quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ME MODERNIZA QUE EU TÔ BARROCA

Tive um dia livre em Nova York quatro anos atrás e quase fui ver o barítono brasileiro Paulo Szot em ação. Na época ele encantava plateias e críticos com sua performance na remontagem do musical "South Pacific", pela qual ganhou um prêmio Tony de melhor ator. Mas preferi "Young Frankenstein", e não me arrependi. Ontem finalmente assisti a um recital de Szot, na translumbrante Sala São Paulo. Estava curiosíssimo: ele é o primeiro cantor lírico brasileiro a estourar no Met de Nova York desde a mitológica Bidu Sayão, no começo do século 20. Também é um homem lindo de morrer - e assumidamente gay, by the way. Mas... confesso que não me empolguei muito. A primeira parte do espetáculo era toda de árias de Mahler: OK, o sujeito realmente manda bem. Mas a segunda parte, composta de "standards" americanos e até canções brasileiras, deixou muito a desejar. Szot é afinadérrimo e tem uma voz potentíssima, mas não é exatamente um showman. Falta-lhe alma para convencer no repertório popular; falta-lhe swing, falta-lhe... sexo. Sei que sou um velho pervertido que quer sexo em tudo, mas a versão de Szot para "Love for Sale" - uma das mais insinuantes obras de Cole Porter - tinha a sensualidade de um oratório. Para completar, os arranjos congestionados muitas vezes submergiam a voz do cantor, mesmo ele usando um microfone. Talvez num contexto mais intimista...

De qualquer forma, é sempre um tesão ir à Sala São Paulo. A mistura de arquitetura antiga e moderna faz lembrar o Musée d'Orsay em Paris. O lugar é tão bonito e civilizado que prova que SP, quando quer, pode ser uma das melhores cidades do mundo. E foi na ótima livraria de lá que eu comprei, na hora do intervalo, o novo CD de Cecilia Bartoli, a única cantora lírica cuja carreira eu mais ou menos acompanho. Talvez porque ela seja uma espécie de Lady Gaga da ópera: não tem vergonha de se fantasiar nas capas de seus discos, ainda que via Photoshop. Também adota estratégias de marketing dignas de cantoras pop. "Mission" foi lançado com uma série de webisódios teasers, que faziam mistério quanto ao novo opus da diva. O projeto também inclui um DVD, um romance policial e até mesmo um game num aplicativo para smartphone. Mas vamos ao que interessa: a música é realmente sensacional, com La Bartoli gravando inúmeras árias do compositor barroco Agostino Steffani ainda inéditas em disco. O resultado é arrebatador. E quando é que essa mezzo-soprano vai nos brindar com o ar de sua graça? Confira-a aí embaixo, e diga se não é de enlouquecer.


25 comentários:

  1. Vi o Szot aqui em BH e ele só cantou Mahler e Wagner. Saí apaixonado por ele.. e agora que soube que é gay... vou ali fantasiar um pouco e volto (aloca)

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  2. Assisti o show ontem e não me arrependi. Paulo é um cantor impressionante! Ele provavelmente estava se segurando para manter a convenção mais séria da Sala Sao Paulo. Afinal é a Sala Sinfônica de São Paulo, seria ( acho) até fora de contexto ser muito sensual. Também achei alguns arranjos rebuscados e pesados. Eu me lembro do mix de Cole Porter que fez com um Trio em NY e era muito mais leve, sexy e saboroso. A orquestra de ontem estava muito pesada e sem swing.... afinal são estudantes ( Foi bacana ver que um artista como o Paulo voltar ao Brasil para ajudar a Associacao de criancas com cancer e também levar estudantes de musica para se apresentarem
    numa salsa de prestigio.... mas ele mercia uma orquestra bem melhor....)
    Believe me, ele sabe ser sexy quando quer( pode)...
    Eu o vi em NY no Cafe Carlyle e vi homens e mulheres delirando na platéia....
    O mesmo acontecia em South Pacific....mulheres enlouquecidas...
    Eu vi 2 vezes.....

    Juca

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  3. Bom, o Teatro Municipal do Rio dá de 10 a 0 em termos de arquitetura e elegância (inclusive versus o TM de São Paulo), mas a Sala São Paulo é um bom exemplo de como se converter um prédio nada a ver (e lindo) em uma bela sala, internacionalmente reconhecida. Por outro lado, o TM do Rio, dirigido por uma cineasta (?) com filmes B no currículo acaba ficando às moscas, com muito menos atrações do que poderia ter se fosse levado adiante por gente séria. Isso o deixa menos bonito do que ele realmente é...

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    1. Na boa: acho a Sala São Paulo mais impressionante que o lindo TM do Rio. Além da mistura de moderno e antigo, dá para ver trens passando do hall de entrada...

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    2. Acho que são belezas distintas. Talvez eu tenha exagerado. Se por um lado o estilo do TM-Rio é exagerado, excessivo, over the top (ecletismo do início do século XX), por outro a Sala São Paulo combina aspectos mais simples e clássicos com a modernidade. É, acho que depende do dia. Às vezes acho o over the top aconchegante, às vezes não.

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    3. Sao ambiencias distintas. O Municipal do Rio exala aristocracia, enquanto a arquitetura da Sala Sao Paulo é um ambiente mais emergente. Sem querer entrar na questao dos custos, a Cidade da Musica promete suprir esse apelo emergente no Rio, só que com uma arquitetura mais sofisticada. Já deveria estar inaugurada a anos, se nao fosse as picuinhas políticas.

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  4. A crítica que vc fez ao Paulo Szot é mais ou menos o que sinto quando ouço o Daniel Boaventura cantando, tem vozeirão, é afinado, mas falta tesão!!!

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  5. Obrigado pelo post, me sinto um pouco mais jovem e alienado. Não conheço absolutamente ninguém que foi citado. Nem a Sala Sâo Paulo.

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    1. Ai, Lucas, o mundo é maior que o RS...

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    2. Mas que comentário mais pedante! Credo!
      Provavelmente o Lucas sabe que existe mais que o nosso Rio Grande. Neste post foi comentado de coisas não populares. Aposto que de tudo que foi comentado aqui a mais conhecida do povo em geral é o Daniel Boaventura, e mesmo ele não é tão conhecido assim.
      O TM-Rio é lindo mas a Sala SP é algo, ela meio que está em uma classificação diferente, abriu um precedente no Brasil. Enfim, no conjunto da obra, a Sala SP é melhor que o TM-Rio. É a minha opinião.

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  6. me desculpe comparar Daniel com Paulo é covardia.
    O Daniel é desafinado, tem a voz engolada e é super cafona cantando.
    O Paulo é um cantor maravilhoso e de sucesso no mundo inteiro.
    Gente! O Paulo estava cantando num evento para Cura de Crianças com Câncer!!
    Tudo no seu lugar.... A maioria da platéia tinha mais de 70 anos.

    Vamos deixar de ser tupiniquins e querer ver só sexo em tudo em em todos.
    Quem sabe assim comecemos a enxergar arte e tornarmos cultos....

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  7. A Sala São Paulo realmente é linda, mas de civilizada, não tem nada. Ela vai no sentido totalmente contrário do que vc diz, Tony: um dos melhores exemplos de como São Paulo, quando quer, pode ser uma das piores cidades do mundo. Sua inserção no meio urbano é um oásis para a pequena parcela da população que pode frequentá-la, sobretudo em relação ao local onde se insere, a Cracolândia. Pode-se dizer que essa sala foi um ensaio do que se tornará essa região se o projeto Nova Luz, do Kassab, e o Teatro de Dança, do Alkmin, forem realizados: um espaço gentrificado, onde o dinheiro público é investido como infraestrutura para alimentar a ferocidade do mercado imobiliário.

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  8. Ai, going erudita now, darling?

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    1. Nossa, o mundo tá virando um grande omelete de tanta pão com ovo...

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    2. É mesmo ?

      Tenho certeza que você arrota blinis com caviar, depois de comer seu miojo.

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    3. Até o Eike Batista come miojo. É uma instituição.

      Quem nunca come um miojinho antes de sair à noite?

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    4. Até parece que blinis e caviar são grande coisa. Credo!

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    5. E miojo é muito bom mesmo. Nada como sua praticidade. E custo\benefício.

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    6. João e Bruno foram feitos um para o outro.

      Os parametros são idênticos.

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    7. Risos ... Miojo: Eike Batista come, instituição, prático, custo/benefício ... Risos.

      Esse blog já viu dias melhores.

      Quem é esse João que chama a outra de pão com ovo e depois diz que come miojo ?
      Pão com ovo de espírito e de fato.

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    8. Eu não como Miojo. De-tes-to.

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    9. Quase todo mundo come. Vc não gosta porque não acertou a marca boa ainda...


      Rsrsrsrsrs

      Ai, lembram daquele concurso de chefs de SP cozinhando miojos de luxo? A-DO-REI aquilo...

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  9. Acho melhor o Senhor ler as críticas internacionais ( Jornais, revistas, TV entre outros). Talvez ouvir a opinião de Tom Hanks ,Alec Baldwin, Liza Minelli, Hillary Clinton,Plácido Domingo entre outros.E a opinião de vários maestros!!!!
    Mahler não é para qualquer um!
    Por isso não vale a pena cantar no Brasil, por causa destas críticas sem conhecimento!!!!

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