segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

ZENGA ZENGA!

Deus abençoe a internet. Ela serve para expor ao ridículo os mais sanguinários ditadores, que não fazem a mais puta ideia de como lidar com ela. O futuro ex-líder da Líbia, Muammar Kh/G/Qadaffi, teve um discurso proferido na semana passada "auto-tunado" por um israelense chamado Noy Alooshe. Apesar da origem do rapaz, o vídeo logo se tornou viral entre os árabes e já teve mais de um milhão de acessos no YouTube. Aguardemos o remix de Peter Rauhofer.

CARENTES DE ATENÇÃO

O Irã anda meio sumido do noticiário internacional, ofuscado pela barafunda que se espalha pelo mundo árabe. Carentes de atenção, os aiatolás mandaram avisar que seu país não participará das Olimpíadas de Londres porque o logo do evento formaria a palavra "Zion" - uma alusão velada ao sionismo. Essa gente faz qualquer coisa para aparecer, não? Os organizadores dos jogos se defenderam dizendo que o símbolo é apenas uma versão estilizada de 2012 e que foi lançado em 2007 - por que só agora estão reclamando? Também já teve nego que enxergou nele uma suástica nazista ou uma posição sexual bizarra. Seja qual for a interpretação que lhe derem, uma coisa é certa: o troço é feio pacaray.

AFTER-PARTY

A 83a. cerimônia de entrega do Oscar foi decepcionante do começo ao fim. Faz tempo que eu não espero grande coisa do programa: quando eu era adolescente, costumava ficar excitadíssimo, só para me frustrar com a lentidão e caretice. Mas a edição deste ano conseguiu bater todos os recordes de brochação.

A começar pelo casalzinho de apresentadores. Anne Hathaway foi mal aproveitada: podia ter cantado mais, a moça é do ramo. Mas a maior tarefa que lhe foi imposta pelos produtores foi trocar 7 vezes de roupa, como se estivesse em “Irma Vap”. Verdade que os vestidos eram todos lindos.

James Franco parecia mais interessado em twittar o que acontecia no palco do que em interagir com a plateia. E aquela montagem de abertura, hein? Foi legal, mas meio curta. Porque não incluíram indicados como “Minhas Mães e Meu Pai”, que renderia piadas de lésbicas politicamente incorretas, ou “127 Horas”, onde Franco teria que contracenar com si mesmo?

Muitos astros não estavam em seus melhores dias. Javier Bardem apareceu gordíssimo: ainda não se livrou dos quilinhos a mais adquiridos durante a gravidez. Kirk Douglas surgiu esticadíssimo, com a pele do rosto supreendentemente lisinha. Teria feito plástica aos 120 anos de idade? E Natalie Portman não me pareceu radiante, apesar do Oscar e da gravidez. Tive a sensação de que ela ia se transformar numa galinha e botar um ovo no palco.

Os números musicais foram pobrinhos de dar dó. A linda “If I Rise” ganhou um arranjo lúgubre. Gwyneth Paltrow mandou bem, mas exagerou na chapinha em seus cabelos já naturalmente lisos. Céline Dion parecia uma drag de si mesma, e não muito boa.

A vitória de “O Discurso do Rei” me deixou quase que com tanta raiva como no ano em que “Brokeback Mountain” perdeu. É mais um triunfo dos irmãos Weinstein, que têm um talento insuperável para embalar filmes medianos como obras-primas.

Apesar do clima de torcida criado pela Globo, “Lixo Extraordinário” nunca teve a menor chance. Ganhou “Trabalho Interno”, que já entrou em cartaz no Brasil e que agora eu vou ter que ver.

No frigir dos ovos, o momento que mais me marcou foi mesmo o desastrado agradecimento de Melissa Leo. Ela própria se surpreendeu com a vitória, depois de se ver ameaçada por causa dos anúncios onde tentou parecer chique e glamurosa. E acabou soltando um “fucking” que destruiu qualquer chance de melhorar sua imagem. A TV americana exibia a cerimônia com "delay", então o palavrão pôde ser deletado (a TNT o mostrou por aqui). Mas não adiantou. Pobre Melissa... Ela pode até incluir um “F.” no meio de seu nome, porque daqui para a frente é só por isto que vai ser lembrada.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

JOÃO SEM-BRAÇO

A poucas horas da entrega do Oscar, assisti ao último dos 10 indicados a melhor filme que ainda me faltava. E adorei: "127 Horas" é um filmaço, moderno e tradicional ao mesmo tempo. Moderno porque o diretor Danny Boyle não tem pudor de usar a estética dos videoclips: tela dividida, edição nervosa, música pop. E tradicional porque é uma história de auto-superação com final feliz. Aliás, não entendo porque as pessoas acham "O Discurso do Rei" tão emocionante assim, porque os obstáculos enfrentados pelo alpinista Aron Ralston foram incomparavelmente maiores que a gagueira de Sua Majestade. "O Discurso..." é o favorito do Oscar e um campeão de bilheteria; "127 Horas" fez pouco mais de 10 milhões de dólares nos cinemas americanos. Tudo por causa da famosa cena em que o protagonista - não vou estragar nada, a esta altura todo mundo já sabe, mas enfim, quem não souber pare de ler agora - corta o próprio braço. A sequência dura meros três minutos e é bem mens cruenta do que eu imaginava. Mas é por causa dela que grande parte do público foge deste filme. O mesmo público que fez de "Jogos Mortais", onde inocentes são serrados ao meio com todos os detalhes sanguinolentos, um mega-sucesso com quatro continuações. A verdade é que a maior parte das pessoas não tem o culhão de Aron Ralston, nem mesmo para ver na tela o que ele fez na vida real. Azar delas: "127 Horas" é incrível. Ah, e eu falei que também tem o James Franco?

sábado, 26 de fevereiro de 2011

À BEIRA DO TAPETE VERMELHO

Já tirei minha zibelina da geladeira da Mme. Rosita, peguei a tiara no cofre do banco e amanhã estarei todo paramentado em frente à TV para cumprir meu ritual favorito. Não falho desde 1976. O que podemos esperar dessa entrega do Oscar?

- Dois apresentadores em estado de graça. James Franco e Anne Hathaway têm uma química palpável, pelo que deu para perceber pelos numerosos "promos" que vêm vazando na rede. Ela canta e dança que é uma beleza, ele tem um ligeiro ar de cafajeste que só lhe aumenta o charme. Vai ser um golaço.

- Uma vitória para o Rollo, da banda Faithless. Pois é, nem sabia que ele estava indicado: mas é um dos co-autores de "If I Rise", favorita para melhor canção e cantada por sua irmã Dido na trilha de "127 Horas" (o outro compositor é o indiano A. R. Rahman, que faturou duas estatuetas há dois anos pela música de "Quem Quer Ficar Milionário?", do mesmo diretor Danny Boyle). Dido não cantará no palco do Kodak Theatre, não sei por quê. Quem está programada em seu lugar é ninguém menos que Florence + the Machine. Wuhuuu.

- Uma possível derrota para Natalie Portman. Sim, a estrelinha de "Cisne Negro" não é tão favorita assim. Annette Bening deu um gás em sua campanha nas últimas semanas e faz tempo que é considerada realeza de Hollywood, além de merecer o prêmio há mais tempo ainda. Fora que é um milhão de vezes melhor atriz do que Natalie jamais conseguirá ser.

- Outra que periga sair de mãos vazia é Melissa Leo. Antes favoritaça como atriz coadjuvante, ela conseguiu sabotar suas chances com seus anúncios pseudo-glamurosos. Pode ser que dê Hailee Steinfeld, a garotinha de "Bravura Indômita". Too much too soon.

- Filme e diretor indo para obras diferentes. "O Discurso do Rei" na primeira categoria, David Fincher por "A Rede Social" na outra. Esta divisão era rara no passado, mas aconteceu três vezes nos últimos dez anos.

- Uma segunda-feira de muito, mas muuuito sono.

Estarei twittando durante toda a cerimônia, se não cair bêbado de champagne antes. Nos vemos no tapete vermelho.

FOGO LENTO

Houve um tempo em que o Oscar de filme estrangeiro ia para filmezinhos agradáveis e algo inofensivos, como o tcheco "Kolya" ou o dinamarquês "A Festa de Babette". Este tempo acabou. Os cinco indicados deste ano são todos barra pesada. Um dos favoritos estreou ontem no Brasil: o canadense "Incêndios", que é falado em grande parte em árabe e se passa quase todo no Líbano. A trama tem um quê de Nelson Rodigues. Uma mulher morre e pede em testamento a seus filhos gêmeos que procurem tanto o pai, que eles achavam que estava morto, como um irmão que eles nunca souberem que existia. O ritmo imprimido pelo diretor Denis Villeneuve é lento, cheio de silêncios e olhares significativos. Mas o filme nunca fica chato, porque as coisas não param de acontecer. A busca dos irmãos é entremeada por flashbacks que contam a trajetória da mãe, marcada pela violência da guerra civil. A cena que aparece no poster - a de um ônibus pegando fogo no deserto - é uma das mais fortes que já vi na vida. E o segredo revelado ao final é um soco no estômago. "Incêndios" é um filme difícil, e em muitos momentos me perguntei como ele conseguiu agradar tanto à Academia. Não vá vê-lo esperando um entretenimento levinho. É uma porrada atrás da outra, mas às vezes faz bem apanhar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

DAME MÁS

Ricky Martin sempre teve músicas ótimas, mas nunca havia feito um disco inteiro bom. Lá pela metade a coisa sempre resvalava para aquela chorumela latina genérica, "no puedo vivir sin ti" e "me voy a morir sin tu amor por que te amo con locura eres mi vida no te vayas por favor". Esse romantismo de telenovela continua em algumas faixas de "Música + Alma + Sexo", mas a verdade é que o novo CD é bastante ouvível do começo ao fim. Não chega a ser uma obra-prima mas Ricky conseguiu chegar a uma sonoridade moderna, com a ajuda de muitos teclados eletrônicos e dos astros do reggaetón Wisin y Yandel. Essa dupla porto-riquenha compôs com ele a melhor faixa de todas, "Frío". Não sei qual versão gosto mais: da "normal" ou da remixada para o rádio, com a participação do Doble U e do I Griega. Pena que a letra ainda se refira a "ella", ou seja: a viadagem de Ricky tem limites. Ele é ótimo cantor e um performer ainda melhor, e saí com a sensação de que teria feito um disco fantástico se ousasse mais, sem se preocupar em vender para caralho. Quem sabe no próximo? Queremos más.

O CONTRABANDISTA DE PIMENTA

Um amigo me pediu para trazer pimentas do México para o namorado, que é chef de cozinha. Sem chance, pensei eu. Não vou ter tempo de passar num supermercado com essa programação apertada que estou seguindo. Pois bem: ontem à tarde, terminado o último grupo de pesquisa, o cliente resolveu fazer um store check - ver como o produto está sendo exposto nas lojas. A primeira parada foi um hipermercado desses que têm tudo. E tinha mesmo, inclusive uma seção de pimentas variadas e fragrantes. Como não havia desculpa, enchi quatro saquinhos com variedades diferentes. Aí as pessoas que estavam comigo começaram a me aterrorizar: não vou conseguir entrar com isto no Brasil, tem raio-X, tem cachorro farejador. Calma, gente. Tem não. Em Cumbica eles só costumam parar quem vem dos EUA ou do Japão, que é o povo que vem carregado de computadores e eletrodomésticos. México passa batido. E de fato passei. As pimentas chegaram sãs e salvas, aromas e texturas intactas. Quero só ver como meu amigo vai retribuir.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

CARA DE ATIVO

Domingo, a bordo do cruzeiro Freedom On Board, o catarinense Eduardo Kamke foi eleito Mr. Gay Brasil 2011. Fui jurado do concurso e votei no Mr. Rio de Janeiro para o título, mas fiquei contente com a vitória de Eduardo. O André Fischer me contou que o bonitão venceu em todas as votações: a do júri, a dos passageiros do navio e a do Mix Brasil. Tenho cá comigo que a vitória se deve à sua irresistível cara de ativo, coisa que o belo carioca não tinha tanto. Atenção: eu disse CARA, OK? Não sei nada das preferências do rapaz. Essa caraterística mais o fato de ter 30 e tantos anos fazem de Eduardo Kamke um forte candidato ao título mundial. Nos últimos anos ganhou sempre um cara beirando os 40, uma prova de que beleza não é tudo no mundo viadal. E a votação para Mr. Popularidade já começou. Clique aqui e depois em "Popularity Online Voting". O Brasil venceu esta categoria das outras vezes, não podemos fazer feio este ano. Ainda mais quando temos um concorrente tão forte.

UN VESTIDO Y UN AMOR

Ontem passei o dia inteiro enfurnado num insituto de pesquisas e à noite ainda precisei jantar com o cliente. Mas entre uma coisa e outra, felizmente, consegui ver um pouquinho da cidade. Por iniciativa da própria cliente, demos um pulo no Centro Cultural de la Ciudadela, na verdade um grande bazar de artesanato mexicano. Um labirinto de lojinhas onde se vende do horrível ao sublime: jóias de prata, chapelões de mariachi, tapetes coloridíssimos e muitos bonequinhos cafonérrimos que mereciam arder numa fogueira. Mas quem estiver disposto a driblar os vendedores mais insistentes acaba descobrindo preciosidades. Como uma biboca especializada em camisetas do Chaves, um verdadeiro herói nacional. Ou outra que tem as mais surpreendentes máscaras de luta livre. Já tenho uma, a do Blue Demon, e fiquei seriamente tentado a aderir ao sado-masoquismo só para comprar várias outras. Mas minhas compras acabaram sendo bem comportadas: uma pulseira de prata para uma sobrinha, um tabuleiro de um jogo típico chamado "lotería" que eu não faço a menor ideia de como se joga (mas é para isto que existe a internet) e uma encomenda de minha santa mãezinha: um vestido vermelho, leve e confortável. Desde que comecei a vir para o México, há quase dez anos, costumo trazer-lhe vestidos 'tehuacán', vindos de Puebla. Ela já tem de quase todas as cores, mas lhe faltava o vermelho. Que aliás é bem mais bonito que este da foto: os bordados são de um amarelo quase dourado. Mami vai arrasar na fila do banco.

OS DEZ PUTOS DO REI

“O Discurso do Rei” foi indicado ao Oscar em 700 categorias, inclusive Melhor Direção de Arte. Acontece que nem todos os cenários do filme foram criados especialmente para ele. Um dos ambientes mais importantes – o consultório do dr. Logan – já havia aparecido algumas outras vezes, como no clip de “Rehab” da Amy Winehouse. E também, hehehe, no pornô gay “Snookered”, como comprovam essas fotos. Isto sim é um tratamento eficaz para curar a gagueira do rei.

(Não sei se o tal do filme pornô teve mesmo a participação de dez putos. Se alguém tiver um trocadilho melhor com "discurso", estou aceitando sugestões)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A OPORTUNIDADE DE FICAR CALADO

Fidel Castro chegou àquele ponto em que seria melhor morrer logo, ao invés de continuar falando besteira e enterrar ainda mais o que resta de sua reputação. É mais do que patética sua acusação de que a OTAN planeja invadir a Líbia, para assegurar o fornecimento de petróleo à Europa. Pior ainda se saiu o presidente Ortega da Nicarágua, que se gabou de ter telefonado pessoalmente para Gaddafi e lhe desejar boa sorte. Essa esquerda pré-histórica latino-americana ainda divide o mundo da maneira mais simplória possível, pró-EUA e anti-EUA, e sem dúvida tem medo que as revoltas que assolam o mundo árabe se repitam em seus próprios países. Cuba, em especial, tem muita coisa em comum com as tiranias do Oriente Médio: uma família que se eterniza no poder, um exército que controla grande parte da economia, um aparato repressor brutal e uma geração de jovens desempregados e fartos. Só falta alguém se imolar em praça pública. Pelo menos os outros proto-ditadores da região, Hugo Chávez e Evo Morales, estão relativamente quietinhos, apesar de agraciados com o hilariante Prêmio Internacional Muammar Gaddafi de Direitos Humanos. Ao contrário do aposentado cubano, esses dois ainda são jovens e têm muito a perder. Melhor aproveitar a oportunidade de ficar calado e esperar para ver qual lado ganha.

JÁ COMEU MANGOGO?

Cheguei hoje cedinho na Cidade do México, mas não deu tempo de fazer nada muito interessante. Trabalhei o dia inteiro sem parar e só no comecinho da noite consegui passar no Pabellón Polanco, um shopping razoável onde fica minha loja de CDs favorita. Só comprei discos de maricones: Ricky Martin, Luis Miguel, Miguel Bosé... Depois cada um deles vai ganhar seu post exclusivo. Mas como ainda não ouvi nada, o assunto por enquanto são os doces da Chilim Balam, onde também fiz a festa. Essa cadeia de lojas de guloseimas vende desde coisas óbvias, tipo Kinder Ovo, até especialidades mexicanas de arrepiar o cabelo. Tem sorvete de água de jamaica e copos de papel cheios de batatas chips, amendoins e frituras não-identificáveis, que os locais comem polvilhados com Tajín, uma pimenta vermelha levemente adocicada. Mas meus favoritos são os doces típicos, na definição bem elástica que o povo daqui tem da palavra. Pedaços de frutas desidratadas temperados não só com açúcar, mas também sal e chile. Tem maçã, ameixa, tamarindo e manga, a melhor de todas. Comprei três variedades desta última, em distintos graus de picazón. A mais vulcânica tem o auspicioso nome de mangogo. Melhor que isto, só os limões recheados de cocada da Dulcería de Celaya, uma relíquia art nouveau no centro histórico. Queda la dica prazamigue que vierem pra cá.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

COISA MAIS FAYE

Essa história é antiga, mas só veio à tona esta semana. E para ser devidamente apreciada precisava ter narração do Randall, aquele do honey badger. Então ligue a vozinha da sua bicha interior e divirta-se: há quase 20 anos, Faye Dunaway pegou um vôo de Nova York para Londres numa linha aérea que não será identificada, feito aquelas testemunhas de crimes. A diva já tinha a fama de ser a bitch mais difícil desde a imperatriz Teodora de Bizâncio e sempre exigia um upgrade para a classe executiva - apesar de só comprar bilhete de econômica. Um belo dia a tripulação resolveu se vingar. La Dunaway teve seu pedido recusado, e foi sentada bem na porta da business só para ver que havia um monte de assentos disponíveis. Quando finalmente pegou no sono, um dos comissários encheu a poltrona a seu lado de cabides de arame. Uma referência à famosa fala "no wire hangers!" do filme "Mamãezinha Querida", obrigatório no currículo de qualquer biba sofisticada. Quando Faye acordou, a cabine inteira caiu na gargalhada. Um crime de lesa-majestade, sem dúvida. Quando finalmente virarem purpurina, perigam cair na fantasia de uma drga bem pobrinha.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

RUMO A TENOCHITLÁN

Mal cheguei do cruzeiro hoje de manhã e logo mais à noite embarco para a Cidade do México, a trabalho. Normalmente eu estaria animadérrimo, pois adoro ir ao DF - mas hoje tudo o que eu queria era a minha caminha, depois de um fim de semana mais agitado que uma criança com déficit de atenção. A perspectiva de (não) dormir num avião e ir direto para o trampo amanhã cedo me deixa levemente apavorado, mas quem mandou eu não prestar concurso para o Banco do Brasil? Mas chega de reclamação, viajar é sempre bom. Espero ter tempo de comprar uns disquinhos e, quem sabe, conhecer algum restaurante novo. Volto sexta à tarde, ainda a tempo do aniversário do Oscar. Mas claro que continuarei postando; o próximo post já deve vir de Tenochitlán, a antiga capital asteca. Hasta muy pronto.

CORRA, GADDAFI, CORRA

Ainda são confusas as informações que chegam da Líbia, mas tudo indica que a ditadura de Muammar Gaddafi está por um fio. Chegou a ser anunciado que o coronel teria fugido para a Venezuela, o que até seria engraçado - queria só ver o Hugo Chávez com uma batata quente deste tamanho nas mãos. O mais provável é que Gaddafi, há mais de 40 anos no poder, tenha se mandado para sua cidade natal, no Saara, onde conta com a proteção de sua tribo. Enquanto isto, o palácio presidencial arde em chamas e a população investe contra os mercenários do Tchad, contratados pelo ditador para abrir fogo contra seu próprio povo. Claro que estou torcendo para que mais este tirano árabe seja derrubado, mas a violência das revoluções que vêm se espalhando pela África do Norte e Oriente Médio é assustadora. Bahrein, Iêmen, Kuwait, Argélia e agora até o Marrocos - cujo rei soltou a franga legal quando estudou na Bélgica - estão sendo sacudidos de seu sono letárgico. Nessa barafunda toda, é um alívio não termos mais o Lula para dizer que tudo não passa de escaramuças de torcidas perdedoras.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

DIÁRIO DE BORDO

Já estamos navegando de volta a Santos. Não fizemos muita coisa na parada em Búzios ontem à tarde: sequer entramos na festa que rolava na boate Privilege. Só fomos tomar sorvete na Rua das Pedras e às 4 já estávamos tomando sol no deck do Armonia. Teria sido um programa perfeito, não fosse o tribal non-stop à beira da psicina. Porque é que bicha só gosta desse tipo de música? Um dia perfeito, uma paisagem de sonho, porque não uma bossa nova? Não: mesmo com o sol a pino, todas só querem ouvir música de festa, uma pool party interminável.

À noite rolou uma R:evolution da Rosane Amaral. Produção esmerada, mas o público se dividiu com a Ursound que rolava na boate do navio. O espaço era ótimo, com vista panorâmica para o oceano, e o som tinha uma única regra: não pode tocar música nova. Não havia muitos ursos a bordo, mas mesmo assim a festa encheu. Acho que por causa do público nordestino, menos ligado no baticum infernal das noites do Rio e SP. Aliás, eles também são bem menos malhados que o pessoal mais ao sul: acho até saudável esta não–obsessão por anabolizantes.

Hoje paramos no Rio, e Oscar e eu aproveitamos para ver a exposição de Escher no Centro Cultural Banco do Brasil (tema do posta baixo). O navio zarpou do Pier Mauá pouco antes das 7, com direito a um apropriadíssimo arco-íris sobre a ponte Rio-Niterói e uma visão espetacular da saída da baía de Guanabara. Agora há pouco rolou a final do Mr. Gay 2011. Meu favorito, o Mr. Rio de Janeiro, ficou em segundo. O vencedor foi o Mr. Santa Catarina, talvez por ter mais cara de ativo. Agora vamos jantar e depois reunir forças para a White Party. Muita coisa ainda pode acontecer.

DESILUSÕES DE ÓTICA

A retrospectiva de Escher, em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro, me fez mudar de opinião sobre o artista. Não que eu não gostasse dele antes: não dá para não gostar de seus desenhos fascinantes, brincadeiras visuais que nos fazem perder o senso de perspectiva e o de profundidade. Mas ao ver tantos de seus trabalhos reunidos, de épocas e inspirações distintas, fez crescer minha admiração por este holandês falecido em 1972. M. C. Escher ainda vai ser reconhecido com um dos grandes artistas do século XX. O fato dele ter trabalhado com ilustrações e xilogravuras faz com que muitos críticos não o alcem ao pedestal de Mirò ou Picasso, mas esta injustiça será corrigida pelo tempo. O cara conseguia ser profundamente cerebral e estranhamente poético ao mesmo tempo; não é à toa que dizia que matemática e poesia são no fundo a mesma coisa.

Escher ilude o olhar mas não o coração. Ele tapeia a gestalt, cria com apenas duas dimensões um mundo onde cabem vinte e nos abre os olhos para as pequenas coisas. Teria sido um desenhista excepcional mesmo se não tivesse se aventurado pelos temas do infinito e do universo. A exposição é um programa maravilhoso para se fazer com crianças: elas acabaram de aprender as regras do olhar, e a obra de Escher bagunça com essas regras, arrancando risos e gritinhos. Uma dica: se possível, evite os finais de semana. Fomos em pleno domingo de sol, o que não desanimou a cariocada que lotava os salões. Tanta gente que nem conseguimos ver o filme em 3D, sob o risco de perder o horário de volta ao navio. É uma pena: teria sido um relance no que Escher estaria fazendo com a tecnologia dos dias de hoje.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Ô MARINHEIRO MARINHEIRO

Ah, lembrei de uma coisa. Eu enjoo no mar. Primeiro achei que estava bêbado, porque minha cabeça rodava, rodava mais que os casais, mas aí me toquei que não tinha bebido o suficiente. O balanço do navio é algo que se sente por dentro: todos os líquidos do seu corpo sendo jogados de um lado para o outro, enquanto que as coisas ao redor continuam firmes no mesmo lugar. Eu me senti mareado logo após minha apresentação consagradora no Café com Vodka e continuei assim durante a 1a. etapa do concurso Mr. Gay 2011. O André Fischer me convidou às pressas para fazer parte do júri, e eu topei na hora porque sou arroz de festa. Eram só 10 candidatos, uns lindos, outros nem tanto, mas todos corajosíssimos. Não me canso de admirar a bravura desses garotos por se assumirem desse jeito. Já o evento em si foi um pouco chato. Pelas regras do certame internacional, não basta ser deslumbrante: o cara tem que ser um modelo para a sociedade, um exemplo de vida. Isto fez com que o André precisasse entrevistá-los um por um, com perguntas do tipo "que marcas você usa?" ou "você tem Facebook?". O teatro foi se esvaziando aos poucos: teria sido melhor um concurso de talentos como no Miss America, onde um candidato cantaria uma ária de ópera e outro exibiria seus dotes na baliza. Depois do jantar tiramos uma soneca e lá pela uma subimos para a festa à fantasia. O povo caprichou. Meus favoritos eram os Smurfs, com os corpos pintados de azul, um casal de moças onde a butch estava de Fred e a femme de Wilma e, evidentemente, meu filhinho Duda Hering, insuperável como Geisy Arruda. Agora já chegamos a Búzios e daqui a pouco pego a lancha para ir para a cidade. Não vejo a hora de pisar em terra firme.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

AL MARE

Meu helicóptero desembarcou no terminal de passageiros do porto de Santos bem a tempo. Desembarquei numa liteira, dentro de um ovo, seguido por 25 peças de bagagem e minha femme de chambre Lindinalva. Subimos a bordo do MSC Armonia e meu coração disparou: um navio! Não sei o que é isto desde 1974, quando fui de Miami para Nassau, nas Bahamas. A cabine me pareceu apertadíssima e mais desconfortável que o acampamento do "BBB", mas a cavalo dado não se olha os dentes. Um rolé no deck da piscina e já cruzei com diversas zamigues. Tinha preparado um set que devia começar aos poucos, do silêncio ao tema do "Titanic", "My Heart Will Go On", e ir subindo o bpm daí para a frente. Mas às 4 a área da piscina já tinha virado pool party, com tribalzinho de merda à toda. O navio zarpou dez minutos antes do combinado e foi realmente emocionante assistir a partida, ver as palafitas do outro lado do canal tão contrastantes, os rebocadores, o Guarujá. A DJ Cella entrou antes que eu e fez a galera rebolar, o que dificultou as coisas para mim. Meio em pânico, entrei às 7 com a diva mais beesha de todas, Amanda Lear, e daí para a frente só fui na certa: Lady Gaga, Jennifer Lopez, Britney Spears. No final me senti mais corajoso e soltei uma Mylène Farmer, que pegou super bem. Aí liguei o foda-se e mandei um remix de 10 minutos de "P-Machinery" do Propaganda. Dediquei mentalmente ao Daniel Cassús: sei que ele estaria dançando como pudesse, bem ao contrário da patuleia ignorante que frequentava o Café com Vodka naquela hora. Pois é - NINGUÉM dançou Propaganda. Esse povo só quer saber de vocal pegajoso, pra quê discutir com madame? Pelo menos eu tentei. Mas a sensação de tocar a bordo, com aquele marzão em volta e o vento nos cabelos, foi simplesmente uma das melhores da minha vida. O cruzeiro começou bem.

CISNE MULATO

Natalie quem?

MY HEART WILL GO ON

No momento em que escrevo este post, ainda não sei se vou conseguir embarcar no cruzeiro "Freedom on Board", que zarpa hoje de Santos. Fui convidado para "atacar de DJ" no Café com Vodka que rola a bordo, mas temo que vá decepcionar meus milhares de fãs. É que o horário de embarque é só para as herdeiras muito ricas: até as 16 horas. E pode ser que eu não consiga matar a tarde de sexta. Até já combinei com meu chefe, mas tudo depende de uma reunião que acontece daqui a pouco. Se o trabalho for aprovado, zuzo bem. Se não, adeus, meu público, também amo vocês, mas que se há de fazer? Nem devia estar anunciando isto aqui no blog, pois centenas de reservas devem estar sendo canceladas neste exato minuto. Se este é o seu caso, segure só mais um pouquinho. Lá pelas 11 da manhã eu volto para dizer se embarco ou não. Seja lá qual for o veredito, meu coração continuará.

ATUALIZAÇÃO: Eu vou! A reunião foi bem, só preciso fazer uns pequenos ajustes. Nos vemos no convés.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

DE VUELTA AL FUTURO

A fotógrafa argentina Irina Werning teve uma dessas ideias que a gente amaldiçoa por não serem nossas. Em seu projeto "Back to the Future", ela coloca amigos e parentes nas mesmas poses e situações em que eles foram fotografados quando crianças, e o resultado é meigo e engraçado ao mesmo tempo. O tempo passa para todo mundo: é assustador ver como alguns envelhecem muito em apenas poucos anos. Mas que bom que estão todos vivos, e com muito senso de humor.

MILE-HIGH CLUB

Mais uma preciosidade que eu encontrei no site da Out. Para quem não entender os letreiros finais: "A boa notícia é que Daniel e Chris transaram de camisinha". É uma campanha francesa de prevenção à AIDS.

SÓ O ESSENCIAL

A revista "Out" preparou mais uma lista de filmes gays. Não são exatamente os melhores de todos os tempos, o que talvez explique a ausência de obviedades como "Brokeback Mountain". Mas são todos "essenciais", divididos em várias sub-categorias. Tem os de terror, os britânicos, os de cross-dressing, os de adolescentes lésbicas e até mesmo os de posters mais provocantes. Há muita coisa na lista de que eu nunca ouvi falar, muito filme obscuro dos anos 70. Mas também há clássicos indiscutíveis, como "Quanto Mais Quente Melhor", "Tootsie" ou "Festim Diabólico" - este último não tem um único personagem declaradamente homossexual, mas é a obra-prima queer de Alfred Hitchcock. Algumas escolhas são surpreendentes: "As Patricinhas de Beverly Hills"? "Shaft"?? "A Hora do Pesadelo 2"??? Outras são esperadas e justíssimas, como os maravilhosos "Maurice", "Fome de Viver" e "Another Country" - a estreia de Rupert Everett, acho que até hoje inédito nos nossos cinemas. O site da revista disponibilizou quase todos os trailers selecionados. Perfeito para quem tiver tempo e vontade de conhecer um pouco da história LGBT nas telas.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

HONEY BADGER DON'T GIVE A SHIT

Fato incontestável: tudo fica mais interesssante do ponto de vista de uma bicha. Até mesmo coisas que já são fascinantes por si mesmas, como documentários sobre animais - não estou sendo irônico, gosto mesmo, queria ser zoólogo quando pequeno - ficam ainda melhores na voz de Randall, um locutor desmunhecadérrimo e fabulosíssimo. O cara dubla filminhos que já existem, não omite nenhum dado científico e ainda acrescenta pérolas de sabedoria e fechação. Compare a versão aí em cima com o original: zil vezes mais tudo! Tem mais vídeos na página de Randall no YouTube. Fierce.

O FARAÓ DO MARANHÃO

Já leu o post da Barbara Gancia sobre a funcionária do Supremo que foi demitida? Quer dizer, não exatamente, porque esta moça ainda não identificada era terceirizada. Mas foi ela quem teve a coragem de escrever o seguinte no Twitter oficial do STF: 'Ouvi por aí: 'agora que o Ronaldo se aposentou, quando será que o Sarney vai resolver pendurar as chuteiras?' Foi um forrobodó e o César Peluso teve que telefonar para o dono do Maranhão, que reagiu com magnânimo bom humor. Barbara comenta em seu blog que temos agora a primeira mártir da nossa própria Revolução de Jasmim. Eu concordei e até sugeri que o Twitter inteiro desse RT no desabafo da funcionária. Quase ninguém topou... É uma pena, porque podia ser o começo de uma versão brasileira da praça Tahrir. Enquanto isto, o faraó do Senado continua rindo, desafiando o tempo e as pirâmides.

ATUALIZAÇÃO: A campanha está pegando aos poucos. A Barbara lançou no Twitter o TT #aposentasarney e já tem um monte de gente aderindo. Bora!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

'CAUSE I GOTTA HAVE FAITH

Acho que nenhum artista não totalmente drogado sabotou tanto a própria carreira como o George Michael (um pouquinho drogado ele é). Nem mesmo o Prince, que durante um bom tempo trocou seu nome por um um hieroglifo impronunciável. E os dois fizeram besteira pela mesma razão: estavam brigados com suas gravadoras. George ficou anos sem gravar, porque queria romper seu contrato com a Epic. Um ato voluntarioso que o fez perder o "momentum" que desfrutava depois do sucesso estrondoso de "Faith". Essa obra-prima do pop vendeu pacas e ganhou o Grammy de melhor álbum de 1987, uma façanha e tanto para um não-americano (acho que só o U2 conseguiu depois disto). Agora o disco está sendo relançado como um CD duplo, com as faixas originais remasterizadas e mais um monte de extras, como lados B de compactos e versões instrumentais. Ainda soa bom - é quase uma coleção de greatest hits. Pena que não incluíram o insuperável "Monogamy Mix" de "I Want Your Sex", lançado apenas como 12" single e composto de três partes. No vinil de "Faith" só vinham as primeiras duas e nesta edição a terceira aparece solta. Mas não contavam com a minha astúcia: aqui está ele em toda sua glória, e para os não-puristas tem também o remix dos Freemasons (sugestão do Daniel Cassús, que não mais tem o que fazer e passa o dia me espionando). Agora é continuar na torcida para que George Michael rompa novamente seu silêncio. Há anos que ele não lança nada. Mas o furor daqueles anos se foi para nunca mais - mesmo porque é difícil imaginar um gay assumido vender tanto, mesmo nesses tempos supostamente tão liberais.

A INFÂNCIA DA SAPATONA

Quem mais percebeu que a garotinha de "Bravura Indômita" vira lésbica quando adulta? Céus, usei um termo politicamente execrável. Ela não "vira" lésbica, sempre foi assim, I was born this waaaay. Mas quando adolescente não é tão perceptível, apesar de já ser durona e determinada. Já no epílogo do filme a vemos 25 anos depois, ainda durona e decididamente solteirona. Quer dizer, solteira no sentido tradicional: não ficamos sabendo se ela ama "uma pessoa" ou sequer se gosta de colar o velcro, mas para bom entendedor meia palavra bas. É uma sutileza típica dos irmãos Coen, que conseguiram dar toques pouco convencionais mesmo quando seguem a cartilha do filme clássico. "Bravura Indômita" é, de longe, o trabalho mais "cinemão" de Joel e Ethan. Aqui a câmera não dá piruetas, os personagens não são caricatos, a edição não é frenética. Por pouco não poderia ter sido assinado por Clint Eastwood. Essa "normalidade" fez bem para a bilheteria, a maior de toda a carreira dos caras. Muita gente tem adorado o filme; eu gostei, mas não muito além disto. O elenco todo está perfeito e o grande destaque é mesmo Hailee Steinfeld, uma protagonista enfiada entre as coadjuvantes no Oscar só para aumentar suas chances de vitória. O roteiro é mais fiel ao livro original do que a versão dos anos 60 com John Wayne, e a mensagem que eu tirei da história é interessante: mesmo o mais justo sentimento de vingança não escapará de todo impune.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TEM LOUCO PARA TUDO

Há quase três meses que eu não ia ao teatro, mas sexta passada conseguiram me arrastar para a estreia paulistana de "Igual a Você" - e isto em plena temporada de filmes do Oscar. Ainda bem que a peça é divertida e traz três atores em ponto de bala. São sete esquetes sobre disfunções várias, da insônia à insegurança crônica, passando pelo badalado TOC. Nem todos os textos são bons: alguns se alongam demais, outros perdem piadas ou não têm um desfecho satisfatório. Mas o elenco vale o ingresso. Bia Nunnes andava sumida do meu radar e é de fato um crime que esta mulher não seja (ainda) considerada a sucessora de Marília Pera. Um timing cômico perfeito, um delivery afiadíssimo. Anderson Müller também está ótimo, bastante desinibido e encarando as maiores barbaridades com total desfaçatez. Mas a grande revelação é mesmo Camila Morgado, a quem adoro e que eu só conhecia de papéis dramáticos. A moça tem uma fisicalidade absurda, tipo pastelão mesmo, e quase leva a plateia a fazer xixi na calça. Como toda coletânea, "Igual a Você" tem altos e baixos, e faltaram uns dois ou três textos melhorzinhos para um espetáculo realmente inesquecível. Mas quem gosta de teatro despretensioso não vai se frustrar.

A FANTASIA DA BICHINHA CAPIPIRA

Hollywood costuma produzir filmes para adolescentes, para casais de namorados e para mulheres de meia-idade. "Burlesque" parece ter sido feito para um público ainda mais específico: garotos gays de cidades do interior. O roteiro lembra a fantasia de uma biba de uns 14 anos, dessas que gravam a si mesmas dublando as Pussycat Dolls e depois põem o vídeo no YouTube. Qual é a quaquá que não sonha em rebolar no palco, ser aplaudida de pé e ainda ter o amor disputado por dois bofes-escândalo? Tudo aqui é primário, óbvio, tão previsível que chega a dar pena. Só os números musicais se salvam, realmente espetaculares. Cher, quase: ela ainda engole quem estiver por perto com seu carisma e seu jeito lacônico de interpretar ("And you're in my mirror because...?" já entrou para a lista das melhores falas de todos os tempos). Mas quando é obrigada a dançar, o vexame é completo. A diva mal consegue se mexer, talvez por medo de tropeçar e se partir em mil pedaços. Já Christina Aguilera dança, canta, berra, mas não encanta. Ela não chega a ser uma beldade, mas seu problema não é a falta de beleza. Liza Minnelli era muito mais feia e arrasava em "Cabaret". Christina não tem empatia. Não faz a plateia torcer por ela. As várias barrigas do filme não ajudam, e Alan Cumming - numa óbvia citação ao "Emcee" de Joel Grey - podia ter sido melhor aproveitado. "Burlesque" também precisava de mais veneno, porque do jeito que está mal vai render um número do "Glee".

DON'T GO FOR SECOND BEST, BABY


Jamais consegui assistir a uma entrega do Grammy do início ao fim. A cerimônia é longuíssima, começa muito tarde aqui no Brasil e é recheada de performances de gente que não me interessa a mínima. Ontem ainda coincidiu com um paredão especialmente dramático do "BBB", que eu sou obrigado a assistir. Mesmo assim dei umas zapeadas e vi umas coisinhas. Como o número de abertura, um tributo esgoelado à quase-moribunda Aretha Franklin. Parecia um concurso para ver quem gritava mais alto e claro que quem ganhou foi a Christina Aguilera. Depois de sua passagem triunfal pela São Paulo Fashion Week (NOT), a simpaticíssima Xtina agora parece uma drag queen de si mesma, e nem é uma das melhores. Ela precisa pegar umas dicas de emagrecimento com Jennifer Hudson, que brilhava linda ali ao seu lado. E a Florence Walsh (do + The Machine) também estava irreconhecível num vestido caretão. Pena que ela perdeu o prêmio de revelação do ano para Esperanza Spalding, que de revelação já não tem mais nada - há uns três anos que a moça faz sucesso. O regulamento do Grammy continua sem sentido.

O segundo número da noite foi um tributo a Madonna, entoado por Lady Gaga: foi emocionante ver o auditório cantando junto "Don't go for second best baby, put your love to the test..." Sei que estou sendo chato, mas esperava mais de "Born This Way", tanto da música em si como dessa apresentação. Ambas são legais, mas Gaga nos acostumou a um padrão mais alto. Work harder, bitch.


E o Grammy de melhor número lady-gaguiano da noite foi para Cee-Lo, que não só arrasou no modelito como trouxe Gwyneth Paltrow E os Muppets para dividirem os vocais com ele. Claro que foi a versão higienizada de "Fuck You", mas não se pode ter tudo. Ainda teve Janelle Monaé, Barbra Streisand e alguns outros bons momentos, mas não vou postar tudo aqui. Dá uma googlada, bitch.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O REI GAGO

"O Discurso do Rei" é um bom filme e Colin Firth merece o Oscar de melhor ator. Ponto. Podemos mudar de assunto? Não? OK. Então lá vai: é um acinte que este filme esteja a ponto de tirar o Oscar de "A Rede Social". É bonito, bem-feitíssimo e tem atores espetaculares. Mas é desimportante, simples assim. Daqui a um ano vai estar esquecido. A gagueira do rei George VI é um detalhe histórico e nem de longe deve ter sido o maior problema encontrado pelo monarca casual. Claro, serve como metáfora para o fardo que lhe foi imposto quando seu irmão Edward renunciou para se casar com Wallis Simpson. Aliás, a cena da festinha no castelo de Balmoral parece uma intromissão num filme muito mais interessante, cheio de gente viva e divertida. "O Discurso do Rei" só ficou cotado como está por causa de seus produtores, os irmãos Weinstein. Os caras comandavam a Miramax e sabem melhor do que ninguém como manipular a Academia. De 1992 a 2002 emplacaram pelo menos um filme entre os cinco indicados, e levaram a estatueta três vezes: por "O Paciente Inglês", "Shakespeare Apaixonado" e "Chicago". Justamente três dos prêmios mais polêmicos de todos os tempos. Perigam repetir a façanha novamente, com mais um filme que só entrará para a história se vencer. Dá votade de gaguejar: rou-rou-ba-balheira.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

UMA HISTÓRIA DE MÁSCARAS

Já terminei a biografia, mas ainda não saí da fase João do Rio. Agora estou lendo os contos da coletânea "Dentro da Noite", um mais mórbido do que o outro. Não entendo como o autor não é considerado o nosso Edgard Allan Poe: são historinhas de arrepiar, que renderiam ótimos filmes de terror. A que dá nome ao livro, por exemplo, é sobre um sujeito que convence a namorada a deixá-lo espetar alfinetes nos braços alvos e macios... Mas o ponto alto é mesmo "O Bebê de Tarlatana Rosa", tido por muitos como uma obra-prima. A ação se passa num baile de carnaval do começo do século passado, mas com alguns ajustes poderia muito bem se passar numa boate gay dos dias de hoje. O narrador se engraça com alguém fantasiado de bebê; o sexo da criatura nunca é definido, e não importa. Quando vai raiando a quarta-feira de cinzas eles vão para um cantinho escuro e... Leia você mesmo: o conto é curto (no livro são só oito páginas) e está inteirinho aqui. Perfeito como esquenta literário. E depois grite comigo: Live from 1910, it's Saturday night!

A VÊNUS DAS PELES

Melissa Leo fez uma longa carreira no cinema americano interpretando mulheres de classe baixa. Estou usando um eufemismo elegante: a especialidade da atriz é o chamado white trash, a escória branca da sociedade. Aquele povo que vive em trailers e tem as unhas eternamente sujas. Foi com um personagem assim que ela conseguiu sua primeira indicação há dois anos, como a sofrida mãe de "Rio Congelado". Agora ela está novamente indicada e cotadíssima para vencer o prêmio de atriz coadjuvante. Também faz uma mãe em "O Vencedor", mas esta é desbocada, cafona, uma força da natureza. Melissa liderava todas as bolsas de apostas até soltar semana passada os anúncios que ilustram este post, pagos com dinhero de seu próprio bolso. Veiculados na imprensa especializada, a campanha pede votos para a atriz mostrando-a de uma maneira inédita: envolta em peles e fazendo carão. Como se ela quisesse aparentar versatilidade - "vejam, eu também sou rica!". Só que a iniciativa não pegou bem. Já tem neguinho dizendo que mudou de ideia e que este é um dos maiores micos do ano. Concordo que ela não convence mesmo como glamurosa. Ficou com cara de faxineira humilde que ganhou na loteria. Mas perder o Oscar só por causa disto? Pois é, você pode querer o prêmio e até pedir votos - mas não pode parecer que quer muito.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

MABRUK

A pergunta que não quer calar: será que a Shakira está chateada? Sim, porque, para quem não sabe, o sobrenome dela é... Mubarak. E agora chega de piada sem graça porque hoje é um dia histórico. O que está acontecendo lá no Egito tem simplesmente o poder de mudar o curso da história do mundo inteiro. Uma explosão de democracia no mundo árabe traria, a médio prazo, o fim do terrorismo islâmico, paz, prosperidade e 72 virgens para cada um de nós quando chegarmos ao reino dos céus (OK, exagerei um teco). Claro que ainda é cedo para comemorar, pois ninguém sabe o que vai acontecer. Nenhum ditador opera no vácuo e Hosni Mubarak era cercado por todo um aparato militar que continua lá, firme e forte. O exército egípcio controla cerca de 30% da economia do país e muitos generais são quaquilhardários. É óbvio que essa turma não vai largar o osso assim tão fácil. Mas o povo unido jamais será vencido: caiu o regime da Tunísia, caiu o do Egito, e agora, qual será o próximo? O Iêmen, a Síria, a Jordânia? Ou veremos um recrudescimento da repressão, inclusive em países como o Irã e a China? Essas questões serão respondidas mais tarde. Toda revolução é um processo longo e tortuoso, e faz só 18 dias que os protestos começaram no Cairo. Por enquanto, só posso mandar para os egípcios um "mabruk" (parabéns) do fundo do meu coração.

DON'T BE A DRAG, JUST BE A QUEEN

Impossível não se decepcionar com "Born This Way", a nova música da Lady Gaga que foi lançada hoje. A moça passou meses avisando que esta seria a melhor canção de todos os tempos, que iria vender duzentos bilhões de discos e que a história da humanidade se dividiria entre antes e depois de "B.T.W" (a íntima). Até que a faixa é legalzinha e tem um refrão grudento, perfeito para ser cantado aos berros numa pista lotada. Mas não é inovadora como "Bad Romance" - na verdade, lembra tanto "Express Yourself" que Madonna deve estar se revirando no túmulo. Daqui a uns três minutos vão pulular mash-ups das duas músicas na internet, assim como remixes feitos até por aquela sua tia que agora é DJ. Aliás, foi espertíssima a estratégia de adiantar o lançamento em dois dias. Assim todo mundo vai cantar junto quando Gaga se apresentar no Grammy neste domingo. Pelo menos a letra, libertária e anti-bullying, é mesmo sensacional.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

NATAL FORA DE ÉPOCA

Com quase três meses de atraso, foi lançado no Brasil "A Christmas Cornucopia", o disco de Natal da Annie Lennox. Depois as gravadoras reclamam que ninguém mais compra CD... Bom, esse eu comprei com atraso e tudo, porque Annie é uma cantora espetacular e uma artista interessantíssima (as duas coisas nem sempre andam juntas). É verdade que de uns tempos para cá ela virou uma chata de galochas: não consegue dar uma entrevista sem falar na África, na AIDS, nas criancinhas famintas. Mas continua indo fundo em tudo o que faz. "Cornucopia" não tem sininhos nem serve de fundo musical para shopping. Todas as canções são - gasp - religiosas, vindas do folclore inglês, francês e alemão (só a última faixa, "Universal Child", é inédita). Os arranjos têm tambores e coros que remetem à Idade Média. Ou seja, é mais apropriado para se ouvir num retiro espiritual do que numa ceia com crianças barulhentas. Um uneasy listening que lembra que ser cristão não é fácil. Mesmo assim Annie nunca perde o humor, como se pode ver no clipe abaixo. Agora, num próximo disco bem que ela poderia voltar a ser mundana como nos bons velhos tempos de "Sweet Dreams Are Made of This", né? Assim ficaria mais fácil ir entrando no clima do carnaval que se aproxima.

TEM ESPOSA QUE É CEGA

Recebi por um comentário o link para um blog interessante: "Sim, Meu Ex-Marido é Bissexual". Criado por alguém que se assina simplesmente como "Esposa", ele joga um holofote sobre um dos medos mais frequentes das mulheres de hoje - será que o cara com quem eu estou é gay? Mais de uma amiga já me veio perguntar se eu tinha captado sinais estranhos vindos de seu namorado, e outro dia respondi na minha coluna da "Women's Health" à pergunta de uma moça aflita que queria saber se fio-terra é "normal" (claro que é). O blog em questão já tem colaboradores, como outras mulheres que contam suas próprias histórias e até mesmo rapazes de vida dupla que trazem sua versão dos fatos. Felizmente, não há ranço homofóbico. A própria autora ressalta que "não tem ódio" às bibas, ufa, que alívio. Mas há muita, muita mágoa. Descobrir que o namorado ou marido sente atração por homens parece ser a humilhação suprema para as mulheres. Aposto que elas prefeririam que eles fossem traficantes, alcóolatras ou deputados corruptos. Porque casar com gay é receber um carimbo de "burra" bem no meio da testa. "Como é que você nunca percebeu antes, sua tonta?". Espero que chegue o dia em que menos homens se forcem a uma vida hétero, poupando inúmeros dissabores a si mesmos e a suas futuras cônjuges. Mas não seria bacana se todo mundo encarasse a sexualidade como algo fluido, que não cabe em rótulos rígidos? Foda e deixe foder, este é o meu lema.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

OS GAYS QUE FALTAM NA TV

Só hoje consegui ler aquela matéria de capa da "Entertainment Weekly" sobre os adolescentes gays na TV americana. Eles são uma presença constante e crescente desde o começo dos anos 90. O Kurt de "Glee" é só o mais famoso. Há muitos outros, meninos e meninas. Dos mais destrambelhados aos mais comportados. Dos que vivem lindos, leves e soltos aos que sofrem nas mãos da família e dos bullys. E, como diria Carrie Bradshaw, I couldn't help but wonder: por que não temos deste último tipo por aqui? As bibas na TV brasileira vêm em apenas dois sabores. As discretas e perfeitamente ajustadas, que não dão bandeira alguma e são totalmente inofensivas - uma tentativa válida de mostrar que gays são gente normal, mas que acaba por nos tornar quase invisíveis. E as desmunhecadas e desencanadas, que vão desde a saudosa Vera Verão até o atual Roni Fragonard de "Insensato Coração". Ainda é pouco.

Atenção, não estou reclamando. Nunca se viu tanta bicha na TV. Além do célebre núcleo gay que está prestes a aparecer na novela de Gilberto Braga, temos também a militante "Ti Ti Ti". A cena em que Marcela convence Bruna a aceitar a homossexualidade do filho morto já entrou para a história. Mas o que eu ainda não vi foi um garoto apanhando na saída do colégio, uma sapatinha se abrindo para os pais e sendo rejeitada, um afeminado sendo expulso de casa. Como prega o quadro "Gayme" do "Amor & Sexo", parece que só viemos ao mundo para trazer alegria. Ninguém está interessado nos nossos problemas, muito menos em ver na TV as consequências do preconceito e da violência. Nada ia mudar mais a opinião dos brasileiros do que um personagem cativante que sofresse no vídeo o que muitos sofrem na vida real. Bom, ainda estamos em tempo. "Insensato Coração" terá conflitos homofóbicos, o que certamente dará margem para muito debate. Mas ainda falta mostrar o complicado processo de saída do armário. Fikdik pros nossos autores, muitos deles gays também.

ATUALIZAÇÃO: Gilberto Braga deu uma entrevista à Junior confirmado que acontecerão tries ataques homofóbicos sérios em "Insensato Coração", um deles resultando na morte de um personagem. Leia aqui a matéria do MixBrasil sobre o assunto.

ÁGUA MORTA

Alguém aí está conseguindo sentir vergonha alheia pela Cristina Mortágua? Eu não. Esta sensação só me aparece quando não quero que alguém se exponha muito. Mas venho acompanhando a implosão pública da ex-modelo com um certo prazer mórbido. Justificar para a imprensa que agredia o filho por ele ser gay é um pouco demais, não? Cadeia nela! Nessa história toda, pelo menos o garoto Alexandre está saindo com a dignidade intacta. Palmas para ele, que se assumiu homossexual para todo o Brasil com apenas 16 anos, e ainda tendo como pai um ex-jogador com fama de truculento. Já Cristina vai sair com mais uns 15 segundos de fama, que certamente ela irá explorar da maneira mais vulgar possível. Oooocaaaa!!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

CRIOU PATA A ARANHINHA DO EGÍDIO

Cleópatra é de longe a mulher mais célebre da Antiguidade, mas nem por isto a conhecemos bem. Sua fama de cachorra sedutora vem da propaganda espalhada pelos que a derrotaram, os romanos. E seu visual moreno, com os olhos delineados com khajal, vem de Hollywood. A última rainha do Egito era de origem grega e possivelmente loura. Seu perfil em moedas mostra uma mulher de cabelos curtos, ou com um penteado parecido com o que aparece na capa do livro aí ao lado. Essa biografia foi escrita por Stacy Schiff, vencedora do mais imortante prêmio americano de jornalismo, o Pulitzer. E vem sendo saudada como a obra definitiva, ao retratar uma mulher inteligente que até que soube manobrar no conturbado cenário político de sua época (não por muito tempo). Vá lá, ela era mesmo inescrupulosa: matou pelo menos dois de seus irmãos, que lhe contestavam o trono. O livro me chegou hoje pela Amazon e eu estou tão excitado que faço este post antes mesmo de começar a ler. Depois eu conto se é mesmo tudo isto.

FERRO SE TRANSFORMA EM OURO

Pronto, já sabemos quem vai ganhar o Oscar de melhor atriz no ano que vem: Meryl Streep. Ela venceu duas vezes no começo da carreira mas, milhares de indicações depois, há hoje um consenso de que merece um terceiro troféu. Dessa vez acho que rola: Meryl está rodando "Iron Lady", sobre a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher. A diretora é Phyllida Law, que não realizou um grande trabalho em "Mamma Mia!". Mas La Streep é tão boa atriz que nem precisa estar se mexendo para convencer. Repare como ela consegue captar a exata expressão da Dama de Ferro. Chega a ser aflitivo.

WRITE IT GAY

A temporada de prêmios do cinema americano está a todo vapor. Fim de semana passada foram entregues os WGA, Writer's Guild Awards, para os melhores roteiristas do ano. "A Origem" venceu como roteiro original e "A Rede Social" como adaptado, o que aumenta as chances de ambos no Oscar. Mas o ponto alto da noite foi mesmo o número de abertura protagonizado pelos apresentadores Jesse Tyler Ferguson e Eric Stonestreet. Os dois fazem o casal gay da série "Família Moderna" e cantaram uma versão homossexualizada do clássico "Make Them Laugh", de "Cantando na Chuva". Tem referências a "Glee" e "Cisne Negro" e uma mensagem interessante: para se fazer sucesso hoje em dia, é preciso "escrever gay". Aham...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

REDE FURADA

Continuo me sentindo culpado por ouvir tão pouca música brasileira. Por isto, semana passada fiz na Livraria da Travessa de Ipanema o que eu costumo fazer quando visito uma loja de discos no exterior: comprei vários CDs "às surdas", só pela capa e pelo que ouvi falar. É meio parecido com pescar com rede. Vem alguma porcaria, claro, mas também vêm preciosidades. Como eu estava me sentindo muito rico, levei de uma só vez os últimos discos de Cibelle, Silvia Machete e Nina Becker.

E me desapontei com todos. Veja bem, nenhum desses trabalhos é ruim. São todas boas cantoras, com bons repertórios e coisa e tal. Mas são muito parecidas entre si, e nenhuma me empolgou muito. As vozes são finiiiiiinhas, afinadíssimas mas meio enjoadas. Senti falta de um arrebatamento maior, sei lá - uma coisa tipo Maria Bethânia. Ou então algo realmente radical, com arranjos eletrônicos ou cantos indígenas. Mas todas seguem mais ou menos a mesma cartilha, apesar dos arranjos de Cibelle serem os mais ousados. As semelhanças são tão grandes que tanto ela como Silvia Machete gravaram a mesmíssima "Underneath the Mango Tree", uma canção da trilha de "O Satânico Dr. No", o primeiro filme de James Bond.

Ainda não ouvi nenhum dos discos mais do que duas vezes, então minha opinião pode mudar. Os dois álbuns simultâneos de Nina Becker - "Azul", mais intimista, e "Vermelho", mais animado - me parecem mais sutis, daqueles que levam um tempo para a gente se acostumar. Mas não era bem isto o que eu procurava. Queria achar uma cantora que me fizesse maldizer a pouca atenção que eu dou à música do nosso país, que me provocasse lágrimas de arrependimento pelo tempo perdido. Ainda não foi desta vez. Alguma sugestão?

domingo, 6 de fevereiro de 2011

FAMÍLIA PESO-PESADO

Não resisto a comparar "O Vencedor" com "Cisne Negro", ainda mais porque vi os filmes em dias seguidos. Em ambos há alguém que trabalha muito para se sobressair numa atividade que demanda enorme esforço físico, empurrados por um contexto familiar obcecado. Mas, ao contrário da desequilibrada bailarina Nina, o lutador Micky Ward tem a cabeça no lugar. É o único que consegue manter alguma calma num ambiente onde todo mundo grita e se arranca os cabelos o tempo todo. Mark Wahlberg está até discreto no papel, o que fez com que não fosse indicado ao Oscar. Todo seu entorno foi. Amy Adams se sai muito bem como uma garota durona, bem longe das ingênuas que ela costuma fazer. Christian Bale deve vencer como ator coadjuvante, pois emagreceu muito e reproduz todos os tiques de um viciado em crack. Melissa Leo também deve sair vitoriosa: é uma character actress veteraníssima, e está perfeita como a mãe destrambelhada e dominadora. O título do filme é até enganoso, pois o verdadeiro protagonista nem é Micky e sim sua conturbada família. Nem chega bem a ser um filme de boxe. O diretor David O. Russell sequer tenta filmar as lutas de um jeito arrojado, como Martin Scorsese fez em "Touro Indomável". As imagens dos embates são todas com textura de vídeo, enquadradas por câmeras de TV. É uma decisão acertada, pois o que interessa mesmo é o que acontece fora do ringue. Mas não justifica sua indicação ao Oscar. É difícil acreditar que ele tomou o lugar de Christopher Nolan, que fez "A Origem", com este filme correto mas bastante convencional.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

GRAND JETÉ

Tem coisa melhor do que esperar muito de um flme e não se decepcionar? "Cisne Negro" é tudo o que eu imaginava, e mais. É barroco e rebuscado, mas o diretor Darren Aronofsky não perde o controle em nenhum momento. O cara não tem medo do over. A sequência final tem um efeito que poderia ter dado muito errado, mas não deu. É arrebetadora e apavorante, o desfecho perfeito para um mergulho na loucura da protagonista. Natalie Portman vai mesmo ganhar o Oscar, não só porque está em todas as cenas como porque a Academia adora papéis que requerem sofrimento físico - e dá para perceber como ela sofreu. A bailarina Nina sangra, quebra a unha do dedão do pé, se machuca de mil maneiras. Inclusive por dentro. As mulheres que a cercam são todas seus duplos, feitas por atrizes também morenas e meio parecidas entre si. Barbara Hershey faz a mãe, talvez a segunda pior de toda a história do cinema - só perde para a de Carrie, a Estranha. Winona Ryder aparece pouco, mas o suficiente para lembrar-nos que, tanto no balé como no próprio filme, há 10 anos o papel principal seria dela. E Mila Kunis está simplesmente deliciosa: sexy, relaxada, o lado branco da personalidade de Nina que ela insiste em ver como negro. A câmera rodopia, a montagem é frenética, o roteiro bem amarrado... e mesmo assim "Cisne Negro" não é uma unanimidade. Tenho lido por aí críticas apaixonadas, pró e contra, e acho mesmo que o filme não é para todo mundo. Meu marido Oscar, por exemplo, odiou: achou Natalie péssima e um sacrilégio que vá roubar o Oscar de Annette Bening. Mas eu saí em êxtase do cinema, e quem gosta de filmes com esse clima meio camp, entre o glamour e a cafonice, vai adorar também. Para mim já nasceu clássico.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

MARTA SE REDIME

Sem nunca ter sido petista, votei várias vezes em Marta Suplicy. Via nela uma defensora ardorosa dos direitos igualitários, além de uma mulher decidida e esclarecida. Mas ela entrou para minha lista negra por causa da campanha eleitoral de 2008. No ímpeto de derrotar o prefeito Gilberto Kassab, seu comitê lançou o famigerado comercial que perguntava "É casado? Tem filhos?". Aquilo ficou atravessado na minha garganta. Ano passado sequer a cogitei para senadora; talvez tivesse votado antes no Netinho ou no Moacyr Franco do que nela (mentira, teria não). Mas agora me arrependo, porque a ex-mme. Favre conseguiu a vice-presidência do Senado e qual foi sua primeira providência? Desarquivar o PLC 122, o projeto de lei que criminaliza a homofobia e que, depois de anos mofando no Congresso, foi tirado da pauta no princípio do ano. Marta conseguiu facilmente as 27 assinaturas necessárias e será a nova relatora. Claro que o texto deverá passar por dezenas de alterações e comissões até chegar ao plenário, e nem de longe a aprovação é garantida. Mas se somarmos esta notícia com as que vêm do Supremo, dá para desconfiar que o governo Dilma quer mudar mesmo a situação dos LGBT no Brasil.

MEMÓRIAS DO TANGO

Este não é um post em homenagem a Maria Schneider. Nunca fui muito fã da moça. Ela sempre me pareceu meio desleixada demais, precisando de um banho e de uma depilação. Mas sua morte na manhã de ontem me deixou com vontade de rever "O Último Tango em Paris", um filme maravilhoso que foi ofuscado por sua fama de pornográfico. Eu tinha 12 anos quando estourou o escândalo. "Tango" foi proibido em muitos países, inclusive no Brasil, e na minha cabecinha de pré-adolescente era uma coisa muito mais explícita do que realmente é. O filme foi liberado por aqui em 1979, com a abertura democrática, e eu o vi duas vezes no cinema. Tinha mesmo cenas fortes, como a lendária sequência da manteiga, mas Marlon Brando não fazia nu frontal (apesar de ainda estar um tesão aos 48 anos) e não havia nem sombra daquilo entrando naquilo. O que mais se ouvia de quem tinha visto era "não achei nada de mais". Aquela época foi pródiga em estreias polêmicas: quase tudo que havia sido censurado no tempo da ditadura estreou meio que ao mesmo tempo, e quem procurava sacanagem para valer se saciou com "O Império dos Sentidos". Hoje, mais de 30 anos depois, resolvi comprar "O Último Tango" em DVD. Além de tudo o filme tem uma das trilhas mais bonitas de todos os tempos, composta pelo argentino Gato Barbieri. Além de Brando no auge, Bertolucci despontando, Paris sempre Paris... Só a Maria Schneider que não me deixa muito assanhado. Mas uma coisa tenho que admitir: ela era mesmo do balacobaco, ao se expor daquele jeito com apenas 19 anos. Que descanse em paz.