sábado, 31 de março de 2012

O BOM MENINO NÃO FAZ XIXI NA CAMA

Eu estava no maternal em 1964. Ia a um colégio chamado Juca e Chico que ficava pertinho de onde eu morava, na Fonte da Saudade. Era uma casa enorme num terreno maior ainda, que não resistiu à especulação imobiliária: hoje só há prédios no lugar. Eu adorava ir ao colégio, mas naquele dia não teve aula. Foi o primeiro feriado da minha vida. Também achei ótimo ficar casa: ia poder assistir com calma ao meu programa favorito, comandado pelo palhaço Carequinha. Ele era o maior ídolo das criancas da minha geração, e seu hit "O Bom Menino" ("...não faz xixi na cama / o bom menino não bate no irmãozinho") era o "Ai, Se Eu te Pego" daquela época. Mas naquele dia aconteceu algo estranho. Assim como não teve aula, também não teve programa do Carequinha. O que suscitou em minh'alma a primeira grande questão transcendental: PARA QUÊ SERVE NÃO TER AULA, SE TAMBÉM NÃO TEM PROGRAMA DO CAREQUINHA? Meus pais estavam viajando naquele dia e eu fiquei no Rio sob os cuidados de uma tia. Mas eles voltaram dois dias depois, preocupados comigo. Bobagem, meu único problema era a falta de Carequinha. Tempos depois entendi que naquele dia havia acontecido um golpe militar, que hoje completa 48 anos. Cresci sob a ditadura, mas também só me dei conta do que estava acontecendo na adolescência. Hoje os milicos comemoram o aniversário da "revolução" e se jactam de terem derrotado o comunismo internacional. Mas também lançaram o Brasil num longo período autoritário, que terminou com inflação galopante e a desmoralização das Forças Armadas, da qual elas não se recuperaram até hoje. Nem vão se recuperar, se continuarem promovendo atos ridículos como o que aconteceu no Rio anteontem. A ditadura ainda não acertou as contas com o Brasil, mas um dia não vai escapar. Podemos começar pela ausência do Carequinha.

9 comentários:

  1. Eu vivi para pegar a parte soft da ditadura (mas meu LP do Capital Inicial veio com uma proibiçao de radiodifusao da faixa "Veraneio Vascaína") e também para ver o palhaço Carequinha ao vivo na churrascaria Rincao Gaúcho.

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  2. Cresci na ditadura, mas no interior de são paulo, a única coisa relacionada s isto que me lembro, eram os cadernos com hinos e o culto a bandeira toda quarta-feira

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  3. Também me lembro do dia da Gloriosa (sou um ano mais velho do que vc, Tony). Estávamos voltando do dentista (minha mãe, minha irmã e eu) e vimos soldados na rua, no trajeto entre Pompéia e Bom Retiro. Minha irmã e eu ficamos revoltados com a falta dos nossos programas favoritos na tevê e com o rádio que só tinha gente gritando e tocava marchas militares. Não, nós não gostávamos do Carequinha (que era beeem Caretinha), preferíamos a patetice debochada de Arrelia e Pimentinha: "Como vai, como vai, como vai? Muito bem, muito bem, bem, bem!". E achamos um porre aquele feriado chato que não acabava nunca. Somos geração Ditadura Militar, aquela que cantou muito hino antes de entrar na sala de aula, desenhou muito cartaz colorido para comemorar o "milagre brasileiro" e amargou aborrecidas aulas de Educação Moral e Cívica e OSPB. Ma também, enquanto crescíamos, torcemos por Chico, Caetano e Gil nos Festivais da Record, dançamos no domingo tarde com a turma da Jovem Guarda, ouvíamos o primeiro disco dos Mutantes (para horror das visitas que não entendiam como meu pai podia comprar "aquilo" para duas crianças), lemos a antológica entrevista de Leila Diniz no Pasquim (e ficamos decepcionados por que no lugar dos palavrões só tinha "*@˜!&") e não entendíamos direito porque havia receitas e versos dos Lusíadas no lugar das notícias, nas primeiras páginas dos jornais. Pra completar, estudei na USP, conheci o movimento estudantil e vi, mais tarde, vários colegas se dando bem em instituições públicas - e até privadas - praticando o mesmo tipo de comportamento contra o qual protestavam ferozmente nos tempos de escola risonha e franca. O que eu sinto é que a Gloriosa (apelido carinhoso usado pelas esquerdas assim que os milicos anunciaram a tal "abertura lenta e gradual") foi mais um capítulo da longa tradição truculenta e autoritária do nosso país, que deve ter vindo lá na caravela de Martin Afonso de Souza, se estabeleceu nas Capitanias Hereditárias, passando pelo Brasil Colônia e cresceu verdejante - tal qual nossa exuberante flora tropical, salve, salve - com D. João, a Independência, na Casa Grande & Senzala, Império, República Velha e Estado Novo (os Anos JK parecem um feliz acidente no meio disso tudo). Ela pode ter acabado, quando as Forças Armadas desmontaram seu circo, mas a herança autoritária continua firme e forte em nosso dia. E não apenas nos redutos mais evidentes. Basta dar uma folheada na imprensa (ou acessada online) e ouvir a opinião pública. As discussões em blogs e nas redes sociais estão recheadas com esse ranço reacionário (na maioria das vezes disfarçado - muito mal, inclusive - de discurso libertário). Até o movimento gay entra nessa. Faz parte da identidade nacional. Precisamos aprender a lidar com isso. Só assim poderemos no livras dessa sarna de uma vez por todas. Leva tempo e dá trabalho. Mas vai valer a pena.

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  4. Era proibido descabelar o palhaço?

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  5. nada contra , mas o Daniel Arãao , q a galera da esquerda não gosta muito ( ele estava lá ) , e é um Historiador muito bom , escreveu um artigo sobre isso no globo de hj. Resumindo, muita gente se deu bem , os mlicos fizeram papel de pau mandado , e arcaram com o grande ônus dessa revolução. " http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/03/31/a-ditadura-civil-militar-438355.asp"

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  6. O mio babbino caro
    Casca de banana não se joga narua
    É perigoso todo mundo vê
    Alguem pode quebrar a perna
    e esse alguém pode ser você
    E eu vou morrer de rir
    E esse dia há de vir
    Antes do que você pensa

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  7. Eu farei farei 47 em julho próximo e lembro bem das aulas de OSPB e Moral e Cívica. Dos desfiles de 7 de setembro também. Tenho até fotos durante tal desfile onde estou segurando uma tabuleta, em frente a um "pelotão" de alunos, com os dizeres: "Ame-o ou deixei-o". Nessa época eu era um niño de Jesus e nem sabia o que estava acontecendo na caserna. Mas já ouvia Gal cantar "teco, teco, teco... na bola de gude"... que também era o meu viver...

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  8. Tony, eu acho que o Brasil só vai pra frente no dia que última pessoa que viveu sob os domínios da ditadura vestir o pijama de madeira! O que passou, passou, já era. Olhar para o presente e para o futuro, sem esquecer o passado, mas sem remoer! Todo caso, sendo vc, espero que o Brasil demore muito ainda a ir pra frente! ;-) Salve o presente!

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  9. perdoar sim, esquecer jamais!!!

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