sexta-feira, 31 de agosto de 2012

PISQUILINHO

Ele era o menorzinho da ninhada, e o mais vermelhinho também. Não estava nos nossos planos: queríamos ficar com uma fêmea, para "repor" Cafufa, a avó, atropelada no começo daquele ano. Mas ele se impôs. Era o mais meigo, o mais delicado, e tinha um jeito irresistível de ir pendendo para o lado quando fazíamos carinho em suas bochechas, até cair no chão. Minha sogra, como de outras vezes, batizou-o: dizia que era o mais "pisquilinho" de todos, e o nome pegou. Depois criei uma versão mais adulta e oficialmente ele se tornou Pisco, mas o diminutivo surgiu primeiro.

Sei que todo dono diz a mesma coisa, mas ele era realmente um cachorro excepcional. Não tinha o garbo de seu avô Toffee, que se comportava como um de nós: sua atitude foi sempre meio infantil, o que fazia com que as pessoas perguntassem se era um filhote mesmo quando já estava velhinho. Gostava de passear e da vida ao ar livre, mas não herdou os instintos caçadores de sua raça e sua dinastia. Sua mãe Grace, por exemplo, certa vez me trouxe radiante uma presa que ela mesma havia abatido: um morcego. Pisco nunca foi de perseguições, era calminho e até meio medroso.

Mas soube desde cedo o grande segredo da vida. Era viciado em amor. Só queria amar e ser amado. Fazia festa para estranhos, sentia saudades de gente que não conhecia. Ia conosco a toda parte e se comportava feito um lorde. Teve uma vida confortável e repleta de afeto. Gerou três ninhadas, duas delas com a própria mãe - era um autêntico motherfucker. Agora me arrependo de não ter pego nenhum de seus filhotes para mim, porque foi o último de sua família (a terceira geração) que viveu entre nós.

Pisco teve bastante saúde até um mês atrás. Aí começou a pifar: pneumonia, dois ou três AVCs, convulsões. Foi internado duas vezes e começou a tomar uma dezena de remédios. Mas seu coraçãozinho era fraco e ele não resistiu. Morreu esta noite em sua caminha, em casa, ao lado da gente. Que bom que não foi no hospital. Que bom que não precisamos sacrificá-lo. Acho que ele nem percebeu. Dormiu e apagou.

Semana que vem o gato Cauxi vai embora, de volta para minha enteada. A casa vai ficar sem bichos pela primeira vez em mais de 20 anos. Claro que eu quero um novo cachorro, mas não vai ser agora. Meados do ano que vem, quem sabe? Por enquanto o Pisco ainda está muito presente. E ficará para sempre conosco, amém.

32 comentários:

  1. Belo texto. Sublimar: transformar dor em arte.

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  2. Linda despedida.Faz dois anos perdi minha Tuca,já velhinha e doente.Foi resgatada da rua, no momento em que ,filhotinha, a madame saltou do carro e a deixou na esquina.Foram 15 anos de companheirismo.E que saudade nos deixou!Ainda não consegui ter outro.Quem sabe encontre numa esquina?Amei seu texto!

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  3. Eis aí a razão para que depois de adulto eu tenha me recusado a ter um bichinho de estimação, se ler suas palavras me emocionam, recuso-me a escolher sentir essa dor tão perto de mim.

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  4. Meus sentimentos. Todo mundo que tem bichinho sabe como é passar por isso.

    Eu já estou nos 6º e 7º cachorros. Nunca ficamos com 1 só por muito tempo. Também é a primeira vez que mantemos dois da mesma família juntos. É sempre bom esperar passar o luto para pensar em procurar outro. Mas da minha experiência canina com animais de raça, posso dizer o seguinte:
    boxer: uma grande criança babona e meio bruta que só quer amor e lember;
    labrador: um reciclador de tudo que você tem dentro de casa, vai reciclar tudo em brinquedos dele;
    doberman: seu guarda-costas.

    Meu sonho é um São Bernardo e fazer dele meu travesseiro.
    Mas é uma verdade. Cães de raça e maiores costumam viver menos mesmo. Vira-latas são os mais resistentes de todos.

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    1. eu que o diga. tem duas na casa da minha mãe que já passam dos 12... RIP Pisco!

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    2. Eu tenho uma vira lata de 14 anos que tá toda vivona e feliz. Corre e brinca como filhote, o único problema é que tá meio surda.

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  5. Eu lamento. Mas a morte de entes queridos serve para nos lembrar que somos mortais...

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  6. O melhor é saber que a alegria e o afeto que nossos amigos nos proporcionam compensam e superam em muito a dor da perda. E que, justamente por isso, eles deixam marcas que ficarão sempre com a gente e a nossa história.
    Lamento pela perda de vocês, Tony.
    Um abraço carinhoso.

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  7. Tony, como você é querido. Um grande beijo.

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  8. Lamento pela sua perda. Não gosto nem de pensar no que vou sentir quando a minha ser for.

    Abraço.

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  9. Ai Tony sei bem o vazio que é dentro de casa e dentro da alma. Minha gatinha tbm desencarnou faz uma semana. Esta semana quase entrava no supermercado para comprar a comida dela, até lembrar que ela não mas estava entre nos. Ai agente para, o coração doi e vemos que é preciso seguir em frente, que logo o vazio passa. Acho que não passa, suaviza, virá saudade boa e não saudade triste. Tbm como vc fico feliz em nao ter sacrificado ela, embora tenha pensando seriamente devido o sofrimento. Mas não foi preciso, ela dormiu e apagou.
    Lamento muito sua perda.

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  10. Feliz foi ele de ter vcs para amar e amá-lo.

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  11. triste com você... bonita homenagem para ele neste seu post...

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  12. Que o Pisquilinho descance em paz in Dog´s heaven! Te entendo 120% porque tive durante muitos anos um labrador lindo, maravilhoso, companheiro e sem dúvida que era meu melhor amigo, o Bud. Quando sai do Brasil em 2004 ele ficou mais uns 3 anos com minha mãe, depois ela deu ele para minha irmã que por sua parte o entregou sem dó nem piedade para a sogra dela ( isso mesmo, a históra é tristérrima) que depois parace ( nem se sabe ao certo até hoje...)ter entregado o Bud para a família do caseiro. Nunca mais eu encontrei ele, apenas uma vez em 2007 quando ainda morava na HOlanda e estava de féria no Brasil, e estávamos todos no Guarujá. Naquela época ele dormia embaixo da minha cama( naqueles dias poucos em que fiquei com ele) e quando eu acordava ele já estava alerta me esperando. Parece que ele , o Bud, sabia que iria acontecer algo terrível com ele....com certeza ele sabia que eu iria embora, e que ninguém jamais iria amar ou cuidar dele como eu

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  13. Como te disse, o meu se foi há 2 anos, enquanto viajava. Ainda fico triste de não ter me despedido dele (minha mãe só contou quando cheguei, óbvio) e ainda hoje a saudade é grande....

    Faz um mês que o Dani comprou um buldogue francês, acho que foi o tempo certo pra eu me acostumar com a ausência de um e a presença de outro. Mas desde então tenho sonhado muito com o que se foi.

    Gui

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  14. Tony, mando um abraço para vocês. Acho que não posso dizer nada que preste, nesse momento... Só mesmo um abraço.

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  15. Oi Tony. Ao ler seu texto tive vontade de chorar. Você ainda pode se considerar privilegiado,pois teve seu amiguinho ao lado até o fim. Outro dia, em um dos seus posts, você disse ter perdido o sono devido, entre outras coisas, à preocupação com o seu cachorro e eu o compreendi perfeitamente.
    Agora, o que fazer quando a vida nos obriga a tomar uma decisão dolorosa como a de ter de se desfazer de um amigo como esses? Principalmente quando ele está chegando ao fim da vida?
    Estou vivendo um dilema cruel. Por motivo de força maior tive que sair da casa onde morava para um apartamento. Até que a mudança seja totalmente concluída estou acampado na casa do meu pai, com meu cachorro e meu gato. O gato vai comigo mas o cachorro terá de partir já que que é um boxer. Meu pai não pode ficar com ele, pois as demais pessoas que moram na casa não gostam de animais e não o querem por perto. Por enquanto vou levando, mas depois não sei o que fazer. Não quero provocar uma briga em família. É nessas horas que tenho mais raiva das pessoas. Apesar de ter conhecidos que o querem, fico com o coração apertado só de pensar na saudade que ele vai sentir. Temo pela saúde dele. Fico imaginando se irão cuidar dele com o mesmo carinho. Morro de medo que o abandonem na rua.
    Sinto muito, muito mesmo pelo pisco. Desculpe o desabafo.
    Abração.

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  16. Meus sentimentos, Tony.
    RIP, Pisco.

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  17. Meu sentimentos... Só quem tem um cachorro sabe o amor que se cria nessa relação - e é sim equivalente a perda de uma pessoa, embora algumas desmereçam. Eu bem sei o vazio que se abateu quando perdi o meu e até hoje o sinto andar pela casa.

    Abraços.

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  18. meus pêsames... é uma dor que não tem fim. E não pegue outro animalzinho agora, não. Curta essa dor, em memória ao que você perdeu. Quando vc estiver pronto para outro, vc vai saber. E que seja um vira-lata pobre e sem família, não dê dinheiro para a indústria dos criadores de cães de raça.

    bless you!

    ivan

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  19. Lamento meu querido.
    Eles se vão e levam um pedaço de nós. Tanto amor, no entanto, permanece. Sempre.

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  20. Tive a sorte de viver um pouco a presença do Pisco é ele era exatamente como você descreveu mesmo. Aliás, consegui revivê-lo em minhas lembranças a cada nova linha dessa linda (e merecida) homenagem. Puro amor mesmo... lindinho, agora está em paz! Faço coro com os demais: não se apresse em substituí-lo! Um beijo.

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  21. Já perdi a Lady, que ficou conosco de 1971 a 1986... into saudades até hoje, afinal me acompanhou de meus dez anos até os vinte e cinco... Agora tenho a Ully, desde meus quarenta e dois 2003... São eternas crianças que nos amam sem pe dir nada em troca... Puro amor...

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  22. Tony, nada que eu escreva vai suavizar esta perda. Deixo só um forte, imenso abraço.

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  23. É sempre muito, muito triste perder um bichinho que amamos. Esse é o mal de cães e gatos: vivem muito pouco! Mas é uma convivência intensa, não é mesmo? Acho que eles levam a sério aquela coisa de live fast, die young.
    Enfim, sinto muito pelo Pisco, que ele descanse em paz !

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  24. Toda vez que olho o cachorro de minha casa e de forma inexorável ele está sempre olhando fixamente para mim -- e nem sou o primeiro da lista dele, o grude é com meu filho -- eu penso que o sentimento de um dia perde-lo deverá ser igual ao de criança que perde a mãe. Quem se interessa tanto por outra pessoa, se não mãe de filho pequeno? Nem irmão, nem cônjuge bem conjugado.
    Como viverei sem aqueles olhões me perseguindo?
    Aí só nos resta mesmo o consolo de termos correspondido a tanta afeição.

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  25. Gatos, cachorros e outros deuses deveriam viver para sempre.

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  26. :*** amor que fica na nossa alma

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  27. So agora soube do acontecido, Tony!! Pisco era um querido que estava sempre a porta nos recepcionando. Um lorde. UM FOFO!!
    Fico feliz por vcs terem cuidado tao especialmente deste amiguinho!!
    Imaginando a dor, estou aqui em prantos tb. Porem, sei que devo passar tb por tal situação e devemos nos preparar.
    Mas o mais importante em toda essa estória: O AMOR INCONDICIONAL QUE FICA IMPREGNADO PRA SEMPRE EM NOSSA ALMA! E NA DELES TAMBÉM!

    BJS

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  28. Tony:só agora fiquei sabendo. Triste aqui. Conheci Pisco só por fotos e relatos.Viveu e morreu cercado de amor.Agora vida que segue. No futuro pense em adoção.Bjs e muita força.

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  29. Tony:acho que deu problema no meu texto anterior.De qq maneira reafirmo que estou mto triste. Vc sabe que sou cachorreiro e protetor e tenho blog de adoção com a Libanesa. Num futuro qdo quiser um outro cão pense em adotar. São tantos de todos tamanhos,idades e temperamentos.Centenas de blogs e abrigos.Bjs e força.

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