domingo, 31 de outubro de 2010

O "INCEPTION" TAILANDÊS

Estava meio apreensivo para ver "Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas". Ouvi falar muito mal de "Enfermidade Tropical", o filme anterior do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul: diziam que era tão chato e sem pé nem cabeça que muita gente saía no meio. Não teria o menor interesse por "Tio Boonmee" se ele não tivesse ganho a Palma de Ouro no último Festival de Cannes. Mas ganhou, e como preciso ter todas no currículo, lá fomos nós para a Mostra. Pensei até em fumar um morretón antes, mas fiquei com medo de dormir ao volante e bater o carro (brincadeira, seu guarda, nem sei o que é isto). Fui tão preparado para me aborrecer que acabei embarcando no filme. O ritmo é lento, meio hipnótico, mas nunca arrastado. Sempre interessante, sempre fazendo pensar. A história é simples e amorosa: um homem com uma grave deficiência renal vai para uma casa na floresta junto com a irmã e o sobrinho. Lá, recebe as visitas do fantasma da mulher e do filho desaparecido, que se tansformou num macaco com olhos vermelhos. Mas nada é assustador, muito pelo contrário: o diretor cria uma atmosfera reconfortante e espiritualizada. "Tio Boonmee" é uma espécie de "Inception" sem trama policial: são sonhos dentro de sonhos, alguns fáceis de entender, outros impenetráveis, como são os da vida real. Li que o filme reflete uma concepção budista do mundo, com carma e reencarnações. Não entendo do assunto, mas sei que gostei bastante.

OS MODELOS DESTE ANO

Quando eu era adolescente, os artistas pop lançavam disco todo ano. Até mais: "Queen II" saiu em março de 1974 e "Sheer Heart Attack" em dezembro, duas das muitas obras-primas do meu adorado Queen. Mas a partir dos anos 80 os lançamentos foram ficando mais espaçados. Os custos de gravação e promoção, aliados às turnês intermináveis, fizeram com que os intervalos entre um álbum e outro fossem se dilatando. Essa regra valeu há até pouco tempo, e quem ainda a seguia se deu mal. Christina Aguilera ficou quatro anos sem um CD de inéditas, só para perceber que seu fã-clube tinha se evaporado quando saiu o fraco "Bionic". Por escolha artística ou para evitar o prejuízo, nomes importantes como a colombiana Shakira ou a dupla norueguesa Röyksopp estão com trabalhos novos na praça, um ano depois dos anteriores. São propostas diferentes que foram em direções opostas, mas ambas resultaram medianas.

"Senior" já estava programado. É a continuação de "Junior", o disco de 2009 do Röyksopp, cheio de melodias grudentas e vocalistas convidados. Aqui o "sopa de cogumelos" radicalizou: libertou-se do formato canção, das letras, dos vocais, do compromisso com as paradas de sucesso. As faixas de "Senior" são todas instrumentais e algumas bem longas. Funcionam maravilhosamente como papel de parede sonoro, caso da semi-fofa "Senior Living". Adoro esses escandinavos e compraria até um disco onde eles relessem o cancioneiro viking, mas prefiro suas musiquinhas "normais", daquelas para assobiar.

"Sale el Sol" parece ter sido feito às pressas. Talvez porque "Loba", do ano passado, tenha vendido menos do que o esperado - e isto apesar das críticas excelentes. Aquele foi o primeiro disco coerente de Shakira, bom do começo ao fim, com uma pegada eletrônica moderna e retrô ao mesmo tempo. Agora ela volta ao arroz com frijoles de sempre: latinidade, baladonas românticas, gemidos de prazer. Sua persona de ninfomaníaca me cansa um pouco, mas é inegável que ela está caliente nas faixas que encarnam o reggaetón, como o hit "Loca" ou a quase pornográfica "Gordita", com participação dos porto-riquenhos do Calle 13. "Sale el Sol" é agradável, mas é um passinho atrás em termos artísticos. Mas também, só eu mesmo para cobrar arte de alguém como Shakira.

sábado, 30 de outubro de 2010

O SHAKESPEARE ESPANHOL

O Gustavo Miranda do Bota Dentro já tinha me avisado: "Lope" é bonito porém meio arrastado, e só engrena mesmo na última meia hora. Essa superprodução sobre o escritor Lope de Vega não foi muito bem recebida na Espanha, talvez por ser dirigida pelo brasileiro Andrucha Waddington. É cinemão com C maiúsculo, quase quadrado. A direção de arte e os figurinos do século 16 são tão realistas que a gente sai querendo tomar banho: todo mundo está sempre sujo, suado, com o cabelo amarfanhado. Lope de Vega escreveu mais de 2.000 peças de teatro, das quais "apenas" 500 sobreviveram: é o Shakespeare espanhol, com uma obra muitíssimo maior que seu colega inglês. Teve 14 filhos de várias mulheres diferentes e esta cine-biografia cobre apenas o começo de sua longa carreira. O ator argentino Alberto Amman não tem beleza nem carisma, e não convence um segundo como um poeta ferino e sedutor. Não é páreo para Leonor Watling e Pila López Ayala, duas das estrelas espanholas mais calientes da atualidade. Selton Mello não compromete como um marquês português que encomenda uns versos ao autor, e a brava Sonia Braga faz uma pequena participação como a mãe do protagonista, caracterizada como uma velha decrépita (foi dublada em espanhol). "Lope" esteve entre entre os três finalistas para a indicação da Espanha ao Oscar de filme estrangeiro, mas foi preterido por "Hasta la Lluvia". É um filme honesto, mas uma vida agitada e transgressora como a de Lope de Vega merecia um tratamento mais ousado.

TEM QUE SER MUITO HOMEM

Estou fascinado com o caso do cartunista Laerte, que eu só descobri ontem lendo o blog da Lindinalva. O cara é crossdresser radical e, aos 60 anos de idade, não só se veste de mulher o tempo todo como se depila e pinta as unhas. O mais curioso é que continua hétero e tem até namorada, que deve ser a moça mais compreensiva do mundo. De fato, crossdressing não tem necessariamente a ver com homossexualidade: um caso famoso é o do cineasta Ed Wood, que namorava garotas lindas mas curtia lingerie e perucas. A coragem de Laerte de vir a público e dar entrevista sobre o assunto é admirável e libertadora. O cara não está nem aí, é dono do próprio nariz e faz o que quiser a esta altura da vida. Acho que só faria o mesmo se, ao me travestir, eu ficasse parecido com Catherine Deneuve.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

AMOR OBJETO

"O Louco Amor de Yves Saint Laurent" é Pierre Bergé. É ele a estrela deste documentário, rodado logo após a morte do estilista, em 2008. Bergé conta tudo, ou quase: como os dois se conheceram, como estabeleceram uma sociedade nos negócios e no amor, como as drogas os separaram mas não muito. Enquanto isto, funcionários da Christie's empacotam a coleção quaquilionária que o casal amealhou em quase 50 anos de vida em comum. Quadros, móveis, objets d'art, o suficiente para rechear vários museus. O que mais me espantou foi a pressa de Bergé de se livrar de tudo aquilo. Inclusive admite que, se fosse ele quem tivesse morrido, Saint Laurent não teria se desfeito de nada. O filme termina com o leilão no Grand Palais, em Paris. Uma única poltrona foi vendida por 20 milhões de euros. Foi me dando um nervoso... Pierre Bergé está velho, nem tem mais como aproveitar tanto dinheiro. O que importa para ele parece ser se livrar da coleção, não aguenta nem mais um minuto perto dela. O filme é mesmo um retrato fascinante de uma relação fora do comum. E deve entrar logo em cartaz, pois já está legendado em português. À ne pas manquer.

(Ao contrário de outros filmes que vi na Mostra de SP, não vou postar o trailer, pois ele já tinha sido visto aqui no meu blog.)

AMERICA THE BEAUTIFUL

Este suculento pedaço de filé mignon é Chris Evans, recém-bombado para fazer o papel principal de "Capitão América". Não curto cara musculoso demais, mas quando não passa do ponto... nada mau, hein? Mesmo sabendo que a ciência passou por aí - afinal, como diz um conhecido meu, quem cresce sozinho é planta. Agora, a pergunta que não quer calar: no começo da trama, Steve Rogers (a identidade secreta do Capitão) é um rapaz magricela, um autêntico lambisgóia. Para usar o mesmo ator, vão ter que desinflá-lo?

EL PINGUINO

Se eu fosse um evangélico homofóbico, diria que Deus castigou Cristina Kirchner por ter aprovado o casamento gay na Argentina. Mas não sou, graças a Deus, e, apesar de não nutrir muita simpatia pelo casal K, fiquei triste pela súbita morte do ex-presidente Néstor anteontem. O cara conseguiu arrancar a Argentina da crise mais profunda entre as muitas que o país já atravessou. Por outro lado, também é suspeito de ter multiplicado sua fortuna desde que subiu ao poder. Vinha da fria Patagônia e era chamado de "el Pinguino", ave com a qual até se parecia (também era a cara do Marty Feldman, o mordomo Igor de "O Jovem Frankenstein"). Kirchner era um presente para os cartunistas: seu rosto era uma caricatura pronta. Ia tentar a reeleição ano que vem, mas os analistas dizem que não seria fácil - inflação, criminalidade e um conflito eterno com a imprensa estavam erodindo sua popularidade. O que vem por aí? Um amigo que foi correspondente em Buenos Aires me conta que a política argentina é ainda mais suja que a brasileira. Sujeira ou não, o fato é que o casal K avançou os direitos igualitários como ninguém mais na América Latina. Que sirvam de exemplo para o nosso próximo presidente.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

SOLTANDO FOGOS

Katy Perry diz que o vídeo de "Firework" é sua contribuição para a campanha "It Gets Better", aquela que já fez até com que o Obama gravasse uma mensagem contra o bullying. Achei fofo, se bem que meio ingênuo: um cara que está prestes a levar uma surra amansa seus agressores fazendo mágicas? E soltar fogos pelo peito vai ajudar uma criancinha com câncer a se curar? Tá certo, estou de má vontade. O vídeo é emocionante, e ainda aproveita a beleza de uma cidade relativamente pouco badalada - Budapeste. Mas ainda não foi dessa vez que a gente viu o peacock.

O PRÍNCIPE NO ARMÁRIO

Sou totalmente monarquista. Adoraria que o Brasil tivesse um imperador moderno e bacana, feito o rei Juan Carlos da Espanha. Por outro lado, viva a República, que nos salvou de d. Luís e d. Bertrand de Orleans Bragança. O primeiro é o herdeiro pressuposto do trono brasileiro, o segundo é seu irmão. Os dois fizeram voto de castidade e são ligados à TFP; dá para imaginar que um Brasil onde algum deles reinasse proibiria mulher de calça comprida. Hoje d. Bertrand assina um artigo na "Folha de São Paulo" na página "Tendências/Debates", lamentando a ausência de um candidato explicitamente de direita na eleição - que, segundo ele, daria voz ao Brasil "profundo e conservador", vulgo medieval. Ah, e antes que alguém acuse a "Folha" de dar voz a esse reaça: logo acima, na mesma página, há uma matéria bem mais longa e melhor escrita de José de Filippi Jr., ex-prefeito de Diadema e recém-leieto deputado federal, onde ele explica de maneira bem argumentada porque votará em Dilma. Mas voltando a d. Bertrand: que cara de quem comeu e não gostou, hein? Ou melhor, cara de quem não comeu, não deu, não chupou, nunca fez nada do que tivesse vontade. Ele parece se encaixar perfeitamente na carapuça do homofóbico que luta contra seus próprios desejos. Ainda bem que o Brasil escapou dessa.

O PRÓXIMO BLOCKBUSTER

"VIPs" saiu do forno há tão pouco tempo que nem trailer tem ainda, só o teaser acima. A estreia está marcada para março de 2011, depois que baixar a poeira de "Tropa de Elite 2", para evitar a superexposição do Wagner Moura. Ele está em todas as cenas do filme, no melhor papel de sua vida até agora. É ainda mais talentoso do que eu pensava. "VIPs" é uma adaptação ficcional da história real de Marcelo do Nascimento Rocha, o cara que se fez passar por Henrique Constantino, o herdeiro da Gol, além de se envolver com tráfico de drogas e diversos outros golpes. E o que se vê na tela é de tirar o fôlego: ação de dar inveja a Steven Spielberg, tiradas de humor, atores fantásticos. Vai fazer muito, muito dinheiro, até pelo ineditismo: não me lembro de nenhum outro filme brasileiro com pegada parecida. E os afobados como eu ainda têm duas chances de ver "VIPs" na Mostra. Agarre-o se puder.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

NÃO ME CONVIDARAM PARA ESSA FESTA POBRE

A pergunta do momento não é mais "quem vai ganhar as eleições?", e sim "por que o Viva exibe 'Vale Tudo' tão tarde?". Bom, um passarinho que trabalha no canal me explicou que é por causa da Globo. A emissora não quer que aquela novela, produzida no distante 1988, passe no horário nobre porque vai causar um estrago em sua programação. E vai mesmo: apesar da imagem envelhecida e das referências datadas, "Vale Tudo" é, de longe, a melhor produção brasileira no ar atualmente. Haja visto o reboliço que vem causando por aí, inclusive no Twitter - como assim, você ainda não está seguindo a Solange Duprat ou a Revista Tomorrow? Aliás, Ilha de Caras já era, assim como o Prêmio Contigo ou as festas da Vogue. Não existe nada mais cool do que sair na capa da Tomorrow, néam? E quando é que vão relançar a trilha, santa Odete? É uma música melhor que a outra, e nenhuma supera a versão em português de "Eye in the Sky" do Allan Parsons Project. Também podiam fazer um remake, com Cléo Pires como Maria de Fátima, Wagner Moura como Afonso, Cauã Reymond como César... Afinal, depois desses anos todos o Brasil não mudou tanto assim de cara.

A ANTI-HOGWARTS

"Não me Abandone Jamais", em cartaz na Mostra de SP, fracassou redondamente nas bilheterias dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. E isto apesar de contar com um elenco primoroso, uma direção segura e ser baseado num best-seller do autor nipo-britânico Kazuo Ishiguro, que também escreveu "Os Vestígios do Dia". Mas dá para entender: o filme é sério candidato ao título de mais deprimente de todos os tempos. Isto não quer dizer que não seja ótimo. Não se deixe enganar pelas aparências: grande parte da trama se passa num colégio interno que lembra o de milhares de outros do cinema inglês, mas estamos bem longe do clima bucólico dos livros de Jane Austen. Há um segredo horripilante, que é revelado logo no começo. O que mais posso dizer sem estragá-lo? Que o tal do colégio, Hailsham, é uma espécie de oposto de Hogwarts, a academia de bruxinhos da série "Harry Potter". Lá, todos os alunos têm poderes especiais; aqui, eles não têm poder sobre absolutamente nada. "Não me Abandone Jamais" também pode ser lido como uma alegoria do mundo em que vivemos. Mais não contarei. Vá ver, coragem - mas vá num dia em que você estiver bem.

CASTING CALL

O encontro dos blogueiros gays no sábado passado teve menos quórum do que nas outras vezes, mas gerou um resultado prático. Muitos dos presentes gostaram da minha ideia de fazer uma versão brasileira do vídeo da campanha FCKH8, e nos propusemos a produzi-lo para ser apresentado durante o próximo festival MixBrasil, em novembro. O André Fischer até já comentou no blog dele, e eu estou adaptando o texto original para a nossa realidade. Vai se chamar "NÃO SE META!", que tal? Achamos que a produção deve ser semelhante à dos EUA: tudo gravado todo em estúdio, ao invés de uma coletânea de depoimentos caseiros enviados de todo o Brasil. O Nelson Sheep do Superpride ficou de agitar o estúdio da faculdade onde estuda, e agora estamos atrás de voluntários para aparecerem no vídeo. Sei que bibas teremos muitas, mas também precisamos de lésbicas, travestis, ursos e casais homoafetivos, além de filhos, mães e amigos héteros de gays, numa mistura semelhante à dos EUA. A data e o local da gravação ainda não estão confirmados, mas antes disto já queremos saber: quem se habilita?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

OLYMPIAAAAA

Bryan Ferry é um tipo curioso de heterossexual: aquele que não gosta exatamente de mulher, mas de mulher produzida. Que usa roupas de griffe, passa horas no cabeleireiro e sabe fazer biquinho quando vê uma câmera apontada em sua direção. Desde os tempos do Roxy Music que Ferry põe essas beldades nas capas de seus discos. Entre as muitas que já posaram para ele estão sua ex-mulher Jerry Hall (pré-Mick Jagger), a trans Amanda Lear e, no recém-lançado "Olympia", Kate Moss, a Branca de Neve moderna. Elas também abundam no clip de "You Can Dance", que bem que tenta, mas não consegue replicar o climão fashion de "Addicted to Love" do saudoso Robert Palmer. Mesmo assim estou curioso para ouvir o disco inteiro, porque até gosto do som ferryano. E quero só ver o que ele fez com "Song to the Siren", imortalizada na versão do This Mortal Coil.

FADIGA ELEITORAL

A possibilidade de um 2o. turno é uma das melhores coisas que a Constituição de 88 fez pelo Brasil. Traz legitimidade para os eleitos e evita situações vexatórias como a que os EUA viveram em 2000 ou o México em 2006. Mas havemos de convir: quatro semanas entre um turno e outro é um pouco meio muito, não? Meu, não aguento mais essa eleição. Já estou pelas tampas. Não votei em nenhum dos dois candidatos, e a cada dia que passa eles caem um pouco mais no meu conceito. Semana passada Lula fez mais um de seus papelões, que seriam folclóricos se não prejudicassem a democracia. A reação do presidente (e a de Dilma também) à agressão que Serra sofreu no Rio é simplesmente lamentável. Oito anos depois, parece que a ficha de chefe de estado ainda não caiu: Luís Inácio continua se comportando como um líder sindical na porta da fábrica, chutando piquetes e patrões. Hoje veio a notícia de que Serra prometeu aos evangélicos vetar a Lei da Homofobia, na cada vez mais distante hipótese dela ser aprovada no Congresso. Pelo menos ele saiu pela tangente quando perguntado sobre a "união" gay. Mas a reputação do tucano já está manchada e ele vai entrar para a História como alguém que lutou contra o rumo desta, em sua ensandencida fome de poder. Fui um dos que celebrou o 2o. turno de 2010, mas agora não vejo a hora dessa porra terminar. Ô eleiçãozinha de merda.

MARCO ZERO

Passei a manhã de hoje zanzando entre os Poupatempos. Primeiro fui ao da Luz retirar a 3a. via da minha carteira de identidade (a 1a. foi roubada num assalto em 1986, a 2a. foi perdida no Peru em 2006, e passei os últimos 4 anos usando apenas a carteira de motorista). Queria aproveitar a viagem e tirar também a 2a. via da carteira de trabalho (pois é, perdi também), mas o Poupatempo da Luz não presta este serviço. Toquei então para o da Sé, e chegando lá descobri que o extrato do FGTS que eu levava não tinha o número da CTPS. Precisei caminhar até uma agência da Caixa Econômica na Rua Direita. Foi neste percurso que me impressionei, mais uma vez, com o vigor e a imundície do centro velho de São Paulo. Ainda restam algumas construções do século 19, a maioria literalmente caindo aos pedaços. Rara é a superfície que não está horrendamente grafitada. Prédios abandonados, janelas quebradas, lixo nas calçadas, e olha que eu estava longe da Cracolândia. Mas a cidade está viva, cheia de gente, e dá sim para sentir um clima entusiasmado de vamo-que-vamo, o-trabalho-engrandece-o-homem e outras frases feitas do gênero. Mesmo assim, o centro é quase todo horroroso. Impressionante o descaso da cidade para com ela mesma: a partir do final dos anos 60, foi tudo descaracterizado, destruído, enfeiado, e olha que era a época do prefeito Faria Lima, o mais popular que SP já teve. Existem sinais positivos, claro. Mas é um processo que ainda está bem longe da glamurização por que passou o SoHo de Nova York ou mesmo a revitalização do centro histórico da Cidade do México. Nesse quesito, São Paulo mal passou do zero.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

DRAGS QUE NASCERAM OPERADAS

Esperava bastante de "Turnê", o filme com que o ator francês Mathieu Amalric faturou o prêmio de melhor diretor em Cannes. O trailer aí em cima me seduziu: um empresário mambembe organiza um giro pela França de um grupo de vedetes americanas de strip-tease, algumas já bem passadas do ponto. Mas são justamente estas as mais interessantes: mesmo gordas, ainda convencem como gostosas. Porque a primeira regra da gostosura é acreditar na própria. Amalric escalou dançarinas de verdade, que usam na tela os mesmos nomes artísticos que usam no palco: pérolas como Mimi Le Meaux, Dirty Martini ou Kitten o the Keys. Os números não têm os valores de produção de uma Ditta Von Teese, mas alguns são criativos e sensacionais - como o da mão decepada ou o da bexiga gigante (tem que ver para crer). Pena que o foco logo se desloque das garotas para o empresário, obviamente interpretado pelo próprio Amalric. O cara é uma coleção de lugares comuns: decadente, endividado, buscando recuperar o amor dos filhos, zzzzzz. E assim perdemos a chance de saber mais sobre essas mulheres fabulosas, ousadas como drag queens, para assistir outra vez a um dos clichês mais renitentes do cinema.

ARMANDO A TENDA

Todo final de ano é a mesma coisa: os eventos se acumulam e acabam se encavalando, deixando janeiro e fevereiro na pasmaceira. Não bastasse a Mostra, a Bienal, o festival MixBrasil e mais um monte de acontecimentos culturais, São Paulo ainda já vive uma abundância de festanças gays desde o final de setembro. A próxima parada é o Ultra Music Festival, a primeira edição brasileira de um dos maiores happenings de música eletrônica. O formato lembra o do falecido Skol Beats: diversas tendas dedicadas aos mais variados estilos. E o line-up é simplesmente dos sonhos, com peso-pesados como Fatboy Slim, Moby e Carl Cox. Mas atenção: não são shows propriamente ditos, mas DJ sets. A grande novidade são os camarotes, com mais conforto para o público, e a tenda da The Week: a megaboate paulistana trará seus DJs residentes, assim como três convidados internacionais (entre eles o americano Ralphi Rosario, da clássica "Cha-Cha Heels"). E ainda tem o camarote Vipado, com vista para o palco principal e a tenda da TW. Portadores dos cartões black e white pagam metade do preço no ingresso deste camarote, que também dá direito a circular por todas as tendas (mas não pelos outros camarotes, dããã). Então anota aí: dia 6 de novembro, a partir do meio-dia (haja animação!), na Chácara do Jockey. Mais informações no site do UMF. Eu vou estar lá, por que além de tudo vai tocar a DJ que eu mais adoro no mundo: Sister Bliss, da banda Faithless. Iupiii.

O ATOR MAIS FEIO DO MUNDO

Existem muitos atores bonitinhos que eu simplesmente não suporto, como Kevin Costner ou Bruno Gagliasso. Steve Buscemi é o exato oposto: é versátil e carismático, mas toda vez que o vejo sinto engulhos. E ultimamente tenho-o visto muito, na série "Boardwalk Empire" da HBO. É uma reconstrução minuciosa da Atlantic City da época da Lei Seca, e Buscemi faz o papel principal: um político corrupto que comanda uma rede de contrabando. Sua escalação foi posta em dúvida por muitos críticos, pois ele não transpira a testosterona que esse tipo de personagem costuma exigir. Mas seu Nocky Thompson não é um gângster comum. Comparado à truculência de um Tony Soprano, ele parece uma reles lagartixa - se bem que venenosa. O primeiro episódio do programa foi dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese, e a audiência nos EUA foi boa o suficiente para garantir uma segunda temporada. Por aqui já foram exibidos três episódios. Ainda não estou hipnotizado, mas, apesar da feiúra repulsiva de Steve Buscemi, vou continuar assistindo.

domingo, 24 de outubro de 2010

O AMIGO AMERICANO

O escritor americano Benjamin Moser virou figurinha fácil no Brasil depois de lançar o excelente "Clarice", a mais completa biografia de Clarice Lispector, e dar muita pinta pela Flip e arredores. O cara fala português perfeitamente e foi na nossa língua que ele escreveu um artigo interessante para a coluna "Tendências/Debates" da "Folha de São Paulo" de hoje (assinantes do UOL podem lê-lo aqui). Com a familiaridade de quem circula bem pelos dois países, Moser traça um paralelo entre a nociva direita religiosa nos Estados Unidos e sua súbita ascensão no Brasil - na garupa de duas candidaturas pretensamente de esquerda, um paradoxo absoluto. Ele torce para que os demagogos pseudo-cristãos não dominem o debate político por aqui como já o fazem por lá, e diz que é uma vergonha o Brasil estar atrás da Argentina e de Portugal na questão dos direitos igualitários. Concordo, mas vergonha ainda maior passarão Dilma e Serra, que mancharam suas biografias para sempre.

PEGADINHA INTELECTUAL

Os filmes do diretor iraniano Abbas Kiarostami nunca estão na lista dos que eu quero ver. Mas dessa vez fui obrigado a assistir porque, à primeira vista, "Cópia Fiel" é totalmente diferente do seu estilo habitual. Para começar o filme se passa na Toscana, bem longe do árido Irã, e é falado em inglês, francês e italiano, E é estrelado pela divina Juliette Binoche, que já havia feito uma participação em "Shereen", o penúltimo filme de Kiarostami. O trailer acima parece ser de uma coméida romântica, daquelas que habitualmente teriam Hugh Grant e Meg Ryan nos papéis principais. "Cópia Fiel" tem vários momentos de humor elegante, e o inglês William Shimell - um cantor de ópera que faz sua estreia no cinema - é de deixar babando qualquer apreciador dos cabelos grisalhos masculinos. Mas o filme tem uma reviravolta que revela suas raízes high brow. A paquerinha entre uma dona de uma loja de antiguidades e um intelectual inglês não é bem o que parece. Na verdade, a tal pegadinha funciona como um cavalo de pau, mudando bruscamente o rumo da história - e ralentando o ritmo das cenas até as raias do desinteresse. Pois é, Kiarostami saiu do Irã mas o Irã não saiu de dentro dele.

O HOMENZINHO DA CASA

Fiquei impressionadíssimo com "Abel", a estreia na direção do ator mexicano Diego Luna. O filme é uma porrada, daquelas que vêm não se sabe de onde e acertam em cheio o estômago. O protagonista é um garoto com algum tipo de autismo, que assume o papel de homem da casa depois que o pai desaparece. Preocupada em facilitar sua recuperação, a família embarca na onda dele, até que o verdadeiro progenitor resolve dar as caras. O trailer acima, feito para o mercado americano, dá a entender que se trata de uma comédia leve, e de fato o público riu diversas vezes durante a sessão. Isto só aumenta o impacto da história, que não tem um desenlace dos mais felizes e mesmo assim foi a maior bilheteria do ano no México. "Abel" já é um dos destaques desta Mostra. No te lo pierdas.

sábado, 23 de outubro de 2010

FAZENDO PIVÔ

Tanto filme poderoso bombando no 1o. dia da Mostra e eu deixei que meu amigo, o estilista Rodrigo Rosner, me arrastasse para ver "Tire Minha Foto". É uma autobiografia da ex-modelo Sara Ziff que parece ter sido gravada com um não-smartphone. A garota teve a ideia de se filmar desde que começou a carreira, aos 18 anos, e é até interessante ver como a excitação dos primeiros tempos vai se transformando em exaustão e lágrimas. Como todo jovem, Sara pensa que qualquer probleminha que lhe aconteça é a mais cruel injustiça de toda a história da humanidade. Simplesmente não consigo ter pena dessas meninas lindas que viajam pelo mundo, ganhando fama e toneladas de dinheiro. Duro mesmo é trabalhar numa mina no Chile ou numa sweatshop na Indonésia, vamos combinar? Claro que há depoimentos das colegas manecas que são estarrecedores: uma delas diz que um "fotógrafo muito conhecido" pôs o pau para fora durante uma sessão de fotos e pediu a ela que o agarrasse e torcesse com força (neste momento, a plateia de fashionistas solta um "TERRY RICHARDSON" em uníssono). "Tire Minha Foto" é pouco mais do que um especial da E! Entertainment Television e não traz nada que a gente já não soubesse. Mas Sara Ziff é inteligente e sincerinha: pelo menos ela tem assunto, coisa que a maioria das top models nem desconfia o que seja.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

NAS ENTRANHAS DO GORILA

Atenção, blogueiro gay que estiver em São Paulo amanhã à tarde: sua presença é requisitada no Gorila Café (rua Dr. Melo Alves, 74), entre 16 e 18 horas. Finalmente vai rolar nosso quarto encontro, mais de dois meses depois do terceiro. Nosso organizador André Fischer viajou muito, e nenhum vagabundo teve coragem de organizar nada na ausência dele. Mas agora vai rolar, e é claro que a eleição para presidente vai ser um dos temas em pauta. A nota triste é que eu talvez faça forfait: tenho que trabalhar, mas vou ver se me consigo me livrar até a hora marcada. Ah, e quem não foi nos anteriores pode aparecer tranquilo. Não cobramos carteirinha nem mensalidade. Mas cada um paga o seu, tá?

UMA AMOSTRA DA MOSTRA

Hoje começa para valer a 34a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e já tem neguinho me parando no meio da rua para saber minhas indicações. OK, não tem, mas antes que tenha: aqui vão elas. Vou tentar ver um filme nos dias de semana e talvez dois nos sábados e domingos. Mesmo com tempo livre, algumas coisas são longas demais. Quem tem 5 horas sobrando para ver "Carlos", a biografia do terrorista Carlos, o Chacal, dirigida pelo francês Olivier Assaya? Ou o esplendoroso "Mistérios de Lisboa", do chileno Raúl Ruiz? Por outro lado, muito do que me interessa vai entrar logo em cartaz, então o desespero não é tão gritante. Ah, mas e aquele prazer de ver algo sensacional antes que todo mundo? Minha lista de 2010 na verdade se parece com a de outros anos, porque mais uma vez mistura escolhas óbvias com esquisitas. Também é dominada por franceses. On y va?

Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas
- Não tive coragem de ver "Enfermidade Tropical", o filme anterior do tailandês Apichatong Weerasethakul (valha-me Deus). Mas este ganhou a Palma de Ouro em Cannes, então é obrigatório. Dizem que é um delírio desenfreado, e que ou se ama, ou se odeia. Ai ai ai...

Homens e Deuses - Escolhido pela França para respresentá-la no Oscar de filme estrangeiro e estrelado por um dos meus noivos secretos, o Lambert Wilson. Vou correndo, mesmo sabendo que vou sofrer: é a história verídica de sete monges que foram assassinados na Argélia.

Cópia Fiel - Só mesmo a Juliette Binoche para me fazer encarar um filme do iraniano Abbas Kiarostami.

Abel - Estreia do ator mexicano Diego Luna na direção. Gosto dele, gosto do México e as críticas são boas. Bora.

O Louco Amor de Yves Saint-Laurent - Falei desse documentário há quase 2 meses. Que bom que agora vou vê-lo.

A Última Estação - Os últimos dias do escritor russo Leon Tolstói. A soberba Helen Mirren faz sua mulher e foi indicada ao Oscar pelo papel.

VIPs - O próximo mega-sucesso de Wagner Moura, que só estreia no ano que vem. A história real do malandro que se passava por herdeiro da Gol para entrar de graça nas baladas. Venceu o Festival do Rio.

Vênus Negra - Adorei "O Segredo do Grão", o filme anterior do franco-argelino Abdelatif Kéchiche. Este novo passou em Veneza e trata de uma dançarina negra na Paris do século 19.

Potiche - Comédia de François Ozon, com Catherine Deneuve e Gérard Depardieu. Como é bom estar vivo.

Lope - O brasileiro Andrucha Waddington quase emplacou o candidato ao Oscar da Espanha. A vida do escritor Lope de la Vega, do século 16, ganhou um tratamento suntuoso. O elenco de estrelas espanholas ainda conta com Selton Mello e Sonia Braga. Estreia em novembro.

Este também é o caso de dois americanos que eu estou louco para ver, "Em Algum Lugar" da Sofia Coppola e "Minhas Mães e Meu Pai", com Julianne Moore e Annette Benning fazendo um casal de sapatas. Mas os distribuidores nacionais adoram adiar as estreias prometidas, então fica a dúvida: corro agora ou espero mais um pouco? Às vezes acho que o Leon Cakoff criou a Mostra só para me torturar.

LIGAÇÕES ABAFADAS

Por uma dessas coincidências cósmicas, um dia depois de ter postado uma cena de "Ligações Perigosas" aqui no blog, fui convidado para a pré-estreia da peça em que o filme foi baseado. Não vi a 1a. montagem brasileira, nos anos 80, com Marieta Severo no papel da Marquesa de Merteuil. Mas até que tenho bastante familiaridade com o texto, porque o filme com Glenn Close e John Malkovich é daqueles que eu vou levar para a ilha deserta. O dramaturgo Christopher Hampton desenrolou o romance epistolar de Choderlos de Laclos e criou um clássico do teatro moderno: uma teia de sedução e corrupção onde absolutamente todo mundo se dá mal. A montagem em cartaz em São Paulo é luxuosa, com cenários e figurinos que enchem os olhos. O ritmo é ágil e as 2 horas sem intervalo passam rápido, mas o elenco é bastante desigual. Maria Fernanda Cândido não tem idade nem personalidade para fazer a maquiavélica marquesa. Pior: não tem emissão de voz, talvez por não estar acostumada a fazer teatro. O resultado é que em suas cenas todos os atores acabam falando muito baixo, e olha que a sala da FAAP não é muito grande. Marat Descartes se sai bem melhor como o Visconde de Valmont, apesar de imprimir um tom farsesco que acaba prejudicando os momentos mais dramáticos: o público ri quando ele declara seu amor sincero à Madame de Tourvel, como se fosse mais uma de suas potocas. Pena que minha querida amiga Chris Couto tenha pouco tempo em cena: ela, sim, está no ponto para fazer uma Merteuil verdadeiramente diabólica. Quem sabe se a Maria Fernanda sofrer um acidente... mwahahaha.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O FACEBOOK DOS ADÚLTEROS

Yonny Barrios, o mineiro chileno que foi recebido pela amante, foi convidado para ser o garoto-propaganda da Ashley Madison, uma rede social para quem está a fim de pular a cerca. Detalhe: ele teria que permanecer casado com a esposa oficial, caso contrário não estaria pecando o suficiente. A verdade é que este site vende fantasias, a começar pelo nome sugestivo ("Ashley" e "Madison" são dois dos nomes de bebês mais populares nos Estados Unidos). Já teve comerciais recusados pelas emissoras de TV, às quais chamou de hipócritas - afinal, a publicidade de álcool é liberada, e muito mais gente morre de cirrose do que de tiro de marido traído. De qualquer forma, 70% dos usuários são homens héteros, portanto duvido que role muita coisa na real. Neste ponto os gays têm suas escapulidas muito mais facilitadas, graças ao Manhunt e similares. Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo, nós somos professores.

AULA DE CARÃO

Engraçado como o carão saiu de moda. Antigamente se reclamava muito do excesso de carão nas boates; os turistas gringos se assustavam com a distância gélida imposta pelos brasileiros, mais preocupados em strike a pose do que em fazer amigos. Mas hoje todo mundo é facinho e já sai beijando na primeira olhada com mais de 3 segundos. E assim se foi perdendo a arte do carão, tão milenar e refinada quanto o teatro nô. Por isto, adorei a abertura de "As Cariocas", a nova série dirigida por Daniel Filho que estreou na Globo terça passada. Essas atrizes todas zanzando meio a esmo mas esbanjando força na peruca é uma aula de applomb, de allure, de savoir faire, todos sinônimos pernósticos do bom e velho carão. Aprendam como se faz, crianças.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ESQUECÍVEL

Hoje tirei folga. A agência onde eu trabalho agora deixa os funcionários faltarem no dia de seus aniversários, talvez para não ter mais que dar a garrafinha térmica que era o presentinho oficial até o ano passado (ganhei umas três). Acordei tarde, fui almoçar no Entrecôte d'Olivier com a família (adorei) e à tarde, claro, fui ao cinema. Já tinha visto quase tudo que está em cartaz e a Mostra de SP só começa amanhã, então sobrou "Como Esquecer", o tal do filme lésbico da Ana Paula Arosio. É simplesmente uma das piores joças de todos os tempos. Vá lá, o assunto não é dos mais fáceis: a difícil recuperação de uma mulher que levou um pé na bunda. Ana Paula é boa para este tipo de papel e sua beleza avassaladora funciona ainda melhor na tela grande. Mas o roteiro, assinado por nada menos que 5 não-roteiristas, é um desastre do começo ao fim. Tem situações forçadas, personagens mal construídos e diálogos que até seriam engraçados se não fossem tão pedantes. Quem, em sã consciência, diz coisas como "acredito no amor e nas artes plásticas" ou "eu sinto pulsões"? E ainda tem a fraude do Murilo Rosa fazendo um gay discreto que ensaia um teste para uma novela. Um mau ator fazendo outro! Não entendo o sucesso desse cara, porque além de tudo o acho feio (sim, sei que muita gente vai discordar de mim). A única cena que presta é um nu frontal rapidíssimo do meu novo ídolo, o maravilhoso Pierre Baitelli. De resto, quero esquecer logo como desperdicei a tarde do meu aniversário.

O QUE EU ACHO DE FAZER 50 ANOS?

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O GAROTO-PRINCESA

Nada é mais embaraçoso para um pai ou uma mãe do que um filho afeminado. O preconceito é tão arraigado que acho que eu mesmo teria vergonha de um filho assim. Toda vez que ele desemunhecasse em público eu correria para escondê-lo, sob a desculpa de estar protegendo-o. Por isto é mais do que admirável - chega a ser espantoso - o caso destes pais de Seattle, nos EUA. Eles não só apoiam totalmente o filho caçula, que gosta de brincar com roupas de menina, como a mãe escreveu um livro infantil chamado "My Princess Boy". No vídeo acima a família aparece num talk show local, junto com a igualmente incrível diretora da escola das crianças. Cheguei a pensar que eles estariam expondo demais o garoto, pois o mundo lá fora não deixou de ser cruel. Mas não consegui conter as lágrimas: quem não gostaria de ter pais como esses?

(Já tinha lido sobre o caso no blog Towleroad, mas o vídeo me foi enviado pelo fofo do Celso Dossi)

ARTIGOS DEFINIDOS

Hoje o Gilberto Scofield assina um artigo na coluna de opinião d'"O Globo" defendendo o casamento gay e contando um pouco de sua experiência pessoal. Gilberto é uma voz lúcida e incisiva, e é ótimo que um jornal como este tenha em seus quadros um jornalista tão assumido e combativo. Outros órgãos da grande imprensa, que têm as redações coalhadas de bibas, bem que poderiam seguir o exemplo e abrir cada vez mais espaço para a grande batalha por direitos civis do nosso tempo.

Outro que também não se cansa de defender o casamento igualitário é o estilista Carlos Tufvesson, que deu uma entrevista para Heloisa Tolipan publicada no "Jornal do Brasil" de domingo passado (aliás, o "JB" ainda não resolveu sua diagramação nesta sua fase virtual e insiste em se parecer com o que era quando impresso). É isso aí, rapazes: vamos definir esse jogo com argumentos claros, racionais e inatacáveis. Já os dos nossos adversários...

(Clique nas imagens para ler os artigos, ou então nas palavras em roxo do texto.)

WHAT WOULD ANASTASIA BEAVERHAUSEN DO?

As três coisas irritantes que vendedores de loja dizem, e as respostas adequadas:

- Oi, meu nome é Tati. Qual é o seu?

- Riquinho Rico. Mas se você me chamar pelo nome, compro essa loja e taco fogo com você dentro.

- Tem esse aqui em azul?
- Tem, e também tem em verde, amarelo, vermelho, lilás, berinjela, chartreuse, ocre, transparente e furta-cor.
- Vou repetir pausadamente. Teeem... eeesse... aquiii... em azuuul?

- 45 não tem, mas tem esse aqui, ó, que é 43.

- Tudo bem. Quero tanto esse sapato que vou cortar alguns dedos. Me traz um serrote?


Ah, que saudades de Karen Walker, a/k/a Anastasia Beaverhausen. Ela, sim, sabia como tratar a criadagem.

- Por favor, eu quero uma salada de espinafre com molho de mostarda e mel.

- Eu não trabalho aqui.
- E daí?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

LA MONTAÑA DE LA ESPALDA ROTA

Vou resistir à tentação dos trocadilhos óbvios e dizer apenas que o Peru está numa boa fase. Sua economia vai de vento em popa, seu maior escritor acaba de ganhar o Nobel, sua culinária fenomenal está conquistando o mundo e ainda emplacou o ótimo "A Teta Assustada" entre os indicados ao último Oscar de filme estrangeiro. Periga emplacar de novo no ano que vem: o candidato peruano é "Contracorriente", que ganhou o prêmio do público em Sundance. Pelo trailer, parece uma versão hispânica de "Brokeback Mountain". Um pescador casado, cuja mulher está grávida, se envolve com um pintor da cidade grande. Mas depois a história toma um rumo sobrenatural, o que pega muito bem nessa onda atual de filmes espíritas. "Contracorriente" está cotado para a abertura do Festival MixBrasil em novembro. Tomara que venha mesmo, pois sempre sinto a falta do Peru entre os filmes selecionados (desculpe, chega uma hora em que não dá mais para resistir).

(gracias, Jorge Calvimontes, pela dica preciosa)

A ROMÊNIA É O NOVO IRÃ

Filme iraniano não me pega mais. Sim, vi um ou dois de que realmente gostei, mas geralmente eles são o equivalente cinematográfico a um tratamento de canal. Agora vou ter que incluir a Romênia na lista negra. Os filmes de lá estão na moda e vêm ganhando prêmios em tudo que é festival. Ano passado até achei “Casamento Silencioso” bem bom, mas todos os outros que eu vi são chatérrimos. “Contos da Era Dourada” confirma a regra. É um filme em episódios escrito e produzido por Cristian Mungiu, que também dirigiu um deles (e a Palma de Ouro de Cannes de 2007, “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, uma tortura atroz). O cartaz diz que se trata de uma comedia e algumas das situações realmente poderiam render alguns risos, mas o ritmo é tão lento que é difícil não cair no sono. A tal da “era dourada” são os últimos anos da ditadura Ceausescu, com uma burocracia kafkiana e uma carestia desenfreada muito mal disfarçada pela propaganda oficial. "Contos” dá até a sensação de que o regime era trapalhão, mas relativamente benigno. Não era: Ceausescu foi um déspota megalomaníaco que matou muita gente e teve o fim que mereceu. Também foi o único líder da Europa Oriental que morreu fuzilado, no rastro das “revoluções de veludo” de 1989. Taí - essa era uma história do passado recente da Romênia que eu gostaria de ver no cinema.

domingo, 17 de outubro de 2010

DON'T FUCK WITH MY HUSBAND

O Celso Dossi já postou, a Lindinalva também, mas não tô nem aí de não ser o primeiro: quanto mais gente mostrar esse vídeo, melhor. É uma reação bem-humorada e agress, ops, assertiva, aos filhos da puta que estão por trás da Proposition 8, que vetou o casamento gay na Califórnia. Fora que é sempre bom ver criança falando "fuck you". E eu tive uma ideia: ganhei uma câmera Flip Video, vamos fazer uma versão nacional dessa campanha? Quem topa?

SE OS HOMENS ENGRAVIDASSEM

“Se os homens engravidassem, o aborto seria um sacramento”. Esta frase sensacional é da feminista afro-americana Florynce Kennedy (1916-2000) e resume com elegância tudo o que eu penso sobre este tema tão polêmico. Católicos e evangélicos não condenam o aborto porque sejam “a favor da vida”. Condenam porque todas as religiões abrâmicas (cristianismo, judaísmo e islamismo) são na verdade instrumentos de coerção da ditadura machista que vigora na maior parte do mundo. Prontofaleipontocompontobêérre.

Os homens não querem criar filhos que não sejam seus. Claro que existem milhares de casos felizes de padrastos por aí, mas isto é um dado cultural. O egoísmo masculino é uma verdade biológica. Afinal, “para quê gastar tempo e esforço com uma criatura que não carrega meus genes”? Mas o homem só pode ter certeza que aquele filho é mesmo dele se controlar a mulher. Se proibi-la de ter sexo antes do casamento, por exemplo. Se impedi-la de alcancar o prazer sexual, nem que seja preciso mutilá-la. E se deixar claro que, se ela pular a cerca, as conseqüências do seu ato serão unica e exclusivamente dela. Por isto o aborto é proibido. Fulana trepou, gozou, se divertiu? Agora foda-se, no mau sentido. Aliás, não é por outra razão que “fodido” é sinônimo de alguém que se deu muito mal.

O mundo mudou, as mulheres saíram de casa, conquistaram muita coisa. Ainda não conquistaram completamente o direito sobre o próprio corpo. Esta luta também é dos homossexuais, porque somos o dano colateral da opressão do homem sobre a mulher. Somos agentes infiltrados, os traidores da grande causa masculina, os que se recusam a apontar a arma fálica na direção da mulherada. Por isto somos tão perseguidos. Quando nos juntarmos todos, mulheres e homens gays, a ditadura machista terá os dias contados. Somos maioria. Mas ainda não nos demos conta da nossa própria força.

sábado, 16 de outubro de 2010

CARTAS MARCADAS

Pronto, saiu a tão esperada "Mensagem da Dilma" - atóron o "da" e a falsa initmidade forçada pelos marqueteiros, mas isto é outro assunto. O que eu quero comentar é que, apesar de citar o Evangelho, a candidata do PT saiu-se razoavelmente bem. "Nenhuma iniciativa que afronte a família" é uma frase dúbia o suficiente para aplacar todos os lados, pois cada um a entende de maneira diferente. Poderia até dizer que Dilma Rousseff tucanou, pois subiu em cima do muro e acabou não se comprometendo com rigorosamente ninguém. Aliás, dizer que não vai enviar ao Congresso nenhuma iniciativa relativa ao aborto e outras questões é dizer que fará o mesmo que Lula, FHC e, até onde lembro, o mesmo que todos os outros presidentes: rigorosamente nada. Digo e repito que o bom dessa meleca toda é que os gays também foram forçados a se pronunciar. Já saiu uma carta assinada pela AGLBT, condenando a carolice extemporã dos cristãos-novos Dilma e Serra. Só nos manifestando como força política é que teremos nossos direitos reconhecidos. No mais, essa briga está apenas começando.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

DESALENTO

O Gilberto Scofield, jornalista de "O Globo" que também faz parte do grupo de blogueiros gays, assina hoje uma matéria no jornal falando do desânimo generalizado que se abateu sobre as bibas com os rumos da campanha eleitoral. Ele colheu depoimentos de gente como Toni Reis, André Fischer, Carlos Tufvesson e, na versão integral disponível apenas online, do senhor que vos fala. Mesmo sem vontade de votar em nenhum dos dois candidatos, ainda acho que foi bom o casamento gay ter virado tema de discussão. E para os que dizem que o Brasil regrediu para o ponto onde os EUA estavam em 2004, quando Bush manipulou o preconceito dos conservadores para vencer as eleições, eu respondo: pelo menos saímos do século 19.

TONIGHT WE'RE GONNA PARTY LIKE IT'S 1982



Não vejo a hora de cravar as garras em "Record Collection", o novo disco do Mark Ronson. Como em sua estreia em 2007, "Versions", o DJ e produtor de Amy Winehouse chamou um monte de famosos para os vocais. O 1o. single, "Somebody to Love Me", traz ninguém menos que Boy George e Andrew Wyatt, do trio Miike Snow. E ainda ganhou um clip com cara de vídeo caseiro gravado em 82, no auge do Culture Club. Já é uma das boas músicas do ano.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ELECTRIC CARS ARE GAY

Dizer que alguém ou alguma coisa é gay é uma das ofensas mais comuns nos Estados Unidos. Até bebês de colo usam. Mas atualmente o país vive a ressaca moral de 5 suicídios por causa de bullying homofóbico, e o que antes era molecagem agora virou pecado. Foi nesse clima politicamente correto que os produtores do filme "The Dilemma" fizeram a burrada de soltar um trailer que começava com uma piada aparentemente inocente: "electric cars are gay". A gritaria foi grande e o trailer teve que ser reeditado, mas agora as ONGs gays querem que a fala seja até mesmo excluída do filme. Exagero? O ator Vince Vaughn acha que sim e disse que a censura é a pior coisa do mundo, mas eu discordo. Esse tipo de humor contribui, sim, para que os homossexuais vivam num ambiente hostil. Agora, muito me espanta que ninguém tenha se escandalizado com a outra metade da piada: o que pode haver de mau num carro elétrico? Estaria Hollywood a soldo da indústria do petróleo?

CASINHA PEQUENINA

Tá vendo esse prédio aí ao lado? É a residência de uma família de 6 pessoas. Fica em Mumbai, na Índia, custou a bagatela de um bilhão de dólares e tem 27 andares, 3 helipontos, um cinema com 50 lugares, uma academia, uma escola de dança, um salão de baile, "pelo menos" uma piscina (pode haver mais), 168 vagas na garagem e 600 empregados. O zilionário Mukesh Ambani, sua mulher, seus 3 filhos e sua mãe devem se mudar em alguns dias para a torre Antilia, que levou 7 anos para ser construída e é maior que o palácio de Versailles em área construída. Eu que não quero estar por perto quando estourar a revolução.

A NOVIÇA OBEDIENTE

A política é uma merda. É uma das atividades mais baixas a que pode se dedicar um ser humano. Abandonam-se ideias, valores e a própria história de vida, tudo em nome do poder. Que o diga Dilma Rousseff, noviça em eleições, ex-rebelde com causa, hoje submissa ao que há de pior no Brasil. Não bastassem as alianças espúrias com Collor, Sarney, Calheiros e muitos, muitos outros, ela agora ameaça vender a alma ao diabo - ou seja, aos evangélicos. Ontem, num encontro com 51 lideranças religiosas em Brasília, Dilma foi pressionada a assinar uma tal de "carta aberta ao povo de Deus", onde se posicionaria contra o aborto, o casamento homossexual, a adoção de crianças por gays e a descriminalização das drogas. Lula, também presente, saiu de fininho. Verdade seja dita: o presidente já defendeu com todas as letras os direitos igualitários, apesar de seu governo não ter avançado quase nada no assunto. A candidata do PT disse que vai pensar com carinho. Rezo a todos os deuses pagãos que ela esteja só tergiversando, ganhando tempo, enrolando essa cambada. Já disse que num eventual governo jamais proporia nem sancionaria nehuma lei que... limitasse a liberdade de culto, hehehe. Os evangélicos adoram se dizer ameaçados, coitadinhos. Mas Dilma precisava ir além. Deixar claro que "casamento" não é uma palavra necessariamente religiosa, porque existe o casamento civil - ou então, que esta instituição passe a se chamar união civil, já que casamento estaria reservado para os templos e igrejas. Estou enojado com essa aproximação entre o PT e os pastores, mas não deveria estar surpreso. Sempre soube que a política é uma merda.

Aliás, que o diga também José Serra. O candidato do PSDB tem defendido o fim da PL122 e do PNDH3. Também é óbvio que partiram dos tucanos os e-mails que apavoraram os fiéis. Nã chega a ser difamação - afinal, o PT sempre defendeu o aborto e os gays - mas é um telhado de vidro jogando pedra nos outros. Serra também sempre militou na esquerda e me dá um embrulho no estômago vê-lo usar agora a carta negra do preconceito neste jogo. O cara não é nenhum santo, nunca foi, mas ao apelar para a religião está dando um gigantesco passo atrás, e talvez obrigando o resto do país a fazê-lo também - qualquer que seja o resultado da eleição. Que ironia: em pleno século 21, a candidata mais ética foi justamente a mais religiosa, a que sempre se declarou contra o aborto ou o casamento gay. E ela acabou contaminando seus rivais não com sua postura limpa, mas com seus ideais retrógrados, arcaicos, indignos do mundo moderno. Pobre Brasil, pobres de nós.

Essa sujeira toda tem um lado positivo. Trouxe para a luz do dia a discussão sobre o aborto e o casamento gay, dois temas que a sociedade brasileira sempre varreu para baixo do tapete. Pela primeira vez, eles entraram na pauta da campanha presidencial. Claro que entraram da pior maneira possível e estão sendo usados como ponto de discórdia, assim como George W. Bush cansou de fazer nos Estados Unidos. Mas, como dizem os próprios americanos, now the cat is out of the bag. Agora cabe a nós reagir à violência, tanto verbal como física, e mais do que nunca nos expormos e exigirmos nossos direitos. Pagamos os mesmos impostos que todo mundo, não somos inferiores em nada. Quem ignorar este fato singelo pode até chegar ao poder, mas também vai ficar mal nos livros de História. Tem que ficar mal também no aqui e agora: enquanto isto não acontecer, continuaremos fodidos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

CHI-CHI-CHI-LE-LE-LE

Meus olhos se enchem de lágrimas toda vez que vejo na TV mais um mineiro chileno sendo resgatado. É uma overdose de final feliz, coisa rara nos dias de hoje. Achei que eles sairiam imundos e abatidos, mas alguns estão até rosadinhos. Sem falar daquele que não conteve a empolgação e regeu a plateia numa ola, ao som de um grito de guerra tão sinceramente patriótico que dá até vontade de pedir dupla nacionalidade. Aliás, tem neguinho no Twitter que não entendeu até agora o que este brado quer dizer. Melhor que isto, só minha empregada: ela me perguntou como tanta gente de Minas Gerais foi cair num buraco no Atacama.

EX-GAY É NORMAL?

Olha só o que saiu hoje na coluna "Outra Canal" da "Folha de São Paulo": "Imagine um homossexual assumido que, um dia após um acidente, acorda e descobre que não é mais gay. Esse é o enredo da nova série de Alexandre Machado e Fernanda Young, os pais de "Os Normais", na Globo. A produção, ainda sem nome definido e mantida em sigilo na emissora, traz como protagonista um gay bem-sucedido que uma noite, em uma boate, dançando "Macho Man", é atingido na cabeça pelo globo espelhado que despencou do teto. Ao sair do hospital, o personagem descobre que virou hétero, e vê sua vida virar uma enorme confusão." Fiquei meio assim quando li essa notícia. Trabalhei com o Alexandre numa agência carioca entre 93 e 94, e sei que de homofóbico ele não tem nada. Até saímos certa vez num grupo enorme, ele ainda namorando a Fernanda, para ver a famosa "Noite dos Leopardos". Lá do fundo da plateia o Alexandre gritava, autorizado por seus quase 2 metros de altura: "Paaaau! Quero ver mais paaau!". Ou seja, simpatizante com S maiúsculo. Agora, fazer uma série sobre um cara que bate a cabeça e deixa de ser gay? Oi? E justo num globo de espelhos? Dançando "Macho Man"?? Não vou a uma boate onde toque essa música desde 1979... São tantos clichês acumulados que nem parece ideia de um casal que tem trocentos amigos bibas. O que mostra que mesmo os héteros mais abertos não fazem a menor ideia do que seja a vida de seus coleguinhas homo. Por outro lado, será que não é preconceito da minha parte? Pois eu certamente acharia a maior graça numa sitcom sobre um pitboy que levasse uma chave inglesa na cabeça e saísse desmunhecando por aí.

ISLAM IN RIO

O Dia das Cranças carioca estava com céu azul e nenhuma nuvem, mas quem quer saber de praia quando a exposição “Islã” está inaugurando no Centro Cultural Banco do Brasil? Chegando lá, um susto enorme: filas imensas no saguão de entrada. Mas não, o povo só queria saber de pipoca e algodão doce que estavam sendo distribuídas de graça. Um pouco adiante encontro com o Daniel Cassús, que eu não via há alguns meses e com quem tinha combinado percorrer a mostra, que estava cheia mas não intransitável. Tanto assunto acumulado que eu mal prestei atenção na primeira sala. A pergunta de um milhão de dólares: quando volta o seu blog? “Em meados de novembro, depois das minhas férias, com novo layout e novo endereço”. Mais sossegado, pude me concentrar nos tesouros expostos. “Islã” está realmente sensacional, com painéis e mapas super claros e didáticos. E peças tão preciosas e delicadas que até espanta terem sobrevivido à viagem para o Brasil. Cerâmicas, jóias, armas, roupas, tapetes, em quantidade e qualidade jamais vistas por aqui. E toda uma seção dedicada à caligrafia árabe, com os diversos estilos e até um glossário de pronúncia das letras, além da visita virtual a várias mesquitas. “Islã” fica no Rio até o Natal e em 2011 passa por São Paulo e Brasília. Só faltou uma demonstração de dança do ventre.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A MAIOR BILHETERIA DO BRASIL

Tive a ideia para um filme que vai arrastar multidões para os cinemas, porque junta tudo o que o público brasileiro gosta de ver na tela: traficantes, policiais, favelas, tiroteios e seres iluminados vindos de uma outra dimensão. "Tropa de Espíritos" conta a história do coronel Nascimento, aqui rebatizado com o nome espiritualmente correto de Reencarnação. Ele e seu pupilo, o cabo André Luiz, lutam contra o crime organizado no Rio de Janeiro, até que o segundo cai numa emboscada e é despachado de volta para Nosso Lar. Mas nem por isto ele está fora de combate: lá do além, André Luiz continua a enviar bombas, pistolas e mensagens de esperança para o coronel Reencarnação continuar a batalha. Muitos bandidos são mortos por armas psicografadas, e logo começa uma guerra pelo controle das bocas de fumo do Umbral. O espírito Emmanuel resolve intervir, mas chega bem na hora em que a comunidade de meliantes desencarnados promove um baile funk.

- Perdeu, mané! Nóis vai usar essa sua túnica branca pra fazer papelote.

- Calma, irmãos. Quando vocês estiverem preparados, tudo será explic...


BLAM!

Irritado por ouvir esta resposta pela 17a. vez, o perigoso Zé Pilintra arrebenta Emmanuel com um tiro de três-oitão bem no meio da auréola.

Te cuida, Barretão. "Tropa de Espíritos" vai ser um arraso.

O 2o. FILME E O 2o. TURNO

Não fiz parte do primeiro milhão e meio de espectadores de "Tropa de Elite 2". Só fui ver o filme ontem, quarto dia de exibição, quando ele já havia se tornado um fenômeno de bilheteria. Precisei comprar os ingressos cedo, pela internet, e mesmo assim só consegui lugares lááá na frente. Valeu a pena? Sim, "Tropa 2" é uma porrada. Não sofri o mesmo o impacto que o primeiro me causou, mas o ritmo vertiginoso, o roteiro bem amarrado e o elenco primoroso fazem dele o melhor filme brasileiro do ano - e de longe. Novamente há um certo excesso de locução em off, mas o diretor José Padilha criou mais um marco do cinema nacional. Como tem acontecido por aí, a plateia da minha sessão aplaudiu no final. O que suscitou uma discussão interessante entre Oscar e eu: será que esta 2a. parte vai influenciar o 2o. turno? Meu marido acha que sim, afinal o filme tem muito de denúncia política. É impossível não lembrar do ex-governador Garotinho e seu secretário de segurança, Álvaro Lins, que depois descobriu-se ser uma espécie de capo di tutti capi e hoje vê o sol nascer quadrado. Só que Garotinho foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro, então neste caso o filme estreou tarde demais. Agora, poderá favorecer Serra? Sei não. O público de classe média que tem lotado as salas é o mesmo que não foi ver "Lula, o Filho do Brasil", e provavelmente já estava decidido a votar contra o governo. De qualquer maneira, o capitão - ou melhor, coronel - Nascimento consolida-se como o grande paladino da justiça do país. Cheio de defeitos, mas buscando superar-se: nada mau para um modelo a ser seguido.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

COMO SÃO FEITOS "OS SIMPSONS"

Ontem o episódio dos "Simpsons" exibido nos EUA teve mais uma abertura alternativa, desta vez roteirizada pelo grafiteiro inglês Banksy. O cara faz "guerrilla art" e adora uma polêmica. Sua visão de Springfield equivale a uma visita a uma fábrica de salsichas: melhor não saber como elas são feitas.

ENFANT PRODIGE

E então, já foi ver "Eu Matei Minha Mãe"? O filme de estreia do canadense Xavier Dolan é um soco no estômago e está em cartaz em São Paulo. Trata da difícil relação entre um adolescente gay e sua mãe, mas ninguém precisa ser viado para se identificar - mereceu até um artigo do Contardo Calligaris na "Folha de São Paulo" onde a homossexualidade do protagonista sequer é mencionada. Vi o filme há um ano, no Festival do Rio, e agora aproveitei a repescagem do mesmo festival para ver o novo do rapaz, "Amores Imaginários". É sobre outro assunto frequente na vida dos jovens adultos: a paixão avassaladora e raramente correspondida por alguém que nos parece a encarnação de todos os nossos sonhos. Passei por isto nos tempos de faculdade. Perdi a cabeça por um rapaz de outra classe, no primeiro amor gay da minha vida, e fui sumariamente rechaçado ("eu não sou gay", disse ele - era sim, só não sabia ainda que era). No filme o personagem de Xavier e sua melhor amiga se apaixonam por uma versão em carne e osso do Davi de Michelangelo, ou um Fiuk alourado. O belo se deixa ser amado, provocando e rejeitando a dupla em doses homeopáticas. "Amores..." tem algo de pretensioso, com montagem moderninha e trilha vintage. Mas capta muito bem o sentimento de auto-importância desta fase da vida, quando achamos que nossos probleminhas são dramas épicos. O garoto-prodígio Xavier Dolan assina o roteiro, a direção, a montagem, os figurinos, a direção de arte e ainda é o ator principal. Ah, claro, e é também um tesãozinho. Com apenas 21 anos, o cara já lançou dois bons longas e está indo para o terceiro. Perto dele, meus talentos nunca saíram da adolescência.

domingo, 10 de outubro de 2010

QUANDO DOIS SÃO MENOS QUE UM

"Hedwig and the Angry Inch" é um clássico moderno do teatro Off-Broadway. Mais um show do que propriamente uma peça, onde a transexual alemã Hedwig conta e canta suas inacreditáveis aventuras: nascida homem em Berlim Oriental, ela se envolve com um soldado negro americano que a obriga a mudar de sexo. A operação é mal sucedida e deixa um rabicho onde não deveria haver mais nada - o tal do "centímetro enfurecido" do título brasileiro. Mais tarde Hedwig se envolve com um cantor que rouba todas suas músicas, mas nada a faz desanimar. O espetáculo fez um sucesso enorme, foi remontado em dezenas de países, virou filme e só agora, mais de 10 anos depois, chega ao Brasil (está em cartaz no Rio). E chega mal, infelizmente. O diretor Evandro Mesquita fez uma leitura errada do texto, talvez por ser hétero. E chamou dois atores para o papel-título, uma decisão totalmente injustificada. Hedwig carrega a dualidade dentro de si: é homem e mulher ao mesmo tempo. Também é uma figura solitária, em busca de sua outra metade. Dividi-la em duas drags distintas, cuja única diferença aparente é a cor da peruca, não faz o menor sentido. Parece que se queria dar trabalho ao maior número possível de atores. Pelo menos Paulinho Vilhena está surpeendentemente bem, com um corpo fenomenal e tirando sarro de sua incipiente careca. Não canta grande coisa, no que é facilmente superado pelo incrível Pierre Baitelli, revelado em "O Despertar da Primavera". Obrigar os dois a dividir o mesmo papel é uma puta falta de sacanagem: ambos mereciam brilhar sozinhos. Ou então que se deixasse Hedwig para Baitelli, que de fato está melhor, e Paulinho faria os diversos papéis secundários que vão pipocando ao longo do espetáculo. Este erro histórico compromete o resultado, apesar da produção competente. Outro defeito, menos grave, são as traduções canhestras e as versões de letras que não cabem direito nas músicas É uma pena: de certa forma, "Hedwig e o Centímetro Furioso" continua inédita no Brasil.

sábado, 9 de outubro de 2010

CARCARÁ ARGENTINO

"Carancho", o filme que irá representar a Argentina no Oscar, estreia no Brasil em novembro com o nome de "Abutres". É uma tradução quase fiel: cheguei a pensar que "carancho" era como nossos vizinhos chamam o bom e velho urubu, mas o Google Images me revelou que se trata do bom e velho carcará. A história em si não tem nada de ornitológica. Fala dos advogados vigaristas que ficam pairando ao redor dos hospitais em busca de vítimas de acidentes automobilísticos. Convencem os coitados a processar os supostos culpados ou a fraudar as próprias seguradoras, e ficam com a maior parte das indenizações. É um universo sórdido e violento, que faz de "Carancho" um filme árduo de se assistir. O diretor Pablo Trapero insiste em tremer a câmera e a enquadrar os atores em closes extremos, bastatnte desconfortáveis. O protagonista é o onipresente Ricardo Darín, que mais uma vez recorre à sua especialidade: o tipo dúbio, meio inescrupuloso, meio coração de manteiga. Martina Gusman, a mulher de Trapero, faz uma médica que se horroriza mas aos poucos cede aos encantos desse parasita da rodovia. "Carancho" fez muito sucesso nos cinemas argentinos e tem cenas fortíssimas, mas também longos períodos em que não acontece muita coisa e um final óbvio e insatisfatório. Assim como nós, acredito que nossos hermanos também ficarão de fora das próximas indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

SESQUICENTENÁRIO

Depois de mais de 3 anos de blog, atualmente acho meio “meu-umbigo-é-o-centro-do-universo” ficar falando do meu próprio aniversário, ou o do meu marido, ou o do cachorro… Mas hoje faço 20 anos de casado e acho esse número forte demais. Pois é, bebé: VINTE anos, quase um sesquicentenário em gay years. Nem sei mais o que dizer. Os posts de 2007, 2008 e 2009 contam um pouco da nossa história. Posso me gabar de jamais ter tido uma briga séria com o Oscar, nem uma ameaça de separação. Claro que tivemos e temos as nossas rusgas, o tempo todo. Meu marido tem a capacidade de me exasperar como nenhuma outra pessoa da face da Terra. E ainda assim não concebo minha vida sem ele. Enfim, tive a sorte de casar com o cara que se tornou meu melhor amigo (o que não quer dizer que o sexo esfriou, hehehe). Desejo o mesmo para todo mundo.