domingo, 31 de julho de 2011

OLHO POR OLHO

Majid Mohavedi pediu Ameneh Bahrami em casamento. Ela recusou e ele fez para valer o que todo rejeitado tem vontade: jogou ácido na cara da moça, desfigurando-a e cegando-a de um olho. Como essa história aconteceu no Irã, Majid foi preso e condenado a perder um olho, também com ácido. A "execução" foi marcada para este domingo e transmitida pela TV, mas teve final feliz: no último segundo, Ameneh perdoou seu algoz, que irrompeu num pranto convulso. Não sei o que me perturba mais nesse exemplo de justiça primitiva. A pena bárbara, a transmissão pela TV, é tudo muito horripilante. Mas o pior talvez seja o fato de Ameneh estar longe de ser um caso isolado. É prática comum no Irã que pretendentes preteridos joguem ácido no rosto de suas amadas.

sábado, 30 de julho de 2011

MUQUE DE PEÃO

Hoje aconteceu em Edinburgh, na Escócia, mais um casamento na família real britânica. A noiva foi Zara Phillips, filha da princesa Anne e neta mais velha da rainha Elizabeth II - e que, curiosamente, não ostenta nenhum título de nobreza. Claro que Kate Middleton roubou todos os flashes para si, ainda mais porque quase afrontou a prima do marido a usar um vestido creme. Mas para mim nada consegue ofuscar as toras que Zara tem no lugar dos braços. Assim como a mãe, ela também é campeã de equitação, mas desconfio que não se sairia mal no levantamento de peso.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

DÃGLAS!

I WANT MY GAYS BACK

Depois de ter postado ontem o meu melhor texto "em anos" (ouch), hoje estou de volta à habitual mediocridade. E para este retorno ser ainda mais triunfal, nada melhor que as divas beeshas, pedra fundamental deste blog e da minha vida. Aqui estão os dois primeiros capítulos da vídeo-novela "Madonna's Gaga Nightmare" - outros virão, talvez uns duzentos. Todos escritos, dirigidos e estrelados pelo inglês Charlie Hides. E o público ainda pode votar na diva que quer ver no próximo episódio! Mas faltou alguma?

quinta-feira, 28 de julho de 2011

ENQUANTO ISTO, NO SÉCULO 19

A direção da “Gazeta do Commercio” pediu ao escritor Antonio Manuel de Britto que esfriasse uma das tramas d’“A Morgadinha de Botafogo”, folhetim de sua autoria que vem sendo publicado em capítulos por aquele jornal fluminense. A história de Pancrácia, escrava que recebe carta de alforria de sua proprietária, Don’Anna de Alencar, vem recebendo protestos veementes de alguns leitores. “A Bíblia está repleta de senhores de escravos”, afirma o tenente Josias Macedo Maciel, de Niterói, “o que prova que a escravidão foi criada por Deus Nosso Senhor. Se uma escrava ganha a liberdade, ainda que na ficção, como é que eu vou ensinar aos meus filhos a maneira correta de açoitar os escravos que temos em casa?” Boanerges de Vasconcellos, cafeicultor em Vassouras, acrescenta: “Agora a moda é ser abolicionista. Querem impor a ditadura negra, onde todos terão que ser negros, dançar lundu e comer feijoada. Sinto-me tolhido em meu direito à livre expressão. Não posso mais dizer que essa negrada merece o pelourinho. Ora esta, sou escravocrata, mas não sou preconceituoso”. Ele também negou que sua pregação anti-abolição tenha contribuído para o crescente número de africanos encontrados mortos nos becos e vielas da Corte.

A partir da próxima semana, a personagem Pancrácia terá sua importância diminuída no folhetim. Não aparecerá mais vendendo doces na Rua do Ouvidor, nem embolsando o modesto lucro resultante dessa venda. A “Gazeta do Commercio” quer apaziguar a Liga Conservadora do Brazil, que defende que as pessoas de cor têm um futuro muito mais garantido nas senzalas, onde não precisam se preocupar com o próprio sustento, do que se precisarem trabalhar por conta própria. “Negros libertos são assassinos, ladrões, facínoras, meliantes e canibais”, justifica o Barão de Coary. “Mostrá-los levando vida de branco é um crime contra a natureza e as leis divinas”. O barão também está organizando um movimento de resistência à Princesa Isabel, que, dizem à boca pequena, estaria cogitando a ideia de eliminar a escravatura com uma única canetada. “Este seria um ato ditatorial, contrário às nossas tradições cristãs e à vontade do povo. Mais justo seria se a questão fosse levada a plebiscito. Que consultem aqueles que têm direito a voto – todo os cem mil.”

QUASE A METADE

Os evangélicos já devem estar trombeteando por aí o resultado da pesquisa divulgada hoje pelo Ibope, que aponta que 55% da população brasileira é contra a união estável para casais gays. Vão dizer que a decisão do Supremo foi anti-democrática e pressionar o governo Dilma a promover um plebiscito sobre o assunto. Tolinhos... É só ler os detalhes da pesquisa para perceber que os ventos sopram francamente a nosso favor. Mulheres, jovens, pessoas com mais escolaridade e de renda mais alta, todos contam do nosso lado. Quem é contra? Basicamente, homens mais velhos das regiões mais pobres do país. Como esta gente tende a morrer em breve e o Brasil a ficar mais rico e educado, a surpresa será se essa diferença não diminuir na próxima pesquisa. A maior visibilidade dos homossexuais na mídia e na vida real, as campanhas de conscientização, os avanços internacionais, tudo isto pesa - e muito. Bolsonazis e Malafalhas podem vociferar à vontade. Os brasileiros estão mudando, e muito mais rápido do que eles pensam.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

DATEMI UN MARTELLO

Os ataques homofóbicos vêm crescendo por todo o país. A violência é tamanha que diversas entidades ligadas à luta pelos direitos LGBT se uniram numa grande campanha pela criminalização da homofobia. Mas as autoridades religiosas eram contra, e a proposta foi rejeitada no parlamento do país. Este roteiro tristemente familiar acaba de acontecer na Itália, de longe o pior país da Europa Ocidental para alguém ser gay. Enquanto que vizinhos católicos como Portugal e Espanha já desfrutam do casamento igualitário, os italianos não conseguem escapar do peso brutal de abrigar a sede da Igreja Católica. Lá como cá, os inimigos da criminalização dizem que uma lei dessas é desnecessária e que o código penal já prevê penas severas contra qualquer ato violento. Mas tanto lá como cá também existem leis especiais que protegem as mulheres, os negros, os estrangeiros e por aí afora. Itália e Brasil têm uma enorme dificuldade em enxergar os homossexuais como cidadãos plenos. Lá talvez a situação seja ainda pior do que aqui, e não só porque o Berlusconi continua no poder. Parece que a única saída que muitos italianos enxergam para seus finocchi é o sacerdócio - aí, sim, eles talvez consigam trepar em paz.

...Lo voglio dare in testa
A chi non mi va...

LOS NUEVOS PIMPINELA

Confesso que já gostei mais do Miranda!. Essa banda argentina foi minha favorita entre todas da América Latina, inclusive o Brasil. Mas depois do fenomenal "El Disco de Tu Corazón", de 2007, eles vieram com um trabalho fraquinho em 2009, "Es Imposible". Por "fraquinho" leia-se menos eletrônico e mais roqueiro: não entendo esse complexo de inferioridade que acomete alguns grupos pop, que acham que para amadurecer precisam trocar os teclados pelas guitarras. Agora o Miranda! está prestes a lançar um disco novo, "Magistral", e eu torço muito que faça jus ao título. Mas a primeira música de trabalho, "Ya lo Sabía", não enche meu coraçãozinho de esperança. É bacana e tal e tem um clip malvadamente misógino, mas está longe de ser la ultima galleta del empaque. Enfim, nunca me entusiasmei muito pelos primeiros singles dos discos do Miranda!. É nas faixas "normais" que eles liberam as mariconadas e fazem por merecer o apelido meio pejorativo que dá nome a este post - Pimpinela é uma dupla argentina cafonérrima, parecida com os nossos Jane & Herondy.

(dica do Too-Tsie, que é ainda mais mirandero do que eu)

WORRY, BE UNHAPPY

Todo mundo acha que o Bobby McFerrin é a última bolacha do pacote. Que voz, que swing, que incrível como ele soa como a chuva caindo sobre tonéis num trem descarrilado. Eu também já gostei um dia, mas hoje tenho hó-rreurrr. Ontem vi na TV umas cenas de seu show no Brasil e de lá viria se lá estivesse. Não entendo qual é o prazer de pagar caro para ver um sujeito tirando a esmo sons onomatopaicos da garganta. Percebi que tenho por ele a mesma ojeriza que nutro pelo grupo Stomp. Vejo neles a mesma exibição vazia de virtuosismo, "olha como eu sou foda", etc. etc. Pelo menos McFerrin não canta mais a insuportável "Don't Worry, Be Happy". Nem mesmo ele aguenta aquela que se tornou talvez a canção mais "corporate" de todos os tempos, perfeita para deixar qualquer comercial mais babaca e irritante.

terça-feira, 26 de julho de 2011

NOTA DE FALECIMENTO

Mais uma morte abala o showbiz. O programa "Pânico", em coma induzido já há alguns anos, hoje bateu as botas para valer. Perdeu toda a razão de ser e agora é só um espectro a assombrar a Rede TV!, também moribunda mas por outras razões. O "Pânico" surgiu no rádio como um humorístico, mas aos poucos foi perdendo o humor e se tornando apenas um showcase de bicões, de penetras, de gente que entra em eventos sem ser convidada. Durante um certo tempo até que rendeu umas risadas, mas invadir o funeral de Amy Winehouse de kippá e tudo é um pouco meio muito. Não há nem sombra de graça, nem mesmo admiração pela ousadia da façanha. Só um mau gosto apavorante, uma falta de noção em dose cavalar e um insulto não só à memória da cantora, mas também aos fãs (como eu). É impressionante a capacidade da cultura da sub-celebridade de se rebaixar cada vez mais. Mesmo quando não há mais propósito. Quando o que se tem a ganhar é só repercussão negativa. O "Pânico" morreu de morte morrida, mas vai continuar perambulando por aí. Se encontrar com você, fuja: ele quer devorar o seu cééérebro.

MUITOS FILMES E UM SEGREDO

Por que Steven Sodebergh ainda não é considerado um dos gênios do cinema contemporâneo? O cara já ganhou o Oscar de melhor diretor e a Palma de Ouro do festival de Cannes. Não só dirige como fotografa os próprios filmes. E, em pouco mais de vinte anos de carreira, acumulou uma filmografia extensa, que vai de obras puramente experimentais a arrasa-quarteirões como a série "xxx Homens e um Segredo". Talvez esteja aí a chave do mistério: Sodebergh filma muito, sem parar, e de fato a qualidade oscila um pouco de um título a outro. Nos próximos meses mais dois filmes que levam sua assinatura vão chegar aos cinemas, e pelos trailers dá para chutar que a reputação dele não vai melhorar muito. "Contagion", que chega em setembro, reúne um elenco de estrelas para contar uma história tão manjada que já deve estar em domínio público: a súbita aparição de um vírus mortal, que provoca uma pandemia de proporções globais. Pelo menos Gwyneth Paltrow morre, talvez intoxicada pelo excesso de melodias do Coldplay. Fiquei bem menos curioso para ver "Haywire", que só estreia em janeiro e também reúne um elenco de estrelas. O que se vê aí embaixo parece um thriller bem genérico, mas é bom não subestimar Steven Sodebergh. O cara nunca fez nada que não fosse no mínimo interessante.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

SERÁ QUE ELA VAI CONTINUAR UMA TRADIÇÃO?

Cadê o governo numa hora dessas? Por quê é que não obrigam o Celso Dossi a voltar logo com seu blog? Tá certo, ele não sai do Twitter nem do Facebook, mas era no blog onde refulgia com mais esplendor. Sinto falta de sua resenha pós-Miss Brasil, apesar dele ter twittado durante o programa todo. O Celso finge que acha cafona, mas na verdade a-do-ra um concurso de miss. Aliás, como todo mundo. E se não for cafona, então what’s the point? A versão deste ano até que tentou ser “ágil” e “de bom gosto”, mas felizmente é uma luta inglória. A cafonice sempre consegue se imiscuir. Como no desfile de “trajes típicos” – por que insistem neste nome? “Traje típico” dá a sensação de que todas as cariocas andam na rua cobertas por cartões-postais espelhados e arrastando uma longa cauda com o padrão da calçada de Copacabana, como na fantasia que venceu este quesito. E por que, ó Deus, eram necessários aqueles bailarinos de preto saltitando no palco entre uma miss e outra? O coreógrafo americano precisou dar emprego para seus peguetes nacionais? Fiquei especialmente impressionado com a homogeneidade das candidatas de 2011. Com a exceção de duas louras (uma era do Piauí!), todas as outras eram moças brancas de longos cabelos morenos. Nada de negras, nem mesmo mulatas. Uma ou outra bronzeada, e olhe lá. Um sinal inequívoco de como é a mulher ideal do brasileiro, que sempre foi racista. E, no meio de tantas beldades idênticas, uma se destacou e acabou vencendo. Foi Priscila Machado, Miss Rio Grande do Sul, realmente bonita e com um ar mais elegante que a maioria das rivais. Mal foi coroada ao som de vaias ensurdecedoras (claque da Miss Bahia, que ficou em segundo lugar) e um mini-escândalo estourou na internet. O regulamento impede que as misses sejam casadas, tenham filhos ou tenham posado nuas, e surgiu uma foto de Priscila em topless. O caso já foi abafado e ela manterá a coroa; num mundo mais justo, esta foto contaria pontos. Porque ela está linda e natural: vêem-se sardas, costelas e dois seios originais de fábrica, coisa que ela não exibiu na passarela. Num concurso de beleza onde as concorrentes são meio biônicas, uma imagem como esta – que evidentemente não foi feita para um ensaio erótico – inova muito mais do que qualquer dancinha canhestra. Será que ela vai modificar uma geração?

(Por falar em ensaio erótico, e as fotos do Juliano Cazarré, hein? Fiquei sabendo pelo Muque de Peão e estou passado na farinha de mandioca até agora)

domingo, 24 de julho de 2011

HONESTA BANDIDAGEM

Até que enfim: um filme policial brasileiro que não pretende fazer marketing social. "Assalto ao Banco Central" é um entretenimento honesto e de qualidade. E o melhor de tudo é que não denuncia nada - nada como ver um filme nacional e não sair do cinema se sentir culpado! Parece pouco, mas não é: nem mesmo "Tropa de Elite 2", com seus 11 milhões de ingressos vendidos, escapava de falar das nossas mazelas. O "Assalto", não. É calcado no cinema americano escapista, e não há nada de errado com isto. O roteiro do meu chapa Renê Belmonte (trabalhamos juntos na versão para a TV de "Avassaladoras") ficcionaliza e até glamuriza o assalto verídico acontecido em Fortaleza, em 2005. É enxuto, bem amarrado, com as doses certas de tensão e humor. Marcos Paulo estreia na telona depois de anos dirigindo novelas e se dá bem: o filme tem ritmo e prende a atenção até o fim. E o elenco é excelente e bastante uniforme, com dois grandes destaques. Um para o bem e outro para o mal. O do bem é Vinícius de Oliveira, o garoto de "Central do Brasil", que eu demorei a reconhecer como adulto. Ele está ótimo no papel do gay que é envolvido sem querer num dos grandes crimes de século. A um passo da caricatura, mas totalmente crível. O do mal já era esperado: Eriberto Leão. Alguém me explica o que viram nesse cara? Ele até que é bonitinho, mas bonitos tem por aí de baciada. Aqui consegue estar até pior do que em "Insensato Coração". É maior canastrão brasileiro desde Alberto Roberto. Taí, gostei. De hoje em diante só vou chamá-lo de Eriberto Roberto.

sábado, 23 de julho de 2011

A JANIS DO NOSSO TEMPO

Cumpriu-se a profecia. Amy Winehouse saiu da vida e entrou para a lenda. Sua morte foi mais do que anunciada: havia até sites onde neguinho podia apostar na data fatídica e concorrer a iPods. Acho que ninguém foi pego de surpresa, ainda mais depois dos horríveis shows no Brasil em janeiro deste ano. Mesmo assim, estou arebatado por uma overdose de emoções contraditórias. A primeira delas é a boa e velha culpa. Fomos cruéis com ela. Tiramos sarro sem parar de uma pessoa que precisava de ajuda. Rimos de sua incapacidade de se salvar sozinha, pedimos nosso dinheiro de volta por causa das aparições mal-sucedidas. Cavamos assim nosso lugarzinho no inferno. Por outro lado... aviso não faltou. Em maio deste ano os médicos a alertaram do perigo iminente que corria. Imagino que a família e os amigos tenham tentado de tudo, mas não era ela quem se gabava de não querer ir para o rehab? Talvez tenha sido melhor morrer logo do que passar o resto da vida dando vexame. Amy não era exatamente uma criança, não é possível que não tivesse a menor consciência do que estava fazendo a si mesma. Não, não estou dizendo que ela mereceu o fim que teve. Estou confuso e triste. Até por mim mesmo, que não ouvirei mais nenhum disco novo dela. "Back to Black" é uma obra-prima, bom do começo ao fim, um dos grandes álbuns da década. O movimento neo-soul não começou com ela, mas foi Amy quem pavimentou a estrada para Duffys e Adeles. Todas essas agora ficam menos interessantes, porque levam vidas saudáveis e regradas. Bom para elas - mas também não vão ganhar cine-biografia. Que talvez já exista: é "A Rosa", um ótimo filme de 1979 com Bette Midler, levemente inspirado na vida de Janis Joplin. Muitos anos depois, a história se repete. Fica o alerta, a não-surpresa, o gosto ruim na boca. Lágrimas não se secam sozinhas.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

AI, COMO EU TÔ FODIDA

A Valéria Vasques do "Zorra Total" é um sucesso. Todo mundo a-do-ra, todo mundo morre de rir, todo mundo acha que é a melhor coisa que surgiu na TV desde Hebe Camargo em 1951 (já eu sou mais team Janete). A audiência do programa subiu e o público quer mais, tanto que vem aí um especial de fim de ano. Reclamações? Censura? Claro que não. Porque Valéria é uma fodida. E é assim que o Brasil gosta de seus gays.

Veja bem, não estou criticando o quadro em si. Mas estou sob o impacto do pequeno debate que se desenrolou esta semana aqui no blog, nos comentários do post "Agora Não Vai". Lá eu dizia que o namoro entre os discretos Eduardo e Hugo, personagens da novela "Insensato Coração", havia sido esfriado pela direção da Globo, enquanto que o fechativo Roni continuava liberado para desmunhecar à vontade. Houve gente que defendeu a presença dos bem-comportados na TV, outros que disseram se ver mais representados pelas pintosas. Todo mundo tem um pouco de razão.

Acontece que, na maioria das vezes, as pintosas são retratadas de maneira pejorativa na telinha. A mensagem implícita é que ser gay é ruim. É servir de motivo de chacota, é ser eternamente ridicularizado, é viver sozinho para sempre. Para sempre caçando homem, qualquer homem, e para sempre sendo condenado à marginalidade. Não deixa de ser um retrato fiel: esta é realidade de milhares de gays, travestis e trans pelo país afora. E é perfeitamente assimilada pela "família brasileira", que acha graça nos trejeitos e usa estas figuras para educar/alertar seus filhos com tendências bichísticas.

O que incomoda os conservadores é justamente o gay bem-ajustado. Não, não estou dizendo que ele tenha que ser necessariamente discreto, bem-comportado ou com jeito de hétero. O que deixa os reaças malucos é ver na TV um homossexual feliz, em paz consigo mesmo, aceito pelos amigos e parentes. Porque a mensagem neste caso é outra: é que tudo bem ser gay, não é isto que vai estragar a sua vida.

Percebi isto nos comentários no YouTube ao vídeo "Não Gosto dos Meninos", do qual participei. O objetivo era exatamente mostrar para bibas e sapatinhas jovens, que se sentem isoladas e tristes, que elas não estão sozinhas no mundo. E que muita gente que passou pelos mesmos problemas hoje está aí, feliz e forte. A reação em geral foi ultra-positiva. Mas houve sim, e muita, gente que achou o filme "subversivo", "imoral", "deseducativo".

O que me leva à conclusão de que precisamos sim de modelos positivos gays nos meios de comunicação. Não estou dizendo com cara de HT ou casados e levando vidas caretinhas, nem desprezando as caricaturas como Valéria. Mas sejam eles mauricinhos, quaquás, fanchonas ou ursídeos, o importante é que esses personagens não sejam fodidos. Que passem esperança. E normalidade.

UNBELIEVABLE POWER!

A linha Old Spice trocou de garoto-propaganda. O novo agora é Fabio, modelo italiano que apareceu em centenas de capas de romances para moças nos anos 80. Aaaaaahhhh!

(veja todos os comerciais aqui)

NÃO DÁ PARA DESVER

O primeiro poster do próximo filme do Batman, "The Dark Knight Rises", mal foi lançado esta semana e já está estragado para todo o sempre.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

HEHHHEHHHHEHHHHEHHH

Get More: MTV Shows

Sou jovem outra vez. Os anos 90 estão de volta. E Beavis & Butt-Head também, depois de um hiato de 14 anos. A versão 2.0 da série estreia em outubro na MTV americana. Hehhhehhhhehhheh, eu disse "hiato".

OS BABACAS DO GRINDR

Até que demorou. Alguém finalmente criou um blog só com os perfis mais sem-noção de um dos aplicativos mais populares do iPhone. O Douchebags of Grindr é um desfile de arrogância, presunção e erros de ortografia. Mas tenho lá minhas reservas quando os retratados são chamados de racistas porque manifestam suas preferências sexuais por esta ou aquela cor (geralmente branca). O tesão é politicamente incorreto e acho que ninguém precisa senti-lo por todas as etnias do planeta. Esta é uma boa discussão: fulano trata todo mundo bem, mas é racista se não quiser transar com gente da raça X? Acho que não, mas olhando os babacas do site tendo a mudar de ideia. Visite-o também, mas cuidado: tem anúncios explicitamente pornográficos e talvez não seja seguro para acessar do trabalho.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

DISQUE MURDOCH PARA MATAR

Estou adorando ver Rupert Murdoch cair em desgraça. Ele é um dos grandes vilões do nosso tempo. Uma versão em carne, osso e pelanca do Mr. Burns dos "Simpsons" - que aliás passa no canal Fox, um dos muitos braços de seu império midiático. Sua queda vem acompanhada de um escândalo digno da capa de seus jornais sensacionalistas. E o que são aqueles coadjuvantes? Rebekah Brooks parece o resultado de uma experiência genética com Nicole Kidman, Medusa e o Rei Leão. Deve ter gasto boa parte dos 3 milhões e meio de libras que ganhou ao ser demitida para pagar a fiança quando foi presa logo em seguida. Também me diverti com a esposa chinesa de Murdoch, 32 anos mais nova, que quase deu uma voadora no cara que atirou uma torta de espuma de barbear nas fuças do marido. Murdoch mereceu, porque sempre foi inescrupuloso e anti-ético. Seu dedo podre estragou até os jornais respeitáveis que comprou, como o "Times" de Londres ou o "Wall Street Journal" de Nova York. É provável que saia ileso e tão rico quanto antes dessa barafunda toda. Mas o nome "Murdoch", ou melhor, a marca - que antes era desconhecida do grande público - agora se tornou sinônimo de falcatrua. Well done.

GALERIA POP-UP

Quem estiver em São Paulo não pode perder a exposição "Mosaico Urbano" do NAU.BR (Núcleo de Arte Urbana), montada em quatro contêineres na Av. Paulista, na altura do prédio da FIESP. Tem pintura, fotografia e design, tudo tendo como tema a vida numa cidade grande. Cheguei agora do vernissage e fiquei impressionado com o que vi, e olha que eu sou o rei dos blasés para essas coisas. Vale a pena uma visita, mas tem que ir logo: é só até dia 26, terça que vem.

SARAH PALIN PIORADA

Parece piada, mas a direita americana conseguiu produzir uma figura política ainda mais ridícula do que a ex-governadora do Alaska. Michelle Bachmann é uma deputada republicana pelo estado de Minnesotta que ganhou os holofotes ano passado ao se tornar uma das líderes do Tea Party, o movimento ultra-conservador cujo maior objetivo é melar o governo Obama. Este ano ela se declarou pré-candidata à presidência e vem atraindo muita atração da mídia. É bonitona, carismática, boa oradora. Também é evangélica e inimiga declarada dos gays. Inimiga que se faz de boazinha: seu marido Marcus tem uma “clínica” que oferece “tratamentos de cura” às bichas atormentadas. Felizmente, Michelle tem posições extremistas demais e poucas chances de conseguir a indicação de seu partido. O “fogo amigo” detonado por seus rivais já faz circular na imprensa relatos detalhados de suas terríveis enxaquecas, que a deixariam incapacitada de exercer o cargo de presidente. Também já correm rumores sobre a sexualidade do marido, que seria ele mesmo um “ex-gay”, curado pelo poder da fé. Vamos ver como este caso se desenrola: pode ser instrutivo para quando surgirem candidatos parecidos aqui no Brasil. Que com certeza surgirão, pode apostar.

terça-feira, 19 de julho de 2011

MORDE E ARRANCA

Juro que eu não queria, mas parece que eu tinha mesmo razão quando disse que os ataques contra gays iriam aumentar. Tem muito babaca por aí que não se conforma com a nossa visibilidade e nossas crescentes reivindicações. Mesmo esperando coisas ruins, fiquei horripilado com o caso de São João da Boa Vista. Vai até além da homofobia: os agressores estavam mesmo com muita vontade de bater em alguém, tanto que se afastaram do pai e do filho só para voltar logo depois e quase matá-los de porrada. Mas faço minha a mesma pergunta que o Luciano do Muque de Peão fez em seu blog: esta barbaridade teria a mesma repercussão se as vítimas fossem mesmo um casal gay? Por outro lado, porque os agredidos não querem mostrar o rosto? Quem devia ter medo ou vergonha são os agressores. E sei que é um tremendo clichê dizer que todo homofóbico é uma bicha enrustida, mas arrancar pedaço de orelha com uma mordida não demonstra um desejo incontrolável de tocar o outro com a boca, de prová-lo, de senti-lo dentro de si? Esses bandidos precisam ser presos logo, e ai deles se insistirem na desculpa do lamentável equívoco. Engano de quem morde orelha é rola.

AGORA NÃO VAI

Era bom demais para ser verdade. O namoro entre Hugo e Eduardo, uma das muitas tramas paralelas de "Insensato Coração", vai esfriar. É o que informa uma nota na "Folha" de hoje. Os autores teriam sido chamados pela direção da emissora e várias cenas já gravadas não irão mais ao ar. É uma pena, quase uma desgraça. A saída do armário de um dos personagens estava sendo muito mais valiosa para educar a população do que qualquer cena de beijo. Ia ser interessantíssimo ver a reviravolta de Sueli, que iria vencer os próprios preconceitos por amor ao filho. Mas, pelo jeito, mais uma vez ficou para as calendas. O mais curioso é que a recém-terminada "Ti Ti Ti" também teve um romance entre dois rapazes com um arco dramático parecido, e não sofreu nenhum corte. E o mais revoltante é que o caso entre Hugo e Eduardo, discretos e bem comportados, foi vetado, mas as cenas com o espalhafatoso (e solitário) Roni estão liberadas. Então é isto: mostrar-nos como bobos da corte, tudo bem; mas mostrar-nos como pessoas "normais", em pleno horário nobre? Nunca, jamais. Ah, insensata rede Globo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

NO CINEMA DO ESCURINHO

Enjoei de filme em 3D. Além do desconforto de usar aqueles óculos que parecem ter sido desenhados para uma cabeça de abóbora, fico o tempo todo achando que vou pegar conjuntivite. Mas o pior mesmo é a escuridão. A tela fica sombria, como se eu estivesse de Ray-Ban no cinema. E o 3D em si? Desencano nos primeiros cinco minutos. Só tem graça quando vem um meteoro ou coisa que o valha na direção da plateia. De resto, é só um truque para elevar o preço dos ingressos. Quando estrear o próximo blockbuster, vou ver em 2D. É mais bonito e mais barato.

A PAIXÃO DE HARRY

Não é só piada da Cleycianne: tem mesmo muito evangélico por aí que acha que o Harry Potter é obra do demônio. Tadinhos, burrinhos como sempre e incapazes de ler nas entrelinhas. Levam as aventuras do bruxinho ao pé da letra, como também fazem com a Bíblia. Se fossem um tequinho mais sofisticados, perceberiam que o capítulo final da saga - cuja versão cinematográfica estreou nos cinemas do mundo inteiro neste final de semana - é mais uma variante da paixão de Cristo. E até mais do que "As Crônicas de Narnia", onde o leão Aslan representa a figura do messias. Nesta segunda parte das "Relíquias da Morte", os paralelos com os evangelhos são tão óbvios que o filme poderia ser usado em aulas de catecismo. Os valores que ele prega são mesmo cristãos, como honra, lealdade, coragem e integridade. Já como diversão talvez seja o melhor da série. O ritmo intenso faz o tempo passar rápido, apesar da ausência total de humor. Não há uma única piadinha em mais de duas horas de projeção. São tantas as mortes e tão assustadores os efeitos que é praticamente um filme de terror. Mas é um final grandioso para dez anos de idas ao cinema. Agora Harry Potter já pode ser adorado em altares, ao lado de divindades como Chaplin ou Greta Garbo.

domingo, 17 de julho de 2011

MINHAS FÉRIAS

Hoje terminam as minhas férias. Foram 25 dias muito intensos, divididos entre o Amazonas, o Peru e o Rio. Mas se a professora me pedisse uma redação contando o que fiz neste período, eu iria além da mera descrição das viagens. Porque a essa altura da vida as férias servem para a gente observar nossa vida de longe. Os problemas aparecem do tamanho que realmente têm e percebemos oportunidades que estão bem ali, na nossa cara (hoje estou mais piegas do que de costume). Pois bem: tomei duas decisões. A primeira é aprender italiano. Até que eu me viro bastante bem na língua, e não consegui convencer um casal de Padova que conheci no hotel em Machu Picchu que eu não falo italiano. Queria muito fazer um curso, mas cadê tempo? Então vou aprender como aprendi espanhol: lendo (naquele caso foram as historinhas da Mafalda). Comprei o último livro do Umberto Eco no original, "Il Cimitero di Praga", e andiamo popolo. A outra decisão é mudar de área em propaganda. Faz tempo que penso em trocar a criação pelo planejamento, mas nunca me mexi a respeito. Agora vou me mexer. Vai dar certo? Veremos. Na pior das hipóteses, vou ser um planner frustrado e poliglota, grazie.

sábado, 16 de julho de 2011

NÃO TEM PREÇO

Assistir a mais um comercial de MasterCard: chato pacas. Mas quem disse que este comercial é de MasterCard?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

MAYER-GNÍFICO

Sempre impliquei muito com o José Mayer. Não suporto aquele personagem que ele faz em absolutamente todas as novelas, o sujeito eternamente mal-humorado em cima de quem todas as mulheres se atiram. Mas agora estou besta com o talento do cara. José Mayer está fantástico em "Um Violinista no Telhado", em cartaz no Rio. Canta bem demais e exala uma simpatia rara na tela da TV. O resto do espetáculo também é hiper competente, como tudo que é assinado por Möeller e Botelho. Elenco, cenário, figurino, coreografia, tudo perfeitinho e bem comportado, para não assustar a platéia formada essencialmente por velhinhas. Mas o "Violinista" não requer ousadias. Está lotando o teatro no Rio e vai lotar ainda mais quando for para SP, onde há mais dinheiro para os ingressos salgadíssimos e uma colônia judaica ainda maior.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

CILADA MESMO

Até que a ascensão de Bruno Mazzeo não está sendo tão irresistível assim. "Cilada.com" é uma tropeçada feia. Não nas bilheterias, onde o filme está indo muito bem. Mas na qualidade mesmo: o roteiro não passa de um sketch de TV esticado até perder qualquer resquício de graça, entremeado de piadas grosseiras. Ainda tem a nudez gratuita de Serjão Loroza - um ótimo ator, mas não exatamente a Vênus Negra - que de repente me fez desejar que meu colírio contra o glaucoma perdesse o efeito. E o obrigatório final feliz caretinha, para a classe média sair do cinema contente por ter seus preconceitos confirmados. Como é que um cara que faz algo tão bom como "Junto e Misturado" cai numa dessas? O humor mazzeano não chega a ser trasgressor, mas tem uma observação aguda do cotidiano que transcende a banalidade das situações. Aqui o efeito é contrário. "Cilada.com" se pretende antenado e moderninho, mas é mais antiquado que "A Escolinha do Professor Raimundo".

quarta-feira, 13 de julho de 2011

RIO VOCÊ FOI FEITO PRA MIM

Minha alma canta. Vejo o Rio de Janeiro. Estou morrendo de saudades. Aperte o cinto, vamos chegar. E vamos nós... estacionar (vim de carro).

MINHA PEDRA É A AMETISTA

Esse remake de "O Astro" que estreou ontem está de chorar de dar risada, né não? O texto original de Janete Clair envelheceu demais, mas ninguém se preocupou em ajustá-lo aos dias de hoje. Com razão, porque mesmo naquela época as novelas de Janete já tinham um lado ridículo. Que hoje fica simplesmente absurdo: em que planeta que herdeiras milionárias saem à noite assistir show de mágica? E filho de magnata desapegado dos bens materiais fazia sentido quando os hippies ainda não estavam extintos. Hoje em dia o idealista Márcio Hayalla, que se despiu na festa dos pais para ir contra o sistema, seria internado e ponto. Foi o segundo bumbum da noite, e assim como o primeiro, talvez fosse o de um dublê. Aliás, Rodrigo Lombardi está divertidíssimo como canastrão. Melhor que isto só o make-up exagerado que deixou Carolina Ferraz realmente parecida com Dina Sfat. Ou a trilha sonora vintage, só com sucessos dos anos 70 (apesar da trama agora se passar em 2010). Até nisto pesaram a mão: "You're The First, the Last, My Everything", do Barry White, é de 74, e a primeira vesão da novela foi ao ar entre 77 e 78. Eu lembro, eu estava lá. Só não conto aqui quem matou Salomão Hayalla porque aposto que vão mudar o assassino.

terça-feira, 12 de julho de 2011

ABAIXO A POLIFOBIA

Bem que o cardeal de Nova York avisou: depois da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, daqui a pouco vão querer aprovar a poligamia, o incesto e até o casamento entre humanos e animais. Sábias palavras. Kody Brown, o polígamo mais famoso dos EUA, entrou com um processo contra a lei anti-poligamia do estado de Utah. Ele e suas quatro mulheres estrelam o reality show "Sister Wives", uma versão da vida real da série "Big love" da HBO. Na verdade, ele não quer que seu casamento múltiplo seja reconhecido. Simplesmente não quer ser punido por viver com quatro mulheres ao mesmo tempo - e DEZESSEIS filhos (nem todos são dele). O precedente do processo é uma decisão da Suprema Corte americana que declarou inconstitucionais as leis que proibíam a "sodomia" (que é como os consevradores de lá chamam o sexo anal) em vários estados. O que as pessoas fazem entre quatro paredes não é assunto de ninguém, declararam os juízes, e com toda a razão. Agora a família de Kody quer garantias de que não será perseguida, já que não infringe nenhuma outra lei. Conseguirão? Poligamia é assunto tabu em Utah, que foi povoado por mórmons no século 19. Esses pioneiros eram polígamos, mas abjuraram a prática para serem aceitos pelo resto do país. Mas várias dissidências da religião ainda aceitam um marido com muitas esposas, sempre na semi-clandestinidade. Não topo muito os mórmons e afins por causa de seuas posturas homofóbicas, mas desejo sorte à cruzada da família Brown. Acredito sinceramente que existem múltiplos formatos de estilo de vida, e se for tudo por livre e espontânea vontade de adultos, zuzo bem. Afinal, polifobia mata.

MEU HARRY POTTER

Ontem saiu um trailer mais longo do "Segredo do Unicórnio", menos de dois meses depois do teaser. Pouco a pouco vou me acostumando a ver os personagens do meu roman de formation de um jeito diferente do que eles sempre foram para mim. E não é que eu os tenha imaginado diferentes: as aventuras de Tintin são em quadrinhos, ninguém vai pensar que ele é moreno. Mais difícil vai ser engolir as mudanças que a trama fatalmente vai ter. Mas estou reclamando de barriga cheia. Claro que não vejo a hora de chegar o dia 11 de novembro, quando o filme estreia no Brasil (nos EUA, só na véspera do Natal). Enquanto o mundo inteiro vibra com a chegada do último "Harry Potter", eu tremo pelo repórter belga que domina minha infância até hoje.

CABALLERO DE FINA ESTAMPA

Já estou de volta a SP, mas o Peru ainda não saiu de dentro de mim. Agora preciso aprender como se serve a mazamorra que eu comprei no aeroporto, e escutar os 18 CDs que eu trouxe na bagagem. Sim, você leu direito: 18 CDs físicos. Mais espantoso ainda é que são todos de música peruana, que é tão variada quanto a geografia do país. Aqui no Brasil achamos que no Peru (e em qualquer país andino) só se tocam aquelas flautinhas infames, mas as "antaras" são específicas da região montanhosa. Em Lima se faz um som completamente diferente, com pouca influência indígena e muita negra e espanhola. A grande dama da canção limenha tem um nome tão formidável que parece piada: Chabuca Granda, o equivalente peruano do nosso Tom Jobim. Chabuca nasceu numa família rica mas levou uma vida boêmia e compôs canções que se tornaram clássicas. A mais conhecida, "La Flor de la Canela", é um hino não-oficial do país, mais ou menos como "Garota de Ipanema" é para nós. Mas talvez a única que os brasileiros se lembrem é "Fina Estampa", que foi regravada por Caetano Veloso nos anos 90 e agora vai dar título para a próxima novela das 9 da Globo. A versão original, na "voz y vena" de Chabuca, pode ser baixada daqui. E aqui tem uma versão "chill-out" de "Cardo o Ceniza" assinada pelo produtor Jaime Cuadra, um dos mais importantes do Peru. Esta linda canção foi dedicada por Chabuca a sua amiga chilena Violeta Parra (de "Gracias a la Vida"), que se apaixonara por um caballero que poderia ser seu filho. Amores impossíveis, daqueles que se resolvem com uma garrafa de pisco.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

LARGANDO O PERU

Hoje à noite volto para o Brasil, depois de 10 dias em terras peruanas. Saio daqui empanturrado. Comi bem demais, e bebi também. Meus anfitriões aqui em Lima me levaram para conhecer a nova cebichería do chef Rafael Osterling, o El Mercado, e eu que não gostava de frutos do mar tive que me afundar entre conchas e uñas de cangrejo. Ontem fizemos uma excursão às ruínas do santuário de Pachacamac, logo ao sul da cidade. É um sítio arqueológico imenso, que cobre uma área muito maior que a de Machu Picchu, e grande parte ainda nem foi escavada. Data de muito antes dos incas, mas estes também o usaram. Foram os que construíram a Casa de las Mamaconas, uma espécie de convento onde meninas escolhidas a dedo eram criadas para se casarem com altos dignitários ou, honra máxima, com o deus-sol - sim, as coitadas eram sacrificadas. Depois fomos almoçar no Gloria del Pubelo, a filial campestre de um dos melhores restaurantes de Lima, e foi um novo festim gastronômico. Por fim, me levaram para conhecer a Casa Santillana, um dos projetos arquitetônicos mais premiados do Peru, que fica na Playa Escondida e pertence ao mais velho do casal.

Agora uma palavrinha sobre eles. Oscar e eu conhecemos o mais novo na TW Rio, há uns três anos. Ficamos amigos e mantivemos contato. Nesse meio tempo o rapaz se envolveu com um homem mais velho, casado com mulher e pai de três filhos. A paixão foi tão avassaladora que esse cara desfez o casamento de anos e agora os dois vivem juntos, num lindo apartamento no bairro de San Isidro. Mas claro que não foi fácil, além do mais numa sociedade conservadora como a daqui. O mais supreendente para mim foi que os maiores críticos dos dois foram justamente os amigos gays. Romperam com quase todos, que simplesmente não aceitaram que um casal hétero aparentemente feliz se separasse. Fiquei passado na mantequilla de pisco. Um divórcio desses seria complicado em qualquer lugar do mundo, mas levar uma gelada justamente das bibas? Das supostamente amigas? O Peru é um país incrível e que tem muita coisa para se ver. Mas ainda falta muito, muitíssimo, para deixar de ser uma província antiquada.

domingo, 10 de julho de 2011

CABRITOS POR LA NOCHE

E a noite gay do Peru, hein? Exatamente o que eu esperava: não é grande coisa. Muita gente me falou do Fallen Angel, em Cusco, e lá fomos nós na maior expectativa. Só que fazia muito frio e o lugar estava meio vazio. Comemos muito bem e achamos a decoração engraçadinha, mas os excessos e loucuras ficaram só na imaginação. Aqui em Lima as coisas melhoraram - um pouco. Na sexta me levaram à festa La Gorda, que já mudou de endereço algumas vezes e agora acontece numa boate chamada Elemental. A música é eletrônica sem vocais, o que, dependendo do gosto do ouvinte, pode soar como sublime e abstrata ou aborrecida e genérica. O público é surpreendentemente bonito, mas não havia muito. Fazia muito frio, etc. Ontem foi a vez de conhecer O grande boliche limenho, o Lola. Grande para cá, porque o espaço em si não é muito maior que o Vermont em SP ou o Galleria no Rio. Tem duas pistas: na de baixo, só Britney, Rihanna e afins, muitas vezes nas versões originais. A de cima só toca música latina e é mais divertida e muito mais cheia. E o povo? O mesmo do La Gorda. Reconheci muitas caras da noite anterior. Enfim, Lima nao chega aos pés do que temos no Brasil ou em Buenos Aires. Mas os cabritos - um sinônimo local para gay - são invariavelmente simpáticos, e não sossegam enquanto você não experimentar todos os sabores possíveis de pisco sour.

sábado, 9 de julho de 2011

VERGUENZA AJENA


Levanta o secador que lá vem um chisme, uma fofoca que está abalando o Peru e arredores. Lembra do Jaime Bayly? Um escritor e apresentador de TV peruano assumidamente bissexual, que se separou da mulher para viver com o jornalista argentino Luis Corbacho. Conheci os dois há alguns anos, através de um amigo em comum. Pois bem. Ano passado, um belo dia, Luis chegou ao apartamento que os dois dividiam em Buenos Aires, e o porteiro não o deixou subir. Bayly o trocou sem a menor cerimonia pela jornalista Silvia Nuñez, com quem acabou de ter uma filha. Babado e confusão suficientes, mas a história não para por aí. Corbacho resolveu atacar o ex-novio em público, chamando-o de wanton pasiva nos jornais, e a rival de panza podrida e enana hobbit. Também está questionando a paternidade do bebê recém-nascido. Tudo bem que a atual jogou as coisas do ex no meio da rua, mas perder a classe é mais grave do que perder a honra. Essa turma transforma em livro tudo o que lhes acontece na vida, então aguardemos que vem livro novo por aí. Provavelmente com muito, mas muito mais do que gostaríamos de saber.

LEVANTANDO OS BRACINHOS

O movimento pelos direitos civis, que equiparou os direitos de negros e brancos nos Estados Unidos, não passou pelo voto popular. Foi a Suprema Corte quem determinou que as leis racistas dos estados do sul eram inconstitucionais, com total apoio do então presidente Johnson. Que sabia que estava cometendo suicídio politico - tanto que não se candidatou à reeleição. Será que Dilma, provavelmente uma presidente-tampão, terá essa coragem? Tomara. Mas temo que ela acabe cedendo à pressão das bancadas religiosas. Esta semana um deputado evangélico propôs um plebiscito sobre a união civil gay (nem se fala ainda em casamento). O "povo" teria a palavra definitiva sobre o assunto. Parece super-democrático, mas não é. Simplesmente porque não se submetem os direitos de uma minoria à vontade da maioria. Já disse mas vou repetir: democracia é muito mais do que só levantar os bracinhos. Ela requer todo um sistema de garantias e contra-pesos, para que nenhum grupo se imponha sobre os outros - nem mesmo a maioria absoluta. Mas no Brasil muita gente não tem a menor cultura política, tanto que elege Sarneys e Tiriricas, e acaba comprando a definição mais tosca possível do que seja uma sociedade democrática. Já pensou no horror que seria a campanha durante o tal do plebiscito, com os pastores mais rubicundos vociferando o fogo do inferno em pleno horário nobre? Deus nos livre e guarde. Não quero que a maioria decida o que eu devo ou não fazer na minha vida pessoal. Porque o que estaria em jogo seria muito mais do que os meros direitos de um casal gay que vive junto. Seria a própria existência da homossexualidade, que correria o risco de ser posta fora da lei pela vontade da sagrada maioria.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

REPETE AÍ O NOME DA REVISTA?

Saiu hoje no portal "ACapa" a entrevista que dei a Silvetty Montilla antes de sair de férias. Pena que só fui cortar o cabelo dois dias depois: aí no vídeo pareço o Paulie da "Família Soprano". Já a gordura só vai aumentar, por causa da huancaína.

DONDE COMPRAR ES UN PLACER

Além de fazer todos os passeios óbvios e outros nem tanto, há duas maneiras que eu adoro para conhecer um país. Uma é assistindo TV: o estilo das novelas, o tom dos telejornais e principalmente a qualidade dos comerciais dizem muito sobre o caráter de um povo. A outra maneira é ir ao supermercado. Gosto de ver as verduras esquisitas, as marcas desconhecidas, os refrigerantes de sabores absurdos. E acabo comprando muita coisa. Certa vez até me pararam no aeroporto de Montevidéu, por causa de uns pós estranhos na minha bagagem. Eram frascos de sal con yerbas e sal con especias. Hoje me enfiei numa loja da cadeia Wong, uma das maiores do Peru. Fiquei tentado, mas resisti bravamente à Inka Kola. A "embajadora del Perú" é doce demais, tem gosto de bala barata do interior. Fora que garrafas pet ocupam um espaco precioso na mala. Mas na seção de salgadinhos eu fui à forra. Comprei chips de camote (batata doce), papas con ají y limón e chips de maíz morada. Também levei um pacote de huancaína, um molho típico que eu jurava que era doce. Mas não é: é de queijo e pimenta, e se usa principalmente sobre batatas assadas. Só espero que não me parem na alfândega. Vai ser difícil explicar aquela pasta amarelenta.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

100 AÑOS DE PROSTITUCIÓN

Hoje se comemoram aqui no Peru os 100 anos da "descoberta científica" de Machu Picchu. Na verdade, o arqueólogo americano Hiram Bingham chegou às ruínas no dia 28 de julho de 1911, mas o governo resolveu fazer a festa no dia 7 para coincidir com o 4o. aniversário da inclusão da cidade inca na seleta lista das novas 7 Maravilhas do Mundo (da qual nosso Cristo Redentor também faz parte). Anteontem vimos centenas de técnicos instalando luzes e outros equipamentos em Machu Picchu, e à noite vimos um teste de iluminação que nos deixou boquiabertos. Cusco também está engalanada, com um palco montado em frente à catedral, trânsito interrompido em várias ruas e até mesmo uma contra-manifestação. Um partido oposicionista resolveu protestar contra os "100 anos de prostitución". Querem acabar com o turismo e voltar à agricultura de subsistência do tempo dos incas. Deixa eles: prefiro celebrar com esta cena de "Edhiran"' o mais caro filme de Bollywood de todos os tempos. É uma ficção-científica sobre um robô, o que obviamente requer um grande número musical gravado no mais famoso cartão-postal do Peru. O detalhe que tudo justifica : a música se chama "Kilimanjaro", o nome do pico mais alto da... África.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

AIN'T NO MOUNTAIN HIGH ENOUGH

Já passei da idade de fazer a Trilha Inca, mas mesmo se ainda tivesse o vigor dos meus 49 anos eu não iria fazê-la. Não possuo um único osso em todo o corpo que tenha vontade de caminhar por quatro dias, nem de dormir em barraca de camping. Mesmo assim, hoje cumpri uma façanha física que me deixou todo gabola. Oscar e eu subimos a montanha Machu Picchu, que fica em frente às ruínas. Não, não é aquela que aparece nas fotos clássicas; esta se chama Wayna Picchu, ou montanha nova. A "nossa", a velha, fica do outro lado e é muito mais alta. Para chegar lá no alto, tivemos que acordar às cinco e meia da manhã. Uma hora depois já estávamos na Casa do Guardião, um mirante privilegiado dentro do parque arqueológico, para ver os primeiros raios do sol iluminando a cidade sagrada. Às sete e meia começamos a subida. Duas horas depois estávamos quase mortos mas lá no topo, onde me enrolei na sugestiva bandeira de Cusco. Várias vezes pensamos em desistir. O calor crescente, os degraus dificílimos e principalmente o despenhadeiro ao nosso lado colocavam em dúvida nossa real vontade de subir. Mas a partir de certo ponto virou questão pessoal. Precisávamos nos superar. E conseguimos. Agora posso comer mousse de lúcuma sem culpa.

terça-feira, 5 de julho de 2011

PRISIONEIROS DO SOL

Hoje chegamos a Machu Picchu, depois de uma hora e meia de van até a pequena Ollantaytambo e mais uma hora de meia de trem Vistadome até a ainda menor Aguas Calientes. É impressionante ver como a paisagem fria lá do alto de repente despenca num precipício até o Vale Sagrado, onde nos espera o Vilcamayo, o rio sagrado dos incas - hoje mais conhecido como Urubamba, ou, em bom brasileiro, o Amazonas, que corre ligeiro ainda perto de sua fonte. Chegando nas ruínas, uma surpresa. Estavam vazias. Caminhando entre as pedras milenares, de repente fomos presos por uns índios fantasiados. No começo achei que era pegadinha, mas comecei a desconfiar que havia algo errado quando nos amarraram a postes de madeira sobre montes de palha. Aí entraram vários músicos tocando tambores e flautas, e um coral de virgens dedicadas a Inti, o deus-sol. Um sacerdote falou umas palavras em quechua, e entendi apenas que havíamos violado a harmonia vigente entre o céu e o mundo subterrâneo, e portanto iríamos arder numa fogueira para aplacar a ira do astro. Felizmente eu me lembrei que havia um eclipse do sol previsto para o horário exato em que nossa pira seria acesa, então invoquei Pachacamac e de repente o mundo se fez treva. Os índios correram esbaforidos. Livres das amarras, fomos relaxar na jacuzzi do hotel Sanctuary Lodge na companhia de uma família de colombianos radicados em Miami. Enquanto saboreávamos pisco sours, de repente vimos o casario de Machu Picchu mudar de cor. Era um teste de luz para o programa que será transmitido ao vivo depois de amanhã em comemoração ao centenário da descoberta da cidade pelo explorador Hiram Bingham. Vimos o monte Huayna Picchu ser iluminado à noite pela primeira vez na história. Dá para ser mais sortudo do que isto? Nunca me senti tão bilionário. Sentado num jacuzzi, tomando pisco sour e vendo Machu Picchu mudar de cor. Nem precisava fantasiar. Minha vida já é fabulosa o suficiente.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O UMBIGO DO MUNDO

É este o significado da palavra "Qosqo" em quechua. E não é que eu seja impressionável, mas a antiga capital do império inca tem mesmo uma energia muito forte. Hoje visitamos as ruínas de Sacsahuayman e Qenqo, que ficam nas montanhas que rodeiam a cidade, e depois o Qorichanka, o antigo Templo do Sol, convertido em convento pelos espanhóis. Tudo isto de barriga vazia: não almoçamos, por medo de passar mal. O resultado foi que quando o tour terminou, às 5 da tarde, estávamos varados de fome. Ainda tivemos que esperar até as 6 e meia para nos acabarmos no Cicciolina, tido como o melhor restaurante local. Foi lá que acrescentei mais um animalzinho fofo e indefeso dos Andes à dieta. Comemos filé de alpaca, aquela lhama cabeluda, e achamos a carne deliciosa. Depois, só uma voltinha na praça e fomos cair duros no hotel. Cusco tem fama de ter a melhor noite gay do Peru, mas hoje não temos forças. O soroche nos derrubou.

SOROCHE

"Não jantem esta noite. Não bebam álcool. Comam leve no café de amanhã. Nada de gordura, nada de iogurte, nada de comidas pesadas. Nada que dê gases. Ande devagar. Respire fundo. Tome pílulas contra o soroche". Nossa guia em Lima conseguiu nos aterrorizar. Já devem ter acontecido centenas de casos de turistas incautos acometidos pelo soroche ao chegar em Cusco. Soroche, ou mal de montanha, é o enjôo que costuma afligir o povo que não está acostumado à altura. Cusco está entre 3.600 e 4.000 mil metros aima do nível do mar, muito mais alta que qualquer cidade brasileira. Seguimos os conselhos à risca. Tomamos o tal remedinho assim que aterrissamos, e não é que ele dá uma ondinha? Mesmo medicados, ainda assim nos sentíamos como se tivéssemos desembarcado num planeta com mais gravidade do que a Terra. Tudo parece mais pesado, e qualquer escadinha já deixa a gente ofegante. Ainda bem que no lobby do hotel pode-se tomar mate de coca à vontade. Depois, na praça da catedral, compramos balas de coca. Acho que vou levar para o Brasil para vender nas boates.

SUSPIRO DE LIMEÑA

Nós brasileiros precisamos parar com essa mania de achar que Buenos Aires é a única cidade que presta na América do Sul. Lima, por exemplo, é uma grande injustiçada. A maioria dos turistas que passam por aqui só veem uma cidade em grande parte feiosa, eternamente nublada e com um trânsito caótico. Mas basta um city tour bem feito para revelar um dos lugares mais interessantes a que já fui. O nosso de ontem começou cedo, às 9 da manhã. Loosho absoluto: motorista e guia só para nós. Fomos direto ao Parque del Amor em Miraflores, que tem mosaicos parecidos com os do Parque Guell em Barcelona e uma estátua de um casal se atracando que é das coisas mais cafonas de todos os tempos.

Depois fomos ao elegante bairro de San Isidro, que tem a paisagem de prédios modernos interrompida por uma pirâmide - ou melhor, uma "huaca", a Huallamarca, com mais de mil anos de idade. Dentro do pequeno museu na entrada, uma múmia feminina de longos cabelos castanhos. Pelo menos a moça teve morte natural e não foi sacrificada como noiva do sol.

O centro histórico de Lima estava surpreendemente cheio para uma manhã de domingo. Nossa primeira parada foi na Casa Aliaga, que é continuamente habitada pela mesma família desde o século 16. Claro que há uma parte que é fechada ao público, mas mesmo assim, quando estávamos numa das lindas salas, vimos passar a dona com sacos de compras nas mãos. Ali ao lado fica a Plaza Mayor e a imensa catedral, que não conseguimos visitar direito. A igreja estava repleta de grupos folclóricos e religiosos de todo o Peru, que vieram para uma festa importantíssima. Depois de nos enfiarmos nas catacumbas da vizinha igreja de São Francisco, nos despedimos da guia (já era mais de meio-dia) e ficamos na praça, vendo a imensa procissão de imagens sacras que saíam da catedral. Cada uma acompanhada pelo respectivo grupo de música e dança, um delírio visual. No meio do desfile, ninguém menos que o atual presidente em fim de mandato, Alan García.

Caminhamos até a Plaza San Martín por uma animada rua de pedestres, onde grandes lojas de calçados competem para ver qual tocava reggaetón mais alto - aparentemente, sem música estourando nas caixas, o público não entra na loja, "no es seria". Na praça nosso amigo local nos apanhou e nos levou para almoçar no "barrio chino" num "chifa" chamado Wa Lok. "Chifa" são os restaurantes de comida sino-peruana, uma especialidade que surgiu aqui quando os imgrantes chineses começaram a usar os produtos locais. Desnecessário dizer que nos empanturramos, e ainda vimos o famoso escritor Alfredo Bryce Echeñique numa mesa ao lado. De lá tocamos para o Barrio Libre, do outro lado da cidade, para visitar o lindíssimo Museo Larco. Fundado nos anos 20 por um pioneiro da arqueologia peruana, o museu exibe peças desde a pré-história num casarão em estilo colonial. Mas lá dentro a programação visual é moderna e arrojada. E ainda deu tempo de irmos a Barranco, o bairro boêmio, onde andamos pela Ponte dos Suspiros e comemos churros e arroz con leche. Uma overdose de glicose, para nos preparamos para as alturas que nos esperam em Cusco. Só faltou o suspiro de limeña, a sobremesa típica daqui. Mesmo assim, voltamos exaustos e suspirando de encantamento para o hotel. Lima vale a pena.

domingo, 3 de julho de 2011

ERA UMA CASA MUITO ENGRAÇADA

"Panza de burro". É assim que os limenhos chamam a cor cinza-esbranquiçada da camada de nuvens que cobre a cidade durante os meses de inverno. Simplesmente não dá para ver o sol em nenhum momento do dia. Para completar, o mar também é de um verde opaco, porque está cheio de plâncton. Isto faz com que o Peru praticamente não tenha praias bonitas; em compensação, são as águas mais ricas em peixes e moluscos do mundo. Lima tem um clima estranhíssimo, ainda mais quando lembramos que do outro lado do continente, na mesma latitude, está a luxuriante Salvador. Mas a capital peruana foi construída numa área desértica, onde quase toda a água vem do rio Rímac, que desce das montanhas - e que está praticamente seco nesta época do ano. O mais estranho é que se trata de uma cidade úmida, por causa da "garúa" que cobre as janelas de gotículas. Mesmo assim, não chove nunca. Isto faz com que muitas casas pobres sequer tenham teto. Para quê gastar dinheiro neste luxo desnecessário? Ou quase. Uma vez a cada muitos anos, o fenômeno El Niño provoca chuvas torrenciais. E a cidade, que não está preparada, transforma-se na sucursal do inferno na Terra.

(este post é dedicado ao Diego Rebouças do "Câmera de Vigilância", revisor oficial deste blog)

JÁ COMEU CUY?

CuY, bee, com y no final. Um prato típico da região andina que se popularizou em todo o Peru. A carne mais apreciada pelos incas, que não tinham gado nem galinhas. Mas que bicho é esse? Ta-daaa... Porquinho-da-índia! Cobaia! Hamster! Mwahahaha. Provei ontem no formidável Astrid y Gastón e pelo menos o bichinho não estava reconhecível como na foto aí ao lado (e tem outras MUITO piores, procura no Google Images). Mas estava com a "piel crujiente", sobre uma camada de salada de trigo e ají. E para de fazer essa cara de nojinho. Você não come coelho?

sábado, 2 de julho de 2011

SUA ALTEZA SEM-GRACÍSSIMA

Alguém aí lembrou de ligar a TV para assistir ao casamento do príncipe Albert de Mônaco? Eu vi alguns momentos por acaso, enquanto zapeava. Fiquei com uma ponta de vergonha alheia quando percebi que as ruas do Principado não estavam coalhadas de gente. Havia espaços largos entre as pessoas que acenavam para o carro onde desfilavam os recém-casados. Nada parecido com a histeria que tomou conta de Londres há dois meses, quando dos doces de William e Kate. Claro que Mônaco não tem um zilionésimo da importância da Grã-Bretanha, mas eles já foram melhores no quesito pompa e circunstância. O casório de Grace Kelly com o príncipe Rainier, nos anos 50, repercute até hoje. E claro que o carisma zero do príncipe Albert também não ajuda. Passei a vida toda crente que ele era gay (havia até boatos de namoro com Ayrton Senna). Aí surgiu um filho bastardo, depois outro e esta semana parece que teria surgido um terceiro, o que provocou uma tentativa de fuga da noiva - devidamente interceptada pela polícia monegasca no aeroporto de Nice. Nada foi confirmado, mas tenho um pouco de peninha da sul-africana Charlene Wittstock. Ela é bonita mas sem-gracérrima. Parece uma daquelas arquiduquesas de Luxemburgo ou coisa que o valha que só aparecem nas páginas da revista francesa "Point de Vue", que é obcecada com a realeza. Também tem um nome cafonérrimo, digno de vendedora de uma loja do Wal-Mart na Dakota do Sul. Não é por menos que seus novos súditos estão sugerindo que ela mude para um mais aristocrático "Charlotte".

O PERU DE PERTO


>Já estou no Peru e o Peru está dentro de mim. As possibilidades de trocadilhos óbvios durante estes dias que passarei aqui são infinitas: vim sentir a vibração do Peru, quero me jogar no Peru, quero colocar o Peru na boca... É o que dá um país ter nome de bilau, certo? Mas o oposto é que o verdadeiro. No século 16 os colonizadores europeus chamavam aquelas aves grandalhonas de "galos do Peru" e daí para o nome ser reduzido foi um pulo, dois para que virasse sinônimo de pinto (outra ave). Enfim, tergiverso. Viemos para Lima num voo que saiu às 6 e meia da manhã de SP. Isto quer dizer que tínhamos que estar no aeroporto às 4 e meia, portanto acordamos às três. Como nem eu nem Oscar dormimos bem em avião, o resultado é que aproveitamos a tarde nublada, típica desta época do ano por aqui, para tirar uma soneca. Além do mais, estávamos deliciosamente empanturrados: fomos almoçar com um casal de amigos locais no restaurante da Huaca Pucllana, uma espécie de templo de tijolos de bairro que se ergue bem no meio do bairro chique de Miraflores, muito mais antigo que a cultura inca. Comemos bem demais: até o polvo marinado estava ótimo, e olha que minha religião não permite que eu coma dessas coias. Daqui a pouco iremos jantar no Astrid y Gastón, talvez o lugar mais badalado de Lima. Ah, nada como sentir todo o sabor do Peru, verdad?

HOT TOWEL? HOT TOWEL?

O site da revista "Adweek", uma das bíblias da propaganda, publicou a lista dos 50 comerciais mais gays de todos os tempos. Meu favorito é este aí em cima para a agência de viagens Travelocity, que reforça os estereótipos mas é engraçado pacaraille. Enquanto isto, aqui no Brasil, mal saímos da fase Doritos.

(eu já tinha visto, mas mesmo assim agradeço ao Luciano do Muque de Peão pela dica)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

PULSEIRINHAS EM BARCELONA

E vamos ao primeiro post descaradamente comercial deste blog. Já falei muito de festas e lojas para dar uma força para a galera (e nunca falei de nada que eu não gostasse), mas dessa vez pode rolar uma comi$$ãozinha. A agência de turismo de uns amigos está com um pacote sensacional para o Circuit Party Festival, que acontece em agosto em Barcelona. Absolutamente tudo está incluído: passagem pela Singapore Airlines, que tem fama de ter o melhor serviço de bordo do mundo; hospedagem no Condes de Barcelona, que eu conheço - o hotel é lindo e fica super bem localizado, pertinho das ramblas - e mais ingressos para TODAS as festas, com pulseirinha VIP. Tá bom ou quer mais? Que tal 4 dias de academia? Acho até um crime alguém ir malhar numa cidade que oferece tanto como Barcelona, mas entendo que se o perímetro do bíceps reduzir em dois microns a bee já vai ficar com a auto-estima lá embaixo e não vai mais pegar ninguém. São 11 dias e 10 noites ao todo, pela bagatela de US$ 3390 por pessoa em apartamento duplo ou US$ 4390 em apartamento individual. 20% de entrada e o resto em 5 vezes no cartão. Aproveita que o dólar tá baixo! E corre, porque o grupo é de apenas 20 pessoas. Mas então como faz? Simples: mande seu nome e e-mail para mim num comentário. Não irei publicar, claro, mas repassarei para o pessoal da agência e eles entrarão em contato com você. Assim eles ficam sabendo que a pessoa chegou lá pelo meu blog. Bora gente! Vamos ajudar o Tony a trocar de carro!

BUROCRACINE

Muitos cineastas têm seus temas prediletos: o de Woody Allen são as relações pessoais, o de Tarantino é a violência estilizada e assim por diante. O tema favorito do israelense Eran Riklis, por incrível que apreça, é a burocracia. Ele gosta de filmar os entraves absurdos que a burocracia impõe à vida das pessoas comuns. Já produziu assim dois filmes importantes. "A Noiva Síria", seu primeiro exibido no Brasil, contava a história de uma moça numa aldeia muçulmana no norte de Israel, prometida em casamento a um sírio que ela nunca viu na vida. Mas como se casar com alguém que mora do lado de lá de uma fronteira fechada? Depois Riklis lançou "Lemon Tree", que ficou muito tempo em cartaz em SP. Muita gente se comoveu com a história da mulher palestina obrigada a podar seu ancestral pomar de limoeiros, só porque ele ficava bem ao lado da casa do novo ministro da defesa de Israel. Por causa desses bons antecedentes, corri para ver "A Missão do Gerente de Recursos Humanos" (dá para pensar num título com menos apelo comercial?), que estreou hoje. E me aborreci muito. O filme é uma chatice sem fim. Uma mulher que nunca aparece é demitida de uma padaria e morre num atentado terrorista em Jerusalém. O tal do gerente de recursos humanos da firma resolve repatriar o corpo da moça, que era imigrante, para sua Romênia natal. Mil entraves burocráticos e dezenas de pessoas desinteressantes aparecem em seu caminho por uma paisagem desolada, até que Beyoncé e Kate Bush surgem dançando e cant... OK, essa última parte eu inventei, mas quem dera fosse assim. Não é. Eta filmezinho chato.

O POP IMITA A ARTE

Nesses meus dias de férias minha cabeça fica povoada de questões transcendentais, do tipo: alguém acha mesmo bonito o cabelo do Neymar? Myrian Rios é burra, filha da puta ou todas as respostas anteriores? Dá para misturar arte com música pop? Estava ouvindo "4", o novo da Beyoncé, e fiquei com a sensação que agora ela quer mostrar que é uma grande artista, com A maiúsculo. Nenhuma música do CD gruda feito chiclete no ouvido. Poucas são para dançar. E, apesar das poses forçadamente sensuais nas capas tanto da edição normal quando da de luxo, ela passa longe do modelito gata-no-cio, tão comum nas cantoras americanas de rhythm'n'blues. Beyonça agora tem grana e poder para fazer o que quiser, e o que ela quer fazer é aparentemente um disco de soul à moda antiga, com instrumentos acústicos e pouquíssimos truques de estúdio. Voz para isto ela tem. Resta saber se o público que a acompanha vai ter saco. "4" começa lento e vai acelerando muito devagar, até explodir em "Run The World (Girls)", a última faixa e um single semi-flopado. Só no disco extra ela relaxa e se joga no pop puro e simples, sem maiores pretensões.

Essa questão nunca foi problema para a inglesa Kate Bush. Ela sempre fez o que lhe deu na telha e ponto final. Fez muito sucesso quando surgiu aos 17 anos com "Wuthering Heights", até hoje sua única música que a maioria das pessoas conhece. Ela tem uma voz peculiaríssima que lembra uma fada de desenho animado, além de compor muito bem e tocar praticamente tudo. Mas não tem pressa. Seus discos foram ficando cada vez mais espaçados, até que levou doze anos entre "The Red Shoes" e "Aerial", seu último de inéditas, que saiu em 2005. Agora ela ressurge com "Director's Cut", onde faz algo que está se tornando comum entre cantores de carreira longa: revisita canções do passado. Mas não traz exatamente novos arranjos nem releituras radicais. Apenas regravou os vocais e mudou algumas coisas, poucas, no acompanhamento. Sinto dizer que algumas faixas pioraram. "The Sensual World", cuja letra é baseada num poema de James Joyce, agora se chama "Flower of the Mountain" e tem um vocal muito menos arrebatado que o original. Pudera: Kate agora é uma senhora de meia-idade, não mais a mocinha de 22 anos atrás. Mas no geral o disco é muito bom, até na capa dura bem cuidadíssima. Agora é só esperar mais uma década para Kate Bush se pronunciar outra vez.