quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

WHISKY CANADENSE

Gostar de Leonard Cohen é um pouco como gostar de whisky: é um prazer adquirido, que só vem com a idade e a experiência. É preciso estar meio sambado pela vida para apreciar devidamente as nuances, o amargor e a doçura de sua música. O mais velho popstar do mundo (está com 77 anos) tinha meio que encerrado a carreira, mas foi roubado por um contador e se viu obrigado a voltar à ativa. Sorte nossa, porque “Old Ideas” é um disco encorpado, redondinho, para se escutar no fim do dia. E sorte a dele, que nunca chegou tão alto na parade americana (3o.lugar), além de primeiro em vários países da Europa. Para quem não está ligando o nome à pessoa, o canadense Cohen é o autor de alguns clássicos contemporâneos, como “Dance Me to the End of Love” (regravado por Madeleine Peyroux) e “Hallellujah” (regravado por todo mundo, inclusive seu s conterrâneos k.d. lang e Rufus Wainwright). E para quem sente que está enjoando de Britneys e Rihannas e acha que já pode começar beber feito gente grande, fica a dica: baixe "Show Me the Place" daqui, e ouça até se acostumar com o sabor.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

RECLAMES D'ANTANHO

O site Buzz Feed vem publicando galerias de anúncios vintage americanos que, se veiculados hoje, dariam mais do que cadeia para seus autores: as agências seriam atacadas por turbas armadas com ancinhos e tochas. Alguns nem são tão antigos assim e servem para nos lembrar que moral e bons costumes não foram ditados por Deus nem são os mesmos desde sempre, mas mudam o tempo todo - e geralmente para melhor.

Sou o público-lavo deste. Lá em casa, quem abre vidro de palmito é meu marido Oscar.

Bons tempos em que se batia em mulher porque ela não usava a marca certa de café.

"Minha pele é escura, mas meu coração é branco". E isto no Canadá, hoje um dos países socialmente mais avançados do mundo.

Este não consegue sequer ser engraçado.

Este consegue: será possível que os criativos não se tocaram que estavam fazendo propaganda do homossexualismo, como dizem os evangélicos? "Homens são melhor que mulheres". E a coitada lá embaixo, tentando pegar seu macho com uma rede. Mas ele só tem olhos para o belíssimo suéter com cinto do boy magia ao seu lado.

Só de olhar para este, já ouço a sirene da rádio-patrulha chegando para me prender.

Mas este é o pior de todos. Não basta o apelo racista, ainda temos o contraste total entre as roupinhas das crianças.





Quer mais? Aqui tem uma coleção de anúncios racistas, e aqui uma de machistas. Se alguém encontrar uma de anúncios homofóbicos, por favor me avise. Inclusive brasileiros: daqui a alguns anos, lá estarão comerciais como aquele de Doritos, e nos perguntaremos como fomos capazes de tais barbaridades um dia.

REVENDO OS ESTATUTOS

Não sei se eu teria a pachorra de obrigar um clube que não me quer a me aceitar, mas apoio totalmente a luta de Ricardo Tapajós para que seu marido Mario Wade frequente o Club Paulistano como seu dependente (os dois levaram bola preta há cerca de dois anos). Ricardo tem uma ligação profunda com o clube, o qual frequenta desde pequeno, e argumenta que, quando vivia com uma mulher - não eram casados no papel - ela podia frequentar todas as dependências do lugar, sem problemas. A diretoria do CAP alega que a lei só reconhece como família aquelas formadas por homem e mulher, mas isto não é mais verdade desde que o Supremo estendeu ano passado os benefícios da união estável para casais do mesmo sexo. Como sempre, muitos dos comentários à notícia publicada no UOL parecem ter sido escritos por aiatolás iranianos, mas é bom ver que muitos são rebatidos por pessoas mais esclarecidas. Vai ser bom acompanhar essa briga.

FUI PARA O MERCADO

Ontem, poucas horas depois de ter publicado o post abaixo aqui no blog, recebi um e-mail do editor do caderno "Mercado" da "Folha de São Paulo". Ele me pedia uma versão mais curta do texto para publicar no jornal, e eu não me fiz de rogado. Saiu hoje, na última página do caderno, e também pode ser lido aqui (só para assinantes do jornal ou do UOL). E assim, eu, que comecei escrevendo na "Ilustrada", fui para o F5 e passei pela capa e pelo "Cotidiano", chego agora ao suplemento de economia da "Folha". O que falta agora? Esportes? É ruim, hein?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O MAIOR CRIME DE ELIANA TRANCHESI

Fiquei um pouco assustado com os comentários postados na internet abaixo das notícias sobre a morte de Eliana Tranchesi. Assustado, mas não surpreso: faz tempo que se sabe que muita gente extravasa toda sua agressividade na web, e também não é de hoje que Eliana havia se transformado numa espécie de inimiga no. 1 do Brasil.

Veja bem, não estou defendendo a falecida dona da Daslu: sei muito bem que ela foi julgada e condenada por contrabando e sonegação, que há provas irrefutáveis e que dificilmente ela não saberia de nada dos esquemas, como sua defesa chegou a alegar. Mas a virulência dos comentários é impressionante. Parece até que ela pilotava o jet ski que atropelou a garotinha em Bertioga e que soltou a trava do brinquedo que matou outra menina no Hopi Hari. Meu espanto ainda é maior porque vivemos num país onde muita gente compra computador ou celular “nas boas casas do ramo”, sem nota fiscal e sem a menor culpa. Onde DVDs piratas são vendidos tranquilamente no meio da rua. Onde as malas dos viajantes chegam do exterior abarrotadas de roupas e eletrônicos, e tomara que a luz vermelha não se acenda.

Foi neste país que Eliana Tranchesi virou uma espécie de Geni, em quem era permitido jogar pedra e bosta. Mas porque justo ela, quando seus crimes – graves, não nego – não são exatamente raros? Ora, ora, ora. Porque, mais do que um símbolo de vigarice, ela era a garota-propaganda da nossa desigualdade social. A vilã esnobe e insensível, Teresa Cristina multiplicada por mil.

A Daslu passou desapercebida durante quase 40 anos, ocupando casinhas no bairro paulistano da Vila Nova Conceição. Era um endereço quase secreto, só conhecido pelos clientes, e que não fazia propaganda nem tinha site. Mas o negócio cresceu tanto que incomodou os vizinhos da rua, quase toda residencial, e a loja resolveu se mudar – justamente, ó ironia do destino, para ficar do lado certo da lei.

A inauguração do palazzo em estilo neo-cafona, às margens do rio Pinheiros, causou estardalhaço na mídia. De repente estava lá, às vistas de todo mundo, um templo dedicado ao consumo de luxo e à ostentação, num país onde milhões de pessoas passam fome. As TVs fizeram um carnaval com o helicóptero que a loja achou chique pendurar de seu teto. O fã-clube de Angelina Jolie (!) promoveu um protesto barulhento na porta, porque a Daslu vendia casacos de pele natural. Para complicar, o próprio estabelecimento criou obstáculos para si mesmo: o acesso só podia ser feito de carro, pedestres não tinham como entrar. E quem não tivesse o cobiçado cartão preto pagaria 30 reais de estacionamento, uma cifra estratosférica para 2005. Um erro de timing fenomenal, totalmente em descacordo com as promessas do governo Lula.

Quando, logo na sequência, a PF deflagrou a Operação Narciso e prendeu Eliana e seu irmão, muita gente se sentiu vingada. Padrinhos poderosos não conseguiram estancar a hemorragia de clientes: os corredores se esvaziaram, e nunca mais tornariam a se encher. Agora o palazzo está desocupado, e será incoporado (demolido?) pelo vizinho shopping Iguatemi JK, que inaugura agora em abril. Ainda assim, a Daslu sobrevive: sua confecção própria – que sempre teve ótima qualidade e preços bastante razoáveis – ocupa novos espaços em outros shoppings de SP e Rio, e em breve chegará a Brasília. Virou uma loja como tantas outras, e 100% nacional. Mas meio tarde para a reputação de Eliana Tranchesi: no imaginário dos que se sentiram excluídos pela Daslu, ela não descansará em paz.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

REACTION SHOTS

Um blog chamado FourFour postou algo sensacional: as reações de atores e atrizes indicados ao saber que perderam ou ganharam o Oscar. Tentei transplantar tudo para cá, mas como são trocentos gifs diferentes, melhor visualizar no lugar original: aqui, ó. E não, este pulo da Meryl Streep não é de vitória: ela está comemorando o prêmio da Cher, em 1988.

FORAM OS FILMES QUE ENCOLHERAM

A Academia precisa acabar de uma vez com essa bobajada de mais de cinco títulos concorrendo ao Oscar de melhor filme. A novidade foi introduzida há dois anos, depois de "Batman - O Cavaleiro das Trevas" não ter sido indicado no ano anterior. O raciocínio é simples: a audiência da cerimônia sempre sobre quando há filmes de grande bilheteria concorrendo. O programa de 1998, quando "Titanic" faturou um monte de estatuetas, foi o de maior ibope de todos os tempos. Então, sugeriu o diretor Bill Condon em 2009, porque não aumentar o número de indicados para dez? Aí com certeza um blockbuster vai estar entre os finalistas. Os acadêmicos toparam, e a manobra não adiantou para absolutamente nada. O público da transmissão aumentou e um monte de pequenos filmes independentes passou a concorrer, deixando a lista de selecionados ainda mais esotérica para o esepctador comum. Além do mais, dez vagas diminuem o valor da indicação, que ficou mais fácil de ser conseguida. Sabendo disto, a AMPAS mudou novamente a regra, e agora só entram filmes que ficaram em primeiro lugar em pelo menos 5% dos votos (os eleitores enviam uma lista com seus dez favoritos, em ordem de preferência). Isto fez com que em 2010 fossem nove os indicados. É uma seleção bem variada e não há um único filme verdadeiramente ruim nela (apesar de eu ter achado "Moneyball" um saco), mas vem cá - para quê, hein? Volta logo para cinco indicados, Oscar. Assim o prêmio fica maior, e os filmes também. Continuar escolhendo filmecos só vai encolher a audiência ainda mais, porque a qualidade encolheu faz tempo.

Dito isto, vamos aos meus palpites para a cerimônia de hoje à noite. Atualmente existem tantos sites especializados em previsões que os antigos bolões do Oscar perderam totalmente a graça: os sabichões apontam até mesmo o favorito para melhor curta-metragem ("Raju"), que ninguém viu nem vai ver. Minhas opiniões também não diferem do que vem sendo dito por aí:

MELHOR FILME

Vai ganhar: "O Artista"
Pode ganhar: "Hugo". Pensando melhor, não pode não.
Merece ganhar: "O Artista". De longe, o filme mais original entre os nove indicados. Não chega a ser uma perfeição, mas é inteligente e divertido. Fora que já ganhou o Globo de Ouro, o Spirit Award (o Oscar do cinema independente), o BAFTA (o Oscar britânico) e o César (o César francês - ai de mim se eu disser que é o Oscar deles).

MELHOR FILME

Vai ganhar:
Michel Hazanavicius, para desespero de quem for anunciar o prêmio.
Pode ganhar: Martin Scorsese, para mim o maior diretor em atividade. Mas ganhou há apenas cinco anos.
Merece ganhar: Hazanavicius, pela ousadia de fazer um filme mudo e em preto-branco no século 21.

MELHOR ATOR

Vai/pode ganhar
: A corrida está embolada. George Clooney era tido como o franco favorito, mas aí o simpático Jean Dujardin começou a papar todas: Globo de Ouro, SAG, BAFTA, Spirit. O curioso é que Dujardin perdeu justamente em casa: o César de melhor ator foi para Omar Sy, de "Os Intocáveis". Mesmo assim, aposto nele para logo mais.
Merece ganhar: Não vi os filmes de todos os candidatos. Ainda falta "A Better Life", que acho que não saiu sequer em DVD no Brasil. Muita gente diz que o mexicano Demián Bichir está incrível, mas sinto que suas chances são ínfimas.

MELHOR ATRIZ

Vai ganhar:
Outro páreo duríssimo, mas pressinto que vai dar Viola Davis. É ela quem salva "Histórias Cruzadas" de ser uma comédia pastelão: é a única personagem que escapa da caricatura. Um papel difícil, que essa puta atriz fez magnificamente.
Pode ganhar: Uma tal de Meryl Streep, já ouviu falar?
Merece ganhar: Ganhando Viola ou Meryl, justiça será feita, e injustiça também. E se acontecer o mesmo que rolou em 1988, quando Sigourney Weaver e Glenn Close dividiram tanto os votos que acabou sobrando para a azarona Jodie Foster? Quem sabe o mesmo se passa agora, e dessa vez sobra pra Glenn? Ia amar que ela ganhasse, apesar de ter me decepcionado com "Albert Nobbs".

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Vai ganhar:
Christopher Plummer. O cara só teve sua primeira indicação há dois anos apesar de uma longuíssima folha corrida de serviços prestados ao cinema. Além do mais, faz um gay que sai do armário aos 80 anos de idade: dá para resistir? Acho que não.
Pode ganhar: Plummer era a maior barbada do Oscar até Max Von Sydow descolar uma indicação. E os casos de ambos são praticamente idênticos: lendas vivas, jamais ganharam, todo mundo ama. Como entre as atrizes, aqui também justiça e injustiça serão feitas, não importa o resultado.
Merece ganhar: Sinceramente, não sei. Só vi dois dos cinco finalistas.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Vai ganhar:
Octavia Spencer. Não perdeu nenhum prêmio até agora.
Pode ganhar: Octavia Spencer. Na boa, essa é a categoria mais resovlida de todas.
Merece ganhar: Aqui sim, vi todas, e minha eleita é Janet McTeer, impressionante como lésbica masculina em "Albert Nobbs".

Surpresas sempre podem pintar por aí, e tomara que pintem mesmo. Uma delas será a vitória de Sergio Mendes e Carlinhos Brown: apesar do auê que a imprensa brasileira anda fazendo em torno dos dois, o Oscar de melhor canção deve mesmo ir para o filme dos Muppets. E, de qualquer forma, de que adianta ganhar se nenhuma das duas cocnorrentes será tocada hoje no palco do ex-Kodak Theatre? Academia, tem que ver isso aí.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

CLOSE CONTINUA LONGE

Glenn Close vai ter que esperar mais um pouco. Agora que eu vi "Albert Nobbs", estou convencido que minha atriz favorita não só não vai ganhar o Oscar amanhã: ela não merece ganhar. Glenn está simplesmente esquisita no papel-título deste filme, que ela lutou por 30 anos para conseguir fazer. E não é só o fato de não convencer como homem um único segundo. Glenn optou por fazer de seu Albert uma pessoa tão reprimida, tão afastada de seus próprios sentimentos, que fica difícil torcer pelo personagem. Ela já não é uma atriz que suscita por si mesma o carinho da plateia, o que sua amiga Meryl Streep faz com um pé nas costas. Interpretando alguém tão passivo que chega a ser antipático, vai igualar o recorde de Richard Burton: seis indicações ao Oscar e nenhuma vitória. O fato é que o roteiro também não ajuda, apesar da ideia inicial prometer tanto. A história se passa na Irlanda do século 19: uma sociedade cruel, onde órfãos são abandonados no meio da rua, um homem pode ser sumariamente demitido só porque escorregou em serviço e todo tipo de doença infecciosa está na moda. Há uma explicação bem convincente para como Albert se tornou assim - na verdade ele é completamente assexuado, ou teve seu desenvolvimento interrompido num estágio pré-sexual. O que não é o caso da lésbica interpretada por Janet McTeer, tão machona que chega a dar medo. Janet está indicada ao Oscar de coadjuvante e merecia vencer, pois rouba todas as cenas em que aparece (já a vi no teatro, em Londres, fazendo "God of Carnage" ao lado de Ralph Fiennes). Aliás, elenco, direção de arte, fotografia, figurinos, está tudo lindo de morrer, e "Albert Nobbs" é de fato um bom filme, que segura o interesse do espectador até o fim. Mas não é nenhuma obra-prima, nem deu a Glenn Close o grande papel que ela tanto merecia. Ou até deu, mas ela não soube fazer direito.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

SOU HOMEM COM "H"

Nunca vi rastro de cobra nem couro de lobisomem, nem tampouco a nova revista "H", que já está à venda em algumas bancas de São Paulo. Mas procurei na hora do almoço aqui na região onde eu trabalho e não encontrei: as modas realmente demoram para chegar na Vila Olímpia. A "H" é publicada pela mesma turma que também cuida da "Junior" e do portal MixBrasil, e é voltada para o público gay que já passou dos 30. Talvez por isto devesse se chamar "Sênior", ou quem sabe até mesmo "Cacura Moderna". Este primeiro número está sensacional: tem editorial de moda com as últimas tendências em cinto-pochete e capanga, dicas de novos tons de acaju para disfarçar os cabelos brancos e uma longa matéria que ensina como convencer a sua família que o Edowirson é mesmo seu sobrinho (e, portanto, parente deles também). Agora falando sério: ainda nem vi a revista, mas sei que este no. 1 tem Glauco Matoso, Gilberto Scofield, Laerte (tema da minha de coluna de hoje no F5) e muito mais. Inclusive uma coluna fixa minha, sobre temas variados: este mês, falo sobre o misto de pena e desprezo que devemos ter pelos homofóbicos, porque a luta deles é inglória. Até o final da semana que vem deve estar nas bancas de todo o Brasil.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

VEREDA DA SALVAÇÃO

Tem dois posts antigos aqui no meu blog que volta e meia ainda recebem comentários. Um deles é sobre a Mariah Carey: ousei falar mal da moça, e sua tropa de choque me persegue até hoje. No outro post eu dizia que a maioria das igrejas cristãs teme os gays porque são estruturas patriarcais, e citei os mórmons entre elas - talvez a mais patriarcal de todas. Foi o bastante para, ao longo de quase quatro anos, alguns discípulos de Joseph Smith virem me visitar de vez em quando, deixando palavras doces sobre a minha ignorância e aumentando a audiência do blog. Hoje o mormonismo está mais em voga do que nunca: é o tema de um premiado musical da Broadway, e também a religião do provável candidato republicano às eleições presidenciais dos Estados Unidos, Mitt Romney. Todo candidato a candidato tem sua vida revirada, e não tardou que descobrissem que Romney batizou no rito mórmon a alma de seu falecido sogro. Pelo que consta, a conversão dos defuntos é uma prática comum na Igreja dos Santos dos Últimos Dias - seria uma maneira de conservar as famílias unidas por toda a eternidade. Acontece que o dito cujo não só foi convertido contra sua vontade expressa, obviamente, como também tinha sido ateu convicto durante toda sua vida adulta. O apresentador Bill Maher, que também é ateu, realizou uma divertida cerimônia de "desbatismo" em seu programa de TV. Como os mórmons também são inimigos ferrenhos do casamento igualitário, chegou a vez dos gays entrarem nessa luta pelas almas. Acaba de entrar no ar um site chamado "Todos os Mórmos Mortos Agora São Gays" onde, com um único clique, é possível converter um mórmon morto à homossexualidade. E o melhor de tudo: a conversão não pode ser desfeita! Êita Jesus maravilhoso: afinal, como o proprio site diz, tantos mórmons passaram pela vida terrena sem conhecer os prazeres de queimar a rosca ou colar o velcro, não é mesmo? Pois agora serão gays ou lésbicas por toda a eternidade. É só ter fé!

RATOS DE ARTIFÍCIO

Queria muito ter gostado de "Reis e Ratos", mas não deu. O diretor Mauro Lima, do mega-sucesso "Meu Nome Não é Johnny", desta vez se arriscou num filme experimental: merece todos os elogios, porque, afinal, é assim que o cinema vai para a frente. Só que não rolou: "Reis e Ratos" é uma farsa confusa, apesar dos ótimos atores, cenários primorosos (reaproveitados de "O Bem Amado", mas nem parece) e a participação luxuosa de Bebel Gilberto no final, cantando a linda canção-título de Caetano Veloso. O elenco todo está vários tons acima, e alguns se dão melhor que os outros: Selton Mello faz o mesmo Selton Mello de sempre, mas Rodrigo Santoro virou outra pessoa (com o auxílio de muita maquiagem, espero) e Otávio Muller consegue reproduzir a cadência típica dos dubladores, para soar propositalmente artificial. Aliás, grande parte do elenco de apoio é formada por dubladores profissionais, com vozes manjadas e caras nem tanto. Mas tanto esmero acaba se perdendo numa trama política difícil de ser acompanhada (tem algo a ver com o golpe de 64) e diálogos que acham mais graça de si mesmos do que realmente têm. Um exercício de estilo que está sendo lançado como candidato a blockbuster: aposto que vai dar chabu.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

RASGANDO TUDO

Bicha é foda, né? Eu também tive a mesma reação que muitas de vocês quando vi o #RasgadordeNotas em ação: "nossa, que cara bonito. Tomara que ele pose logo para a "G Magazine". Por isto, não foi surpresa quando, pouco depois, surgiu o boato no Twitter de que o tal Tiago Farias JÁ TERIA posado para a revista. A notícia se espalhou feito fogo de morro acima e foi parar em alguns portais, mas não durou muito tempo. Vândalo e modelo são morenos, mas um exame detalhado dos rostos revela que não são a mesma pessoa. Além, do mais, o Thiago Faria da "G" tem "h" no nome, sem "s" no final. E a prova definitiva: o do Sambódromo não tem os braços tatuados. Os portais derrubaram a fofoca, mas o povo continuou assanhado nas redes, desencavando vídeos tutoriais e dizendo que não admira, bandido e michele é tudo a mesma coisa. Preconceitos à parte, entendo perfeitamente a fantasia. O que se viu na apuração do desfile de SP foi uma explosão de testosterona, um cara aparentemente sozinho pulando grade e tentando mudar o rumo da História, nas barbas da TV e de todo mundo. O sonho de consumo de muita biba por aí, que adoraria ser arrebatada por um gato parrudão, rasgada em mil pedaços e depois enfiada na cueca.

*****

Às seis da tarde de ontem, recebi um telefonema da "Folha" pedindo para eu trocar o texto já enviado para a coluna "No Sofá", que falava em Glenda Kozlowzki e Dr. Hollywood. Corri para a frente do computador, e hoje fui parar na capa do jornal, acima da dobra. Se teve alguém que se deu bem com essa confusão toda provocada pelo Rasgador, fui eu.

(a coluna está aqui, para assinantes da "Folha" e do UOL)

TACO CRU PEGANDO FOGO

Agora vou realizar os desejos do pessoal que cuida do marketing de "O Homem que Mudou o Jogo" e dizer que, no fundo, no fundo, o filme não é sobre beisebol. Não, esse jogo de regras incompreensíveis para nós brasileiros é só a fachada. "Moneyball" (o título original, bem melhor, apesar de traduzível como "granabol") na verdade é um filme sobre... a administração de recursos humanos. Soa chato? Multiplica por dez. É de longe o filme mais chato dessa temporada do Oscar, para o qual recebeu várias indicações. Inclusive para melhor filme, no lugar do muito superior "Os Homens que Não Amavam as Mulheres". E Brad Pitt para melhor ator, no lugar de Leonardo Di Caprio, Michael Fassebender, Michael Shannon, Wagner Moura, o cãozinho Uggie e os 16 equinos que se revezam em "Cavalo de Guerra". Não que Brad não esteja deslumbrante - acho que nunca o vi tão bonito, o cara está envelhecendo hiper bem. E sua atuação não está ruim, não, mas daí até ser apontada como uma das cinco melhores do ano? Parece que a Academia agora é formada só por garotas de 16 anos. "Moneyball" fez um sucesso considerável nos EUA e é baseado em fatos reais, mas quem não for doido por esportes e estatísticas vai ter vontade de quebrar o cinema. Melhor deixar o taco em casa.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O CAFETÃO DE HOLLYWOOD

"Mas quer dizer então que você fez um ménage à trois com Cary Grant e Randolph Scott?", escandalizou-se o repórter da "Entertainment Weekly". "Nos dias de hoje, isto seria equivalente a transar a três com George Clooney e Brad Pitt!" Scotty Bowers nem piscou. "Não fiz UM ménage à trois com eles, querido. Fiz vááários". E essa nem é a história mais picante de "Full Service", a autobiografia da maior michele da era clássica de Hollywood. Scotty também operava como alcoviteiro, arranjando garotos e/ou garotas ao gosto do freguês. Só para Katherine Hepburn foram cerca de 150 mulheres ("nem tantas assim, se você lembrar que foi ao longo de 49 anos"). O proprio Scotty, hoje com 88 anos, tem uma extensa lista de fuck buddies, que inclui até mesmo Vivien Leigh e Edith Piaf ("eu gosto de um pouco de tudo"). Quase nenhum dos astros que ele entrega de bandeja está mais aqui para dar sua versão, mas o fato é que o livro não traz nada que a gente já não suspeitasse há muito tempo. Claro que eu já encomendei na Amazon.

ESTRANHO, HEIN?

Pronto, o carnaval me pegou. E ia pegar mesmo, porque esse lance de ficar zapeando a TV para escrever coluna na "Folha" me fez ver um monte de coisa que normalmente não veria. Como o programa "Esquenta" da Regina Casé, que é mais divertido do que eu pensava. Domingo passado o melhor momento foi a participação de Magary Lord, autor de "Inventando Moda", o maior sucesso deste ano na Bahia. Magary diz que está lançando por aqui o semba, um ritmo angolano, mas seu som lembra mesmo os Novos Baianos de 40 anos atrás. Com um diferencial considerável: sua filha Kalinde, uma estrela nata e já boa compositora. É da garota o breque "estranho, hein?", que quase me deu vontade de vestir um abadá e sair na pipoca. Quase.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

RETORNO À LUA

A dupla francesa Air surgiu em 1998 com "Moon Safari", um disco que até hoje é considerado um marco na música eletrônica. Naquela época, ainda mais do que agora, eletrônica era sinônimo de dance music: o Air tirou o pé do acelerador, eliminou as BPM e criou um clima de viagem espacial. Uma espécie de Pink Floyd sem pompa e mais bem vestido. De lá para cá vieram muitos outros trabalhos, incluindo as inevitáveis trilhas para cinema. E neste começo de 2012, por uma incrível sincronicidade, o Air retorna com a trilha sonora para um filme feito há 110 anos - o pioneiríssimo "Viagem à Lua", que é praticamente um personagem do "Hugo" de Martin Scorsese. O álbum foi lançado numa versão luxo que inclui um DVD com o antigo curta-metragem, mas eu tive a manha de comprar uma edição simplezinha que vem só com o CD. Problema nenhum: São YouTube está aí mesmo para nos salvar, e bastaram alguns cliques para eu encontrar não só o filminho original de Georges Méliès como também o próprio já acoplado à música do Air. O disco por si só é bem agradável de se ouvir, mas claro que ganha outro sentido quando visto junto com as imagens para as quais foi feito. "Viagem à Lua" é um encanto: a direção de arte é assombrosa, os efeitos especiais rudimentares funcionam bem até hoje, e o que dizer das gostosas da Belle Époque, algumas mais cheinhas do que Adele? Mas também impressiona o primitivismo do enquadramento: ainda não havia sido inventado o contra-plano, portanto o que vemos é pouco mais do que teatro filmado, com a câmera fixada num único quadro. De qualquer forma, é emocionante assistir a esse fragmento da pré-história do cinema, tão antigo que nem as cartelas com diálogos já existiam. Vale a pena tirar uns minutinhos do carnaval e embarcar nesse safari lunar de mais de um século atrás.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O GABINETE DAS MARAVILHAS

"A Invenção de Hugo Cabret" é lindo de se ver: uma homenagem elaborada com a mais avançada tencnologia de hoje aos primórdios do cinema, quando os efeitos eram feitos com cortes e cola de farinha de trigo. Também é um filme curiosamente frio. Qualquer aventura do Harry Potter tem mais emoção, e olha que os pontos de partida são parecidos: aqui também temos um órfão de pai e mãe que descobre carregar um segredo. Mas a obsessão do pequeno Hugo em descobrir uma mensagem enviada por seu falecido pai nunca é totalmente satisfeita, apesar do final ultra-feliz obrigatório. E não há nenhum grande conflito que ponha em risco os personagens: o verdadeiro inimigo aqui é o tempo, o esquecimento, a solidão. Dito isto, acho que nem James Cameron usou o 3D melhor que Martin Scorsese, um gênio absoluto. Atores, cenários (quase todos virtuais), figurinos, tudo é de encher os olhos. Geroges Méliès, o pioneiro do cinema aqui retratado, merecia tudo isto e muito mais - e o interessante é que seus filmes primitivérrimos não perdem o encanto quando surgem na tela, mesmo tendo sido rodados cem anos atrás. Mas "Hugo" é mesmo difícil de definir. Não é um filme para crianças, mas o pouco drama que há não o coloca na prateleira dos adultos. "O Artista" também resgata a era do cinema mudo, e na minha opinião merece mais o Oscar. Mas a câmera de Scorsese não tem rivais. Da próxima vez, tomara que ele encontre um roteiro mais afiado.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A AUTO-ARMADILHA REPUBLICANA

O casamento igualitário avançou muitos passos nos Estados Unidos nos últimos tempos. Já são sete os estados que permitem que pessoas do mesmo sexo se casem: o mais recente é Washington, e o próximo periga ser Maryland. Nova Jersey, talvez não tão cedo: apesar do legislativo estadual ter aprovado, a lei do casamento gay foi vetada pelo governador Chris Christie. Para não ficar mal com todo mundo, Christie diz que essa medida deve ser submetida ao voto popular - um absurdo em termos de direitos civis, pois a maioria não pode decidir pelos direitos das minorias. O sujeito parece ter saído do elenco de "Se Beber, Não Case", mas era tido como um republicano moderado e bastante amigo dos homossexuais. Mas ele está de olho na indicação à candidatura de seu partido à presidência nas eleições de 2016. E, como o atual ciclo de primárias tem demonstrado, ganha votos o candidato que se posicionar como o mais anti-gay, anti-aborto e anti-feminista possível. O execrável Rick Santorum vem questionando até mesmo o direito das mulheres aos anticoncepcionais, e suas chances só fazem crescer. Na verdade, tomara que ele ganhe: Obama vai achatá-lo como um rolo compressor. Porque os republicanos estão dominados pelos setores mais retrógrados da sociedade americana, e essa cambada simplesmente não percebe que o país mudou. A população está mais jovem e mais diversa, e portanto mais tolerante em termos de sexo e raça. Nos grandes centros urbanos, o discurso medieval desses brancos do interior não encontra eco. Muitos analistas já perceberam: os republicanos estão construindo uma armadilha para si mesmos ao insistir na "guerra cultural". Tem gente suspeitando que Obama até tem um dedinho nisto, pois ele tem tudo a ganhar se um radical de direita for seu oponente em novembro. Mas a triste verdade é que não é só Christie quem se finge de opositor ao casamento gay para agradar à base. Obama também diz o mesmo, apesar de admitir que sua opinião está "evoluindo". Espero que, uma vez reeleito, ele tenha o culhão de defender a igualdade abertamente.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

CARNAVAL NO SOFÁ

Pela primeira vez em dez anos, vamos passar o tríduo momesco em São Paulo. Meio por preguiça de viajar, meio por não ter para onde ir, meio que o dever me chama (sim, três meios). Vou escrever duas vezes para a coluna "No Sofá" do caderno "Cotidiano" da "Folha de São Paulo", no domingo e na quarta-feira. O assunto será um só: a cobertura do carnaval na TV. Então eu, que em outros anos desfilei na Sapucaí e brindei no camarote da "Caras", dessa vez vou ficar quietinho em casa, com todo o conforto e segurança. Buááá.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ANÉIS SOBRE O BÓSFORO

Pode me cobrar: as Olimpíadas de 2020 serão em Istambul. Hoje o Comitê Olímpico Internacional anunciou as cinco finalistas para cidade-sede dos Jogos pós-cariocas, mas nenhuma das outras quatro têm muita chance. Doha é capital do Qatar e pretende repetir a façanha brasileira, pois também hospedará a Copa de 22, mas duvido que a sheikha chegue para tanto. Baku, a capital do Azerbaijão, devia ficar contente por servir de cenário para o festival Eurovision deste ano. Tóquio e Madri, coitadas, têm enorme sabor de déjà vu. Além do mais, se Roma desistiu da candidatura porque a Itália acha que não tem condições, o que dizer da ainda mais quebrada Espanha? Não vai dar outra: Istambul é a bola da vez. Uma das razões é o decurso de prazo. Assim como o Rio, a antiga Constantinopla já entrou no páreo várias vezes (em 2000, 2004, 2008 e 2012). A outra é a sagração da Turquia como potência emergente. Ganhar a sede das Olimpíadas virou um rito de passagem para países de economia em ascensão. Foi assim com a Coreia e com a China, e assim será com o Brasil. Os seguintes serão os turcos. Um belo tapa na cara da União Europeia, que ensebou o país durante anos e até hoje não o deixou entrar para o clube. Agora é a Turquia quem não quer mais fazer parte daquela porcaria de zona do euro. E depois, quem? Mais um palpite: Tailândia ou Indonésia.

LISÍSTRATA NO MAGHREB

Radu Mihaileanu é um cineasta populista. Os filmes desse romeno radicado na França não têm o menor prurido de apelar para a pieguice. Também costumam ir bem na bilheteria: “Trem da Vida” e “O Concerto” provocaram cachoeiras de lágrimas e fizeram rios de dinheiro. “A Fonte das Mulheres”, apesar do tema aquático, é mais contido, mas bem pouco sutil. Numa aldeia do norte da África, a mulherada resolve que não quer mais ir buscar água numa fonte distante e, para pressionar os homens, fazem greve de sexo (ou “de amor”, como preferem as legendas). A trama clássica de “Lisístrata” até que prometia render um caldo numa sociedade machista como a árabe, mas a mensagem feminista é martelada de uma maneira tão óbvia que Mihaileanu parece estar se dirigindo a uma plateia de criancas de cinco anos (talvez esta seja mesmo a idade mental dos fãs de seus filmes). Fui ver “A Fonte…” porque achei que seria uma maneira barata de passar duas horas no Marrocos na companhia de uma das atrrizes que mais gosto, a palestina Hiam Abbass. Mas ela aparece pouco, e a beleza das locações e figurinos não compensa a banalidade do roteiro. Pelo menos a argelina Byouna me divertiu, no papel de uma senhora com o nominho meigo de “Velho Fuzil”. O resto, pode mandar fuzilar.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

20 DE JULHO DE 1979

A more de Elis Regina tem um ponto em comum com o 11 de setembro: quem era nascido na época lembra exatamente do que estava fazendo quando soube da notícia. Eu estava chegando de carro em Curitiba com mais três amigos, começando uma viagem pelo Sul no verão de 1982. Ouvimos no rádio que ela tinha morrido em São Paulo, e não tivemos outro assunto pelo resto do dia. Mas a verdade é que eu não era dos maiores fãs de Elis: não tinha um único disco seu e só a vi no palco uma vez, em seu show "Saudades do Brasil". Achava que ela tinha um timbre metálico de voz e não entendia muito porque era apontada como uma das três maiores vocalistas do mundo, ao lado de Sarah Vaughn e Barbra Streisand. Nada como três décadas para a gente mudar de ideia. Quanto mais ouço o CD duplo "Um Dia", mais me maravilho com Elis. O disco reúne os dois shows que ela fez em 20 de julho de 1979 no festival de Montreux, um à tarde e outro à noite. Diante de uma plateia sofisticada e livre da obrigação de cantar hits, Elis explode em cena e transforma em jazz vários clássicos da MPB. O melhor de tudo é o final, quando, acompanhada unicamente pelo piano amalucado de Hermeto Paschoal, ela desconstrói "Garota de Ipanema", que até então sempre havia se recusado a cantar. Elis encontra inflexões insuspeitas neste hino não-oficial do Brasil e ainda tira sarro da vozinha pífia de Astrud Gilberto, que lançou a música nos Estados Unidos no começo dos anos 60. Tomara que saia mais coisa comemorando os 30 anos da morte de Elis Regina: vou comprar tudo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

DUJARDIN EM FLOR

Os oráculos da internet ainda apostam que George Clooney vai levar o Oscar de melhor ator, mas a mim não enganam. O vencedor vai ser mesmo Jean Dujardin, o francês que carrega "O Artista" com seu sorrisão e seu sapateado. O sujeito estea repetindo o roteiro de sua compatriota Marion Cotillard e faturando todos os prêmios possíveis: já papou o Globo de Ouro, o SAG, o BAFTA e provavelmente papará o César. Também está seguindo o exemplo de Marion e se fazendo bem visível em Hollywood, que é para os membros da Academia se lembrarem dele na hora da votação. Aí em cima está o vídeo que ele gravou para o site "Funny or Die", e aí embaixo sua participação no "Saturday Night Live" da semana passada (a imagem está "refletida" para não cair do YouTube). Dujardin também roubou as atenções no almoço que a Academia oferece todo ano aos indicados ao Oscar. Ele pode até não vencer o prêmio, mas, como disse a "Entertainment Weekly", é o finalista que está mais se divertindo. E a nós também.

DO INTERESSE DE TODOS

Alguns anos atrás, a revista "Superinteressante" publicou uma matéria sobre homossexualidade entre os animais. A principal foto que ilustrava a reportagem mostrava dois leões machos fazendo sexo anal, fotografados num parque da África do Sul. O mundo quase veio abaixo: a redação recebeu dezenas de cartas de protesto, algumas até com ameaças. Os homofóbicos são assim: defendem seus preconceitos com unhas e dentes, mesmo quando confrontados com a dura realidade. Quero só ver se vai acontecer coisa parecida por causa do número que esta nas bancas. A edição de fevereiro traz uma materia de quatro páginas que desmonta com dados os quatro principais mitos a respeito das crianças adotadas por casais gays:

1) "Os filhos serão gays!"

2) "Eles precisam da figura de um pai e uma mãe!"

3) "As crianças terão problemas psicológicos por causa do preconceito!"

4) "Essas crianças sofrem risco de sofrer abusos sexuais!"

Cada uma dessas lorotas é derrubada com estatísticas e bom senso. Pena que a repórter Carol Castro achou necessário contrapor a história de Teodora, uma menina adotada por um casal do mesmo sexo e que vive perfeitamente feliz e ajustada, a de uma americana que já adulta resolveu denunciar o pai galinha, que trazia namorados para casa e descuidava de sua educação. Esse contraponto vai na direção oposta do objetivo do texto (que pode ser lido aqui). Mas o saldo final é tremendamente positivo. Vamos conferir a repercussão.

(João, eu já tinha visto a revista, mas obrigado pela dica de qualquer jeito)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

LA AYUDA


"As Mulheres do 6o. Andar" foi um grande sucesso de bilheteria na França e está indicado a três Césars: melhor figurino, melhor direção de arte e melhor atriz coadjuvante (Carmen Maura, mais pelo conjunto da obra do que por seu papel aqui). O filme é agradável de se ver, e não mais do que isto: a história de um grupo de criadas espanholas na Paris dos anos 60 podia até ter rendido uma versão francesa de "The Help", mas ficou pela comédia boba de costumes. O elenco está repleto de caras almodovarianas e quase achei que veria uma discussão sobre luta de classes e imigração, ainda que rasa. Mas lá pelas tantas o roteiro se fixa no casinho entre patrão e empregada, sendo que não há um pingo de química entre os atores. Pelo menos o filme é bonito, e é sempre divertido ouvir espanhóis falando francês.

AND YOU PLAYED IT TO THE BEAT

O ex-namorado de Adele é tão canalha que teve a cara-de-pau de processá-la para garfar parte do que ela ganhou em 2011”: afinal, foi o pé que ele deu na bunda dela que a inspirou a escrever e cantar “21”, de longe o disco mais vendido dos últimos tempos. Pois eu se fosse o cara estaria é com medo, porque é óbvio que a moça só não o destroça porque é proibido. Confira a fúria com que ela atacou “Rollin’ in the Deep” na entrega dos Grammys ontem à noite, de onde saiu carregada com seis prêmios. Adele venceu em todas as categorias em que foi indicada – até mesmo em melhor videoclipe, a única que não merecia. Mas a noite foi dela, e também do fantasma de Whitney Houston. No mais, esta edição do Grammy foi morna, que é o que acontece quando você deixa Lady Gaga na plateia. Pelo menos alguns queridinhos meus faturaram seus troféus: Skrillex levou três dos cinco a que concorria, a banda tuareg Tinariwen venceu em world music e Amy Winehouse ganhou um inevitável prêmio póstumo por seu dueto com Tony Bennet. Agora estou mais interessado nos Grammys do ano que vem: será que Madonna emplaca alguma coisa?

domingo, 12 de fevereiro de 2012

AND IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

...will always... Não, não é verdade: nunca gostei de Whitney Houston, e não vai ser agora que vou mudar de ideia. Ela tinha uma voz excepcional, mas um repertório de merda. Acho "The Greatest Love of All" um dos pontos mais baixos de toda a história da música. Também não suportava a caretice que ela emanava em seus primeiros tempos, de princesinha arrogante e mimada. Depois ela mesma se encarregou de destruir essa imagem, e fico pasmo de saber que até no crack a moça era chegada. Mas sua morte me deixou triste sim, porque ninguém merece tanto desperdício de vida e talento. E o pior é que não pegou ninguém desprevenido, como desenvolvo na minha coluna de hoje no F5. Não sinto saudades, mas sim uma pena imensa. E a vontade de fazer alguma coisa: quantas pessoas que a gente conhece que não estão indo pelo mesmo caminho?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O CLÁSSICO E O ICÔNICO

Ver Meryl Streep em "A Dama de Ferro" me fez lembrar dessa matéria publicada no site "The Onion" e assinada pela propria. Só que ao contrário: "The Onion" é um jornal satírico (que inspirou, entre outros, "O Sensacionalista"), e obviamente não é Meryl quem desafia o leitor a dizer o nome de um filme clássico que ela tenha estrelado. Mas o desafio é verdadeiro. Meryl Streep, grande dame do cinema americano, 17 vezes indicada ao Oscar, a atriz mais badalada e premiada dos últimos 30 e tantos anos, não estrelou uma única obra-prima do cinema. Nenhum filme que tenha entrado para a história. Nenhum que vá ser discutido daqui a 50 anos. Como é que pode? A resposta óbvia é que os grandes diretores são quase todos homens e os melhores papéis em seus filmes são quase sempre para homens. Há exceções, claro: "Annie Hall" é um clássico e tem Diane Keaton no papel principal, dirigido por seu (já então) ex-marido Woody Allen. A propria Meryl aparece num dos melhores filmes de Allen, "Manhattan", mas é quase numa ponta, e portanto não conta.

Mas será que é só a misoginia que explica este fenômeno? Meryl já filmou com diretores do calibre de Robert Altman e Mike Nichols, mas nos últimos anos seus filmes são assinados por nomes decididamente do segundo time, como Phyllida Lloyd, Nancy Meyers, John Patrick Stanley e Nora Ephron. Será que é difícil trabalhar com ela? Duvido, Meryl é evidentemente adorada por seus colegas atores. Mas então por que é que um Scorsese não a chama? Porque não está interessado em personagens femininos de meia-idade? Pode ser. E pode ser que eu também esteja sendo injusto com La Streep: ela faz os filmes para os quais é cnvidada, e é impossível saber durante as rodagens se aquilo ali vai ficar realmente bom. No frigir dos ovos, a filmografia de Meryl Streep é ótima, com dezenas de bons filmes. Mas sem nenhuma obra-prima entre eles.

E isto me faz lembrar de outra matéria, uma entrevista que Brad Pitt deu à revista "Entertainment Weekly". O cara tem uma vida maravilhosa: é um astro que fatura milhões de dólares a cada filme, já foi indicado três vezes ao Oscar e é casado com a mulher mais bonita do mundo. Bons papéis não lhe faltam, mas ele reclama de uma coisa: nenhum de seus personagens se tornou icônico. Pensando bem, é verdade. Diga aí um personagem que vem à cabeça quando você pensa em Brad Pitt. Não vale dizer "aquele de "Bastardos Inglórios" - tem que dizer o nome do personagem, e, além do mais, quem se tornou icônico no filme do Tarantino foi o coronel Hans Landa. Nesse ponto Meryl ganha: ela tem pelo menos um personagem icônico em sua imensa galeria, a Miranda Priestley de "O Diabo Veste Prada". Brad não tem, apesar de ter filmado com quae todos os diretores importantes da atualidade e estrelado pencas de sucessos de bilheteria. O ícone, de certa forma, é ele mesmo na vida real.

A DAMA ENFERRUJADA

Margaret Thatcher provavelmente ficaria puta da vida se visse "A Dama de Ferro". A ex-primeira ministra britânica ainda vive, mas está meio fora do ar desde 2003. E é justamente neste período de sua vida, já viúva e meio lelé, que o filme se concentra, o que é injusto com ela e desonesto com o espectador. Injusto porque, concorde-se ou não com suas ideias políticas - e eu não concordo com a maioria - esta mulher teve uma vida excepcional e foi a figura mais influente da Grã-Bretanha na segunda metade do século 20. E desonesto porque só a família sabe se ela passa o tempo divagando sobre as glórias passadas ou conversando com o marido morto. O roteiro tenta humanizá-la, tratá-la como um ser humano comum, mas foi justamente a excepcionalidade de Thatcher que a fez entrar para a história. E, com medo de assustar as plateias leigas, toca muito de leve nos embates políticos. Toda a carreira dela é mostrada em rápidos flashbacks, e o grosso da ação - ou inação - se concentra nos dias de hoje, com uma Thatcher quase patética. É até compreensível, porque os britânicos não nutrem por ela nem um décimo do louvor que os americanos devotam a Ronald Reagan. E isto apesar de ambos serem conservadores, terem tirado seus países de relativos buracos, vencido guerras e ajudado a destruir a União Soviética. Mas Thatcher saiu quase escorraçada do poder, ao insistir na famigerada "poll tax", uma tipo de imposto predial que levaria à miséria algumas famílias mais pobres. O assunto também é tratado com superficialidade no filme de Phyllida Lloyd, e quem vê fica com a impressão que a PM caiu apenas porque era uma chata de galochas. Dito isto, tanto Meryl Streep quanto a maquiagem que a fez envelhecer estão excepcionais, e no fundo talvez seja este o único ponto de "A Dama de Ferro": fazer um "Meryl Streep Show", dar mais uma chance para a atriz no. 1 da América brilhar. Não deve ser por acaso que Streep praticamente não filma com grandes diretores. Ela provavelmente dirige a si mesma em projetos criados especialmente para garantir indicações ao Oscar. O resultado não é ruim, e "A Dama de Ferro" nem de longe é um mau filme com a maior parte da crítica anda dizendo por aí. Prendeu minha atenção do começo ao fim. Mas a filha do merceeiro que chegou a mulher mais poderosa do mundo merecia um épico à sua altura, não uma meditação sobre a velhice.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

DESVIO DE ROTA

Há anos que eu sigo as contas de Twitter da Lei Seca, em São Paulo e no Rio. E nunca usei nenhuma delas para escapar de uma blitz: também faz anos que não vou guiando para a balada, só de táxi. A verdade é que sou totalmente a favor da Lei Seca e acho que ela devia ser aplicada com ainda mais rigor. Mas também acho ridícula essa pretensão de algumas AGUs por aí de questionarem a legalidade desses tuítes. Proibir essa contas é ferir a liberdade de expressão. Além do mais, já há algum tempo que elas evoluíram para verdadeiros serviços de informação sobre o trânsito. Às vezes inundam tanto a minha timeline que até já pensei em me descadastrar. Mas prefiro tomar eu mesmo esta decisão: não gosto do Estado dizendo quem eu posso seguir ou não, por melhores que sejam as intenções.

O TARANTINO DOS DJS

E de repente os Estados Unidos descobriram que existe a música eletrônica. Em outros tempos, jamais que um DJ e produtor iria receber cinco indicações ao Grammy, inclusive na badalada categoria de Revelação do Ano. Mas Skrillex conseguiu tudo isto, e mais: é a estrela de um dos comerciais da cerimônia de entrega dos prêmios, que acontece neste domingo (a outra estrela é uma tal de Adele). Dificilmente ele vencerá os favoritos Bon Iver e Nick Minaj como "best new artist", mas suas chances são enormes em música e álbum eletrônico. E como é que é o som do sujeito? É legal - na verdade, soa exatamente como eu imaginava que alguém chamado Skrillex soaria. Mas não me parece muito diferente do que Mylo fazia em 2004, ou Fatboy Slim em 1999. Na verdade, depois de ouvir algumas faixas dá para perceber que o rapaz repete truques como palavrões e gritos de pavor, e que abusa do tal do drop - a freada brusca nos BPM. Mas tudo isto é novidade para os americanos médios, que apelidaram este nerd baixinho ( Sonny John Moore) de "Tarantino dos DJs", por causa de suas colagens e referências à música pop. Ficou curioso? Visite o site.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

IT'S A CRUEL CRUEL WORLD

Os dois meses que antecedem a entrega do Oscar são repletos de premiações "menores", como os Globos de Ouro e as escolhas de inúmeros grupos de críticos. Também é a época em que as diversas associações de classe apontam seus melhores do ano: semana passada a TV transmitiu a entrega dos prêmios do Screen Actor's Guild, o sindicato dos atores, e praticamente todas as categorias profissionais que lidam com cinema tem seus trofeuzinhos. O mais bonito de todos é o da Visual Effects Society, que homenageia o que talvez seja o primeiro efeito especial da história. A VES acaba de distribuir nada menos do que 24 prêmios, em cinema, televisão e propaganda. A lista completa pode ser conferida aqui, mas garanto que nenhum foi mais glamuroso que este filminho aí de cima, que venceu como "melhor comercial com atores" para o pefume J'Adore da Dior. Ao som de "Heavy Cross" do The Gossip, Charlize Theron tem que encarar a mais dura concorrência possível num desfile: isto sim é uma cruz pesada de se carregar.

TÁ TUDO DOMINADO

Sabe por que não tenho falado de livros aqui no blog? Porque estou imerso há quase dois meses num calhamaço em inglês de mais de 600 páginas, o sensacional "Por que o Ocidente Manda - Por Enquanto" (em tradução livre). O historiador e arqueólogo britânico Ian Morris narra nada menos do que a história da humanidade, desde que os macacos desceram das árvores. E vai traçando paralelos entre as duas pontas da Eurásia, comparando o desenvolvimento social da China com o do Oriente Médio e da Europa a cada ponto dos últimos 15 mil anos. Morris foi acusado de racista por alguns intelectuais, apesar de reiterar a toda hora que as pessoas são sempre as mesmas por toda a parte. O que realmente determina o avanço ou o atraso de um povo é, antes de mais nada, a geografia. E por isto, diz ele, o Ocidente saiu na frente: mais espécies de cereais e anmais possíveis de serem domesticadas e maior facilidade de comunicação entre as diversas regiões graças ao Mar Mediterrâneo. Esta dianteira nem sempre se manteve: o Oriente passou na frente no começo da era cristã, e só foi ultrapassado novamente há pouco mais de 300 anos, com a Revolução Industrial na Inglaterra. Ainda me faltam 200 páginas para terminar, mas já sei que Morris vai dizer que o próximo século pertence à China. Sei não: até acho que os chineses podem se tornar o povo mais rico do planeta, mas daí até mandar, dominar o resto, são outros quinhentos. A China não tem vocação global e não usa o soft power; sua cultura influi pouquíssimo fora de sua esfera imediata. Além do mais, com o domínio de um partido único que cerceia a internet, não há aquele turbilhão de ideias e inovações tecnológicas obrigatório para quem quer ser hegemônico. O livro ainda não saiu em português, mas Morris explica um pouco de suas ideias aqui, numa entrevista publciada na "Veja" em julho do ano passado. Pena que aí ele soe bastante sisudo: seu texto é leve, acessível e muito bem-humorado.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

PRECISAMOS FALAR SOBRE TILDA

Tilda Swinton está demorando a emplacar uma segunda indicação ao Oscar. Ela teve grandes papéis por três anos seguidos e todas as vezes ficou entre as favoritas, para sempre ser esquecida na última hora. Mas até entendo a razão da esnobada dessa vez: "Precisamos Falar Sobre Kevin" é um filme ruim. E isto apesar de Tilda estar ótima como sempre e a diretora Lynne Ramsay fazer um bom trabalho de decupagem, com linguagem moderninha e edição não-linear. O problema está no roteiro, baseado num livro do mesmo nome. A história do garoto psicopata que acaba promovendo uma matança no colégio só faria algum sentido se o personagem de Tilda se chamasse Rosemary: seu filho é uma encarnação do demônio que parece ter vindo ao mundo com o único obejtivo de tornar sua vida um inferno. Mas não há nenhum apelo ao sobrenatural, e o que sobra é uma trama pouquíssimo crível. Até o título é enganoso: em nenhum momento os pais se sentam para conversar sobre o filho, apesar dos inúmeros sinais de desequilíbrio que ele emite desde bebê. Na vida real o moleque iria parar no psicólogo aos dois anos de idade, mas aqui a mãe só se queixa e o pai, um completo idiota, presenteia o monstrinho com nada menos do que um conjunto de arco e flecha. No final, Kevin apronta tantas que nem faz sentido a cidade inteira se voltar contra sua mãe, porque ela é de longe a que mais sofre. Mas o filme quer implicar que ela tem alguma culpa, e o resultado é um amontoado de sangue e gritos que não quer dizer absolutamente nada. Não há nada a conversar sobre Kevin.

"GLEE" PARA ADULTOS

Alguma alma caridosa aí tem um link para baixar o primeiro episódio da série “Smash”? Mas um link limpinho, hein? Não quero ter que me inscrever para receber piadas do Ary Toledo por SMS nem passar meus dados bancários para a máfia russa. “Smash” estreou anteontem na NBC americana com ótima audiência e ótimas críticas. A emissora teve um momento de lucidez e disponibilizou o piloto do programa no YouTube, e também para download grátis na iTunes Store e na Amazon. Para o público dos EUA, evidentemente: aqui do Brasil só dá para baixá-lo da Amazon pagando a fortuna de US$ 2,99 pelo episódio em HD. Acho que vou deixar de ser mão-de-vaca, porque estou lívido de vontade de ver. “Smash” é produzido por Steven Spielberg e conta os bastidores da produção de um musical da Broadway sobre Marilyn Monroe. Tem no elenco Debra Messing (a Grace do Will) e Anjelica Huston, mais glamurosa e apavorante do que nunca. Também promete uma participação especial de Uma Thurman mais para a frente. Dizem que é bárbaro, mas até me surpreendo com o sucesso que teve na estreia. Não sabia que tinha tanta bicha no mundo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

POUCAS E BOAS

Já pensou se a Dilma tivesse cacife para montar um ministério à sua imagem e semelhança? Ela provavelmente convidaria para primeiro-ministro o FHC, por quem tem um crush mal disfarçado. Mas é obrigada a aturar a herança maldtia do governo Lula, e o resultado está aÍ: sete ministros defenestrados por "suspeitas" (aspas minhas) de corrupção. Ainda bem que de vez em quando ela consegue emplacar uma de suas comadres, como Graça Foster na Petrobrás ou a recém-empossada Eleonora Menicucci na Secretaria de Políticas para as Mulheres. Parece que esta não vai perder tempo procurando pelo em ovo, como sua antecessora Iriny Lopes. Eleonora já avisou que é a favor do direito ao aborto e que tem o maior orgulho de sua filha lésbica. Como é bom não ter medo da bancada evangélica e poder dizer o que realmente pensa, não é mesmo, José Serra?

A MELHOR MÃE DO MUNDO?

"Como você reagiria se seu filho fosse gay?" Mesmo entre os pais mais iluminados, ainda é raro encontrar reações que vão além do "seguiria amando igual, mas ficaria preocupado porque ele vai sofrer muito". É claro que há um resquício de homofobia nesta declaração. Do qual nem eu mesmo escapei: se eu tivesse um filho gay, eu também "ficaria preocupado porque ele vai sofrer". Por isto que fiquei admirado quando li este texto, publicado há cinco meses no blog de uma mãe americana que assina apenas como "Amelia" e que escreve para a seção gay do "Huffington Post". Ela conta com humor e desencanação como seu filho de seis anos está "apaixonado" pelo Blaine da série "Glee", o namorado do Kurt, e como quando os dois beijam na TV "eles são como eu". Aposto que a maioria dos pais da face da Terra entraria em pânico neste momento, ligando em seguida para psicólogos e escolas de karatê. Mas Amelia reage numa tão boa que dá vontade de ter nascido filho dela. Ela inclusive sabe que pode ser uma fase, e ameaça até mesmo usar os vídeos que está gravando hoje para "chantagear" o filho na adolescência, quando ele tiver se revelado hétero. Acho que nem a mãe do "garoto-princesa" se saiu melhor.

(Obrigado pela dica, Jayme Gabriel Neto: Deus lhe dê em dobro)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A FINLÂNDIA NÃO QUIS PEKKAR

Pekka Haavisto perdeu o segundo turno da eleição para presidente da Finlândia, com pouco mais de um terço dos votos. Normalmente esta notícia nem seria notícia, já que a Finlândia é um oásis de tranquilidade e a função de presidente em seu regime parlamentarista é parecida com a de um chanceler: o cara cuida das relações exteriores, enquanto quem manda mesmo no país é o primeiro-ministro. Mas Haavisto, que é do partido Verde, ganhou algumas manchetes mundo afora porque é assumidamente gay e vive em parceria civil com o ecuatoriano Antonio Flores. A orientação sexual do candidato sequer foi mencionada pela sóbria imprensa local e suas ideias para a diplomacia não diferiam muito das do conservador Sauli Niinisto, afinal eleito. Mas nunca foi segredo, e pode ter afugentado os eleitores mais velhos. Que pena, não? Ia ser legal ter um país com "primeiro-cavalheiro", ainda mais um latino num país nórdico. Já pensou se ele for parecido com a Gloria do "Modern Family"?

ROMANCE DA EMPREGADA

Vi "The Help" no avião de volta da África do Sul (aqui no blog não preciso usar o título brasileiro, "Histórias Cruzadas", que parece genérico de novela). Achei que era um filme apropriado para depois de uma visita à antiga terra do apartheid. E é, porque a mensagem política é inescapável. Impossível não comparar com a situação no Brasil, como fiz hoje na minha coluna no F5. Mas "The Help" também é nitidamente um filme voltado para a plateia branca e feminina. Todos os personagens principais são mulheres: poucos homens passam da mesma figuração. O livro original foi escrito por uma branca e conta a história de um livro escrito por uma branca, então perde-se um tempo enorme com a narradora Skeeter. Ela é simpática e moderninha e feita pela ótima Emma Stone, mas seus probleminhas simplesmente não vêm ao caso. "The Help" seria um filme realmente grandioso se fosse menos "ensemble", com tantas tramas paralelas, e mais focado no drama de Aibileen e Minny, as empregadas vividas por Viola Davis e Octavia Spencer. As duas já podem ir abrindo espaço em suas prateleiras para os Oscars que fatalmente ganharão: além de estarem ótimas, a Academia não vai resistir a premiar duas negras no mesmo ano. Tadinha da Glenn Close, já deve estar conformada...

GESTO ESPONTÂNEO

Espertinha essa M.I.A., hein? Primeiro ela aproveita para lançar novo vídeo e música no mesmo dia em que surgiu espanando a casa no novo clipe da Madonna, "Give Me All Your Luvin'". "Bad Girls" já tem mais de quatro visualizações no YouTube, mostrando que a estratégia de reapresentar essa cantora do Sri Lanka ao público americano está dando certo. Mas ontem a moça mostrou que realmente não está para brincadeira: com um pequeno gesto, conseguiu ofuscar todos os outros convidados da apresentação da patroa no Super Bowl, além das sensacionais projeções em 3D e toda uma coorte de legionáros romanos. M.I.A. otimizou ao máximo a fração de segundo em que as câmeras estavam sobre ela e mandou dois bilhões de pessoas tomarem no cu. Foi imediatamente parar no topo dos TT do Twitter, com pessoas mais sensíveis se perguntando "mas o que foi que eu fiz para ela? buááá", e outras mais duronas jurando amor eterno. Também está causando um mini-escândalo parecido com o provocado pelo "wardrobe malfunction" de sete anos atrás, quando Justin Timberlake puxou o sutiã de Janet Jackson e exibiu para o mundo o peitinho da irmã de Michael. A rede NBC disse que foi um "gesto espontâneo " de M.I.A. e que ela não o fez durante os ensaios; a NFL criticou a emissora, que não censurou o gesto a tempo; a NBC rebateu alegando que quem produz o show é a NFL, não ela, e assim por diante. A história pode render por mais uns dias, mas M.I.A. - cujo pai lutou pelo derrotado lado tâmil na guerra civil do Sri Lanka - mostrou que não tem nada de "Missing In Action", e sim sangue de guerrilheira.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A CAMPEÃ

Meu, como é que futebol americano consegue ser ainda mais chato que futebol normal? Virei para a ESPN às dez e meia, e o locutor avisou que faltavam pouco mais de quatro minutos de jogo para o intervalo. Só que esses quatro minutos se trasnformaram em quase meia hora, porque a partida era interrompida a cada dez segundos. A coisa simplesmente não deslancha - e depois dizem que os americanos não gostam de "soccer" porque tem pouco gol. Torci um pouco pelos New York Giants, mas só porque eu quero que os New England Patriots percam: a vida do Tom Brady já está boa demais, ele precisa de alguns problemas. Mas claro que não estava interessado em nenhum touchdown - aliás, nem sei qo que é isto.. Como todas as bibas do mundo, eu só estava sintonizado no Super Bowl por causa do show da Madonna. Que foi beyond espetacular. Ela conseguiu superar todas as expectativas, que eram imensas. Como sói acontecer, tratou todos os convidados como empregados: Ceee-Lo, a dupla LMFAO, Aibilene e Minny (a/k/a M.I.A. e Nicki Minaj). Mas parece que quem está mesmo lambendo o chão onde pisa sua Madgestade é uma outra aí, que ainda tem muito a aprender.

ALÔ, SANTOS E REGIÃO

O "Jornal da Orla" circula na Baixada Santista nos finais de semana, e a coluna de Clara Monforte sempre traz uma entrevista com alguém ligado à mídia ou ao entretenimento. Sou o entrevistado desta semana. Val Marchiori está vingada.

POR QUE QUEIMAR MINHA FOGUEIRA?

Acender lareira faz mal para a saúde. A madeira em combustão emite partículas muito mais nocivas do que as do cigarro. Crianças que moram em casas com lareira sofrem maior incidência de asma e problemas respiratórios. No mundo inteiro, a fumaça vinda de fogueiras e fornos a lenha mata cerca de dois milhões de pessoas por ano, mais do que os acidentes de trânsito. Estes dados impressionantes são apresentados neste artigo publicado no portal "Daily Beast". São todos comprovados cientificamente e conhecidos há um bom tempo. Entretanto, pergunta o autor Sam Harris, muita gente prefere não acreditar. Queimar madeira seria "natural", dizem alguns, reforçando a concepção idiota de que tudo que é natural é inofensivo. Ser comido por um leão é natural. Veneno de jararaca também é. Há algo de reconfortante e atávico no ato de acender o fogo. É a primeira coisa que nos separa dos outros animais; é o que nos faz humanos. Morei alguns anos numa casa com lareira, e era uma delícia sair para comprar lenha e nó de pinho, todo um ritual. No Brasil lareira é diversão de rico, mas nos Estados Unidos e na Europa, onde faz muito mais frio do que aqui, elas são um problema de saúde pública. Harris diz que simplesmente não há argumento racional para queimar lenha no Primeiro Mundo. O tal do artigo me deixou encafifado.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

SSSSSHHHHH

Em homenagem ao esplendor mudo e preto-e-branco de "O Artista", vamos ver se eu consigo dizer só com imagens e cartelas o que eu achei do filme?

Sssshhhh.