segunda-feira, 3 de setembro de 2012

TOUCHE PAS À MON POTE

O filme da moda neste momento é o francês "Intocáveis". Todo mundo que viu a-mou, eu inclusive. É bem escrito, bem dirigido, bem editado e muitíssimo bem atuado. O negão-magia Omar Sy mereceu seu César de melhor ator, vencendo inclusive o ganhador do Oscar Jean Dujardin. Não é por menos que "Intocáveis" foi a maior bilheteria em língua não-inglesa do ano passado em todo o mundo. Mas o curioso é que o filme foi mal recebido nos Estados Unidos, e não apenas porque os americanos não topam muito o que é feito fora de Hollywood. A crítica de lá ficou abismada com o tratamento estereotipado recebido pelo personagem que trabalha como enfermeiro para um milionário tetraplégico - ainda mais porque, no caso real onde "Intocáveis" foi inspirado, o tal do enfermeiro não era negro e sim árabe. Saí do cinema me perguntando: o fato de eu ter gostado tanto significa que eu sou racista? O Driss do filme é boa praça, sexy, descolado e excelente dançarino. Diz o que pensa e se espanta com os rapapés da alta burguesia. Será que foi tornado mais simpático justamente para seduzir as plateias brancas? Vou perguntar a algum amigo negro o que ele achou do filme. Porque há também uma leitura oposta possível: que somos todos diferentes porém iguais, só o amor constrói, não toque no meu amigo (o título deste post e slogan da campanha anti-racismo francesa dos anos 80), etc. etc. De qualquer forma, "Intocáveis" é cinemão comercial de primeira qualidade e diversão garantida. Se ainda por cima suscitar debate, melhor.

21 comentários:

  1. Sempre muito oportuno ter um amigo negro. A gente nunca sabe quando vai precisar.

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  2. Sou branco , mas impliquei com o filme desde o trailler.Não assiti , mas me pareceu muito forçado . E engraçado q eu gostei muito do Hasta La Vista. Ou talvez até por isso. Bom , e se eu fosse arabe , e me trocassem por um negro , acho q de imediato , encontraria a troca preconceituosa.

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  3. Esse deve ter sido um dos primeiros filmes que eu vi, assim que cheguei na França, uns 10 meses atras. Impressionante: todo mundo tinha visto ou estava indo ver esse filme, todo mundo tinha adorado o filme, cinemas com sessoes sempre lotadas. Uma coisa meio Titanic, saca?

    Engraçado que as minhas impressões do filme nao foram muito distintas das suas, e num debate no curso de francês sobre o filme, eu as coloquei para a minha professora na época, justamente uma negra, nascida na Africa e que cresceu nesses suburbios mais brabos de Paris. Segundo ela, a) tinha rolado uma esticada/licença poética no perfil do personagem para incluir o Omar Sy: o cara apresentava um programa de humor no Canal+ relativamente popular e era basicamente um rosto conhecido e bastante apreciado pelo grande publico francês como um todo (unanimidade na França é algo tao dificil de rolar...) e b) a historia de um negro morador de uma "cité" (os conjuntos habitacionais dos suburbios populares de Paris) seria muito mais crível/passaria de forma mais eficiente a mensagem que os produtores do filme queriam passar para o grande publico francês do que um argelino. O sistema de valores e preconceitos da sociedade francesa é bem mais complexo do que nos, brasileiros, conseguimos entender de cara... principalmente porque valora muitos fatores (como a forma de se vestir, a forma de falar, o seu nivel educacional) de forma diferente da nossa, ao mesmo tempo que lida com um estrato inferior bem mais diverso. Resumindo, aqui seguramente nao existe um simples "negro e árabe é tudo a mesma merda / enfia o negao que ninguém vai perceber e vambora" - os franceses sao mais sutis, complexos e sensíveis para o simbolismo das coisas do que isso.

    O que talvez possa ajudar a explicar o que você levantou é o contexto do filme: o filme foi feito e lançado aqui ainda durante o governo Sarkozy. Le petit Nicolas e o personagem do François Cluzet possuem muito em comum: representam essa alta burguesia parisiense que mora nos bairros e suburbios ricos do Oeste, altamente refinada, altamente sofisticada, altamente intelectual... e altamente alheia em relação a essa realidade francesa de pobreza e problemas sociais. A geografia, a historia de Paris infelizmente levou a uma seperaçao fisica entre classes trabalhadores e elite que nao rola, por exemplo, em Londres. Mas enquanto Sarkozy representou um caminho de isolaçao social (exatamente um dos motivos pelos quais ele perdeu as eleições: o eleitor xenófobo e reaça de classe média baixa que votou na extrema direita no primeiro turno preferiu a esquerda - que foi bem clara nas criticas ao Front National e que iria abrir as pernas em todos os direitos que a Marine le Pen era contra - à votar no playboy rico e arrogante de Neuilly que comemorou a vitoria nas primeiras eleições num restaurante esnobe da Champs Elysées), o Phillipe do filme acaba tendo que lidar e interagir com essa realidade diferente. O filme é meio que uma tentativa de conciliação dos dois mundos via uma comédia dramática, e por isso que foi tao popular por aqui: fala tanto para a classe média parisiense/francesa branca que nao concebe que uma classe popular que nao seja bem-vestida e que mencione os livros corretos possa ser interessante, como para os estratos inferiores que acham todos os complexos codigos e etiquetas da sociedade francesa sao um bando de bosta e ao fazer isso somente continuam a se isolar.

    Enfim, é a minha opiniao...

    Beijos,
    Fernando.

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    1. Nossa Fernando. Morei em Paris 5 anos e nunca consegui fazer uma definição da sociedade parisiense/francesa tao boa quanto essa. Parabéns.

      Felipe

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    2. você realmente escreve muito bem... mas isso tudo seria certo se o sucesso do filme fosse apenas dentro da França, um sucesso regional com as comparações com a elite ou sarkozy... e não é real... Pois o sucesso é em todos lugares por onde passa...

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    3. O filme foi mal recebido nos Estados Unidos. Mesmo assim, foi o escolhido pela Franca para representá-la no próximo Oscar de filme estrangeiro, e periga mesmo levar uma indicação.

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  4. Todo certinho o filme, feito na medida, mas abusa um pouco do deja vu, a velha história do negro pobre marginal(izado) que ensina o branco rico entediado a viver melhor e ser feliz.
    Há pouco tempo os americanos usaram da mesma fórmula em Um Sonho Possível, com Sandra Bullock, com talvez um mesmo viés político por trás, o de mostrar que somos iguais e que brancos sabem apreciar os "diferentes" (desde que o outro que venha até ele, claro).
    Não demora alguém aqui faz uma história, por exemplo, em que domésticas pobres vão ensinar aos ricos a serem pessoas melhores.
    OH WAIT.

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  5. Por que o filme é racista? É uma história real então não é o filme que é racista, é a vida mesmo.

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  6. Eu já achei o contrário, mas vamos por parte.

    Li uma entrevista com Omar Sy que os diretores só topariam fazer o filme se ele fizesse, pois já haviam trabalhado com ele e queriam trabalhar de novo, então não foi uma troca assim tão calculada, e creio que o filme teria o mesmo peso, caso encontrassem um ator arabe tão carismatico como Omar.

    Já na questão do preconceito, a atitude das pessoas da casa do personagem de Phellipe com Driss não são devido a preconceito, e sim por causa do jeito expansivo do rapaz.

    Em nenhum momento no filme é dita a palavra negro, ou são feitas referências ao racismo, e acho que o fato de fugir do tema causa essa impressão de superficialidade, mas se caísse no tema, o filme não seria acusado de cair no lugar-comum e se utilizar de clichês?

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    1. nós somos preconceituosos.. duvido quem não tenha pensado num negro estar dentro daquele palácio. e ele ter roubado um dos ovos mostrou que estávamos certos... porém com o decorrer da história nos fez mudar de idéia... talvez porque vissemos o quanto o negro fazia bem ao paciente e isso valeria qualquer esforço para os empregados ou mesmo os expectadores em aceitarem essa realidade diferente...outro momento, logo no inicio e no final, aonde os policiais tiram um negro de dentro de um Masserati correndo nas ruas da cidade... eles pegaram pesado, mas se ele não era francês e sim africano, deveriam ter percebido no sotaque. Eu não sei ver a diferença nos dois acentos... mas? Eu fui muito para um lado e o filme para o outro. E isso foi uma das coisas que eu mais gostei...

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  7. Os americanos vivem em uma bolha e se o negão do filme não for militar, estiver armado e morrer, no segundo ato, durante um ataque do primeiro monstro/serial killer do filme, este é racista...

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  8. Tony, quais salas de cinema você costuma frequentar?

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    1. Aqui em SP eu vou muito ao Cine Livraria Cultura, ao Bristol e ao Espaço Itaú da rua Augusta, que estão a "walking distance" da minha casa. Mas "Intocáveis" eu vi no Kinoplex Itaim.

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    2. Obrigado! Vou muito no mesmo (UCI Anália) e acabo não vendo os filmes não tão comerciais!

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  9. o que me intriga é que o filme gerou discussões completamente contrárias à mensagem principal da história e do filme.

    o filme não é sobre um negro/argelino de uma cité, nem sobre um milionário tetraplégico. é sobre o driss e o phillipe, duas pessoas. esta é a beleza do filme. são duas pessoas que não se importam com a cor ou a condição física e econômica do outro e desenvolvem uma grande amizade. eles estão acima de todas estas discussões ideológicas. em nenhum momento a cor de driss é citada, e este não poderia se importar menos com a deficiência física de phillippe.

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    1. ah hã senta lá claudia, já destruiu todo o valor da psicologia e da sociologia, falta destruir a filosofia e ficar só no bla bla bla emo

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  10. Olá Tony.
    Eu sei que sempre posso consultar o seu blog para algumas dúvidas, principalmente as cinematográficas. É o que estou fazendo agora, depois de assistir ontem o filme Intocáveis. Sabe que eu senti no filme uma maratona de comparações... OU seja, sempre me questionando sobre coisas... OU seja, confrontando as minhas idéias sobre as cenas e personagens. Primeiro você imagina um paciente insatisfeito com a condição, infeliz e muito agressivo. Coisa que é completamente do personagem do filme, que chega as vezesa ser até alegre... e ele mesmo diz a um certo momento, que acima da condição limitante dele numa cadeira de roda é pequeno perto da falta que ele sente da mulher dele. O ator é maravilhoso. Aliás ambos... aliás todos os demais também são ótimos. Mas tiveram várias vezes que eu me precipitava para um lado e eles iam para outro. E eu gostei disto... talvez ver que estou errado me faça feliz...

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