e que é deficiente mental, viciado em crack ou ambos. E que nem é o único louro de olho azul a perambular pela capital do Paraná, o estado brasileiro com a maior proporção de descendentes de eslavos. Seja lá o que for, esse meme do "mendigo de Curitiba" serviu para despertar o racismo latente de muitas pessoas. Já existe campanha nas redes sociais para tirar o cara da rua, quem sabe até arranjar-lhe emprego na indústria fashion. Vamos patrocinar um book para ele em crowdsourcing! Será que haveria essa comoção toda se fosse um negro, mesmo que lindo? É óbvio que não. Negro maltrapilho não choca. Faz parte da vida. Mas um ariano com cara de modelo? É o mundo de cabeça para baixo!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

COME OUT AND VOTE

Sinto um frio na barriga só de pensar que Obama pode ter comprometido suas chances de reeleição por causa de seu fraco desempenho no debate da semana retrasada. Ele perdeu a margem folgada que tinha sobre Romney e algumas pesquisas apontam para um empate técnico neste momento, apesar do Nate Silver - o mais certeiro analista eleitoral americano - ainda apontar para uma vitória dos Democratas em novembro. Mitt Romney na presidência seria um desastre em todos os sentidos, especialmente para a causa igualitária. É por isto que algumas celebridades assumidas fizeram este vídeo acima, lembrando como é importante sair de casa para votar em Obama, o primeiro presidente americano a defender publicamente o casamento gay. Enquanto isto, aqui no Brasil... bom, para começar, temos bem poucos famosos fora do armário. Simpatizante há muitos, mas declaradamente gays ou lésbicas? Um punhado e olhe lá. E também vai demorar para termos um presidente abertamente favorável. Nem é por preconceito deles. É uma simples questão geracional: Dilma, Lula, Serra, Alckmin, todos os nossos presidentes e presidenciáveis até hoje vêm de uma época em que o importante era combater a ditadura, o capitalismo, o império, essas coisas. Proteger viado e sapatão só entrou agora no radar deles, e sem muita força. Quem sabe quando finalmente tivermos um outro presidente a coisa mude de figura: Eduardo Campos, Aécio Neves, Sergio Cabral, toda essa turma é mais jovem e mais afinada com o movimento LGBT. Vamos aguardar essa geração.

(obrigado ao Celso Dossi pela dica do vídeo)

TEMPLO É DINHEIRO

Está sendo até engraçado ver o Serra tentando se desvencilhar do apoio do Malafaia. Mas o esforço é vão, ainda mais agora que foi revelado que em 2009 o então governador de São Paulo distribuiu às escolas estaduais um kit parecidíssimo com o do Haddad - elaborado, inclusive por muitas das mesmas pessoas. Chega a ser patético vê-lo dizer que os dois materiais "não têm nada a ver". Como disse a "Folha" outro dia, não dá para ser endossado pelo apóstolo do ódio e querer posar de moderno ao mesmo tempo. Serra é um cínico: é o Mitt Romney brasileiro, que muda o discurso de acordo com a plateia. Não só vai perder a eleição como vai manchar a própria biografia. Não percebeu que a causa gay é a última grande luta pelos direitos humanos. Dá para entender (mas não dá para perdoar): Serra tem 70 anos de idade, e este papo de LGBT é tão novo para ele quanto um videogame. Simplesmente não está entre as prioridades de seu radar, por mais que ele tenha feito pelos homos ao longo de sua carreira. Mas atenção: antes que alguém diga que então vai votar no PT por causa disto, é bom lembrar que foi a presidente Dilma quem vetou o "kit gay" do então Ministro da Educação, dizendo que era inconcebível se fazer "propaganda de opção sexual". Não há santos nessa história. Quase todos os nossos políticos abrem as pernas diante das lideranças evangélicas. E é ainda mais triste lembrar que a maioria desses líderes não está nem aí para a moral e os bons costumes, como diria a dona Doroteia. O que essa corja quer mesmo dos prefeitos é autorização para construir seus templos onde bem entenderem, com ainda menos tributação e permissão para fazer barulho até altas horas. Poucos são simplórios como esta pastora que foi eleita vice-prefeita de uma cidade do interior de Minas; não duvido até que muitos sequer acreditem em Deus. Só querem faturar, nem que para isto precisem destruir o que restou da paisagem urbana com monstrengos como esta da foto - a réplica do Templo de Salomão que a Universal pretende erguer em São Paulo. Mas a grita contra os fanáticos tem sido até maior do que eu esperava. Ainda acho que o Brasil tem jeito.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

DORES DO CRESCIMENTO

Amo o Mika de paixão, mas admito que seu segundo disco me deixou meio assim. "The Boy Who Knew Too Much" era parecido demais com o CD de estreia, "Life in Cartoon Motion", da capa em technicolor ao repertório engraçadinho. O pior é que as letras denunciavam um cantautor ainda preso na adolescência, desses que brigam com papai e mamãe durante o jantar e correm para se trancar no quarto, com o corpo jogado em diagonal sobre a cama. Mas três anos se passaram e Mika finalmente parou com aquela bobagem de "não aceito rótulos", assumindo-se gay publicamente (não que tenha sido supresa para ninguém). A recém-adquirida maturidade também se reflete no novo trabalho, "The Origin of Love". É de longe o mais variado de seus discos, com arranjos que escapam das fórmulas fáceis e uma certa densidade dolorida onde antes só havia bolhas de sabão. Mas os mikólatras não precisam se assustar: o rapaz continua serelepe, cantando em falsete (agora também em francês) e compondo divinamente. É um representante digno do pop viado britânico, uma linhagem que começa mais ou menos com Elton John e passa por Freddie Mercury, George Michael e os Pet Shop Boys. Que alívio que Mika cresceu: mais um disco de gracinhas descomprometidas e ele se arriscava a se transformar num novo Morrissey, eternamente dentro do armário e reciclando sua angústia infantil ad infinitum.
Minha favorita é a faixa-título, que ganhou vídeo gravado em Santiago do Chile. E aqui tem uma palhinha do CD inteiro, faixa a faixa.

NO REINO DA AFETAÇÃO

Quando o diretor Wes Anderson surgiu, ele foi saudado como um grande inovador. Uma espécie de filho bastardo indie e modernex de Woody Allen com os irmãos Coen. Filmes como "Os Excêntricos Tannembaums" e "A Vida Aquática com Steve Zissou" deixaram a crítica babando: quanta ironia! Quanto cinismo! De fato, Anderson compõe lindos enquadramentos, e é mestre em fazer seus atores olharem apáticos para a câmera. Mas basta descascar as aparências para perceber que seu leit-motiv é o mais batido do cinema americano: a obsessão com a figura paterna. Esta obsessão está presente de maneira indireta em "Moonrise Kingdom", que por alguma razão misteriosa manteve seu título original no Brasil. O filme conta a história de um escoteiro órfão que foge com a filha maluquete de um casal infeliz. Só que não fogem para longe: toda a ação se passa numa ilha, então não há muito onde se esconder. Essa trama fofinha serve de pretexto para que atores do naipe de Tilda Swinton e Bill Murray façam caras inexpressivas e usem figurinos coloridinhos. Também há explosões de desenho animado, dessas que deixam a pessoa com a cara toda preta, e personagens se pendurando pela ponta dos dedos para não sofrer uma queda. Só faltou alguém deixar um rombo no formato do próprio corpo ao passar por uma porta fechada. "Moonrise Kingdom" não chega a chatear, porque mal dura 90 minutos. Mas é só um exercício de afetação, pretensioso e inconsequente.

domingo, 14 de outubro de 2012

A BIENAL DAS GARATUJAS

Já teve Bienal de São Paulo dominada pelas instalações. Pelas vídeo-instalações. Por telas gigantescas, coloridas e figurativas. A deste ano é dominada por papeizinhos rabiscados. É impressionante a quantidade de quadrinhos pequenininhos, de páginas de caderno rabiscadas, de garatujas. Tudo com cara de ter sido feito enquanto o autor falava distraído ao telefone. Também é notável a quantidade de obras com texto, frases, palavras, quase todas precisando serem lidas para serem entendidas (me recusei). Claro que há maravilhas incrustradas aqui e ali, mas para isto é preciso garimpar, escarafunchar, andar léguas e mais léguas. O conceito de mostra colossal é descendente direto das Exposições Universais do século 19, onde quantidade era mais do que qualidade: era sinal de poder imperial. Hoje em dia não faz muito sentido essa avalanche de arte, já que podemos praticamente ver qualquer coisa na internet no momento em que quisermos. Acabei gostando do espaço museológico, principalmente das fotos de August Sander e Alcir Gomes. E saí do Ibirapuera exausto, claro, mas também achando que é meio inútil "repensar" a Bienal. Esse modelo já deu o que tinha que dar.

NÃO É BOLINHO

Agora que o Dia das Crianças já passou, posso tocar num assunto que me estava encalacrado há dias: cupcakes de doenças venéreas! Calma, não são "de" doenças venéreas, só "em forma de". E são perfeitamente comestíveis. É mais uma criação asquerosa da Eat Your Heart Out, uma confeitaria inglesa especializada em anatomical art. Lá você pode encomendar docinhos relativamente inocentes, como uma caveira de chocolate branco em tamanho natural, mas também gelatinas que parecem culturas de bactérias e bolos que parecem cabeças decapitadas em estado avançado de putrefação. Perfeitas para gerar assunto numa festinha caída.

sábado, 13 de outubro de 2012

GUILLE Y FERNANDO

O casamento igualitário já existe na Argentina há dois anos, mas só esta semana ele chegou às novelas de lá. "Graduados", atual campeã de audiência do canal Telefe, exibiu há alguns dias o enlace matrimonial de Guille e Fernando, com direito a aparição surpresa do pai homofóbico de um dos noivos. Claro que o papi abençoou a união, e os pombinhos até trocaram um selinho diante das câmeras. Aqui no Brasil o casal gay de "Insensato Coração" também terminou assinando um contrato de união civil com festinha para a família, mais de um ano atrás. Mas o beijo ainda faz forfait, pelo menos na nossa teledramaturgia (o "Na Moral" do Pedro Bial exibiu um durante o casamento de duas moças). Até quando?

(agradeço ao anônimo que me deu a dica)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

OLHO GORDO

Eu sou o melhor tio do mundo. Não só sacrifiquei meu feriado para ficar em São Paulo cuidando dos sobrinhos enquanto meu irmão se esbalda na Europa, como hoje levei o menorzinho ao cinema para ver "Até que a Sorte nos Separe". Verdade seja dita: o filme não é tão horroroso assim. É um pastelão assumido, bem feitinho, cuja única barriga é mesmo a do Leandro Hassum. Claro que, se eu achasse o Hassum a coisa mais engraçada do mundo, teria me divertido muito mais. O cara está em cena quase o tempo todo, rebolando, fazendo caretas e jogando o corpanzil em cima de transeuntes inocentes. A linha de humor do roteiro é uma espécie de elo não-perdido entre "Os Trapalhões" e "Junto & Misturado", previsível porém competente. Parece que este será o maior sucesso de bilheteria do cinema brasileiro. Por isto, também o assisti com olhar profissional. Vamos aprender a fórmula para primeiro repeti-la e depois subvertê-la. Mas o melhor de tudo foi rir ao lado do meu sobrinho de 12 anos. Para todo o resto existe MasterCard.

MAS O CABELO DA MARGE NÃO É AZUL?

Parece que este comercial já tem alguns anos, mas só hoje topei com ele.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

NASCIDOS PARA AHAZAR

Neste feriadão eu ia para o Rio rever os amigos, me enfronhar no Festival de Cinema e quem sabe até enforcar a segunda-feira, para assistir in loco à entrega do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Mas aí meu irmão fez o favor de ir para a Europa com a mulher, e me pediu encarecidamente para eu mudar para a casa dele durante a viagem e tomar conta dos sobrinhos. Então lá fomos nós, inclusive o gato Cauxi - que está adorando sair do apartamento pela primeira vez em seis meses. Isto quer dizer que neste fim de semana não enfiarei o pé na jaca: as maiores emoções vão ficar mesmo por conta do final da novela. Ainda bem que, para me distrair, um amigo mandou o link do "Criança Viada", um Tumbl'r que parece inspirado no americano "Born This Way". Só que a versão brasileira tem uma diferença crucial: nem todos os moleques se tornaram adultos homossexuais. Sinal de que a viadagem não tem preconceito sequer de orientação sexual. Feliz Dia das Crianças!

O MARQUETEIRO DA HOMOFOBIA

Este senhor de aparência inofensiva e olhinhos estrábicos é na verdade um gênio do mal. O "New York Times" de ontem trouxe um perfil (aqui, em inglês) de Frank Schubert, o cara por trás das campanhas contra o casamento gay nos Estados Unidos. Nas eleições deste ano, quatro estados americanos trarão propostas legalizando o casamento igualitário: Schubert terá então o maior desafio de sua carreira, pois as pesquisas apontam a derrota da homofobia em todos os quatro. Mas ele tem lá seus truques. O mais perverso de todos: dizer que não tem absolutamente nada contra os homossexuais e que eles podem amar quem quiserem. Como "prova" de como é bacana, Schubert diz que se dá muito bem com sua irmã lésbica, que vive com a companheira e o filho que têm juntas. O que ele é contra é a "redefinição do casamento", que só existiria entre um homem e uma mulher. Dessa maneira, ele dá a senha para os homofóbicos manterem seus preconceitos e não se sentirem culpados por isto. Aqui no Brasil o termo "redefinição do casamento" ainda não entrou neste debate, mas a postura de Schubert já é adotada por muita gente: "respeito os gays, adoooro, tenho amigos, meu cabeleireiro é gay", etc. Só não podem ter direitos iguais. É uma atitude não-agressiva, bem distante dos destemperos violentos de um Malafaia ou um Bolsonaro. Mas não podemos nos deixar enganar: é tão homofóbica quanto. O sujeito pode não ser a favor da pena de morte para as bichas nem sair dando lampadadas por aí, mas basta dizer que casamento é só entre homem e mulher, seja "porque Deus quis assim" ou "porque é o esteio da sociedade", que é um porco preconceituoso, sim senhor. E não é porque o casamento seja o objetivo máximo da vida de um gay, porque não é. Mas com ele vem o reconhecimento oficial de que somos cidadãos plenos.

Em tempo: hoje é o "Dia Nacional de Sair do Armário" nos EUA. Vamos adotar esta data por aqui?

ATUALIZAÇÃO:
Fui avisado de que há grupos que já comemoram a data de hoje no Brasil. Só soube agora porque eu devia estar escondido numa gaveta.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

TRY THE FINGER SANDWICHES

Um dos maiores escândalos da história do Oscar é o fato de Alfred Hitchcok jamais ter levado o prêmio de melhor diretor. Um de seus filmes, "Rebecca", até ganhou a estatueta de melhor do ano em 1940, mas o mestre sempre saiu de mãos abanando. Pela lógica torta de Hollywood, esta injustiça talvez seja corrigida agora se "Hitchcock" cair nas graças da Academia. Apesar do título, não se trata de uma biografia abrangente: o filme foca apenas na época das filmagens de "Psicose". O elenco estelar já garante o interesse, mas quem disse que Anthony Hopkins se parece com o original? Nem debaixo de uma fat suit.

AS MÁS COMPANHIAS

José Serra emporcalha a própria biografia ao posar todo pimpão ao lado do coronel Telhada, eleito vereador em São Paulo pelo PSDB e acusado de incitar seu fã-clube no Facebook a ameaçar o repórter policial André Caramante, que precisou fugir do Brasil para proteger sua família. Mas até Serra, em sua sede de poder, percebeu que esses apoios podem lhe sair caros. Hoje o candidato se recusou a comentar as patacoadas que seu cabo eleitoral Silas Malafaia andou dizendo sobre Haddad e o "kit-gay" (detesto usar este termo, mas pegou). Tenho dúvidas se fazer a egípcia neste assunto vai dar resultado: sei de muita gente boa que está pensando em, se não votar no PT por causa do mensalão, pelo menos em anular o voto no segundo turno paulistano.

A BOLHA ESTOUROU

A agressão sofrida pelo Bruno Chateaubriand na madrugada de sábado para domingo serve para lembrar como é vulnerável, quiçá ilusória, a tal da bolha de tolerância que existe nas regiões mais abastadas do Rio e de São Paulo. Achamos que os ataques homofóbicos acontecem na periferia, nos rincões do Brasil, ou, se tanto, numa Avenida Paulista deserta, na calada da noite. Bruno foi achacado em plena Ipanema, enquanto dividia com marido e amigos uma mesa no Néctar, um bar na esquina da Farme de Amoedo com a Visconde de Pirajá. Foi pego de surpresa e não reagiu. Talvez pudesse ter fotografado ou gravado seus agressores e postado imediatamente esses registros nas redes sociais, mas na hora o susto deve ter sido tão grande que dá até para entender. Agora está tomando as medidas legais cabíveis, mas ele mesmo diz que não tem como reconhecer ninguém. Talvez o bar possa ser responsabilizado: é notório que muitos comerciantes não recusam o pink money, mas não mexem uma palha na hora de defender esses clientes. O fato é que Bruno está pagando o preço de ser uma figura pública e de não fazer o menor segredo da relação que mantém há mais de 13 anos com André Ramos. Ele foi agredido no lugar de todos que ainda se enroscam dentro do armário. Já repeti muitas vezes aqui no blog que os casos de violência contra os homossexuais, física ou verbal, vão aumentar num primeiro momento. Para que o segundo momento chegue logo, a receita é uma só: temos que nos expor cada vez mais. Caso contrário, os trogloditas ganham.

(Aqui está a coluna de Bruno Astuto, no site da revista "Época", que deu a notícia em primeira mão anteontem. E aqui o relato do próprio Bruno em seu blog no site da "Veja Rio".)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

NÃO OBRIGADO

Quase 30% dos eleitores paulistanos votaram em branco, anularam o voto ou sequer apareceram para votar. O fenômeno se repetiu por todo o Brasil. E os cientistas políticos dizem que este é um sinal claro de insatisfação com os candidatos, que são sempre os mesmos, nunca fazem nada, são todos corruptos, etc. etc. Pois eu já faço uma leitura diferente. Essas pessoas simplesmente não querem votar, não importa quem esteja concorrendo. Se o voto não fosse obrigatório, elas não sairiam de casa nem para um segundo turno entre Adolf Hitler e Madre Teresa de Calcutá. Aí é que está o x da questão. 30% de não-votos parece um número absurdamente alto, mas é até pouco para os países onde o voto é facultativo. Nos hiper-polarizados Estados Unidos, onde democratas e republicanos viraram uma versão moderna dos Montechios e Capuletos, quase metade da população não está nem aí para as eleições. Na França, onde surgiram os conceitos de direita e esquerda, um índice de comparecimento de 60% é comemorado com uma safra boa. Até na Venezuela, sob todos os aspectos uma democracia muito mais rudimentar do que a nossa, o voto não é obrigatório. Mas aqui no Brasil continua sendo, e eu me pergunto por quê. Essa regra fazia sentido na República Velha; hoje, serve mais para atazanar a vida de quem precisa tirar passaporte e não encontra os comprovantes. Se o voto por aqui fosse um direito e não um dever, candidatos folclóricos e animais do zoológico teriam muito mais dificuldade em se eleger. Difícil imaginar alguém se abalando até uma zona eleitoral para votar no macaco Tião. Desobrigar o voto é apenas um dos itens que a tão urgente reforma política precisaria contemplar, mas quem tem coragem de tocar no assunto? Não esses governantes que estão aí. Nem com tanto voto inválido eles entendem o recado.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

AND SO THE FUCK WHAT?

Veja o que fez Sally Field neste final de semana, ao receber das mãos de seu filho gay um prêmio da Human Rights Campaign, uma ONG que luta pelos direitos igualitários. Em seu longo discurso, ela diz que Sam não escolheu ser homossexual e que foi a natureza quem o quis assim - "and so the fuck what?", termina ela triunfante. Sally já foi muito atacada por seu agradecimento ridículo ao ganhar um segundo Oscar, mas hoje eu posso dizer que I like her, I really like her.

DOIS PATINHOS NA LAGOA

Hoje celebro minhas bodas de louça: 22 anos de casado. Isto quer dizer que está na hora daquele meu post anual sobre a felicidade conjugal, a longevidade do meu casamento, etc. etc. etc. Acontece que acabo de escrever uma coluna para a próxima revista "H" exatamente sobre este assunto. Então dessa vez vou ficar devendo as dicas de sempre para as bibas casadoiras. Só quero dizer que a vida de casado não é essa coisa toda que dizem por aí. É muito, muito melhor.

A DELEGASSIA DAS CRIANSSAS

O filme francês "Polissia" parece o piloto de uma série de TV, e eu digo isto como um elogio. São tantos os bons personagens e tão instigantes as situações que dá realmente vontade de ver mais. Não que seja um filme fácil de assistir: o dia-a-dia do Batalhão de Proteção aos Menores, em Paris, rende momentos horripilantes de crianças sendo mal-tratadas de todas as maneiras possíveis, incluindo o estupro. Mas a diretora Maïwenn sabe dosar o horror com dramas humanos mais corriqueiros. Ela, que não usa sobrenome e também é atriz, aparece no próprio filme num papel coadjuvante, o da fotógrafa tímida encarregada de registrar as peripécias dos policiais, e deixa o elenco brilhar à vontade. Nenhum dos atores é muito conhecido no Brasil, o que ajuda na credibilidade das cenas, e quase todos foram indicados a algum César na última entrega do prêmio. O título misterioso de "Polissia" reproduz a grafia de uma criança e pode estar atrapalhando a carreira do filme, que está em exibição numa única sala em SP. É uma pena, pois ele merecia mais atenção - ainda que talvez coubesse melhor numa tela de TV.

domingo, 7 de outubro de 2012

LARANJA CHUPADA

É um terror recorrente na cabeça de muitos brasileiros: o presidente evangélico. O pastor que, nos braços do povo, chegaria ao poder para transformar o país numa teocracia. Seu discurso pseudo-moralista, prometendo o reino do Senhor aqui e agora, seduziria milhões de desavisados. Eu sou um dos que achava este cenário possível, e nunca me passou pela cabeça o que de fato aconteceu. Para chegar a um cargo majoritário da importância da Prefeitura de São Paulo, uma das maiores denominações neopentecostais lançou mão de um laranja. Um católico, de perfil não-religioso, montado na imagem de defensor dos direitos do consumidor (um conceito mais simples de entender do que a cidadania). Enquanto não ficou claro para a patuleia que Celso Russomanno era o cavalo de Tróia da Igreja Universal, o cara disparou nas pesquisas. Foi só ele finalmente ser atacado por seus adversários para, como disse Gilberto Dimmenstein, sua candidatura derreter feito manteiga em chapa quente. Nunca antes neste país houve tamanha queda livre nas intenções de voto às vésperas de uma eleição. Isto me enche de esperança, pois mostra que os evangélicos não são tão imbatíveis assim. Claro que há outros fatores que explicam o tombo do cara, como a gritaria em torno tarifa proporcional de ônibus que ele propôs. Agora acho que Russomanno periga até mesmo não passar ao segundo turno, nesta que é a primeira votação paulistana desde 1985 a ser decidida no photo-finish, aquela foto da linha de chegada das corridas de cavalo. Pelo jeito a cidade de São Paulo ainda não quer um prefeito manipulado pela Igreja Universal. Graças a Deus.

sábado, 6 de outubro de 2012

OS LIMITES DA ARMAÇÃO

Antediluvianos como eu lembram bem do "Armação Ilimitada", o moderníssimo programa que a Globo exibia no final dos anos 80 em que dois caras dividiam a mesma namorada e viviam de "armações", seja lá o que isto fosse. As aventuras de Juba, Lula e Zelda foram a primeira coisa que me vieram à cabeça quando comecei a ver "Selvagens": dois sufistas cuca-fresca morando numa casa de praia e comendo a mesma garota, em harmonia com o tao do universo... Só que eles não são tão cuca-fresca assim. Um deles serviu no Afeganistão e de lá trouxe as sementes da que seria a melhor maconha do mundo. Os dois abrem um negócio lucrativo que logo atrai a cobiça de um cartel mexicano, e o que parecia uma vida livre, despreocupada e cheia da grana logo encontra os limites do mundo cruel. O novo filme de Oliver Stone começa com ritmo scorseseano, com cenas rápidas e locução em off, mas não demora para virar apenas um thriller competente. O trio central é formado por Blake Lively, um irreconhecível Aaron Johnson e o azarado Taylor Kitsch, que estreou um fracasso atrás do outro na última temporada do verão americano. Mas o elenco de apoio tem mais peso: John Travolta, Benicio del Toro, o recém-indicado ao Oscar Demián Bichir e Salma Hayek fazendo "la reina" do cartel, talvez um dos únicos papéis reservados para atrizes mexicanas de sua idade em Hollywood (o outro é o de faxineira). Alguns maneirisimos visuais de Stone fizeram escola e hoje parecem ligeiramente datados, mas é inegável que o cara sabe dirigir. "Savages" não é do grande cacete, mas existem maneiras piores de passar uma tarde de sábado.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

NÃO NASCI ASSIM, NÃO FUI SEMPRE ASSIM

Demorou,mas finalmente encontrei o CD com a trilha sonora de "Gabriela". O disco traz uma seleção curiosa: oito canções da primeira versão da novela, de 1975, e outras dez que só são usadas na versão atual. Que nem por isto foram feitas especialmente: entre elas está o lânguido "Tema de Amor de Gabriela", composto por Tom Jobim para o filme de Bruno Barreto, e "Você Não Me Ensinou de te Esquecer", que Caetano Veloso gravou para o filme "Lisbela e o Prisioneiro". Quase todas as faixas são assinadas por medalhões da MPB, mas acho que nem preciso dizer que as da primeira novela dão de dez nas da segunda. Entre as muitas pérolas, estão as ótimas estreias de Djavan ("Alegre Menina") e Fafá de Belém ("Filho da Bahia"): impressionante como ambos nasceram prontos. A "Gabriela" de Walter George Durst ainda é tida por muita gente como a melhor telenovela brasileira de todos os tempos, e sua trilha certamente também está entre as melhores. A daptação de Walcyr Carrasco transformou o romance de Jorge Amado numa novelinha das seis com um pouco de nudez, mas que bom que boa parte da música continua a mesma.

O CÉU ESTÁ CAINDO

Sou um connoisseur de temas de James Bond. Acho que alguns das melhores canções da história do cinema serviram para embalar as sequências de créditos das aventuras do 007. Muitas se tornaram clássicos do camp, entrando para o repertório de dublagens das drags mais refinadas: "Goldfinger", "You Only Live Twice", "Nobody Does It Better". Mas, tirando a bagunça que Madonna fez com "Die Another Day", faz muito tempo que não surge um tema realmente memorável. Por isto fiquei todo assanhado quando soube que Adele estava gravando a música de "Skyfall", o novo filme do agente, com estreia prevista para o final deste mês. Ela cumpre todos os requisitos: é inglesa, tem voz dramática, está na crista da onda. Seu opus caiu ontem na rede e hoje já está disponível no iTunes. E é... mais ou menos. Não é uma desgraça como o encontro forçado de Alicia Keys e Jack White em "Another Way to Die", mas não tem o glamour necessário para entrar no panteão das melhores. Talvez seja culpa do corinho gospel: quem foi que achou que James Bond combinava com religião?

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

MOÇA, SEU NAMORADO FAZ BLUE STEEL

Para comemorar os 11 anos do lançamento de "Zoolander", o site "Daily Beast" chamou 11 dos modelos masculinos mais badalados da atualidade, tirou a camisa deles e mandou todos fazerem Blue Steel. Para os não-iniciados: Blue Steel é uma das quatro expressões que o über-model Derek Hollander tem em seu repertório (as outras três são Magnum, Ferrari e Le Tigre), e também uma nítida antepassada da Duck Face tão popular nos dias de hoje. Quem fez melhor? Na minha opinião de expert, Bailey Glandt. E quem nunca viu "Zoolander", ponto alto da carreira de Ben Stiller, precisa aumentar urgente o próprio repertório.

AMIGO URSO

"Ted" nem estava na minha lista de filmes a ver, mas me deixei seduzir pela brilhante campanha publicitária orquestrada pelo deputado Protógenes Queiroz. Acabei tendo algumas surpresas. A primeira: o filme não é a orgia de palavrões, dirgas e putaria que eu esperava. Claro, o ursinho falante usa um "bong" para fumar maconha, contrata prostitutas, cheira cocaína e faz até um bukkake simulado com creme hidratante. Mas qualquer episódio de "Family Guy", a série em desenho animado que revelou o diretor Seth MacFarlane, é mais ofensiva às sensibilidades delicadas. A segunda surpresa: "Ted" é muito divertido até um pouco além da metade. Durante mais de uma hora, tive a sensação de estar vendo um dos melhores filmes do ano, com boas piadas, ritmo frenético e uma atuação corajosa de Mark Wahlberg. Meu êxtase culminou com a incrível cena de uma festinha cheia de referências ao clássico kitsch "Flash Gordon" (um filme que me marcou por causa da trilha sonora do Queen), seguida por uma briga violentíssima entre homem e ursinho que culmina com uma surra de antena na bunda. Mas daí para a frente a história degringola de vez. Não sei se foi interferência do estúdio, mas o fato é que MacFarlane simplesmente abandona o conflito armado até então: de um lado, o urso que representa a imaturidade do protagonista, e do outro a namorada que exige que o sujeito amadureça de uma vez por todas. Surge um pai maluco que quer roubar Ted para seu filho esquisito, e o trio central une forças para combater o inimigo comum. "Ted" termina com cenas de perseguição e redenção idênticas às de qualquer filmeco infanto-juvenil, traindo a ótima premissa original. Este sim é o lixo cultural americano que nossos nobres parlamentares deveriam combater.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

OIA A OEA AÍ Ô

Alguém tem o telefone do bispo? É para dar para o deputado Valdemar da Costa Neto, este pilar da moralidade, possuído de ira santa depois de condenado no julgamento da mensalão. Reclamar ao bispo talvez dê mais resultado do que bater às portas da Corte Interamericana dos Direitos Humanos, ligada à OEA. Este tribunal não tem o poder de reverter uma decisão do STF, e é provável é que nem aceite a queixa de Valdemar. Que assim cobre de ridículo uma carreira já maculadíssima.

HAY UN CAMINO

Estou muito curioso para ver o que acontece na Venezuela, que também vai às urnas neste domingo. Torço muito para que o oposicionista Henrique Capriles derrote Hugo Chávez, e seu crescimento nas pesquisas mostra que isto pode ser possível. Por outro lado, o Executivo controla o país de tal forma que eu duvido muito que Capriles ganhe - ou melhor, que leve se ganhar. Os chavistas não vão largar o osso tão fácil e já demonstraram várias vezes que ignoram qualquer regra ou lei que difculte seu projeto de poder. O próprio Chávez já fez ameaças veladas de guerra civil se o resultado não lhe for favorável. Pensando assim, talvez seja até melhor deixar o caudilho saborear mais uma vitória, mesmo se ilegítima. Provavelmente será a última, já que são presistentes os rumores de que ele não passa do ano que vem. Aí, quem sabe, a Venezuela consiga fazer uma transição razoavelmente tranquila para uma democracia mais funcional. E Capriles, que tem só 40 anos (além de ser bonito e solteiro, garotas) provavelmente estará na zona do agrião.

(o título deste post é o principal slogan da campanha de Capriles)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

POR ÁGUA ABAIXO

Este caso bizarro está se desenrolando em Petrolina, Pernambuco, e ilustra a barafunda em que se encontram a liberdade religiosa e a noção de estado laico na cabeça de muita gente. O escultor Ledo Ivo, com autorização da Marinha, instalou uma escultura da Mãe d'Água, figura da mitologia indígena, nas águas do rio São Francisco. O vereador evangélico Osinaldo Sousa fez então um discurso inflamado, acusando a estátua de estar representando, na verdade, Iemanjá, e que por este orixá ser dos cultos afro-brasileiros, também é o demônio e uma ofensa a Jesus Cristo. A gritaria na cidade foi tanta que Ledo Ivo acabou vendendo a estátua para um particular, que irá instalá-la em sua fazenda. São muitos os aspectos dessa história, inclusive o estético: eu, pessoalmente, acho que a Mãe d'Água merecia mais do que essa alegoria de escola de samba do grupo B de Osasco. Mas o mais chocante é mesmo o tal do vereador brandir a Bíblia e tentar acionar o Estado para relevar este insulto aos supostos cristãos. Se ele tivesse dito que não cabe usar dinheiro público para levantar monumentos a quaisquer religiões, vá lá - ainda que não haja um único crente na mitologia indígena em toda a região. Mas confundir Mãe d'Água com Iemanjá e ainda alegar que evangélicos e católicos são maioria na cidade é passar atestado de ignorante e não ter a mais puta ideia do que seja a Constituição. Mas a culpa também é do governo, que volta e meia patrocina festas religiosas. Por outro lado, foi essa fronteira difusa entre Estado e Igreja que nos deu o Cristo Redentor. Imagine o escândalo se o símbolo do Ro de Janeiro fosse erguido nos dias de hoje, ainda que em propriedade particular...

(obrigado ao Edson Guedes Gomes pela dica)

HAPPY HOUR

O meme de hoje. Já tem remix de Las Bibas from Vizcaya e este outro aqui, feat. Carminha. A que horas sai o mash-up com "Gangnam Style"? Nãnãnãnãassim.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

SUJEITO FAMÍLIA

Deputado Protógenes, não deixe o pequeno Juan assistir à entrega dos Oscars no ano que vem. Adivinha quem vai ser o apresentador da cerimônia? Ninguém menos que Seth Macfarlane, criador da série "Family Guy" e diretor dessa obra-prima da sétima arte que deve ser "Ted" (ainda não vi, eu sei, eu sei, shame on me). Depois do antediluviano Billy Crystal este ano, escalado às pressas para tapar o buraco gerado pela saída abrupta de Eddie Murphy, a festa de 2013 promete ser a mais grosseira de todos os tempos, com muitas piadas sobre aborto, fist fucking e, tomara, Stewie saindo do armário. Essa orgia anunciada pode incitar o nobre parlamentar a proibir a transmissão dos Oscars pela TV. Tudo bem: ele não sabe mesmo que existe internet, onde poderia ter visto o trailer de "Ted" antes de sair de casa.

PET SHOP EX-BOYS

Mais de um quarto de século depois de terem despontado, os Pet Shop Boys estão se transformando nos Rolling Stones da música eletrônica. Isto quer dizer que, a cada novo disco, eles não precisam mais trazer grandes novidades. Basta fazer o que sempre fizeram que já está bem bom. Também significa que as músicas mais marcantes estão todas no passado. Nem mesmo o excelente CD "Yes", de 2009, rendeu uma faixa que esteja entre as melhores da banda. Aquele era um trabalho saltitante produzido pela galera do Xenomania, especializada em hits radiofônicos. Dessa vez os PSB produziram a si mesmos e o resultado poderia muito bem se chamar "Introspective" se este título já não tivesse sido usado pelo par há mais de 20 anos. Também é possível comparar "Elysium" com "Behavior", tanto na sonoridade como nas letras. A pegada é calma do começo ao fim e não há nenhuma canção fraca. Mas a única mais memorável é "Leaving", que abre o disco e rendeu este vídeo acima onde Neil Tennant não esconde o velhinho que está se tornando (já Chris Lowe não dá para saber, ele sempre se esconde atrás de óculos e chapéus). Faz tempo que os dois não são mais "boys", e mais ainda que inovaram em algo. Mas já estão quase acima do bem e do mal, chegando ao patamar de Jagger, Bowie e outros medalhões britânicos.